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Arquivo do mês: outubro 2010

Rondônia faz seminário focando filosofia e sociologia no Ensino Médio

Seduc realiza seminário focando filosofia e sociologia no Ensino Médio

De 29 de setembro a 1º de outubro acontece no Rondon Palace Hotel, em Porto Velho, o I Seminário Estadual de Filosofia e Sociologia do Ensino Médio “Pensar e Agir na Educação”. A realização do evento estará a cargo da Gerência de Educação/Programa de Desenvolvimento do Ensino Médio GE/Pdem/Seduc.

O público alvo é formado por 300 profissionais da educação, entre professores, coordenadores pedagógicos das Representações de Ensino (REN’s) e técnicos da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), de Porto Velho.

O seminário tem a finalidade de auxiliar professores do Ensino Médio na melhoria da prática pedagógica e proporcionar avanços para a construção das referências curriculares.

De acordo com Rosângela Alves da Silva Neiva, coordenadora pedagógica do Ensino Médio, a abertura do seminário será às 9:00 horas do dia 29, com palestra de Giovanni Mendonça Lunardi, doutor em Filosofia e professor da Universidade Federal de Rondônia (Unir). “Os trabalhos nos três dias do encontro serão desenvolvidos por meio de oficinas com temas variados, todos pertinentes ao objetivo do encontro” – conclui a coordenadora pedagógica.

Estágio na Rede Globo

Estágio na Rede Globo

A TV Globo oferece vagas para São Paulo. Podem participar universitários com previsão de conclusão do curso em dezembro de 2010 ou julho de 2011.

Há vagas para os cursos de administração, análise de sistemas, arquitetura, artes plásticas, ciência da computação, ciências sociais, cinema, comunicação social (jornalismo, radialismo, publicidade e propaganda, relações públicas), comunicação visual, desenho industrial, design gráfico, economia, engenharia de computação, engenharia civil, engenharia eletrônica, engenharia eletrotécnica, engenharia elétrica, engenharia de telecomunicações, engenharia de produção, história, informática, letras, marketing, mídias digitais, propaganda e marketing e sistemas da informação.

As inscrições devem ser feitas pelo site http://www.redeglobo.com.br/bancodetalentos . Além da bolsa auxílio, a empresa oferece vale-refeição, seguro de vida em grupo e auxílio transporte.

ISCSP fala sobre as eleições em Portugal

PSD ganha em mais distritos mas não «atrai» novo eleitorado

O PSD venceu em seis distritos nas legislativas de domingo, embora os grandes centros urbanos continuem a ser dominados pelo PS, prova de que o PSD «não atrai» eleitorado «volátil» nas zonas mais populosas, dizem politólogos contactados pela Lusa.

Manuel Meirinho, professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), defende que o eleitorado «uniforme» do PSD, «na casa dos 30 por cento», não foi suficiente para marcar a diferença para com o PS.

«O PSD não conseguiu fazer a diferença no eleitorado volátil dos grandes centros urbanos, o que não vem de agora, vem das eleições de 2005 e até das europeias. Quando assim é, e particularmente quando a campanha eleitoral não faz a diferença, pior ainda», analisa Meirinho.

Seminário internacional debate segurança alimentar e energética

Seminário internacional debate segurança alimentar e energética

Encontro reunirá especialistas do Brasil e da França entre os dias 21 e 23 de outubro, no Rio de Janeiro. O objetivo do evento é aprofundar o debate sobre a relação entre produção de alimentos e produção de biocombustíveis (etanol, biodiesel, etc.), com base em resultados de estudos especializados, especialmente nas áreas de Ciências Humanas e Ciências Sociais Aplicadas.

Segurança alimentar e segurança energética – Estratégias de Expansão da Produção de Alimentos e de Biocombustíveis na Eruopa e no Brasil: esse é o tema do seminário internacional que será realizado de 21 a 23 de outubro, no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Avenida Chile, 100, Rio de Janeiro.

O objetivo do evento é aprofundar o debate sobre a relação entre produção de alimentos e produção de biocombustíveis (etanol, biodiesel, etc.), com base em resultados de estudos especializados, especialmente nas áreas de Ciências Humanas e Ciências Sociais Aplicadas.

A promoção é do Programa de Pós-graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA-UFRRJ), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, da Maison des Sciences de l’Homme e da Ecole des Hautes Etudes em Sciences Sociales, da França.

A mesa de abertura, dia 21, às 17h, terá a participação de:

Nelson Jorge Moraes Mattos • Coordenador de Produção Integrada ao Ensino, Pesquisa e Extensão da UFRRJ, Rio de Janeiro

Rosa Freire Furtado • Presidente do Centro Celso Furtado, Rio de Janeiro

Afrânio Raul Garcia Jr • Diretor do CRBC/EHESS, Paris, França

Ricardo Henriques • Assessor da Presidência, BNDES, Rio de Janeiro

Eli Diniz • Coordenadora do INCT/PPED/UFRJ, Rio de Janeiro

Hugues Goisbault • Cônsul da França no Rio de Janeiro

Jean-Guillaume Bretenoux • Embaixada da França, Brasília

Joaquim Soriano • Coordenador do NEAD/MDA, Brasília

John Comerford • Coordenador do CPDA/UFRRJ, Rio de Janeiro

Sergio Leite • Coordenador do OPPA/CPDA/UFRRJ, Rio de Janeiro

No mesmo dia, às 17h30min, ocorrerá a conferência magna “Segurança Alimentar e Segurança Energética: Escolhas Políticas e Escolhas Econômicas”, com Christina Comeliau (IUED, Genebra, Suíça e EHESS, Paris, França).

A inscrição é gratuita e poderá ser feita pelo site do evento: http://frbr2009seminario.sites.uol.com.br.

Não será possível fazer inscrições durante o evento.

As inscrições estarão abertas até o dia 19/10 às 12h.

A programação completa e outras informações também estão disponíveis no site do evento.

Universidade na era do "Times is Money"

DOSSIÊ – UNIVERSIDADE EM RITMO DE MERCADO

Leia os artigos que se encontra no site da Revista Espaço Acadêmico 

Produtivismo no campo acadêmico: o engodo dos números de Antonio Ozaí da Silva

Produção e produtividade no meio acadêmico. A “ditadura do Lattes” e a Universidade contemporânea de Fábio Bertonha

Universidade: da mais-valia ao mais-gozar de Raymundo de Lima

A peculiar Produção Intelectual do Brasil recente de Ruda Guedes Moises Salerno Ricci

O intelectual sem qualidades de Walter Lúcio de Alencar Praxede

Miscigenação não leva à democracia racial, diz sociólogo

Miscigenação não leva à democracia racial, diz sociólogo

A miscigenação no Brasil não leva à democracia racial porque, na prática, não cria uma categoria homogênea de mestiços, mas, sim, uma hierarquia de subcategorias pela qual quanto mais perto um indivíduo estiver da “matriz branca”, maiores são suas chances de inclusão social, afirma o sociólogo Ronaldo Sales, da Fundação Joaquim Nabuco, de Recife.

“A miscigenação não é construtora de homogeneidade, ao contrário do que alguns acreditaram durante décadas e uns ainda acreditam. Na verdade, você cria uma espécie de graduação de cor e de características físicas, e a partir disso você diferencia os grupos”, disse Sales, autor da polêmica tese de doutorado “Raça e Justiça – O mito da democracia racial e o racismo institucional no fluxo de Justiça”.

Por outro lado, argumenta, o conceito de miscigenação no Brasil é usado para validar o mito da democracia racial, tirando dos movimentos negros os argumentos para denunciar o racismo. Mais do que isso: em uma sociedade em que, em tese, não existe raça, racistas são aqueles que falam do racismo.

“É como se o movimento negro fosse racista porque traz o debate para a esfera pública”, disse o sociólogo à BBC Brasil.

‘Complexo de Tia Anastácia’

Na visão de Ronaldo Sales, a harmonia racial é aparente, sustentada pelo que chama de Complexo de Tia Anastácia, a síndrome do negro que só é aceito enquanto fica no lugar que lhe é reservado.

“Essa cordialidade é uma forma de acomodação do conflito. É o que chamei de complexo de Tia Anastácia, uma integração subordinada que faz com que o negro seja ‘quase’ ou ‘como se fosse’ da família. Quando a empregada quer sair da cozinha para a sala, é chamada de ingrata.”

Segundo Sales, quando a idéia de democracia racial começou a se consolidar, nos anos 30 – até se estabelecer definitivamente com a ditadura – deixou de se falar em relações raciais brasileiras. Desde então, o racismo é considerado uma prática individual de alguém que, por opção ou patologia, não se enquadra na realidade da mestiçagem.

“O racismo é um sistema de dominação social: não está apenas nas relações interpessoais, mas sobretudo nas práticas institucionais: na ação da polícia, do Estado, das instituições públicas e privadas, no mercado de trabalho, nos meios de informação, nas escolas”, diz o sociólogo.

“O sistema jurídico brasileiro dispensa aos negros um tratamento que, das ruas às delegacias de polícia e aos tribunais de justiça, viola a presunção de inocência, invertendo o ônus da prova, tornando os negros ‘culpados até prova em contrário’, e obrigando-os a constantemente provar sua inocência”, disse Sales, em artigo na revista Tempo Social, da Universidade de São Paulo.

Raça?

Defensor das políticas de ação afirmativa, o sociólogo diz também que o discurso da miscigenação como “salvação nacional” mina a capacidade de mobilização dos movimentos negros por lhes negar uma identidade como grupo.

“Eles não são negros, são morenos, mestiços, tanto quanto os outros. Fica difícil se diferenciarem e se organizarem.”

Para o sociólogo, os estudos genéticos que questionam o conceito de raça são secundários diante de uma realidade social que continua a discriminar negros.

A historiadora Isabel Lustosa, da Fundação Casa Rui Barbosa, concorda que a cor da pele influi na forma de inclusão social, embora acredite que o preconceito tenha como alvo o pobre de uma forma geral.

“Quanto mais claro, mais bem-tratado você é, mas acho que quanto mais rico, também”, diz Lustosa.

Para a historiadora, porém, o mito da democracia racial ainda serve como modelo social a ser projetado.

“Temos de incentivar uma democracia racial de fato a partir do ideal, em vez de movimentos que invistam no rancor racial”, diz Lustosa, que é contra as cotas para afrodescendentes.

Já para Sales, esperar que essas distorções se corrijam naturalmente é uma estratégia tentada e fracassada.

“A mera negação da existência do problema não ajudou a resolvê-lo. Evitar o confronto por temor do conflito racial, que sempre permeou o discurso das elites brasileiras, não ajudou a resolver a questão”, concluiu o historiador.

Fonte: BBC

Desemprego tem quarta queda seguida e vai a 8%, mostra IBGE

Desemprego tem quarta queda seguida e vai a 8%, mostra IBGE

A taxa de desemprego recuou pelo quarto mês seguido em julho, segundo dados divulgados nesta quinta-feira (20) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O indicador, que havia ficado em 8,1% em junho, caiu para 8,0% – movimento que o IBGE, no entanto, considera “estatisticamente estável”. A taxa é a menor desde os 6,8% registrados em dezembro do ano passado.
Na comparação com julho do ano passado, também houve relativa estabilidade: naquele mês, a taxa de desemprego também havia sido de 8,1%.
O número de desempregados nas seis regiões metropolitanas pesquisadas foi calculado em 1,9 milhão – estável em relação ao mês anterior. Já a população ocupada cresceu 0,9% frente a junho e 1,1% em relação a julho de 2008, para 21,3 milhões de pessoas.
A análise do IBGE mostra que, na passagem de junho para julho, houve queda de 4,7% na população ocupada na indústria extrativa, de transformação e distribuição de eletricidade, gás e água.

Cuba por Michael Moore

Cuba por Michael Moore

Confesso que chorei. E cheguei a conclusão que preferiria mil vezes viver sem a liberdade que o regime castrista impõe aos cubanos – segundo o que a mídia conservadora e os reacionários de direita entendem por “liberdade” -, a ter que viver numa sociedade hipócrita, gozando de uma pretensa liberdade democrática que aprisiona, sequestra e mata.No mínimo os macarthistas de plantão irão dizer que isto não passa de propaganda comunista, mas os americanos doentes receberam o tratamento que não tiveram em seu país, o mesmo tratamento dispensados aos cubanos, de graça, humano.

Moore viajou a Cuba com três voluntários que haviam trabalhado nas ruínas do World Trade Center, em New York, depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. Segundo ele, os voluntários sofrem de problemas de saúde desde que atuaram naquele local e têm dificuldade de acesso aos tratamentos públicos.

Moore diz tê-los levado de barco até a base naval estadunidense de Guantánamo – que fica encravada no leste de Cuba e onde Washington mantém suspeitos estrangeiros de terrorismo – para ver se eles receberiam o mesmo atendimento médico gratuito dos detentos. Após serem barrados, eles decidiram ver que tipo de atendimento médico encontrariam em Cuba, cujo governo comunista se orgulha da qualidade de seus hospitais. Excerto do documentário “Sicko” (S.O.S. Saúde), de Michael Moore.

Seminário "O mundo de Gilberto Freyre"

“O MUNDO DE GILBERTO FREYRE” ANALISARÁ SOCIOLOGIA DA MEDICINA

Sociologia da Medicina é o título da obra de Gilberto Freyre que estará em debate no dia 27 de outubro de 2006, a partir das 14:00 horas. O tema será apresentado pelo Prof. Dr. Jônatas Meneses, do Departamento de Ciências Sociais e do Mestrado em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe.

A obra de Gilberto Freyre é o ponto central de articulação do seminário “O mundo de Gilberto Freyre”. O evento foi aberto no dia 24 de fevereiro com a conferência do Prof. Dr. Francisco José Alves, do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe, sobre o tema Casa Grande & Senzala. No dia 31 de março o Prof. Dr. Ulisses Rafael Neves, do Departamento de Ciências Sociais e do Mestrado em Sociologia da UFS, abordou o tema SOBRADOS E MUCAMBOS. No dia 05 de maio de 2006, o Prof. Dr. José Rodorval Ranmalho, do Departamento de Ciências Sociais e do Mestrado em Sociologia da UFS abordou o tema ORDEM E PROGRESSO. O Prof. Msc. Antônio Samarone de Santana, do Departamento de Medicina da UFS apresentou no dia 26 de maio o livro NORDESTE, de Gilberto Freyre. No dia 16 de junho de 2006 foi discutido o texto OS INGLESES NO BRASIL, apresentado pela Profa. Dra. Ester Fraga Vilas-Bôas Carvalho do Nascimento, da Universidade Tiradentes – Unit. A Profa. Dra. Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas apresentou a obra UM ENGENHEIRO FRANCÊS NO BRASIL, no dia 28 de julho de 2006. O livro NÓS E A EUROPA GERMÂNICA, foi apresentado no dia 25 de agosto de 2006 pelo Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento (Professor do Departamento de História e do Mestrado em Educação da UFS). No dia 29 de setembro de 2006 foi discutido o livro MODOS DE HOMEM E MODAS DE MULHER, em apresentação feita pela Profa. Cristiane Vitório de Souza (Mestra em Educação pela UFS). Os demais temas em discussão no seminário “O mundo de Gilberto Freyre”serão os seguintes: – 24/11/2006 – Obra a ser debatida: CONTRIBUIÇÃO PARA UMA SOCIOLOGIA DA BIOGRAFIA – Apresentador: Samuel Barros de Medeiros Albuquerque (Professor do Departamento de História e aluno do Mestrado em Educação da UFS) – 22/12/2006 – Obra a ser debatida: O AÇUCAR – Apresentador: Joaquim Tavares da Conceição (Aluno do Mestrado em Educação da UFS). As reuniões do Seminário ocorrem sempre no auditório do Arquivo do Poder Judiciário do Estado de Sergipe. O seminário é organizado pelo Grupo de Pesquisa em História da Educação da Universidade Federal de Sergipe – GEPHE. Interessados devem entrar em contato através do e-mail jorge@ufs.br

Para sociólogo, Fórum Social Mundial foi desorganizado

Para sociólogo, Fórum Social Mundial foi desorganizado

Por da Agência Folha, em Belém

04 de February de 2009

O norte-americano Joel Kovel, 72, professor emérito de sociologia na Bard College e um dos principais defensores do “ecossocialismo” (alternativa de esquerda para um desenvolvimento sustentável), avalia que a desorganização do Fórum Social Mundial neste ano prejudicou o debate sobre a Amazônia

FOLHA – O que o fórum pode fazer, de maneira realista, em relação à questão ambiental?

JOEL KOVEL - O fórum é um lugar onde as pessoas trocam ideias. E quando elas voltam para casa e para seus cotidianos, haverá mais gente compreendendo, e terão uma visão mais clara. As pessoas vêm aqui de maneira séria, e elas vêm aqui para aprender um com o outro, e quanto mais você aprende, mais forte você é.

FOLHA – A crise econômica dominou os debates desse fórum, em detrimento dos sobre a Amazônia?

KOVEL – Eu não sei. Porque foi muito difícil [no fórum deste ano] ir de um lugar para o outro, e muito difícil saber onde as pessoas estavam falando. Por isso, para manter minha sanidade, eu tive de limitar o que eu estava fazendo. O fórum conseguiu reunir pessoas maravilhosas, mas o nível de organização, ou de desorganização, foi tão alto que impediu muitas delas de se encontrarem. É meu terceiro fórum, e foi o mais caótico.

FOLHA - Qual a maior dificuldade que o presidente dos EUA, Barack Obama, terá para buscar novas formas de produção, mais sustentáveis?

KOVEL – A visão sionista tem diversas profecias, e uma delas é manter o mercado de petróleo dos EUA. Ele tem que romper com os sionistas. É algo difícil, mas ele tem que fazer. Não apenas para ajudar a Palestina, mas também para criar uma situação justa no Oriente Médio, conseguir trabalhar de maneira conjunta com aqueles países, diminuir a violência.

Por que Cinema com Antropologia? Breve relato de uma experiência etnográfica de recepção cinematográfica

Por que Cinema com Antropologia? Breve relato de uma experiência etnográfica de recepção cinematográfica

Maria Catarina Chitolina Zanini
– UFSM é Pós-Doutora – Museu Nacional – UFRJ e Doutora em Ciência Social (Antropologia Social) – Universidade de São Paulo, USP.

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Este artigo apresenta algumas reflexões acerca do encontro entre Antropologia e Cinema baseado em caso empírico por mim vivenciado durante a elaboração e execução do projeto Antropologia e Cinema I, na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), nos anos de 2006/2007. Projeto este que foi premiado pela ABA (Associação Brasileira de Antropologia), juntamente com a Fundação Ford, como um projeto inovador no ensino da Antropologia.[1] Meu objetivo era, por meio da utilização da linguagem fílmica, introduzir, via debate, a apresentação e discussão de alguns conceitos e temas caros à Antropologia, em especial, naquela edição do projeto, acerca das questões étnicas e raciais.
Mediante esta experiência etnográfica pude melhor compreender alguns dos pressupostos que haviam me inspirado teoricamente, abandonar outros e, também, elaborar meus próprios pontos de vista acerca deste encontro entre campos de conhecimento e de criação tão ricos e complexos. Não se trata de um artigo que explorará conceituações ou teorias acerca do Cinema, mas visa salientar o quanto ele, no momento contemporâneo, está “na vida” das pessoas (Geertz, 1997), na História, nos espaços públicos e privados e negocia significados. Significados esses e representações que são matéria-prima para a Antropologia interpretar. Enfim, trata-se de um artigo que tem por objetivo salientar o quanto este encontro é “bom para pensar” e para tornar mais lúdico, por vezes, o espaço acadêmico de ensino científico.
No cruzamento das historicidades, culturalidades e criações cinematográficas, há muito em comum. São todas formas de diálogo entre as partes e o todo, entre indivíduos e suas sociedades, entre hierarquias, entre eus e outros, entre mundos. Cruzá-las, interpretá-las, pensá-las para além de si mesmas era a pretensão do projeto que tinha, também, um objetivo pragmático: ouvir e dialogar (se possível). O ponto de chegada imediato era, de fato, as pessoas que se propunham a assistir aos filmes, já previamente selecionados, e dialogar com o público ali presente, formado pela equipe do projeto e por outros espectadores.
Antropologia e Cinema I: do empírico ao campo científico.

O projeto Antropologia e Cinema I estava dividido em dois grandes módulos, cada um a ser desenvolvido durante um semestre letivo. Tais módulos se denominavam: I – A questão racial no cinema, em que foram exibidos os seguintes filmes: O Massacre de Rosewood (Rosewood, EUA, 1997), de John Singleton; Uma história americana (The long walk home, EUA, 1990), de Richard Pearce; Sarafina! – O Som da Liberdade (Sarafina!, EUA, 1993), de Darrel Roodt; Mississipi em chamas (Mississippi burning, EUA, 1988) de Alan Parker e Duro aprendizado (Higher learning, EUA, 1995), de John Singleton e o Módulo II, denominado de Etnicidade e Cinema, no qual foram exibidos os filmes: Brincando nos campos no Senhor (At play in the Fields of the Lord, EUA, 1991), de Hector Babenco; A Cozinha de Toto (The kitchen Toto, EUA/Quênia, 1990), de Harry Hook; Skinheads – A Força branca (Romper stomper, Austrália, 1992), de Geoffrey Wright; Rei dos ciganos (King of the gypsies, EUA, 1978), de Frank Pierso; Bem-vindos ao paraíso (Come see the paradise, EUA, 1990), de Alan Parker e Casamento grego (My big fat greek wedding, EUA, 2002), de Joel Zwick.
Nosso[2] objetivo era atrair para as sessões de exibição e para o debate um público variado de espectadores. Como se tratava de um projeto de extensão universitária, almejávamos fazer com que pessoas da comunidade santa-mariense em geral se sentissem atraídas pelo tema e pelas discussões. O local escolhido para as exibições foi a sala de Vídeo da Biblioteca Central, localizada num ponto estratégico do Campus universitário, o que facilitaria a vinda de um público mais diversificado. Os horários escolhidos foram às quintas-feiras pela tarde, a cada 15 dias, com encontros de, em média, 3 a 4 horas, entre filme e debate. Havia uma equipe de alunos (um bolsista[3] e voluntários) que me auxiliavam na divulgação, organização e manutenção do cronograma do projeto.[4]
A intenção era, ao final de cada sessão, tendo um debatedor convidado, iniciar a reflexão acerca das questões apresentadas nos filmes. Os debates não foram uniformes, dependendo do filme, da platéia e dos próprios debatedores, houve mais ou menos interação e maior ou menor polêmica em torno de alguns temas. Ao final de cada sessão, igualmente, fazíamos um fechamento procurando encadear as várias sessões de cinema dos módulos. Alguns filmes, igualmente, produziam um certo silêncio pós-recepção, o que nos conduziu à elaboração de um roteiro de questões a serem respondidas em silêncio, após as sessões, por aqueles que desejassem contribuir com a pesquisa. Tal instrumento era anônimo, solicitando apenas algumas informações, tais como gênero e idade para que pudéssemos analisá-los melhor posteriormente.[5] Neste questionário, a pessoa poderia se expressar mais detalhadamente acerca de sentimentos, provocações ou reflexões que o filme havia lhe suscitado. Havia aqueles que levavam os questionários para casa e os entregavam nas sessões seguintes, o que para nós, da equipe, era visto como algo muito positivo, pois observávamos que alguns filmes impactavam os espectadores e que necessitavam de um tempo maior para serem melhor compreendidos ou “enquadrados” em suas possíveis interpretações. Em todos os questionários havia uma solicitação de consentimento para que as informações ali contidas pudessem ser utilizadas para fins de pesquisa.
Para o debate convidávamos, de acordo com o filme, antropólogos, literatos, cientistas políticos, sociólogos, historiadores, militantes, entre outros. Procuramos, por meio da sugestão de leitura de textos que ficavam disponíveis numa pasta (para elaboração de cópias), que aqueles que quisessem, pudessem entrar em contato com a literatura acadêmica acerca das relações entre mídias e Antropologia e também de textos introdutórios de Antropologia que permitissem a compreensão de alguns conceitos básicos, tais como cultura, sociedade, raça, entre outros. Esta estrutura organizativa se desdobrou no Antropologia e Cinema II, no ano seguinte. Nesta nova edição, trabalhamos mais especificamente com questões de Identidades, Etnicidades e Classes, na mesma proposta do Antropologia e Cinema I, nos mesmos dias e horários e no mesmo local.
Antropologia, Cinema e negociação de sentidos.
Não procurando analisar gêneros, estilos ou entrar em discussões acerca do cinema-arte (ou não), a riqueza do encontro entre estas duas formas de expressão e conhecimento é desvendar a possibilidade, sempre inacabada, de produção de sentidos e de encontros do indivíduo consigo mesmo e com os mundos ao seu entorno, sejam próximos ou distantes, “reais” ou imaginários. Para tal, compreende-se que as sociedades são complexos sistemas em que múltiplos referentes entram em conjunção e várias instâncias e esferas (econômica, política, cultural, biológicas, entre tantas outras) negociam entre si. Produzir arte, neste sentido seria, conforme Geertz, uma forma de falar sobre “a vida”. [6] Assim, entendo que, afora as questões estéticas, o cinema comercial que foi por mim utilizado como ferramenta antropológica no projeto pode ser considerado arte. Ele fala sobre “a vida” em múltiplas dimensões, da produção, à circulação e consumo das narrativas ali expostas. Nele, está explícita ou implícita “a vida” dos produtores, dos roteiristas, das equipes técnicas, dos atores possibilitando, igualmente, que o receptor possa, ao assistir, refletir e falar de sua vida também. Isto porque há um sistema de comunicação em comum que extrapola horizontes nacionais, locais ou regionais. E, mais especificamente, no que me tocava e interessava, em relação à recepção fílmica, quanto às questões raciais e étnicas que, no mundo Ocidental, possuem uma historicidade comum em determinados aspectos.
A arte (e o cinema enquanto tal), deve ser observada como produções culturais conjuntas e não autônomas, ambas dialogam entre si (e com tantas outras instâncias), com estruturas de significados particulares, com ressonâncias específicas e objetivos específicos que vão do devaneio à mercantilização e a necessidade da obtenção do lucro, tratando o filme como mercadoria. O que, em meu entendimento, em nada desmerece seu conteúdo ou a qualidade de sua exibição. Para se “ler” um filme, é importante compreender os contextos, as épocas e os sentidos que circulavam entre indivíduos e suas coletividades, como no mundo ocidental contemporâneo, por exemplo. Afinal, uns são feitos por e para os outros. Assim, como salienta Hijiki (1998, p.7), o cinema contemporâneo falaria para o homem e também deste homem. Fazer destas falas um encontro para análise é algo que desnuda muitas riquezas acerca das construções simbólicas para o antropólogo.
Neste jogo de sentidos, de eus e/com outros, mundos se encontram. Imagens são postas, dispostas e podem (ou não) provocar reflexões. Uma das questões que também considero importante é acerca da recepção fílmica como promotora e construtora de memórias. Memórias no sentido a estas atribuídas por Halbwachs (1990), ou seja, de leituras do passado elaboradas no presente, sendo individuais e coletivas ao mesmo tempo. Ou seja, os filmes, apesar de elementos e linguagens em comum, não tocam as pessoas da mesma forma, não vibram do mesmo modo. Alguns filmes, ao serem “lidos”, interpretados e negociados, permitem que o indivíduo “construa suas memórias”, ou seja, possa refazer, narrativamente, leituras sobre seu passado, sua trajetória de vida, seus gostos, opções e também acerca de seu estatuto no mundo. Este processo possível se torna extremamente marcante pela conjugação da linguagem fílmica: imagem, som, cenários e as possíveis emoções e sentidos neles presentes e deles fruto. Enfim, observo ser o Cinema um dos veículos mais marcantes de negociação de sentidos e de encontros dos indivíduos consigo mesmos, seus mundos (interiores e exteriores) e os mundos possíveis dos outros. Assistidos em silêncio, em família, no cinema, em casas, nos quartos, as narrativas fílmicas possibilitam um dialogar entre objetividades e subjetividades que, pensadas no personagem do outro, muitas vezes faz com que as próprias individualidades mais nitidamente se manifestem. Recorro a Geertz (1997, p.150) novamente, quando alerta que a conexão central entre a arte e a vida coletiva, no entanto, não se encontra no plano instrumental, mas sim no plano semiótico. Esta conjugação, além de outras, jamais deve ser perdida de vista no diálogo entre Antropologia e Cinema. Quanto às memórias, como salienta Gómez-Orozco, os media são catalisadores de identidades que afloram “detonadas por los referentes mediaticos” (2002/3, p.7). Ouvir e compreender este afloramento é o trabalho do antropólogo no, e com o cinema.
Quando se pensa em identidades étnicas, em sociedades nas quais os indivíduos vivenciam e negociam identidades hifenizadas, observa-se que este processo de rememoração provocado pela linguagem fílmica é ainda mais marcante, muitas vezes acompanhado de processos migratórios, colonizadores e tantas outras rupturas. Ou seja, o cinema, como um espaço de falar de, e sobre os indivíduos, cria cenários, representações, narrativas que conduzem ao enfrentamento, seja consigo mesmo, seja com os outros (presentes ou passados). Por isso, observar em determinados filmes os estereótipos ali apresentados, as falas com sotaques pejorativos, os encontros raciais, de gênero e etários é algo que merece ser estudado pela Antropologia também, pois num contexto de mercado, o cinema circula sentidos, mas também tem a capacidade de fortalecer ou reprimir identidades, habitus, tendências, entre outras possibilidades. Com histórias boas para se pensar o cinema pode, com certeza, ser um excelente espaço de discussão das hierarquias sociais, das estruturas de poder cristalizadas, entre tantas outras mazelas que incomodam o espaço coletivo e acabam por naturalizar determinadas desigualdades sociais. Outra questão importante que observo nas narrativas fílmicas é o quanto estas são boas para o antropólogo observar como são construídas as intersecções, os “deslizamentos” de sentido (Bhabha, 2001), as zonas de contatos discursivos. Pelas imagens, pelas palavras, pelos cenários, eus e outros em contraste, em processos de construção de identificações e de sobrevivências. Ali se encontram os outros “traduzidos”, o que, sem dúvida é importante também para melhor se compreender as sociedades que produzem, circulam e consomem tais representações e porque essas e não outras. Afinal, inspirada em Foucault (2007), acresceria que discursos (em suas diferentes formas) são motores históricos, ou seja, podem fazer ao dizer. Para além, disso, como ressaltam Shohat e Stam (2006), é preciso procurar as “presenças relacionais” que estão nos filmes, por vezes implícitas em discursos outros.
Não se pode deixar de lembrar que historicamente tanto o Cinema quanto a Literatura tiveram um papel importante na tentativa de construção das identidades nacionais[7] e na legitimação de determinadas instâncias de poder. Inseridos em indústrias, estas formas de arte foram e são, de certa forma, discursos de poder também. O Cinema, ao ser consumido, pode, igualmente, estar sendo utilizado como uma forma demarcadora de determinado “estilo de vida” (Featherstone, 1995)[8]. Assim, arte, mercado, cultura e consumo são elementos em trânsito, fazendo com que os encontros e as tensões sejam visíveis quando observamos tais arenas como “campos” (Bourdieu, 1998), em que há agentes em disputa por interesses diversos, “reais” ou imaginários. Além disso, não se pode perder de vista os contextos múltiplos de produção, circulação e consumo dos filmes.[9] Há filmes melhores ou piores do ponto de vista técnico ou estético, mas sem dúvida, tanto os bons como os maus filmes findam por serem “bons para pensar”.
Etnografia da recepção cinematográfica? Aprender fazendo?

A região na qual está situada a Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, no centro do Rio Grande do Sul, foi colonizada por grupos étnicos diversos (alemães, italianos, portugueses, sírio-libaneses, afro-descendentes, palestinos, poloneses, judeus, entre outros) e carecia, em minha compreensão, de espaços de debate e reflexão acerca das diversidades étnicas locais e também, mais especificamente, acerca da questão racial como um problema social que merecesse reflexão. Em muitos anos de magistério nesta instituição, eu observava que as salas de aula reproduziam um certo padrão social e étnico e vislumbrei ser o espaço proporcionado pela linguagem fílmica, um fórum privilegiado para o debate antropológico mais amplo acerca das diversidades locais. Selecionei filmes que considerei capazes de “gerar o debate” e provocar reflexões.
Era comum se ouvir, após a exibição dos filmes, comentários de que algumas questões ali postas não haviam sido, até então, objeto de reflexão por parte de alguns dos espectadores. Isso nos atestava que os filmes eram, acima de tudo, “bons para pensar” e o quanto estávamos certos em algumas de nossas intenções. Optamos, na primeira edição do projeto, por utilizar filmes mais conceituados e que tinham um padrão de qualidade de imagem, som e roteiro já consagrados em nível mundial. Eram bons filmes em muitos aspectos, o que permitiu que o público se mantivesse fiel às sessões quinzenais. Posso dizer, igualmente, que pude unir duas de minhas “paixões”, a Antropologia e o Cinema e que este Projeto foi um momento marcante de minha vida profissional. Ressalto, contudo, que minha relação com o Cinema é de consumo. As críticas que faço passam mais pelo que vejo ser possível de ser tratado enquanto “objeto antropológico” do que simplesmente se a cenas foram bem feitas, se a fotografia estava perfeita, se os cenários eram bem ou mal trabalhados, entre outras questões postas por especialistas na área. Os filmes selecionados no projeto Antropologia e Cinema I foram muito férteis para a inserção do debate antropológico. Sempre respeitamos e informamos, igualmente, a recomendação de idade para assistir aos filmes, pois em alguns deles havia cenas mais marcadamente tensas. Eram filmes do circuito comercial, alguns com elencos famosos e carismáticos, o que também provocava uma empatia com a platéia em geral.
A recepção, para nós, era compreendida como um espaço de criação, de elaboração de sentidos (Orozco-Gomes, 2003/2) existentes e outros em elaboração.[10] Os receptores que ali estavam não eram meros reprodutores nem seres a serem “influenciados”, mas sim pessoas que poderiam ter um espaço e um tempo para refletirem acerca de suas construções sociais e identitárias. Aliás, se não acreditássemos nesse espaço criativo da arte e da recepção, um projeto como o nosso não poderia se propor, por meio do debate, “tocar em feridas”, ou seja, nas representações sociais e nas hierarquias que os espectadores traziam para a sala de exibição e que poderiam acreditar serem “já dadas”, naturalizadas e não construções sociais e históricas. Entendíamos, também, que cada indivíduo possui elementos de mediação presentes em suas trajetórias (vide Martín-Barbero, 2003) e que almejávamos, acima de tudo, despertar inquietação, nada mais. Não questionando uma possível passividade pelo fascínio (França, 2003), procurávamos, por meio da etnografia da recepção, estarmos atentos ao encontro entre espectadores, imagens, sons e discursos. E, tínhamos que estar atentos também à historicidade e temporalidade das construções culturais ali manifestas.
Para a equipe do projeto, tentar fazer etnografia da recepção destes filmes foi algo muito gratificante. Observar os gestos da platéia, os desconfortos nas cadeiras quando de cenas mais tensas, os comentários aos pés dos ouvidos dos colegas ao lado. Enfim, o cinema, o assistir, o ver, o ouvir, o escrever sobre ou mesmo, pensar sobre se revelou para nós em um objeto extremamente rico, seja do ponto de vista das negociações de sentido que observávamos acontecer in loco, seja pela sociabilidade que cada nova sessão favorecia. Entendemos, desta forma, o Cinema, sua forma e conteúdo e também sua produção, circulação e consumo como fatos sociais totais (Mauss, 1974), no sentido de que envolvem os sujeitos em suas múltiplas dimensões (psicológicas, histórico-sociológicas, biológicas, entre outras). Para além das hierarquias e contrastes apresentados pelas sociedades contemporâneas, o que se observa é que a dialética entre interioridades e exterioridades, entre objetividades e subjetividades, proporcionada pela arte é algo ímpar. Se a arte teria por intenção manifestar sentido por meio de suas expressões, pode-se avaliar a importância de se trabalhar o espaço das recepções cinematográficas, seja em pequenas ou em escalas qualitativamente maiores. Uma das primeiras antropólogas a fazer tal estudo, Hijiki (1988) apresenta, de uma forma bastante instigante, alguns dos passos possíveis de serem teórica e metodologicamente trilhados neste campo aberto e ainda pouco explorado, das relações entre Cinema e Antropologia. Como aponta a autora, com quem compartilho da idéia, o Cinema deve ser tomado como um “campo” e os filmes ficcionais podem ser lidos como documentos culturais. O que adviria da recepção destes documentos culturais é um processo incessante de negociação de significados e, penso, nisto residiria sua riqueza.
Para Mascarello (2005,2006), os estudos de recepção de cinema ainda são tímidos (ou inexistentes) no Brasil e que, talvez, um diálogo profícuo possa nascer da interação de perspectivas e fusão de horizontes entre campos científicos diversos. O mais importante, penso eu, seja a visão ampliada de que arte e mercado não se excluem e que as análises, seja da produção, da circulação ou do consumo do Cinema requer uma leitura das individualidades contemporâneas, das sociedades e também de que os sentidos circulam, modificam-se e podem ser esquecidos. Essa dinâmica está vivamente presente no Cinema, pois ele, ao invocar reflexão, traz à tona memórias (do passado) e sentidos novos, carentes ainda de significação. O que Mascarello denomina de “espectatorialidade cinematográfica” (2006, s.p.) foi, de certa forma, o que ousamos fazer neste campo de encontros, ainda, pequeno.
Considerações Finais

Cinema e Antropologia não poderiam dialogar entre si sem pensarmos na historicidade de tais campos de conhecimento e expressão e a forma como estão conectadas com as sociedades (locais, regionais, nacionais, globais, transnacionais, transculturais) e culturas com as quais interagem. Cada campo, com seus agentes, códigos, interesses, linguagens e bens em particular potencializam determinadas visões acerca do mundo. Campo científico e campo artístico podem dialogar? Compreende-se que sim, uma vez que, como já dito, arte e ciência estão na cultura e as culturas são dinâmicas e históricas, frutos de relações sociais e de poder diversas. Portanto, temporárias, transitórias e em constante negociação. Por meio de filmes, objetivou-se conhecer, compreender e dialogar com significados presentes e circulantes entre espectadores. Seria possível fazer uma etnografia da recepção, perguntava-nos? Além disso, seria possível permitir e dar ouvidos aos espectadores para que refletissem ou dialogassem com suas próprias representações? Não seria isto demasiada pretensão nossa? Muitas eram as questões que tínhamos (e ainda temos) acerca do encontro entre estas duas formas distintas de linguagem, a antropológica (do mundo acadêmico) e a cinematográfica (comercial), mas que entendo são, ambas, produções sociais, fruto de conjugações de poderes e saberes históricos. Ambas estão “na vida”, pretendem falar sobre a vida, da vida e fazer crer que possuem algo a dizer e merecem ser conhecidas, debatidas e questionadas.
Compreendo que, por meio da edição do projeto Antropologia e Cinema I, foi possível observar o quanto o Cinema e a utilização da linguagem fílmica é profícua para se trabalhar com temas sociais polêmicos, como as questões étnicas e raciais, por exemplo. Por ser o Cinema uma linguagem lúdica também e que permite o encontro do indivíduo consigo mesmo e com os outros, presentes na tela ou na cadeira ao lado, ele estabelece interação, reflexão e, por vezes, silêncios significativos. Mesclar Cinema e Antropologia é algo que continuamos a fazer, nas edições seguintes do projeto, sempre alterando os temas dos módulos. Compreendo que fazer etnografia da recepção é algo que requer sensibilidade e preparo teórico-metodológico adequado. De minha parte, considero que o aprendizado continua e espero que este seja um espaço de pesquisa crescente no Brasil. Para 2009, pretendemos ter mais uma edição do Antropologia e Cinema (III), que trataria da temática das “guerras” provocadas por confrontos étnicos, religiosos ou raciais.
Enfim, o que tem Antropologia e Cinema em comum? Talvez a possibilidade de invocar, provocar reflexões ou mesmo, somente a intenção discursiva de tentar fazer crer que as ações humanas tenham significados (manifestos ou latentes). O que ambas almejam talvez seja, de certa forma, compreender (ou dar sentido) às experiências humanas, reais ou imaginárias, contextuais ou não. E neste caminho, há, ainda, muito a ser partilhado e pesquisado.
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Bibliografia:
BARBOSA, Andréa e CUNHA, Edgar Teodoro da. Antropologia e Imagem. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 2 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
FEATHERSTONE, Mike. Cultura de consumo e pós-modernismo. São Paulo: Studio Nobel, 1995.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. 7 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
FRANÇA, Andréa. Terras e Fronteiras no cinema político contemporâneo. 7 letras: Rio de Janeiro, 2003.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, Editora Revista dos Tribunais, 1990.
HIJIKI, Rose Satiko. Imagem-violência. Mimesis e reflexividade em alguns filmes recentes. Dissertação apresentada ao PPGAS Antropologia Social. USP. São Paulo, 1998.
GEERTZ, Clifford. O saber local. Novos ensaios em Antropologia interpretativa. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1997.
MARTIN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2003.
MASCARELLO, Fernando. Mapeando o inexistente: os estudos de recepção cinematrográfica, por que não interessam à universidade brasileira? UNIRevista, vol1, n.3, p.1-12, jul 2006. Disponível em www.unisinos.br. Acesso em: mar. 2007.
MASCARELLO, Fernando. Mídia e recepção. Os estudos culturais e recepção cinematográfica: um breve mapeamento crítico. Trabalho apresentado no Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação- COMPÓS, XIV, Niterói, 2005.
MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: EPU, 1974. 2 v.
OROZCO- GOMEZ, Guillermo. Los estúdios de recepcion: de um modo de investigar, a uma moda, y de ahí a muchos modos. Intexto, Edição 09, 2003/02. Disponível em: www.Intexto/PPGCOM/Ufrgs. Acesso em: ago. 2005.
SHOHAT, Ella e STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006.
STAM, Robert. Multiculturalismo tropical. São Paulo: Edusp, 2008.
ZANINI, Maria Catarina Chitolina Zanini. Assistir, ouvir, ler e narrar: o papel da mídia nas construções identitárias étnicas. Revista de Antropologia (USP), São Paulo, v.48,n.2,p.699-736, 2005.
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Notas
[1] O artigo com os resultados finais do projeto denominado “Tocando na ferida: um diálogo possível entre Antropologia e Cinema”, está disponível no site da ABA (www.abant.org.br).
[2] Quando falo em nós neste artigo, estou me referindo à equipe do Projeto, formada por mim, enquanto coordenadora e por bolsistas. Assumo, contudo, total responsabilidade pelos pontos de vista aqui colocados.
[3] No projeto Antropologia e Cinema I, contei com o importante auxílio de Francine Nunes da Silva e no Antropologia e Cinema II, do bolsista Cristiano Sobroza Monteiro.
[4] Aliás, a premiação do projeto em nível nacional pela Aba, fez com que adquiríssemos uma visibilidade muito grande na Universidade e fora dela também.
[5] Ao longo de todo o ano foram respondidos 49 questionários e alguns dos depoimentos destes se encontram presentes no artigo publicado no site da ABA.
[6] Ressalta o autor: “O sentimento que um indivíduo, ou, o que é mais crítico, já que nenhum homem é uma ilha e sim parte de um todo, o sentimento que um povo tem pela vida não é transmitido unicamente através da arte. Ele surge em vários outros segmentos da cultura deste povo: na religião, na moralidade, na ciência, no comércio, na tecnologia, na política, nas formas de lazer, no direito e até na forma em que organizam sua vida prática e cotidiana” (1997, p.145).
[7] Acerca desta historicidade do cinema, observar Stam na obra Multiculturalismo Tropical (2008).
[8] Para Featherstone, “Ou seja, para compreender a cultura pós-moderna, não é preciso apenas ler os signos, mas olhar como os signos são usados por configurações de pessoas em suas práticas cotidianas” (1995, p.94).
[9] Alertam Barbosa e Cunha (2006, p.55) quanto às imagens que, “Nesse sentido, o contexto em que as imagens são construídas e articuladas é fundamental para percebermos os possíveis significados criados. O contexto é crucial na análise dos filmes não por ser definitivo, mas por ser provocativo, sugestivo, por viabilizar a construção de um quadro de possibilidades. As imagens que compõem um filme são elementos que, considerados em conjunto, nos permitem pensar, articular significados que, de forma isolada, não aconteceriam”.
[10] Este aspecto “aberto” e criativo da recepção já havia sido por mim analisado quando da recepção da novela Terra Nostra entre descendentes de imigrantes italianos na região central do Rio Grande do Sul (Zanini, 2005).

Falta professor de Sociologia

Falta professor de Sociologia
A Sociologia no ensino médio encontra algumas dificuldades para sua vigência. A falta de professores é uma delas

Uma luta de mais de 15 anos para a implantação de um projeto, que passou a ser lei no País, voltado ao ensino da Sociologia no ensino médio. Hoje, um dos responsáveis pela luta na reintrodução do ensino, o professor aposentado Nelson Tomazi, esta abordando o tema durante o XIV Encontro Norte e Nordeste de Estudantes de Ciências Sociais, que acontece no auditório do Cine Educadora, no Crato, reunindo cerca de 600 estudantes, de pelo menos 33 universidades das regiões. O encontro está sendo realizado por meio dos estudantes do curso de Ciências Sociais da Universidade Regional do Cariri (Urca). A temática principal é “Romarias ao Cariri: Fé, Cultura e Política do Povo Nordestino”. Ontem pela manhã, o assunto foi debatido por diversos pesquisadores e estudantes.

O paranaense Nelson Tomazi, diz que tem sido uma queda de braço, dentro das próprias universidades, discutir o tema. Encontrou no ambiente acadêmico o principal foco de resistência, mas há outros. A disciplina passou a ser obrigatória esse ano, mas a grande dificuldade tem sido a falta de professores para o ensino e a ausência de concursos. Ele ressalta ainda a resistência das escolas particulares na medida.

O assunto relacionado à aplicação do ensino da Sociologia no ensino médio é um dos mais palpitantes por parte dos estudantes e estudiosos do assunto. Mas, Tomazi ressalta que “será essa moçada que vai mudar alguma coisa relacionada à aplicabilidade da Sociologia no ensino, que alguns ainda vêem como uma disciplina desnecessária”, diz ele. Há muitos sociólogos formados no Brasil, grandes nomes como Florestan Fernandes, que precisam ser do conhecimento desses novos formandos da graduação.

Ele ressalta que a dificuldade é situar, em vários níveis da grande discussão dentro da Lei de Diretrizes e Bases (LDB), se a Sociologia no ensino médio é interdisciplinar ou não. O curso de Ciências Sociais, ao longo dos anos, não formou licenciados. Os profissionais não foram formados para a sala de aula. Por isso, não há tantos disponíveis no mercado para assumirem classes.

Maior conquista

Ele cita a queda da Sociologia em 1942, com a reforma Capanema, ultrapassa toda a fase da ditadura Vargas. “Não é a ditadura militar que vai tirar a Sociologia do ensino, ela não existia”, afirma Tomazi. O docente classifica como a maior conquista, a obrigatoriedade e um tempo de adaptação que será dado para as escolas poderem começar a absorver os profissionais da área.

O reitor da Urca, professor Plácido Cidade Nuvens, destacou, durante a abertura do encontro, os trabalhos a serem desenvolvidos como foco de estudo, tendo a região do Cariri como referencial teórico e prático, lembrando das romarias do Padre Cícero e da Festa de Santo Antônio, em Barbalha, com o pau da bandeira

A diretora do Departamento de Ciências Sociais da universidade, professora Gislene Farias, ressaltou o crescimento da área de Ciência Sociais na universidade. Prova disso, segundo ela, é a realização de um evento do porte do Erecs. Para a representação estudantil, o encontro demonstra um momento para se debater também a política e os movimentos populares. Tanto é que hoje, feriado nacional, será realizado ato público com a participação dos integrantes do evento nas ruas do Crato, com manifestações na área da Rffsa.

O encontro conta com grandes nomes da Sociologia e estudiosos na área da religiosidade, de várias universidades. Ontem pela manhã, foi realizada mesa redonda com o tema que inspira o encontro. Estiveram presentes os estudiosos Luitigarde Barros, Renata Marinho Paz e Antônio Braga.

Também participaram das palestras e debate os professores Marcos Costa Lima, da UFPE, que fará abordagem sobre Políticas Internacionais; Joselina Silva, da UFC Cariri – trará como tema “Etnicidade”; e Carmem Izabel Rodrigues, que ministrará palestra sobre as “Festas Populares na Amazônia: tradições festivas, mestiças, modernas”. A professora Paula Cordeiro encerra o ciclo de palestras da programação do dia, com o tema “A Formação do Cientista Social”.

O encontro visa congregar todas as escolas de Ciências Sociais do Norte e Nordeste em um espaço que propicie a troca de experiências nas pesquisas antropológicas, sociológicas e políticas e nas lutas em melhoria dos cursos, das universidades e da sociedade.

O evento é um espaço, também, de caráter deliberativo quanto ao desenvolvimento do Movimento Estudantil nas Ciências Sociais. Por isso, a assembléia final do encontro aponta as bandeiras de luta levantadas em caráter regional. As demandas regionais serão encaminhadas para o evento nacional da área.

Frases para depois do artigo

“Nada é mais adequado que o exame para inspirar o reconhecimento dos veredictos escolares e das hierarquias sociais que eles legitimam” - Pierre Bourdieu

¨É verdade que a análise sociológica não faz qualquer concessão ao narcisismo e que opera uma ruptura radical com a imagem profundamente complacente da existência humana defendida por aqueles que, a qualquer preço, desejam pensar-se como ¨os mais insubstituíveis dos seres¨. Mas não é menos verdade que ela é um dos instrumentos mais poderosos de conhecimento de si, como ser social, isto é, como ser singular. Se ela põe em questão as liberdades ilusórias que dão aqueles que vêem nessa forma de conhecimento de si uma ¨descida aos infernos¨ e que periodicamente aclamam o último grito da moda como ¨sociologia da liberdade¨ – defendida com esse nome por um autor há bem uns trinta anos – ela oferece alguns dos meios mais eficazes de acesso à liberdade que o conhecimento dos determinismos sociais permite conquistar contra os determinismos.¨ – Pierre Bourdieu

As ciências sociais francesas e as injecções de dinheiro da CIA

As ciências sociais francesas e as injecções de dinheiro da CIA
por Bertrand Chavaux

Desde os começos da Guerra Fria, a CIA tem tido a preocupação de assumir o controle do ensino das ciências sociais em França para subtraí-lo à influência dos comunistas. Apoiando-se no físico Pierre Auger, então director do ensino superior, a Agência promoveu a criação de uma nova secção na Escola Prática de Altos Estudos, à margem do CNRS. Depois, financiou novas instalações, a Casa das Ciências do Homem, e conseguiu, em 1975, transformá-la na École des hautes études en sciences sociales (EHESS), presidida pelo historiador anticomunista François Furet.

A história oficial da Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais (EHESS), escrita por François Furet e seus fiéis, insiste no percurso que teria permitido à instituição emancipar-se da influência dos seus mecenas estado-unidenses.

A escola, resultado de meio século de ingerência cultural estado-unidense, foi criada graças a créditos distribuídos, durante a Guerra Fria, pelas fundações Ford e Rockefeller. Apesar das suas origens diplomáticas, a instituição teria sabido “ultrapassar a ideia que a criou”, renovando “uma disciplina (a História) nas antigas tradições europeias” [1] e, tornando-se assim, segundo esta versão oficial, um pólo intelectual independente, liberto dos constrangimentos impostos pelos mecenas.

Tal tese, destinada a fazer face a possíveis acusações [2] , encobre os objectivos políticos e culturais ligados à criação da EHESS. Este controle da escola pelos historiadores, longe de exprimir qualquer emancipação da instituição, esclarece as opções estratégicas da Fundação Rockefeller, que, a partir dos anos 50, faz da História um dos instrumentos privilegiados da diplomacia cultural estadunidense.

A INSTRUMENTALIZAÇÃO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS SEGUNDO ROCKEFELLER

A partir de 1901, John D. Rockefeller (1839-1937), seguindo os conselhos do seu amigo Frederik Gates, um pastor baptista, investiu uma parte da sua colossal fortuna no financiamento de projectos filantrópicos. Assim, cria em Nova Iorque, em 1901, o Rockefeller Institute of Medical Research (que se torna em 1965 a Rockefeller University), depois, em 1902, o General Education Board e, em 1909, a Rockefeller Sanitary Commission. Estas acções viradas para a medicina e a educação levam à criação da Fundação Rockefeller. A história oficial retém apenas a vontade de “promover o bem-estar da Humanidade”, inspirada nas ideias de Andrew Carnegie que, em 1889, publica O Evangelho da Riqueza . Na realidade, a Fundação Rockefeller foi essencialmente um meio de contornar as leis “antitrusts”. Em 1911, a Standard Oil é fragmentada em várias filiais. Supostamente, esta decisão política poria fim ao monopólio que a companhia detinha nos mercados estado-unidenses do petróleo. Desde 1910, John D. Rockefeller propõe o projecto de uma Fundação, “ sob a protecção do Congresso ”, que é criada em 1913. Tal cobertura permite à família Rockefeller controlar as diferentes filiais resultantes da fragmentação ordenada pelo Tribunal Supremo em 1911. A Fundação, por exemplo, possui sozinha três milhões de acções da Standard Oil de New Jersey, a primeira empresa petrolífera do mercado.

As actividades filantrópicas da Fundação estão frequentemente ligadas aos interesses económicos e sociais da família Rockefeller [3] . Assim sendo, as ciências sociais são consideradas como um instrumento de controle social, uma aposta cultural na luta contra o socialismo. A finais de 1913, uma greve de vários meses numa filial da Standard Oil acabou, em 20 de Abril de 1914, no massacre de Ludlow, um dos episódios mais trágicos da repressão da classe operária estado-unidense.

A Fundação havia tentado estudar o movimento no quadro de um inquérito sobre as “ relações industriais ” para melhor poder canalizá-lo. Fiel a esta concepção instrumentalista das ciências sociais, a Fundação favorece, nos Estados Unidos, o seu desenvolvimento em diferentes universidades (Yale, Harvard, Chicago, Columbia) e, na Europa, assegura uma grande parte do financiamento de organismos como a London School of Economics que acolhe economistas comprometidos com a Société du Mont-Pèlerin [4] (nomeadamente Fredrich von Hayek e o seu mestre Ludwig von Mises) e, em Berlim, a Deutsche Hochschule für Politik. Estes centros intelectuais servirão, na altura da Guerra Fria, de bases europeias aos ideólogos anticomunistas financiados pelos Estados Unidos (Congrès pour la Liberté de la Culture, Société du Mont-Pèlerin…).

A FUNDAÇÃO ROCKEFELLER EM FRANÇA

Em 1917, a Fundação Laura Spellman Rockefeller (do nome da mulher do patriarca) instala-se em Paris no quadro de um programa de luta contra a tuberculose. Nessa época, em França, o financiamento privado das ciências sociais é uma prática muito marginal. Só Ernest Lavisse, director da Escola Normal Superior (ENS) de 1906 a 1919, tenta a experiência do mecenato, criando, com a ajuda de um rico banqueiro, Albert Kahn, na rua Ulm, o Comité Nacional de Estudos Sociais e Políticos (CNESP). O CNESP, oficializado pelo sucessor de Ernest Lavisse na ENS, Gustave Lanson, torna-se o “Centro de Documentação Social”, organismo dirigido por Célestin Bouglé, onde jovens investigadores iniciam a sua carreira.

Em 1931, a Fundação Rockefeller responde favoravelmente aos pedidos de financiamento de Charles Rist, professor de economia, vice-governador do Banco de França, que pretende criar um Instituto Científico de Investigações Económicas e Sociais. Ao mesmo tempo, a organização filantrópica recusa-se a apoiar um projecto mais ambicioso de Marcel Mauss. Preocupada já com a situação política francesa, a Fundação Rockefeller considera Mauss, sobrinho do sociólogo Emile Durkheim, “ muito à esquerda ”. Em 1932, o Centro de Documentação Social consegue créditos para financiar dois postos de investigador a tempo inteiro. Raymond Aron e Georges Friedman [5] serão, durante certo tempo, titulares desses postos.

De 1933 a 1940, o Instituto Científico de Investigações Económicas e Sociais, dirigido por Charles Rist, recebe 350 000 dólares; o Conselho Universitário da Investigação Social, presidido pelo reitor Charléty, 166 000 dólares; o Centro de Estudos de Política Externa, um outro organismo dirigido pelo reitor Charléty, 172 000 dólares.

Durante a Segunda Guerra Mundial, membros das fundações Ford e Rockefeller organizam o exílio do sociólogo Gurvitch, do antropólogo Lévi-Strauss e do físico Auger. Georges Gurvitch cria em Nova Iorque um instituto de sociologia. Em França, nas instalações da Fundação Rockefeller, alguns investigadores, entre os quais Jean Stoetzel [6] , continuam os seus trabalhos no seio de um organismo criado pelo regime de Vichy, a Fundação Alexis Carrel (do nome de um biólogo, Pémio Nobel em 1912, reputado pelas suas teses eugenistas)[7] .

DA 6ª SECÇÃO À CASA DAS CIÊNCIAS DO HOMEM

Em Junho de 1948, o Conselho Nacional de Segurança formaliza a criação da rede de ingerência anticomunista dos Estados Unidos nos estados aliados, o staybehind [8] . Aquando das reuniões preparatórias, John D. Rockefeller III apresenta a sua Fundação como mais apta que a organização do Plano Marshall para intervir em certos meios universitários onde dispõe de antigos contactos e onde age de novo, não obtendo luz verde senão para determinados alvos.

Ele já havia lançado na Áustria um “ Plano Marshall do Espírito ”, particularmente com o seminário de estudos americanos de Salzbourg, dirigido por Clemens Heller. A Fundação volta-se naturalmente para os intelectuais franceses, que há muito patrocina. Pierre Auger foi nomeado Director do Ensino Superior logo no seu regresso a França em 1945.

Durante a guerra, ele tinha ensinado, primeiro, na Universidade de Chicago, onde descobrira um departamento de Ciências Sociais dinâmico que servia de base aos neoconservadores [9] .

Depois, participara nos trabalhos da bomba atómica com britânicos e canadianos. Nas suas novas funções, ele enfrentou-se, no controle do Centro Nacional de Investigação Científica (CNRS) com a obstrução do Prémio Nobel Frédéric Joliot, comunista e pacifista, que se opunha à bomba. Elaborou, então, o projecto de tirar ao CNRS, por um lado, o Centro de Energia Atómica (CEA) e, por outro lado, um pólo de Ciências Sociais, que devia ficar ligado à Escola Prática de Altos Estudos (EPHE) [10] , com o qual teria constituído a 6ª Secção. Para animar esse pólo, escolheu intelectuais do grupo dos Annales [11] (Morazé, Friedmann, Braudel, Labrousse, Le Bras…).

E lá está a Fundação Rockefeller, evidentemente, para financiar esta experiência, quando em França apenas os institutos privados recorriam habitualmente ao mecenato privado.

Foram estabelecidos contactos prévios por intermédio de Claude Lévi-Strauss, na altura adido cultural da embaixada de França em Washington, depois por Charles Morazé, que se encontra com John Marshall [12] na primeira conferência da UNESCO, verdadeiro espaço de recrutamento para a constituição de redes pro-Estados Unidos na Europa. Charles Morazé, professor de História, colaborador dos Annales , membro da Fundação Nacional das Ciências Políticas, dispõe de todas as características políticas e intelectuais requeridas pela Fundação Rockefeller. Ele torna-se um dos actores-chave da criação da 6ª Secção, cujo primeiro conselho teve lugar em 1948. Um quarto dos fundos provém da Fundação Rockefeller [13] . No contexto ideológico da Guerra Fria, as organizações filantrópicas servem de biombo a operações de intervenção cultural, por vezes directamente conduzidas pelos serviços secretos dos Estados Unidos. Assim, em 1950, membros da CIA permitem a criação, em Berlim, do Congresso para a Liberdade da Cultura, organização que agrupa intelectuais hostis ao comunismo [14] . Durante 17 anos, a CIA mascara as origens do seu financiamento, utilizando a Fundação Ford. Em 1952, a Fundação Rockefeller entra com 4 500 000 francos para que Febvre e Morazé prossigam na organização da 6ª Secção.

Em 1945, graças a Clemens Heller [15] , agora instalado em Paris, a 6ª Secção obtém novos créditos a fim de organizar um programa de estudos por “ áreas culturais ” [16] .

Em 1959, é a Fundação Ford [17] que intervém por sua vez: financia maciçamente os trabalhos de Pierre Auger, a começar pelo Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN), depois entregando um milhão de dólares para a construção de uma Casa das Ciências do Homem, que possa albergar a 6ª Secção da Escola Prática de Altos Estudos e facilitar o seu desenvolvimento [18] .

Acabada a construção definitiva dessa Casa, a 6ª Secção aspira a autonomizar-se definitivamente. O decreto de 23 de Janeiro de 1975 cria oficialmente a Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais (EHESS), instituição à margem da universidade francesa, que vai acolher inúmeros ideólogos pró-estado-unidenses. Desde 1977, François Furet, historiador anticomunista, torna-se o seu presidente. Recruta, assim, o seu amigo Pierre Rosanvallon, com quem, anos mais tarde, lançará a Fundação Saint-Simon [19] . Em 1980, Furet cria um Centro de Estudos Norte-Americanos no seio da Escola. Resultado de um longo processo de ingerência cultural estado-unidense, a EHESS é uma instituição híbrida, financiada simultaneamente pelo Estado dos Estados Unidos (bolsas Fulbright) e pela Fundação Franco-Americana de Nova Iorque [20] , uma nova cobertura da CIA criada expressamente em 1976.

NOTAS

[1] Brigitte Mazon, Histoire de l’École des hautes études en sciences sociales, Le rôle du mécénat américain (1920 – 1960) , Cerf. Tese de Brigitte Mazon sob a direcção de François Furet, presidente da EHESS de 1977 a 1985.

[2] « La richesse est suspecte. Et l’argent américain suscite des amalgames : on y voit la « main de l’étranger », on soupçonne l’impérialisme, on accuse la CIA ». Ibid, p. 13.

[3] A Fundação Rockefeller também financia organizações, como a Population Council, encarregadas de pôr em prática políticas de limitação dos nascimentos.

[4] Hayek é nomeado professor na London School of Economics em 1931. «Friedrich von Hayek, pape de l’ultra-libérisme», Voltaire , 4 de Março de 2004.

[5] Georges Friedmann (1902 – 1977), professor de filosofia de origem burguesa, torna-se, a partir dos anos 20, especialista pseudo-marxista da condição operária e dos problemas ligados ao progresso técnico («a mecanização»). Contrariamente aos filósofos de entre as duas guerras (Politzer, Nizan, Aron, Lefebvre), a especulação filosófica parece-lhe insuficiente. Segundo ele, o estudo da classe operária requer um trabalho empírico (mais próximo do jornalismo do que da investigação sociológica no terreno). Em 1925, visita as fábricas da Toscânia, reunindo testemunhos de operários. A recolha de dados, em França, nos Estados Unidos e União Soviética, alimenta o seu inquérito acerca da organização do trabalho industrial, realizado no quadro do Centro de Documentação Social da Escola Normal Superior, dirigido por Célestin Bouglé.

[6] Jean Stoetzel, discípulo de Lazarsfeld, é o fundador do IFOP, o primeiro instituto francês de sondagens. Ele contribuiu, ao arrepio da tradição francesa representada por Emile Durkheim, para a importação dos métodos da sociologia empírica estado-unidense.

[7] Alexis Carrel foi membro da conspiração de “La Cagoule”. Faz parte do comité executivo animado por Coutrot do Centro de Estudos dos Problemas Humanos, de que Georges Friedmann é um dos conselheiros. Também é membro do Conselho Geral do Centro Francês de Síntese, grupo sediado em Vichy, sob a protecção de Philippe Pétain.

[8] « Stay-behind: les réseaux d’ingérence américains » por Thierry Meyssan, Voltaire , 20 de Agosto de 2001.

[9] Este departamento será financiado em breve pela Fundação Olin e acolherá François Furet nos anos 80.

[10] A EPHE é fundada em 1868 por Victor Duruy, então ministro da Instrução Pública. Vários projectos que visavam criar uma 6ª Secção (projecto Mauss, projecto Tabouriech) fracassam por falta de créditos suficientes.

[11] A escola dos Annales designa um grupo de historiadores cujas personalidades mais célebres são Fernand Braudel, Marc Bloch, Lucien Febvre e, em menos medida, Charles Morazé.

[12] John Marshall faz parte da divisão das Ciências Humanas da Fundação Rockefeller e é encarregado, com John Willits e Robert T. Crane, de encontrar em França os futuros beneficiários das subvenções. John Willits, director do departamento das Ciências Sociais da Fundação, contacta nomeadamente, por seu lado, Jacques Rueff, membro da Sociedade de Mont-Pèlerin.

[13] Estes fundos permitem subvencionar o Centro de Investigação Histórica, dirigido por Braudel, e o Centro de Estudos Económicos, dirigido por Morazé.

[14] « Quand la CIA finançait les intellectuels européens » por David Boneau, Voltaire , 27 de Novembro de 2003.

[15] Clemens Heller (1917 – 2002), diplomado por Harvard, de origem austríaca, filho do editor de Freud em Viena, organiza o seminário de Salzbourg, depois chega a França em 1949. A sua casa, na rua Vaneau, foi lugar de encontros de intelectuais. Este salão parisiense acolheu Claude Lévi-Strauss e Margaret Mead, nomeadamente.

[16] Em Outubro de 1955, Kenneth W. Thompson pede que o projecto de Angelo Tasca (conhecido por Angelo Rossi) de uma História da Internacional Comunista seja integrado no programa das «áreas culturais» da 6ª Secção. Rossi, fundador do Partido Comunista Italiano, funcionário do regime de Vichy, é o candidato apoiado por Raymond Aron para contrabalançar as teses políticas de Jean Chesneaux. É pai de Catherine Tasca, ministra da Cultura e da Comunicação do governo Jospin (2000 – 2002). Kenneth Tompson foi membro dos serviços de contra-espionagem estado-unidenses de 1944 a 1946 e participou na fuga de responsáveis nazis, depois foi professor na Universidade de Chicago em 1948, antes de fazer parte da Fundação Rockefeller em 1953.

[17] «La Fondation Ford, paravent philanthropique de la CIA» e «Pourquoi la Fondation Ford subventionne la contestation», Voltaire , 5 e 19 de Abril de 2004.

[18] Este projecto é apoiado por Febvre, Braudel e Gaston Berger, Director Geral do Ensino Superior.

[19] « La face cachée de la Fondation Saint-Simon», Voltaire, 10 de Fevereiro de 2004.

[20] De 1997 a 2001, a Fundação Franco-Americana é presidida por John Negroponte, que passa a dispor de um gabinete nas instalações da EHESS.

O original encontra-se em http://www.reseauvoltaire.net/article14465.html.
Tradução de MJS.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

A sociologia da violência

A sociologia da violência 

Roger Spode BruttI


I) INTRODUÇÃO

Neste sucinto escrito, visar-se-á alcançar respostas claras e diretas a alguns básicos questionamentos relativos à criminologia, sob um prisma sociológico.

Efetivamente, indagar-se-á se existe, ou não, uma relação entre estrutura social e violência.

Além disso, esclarecer-se-á qual seria o fator principal de violência existente na estrutura social brasileira dos dias atuais.

II) ESTRUTURA SOCIAL E VIOLÊNCIA

Existe, de fato, uma relação cristalina entre estrutura social e violência?

Em verdade, a resposta é óbvia.

Acentuadamente em países subdesenvolvidos, onde se vê com maior nitidez a diferença entre as classes sociais, os crimes contra o patrimônio proliferam-se.

Sabe-se, sem gris algum, que a grande gama de ocorrências policiais registradas no Brasil, v.g., referem-se a delitos cujo bem jurídico tutelado é o patrimônio, mais especificamente no que concerne ao furto.

Dessa arte, não há como se falar em inexistência relacional entre estrutura social e crime.

Mais ainda, há de ser asseverado que a relação mostra-se patentemente íntima, sendo o último conseqüência da primeira.

Em países subdesenvolvidos, a governança procura enfatizar a questão produtiva, relegando para depois questões como aquelas que norteiam aspectos culturais. A mão-de-obra braçal, p.ex., constitui-se, em países dessa estirpe, a suprema prioridade.

E não é de se estranhar, verdadeiramente, que interna corporis [1] o país faça com os seus o que, no exterior, os países desenvolvidos fazem com aqueles menos desenvolvidos, ou seja, explorá-los economicamente até os limites da suportabilidade.

Efetivamente, nessa linha de raciocínio, vale lembrar o pensamento de BRUM, qual seja, “o Brasil é considerado uma grande empresa extrativa, integrada na engrenagem do sistema mercantilista, explorada em função da metrópole e destinada a fornecer produtos primários para abastecer os centros econômicos da Europa”[2].

Por outro lado, em países mais evoluídos economicamente, onde a senda desumana e afoita rumo ao desenvolvimento já se tornou uma sombra do passado, percebe-se, sem grande esforço, que a cultura, os valores postos em jogo, os objetivos sociais, a qualidade intelectual da sociedade, o cuidado para com o lazer, enfim, possuem características latentemente distintas daquelas observadas nos países pobres.

A razão disso tudo advém, resplandecentemente, da dissimilitude econômica entre os territórios, ocasião em que cada comunidade internacional, ou mesmo local, vive o seu próprio “ciclo”, entendido este como a atualidade econômica, ou de desenvolvimento econômico, vivenciado por cada sociedade em particular e em um momento em particular.

Aliás, BRUM já esclarecia que “o ciclo pode ser definido como o período em que determinado produto, beneficiando-se da conjuntura favorável do momento, constitui-se no centro dinâmico da economia, atraindo as forças econômicas – capital e mão-de-obra – e provocando mudanças em todos os outros principais setores da sociedade”[3].

III) FATOR-MOTOR DE VIOLÊNCIA NA ESTRUTURA SOCIAL BRASILEIRA

Qual seria, então, o principal fator de violência existente na estrutura social brasileira hodierna?

Basicamente, como já se deixou transparecer acima, percebe-se que o fator primordial é o econômico.

De efeito, havendo desenvolvimento econômico, o foco afasta-se da “corrida maluca”[4] dos países menos desenvolvidos em busca de um lugar ao sol.

Por outro lado, não havendo o apetecido desenvolvimento da economicidade local, a motivação obsessivo-compulsiva dos países menos abastados nunca cessará, dirigindo-se os seus intuitos, inexoravelmente e com quase absoluta exclusividade, às benesses pretendidas por meio da senda econômica, mostrando-se referida conjuntura em uma característica, em um estigma mesmo, ínsito dos “países pobres”[5].

Nesse contexto, pois, pode-se dizer que, dentro da estrutura social brasileira, o subdesenvolvimento econômico é o grande leitmotiv [6] da violência.

Delitos de furto, de roubo, de latrocínio e de estelionato sãos sempre os mais observados nos registros de ocorrências policiais. O “risco social” [7], assim sendo, é mais cristalino e notório em países ainda não perfeitamente estruturados economicamente.

Claro, ainda, que o “modelo” adotado pelo país influencia sobremaneira na sua estrutura social. Assim, haverá nítida distinção de estrutura entre países que, distintamente um do outro, inclinaram-se ou para o modelo comunista, [8] ou socialista[9] ou capitalista[10].

Todavia, o modelo capitalista é o grande vetor contemporâneo, sendo conseqüência sua o enfoque social dirigido ao patrimônio.

Daí, por óbvio, não causa espanto a agressão de alguns menos favorecidos à abastança ostentada por aqueles mais privilegiados.

Dessa pândega toda, por fim, vale salientar, exsurge que alguns mais desavisados ainda esbravejam que a criminalidade é conseqüência de uma falta de maior “ação” do Estado repressor (Polícia). Todavia, para qualquer um que se proponha a levar a efeito um raciocínio um pouco mais demorado, logo se perceberá, conforme sobejamente acima já expendido, que a criminalidade é pura conseqüência de uma causa arraigada fortemente na estrutura social vigente.

IV) CONCLUSÃO

Diante do que se expendeu nessa dissertação, infere-se que a situação nascida de um encontro de determinadas circunstâncias envoltas no subdesenvolvimento econômico incita sobremaneira a violência a qual se ergue e se descobre em um terreno que acaba tornando-se fértil e apropriado ao seu reinado.

Todavia, e por derradeiro, é ainda perfeitamente possível, por intermédio de um encadeamento lógico de juízos e de pensamentos sensatos, deduzir-se que o motivo condutor da violência longe está de assentar-se em uma possível carência de repressão por parte dos órgãos de segurança pública, porquanto estes apenas lidam com as conseqüências de uma violência preexistente, não com as suas causas.

Notas:

1. Questão “interna corporis “; questão restrita em seus efeitos à sociedade, ou instituição, que a decidiu; questão de competência exclusiva de sociedade ou instituição.

2. BRUM, Argentino J. O Desenvolvimento econômico brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1982, p.20.

3. BRUM, A. op.cit., p.25.

4. Hanna Barbera. The Wacky Races (CBS,1968).

5. No que tange à “classificação” dos países, angariando-se a adjetivação de pobres ou ricos, existe o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O IDH é uma medida comparativa de pobreza, alfabetização, educação, esperança de vida, natalidade e outros fatores para os diversos países do mundo. É uma maneira padronizada de avaliação e medida do bem-estar de uma população, especialmente bem-estar infantil. O índice foi desenvolvido em 1990 pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq, e vem sendo usado desde 1993 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em seu relatório anual. Todo ano, os países membros da ONU são classificados de acordo com essas medidas. Os países com uma classificação elevada freqüentemente divulgam a informação, a fim de atrair imigrantes qualificados ou desencorajar a emigração. O Brasil está na 65ª colocação no ranking do IDH de 2005 (em 177 países no total), com um índice de 0,792 (médio desenvolvimento humano). Desde 1990, já subiu 14 posições. Apesar de ter melhorado nos critérios educação e longevidade, o Brasil caiu no critério renda. Em educação, o Brasil tem uma taxa de 11,6% de analfabetismo (91º no ranking mundial) e na taxa bruta de matrícula (um dos melhores avanços recentes na área) o Brasil é 26º colocado no ranking mundial. Em educação, o país tem desempenho melhor que a média mundial e regional.

6. [Al., 'motivo condutor'.] S. m. 1. Mús. Tema associado, no decurso de todo o drama musical, a uma personagem, uma situação, um sentimento, ou um objeto. 2. Liter. Repetição, no decurso de uma obra literária, de determinado tema, a qual envolve uma significação especial. 3.P. ext. Tema ou idéia sobre a qual se insiste com freqüência.

7.[Com cap. Tb. se usa o correspondente vernáculo, motivo condutor.] A teoria do risco social acabou promovendo um estrondioso debate acerca da reflexividade da vida contemporânea e a presença sempre constante da imponderabilidade e indeterminação como normas da modernidade. A busca pela inovação tecnológica, sedimentada no alcance de resultados incertos e instáveis, externaria a materialização do risco social e o desafio para a construção de uma sociedade democrática e sustentável (Beck, 1992).

8. Comunismo é um modelo de sociedade inspirado a partir dos pensamentos inicialmente elaborados por Karl Marx e, posteriormente, continuados por diversos outros teóricos, notavelmente Friedrich Engels, Vladimir Lenin, Leon Trotsky, dentre inúmeros outros. Uma das principais obras fundadoras desta corrente política é “O Manifesto do Partido Comunista” de Marx e Engels. O Comunismo é um sistema econômico que nega a propriedade privada dos meios de produção. Num sistema comunista os meios de produção são de propriedade comum a todos os cidadãos e são controlados por seus trabalhadores. Sob tal sistema, o Estado não tem necessidade de existir e é extinto.

10. Socialismo é um sistema político onde todos os meios de produção pertencem ao Estado, onde não existe o direito à propriedade privada e, em tese, a desigualdade social. A expressão socialismo foi consagrada por Robert Owen em 1841, terá sido pela primeira vez utilizada com uma certa precisão por Pierre Leroux, em 1831, seguido de Fourier, 1833, depois de começar a circular por volta de 1820.

11. Capitalismo é definido como um sistema económico baseado na propriedade privada dos meios de produção, no lucro, nas decisões quanto ao investimento de capital feitas pela iniciativa privada, e com a produção, distribuição e preços dos bens, serviços e exploração da mão-de-obra afetados pelas forças da oferta e da procura.

Monumentos e Colonialismo

Monumentos e Colonialismo 

Boaventura de Sousa Santos

A New 7 Wonders Portugal, SA está a lançar um concurso com vista a eleger as “7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo”. Os resultados serão conhecidos no próximo dia 10 de Junho. Estamos, pois, no mundo dos negócios e do mediatismo, e os critérios por que se pauta este mundo têm pouco a ver com a busca da verdade ou da justiça. Têm antes a ver, neste caso, com os lucros que podem ser obtidos com a exploração da história, da obtenção de direitos de exploração do conceito “7 Maravilhas”, da publicidade, da promoção do turismo, etc. Perante isto, pode estranhar-se o incómodo e o protesto que este concurso tem vindo a suscitar no espaço de língua oficial portuguesa, envolvendo sobretudo investigadores que se dedicam ao estudo do império colonial português ou ao estudo dos países independentes que emergiram do fim do império e educadores que, neste espaço, procuram passar às novas gerações uma visão complexa da história que, longe de ser passada, continua a afectar as suas sociedades e as suas vidas.

O incómodo e o protesto têm razões fortes e a principal é que este concurso implica não apenas com a história de Portugal, mas também com a história dos países que estiveram sujeitos ao colonialismo português, e fá-lo de modo a ocultar, precisamente, o colonialismo, ou seja, o contexto social e político em que esses monumentos foram erigidos e o uso que tiveram durante séculos. O olhar que é orientado para ver a beleza da arte e da arquitectura dos monumentos é igualmente orientado para não ver o sofrimento inenarrável dos milhões de africanos que, entre o século XV e o século XIX, sacrificaram a vida para que muitos desses monumentos tivessem vida, quer os monumentos onde foram comprados como “propriedade móvel”, quer os monumentos que foram construir no outro lado do Atlântico. Portugal foi um participante activo no tráfico de escravos, a maior deportação da história da humanidade, que só na África Ocidental envolveu entre 15 e 18 milhões de escravos. Se tivermos em mente que, por cada escravo que chegou à América, cinco morreram nos processos de captura, no transporte do interior para os armazéns (alguns deles, os monumentos de hoje), durante o cativeiro à espera de transporte ou na viagem, estamos a falar de 90 milhões de pessoas. E não esqueçamos que a esperança média de vida dos que chegavam à América era apenas de mais cinco ou seis anos.

Os monumentos devem ser respeitados e recuperados para nos devolverem a história, não para no-la ocultar. É por essa razão que ninguém imagina que se promova a visita a Auschwitz apenas para conhecer a arquitectura carcerária modernista da Alemanha. É, por isso, perturbador que o comissário do concurso diga que “esta visita ao património de origem portuguesa no Mundo é feita com um sentimento de orgulho e de satisfação pelo legado histórico do nosso passado”, e acrescente que “os fluxos de pessoas e de informação à escala global aproximam-nos de todos enquanto partes constituintes de uma mesma humanidade”. Teremos de concluir daqui que, porque o tráfico de escravos foi um desses fluxos, os monumentos são um monumento ao colonialismo português?

Todos nós que trabalhamos no espaço de língua portuguesa fazêmo-lo com a convicção de que Portugal é um país de futuro e que esse futuro passa pelas relações fraternas que soubermos criar com os países que estiveram sujeitos ao colonialismo português. Mas para que isso ocorra é necessário assumir a história em toda a sua complexidade e não retirar dela apenas o que nos convém. É com base neste pressuposto que estamos a construir uma vibrante comunidade científica e educativa no espaço de língua oficial portuguesa. O património em causa é tanto de origem portuguesa como é de origem angolana, moçambicana, guineense caboverdiana, indiana ou brasileira. Por um critério mínimo de justiça histórica, as instituições que patrocinam este concurso devem exigir à empresa total transparência de contas e que os lucros sejam integralmente destinados à recuperação dos monumentos.

Frases para depois do artigo

A modernidade confinou-nos numa ética individualista, uma microética que nos impede de pedir, ou sequer pensar, responsabilidades por acontecimentos globais. – Boaventura de Sousa Santos

É preciso democratizar a democracia. – Boaventura de Sousa Santos

considera que uma transição paradigmática, como esta que atualmente se processa, implica sempre uma nova visão da subjetividade e do conhecimento. –
Boaventura de Sousa Santos

A violência é um resultado da desigualdade social. –
Boaventura de Sousa Santos

Resenah sobre "DISCURSO SOBRE AS CIÊNCIAS"

UMA BREVE ANÁLISE DO “DISCURSO SOBRE AS CIÊNCIAS” DE BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS
Texto confeccionado por
(1) Maciel Colli 

Atuações e qualificações
(1) Especializando em Ciências Penais pela PUC-RS, bacharel em Direito pela PUC-RS.

A resenha desta obra será feita da seguinte maneira: inicialmente farei um resumo abrangendo os três pontos centrais da obra (“O paradigma dominante”, “A crise do paradigma dominante”, “O paradigma emergente”), posteriormente, irei expor considerações críticas. Saliento que os dois primeiros capítulos serão tratados com maiores detalhes na parte do resumo. Deixarei para analisar e esclarecer o terceiro capítulo na parte crítica deste trabalho, juntamente com as exposições de minhas idéias sobre o assunto/texto.

1. INTRODUÇÃO

A obra “Um discurso sobre as Ciências” apresenta em suas primeiras páginas a crise de identidade das ciências no tempo em que vivemos. Esse assunto será desdobrado ao longo da obra, sendo analisados aspectos históricos das ciências naturais e sociais, bem como o atual contexto cientifico em que nos encontramos e as perspectivas para o futuro.

O autor sustenta, inicialmente, que nos encontramos em uma fase de transição entre “tempos” científicos. Para uma melhor compreensão, Boaventura utiliza-se do exemplo de Rousseau, que na obra “Discours sur Le Sciences et lês Arts”, de 1750, buscou respostas por meio de perguntas elementares e simples. Para tanto, o autor estrutura a sua obra da seguinte maneira: 1º) caracteriza a ordem científica hegemônica; 2º) analisa, sob condições teóricas e sociológicas, a crise dessa hegemonia; 3º) propõe um perfil de uma ordem científica emergente, novamente sob condições teóricas e sociológicas.

2. O PARADIGMA DOMINANTE

A ordem científica dominante, tratada na obra como “O paradigma dominante”, diz respeito ao modelo de racionalidade herdado a partir do século XVI e consolidado no século XIX. Essa nova racionalidade científica vislumbra uma única forma de se atingir o conhecimento verdadeiro, aquela decorrente da aplicação de seus próprios princípios epistemológicos e de suas regras metodológicas. Sendo um modelo totalitário, esta nova visão de mundo apresentava distinções fundamentais aos modelos de “saberes” aristotélicos e medievais: 1º) opunham-se conhecimento científico e conhecimento do senso comum (desconfiava-se das evidências da experiência imediata e do senso comum e buscava-se respostas na observação científica sistemática, rigorosa e controlável dos fenômenos naturais); 2º) opunham-se natureza e pessoa humana (buscava-se conhecer a natureza para poder controlá-la e dominá-la).

Para que ocorresse uma observação e experimentação que levasse a um conhecimento mais profundo e rigoroso da natureza, empregava-se, como instrumento privilegiado de análise, a matemática. A matemática permitia que a natureza, bem como os seus fenômenos, fossem analisados e estruturados sob dois pilares: 1º) quantificação como sinônimo de conhecimento, pelo emprego rigoroso das medições; 2º) redução da complexidade do mundo, por meio da divisão e classificação sistemática (tendo como divisão primordial aquela entre condições iniciais (reino da complicação e do acidente, onde é necessário selecionar as condições a serem observadas) e leis da natureza (reino da simplicidade e da regularidade, onde há a possibilidade de se observar e medir de forma rigorosa a natureza).

A descoberta das leis da natureza, o isolamento das condições iniciais relevantes, a produção de resultados independentemente do lugar e tempo das condições iniciais, o conhecimento causal da ciência moderna (que busca entender o “como” ao invés do “por quem” ou “para que”) promoveram, dentre outras conseqüências, a previsibilidade dos fenômenos naturais. É por meio dessa suposta previsibilidade que se firmou o conhecimento na idéia de ordem e estabilidade do mundo, sendo este “estável” e “determinável” por meio de leis físicas e matemáticas que poderiam o decompor. Eis aí o fundamento do chamado determinismo mecanicista que irá sustentar a ciência moderna (o mundo-máquina) com a sua idéia de um mundo cognoscível pela decomposição dos seus elementos constituintes.

Por se tratar de um modelo de racionalidade hegemônica da época, a ciência moderna, por intermédio de precursores como Bacon, Vico e Montesquieu, não demorou a permeabilizar o campo do comportamento social. Como bem afirma o autor, “tal como foi possível descobrir as leis da natureza, seria igualmente possível descobrir as leis da sociedade”(1).

Decorre daí, em meados do século XIX, a emergência das chamadas ciências sociais, as quais assumiriam duas correntes distintas de absorção do modelo mecanicista: 1ª) aplicava, dentre as possibilidades existentes, os princípios epistemológicos e metodológicos do estado da natureza (ciências sociais como extensão das ciências naturais); 2ª) estabelecia uma metodologia própria para as ciências sociais, com base na “especificidade do ser humano e sua distinção polar em relação à natureza”(2).

A primeira vertente defendia a aplicação de um modelo de ciências sociais erigido a partir de pressupostos das próprias ciências naturais, tendo portanto um caráter de conhecimento universalmente válido. Como bem assinala Boaventura, ao esclarecer essa corrente, “por maiores que sejam as diferenças entre os fenômenos naturais e sociais é sempre possível estudar os últimos como se fossem os primeiros”(3). Apesar das dificuldades, essa vertente admite a possibilidade de as ciências sociais se compatibilizarem com os critérios rigorosos das ciências naturais. Dessa vertente fazem parte Durkheim e Ernest Nagel.

A segunda vertente irá defender uma metodologia própria, na qual as dificuldades em compatibilizarem-se os dois campos das ciências, naturais e sociais, são instransponíveis. O fundamento detrás desse pensamento é a subjetividade do comportamento humano, o qual, revestindo-se de complexa estrutura, não pode ser analisado e explicado da mesma maneira que é explicada a natureza (por suas características exteriores observáveis). Como ressalta o autor, ao explicar a segunda corrente, “a ciência social será sempre essa ciência subjetiva e não objetiva como as ciências naturais; tem de compreender os fenômenos sociais a partir das atitudes mentais e do sentido que os agentes conferem às suas ações, para o que é necessário utilizar métodos de investigação e mesmo critérios epistemológicos diferentes das correntes nas ciências naturais”(4). Como doutrinadores dessa corrente pode-se citar Max Weber e Peter Winch.

Apesar de serem aparentemente diversas, as duas correntes acabam por dar maior relevância às ciências naturais do que às ciências sociais. De fato, a segunda vertente serviria como um indício da crise do modelo até então hegemônico.

3. A CRISE DO PARADIGMA DOMINANTE

A crise do modelo hegemônico decorre da interatividade de uma série de condições teóricas e sociais. O autor destaca, inicialmente, quatro condições teóricas que contribuíram para a crise do paradigma dominante: 1ª) a teoria da relatividade de Einstein; 2ª) a mecânica quântica; 3ª) o questionamento do rigorismo matemático; 4ª) o avanço do conhecimento nas áreas da microfísica, química e biologia na segunda metade do século XX. Nos últimos parágrafos do capítulo, o autor apresenta, em aspectos genéricos, algumas condições sociais proporcionadas pela crise do paradigma dominante.

A primeira condição teórica diz respeito à teoria da relatividade de Einstein. O ponto-chave aqui repousa na divisão feita pelo cientista entre simultaneidade de eventos no mesmo local e simultaneidade de eventos em locais diferentes (à distância). Partindo dessa idéia, as concepções até então concebidas de espaço e tempo seriam revolucionadas. “Não havendo simultaneidade universal, o tempo e o espaço absoluto de Newton deixam de existir”(5). Passa-se, portanto, a conclusão de que as leis da física e da geometria assentam-se em medições locais, pois dois acontecimentos simultâneos num sistema de referência não são simultâneos noutro sistema de referência.

A segunda condição teórica refere-se à mecânica quântica. Aliada ao princípio da incerteza de Heisenberg e à teoria de Boher, a mecânica quântica demonstra que não é possível observar ou medir um objeto sem interferir nele, “a tal ponto que o objeto que sai de um processo de medição não é o mesmo que lá entrou”(6). Três são as principais conseqüências trazidas pela mecânica quântica: 1ª) sendo limitada a estrutura do conhecimento que pode ser adquirido, as leis da física são meramente probabilísticas; 2ª) o mecanicismo é inviabilizado uma vez que a totalidade do real não é reduzível à soma das partes da divisão feita para a medição do objeto; 3ª) é muito mais complexa a divisão entre sujeito e objeto.

A terceira condição teórica está baseada na teoria de Gödel, a qual acaba por questionar o rigorismo matemático como regra absoluta da constituição da natureza. A principal conseqüência dessa teoria é possibilitar a formulação de proposições “indecidíveis” mesmo à matemática, proporções que não podem ser matematicamente nem refutadas, nem demonstradas.

A quarta e última condição teórica, representada principalmente pela teoria de Prigogine, está relacionada à quebra do modelo de mecanicismo linear do modelo newtoniano. Há, a partir da segunda metade do século XX, o desenvolvimento de um movimento convergente entre ciências naturais e sociais, caracterizado em grande parte pela transdicisplinaridade, designado por Jantsch como o “paradigma da auto-organização”(7).

Esta série de condições teóricas apresentadas propiciaram uma profunda reflexão epistemológica sobre o conhecimento científico. Duas grandes reflexões podem ser destacadas: 1ª) questiona-se o conceito de lei e de causalidade; 2ª) releva-se antes o conteúdo do conhecimento do que a sua forma.

Nos últimos parágrafos do texto são apresentadas, em aspectos genéricos, algumas condições sociais proporcionadas pela crise do paradigma dominante.

4. O PARADIGMA EMERGENTE

O autor propõe um modelo emergente, o qual denomina “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente”(8). Este modelo estrutura-se em um paradigma científico de conhecimento prudente e em um paradigma social de uma vida decente. Para justificar o seu modelo, Boaventura utiliza-se de quatro princípios sobre o conhecimento: 1º) todo conhecimento científico-natural é científico-social; 2º) todo conhecimento é local e total; 3º) todo conhecimento é autoconhecimento; 4º) todo conhecimento científico visa constituir-se em senso comum.

5. ANÁLISE CRÍTICA

Aproveito esta parte do trabalho para propor algumas observações sobre assuntos já apresentados por Boaventura em sua obra. Também neste momento, creio que seja relevante uma análise dos quatro pontos propostos pelo autor em seu novo paradigma (último capítulo da obra).

Boaventura de Sousa Santos propõe um novo modelo de ciência a partir da inter-relação entre ciências naturais e ciências sociais, fraturando o modelo totalitário das ciências naturais, via única e possível para atingir-se uma “verdade universal”. “Verdade” essa adquirida por herança do deslumbramento ocasionado pelas teorias surgidas, principalmente a partir do século XIX, como o evolucionismo de Darwin, o positivismo de Comte e a criminologia de Lombroso. Essas teorias possuíam em seu âmago uma semelhança universal, a de sustentarem os seus estudos, como o a origem da natureza e a natureza do homem, em valores matemáticos, os quais explicariam o mundo racionalmente (e mensuravelmente), garantindo a previsibilidade fenomenológica da natureza.

Não distantes do século XIX, os dias atuais ainda demonstram que a impregnação da idéia deslumbrante da cientificidade (natural) moderna ainda persiste no ensino prestado pelas mais diversas instituições de ensino. Não que as ciências naturais não possuam relevante valor, pelo contrário, contribuem e muito. Porém, ocorre que o modelo mensurável de “verdade” parece ser, ainda hoje, por muitos almejado como maneira perfectibilizada de alcançar-se o onicompreensivismo, mesmo nos campos em que haja tremenda subjetividade, como são aqueles em que a sociedade e, principalmente, o homem, como indivíduo, aparecem como principais objetos de análise.

Ora, me baseio nessa observação por meio de uma experiência propriamente vivida. A matemática, verdadeiro paradigma de ciência natural, onde a regra dos “números previsíveis” impera, sempre foi sobremaneira valorizada em detrimento das disciplinas que envolviam o estudo de questões onde suas regras não poderiam ser aplicadas diretamente (em grande parte pela presença da subjetividade), como por exemplo a filosofia. Não por acaso, uma vez que a herança de teorias como a darwinista persiste em nosso meio, demonstrando clara necessidade de reavaliação dos métodos e valores acerca ensino acadêmico. Deve-se almejar um sistema de ensino do conhecimento onde prevaleçam conjuntamente, em paridade de relevância, disciplinas inerentes tanto às ciências sociais quanto às ciências naturais. Permite-se com essa conduta, um melhor acesso ao conhecimento da sociedade, do ser humano e da cultura pelos aprendizes.

À segunda proposta de conhecimento do festejado paradigma emergente proposto por Boaventura de Sousa Santos (“Todo o conhecimento é local e total”(9)) gostaria de associar a Teoria dos Sistemas. De relevante iniciativa do biólogo alemão Ludwig von Bertalanffy, esta teoria demonstra-se cada dia mais presente nos estudos interdisciplinares acadêmicos e institucionais. O autor português demonstra que o conhecimento propagado pela ciência moderna estava pautado no avanço da especialização, podendo ser sucintamente compreendido no binômio progressivo parcelização-rigorismo, ou seja, quanto mais restrito é o objeto em que incide o estudo mais rigoroso será o conhecimento sobre ele. Logo após, sustenta que não basta que o conhecimento seja adquirido de forma local, isto é, que sejam desenvolvidas análises, descrições e estudos em geral sobre um único objeto ou em um único campo disciplinar, é necessário além disso que haja um compartilhamento sobre a pluralidade de possibilidades de condições a serem “introjetadas” naquele estudo. Esse compartilhamento revela-se pelas vias da transdisciplinaridade e da interdisciplinaridade. “E como Geertz, podemos perguntar se Foucault é historiador, filósofo, sociólogo ou cientista político”(10).

A Teoria Geral dos Sistemas, desenvolvida ao longo do século XX, tendo o biólogo Karl Ludwig von Bertalanffy como relevante precursor teórico, vai, em grande parte, ao encontro da proposta de paradigma emergente apresentado por Boaventura de Sousa Santos, senão vejamos. A Teoria dos Sistemas, tendo hoje grande representação literária na obra “A teia da Vida” (cujo título original é “The Web of Life”) de Fritjof Capra, apresenta dentre suas linhas mestres uma valorização maior do “comportamento coletivo” em relação à atuação independente dos sujeitos que compõem um determinado sistema. A questão nevrálgica a ser explorada pela Teoria dos Sistemas não é a compreensão/controle/previsibilidade sobre um objeto isolado de uma análise (como a ciência moderna pretendeu), mas sim compreender a estrutura organizacional e as conexões interiores e exteriores entre o objeto de estudo e o ambiente do qual ele faz parte(11). Dito de outra maneira, o estudo isolado de um objeto (ou parte dele) ou o estudo de uma simples causalidade de um determinado problema (determinismo mecanicista) dificilmente explicará, completamente, a relação que existe entre o objeto da pesquisa e o ambiente que o cerca. Portanto, é necessário que o estudo desenvolvido considere ao mesmo tempo as multirelações (seja entre objeto-objeto, seja entre objeto-ambiente, seja entre outro tipo de relação) e as multicausalidades (seja entre objeto e resultado, seja entre ambiente e influência em resultado, seja, novamente, em outro tipo de relação) existentes entre ambos, objeto e ambiente.

Para a busca de um conhecimento mais amplo e universal é fundamental que sejam conciliadas as diversas áreas da ciências existentes hoje em dia (sejam as naturais, sociais, humanas, ou aquelas sob quaisquer outras denominações). A interdisciplinaridade bem como a transdisciplinaridade entre campos como filosofia e história, antropologia e direito, biologia e informática, apresentam-se cada vez mais relevantes. Os limites entre uma área e outra tendem a desaparecer gradativamente, fazendo com que um conhecimento universal, multiteórico e multidisciplinar seja, aos poucos, alcançado.

A terceira proposta feita pelo autor lusitano ao novo paradigma que emerge é a de que “todo o conhecimento é autoconhecimento”(12). Dentre outras observações, apresenta-se a separação que a chamada ciência moderna (principalmente no campo das ciências naturais) fez entre o sujeito de investigação e objeto de investigação. O sujeito que investiga não se confundiria com o objeto que estaria por ser estudado, como no exemplo da antropologia que tinha como sujeito de investigação o europeu civilizado e como objeto de investigação o indivíduo “primitivo”. Toda a subjetividade da natureza humana que pudesse interferir nos resultados da pesquisa era afastada. Da mesma maneira, a religião também havia sido afastada, evitando-se que valores morais ou éticos pudessem interferir nos estudos realizados.

Hoje em dia, percebe-se outro modelo de relação sujeito-objeto na prática científica. Clausewitz, citado na obra, sustenta que “podemos afirmar hoje que o objecto é a continuação do sujeito por outros meios”(13). Pode-se dizer, portanto, que, ao contrário da propugnação científica moderna de que os sujeitos deveriam conformar-se com o que por ela fosse determinado, hoje em dia, tem-se que o determinismo científico não é mais o único parâmetro a reger a vida das pessoas (realidade/previsibilidade). Há outras maneiras de se “saber viver”. Como observado pelo autor, “hoje não se trata tanto de sobreviver como de saber viver”(14). O “saber viver” conecta-se à compreensão íntima do homem, enquanto ser vivo, de que há uma união entre ele e o objeto alvo de estudo. O objeto passa a ser, portanto, uma própria extensão do sujeito, implicando que em uma pesquisa seja adquirido conhecimento sobre o objeto, diretamente, e sobre o próprio sujeito, indiretamente.

O quarto e último item integrante do modelo de paradigma emergente proposto é aquele em que “todo o conhecimento cientifico visa constituir-se em senso comum”(15). A ciência moderna considerava o senso comum como “superficial, ilusório e falso”(16), e por isso, o repugnava. A ciência pós-moderna, por sua vez, resgata o valor presente no senso comum. O senso comum permitirá que as diversas formas de conhecimento (das ciências e do próprio cotidiano) interajam entre si, orientando as ações do ser humano e dando sentido à vida (“saber viver”), ao ponto em que coincidem causa e intenção (ciência + senso comum). É neste sentido que Boaventura de Sousa Santos sustenta que “a ciência pós-moderna, ao sensocomunizar-se, não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em autoconhecimento, o desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida”(17).

NOTAS:

1 – SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. Porto, Afrontamento: 2002. p. 18.

2 – SANTOS, op. cit., p. 19.

3 – Ibidem, p. 19.

4 – Ibidem, p. 22.

5 – SANTOS, op. cit., p. 25.

6 – Ibidem, p. 25.

7 – SANTOS, op. cit., p. 29.

8 – Ibidem, p. 37.

9 – SANTOS, op. cit., p. 46.

10 – SANTOS, op. cit., p. 50.

11 – LIN, Y.K. General Systems Theory: A mathematical approach. Nova Iorque: Springer, 1999. p. 9.

12 – SANTOS, op. cit. p. 50.

13 – Ibidem, p. 52.

14 – Ibidem, p. 52.

15 – SANTOS, op. cit., p. 55.

16 – Ibidem, p. 56.

17 – Ibidem, p. 57.

Frases para depois da resenha

 

Nos países da América Latina, os Magistrados vestem o mito de serem auto-suficientes, no entanto, conhecem o Direito, mas não a realidade. A cultura tecno-burocrática domina entre os Magistrados. – Boaventura de Souza Santos


A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia da religião, da arte ou da poesia. –
Boaventura de Souza Santos

Norbert Elias e o comportamento humano

Norbert Elias e o comportamento humano
Norbert Elias examina a questão do controle dos afetos 

*Celina Fernandes Gonçalves – É mestre em sociologia da educação pela Universidade de São Paulo e assessora educacional.

O sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) interessou-se pela transformação peculiar do comportamento humano e na compreensão de suas causas. O autor procurou evidenciar, em seus trabalhos, a existência de uma relação entre as alterações na estrutura social e as mudanças no comportamento e nas emoções dos indivíduos.

A constituição psíquica do homem seria determinada pelas alterações na estrutura social por meio de um processo civilizador. Elias atribui isso à influência e à intervenção modeladora a que todo ser humano está exposto na socialização.

Transformação constante

Duas características fundamentais da contribuição teórica desse sociólogo são a apreensão das relações sociais em movimento e a incorporação de diferentes condicionantes do comportamento individual e coletivo.

Para Elias, a mudança é uma característica normal da sociedade. Tanto, que prefere falar em socialização. Ele reconhece que esse termo representa melhor o caráter das relações sociais, já que pressupõe um processo de constante transformação.

Um processo permanente

Leopoldo Waizbort, estudioso de Elias, destaca: “o que o constitui (constitui o todo relacional) é o conjunto das relações que se estabelecem, a cada momento, entre o conjunto dos elementos que o compõem”.

Tais relações são sempre relações em processo. Elas se fazem e se desfazem, se constroem, se destroem, se reconstroem, são e deixam de ser, podem se refazer, se rearticular, ou não, afirma Waizbort.

As relações nunca são sólidas e petrificadas; a cada instante ou elas se atualizam, ou se esgarçam, ou se fortificam, ou se mantêm ou se enfraquecem. Mas, como quer que seja, há a cada instante algo vivo, em processo.

Mais autocontrole no ocidente

No que se refere ao controle dos afetos, o argumento de Elias se constrói com base na observação de como o crescente autocontrole do homem não acontece numa ordem social particular. É fruto de um processo histórico lento. Seus estudos demonstram como os povos ocidentais têm sido mais submetidos que os demais ao autocontrole no comportamento e na vida afetiva.

Os sistemas de pensamento “isolam os fenômenos de seu fluxo natural, histórico, privam-nos de seu caráter de movimento e processo, e tentam compreendê-los como se fossem formações estáticas, sem considerar como surgiram e como mudam”.

Para não incorrer no mesmo erro, Elias analisa mudanças ocorridas entre os séculos 13 e 16. Aposta que a perspectiva histórica seria a única capaz de revelar como o controle externo do comportamento e dos afetos do homem é substituído pelo controle interno.

Além de observar as mudanças nas estruturas sociais ao longo do tempo, Elias acredita que, para compreender os fenômenos sociais, também é fundamental levar em conta as características específicas de uma configuração particular e suas mudanças internas.

Dependentes uns dos outros

O que chamamos de sociedade não expressa claramente o que verificamos no âmbito das relações sociais. O autor construiu a noção de configuração para tentar abarcar a rede de interdependências que liga os seres humanos.

Uma configuração seria uma estrutura de pessoas mutuamente orientadas e dependentes. Nela, todas as dimensões da vida individual e coletiva se articulam. As pesquisas sociológicas devem, então, reconstruir essa articulação, para evidenciar os vários condicionantes dos fenômenos sociais estudados.

14º Encontro de Ciências Sociais do Norte e Nordeste

XIV Encontro de Ciências Sociais do Norte e Nordeste

 

Histórico 

O Encontro de Ciências Sociais do Norte e Nordeste, que se realizará em Recife, de 8 a 11 de setembro de 2009, está em sua 14ª edição. Há mais de 20 anos, pesquisadores(as) vinculados(as) aos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais e centros de pesquisa das Regiões Norte e Nordeste do Brasil iniciaram uma experiência de articulação e difusão científica que se consolidou num encontro vibrante e representativo do que há de melhor na produção científica das duas regiões.

Esses grupos de pesquisadores(as) têm promovido encontros sistemáticos com o objetivo de reunir cientistas sociais e de áreas afins em torno de suas Linhas de Pesquisa, dando visibilidade à produção científica e aos resultados de suas pesquisas através do Encontro de Ciências Sociais do Norte e Nordeste (CISO).

Até 1990, os Encontros ocorreram anualmente. As dificuldades trazidas pela nova conjuntura daquela década levou a um pequeno hiato na sua realização e, a partir do VI Encontro, em Belém-PA, sua periodicidade passou a ser bi-anual.

O CISO (que somente passou a ser identificado por esta sigla – que abrevia “CIências SOciais” – a partir de 2001, na sua décima edição, em Salvador-BA) é um evento baseado na auto-mobilização de pesquisadores e instituições regionais, não havendo nenhuma estrutura organizacional promotora permanente. Chegamos à décima quarta edição deste Encontro, o que demonstra o potencial e a vitalidade das Ciências Sociais nas regiões Norte e Nordeste do país. Na organização do XIV CISO, todos os estados das regiões Norte e Nordeste foram mobilizados (através de seus cursos de pós-graduação reconhecidos pela CAPES, nas grandes áreas das Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas e vários centros de pesquisa) e a grande maioria está representada na Comissão Científica do evento. Trata-se de uma rede de produção da pesquisa social que ultrapassa o número de 50 programas e centros.

A ampliação da produção científica na área das Ciências Sociais resulta de amplos investimentos na formação e qualificação de seus pesquisadores nas últimas décadas.

Entendemos que a proximidade temática das pesquisas desenvolvidas pelos Programas de Pós-graduação faz do diálogo e do debate crítico entre os pesquisadores não só uma exigência mas, principalmente, um importante caminho para o crescimento e fortalecimento das Ciências Sociais no Brasil.

Os Encontros de Ciências Sociais do Norte e Nordeste (CISO) têm se constituído num efetivo espaço de troca e intercâmbio interinstitucional, consolidando as redes entre pesquisadores não só das regiões Norte e Nordeste, mas de todo o Brasil. Neste sentido, é importante registrar que apesar do CISO envolver majoritariamente pesquisadores(as) das regiões Norte e Nordeste, também conta com a participação de pessoas de outras regiões e países, em diferentes momentos de sua formação ou carreira profissional, excedendo, assim, o caráter de mais do que um Encontro Regional, na prática, um Encontro de caráter Nacional, e, em várias edições, até mesmo Internacional.

No caso do XIV CISO, o reforço da conexão latino-americana (não apenas em termos de participantes convidados, mas de ampla divulgação para captação de propostas de trabalhos a serem apresentados) será bastante enfatizado, de modo a ampliar o escopo e o alcance de seu impacto.

Tradicionalmente o CISO tem sido realizado a cada dois anos, sendo organizado pelas instituições de Pesquisa e Pós-Graduação, objetivando dar visibilidade à produção acadêmica na área. Por ocasião do XIII CISO, realizado em Maceió/AL, no ano de 2007, foi definido que a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em Recife, seria responsável pela organização do evento seguinte, e que se deveria estabelecer uma ampla parceria com as Universidades locais.

Neste sentido, foi construída uma parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco, a Universidade Federal de Pernambuco, a Faculdade Marista e a Universidade Católica de Pernambuco, de modo a viabilizar todas as dimensões da realização de um evento que na sua última edição já envolveu mais de mil participantes.

Os 13 Encontros anteriores e seus locais de realização:

I, Recife, 1986

II, João Pessoa, 1987

III, Natal, 1988

IV, Salvador, 1989

V, Recife (Fundaj), 1990

VI, Belém, 1993

VII, João Pessoa, 1995

VIII, Fortaleza, 1997

IX, Natal, 1999

X, Salvador, 2001

XI, Aracaju, 2003

XII, Belém, 2005

XIII, Maceió, 2007

Objetivos

O objetivo geral dos Encontros de Ciências Sociais do Norte e Nordeste, realizados desde a década de 1980, tem sido o fortalecimento dos Programas de Pesquisa e Pós-Graduação e centros de pesquisa destas duas regiões brasileiras, bem como o intercâmbio entre pesquisadores(as), de outras partes do Brasil e do mundo.

Os objetivos específicos podem ser definidos como:

a) Dinamizar e consolidar o intercâmbio interinstitucional, estreitando os laços entre pesquisadores de diversos Programas de Pós-Graduação e centros de pesquisa das regiões Norte e Nordeste, bem como de outras regiões do Brasil;

b) Promover a reflexão crítica sobre as questões sociais, econômicas, políticas e culturais das regiões Norte e Nordeste, assim como de outras regiões do Brasil e do mundo, particularmente em suas interrelações, com ênfase nos temas das desigualdades e da justiça;

c) Estimular a formação de redes de pesquisa que tenham como temáticas as problemáticas relacionadas às regiões Norte e Nordeste ou de interesse de pesquisadores(as) que aí vivem e trabalham;

d) Prover um espaço privilegiado para a divulgação e partilha de trabalhos teóricos e resultados de pesquisas realizadas por cientistas sociais das regiões Norte e Nordeste do país ou sobre estas;

e) Fomentar o envolvimento de jovens pesquisadores(as) da área das Ciências Sociais na produção do conhecimento.

f) Identificar experiências e alternativas que permitam o efetivo enfrentamento das desigualdades, em suas formas antigas e novas, de modo a aproximar a realidade social brasileira das expectativas de justiça projetadas pela democracia.

Ciso 2009

O tema do XIV CISO será “Desigualdade e justiça social: regiões, classes e identidades no mundo globalizado”. Trata-se de um eixo temático que busca estimular o enfoque crítico e o debate ético sobre o problema das desigualdades sociais, em suas “novas” formas ou aparências, e em suas dimensões territoriais/regionais, econômicas, políticas e culturais, em perspectiva sincrônica e diacrônica.

Nos anos recentes tem havido uma maior ênfase, tanto nos debates acadêmicos como no debate público, sobre a clara correlação entre a intensificação da lógica do mercado e das interconexões globais entre economias, sociedades e culturas, e o aumento das desigualdades.

As regiões Norte e Nordeste do Brasil, por quase todos os indicadores possíveis, surgem neste contexto como lugares de concentração de persistentes e gritantes desigualdades. Há termos de comparação e estereótipos fortemente associados a tais regiões que têm impedido de se perceber e enfrentar devidamente o problema, atentando-se para transformações realizadas e em curso que atestam a contemporaneidade dessas regiões com o mundo a sua volta, para bem e para mal.

O quadro geral no qual o Norte e o Nordeste brasileiro figuram sinaliza para um maior número de pessoas e países perdedores quanto aos resultados dos processos acima mencionados. Mas também aponta para a ativação de lutas distributivas e por reconhecimento, que não só se configuram como mas também questionam clássicas modalidades de constituição de atores coletivos e de subjetividades sociais e políticas.

Por meio destas lutas a vivência e a percepção das desigualdades têm sido associadas a questões de justiça, questionando as primeiras em nome de assimetrias, violências e discriminações que violam direitos e expectativas de direitos e politizam as demandas, ainda quando elas provêm de atores inesperados e sob formas não ou pouco convencionais.

Neste sentido, o sub-título do tema geral do Encontro assinala três dessas modalidades (regiões, classes e identidades) que, embora não necessariamente novas, assumem novas configurações, visibilidade e formas de articulação de demandas vis-à-vis as referências globais (que podem se expressar de várias formas, local, regional, nacional e internacionalmente). Assim, é necessário ao mesmo tempo reiterar sua relevância e por sob claro escrutínio formas tradicionais de compreendê-las e vivenciá-las. é necessário, num Encontro cuja principal forma de identifica ção remete a uma delimitação regional, projetar a compreensão desta para além de uma demarcação meramente territorial, permitindo assim perceber os múltiplos processos e atores que a cruzam.

Teremos ainda oportunidade de reunir reflexões em torno de problemas sociais e políticos vividos pela sociedade brasileira num mundo globalizado a partir das mais variadas e diferentes perspectivas teóricas e metodológicas. Tal pluralismo de práticas intelectuais é uma exigência, por um lado, de um mundo em que se disseminam os princípios democráticos da confrontação de idéias, valores e interesses, bem como da abertura intercultural à alteridade, e, por outro lado, de uma longa tradição associada à emergência das ciências sociais modernas como discurso crítico do e sobre o social.

Neste contexto,é importante reafirmar que as reflexões do XIV CISO visam contemplar não só problemas referentes às especificidades do Norte-Nordeste, mas, também, questões referentes à própria Teoria Social contemporânea.

A condição de relativa subalternidade dessas duas regiões no contexto brasileiro não as sujeita a restringir sua reflexão à descrição de problemas a serem resolvidos nem as priva de articularem um discurso teórico sobre o mundo mais abrangente no qual se definem e são definidas. O Encontro estimulará a produção de discursos em que especificidades e teorização se fertilizem e desafiem mutuamente, dando lugar a expressões de lutas distributivas e por reconhecimento também no interior do próprio debate acadêmico, reconfigurando sua geopolítica. Donde, mais uma vez, a importância de atrair pesquisadores(as) latino-americanos, nesta edição do Encontro.

Não há dúvidas de que os Encontros de Ciências Sociais têm cumprido a tarefa de dinamização e consolidação não só dos Programas de Pós-Graduação e centros de pesquisa como, também, dos Cursos de Graduação em Ciências Sociais. Será mantida, no XIV CISO, a possibilidade de apresentação de trabalhos de estudantes de graduação, sendo esta uma forma de despertá-los, desde cedo, para a importância da produção acadêmica estimulando, assim, o surgimento de novos(as) pesquisadores(as) na área de Ciências Sociais.

Grupos de Trabalhos que serão coordenados por professores da UFS

Título do GT: Grupos dirigentes, dinâmicas do poder e políticas públicas no Norte e Nordeste brasileiro

Coordenadores: Ernesto Seidl (UFS), Igor Gastal Grill (UFMA), Frank Nilton Marcon (UFS)

Resumo: O Grupo propõe-se a discutir perspectivas de investigação das Ciências Sociais debruçadas sobre processos em curso nas dinâmicas do poder e suas vinculações com a elaboração de políticas públicas nas regiões Norte e Nordeste do país. Dentro dessa temática, serão privilegiados debates tanto a partir de resultados de investigações quanto de elementos de caráter teórico e metodológico. Os principais eixos de interesse apresentados são os seguintes: transformações morfológicas do espaço do poder local e regional, recrutamento e seleção de elites e grupos dirigentes, estratégias e lógicas de disputa e de legitimação (eleitoral, discursiva etc.) em diferentes níveis, elaboração e implementação de políticas públicas, novas formas de encenação e rituais do poder.

Sessão 1:Competição eleitoral e seleção de elites

Coordenador: Ernesto Seidl (UFS)

Debatedor: Wilson Oliveira (UFPEL)

Sessão 2: Grupos dirigentes e políticas públicas

Coordenador: Frank Marcon (UFS)

Debatedor: Fernanda Petrarca (UFRGS)

Trabalhos dos alunos da UFS aprovados no encontro

ANTROPOLOGIA DO COTIDIANO DA POLÍTICA:

Autor: Vanderson De Gois Santos (Universidade Federal de Sergipe)

Resumo: Este estudo tem como objeto a análise das concepções, práticas e relações sociais estabelecidas em torno das atividades de dois gabinetes parlamentares – de uma vereadora de Aracaju (PT) e o outro de um deputado estadual (DEM). Dessa maneira, objetiva compreender os princípios sociais e culturais que orientam as práticas rotineiras, o recrutamento de funcionários, a rede social que se constitui em torno destas atividades e o significado atribuídos pelos agentes a essas práticas e as concepções de sociedade, de representação e de política elaboradas em torno dessas atividades. Utilizamos a observação direta para apreendermos não só as principais atividades desenvolvidas pelos assessores nos gabinetes; a relação entre os assessores no dia-dia, suas formas de trabalho; quem era as pessoas que chegavam até os gabinetes; os interesses / motivos de suas visitas; os tratamentos dos assessores concedidos aos visitantes, mas também, os sentidos construídos por esses agentes que atuam como elemento de orientação de suas ações na participação nas atividades rotineiras dos gabinetes. Além disso, tem-se o uso de entrevistas gravadas biográficas semi-dirigidas na tentativa de apreensão das respectivas inserções desses agentes por meio do estudo de suas respectivas trajetórias sociais. Procurou-se adotar, também, um princípio de reflexividade teórica baseada num uso reflexivo dos pressupostos da ciência social quanto as lógicas e mecanismos nos quais o espaço social é construído, assim como, o uso da autoria dispersa, na qual não existem sobreposições de interpretações, mas participações equivalentes na construção do sentido do texto e da re-constituição do universo investigado. Os resultados apontam para uma organização das atividades de gabinete como fruto, sobretudo, das relações estabelecidas entre os parlamentares e a população no período eleitoral.

Palavras-chave: gabinete, ações e sentido

“OFFICINA DE LUZ NA TERRA PROPAGADORA DAS LETTRAS”. ESFERA PÚBLICA, SOCIABILIDADE E CAPITAL POLÍTICO NO GABINETE DE LEITURA DE MARUIM/SE

Autor: Denio Santos Azevedo (UFS)

Co-autor: UFS , UFRN

Resumo: O cerne desta pesquisa consiste em analisar o Gabinete de Leitura de Maruim como um exemplo concreto de sociabilidade moderna e urbana em uma cidade caracterizada, na segunda metade do século XIX, pela produção do açúcar. Para tal, torna-se necessário situar os Gabinetes de Leitura no espaço e no tempo, desde suas origens européias, sua implantação na capital do Império e em diversas províncias no Brasil, até instalar-se na cidade de Maruim em Sergipe no ano de 1877. Segundo Chartier (1994), estas instituições devem ser analisadas como um dos componentes de uma “revolução cultural” com origem asiática, ainda no período medieval, mas com relevância e uma feição própria, somente a partir da segunda metade do século XVII na Europa, modelo que irá influenciar a criação destas instituições no Brasil. A partir dele e de outros autores (Bourdieu, Simmel, Habermas), procurar-se-á levantar os vários significados que envolvem essa instituição cultural, política e social, entendida como esfera pública, onde as novas formas de sociabilidade aparecem e as disputas de poder são marcas registradas na busca pelo capital simbólico, necessário para a construção da então sociedade liberal-republicana emergente. Situa-la como esferas que floresceram em núcleos urbanos de economia pujante, expressando não os valores da ordem escravocrata vigente, mas a nova realidade mundialmente imposta da mão-de-obra livre assalariada emergente, sintoma da reordenação da sociedade e do espaço urbano. O entendimento dessa instituição plural, veiculadora de idéias liberais e de atuação política, subsidia a compreensão do momento de transição brasileira, e a necessidade na construção de uma identidade nacional que se faz liberal e republicana, respondendo a questões pertinentes relativas à sociedade, educação e cultura do país, especialmente na segunda metade do século XIX, conseqüente democratização da cultura a partir da concretização dos objetivos. Busca-se com esta pesquisa analisar as relações de poder no seio dos Gabinetes na segunda metade do século XIX, percebendo o confronto entre a realidade local e as visões de mundo então contemporâneos, novos grupos sociais, projetos políticos em curso, ideários diversos em busca de uma relativa homogeneidade discursiva no seio destas esferas, espaço laico que se opunha ao domínio do sagrado, sua relação com a maçonaria, pretensamente democrático dentro de uma ordem escravocrata, manifestação urbana em solo ainda ruralizado, centelha de modernidade num universo arcaico, enfim um elenco de manifestações de um período de transição. Neste trabalho o Gabinete de Leitura de Maruim será entendido como sintoma das novas sociabilidades que aconteciam no Império, confirmando a existência de uma sociedade que se transformava e se problematizava, constituindo-se esta esfera pública pautada na difusão da cultura, um componente desta transição, quiçá um marco. A diversidade social anunciada espelha-se neste momento na cidade que abriga em seus limites o grande proprietário de engenhos de açúcar, os diversos cônsules, comerciantes variados, trabalhadores livres, políticos liberais e conservadores, maçons, mulheres, escravos, dentre outros. No Gabinete de Leitura encontramos todos reunidos. Lá então são identificados os agentes sociais que idealizaram e que mantinham a instituição, os ideais que os circundam, seus reais objetivos de tornar “civilizada” e incluir nos “trilhos do progresso” as sociedades locais “atrasadas” e “ruralizadas”. O olhar mais apurado sobre o Gabinete, ponto de reunião de “homens novos”, ora velhos conhecidos da agroindústria açucareira, que apresentava sinais de crise, ora monarquistas fervorosos, que percebiam a desestruturação deste sistema político, ora representantes dos grupos sociais em ascensão, médicos, advogados, dentre outros, que se queriam urbanos, representantes de momentos históricos diferenciados e de atmosfera irrequieta, permite resgatar as reais intenções de suas atuações. Entendendo ainda, como os Gabinetes de Leitura, chegaram ao Brasil, quais os seus propósitos e quais as transformações introduzidas nas formas de sociabilidade, destacando os novos ideais e procurando moldar as sociedades em questão. Do ponto de vista formal/usual o Gabinete de Leitura é uma instituição que aluga livros, jornais, revistas, dentre outros, por vezes até para a leitura domiciliar. Mas o estudo de um gabinete não é o estudo de uma Biblioteca, esta é apenas um componente do todo que corresponde a esta esfera pública. Além do que o conteúdo do acervo das instituições aqui pesquisadas era bastante diferenciado, principalmente sendo a Biblioteca Pública financiada pelos governantes do Império, as obras caracteristicamente eram selecionas pelos ideais monárquicos e católicos. No primeiro organizavam-se, debates literários e científicos, discursos eram proferidos e por vezes publicados, produziam-se periódicos, tinham estatutos próprios, sócios contribuintes e remidos, organizavam-se, saraus, colóquios, jogos de baralho, e com uma relação muito próxima com a maçonaria, dentre outros. A princípio já se pode diferenciar as Bibliotecas Públicas do século XIX com os Gabinetes na questão do empréstimo ou aluguel do livro ou dos periódicos, pois as instituições públicas proporcionavam também a consulta gratuita, mas somente em suas dependências. Com relação a sua criação no Brasil e na Europa os motivos são bastante diferenciados. “Na Europa, em particular na França, Inglaterra e Alemanha dos séculos XVIII e XIX, correspondeu à expansão do mercado livreiro, veio ao encontro de uma população ávida de leitura e, mais que isto, apaixonada pelo gênero romance, então florescente”. Portanto, organizavam-se como estabelecimento comercial, suporte de uma indústria livreira nascente e normalmente nas mãos de um proprietário, como um negócio. No Brasil o oposto, impressão e editoração incipientes, foram criados pelos detentores do capital econômico e político, de outras esferas públicas, geralmente de caráter filantrópico, e raramente com o apoio do mecenato estatal, eram regidos por estatutos próprios, com finalidades múltiplas, podendo locar ou emprestar os impressos disponíveis em seu interior. Por fim, compreender ainda se os detentores do capital econômico, oligarquia em crise ou representantes dos novos grupos sociais, e do capital político, liberais que se diziam oposição aos conservadores, mas que pertenciam à mesma classe econômica e queriam se adequar apenas à nova realidade republicana criaram, financiaram, dirigiram e ditaram os ideais que circundavam o Gabinete de Leitura de Maruim. Ao longo de sua história este possuiu a adesão de diversos agentes com capital intelectual, possuindo estreitas relações com o Estado já republicano, todos buscando um capital específico, o simbólico, e que a partir das práticas discursivas da educação, civilização e progresso, geraram novos espaços de democratização da cultura necessária para implementação do poder simbólico e para moldar a sociedade em questão sob a ótica de uma ideologia liberal e republicana.

MOVIMENTO NEGRO CONTEMPORÃNEO EM SERGIPE: RETÓRICAS DE IDENTIDADE, MOBILIZAÇÃO E RECRUTAMENTO.

Autor: Arivaldo Telles Montalvão (Universidade Federal de Sergipe)

Co-autor: Universidade Federal de Sergipe , Universidade Federal de Sergipe

Resumo: As práticas de mobilização, de recrutamento e as retóricas das identidades das diferentes formas de organização e expressão do movimento negro no Brasil, e particularmente em Sergipe, revelam um quadro interessante de novos referenciais de identificação e diferença no âmbito do fenômeno social de emergência de movimentos sociais de apelo étnico-racial. As diferentes organizações associativas que proclamam, através de seus representantes, alguma forma de identificação com a noção política “do ser negro” em Sergipe, passam por expressões do histórico movimento negro de conteúdo extremamente político, até articulações contemporâneas de auto-afirmação e reconhecimento a partir de manifestações culturais, levando a uma multiplicidade de perspectivas e a articulações muitas vezes não duradouras. As formas de organização do movimento social negro surgem no Brasil, a partir da necessidade da população negra de lutar contra o quadro de marginalização a que foi submetida, por isso os libertos instituíram no país grupos de mobilização racial. Para Petrônio Domingues (2007) o movimento negro se caracteriza por ter a “raça” como fator de mobilização determinante, na busca de resolver os problemas da população negra decorrentes do preconceito e da discriminação racial. Nos anos de 1930, quando se tem início a mobilização coletiva dos negros, tendo a frente à organização chamada Frente Negra Brasileira (FNB), a luta dos negros organizados era contra a segregação social e espacial dos negros, tendo um discurso nacionalista e integracionista, deixando de lado a defesa das formas culturais africanas (Guimarães, Antonio Sergio A., 1999), ou seja, o recrutamento e a mobilização feitos pela FNB eram baseados segundo Guimarães (2002) “na “cor” ou na “raça” e não na “cultura” ou nas “tradições”. De fato, a FNB buscava justamente afirmar o negro como brasileiro”. É somente nos anos 1950, que se ampliará a luta anti-racista no Brasil, tendo a frente o Teatro Experimental do Negro (TEN), atuante principalmente no Rio de Janeiro, pois a luta passa a se dar, de forma incisiva, contra a introjeção do racismo no meio negro, através da aceitação do ideal do “embranquecimento”, com a aceitação dos valores estéticos brancos e a detração da herança cultural africana (Guimarães, 1999). Ainda assim continua-se com um discurso nacionalista e integracionista, por meio das lideranças do movimento negro. O discurso nacionalista e integracionista predominante nos anos 1930 e 1950, esmorece após o período ditatorial e a reabertura democrática, nos anos 1980, já que a luta contra a segregação e a discriminação racial, e a luta pela recuperação da auto- estima do negro passam a ser interpretadas pelo ideário do multiculturalismo, valorizando a herança cultural africana, procurando desligá-la do sincretismo e das adaptações com a cultura nacional brasileira (Guimarães, 1999). Nesse período surge diferentes organização no movimento negro, de diferentes matizes ideológicas e políticas; com diferentes finalidades, destacando-se as entidades culturais, políticas, jurídicas e religiosas, tendo em comum a luta contra o racismo. Com a sua pluralidade, o movimento negro trás a cena brasileira uma política que alia luta por reconhecimento, identidade e cidadania redistribuitiva. (Guimarães, 2002) Em Sergipe, as organizações de movimentos sociais da população negra passaram a estar “organizadas de maneira diversa e constituídas a partir de processos e lutas históricas específicas em torno de idéias sobre um passado de cultura e de opressão comum”. Algumas dessas organizações constituem-se, a partir dos anos 1970, ganhando representatividade legal nas décadas seguintes. É o caso da “Sociedade afrosergipana de estudo e cidadania” (antes conhecida como União dos negros de Aracaju), a “Associação Abaô de Arte-educação e cultura negra”, o “Bloco Quilombo”, a “Organização Criliber”, a associação “Marias do Egito”, entre outras, como também a existência de várias organizações, principalmente religiosas e culturais não oficiais, sendo cada qual com seus objetivos sociais específicos e estruturados a partir de um senso de comunidade próprio. Por outro lado, a questão racial, segundo Paulo Neves (2000), tem pouca visibilidade em Sergipe, sendo quase invisível e toda vez que se pensa na temática se remete a políticas do governo federal ou a movimentos negros de outros estados, deixando de lado o nosso cotidiano. Isso é uma das explicações que o autor dá para que o Movimento Negro Sergipano praticamente não exista na forma de um verdadeiro movimento social, ficando restrito a entidades de baixa representatividade dando visibilidade apenas a seus membros e as suas idéias. Outro fator segundo Paulo Neves (2000) que pode explicar a apatia do movimento negro sergipano são as disputas ideológicas e disputas por espaços sócio-econômicos, que tornam a convivência entre diferentes organizações inviáveis dentro de um mesmo coletivo. Isto nos coloca diante de um fenômeno de pulverização das formas de organização, ao mesmo tempo em que nos coloca diante de diferentes formas de expressar seus anseios coletivos destas múltimas formas de organizar-se. O objetivo desse trabalho é a análise dos diferentes discursos de identidade e diferença entre as mais distintas formas de expressão dos movimentos sociais do negro em Sergipe, quais sejam: políticos, religiosos ou culturais, pensando as diferentes estratégias de mobilização e as retóricas de recrutamento político utilizadas por tais organizações no percurso das últimas duas décadas. Tal perspectiva propõe a análise crítica das formas de auto-inclusão de tais representantes num contexto de solidariedades e lutas por direitos na nação e através da nação ou a partir de retóricas de direitos humanos universais, mas a partir de especificidades da idéia de origem que se constitui a partir da nação.

ENGAJAMENTO E MILITÂNCIA ASSOCIATIVA-FILANTRÓPICA: UM ESTUDO SOBRE MILITANTES DIRIGENTES NA CAUSA DO CÂNCER EM SERGIPE

Autor: Raquel Santos Sousa (UFS)

Frases para depois do Informe:

“Temos sociólogos bons e medíocres. Uns acabam professores, outros presidentes da República – Herbert de Souza [Betinho]

Resenha do livro Metamorfoses do discurso político

Resenha:

COURTINE, Jean-Jacques. Metamorfoses do discurso político: as derivas da fala pública. Tradução Nilton Milanez, Carlos Piovezan Filho. São Carlos: Claraluz, 2006.

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O discurso político contemporâneo

por Vera Lucia da Silva* & Juliana da Silveira**


A obra subdivide-se em três partes e o autor, ancorado na teoria da Análise do Discurso de linha francesa (AD), promove uma discussão sobre o discurso político contemporâneo na atual conjuntura societária midiatizada.

Na apresentação, Gregolin afirma que o discurso político contemporâneo exige novas práticas adequáveis ao aparato áudio-visual de informação. Por isso, o discurso político não pode ser dissociado da produção e recepção das imagens reguladas pelas novas práticas midiáticas que leva o analista do discurso político a buscar novos procedimentos para compreender as transformações ocorridas no campo discursivo da comunicação política.

A primeira parte refere-se à história e a crítica da AD, intitulada O professor e o militante, o autor retrata que a AD, por ser uma prática da leitura dos textos políticos, emergiu no interior da lingüística francesa a partir de 1968, motivada pelos acontecimentos de maio de 68. Momento histórico que estudantes e operários parisienses se manifestaram contra a política vigente e marcou a constituição de novos valores – liberdade individual e sexual, expressão pessoal que refuta as hierarquias, as tutelas e as tradições – questionadores das autoridades familiares, patronais, sindicais e políticas.

Período marcado também por novas sensibilidades linguageiras – fala breve, pessoal e efêmera – que romperam com as formas canônicas de posição pública, ou seja, aquela dos falares longos, truncados e de difícil assimilação.

Os estudos da AD surgiram com objetos empíricos extraídos do discurso pedagógico, científico e de historiadores centrados na revolução francesa. Porém, o seu maior objeto analítico foi o discurso político francês dos partidos da esquerda francesa.

No plano teórico, a AD relaciona procedimentos de análise lingüística e conceitos históricos emprestados do marxismo, na perspectiva da articulação entre língua, discurso e ideologia (via althusseriana) ou na sociologizante (diferenças entre grupos sociais – via sociolingüística).

No item eclipses de memória, o autor afirma que houve alteração na conjuntura política: despolitização do corpo social, desideologização de certos partidos políticos em nome da modernização, declínio do militantismo e da sindicalização concreta e realista, a esquerda no poder descobre o pragmatismo político, o silêncio dos intelectuais, o individualismo. Para o autor, houve, nos últimos anos, uma transformação profunda na representação do político e cabe compreender o que está em jogo nessa nova conjuntura.

A AD configurada nos anos 60 sob uma sociedade impregnada pelo estruturalismo, epistemologia da descontinuidade, política marxista das ciências humanas e também pela psicanálise, se estabeleceu como lugar privilegiado do encontro entre a lingüística e a história. Assim, a análise do discurso político sofre mutações que dependem das condições de produção do momento histórico-social vigente. Ele exemplifica essa idéia com as diferenças analíticas em relação à comunicação política produzida em um comício que reúne multidões em torno de um orador ou para os programas televisivos, as quais cada uma assiste do seu domicílio. Como o discurso político passou a ser dominado pelas mídias e por isso o verbal e o não-verbal estão imbricados, não é possível dissociar o corpo do gesto

A segunda parte refere-se à língua de madeira, intitulada linguagem, discurso político e ideologia. Para o autor, a AD e o termo discurso, passou a ser a usado de modo sistemático na lingüística moderna, a partir de 1960, embora antes, já havia a preocupação em formular suas regras, descrever suas configurações e avaliar seus efeitos, especialmente da análise do discurso político na França.

Em se tratando de discurso político, o analista deve observar três noções para compreender o processo discursivo: o corpus, o enunciado e o sujeito político que está assujeitado a um todo de muitas condições de produção e recepção de seu enunciado em uma determinada conjuntura política. Assim, os partidos políticos são diferenciados pela língua, ou seja, pelo discurso que os fazem serem reconhecidos e os indivíduos a eles aderidos.

O autor faz menção à língua de madeira como o uso de formas longas, fixas e redundantes no discurso político. No momento contemporâneo, a política está se desenvolvendo com formas curtas, fórmulas e diálogos que faz do discurso político algo com mais fluidez e um imediatismo que requisita o instante mais do que a memória. O discurso político passa por um processo transformacional na enunciação, com um discurso curto, descontínuo e ininterrupto. Neste caso, o sujeito re-emerge de modo individual, em detrimento do apagamento da máquina política.

O autor dá prosseguimento a essa idéia com a afirmação de que a política de texto foi profanada e adquiriu novas práticas com formas inovadoras de diálogos, entrevistas, holofotes televisivos e videoclipes políticos. Estes dois últimos itens revelam que a política não pode ser dissociada da produção e recepção de imagens, assim como, o discurso do homem político também não pode se separar de sua imagem. Dessa forma, as análises precisam se adequar a novas práticas e considerar, além dos elementos lingüísticos, a colagem de imagens.

Segundo o autor, a memória é um fator condicional de existência do partido que precisa se inscrever em uma genealogia e relembrar uma filiação capaz de sustentar uma legitimidade. Na política, a memória é um poder em que os partidos se organizam para assegurar seu futuro pela evocação de seu passado, pois é nela que se concretiza a possibilidade de expressão e o direito à fala.

O autor, no item sobre a recitação e o comentário afirma que a fala política se caracteriza como um conjunto de rituais não-verbais que compõem os elementos essenciais da representação política: o discurso, os gestos, os reguladores de comportamento, a previsão das circunstâncias e a organização de um mise en scène (teatro). A pós-modernidade provocou mudanças na forma de representação política com as inovações midiáticas, fazendo com que o discurso funcione sob as regras das formas breves, longe das grandes narrativas políticas e monólogos intermináveis e com o objetivo maior de seduzir a explicar, de capturar a convencer.

Na terceira parte sobre a história e a crítica da AD, intitulada mutações das discursividades políticas: o exemplo americano, no item a personalização da esfera pública, o autor afirma que as formas discursivas de comunicação política sofreram mutações, durante o século XIX, nos Estados Unidos. A fala pública passa por transformações e a tradição retórica americana cede lugar a outro estilo linguageiro, aquele planejado para atender às exigências políticas e comerciais voltadas para uma sociedade de massa.

O autor, ao deixar de lado o aspecto da linguagem, para considerar o olhar e o espetáculo, considera a televisão como um mecanismo que aumentou a capacidade de visibilidade corporal do homem público e o crescimento da psicologização da esfera política. Ao afirmar que, enquanto a imprensa escrita entrou em processo de declínio, a televisão aumentou seu poder, gerando grande competitividade entre as grandes redes e os canais a cabo, privilegiando os anúncios espetaculares e submeteram as informações à lógica do proveito e alimentaram o cinismo dos jornalistas.

Sobre este aspecto, o autor afirma que dada à rapidez de divulgação das informações, as reflexões sobre as temáticas apresentadas tornaram-se superficiais, além das limitações e fontes duvidosas. Assim sendo, a divulgação dos escândalos políticos tornou-se um eco com poder sem precedentes quando comparados às folhas de papel do século passado.

Este livro traz conceitos importantes para os pesquisadores do discurso político pós-moderno que, em conjunto com a teoria da AD, proporciona uma visão conceitual e crítica no/do novo modo de fazer política em uma conjuntura social dominada pelos meios de comunicação de massa.

 

 


 

* Mestre pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá (PLE/UEM)


** Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual de Maringá (PLE/UEM)

 

Frases para depois da resenha

Lutar pel igauldade sempre que as diferenças nos discriminem,lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize - Boaventura de Souza Santos

Cada vez mais vivemos num mundo de perguntas fortes e respostas fracas – Boaventura de Souza Santos

Concurso Prefeitura de Barra dos Coqueiros – SE

Concurso Prefeitura de Barra dos Coqueiros – SE

Barra dos CoqueirosEstão abertas as inscrições para o Concurso Público da Prefeitura de Barra dos Coqueiros, SE, para provimento de vagas e cadastro de reserva.

Cargos e Remuneração

São ofertadas 160 vagas, distribuídas entre os níveis fundamental incompleto e completo, nível médio e superior. Os vencimentos ficam entre R$465,00 e R$784,97, variando conforme nível da vaga pleiteada.

Inscrição

* As Inscrições ficarão abertas no período de 03 à 28 de agosto de 2009, no Município de Barra dos Coqueiros/SE, no Brasília Esporte Clube, situado na Rua Maria São Pedro, s/nº, Centro, no horário das 09:00 às 12:00 das 14:00 às 16:00 hs, de segunda à sexta

Para participar do concurso o candidato deverá efetuar o pagamento da taxa de inscrição, de acordo com o nível da vaga concorrida. Os valores são de R$60,00; R$40,00; e R$30,00; respectivamente para os cargos de nível superior, médio, fundamental completo e incompleto. O comprovante de pagamento deverá ser devolvido ao Coordenador de Inscrição.

Provas

A Prefeitura de Barra dos Coqueiros, através do edital 01/2009, prevê as seguintes etapas para o concurso público:

1. Prova Objetiva, para todos os cargos, de caráter eliminatório a classificatório, com aplicação prevista para dia 27 de setembro de 2009, sendo que, os locais e horário serão divulgado em 14 de setembro de 2009.

2. Prova de Títulos, aplicada aos candidatos à cargos de nível superior que obtiverem no mínimo 50% de acerto na prova objetiva, o prazo para a entrega dos documentos é de 48 horas após a divulgação dos resultados, no mesmo local da realização das inscrições.

3. Prova Prática, aplicada aos candidatos concorrentes aos cargos de assistente técnico administrativo, digitador, guarda vidas e motorista aptos na prova objetiva, que estiverem aptos na prova objetiva. A data ainda será definida pela organização do concurso.

Gabarito e Resultado

A divulgação do gabarito será feita em até 48 horas após a realização da prova objetiva. A publicação do resultado das provas objetivas levará de 10 a 20 dias, a contar da data de divulgação do gabarito, e o resultado final estará disponível entre 10 e 20 dias a contar da data da aplicação da prova prática.

Filósofo alemão Jürgen Habermas completa 80 anos

Filósofo alemão Jürgen Habermas completa 80 anos

Jürgen Habermas é um dos intelectuais que mais marcaram o clima político e filosófico do pós-guerra na Alemanha. Aos 80 anos, ele é um dos filósofos mais conhecidos do país.

Natural de Düsseldorf, o filósofo alemão Jürgen Habermas está completando 80 anos nesta quinta-feira (18/06). Quem viveu o fim da Segunda Guerra Mundial aos 16 anos não pode deixar de filosofar sobre o seu surgimento: Como a situação pôde ter chegado a este ponto? O que aconteceu com os alemães para terem posto no poder, em 1933, um homem bruto, vulgar e antissemita como governante? E principalmente: como é possível evitar que tal situação se repita?

Da mesma forma que quase todos os intelectuais de sua geração, Habermas também observou o nacional-socialismo como ponto de partida para suas considerações, sua teoria acadêmica e todos os seus comentários sobre a política contemporânea.

O nacional-socialismo e, mais precisamente, o Holocausto, afirmou Habermas em meados da década de 1980, não seria nada mais do que o ato de fundação da República Federal da Alemanha: “Princípios constitutivos universalistas apenas se formaram na nação cultural alemã, tal como gostamos de vê-la, infelizmente apenas após – e eu diria até: infelizmente apenas por meio de – Auschwitz”.

Escola de Frankfurt

Juntamente com Theodor Adorno e Max Horkheimer, Habermas foi um dos principais representantes da chamada Escola de Frankfurt, que reuniu filósofos e cientistas sociais na Universidade de Frankfurt a partir da década de 1920 e teve decisiva influência, após a Segunda Guerra Mundial, no clima político e filosófico da então jovem República Federal da Alemanha.

A produção intelectual da Escola de Frankfurt baseou-se na experiência com ideologias totalitárias da primeira metade do século 20. Em seus escritos, Habermas sempre tratou da pergunta: Que lições podem ser tiradas dessa experiência para a República Federal da Alemanha e para as sociedades modernas como um todo?

Para tal, Habermas trouxe a filosofia para bem perto da sociologia, ao mesmo tempo em que tirava a filosofia de seu pedestal.

Interesses supraindividuais

A ideia de que a cultura está no início da nação alemã ocupou Habermas sucessivamente. Em seu famoso livro Conhecimento e Interesse (1968), ele assinalava que o conhecimento depende constantemente de determinados interesses. Sempre que existir um pensar sobre qualquer coisa, ele é feito dentro do contexto de uma sociedade competitiva. Ou seja, qualquer pessoa pensante sempre persegue também objetivos concretos, muitas vezes em interesse próprio. Assim, o esforço pelo conhecimento não é inocente. Ele está constantemente à procura de vantagens.

Durante discurso em honra a Habermas, o professor de filosofia de Bonn Wolfram Hogrebe resumiu desta forma o pensamento do filósofo de Frankfurt: “Nós não praticamos ciências naturais e humanas gratuitamente, mas porque queremos tomar conhecimento de algo específico. E todo querer é acompanhado de interesses – normalmente individuais, mas em relação à nossa espécie, também supraindividuais, na opinião de Habermas”.

Sociedades modernas

Para remediar a situação, Habermas delineou, em sua obra Teoria da Ação Comunicativa (1981), princípios segundo os quais as pessoas poderiam agir de forma a perseguir seus interesses sem provocar danos a outras. Na sociedade moderna, escreveu Habermas, o entendimento pacífico só é plausível quando os cidadãos coordenam o mais possível seus respectivos interesses entre si.

Por esse motivo, durante os protestos de 1968, ele acusou os estudantes de perseguirem seus interesses de forma demasiado veemente, ou seja, através do uso de uma violência com a qual não deve haver conivência. Isso levou Habermas a um distanciamento de vários anos do movimento estudantil, o que não abalou sua capacidade de luta.

Assim, 35 mais tarde, em 2003, Habermas protestou de forma veemente contra a intervenção dos Estados Unidos no Iraque. Pouco tempo depois, a mesma capacidade de luta o levou a criticar o controle insuficiente da economia, responsável pela divisão cada vez maior da sociedade.

Ampliação do próprio horizonte

Também por suas contribuições à discussão política, Habermas tornou-se talvez o filósofo mais conhecido da República Federal da Alemanha. Tanto no debate em torno da engenharia genética, do retorno das religiões ou das migrações, ele sempre sublinhou que o dinamismo e a mudança seriam princípios fundamentais das sociedades modernas.

“Quando se trata da integração de famílias de trabalhadores estrangeiros ou de cidadãos das antigas colônias, a lição é sempre a mesma: não existe integração sem a ampliação do próprio horizonte, sem a propensão a um espectro maior de aromas e pensamentos, e também a tomar conhecimento de dissonâncias cognitivas dolorosas”, afirmou o filósofo.

Em termos filosóficos, Habermas foi para a República Federal da Alemanha o mesmo que a ligação com o Ocidente representou em termos políticos e o rock e a música pop, em termos culturais – o distanciamento do estilo autoritário dos anos anteriores, em direção a uma cultura de debate sóbria, mas politicamente muito mais saudável.

A filosofia de Habermas nada tem de sublime. O que ela fez foi contribuir para que a paz se tornasse um pouco mais estável na Europa, região tradicionalmente pouco pacífica. Por esse motivo, em seu 80 anos, pode-se celebrar Habermas como um dos grandes filósofos do século 20.

Autor: Kersten Knipp

Revisão: Alexandre Schossler

Concurso do TJSE tem início tranquilo

Concurso do TJSE tem início tranquilo

Acontecem hoje, 23, as provas do Concurso Público para preenchimento de vagas para Técnico e Analista Judiciário do Tribunal de Justiça de Sergipe – TJSE. Estão inscritos no processo seletivo mais de 20 mil candidatos. Para o cargo de Técnico Judiciário a concorrência é de 514 inscritos por vaga e para Analista é de 149.

De acordo com o Juiz Diógenes Barreto, Presidente da Comissão Especial para Fiscalização e Supervisão do Concurso, as provas tiveram início precisamente às 8 horas e ocorreram de forma tranqüila. “A comissão está de plantão na sede da Associação dos Magistrados de Sergipe – AMASE e recebemos a informação, da empresa organizadora, de que não ocorreu nenhum tipo de contratempo no início do concurso. São mais de 800 pessoas trabalhando diretamente na realização do processo seletivo”, explica o Presidente.

Para a realização do concurso foram reservados 22 colégios, sendo utilizadas 391 salas no período da manhã e 106 à tarde. Segundo Silvia Helena de Abreu, Técnica de Planejamento da empresa organizadora do concurso, somente na Universidade Tiradentes farão prova cerca de 5 mil candidatos. “No período da tarde somente serão realizadas provas na UNIT, em 03 blocos”, informa.

O advogado Péricles Gonçalves, que fará o concurso para Técnico e Analista, garante que estudou bastante e está tranqüilo. “Não sei se estudei mais do que os outros, há muito tempo venho me preparando”. Já a comerciante Elisângela Cunha acredita que fará uma boa prova. “É um sonho poder trabalhar no Tribunal de Justiça de Sergipe”.

Tudo pronto para o Concurso do TJSE

Tudo pronto para o Concurso do TJSE

O Presidente da Comissão Especial para Fiscalização e Supervisão do Concurso, Juiz Diógenes Barreto, confirmou, hoje 21, que toda a estrutura para a realização do concurso está pronta. De acordo com o presidente, as maiores quantidades de salas reservadas para o processo seletivo estão na Universidade Federal de Sergipe – UFS e na Universidade Tiradentes – UNIT.

No domingo, 23, dia do concurso, os integrantes da Comissão ficarão de plantão no Tribunal de Justiça, na sede da Associação dos Magistrados de Sergipe – AMASE. “Todo o cronograma foi cumprido pela empresa realizadora do processo seletivo e acreditamos que não haverá nenhum problema”, informa o juiz.

Os candidatos devem consultar os seus respectivos locais de prova e prestar bastante atenção aos horários de entrada. “Peço que os candidatos que observem o edital, fiquem atentos às regras ali definidas e mantenham a calma no momento de responder às provas.”, finaliza Dr. Diógenes.

Concurso do Tribunal de Justiça de Sergipe – TJ-SE

CONCURSO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SERGIPE 2009

O Tribunal de Justiça de Sergipe, abriu as inscrições para o novo concurso público de 2009, o novo concurso do TJ de Sergipe é para o preenchimento imediato de vagas e formação de cadastro de reserva do Tribunal de Justiça.

Os candidatos interessados em participar do concurso do Tribunal de Justiça de Sergipe de 2009, poderão concorrer ao cargo de Analista do Tribunal de Justiça de Sergipe ou de Técnico Judiciário do Tribunal de Justiça de Sergipe.

O salário inicial de Técnico Judiciário é de R$ 1.259,43 e de Analista Judiciário é de R$ 1.952,29.

A Jornada de trabalho do Analista Judiciário e do Técnico Judiciário do Tribunal de Justiça de Sergipe é de 30/H semanais.

Os candidatos que tiverem interesse em participar do concurso do TJ de Sergipe, e quiserem concorrer para o cargo de Analista e Técnico Judiciário do Tribunal de Justiça de Sergipe, poderão se inscrever para os dois cargos, devendo ser efetuada uma inscrição para cada cargo que o candidato pretende concorrer, pois é possível concorrer para os dois cargos visto que as provas serão realizadas em períodos diferentes.

Para participar do concurso do Tribunal de Justiça de Sergipe e concorrer ao cargo de Analista Judiciário o candidato deverá ter nível superior completo e para o cargo de Técnico Judiciário é exigido que o candidato tenha concluído o ensino médio.

O valor da taxa de inscrição para o cargo de Analista Judiciário é de R$ 90,00 e para o cargo de Técnico Judiciário do concurso do TJ de Sergipe é de R$ 65,00.

As inscrições para o concurso do Tribunal de Justiça de Sergipe de 2009, deverão ser realizadas a partir do dia 29 de Junho de 2009 até as 14:00h do dia 21 de Julho de 2009.

O candidato deverá pagar a taxa de inscrição do concurso do Tribunal de Justiça de Sergipe até o dia do vencimento.

A partir do dia 28 de Julho o candidato deverá confirmar sua inscrição no site da comissão organizadora do concurso do TJ do SE de 2009.

As provas do concurso do Tribunal de Justiça de Sergipe serão realizadas no dia 23 de Agosto de 2009, na cidade de Aracaju Sergipe para todos os cargos e especialidades.

O candidato que informar no ato da inscrição o email receberá o cartão informativo do concurso do Tribunal de Justiça através dele.

Os cargos do concurso do Tribunal de Justiça de Sergipe são;

* Analista Judiciário Área: Administrativa/Judiciária Especialidade: Direito
* Analista Judiciário Área: Administrativa Especialidade: Contabilidade
* Analista Judiciário Área: Apoio Especializado Especialidade: Serviço Social
* Analista Judiciário Área: Apoio Especializado Especialidade: Engenharia Civil
* Analista Judiciário Área: Apoio Especializado Especialidade: Arquitetura
* Analista Judiciário Área: Apoio Especializado Especialidade: Psicologia
* Analista Judiciário Área: Apoio Especializado Especialidade: Análise de Sistemas
* Técnico Judiciário Área: Administrativa/Judiciária
* Técnico Judiciário Área: Apoio Especializado Especialidade: Programação de Sistemas

ATENÇÃO SE VOCÊ PRETENDE PARTICIPAR DO CONCURSO DO TJ DE SERGIPE LEIA COM ATENÇÃO TODO O EDITAL

PARA MAIORES INFORMAÇÕES SOBRE O CONCURSO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SERGIPE O CANDIDATO DEVERÁ ENTRAR EM CONTATO COM A FUNDAÇÃO CARLOS ATRAVÉS DO TELEFONE (0XX11) 3721-4888, DE SEGUNDA A SEXTA-FEIRA, EM DIAS ÚTEIS, DAS 9 ÀS 17 HORAS.

As dimensões subjetivas da política: cultura política e antropologia da política

As dimensões subjetivas da política: cultura política e antropologia da política 

Autor(es): Karina Kuschnir; Leandro Piquet Carneiro

O artigo discute o desenvolvimento do conceito de cultura política na ciência política e na antropologia, apresentando-o como o conjunto de atitudes, crenças e sentimentos que dão ordem e significado a processos políticos diversos. São discutidos os fundamentos teóricos do conceito de cultura política, segundo o qual as respostas a situações de interação social se dão através de orientações mediadas pela avaliação subjetiva que o ator faz dessas situações. A origem do conceito de cultura política é atribuída ao trabalho de Almond e Verba, The civic culture, que por sua vez inspirou-se, em certa medida, nos estudos antropológicos da escola de Cultura e Personalidade. Os estudos de cultura política têm passado por uma renovação teórica e metodológica importante, que significou uma mudança de objeto político. Os estudos recentes sobre cultura política privilegiam a análise das condições que afetam o desempenho das instituições públicas e a maior ou menor eficiência no atendimento ao interesse público. O desenvolvimento metodológico pode ser resumido como uma tentativa de utilizar diversos conjuntos de dados (surveys, etnografias, estudos históricos etc.) com o objetivo de estimar os fatores que afetam a performance das instituições políticas.

Palavra – Chaves: Antropologia;Cultura;Instituições políticas

OBS: Quem quiser este artigo mande um e-mail para: wesleydenis@yahoo.com.br

Frases para depois do artigo

 

O cientista não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é quem faz as verdadeiras perguntas. – Claude Lévi-Strauss

Concurso IBGE

Concurso IBGE 2009 – Inscrição e Edital 

As inscrições para o concurso do IBGE 2009 acontecem do dia 9 de junho até 23 de junho no site http://www.consulplan.net, mas os interessados em uma das 3,5 mil vagas temporárias para o cargo de agente de pesquisas e mapeamentos também podem se inscrever em uma agência dos Correios.

O salário é de R$ 700,00, o candidato deve ter nível médio de escolaridade. A taxa para se inscrever no concurso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística é de R$ 16,20. Dia 2 de agosto de 2009 a prova será aplicada.

Edital do IBGE 2009: http://www.consulplan.net.

Antropólogo defende estudo sobre demarcação de terras indígenas

Antropólogo defende estudo sobre demarcação de terras indígenas

A identificação de áreas indígenas desperta reações contrárias do empresariado do agronegócio. Em Mato Grosso do Sul, onde 45 mil índios reivindicam mais espaço, os fazendeiros taxam como “viciado” o trabalhos dos especialistas responsáveis pelos estudos.

O antropólogo Rubem Thomaz de Almeida, que há 30 anos estuda a região, garante que os levantamentos feitos para embasar as demarcações pelo governo federal não são um jogo de cartas marcadas a favor dos indígenas. Ele atribui a “desconhecimento de causa” as críticas dos ruralistas. 

“É necessário que eles [fazendeiros] entendam que o estudo não vem definido. Em estudos passados, inclusive, deixamos de incluir área porque não tínhamos argumentos nem dados suficientes para colocar espaços como terra indígena. É fundamental realizar os estudos para que o governo possa atuar e decidir um problema social gigantesco, que são 45 mil índios que estão ali sem terra, sem ter onde plantar”, afirmou Almeida.

“Temos atrás da gente a academia. Somos vinculados à Associação Brasileira de Antropologia e, se a gente incorrer em desvios na nossa produção científica, haverá facilidade em derrubar [os laudos]”, acrescentou.

Almeida diz ser contrário à “criminalização” dos fazendeiros e reconhece que eles deveriam ser recompensados pelo governo para deixar a terra, em valor além das benfeitorias.

“Dificilmente essa coisa vai resolver sem negociação com os produtores rurais. Não podemos criminalizar os fazendeiros, dizer que são todos bandidos. Ficará muito difícil dar conta do problema se não houver mecanismo para se pagar a terra aos fazendeiros”, ressaltou.

Entretanto, o antropólogo classifica de “absurdos” os argumentos que tentam vincular a luta dos índios pela terra a interesses estrangeiros.

“São 45 mil pessoas que têm uma história, tradição, e sabem exatamente onde vivem e o que querem. Não tem Cimi [Conselho Indigenista Missionário], antropólogo nem estrangeiro, absolutamente ninguém. Eles não vão deixar de reivindicar a terra. O fazem por sua conta. Quem fala o contrário é para jogar fumaça e não enfrentar o problema”, criticou.

Pesquisa da década de 80 já alertava o governo para a necessidade de reconhecer mais áreas indígenas em Mato Grosso do Sul, após o processo de colonização que resultou no confinamento de índios em aldeias delimitadas pelo próprio governo. Hoje o sudoeste do estado é apontado por estudiosos e pela própria Fundação Nacional do Índio (Funai) como o espaço mais problemático da questão indígena no Brasil. Para Almeida, o país já poderia ter superado o quadro.

“Faltou um pouco de decisão política e de ânimo do governo para dar conta antes do problema. É necessário que o governo pegue esse touro a unha e decida levar adiante primeiro os estudos e depois as decisões [de demarcação e homologação de áreas]” , defendeu o antropólogo.

A expectativa dos profissionais envolvidos no trabalho de identificação em Mato Grosso do Sul é concluir a fase dos estudos em abril de 2010.

O antropólogo entende que as críticas de parte da população de Mato Grosso do Sul à vida dos índios em áreas homologadas, como a aldeia de Panambizinho, a 25 quilômetros de Dourados, deve-se a uma percepção equivocada da cultura tradicional. Na região, áreas antes produtivas viraram mato e os índios trabalham apenas com agricultura de subsistência.

“Não podemos esperar que os guarani vão produzir como nós produzimos. Eles têm um viés cultural e se mostram abertamente contra a produção em larga escala. Eles têm uma relação cosmológica importante com o mato. Buscam o mato, porque lá tem que ter bicho e tem que proteger a água. Mas eles também têm plena consciência de que quem não trabalha não come.”

Se os estudos na região confirmarem as reivindicações indígenas, os antropólogos calculam que o problema fundiário das comunidades tradicionais estará resolvido para pelo menos três gerações, cabendo aos indígenas se organizarem futuramente para viver ali.

Durante os estudos antropológicos, as equipes deverão ser acompanhadas por representantes do governo estadual e de proprietários rurais na vistoria em fazendas, além de receberem escolta policial. No ano passado, quando os estudos começaram, especialistas foram seguidos e fotografados por desconhecidos.

“A presença da polícia é um modo de a gente entrar nas áreas que precisam ser verificadas”, disse Almeida ao destacar a importância do estudo para o processo de demarcação.

Com informações da Agência Brasil

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