Assinatura RSS

Arquivo do mês: outubro 2010

Rede Globo como porta-voz oficial da campanha de Serra

Vestindo a camisa de Serra com o aval da fração imperialista republicana

A entrada da Rede Globo como porta-voz oficial da campanha de Serra, a partir do último dia 21 de outubro (episódio bolinha de papel), não é uma mera evolução natural do apoio “subliminar” que vinha prestando ao candidato tucano desde o início do primeiro turno. Ao perfilar-se no campo editorial de Serra, somando-se à linha do jornal O Estado de São Paulo e da revista Veja, a Globo rompe com um “padrão” jornalístico que vinha adotando desde as eleições de 2002, onde mesmo apoiando o PSDB contra Lula, tratava de dissimular uma certa independência, tentando se livrar do estigma da manipulação das primeiras eleições presidenciais após o regime militar na qual favoreceu descaradamente a fraude que conduziu Fernando Collor ao Planalto. Alertamos que a decisão da Globo de novamente “rasgar o véu” da suposta “ética” jornalística está diretamente ligada a uma reunião ocorrida no dia 18 de outubro em Foz do Iguaçu, promovida pela Globo Sat, FHC e contando com a presença de 150 investidores norte-americanos, sedentos pela retomada do processo de privatizações no país.

A referida reunião ocorrida no luxuoso Hotel das Cataratas em Foz do Iguaçu foi cercada por um rigoroso esquema de segurança, mas não passou incólume, o jornalista mineiro Laerte Braga conseguiu furar o bloqueio, obtendo fotos e até algumas gravações feitas de um aparelho celular “clandestino”. Representando a Globo Sat, o executivo Rafael Eckmann teve o papel de assumir o compromisso pela família Marinho, de entrar oficialmente na campanha de Serra, o que estimulou os investidores ianques a acreditarem na possibilidade de uma vitória tucana, até então considerada uma chance remota. FHC tratou de expor a determinação dos tucanos em retomar o processo de privatizações de empresas estatais como a Petrobras, pontuando “cientificamente” os limites e dificuldades políticas do novo modelo privatista que seria retomado após a “Era Lula”. Mas como homem de confiança do imperialismo ianque, FHC tem autoridade necessária para “convencer” setores da burguesia norte-americana de que é possível realinhar o novo governo com uma política mais agressiva para facilitar “investimentos”, principalmente na área de Energia. Também empenhou sua palavra no esforço dos tucanos em limitar a influência do imperialismo europeu no Brasil, fundamentalmente no acordo de compra de equipamentos bélicos, aviões e submarinos, posto em marcha pelo governo da frente popular.

A reunião realizada em Foz do Iguaçu, representa um esforço concentrado de setores econômicos de peso, ligados à fração do partido republicano, uma das duas alas do regime bipolar ianque, em alterar a atual correlação de forças das transações comerciais brasileiras com os EUA. Esta “ofensiva” corresponde à própria crise política vivida pelo governo Obama, que perdeu parte considerável de sua capacidade de controlar o Partido Democrata pelo qual se elegeu. Subjugado em seu próprio governo pelo “bando dos Clinton” Obama assiste à deterioração de seu cacife político, obtido justamente pelo modelo iniciado por Lula no Brasil, ou seja, a “centro-esquerda”. Agora os republicanos, tendo à frente um setor neofascista conhecido como o “Tea Party”, ameaçam retomar o controle do Congresso Nacional já nas próximas eleições que ocorrerão em novembro. Este quadro atiçou investidores norte-americanos a tentar retomar o “modelo FHC” no Brasil, recorrendo para este objetivo ao auxílio da velha empresa montada pela “Time Life” nos trópicos, que agora atende pelo nome de “Organizações Globo”.

A frente popular é sabedora do “poder” que detém a Globo em sua capacidade de dirigir parcelas consideráveis da burguesia nacional em suas empreitadas políticas. Foi assim que Lula em 2002 beijou as mãos do patriarca Marinho conseguindo uma certa neutralidade global na disputa presidencial. Ao longo dos oito anos do governo do PT, a Globo foi beneficiada com uma série de empréstimos do BNDES, mas agora quer mais. Quer barrar o crescimento da Rede Record, controlada pelo bispo Macedo, dono da famigerada Igreja Universal e alinhado até o pescoço com o Planalto. Lula não pode se comprometer integralmente com os planos de expansão da Rede Globo, não é mais um mero refém do clã dos Marinhos como foi até 2002. A frente popular assentou suas bases no interior das classes dominantes, beneficiada com um período de fluxo de crédito, conquistando a “preferencialidade” da burguesia para sua candidata Dilma Rousseff. Acontece que mesmo tendo obtido uma certa “soberania” política, a frente popular continua sendo refém, não de um determinado grupo econômico como a Globo, mas da burguesia em seu conjunto. O governo Lula é um instrumento a serviço da colaboração da classe operária com os interesses capitalistas e não o inverso, é um governo burguês que fala em nome dos trabalhadores e do povo pobre, mas segue a lógica da acumulação capitalista, distribuindo uma pequena parcela do botim estatal para os pobres, em forma de miseráveis programas de assistência social, sendo alardeado como se fosse a realização da distribuição de renda e o começo do fim das desigualdades sociais.

Por seu caráter de classe, subordinada aos interesses gerais dos capitalistas nacionais e internacionais, não podemos descartar completamente a possibilidade da própria frente popular “rifar” sua candidatura presidencial em troca do cumprimento da “cláusula” do “revezamento democrático”, imposto pelo regime republicano. Não seria a primeira vez e com certeza a última. É bom lembrar que em 1989, diante da fraude eleitoral descarada que deu a vitória a Collor, Lula e o PT permaneceram calados e passivos, contrariando até mesmo a velha raposa da política burguesa, Brizola, que ficou isolado na denúncia midiática da grande armação fraudulenta. Caso na reta final ocorra uma virada de mesa e os setores ianques republicanos, com o aval dos Clinton, consiga arrastar a burguesia tupiniquim para uma guinada pró-Serra, o que ainda é uma variante minoritária, não temos a menor dúvida que haverá um consentimento passivo da cúpula do PT e aliados à obediência servil das diretrizes do “comando maior” das classes dominantes.

O programa econômico reivindicado pelos investidores americanos a FHC e Serra não é diametralmente oposto ao que já está em curso no atual governo petista, a diferença está nos ritmos e graus de sua execução e não nos princípios “sagrados” da participação da iniciativa privada na exploração de nossos recursos naturais. A pugna entre os imperialismos americano e europeu pelo mercado brasileiro, ou melhor dizendo, pelas caudalosas verbas do Tesouro Nacional, não é uma questão que diz respeito à melhoria das condições de vida do povo brasileiro, que está se “lixando” se os caças adquiridos pela FAB serão franceses, suecos ou norte-americanos. A imposição de mais uma escandalosa fraude nacional, novamente orquestrada pela arqui-reacionária Rede Globo, deve sim ser combatida com os métodos de ação direta e do ponto de vista da classe trabalhadora e seus interesses estratégicos, tendo completa independência política da frente popular, que já se mostrou historicamente covarde e impotente para barrar o avanço das forças fascistizantes e pró-imperialistas em nosso território.

 

Fonte:http://www.lbiqi.org

A posição do PCB, PSTU, PSOL, PCO, PCR, PCML e o MNN no segundo turno

Derrotar Serra nas urnas e depois Dilma nas ruas

Nota nº 1

 

imagemCrédito: PCB

O PCB apresentou, nas eleições de 2010, através da candidatura de Ivan Pinheiro, uma alternativa socialista para o Brasil que rompesse com o consenso burguês, que determina os limites da sociedade capitalista como intransponíveis. As candidaturas do PCO, do PSOL e do PSTU também cumpriram importante papel neste contraponto.

Hoje, mais do que nunca, torna-se necessário que as forças socialistas busquem constituir uma alternativa real de poder para os trabalhadores, capaz de enfrentar os grandes problemas causados pelo capitalismo e responder às reais necessidades e interesses da maioria da população brasileira.

Estamos convencidos de que não serão resolvidos com mais capitalismo os problemas e as carências que os trabalhadores enfrentam, no acesso à terra e a outros direitos essenciais à vida como emprego, educação, saúde, alimentação, moradia, transporte, segurança, cultura e lazer. Pelo contrário, estes problemas se agravam pelo próprio desenvolvimento capitalista, que mercantiliza a vida e se funda na exploração do trabalho. Por isso, nossa clara defesa em prol de uma alternativa socialista.

Mais uma vez, a burguesia conseguiu transformar o segundo turno numa disputa no campo da ordem, através do poder econômico e da exclusão política e midiática das candidaturas socialistas, reduzindo as alternativas a dois estilos de conduzir a gestão do capitalismo no Brasil, um atrelando as demandas populares ao crescimento da economia privada com mais ênfase no mercado; outro, nos mecanismos de regulação estatal a serviço deste mesmo mercado.

Neste sentido, o PCB não participará da campanha de nenhum dos candidatos neste segundo turno e se manterá na oposição, qualquer que seja o resultado do pleito. Continuaremos defendendo a necessidade de construirmos uma Frente Anticapitalista e Anti-imperialista, permanente, para além das eleições, que conquiste a necessária autonomia e independência de classe dos trabalhadores para intervirem com voz própria na conjuntura política e não dublados por supostos representantes que lhes impõem um projeto político que não é seu.

O grande capital monopolista, em todos os seus setores – industrial, comercial, bancário, serviços, agronegócio e outros – dividiu seu apoio entre estas duas candidaturas. Entretanto, a direita política, fortalecida e confiante, até pela opção do atual governo em não combatê-la e com ela conciliar durante todo o mandato, se sente forte o suficiente para buscar uma alternativa de governo diretamente ligado às fileiras de seus fiéis e tradicionais vassalos. Estrategicamente, a direita raciocina também do ponto de vista da América Latina, esperando ter papel decisivo na tentativa de neutralizar o crescimento das experiências populares e anti-imperialistas, materializadas especialmente nos governos da Venezuela, da Bolívia e, principalmente, de Cuba socialista.

As candidaturas de Serra e de Dilma, embora restritas ao campo da ordem burguesa, diferem quanto aos meios e formas de implantação de seus projetos, assim como se inserem de maneira diferente no sistema de dominação imperialista. Isto leva a um maior ou menor espaço de autonomia e um maior ou menor campo de ação e manobra para lidar com experiências de mudanças em curso na América Latina e outros temas mundiais. Ou seja, os dois projetos divergem na forma de inserir o capitalismo brasileiro no cenário mundial.

Da mesma forma, as estratégias de neutralização dos movimentos populares e sindicais, que interessa aos dois projetos em disputa, diferem quanto à ênfase na cooptação política e financeira ou na repressão e criminalização.

Outra diferença é a questão da privatização. Embora o governo Lula não tenha adotado qualquer medida para reestatizar as empresas privatizadas no governo FHC, tenha implantado as parcerias público-privadas e mantido os leilões do nosso petróleo, um governo demotucano fará de tudo para privatizar a Petrobrás e entregar o pré-sal para as multinacionais.

Para o PCB, estas diferenças não são suficientes qualitativamente para que possamos empenhar nosso apoio ao governo que se seguirá, da mesma forma que não apoiamos o governo atual e o governo anterior. A candidatura Dilma move-se numa trajetória conservadora, muito mais preocupada em conciliar com o atraso e consolidar seus apoios no campo burguês do que em promover qualquer alteração de rumo favorável às demandas dos trabalhadores e dos movimentos populares. Contra ela, apesar disso, a direita se move animada pela possibilidade de vitória no segundo turno, agitando bandeiras retrógradas, acenando para uma maior submissão aos interesses dos EUA e ameaçando criminalizar ainda mais as lutas sociais.

O principal responsável por este quadro é o próprio governo petista que, por oito anos, não tomou medida alguma para diminuir o poderio da direita na acumulação de capital e não deu qualquer passo no sentido da democratização dos meios de comunicação, nem de uma reforma política que permitisse uma alteração qualitativa da democracia brasileira em favor do poder de pressão da população e da classe trabalhadora organizada, optando pelas benesses das regras do viciado jogo político eleitoral e o peso das máquinas institucionais que dele derivam.

Considerando essas diferenças no campo do capital e os cenários possíveis de desenvolvimento da luta de classes – mas com a firme decisão de nos mantermos na oposição a qualquer governo que saia deste segundo turno – o PCB orienta seus militantes e amigos ao voto contra Serra.

Com o possível agravamento da crise do capitalismo, podem aumentar os ataques aos direitos sociais e trabalhistas e a repressão aos movimentos populares. A resistência dos trabalhadores e o seu avanço em novas conquistas dependerão muito mais de sua disposição de luta e de sua organização e não de quem estiver exercendo a Presidência da República.

Chega de ilusão: o Brasil só muda com revolução!

PCB – PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO

COMITÊ CENTRAL

Rio de Janeiro, 13 de outubro de 2010

 

Nota nº 2

NENHUM VOTO A SERRA: leia deliberação do PSOL sobre o voto no 2º turno

NENHUM VOTO A SERRA

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) mereceu a confiança de mais de um milhão de brasileiros que votaram nas eleições de 2010. Nossa aguerrida militância foi decisiva ao defender nossas propostas para o país e sobre ela assentou-se um vitorioso resultado.

Nos sentimos honrados por termos tido Plínio de Arruda Sampaio e Hamilton Assis como candidatos à presidência da República e a vice, que de forma digna foram porta vozes de nosso projeto de transformações sociais para o Brasil. Comemoramos a eleição de três deputados federais (Ivan Valente/SP, Chico Alencar/RJ e Jean Wyllys/RJ), quatro deputados estaduais (Marcelo Freixo/RJ, Janira Rocha/RJ, Carlos Giannazi/SP e Edmilson Rodrigues/PA) e dois senadores (Randolfe Rodrigues/AP e Marinor Brito/PA). Lamentamos a não eleição de Heloísa Helena para o Senado em Alagoas e a não reeleição de nossa deputada federal Luciana Genro no Rio Grande do Sul, bem como do companheiro Raul Marcelo, atual deputado estadual do PSOL em São Paulo.

Em 2010 quis o povo novamente um segundo turno entre PSDB e PT. Nossa posição de independência não apoiando nenhuma das duas candidaturas está fundamentada no fato de que não há por parte destas nenhum compromisso com pontos programáticos defendidos pelo PSOL. Sendo assim, independentemente de quem seja o próximo governo, seremos oposição de esquerda e programática, defendendo a seguinte agenda: auditoria da dívida pública, mudança da política econômica, prioridade para saúde e educação, redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, defesa do meio ambiente, contra a revisão do código florestal, defesa dos direitos humanos segundo os pressupostos do PNDH3, reforma agrária e urbana ecológica e ampla reforma política – fim do financiamento privado e em favor do financiamento público exclusivo, como forma de combater a corrupção na política.

No entanto, o PSOL se preocupa com a crescente pauta conservadora introduzida pela aliança PSDB-DEM, querendo reduzir o debate a temas religiosos e falsos moralismos, bloqueando assim os grandes temas de interesse do país. Por outro lado, esta pauta leva a candidatura de Dilma a assumir posição ainda mais conservadora, abrindo mão de pontos progressivos de seu programa de governo e reagindo dentro do campo de idéias conservadoras e não contra ele. Para o PSOL, a única forma de combatermos o retrocesso é nos mantermos firmes na defesa de bandeiras que elevem a consciência de nosso povo e o nível do debate político na sociedade brasileira.

As eleições de 2002, ao conferir vitória a Lula, traziam nas urnas um recado do povo em favor de mudanças profundas. Hoje é sabido que Lula não o honrou, não cumpriu suas promessas de campanha e governou para os banqueiros, em aliança com oligarquias reacionárias como Sarney, Collor e Renan Calheiros. Mas aquele sentimento popular por mudanças de 2002 era também o de rejeição às políticas neoliberais com suas conseqüentes privatizações, criminalização dos movimentos sociais – que continuou no governo Lula -, revogação de direitos trabalhistas e sociais.

Por isso, o PSOL reafirma seu compromisso com as reivindicações dos movimentos sociais e as necessidades do povo brasileiro. Somos um partido independente e faremos oposição programática a quem quer que vença. Neste segundo turno, mantemos firme a oposição frontal à candidatura Serra, declarando unitariamente “NENHUM VOTO EM SERRA”, por considerarmos que ele representa o retrocesso a uma ofensiva neoliberal, de direita e conservadora no País. Ao mesmo tempo, não aderimos à campanha Dilma, que se recusou sistematicamente ao longo do primeiro turno a assumir os compromissos com as bandeiras defendidas pela candidatura do PSOL e manteve compromissos com os banqueiros e as políticas neoliberais. Diante do voto e na atual conjuntura, duas posições são reconhecidas pela Executiva Nacional de nosso partido como opções legítimas existentes em nossa militância: voto crítico em Dilma e voto nulo/branco.  O mais importante, portanto, é nos prepararmos para as lutas que virão no próximo período para defender os direitos dos trabalhadores e do povo oprimido do nosso País.

Executiva Nacional do PSOL – 15 de outubro de 2010.

——————————————————————————————————–

MANIFESTO: ENTRE DOIS PROJETOS (Dilma X Serra)

Os 776.601 eleitores que votaram em candidatos do PSOL aos governos estaduais, 886.816 teclaram, convictamente, Plínio 50, os mais de 1 milhão que votaram em candidatos a deputado do PSOL e os mais de 3 milhões que escolheram candidatos ao Senado pelo PSOL não precisam de ‘tutores’: são livres, têm espírito crítico e votam, sempre, de acordo com sua consciência. Os nossos mandatos, daí derivados, serão exercidos, portanto, com total independência em relação aos Executivos e na defesa radical dos interesses populares, sem adesismos e sem negação de fronteiras éticas e ideológicas. Aos poucos, o PSOL, ainda incipiente, se afirma como partido com visão singular, combinando o embate eleitoral com a valorização dos movimentos sociais, dentro de sua definição estratégica de ressignificação do socialismo.

1. Partido Político digno do nome também deve se posicionar sobre momentos conjunturais, dando assim sua contribuição para a análise da situação e para a definição de voto da cidadania. Quando a manifestação política for emergencial, limitando, por questão de tempo, o processo democrático de discussões desde a base, que ela seja tomada pela Direção, por óbvio sem qualquer caráter impositivo, até pelas razões apresentadas no item 1.

2. O 2º turno das eleições presidenciais, a ser realizado no dia 31 próximo, coloca     em confronto dois projetos com muitos pontos de aproximação: o representado por Dilma (PT/PMDB e aliados) e o representando por Serra (PSDB/DEM e aliados).

3. As classes dominantes no Brasil – que exercem sua hegemonia nos planos econômico, político e de produção do imaginário social – não se sentem incomodadas por nenhum dos dois, mas preferem, clara e reiteradamente, o retorno do controle demotucano: a elas interessa mais o Estado mínimo e a privatização máxima da Era FHC do que a despolitização máxima e o Estado minimamente regulador do lulismo.

4. PSDB e DEM – para além da campanha ‘medieval’ coordenada pelo vice de Serra, que anuncia o ‘fim da liberdade de culto’ com a vitória da ‘terrorista’ candidata petista – reprimem abertamente movimentos populares e não aceitam política externa que saia dos marcos do Império.  Todo o setor de oligarquias patrimonialistas ou ‘neopentescostais’ que hoje gravita em torno de Lula rapidamente se bandeará para o lado de um eventual governo Serra, assim como os banqueiros, apesar de seus lucros extraordinários e inéditos no período recente.  Serra presidente é o ‘sonho de consumo político’ do conservadorismo total, uma de suas principais bases de sustentação.

5. Por tudo isso, a indicação do voto crítico em Dilma como a opção que o PSOL valoriza, respeitando porém aqueles que não quiserem ir além do “Serra não”, e afirmando desde já nossa forte cobrança programática* sobre o futuro governo nacional, qualquer que ele seja, parece a mais razoável neste momento.

* Reforma Política c/ Participação Popular, Auditoria da dívida, Reforma Agrária, Reforma Urbana, 10% do PIB na Educação, + recursos para a saúde, forte combate à corrupção, garantia e ampliação dos direitos trabalhistas, política ambiental questionadora de transgênicos, privatização da gestão de florestas, Belo Monte, transposição do São Francisco etc.
Assinam: Chico Alencar, Jean Wyllys, Ivan Valente, Randolfe Rodrigues, Marcelo Freixo, Milton Temer, Eliomar Coelho, Jefferson Moura, Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, José Luiz Fevereiro, Rodrigo Pereira, Miguel Carvalho e Edson Miagusko.

Janira Rocha defende voto nulo

Janira Rocha, deputada estadual eleita pelo PSOL-RJ, divulga texto e critica a lógica do ‘menos pior’ para o segundo turno. Já a maioria dos parlamentares do partido divulgou nota, com outros dirigentes nacionais, na qual defendem o voto crítico em Dilma e apontam a existência de ‘dois projetos’ no segundo turno. Mesmo sem assinar o texto, Luciana Genro parece ir pelo mesmo caminho. Pelo twitter, a atual deputada afirma: “Aos que perguntam sobre como votarei: não pretendo abrir meu voto, exceto para dizer SERRA NÃO!”. Veja abaixo as notas de Janira e da maioria dos parlamentares.

POR QUE VOTO NULO NESTE SEGUNDO TURNO

Hoje sou deputada estadual pelo Psol do RJ, mas antes de tudo sou uma lutadora e organizadora do povo e dos trabalhadores. Defino minhas posições políticas refletindo as batalhas vividas nas lutas de meu país nos últimos 30 anos, por isto o “voto útil” e o “menos pior” não balizam minhas posições.

A estratégia de Sociedade do Psol, confrontada com as estratégias do PT e do PSDB, seus Programas, sua Política Econômica inequivocamente identicas, suas alianças com o Capital especulativo, com a Grande Mídia e a deslavada Corrupção patrocinada contra os cofres públicos, é meu referencial para o Voto Nulo.

Lamento que setores importantes da Esquerda Brasileira se deixem pautar apenas pela Agenda Fundamentalista, pela necessidade de negá-la, e abstraiam que ela foi construída por setores burgueses que se escondem por trás de diferentes religiões e com ajuda da Grande Mídia, para nos manipular à esquerda ou a direita. Malafaia está com Serra e Crivella está com Dilma, ou ambos não são fundamentalistas com as mesmas posições sobre os temas sociais e morais que levam uma parte de nós a justificar seu “Voto Crítico”?

De Serra tivemos Privatizações, Arrocho Salarial, desmonte do setor Público, repressão contra o Movimento Social organizado; De Lula/Dilma tivemos tudo isto e mais a Cooptação dos pobres e dos mais importantes movimentos Sociais – MST,UNE,CUT etc – o que impõe um muro a capacidade de luta do povo para romper com as amarras capitalistas defendidas pelos dois Governos PSDB/PT, que são saudados por todos os Imperialistas como duas faces de uma mesma moeda.

Depois de 30 de outubro, o que estará na pauta será a Reforma da Previdência aumentando o tempo de contribuição dos trabalhadores para 75 anos, serão as Privatizações, As concessões vergonhosas do Pré-Sal para as Grandes Empresas Internacionais, será a continuidade dos Arrochos salariais, os Acordos com os grandes Latifundiários para não fazer A Reforma Agrária e Continuar desmatando a Amazônia; será o loteamento dos Cargos Públicos entre a Canalha Política Burguesa e a crescente Corrupção.

Seja Serra, seja Dilma, esta será a pauta!

Como sempre pautei minha ação política pelos passos que dei no campo das lutas pela construção de uma Sociedade diferente desta que vivo, não tenho condições políticas e morais de fazer esta escolha entre Serra e Dilma, por isto Voto, junto com os companheiros do meu coletivo, NULO.

Respeito o posicionamento de meus companheiros do Psol que fazem outro voto, saúdo a Executiva Nacional, que entendendo o processo do Partido, liberou seus militantes para expressarem suas opiniões divergentes; mas neste momento estou do lado daqueles que não querem ter nenhum tipo de compromisso, mesmo que seja crítico, com nenhuma da opções que estão colocadas. Quando for a rua novamente para defender a Previdência Pública quero estar com meu coração livre de arrependimentos para poder ter mais força para lutar.

Rio de Janeiro, 16 de outubro de 2010.

JANIRA ROCHA – DEPUTADA ESTADUAL PSOL/RJ


Nota nº 3 (PSTU)

Como lutar contra a direita nas eleições? Votando nulo



No governo FHC, os bancos lucraram R$ 35 bilhões, uma soma fantástica. Mas no governo Lula, os lucros dos bancos cresceram ainda mais, chegando a R$ 170 bilhões.

O governo Lula teve uma vitória parcial no primeiro turno das eleições de 2010. Como nas eleições de Lula em 2002 e 2006, derrotou a oposição de direita, mas teve de amargar um inesperado segundo turno entre Dilma e Serra.

Lula ampliou a maioria que já tinha na Câmara dos Deputados, passando de 380 para 402 deputados, deixando o bloco PSDB-DEM com 118 deputados. Ganhou pela primeira vez a maioria também no Senado, passando de 39 para 59 senadores. Por último, mas não menos importante, ainda ampliou o número de governos de Estado no primeiro turno, passando a governar mais estados de peso como o Rio Grande do Sul.

Mesmo assim, não houve grandes comemorações no campo governista. A inesperada passagem para o segundo turno mostrou que sua candidata perdeu 7% dos votos em dez dias. Marina Silva, que capitalizou a maior parte do desgaste de Dilma, sai fortalecida e com peso importante nesse segundo turno.

A oposição de direita se fortaleceu nessa reta final. Tem o apoio majoritário e maciço das empresas de TV e jornais. Mesmo tendo sofrido uma derrota eleitoral, ganhou um alento com a passagem para o segundo turno e a vitória em São Paulo e Paraná.

O resultado do segundo turno está completamente aberto. Vai depender de um grande número de fatores como a posição de Marina Silva, a descoberta de novos fatos dos escândalos de corrupção, o comportamento nos debates etc. Mesmo assim, a popularidade – cerca de 80% – do governo Lula torna a hipótese de vitória de Dilma o mais provável resultado do segundo turno.

Crescimento de Marina

A candidatura de Marina foi concebida inicialmente como um instrumento auxiliar da campanha de Serra, cujo objetivo era dividir o voto feminino e petista de Dilma. Marina esteve apagada em boa parte da campanha, não se diferenciando em nada das campanhas majoritárias e espremida num patamar de 8 a 9%. Só cresceu a partir do desgaste de Dilma com as denúncias de tráfico de influência. Capitalizou a queda parcial da petista num eleitorado que resistia a seguir o PSDB, com componentes de esquerda e direita.

Marina ocupou uma parte do espaço que foi de Heloísa Helena em 2006 com o discurso de ética na política. Mas uma candidata do PV, um partido que tem em sua direção Zequinha Sarney, falando em ética, é ridículo. O PV está presente em todo tipo de governo estadual, completamente apegado às verbas do Estado.

Marina cresceu também a partir de uma manobra de direita: a campanha realizada por setores evangélicos mostrando que Dilma seria favorável ao aborto.

Isso teve grande impacto em setores populares que não tinham sido afetados pelas denúncias de corrupção e tráfico de influência do PT. Marina Silva saiu em defesa clara de uma posição reacionária contra o aborto e questionando Dilma. A petista ficou na defensiva e disse que também era contra o aborto.

Agora Marina terá de decidir o apoio a Serra ou a Dilma. Pode também se manter numa semineutralidade, liberando o voto. De uma forma ou de outra, surge como uma força ascendente das eleições, mais uma arma nas mãos da burguesia.

A falsa polarização entre dois projetos semelhantes (Dilma e Serra) foi rompida nas eleições, com os quase 20% dos votos em Marina. No entanto, trata-se de outra falsa opção porque, em todas as questões fundamentais, como no plano econômico e na relação com o imperialismo, Marina expressou total acordo com o PT e PSDB.

Quem é a direita?

Governo, PT e CUT farão uma enorme campanha pelo voto em Dilma, argumentando que é necessário evitar a volta da direita. Nós também somos contra a volta do PSDB-DEM ao governo.

Durante a campanha eleitoral, o PSTU foi duramente atacado pelo PSDB. Por duas vezes tentaram tirar nosso programa de TV do ar. Na primeira vez, porque mostramos como FHC tratava os aposentados e os chamou de vagabundos. Conseguimos manter nosso programa nessa vez, mas não na segunda.

Quando Serra atacava Dilma ligando a petista à corrupção, mostramos em nosso programa que Serra também esteve ligado ao governo Arruda, do Distrito Federal. O PSDB conseguiu tirar nosso programa final do ar.

Não queremos que a oposição de direita retorne. O governo FHC é lembrado pelos trabalhadores pelas privatizações e ataques aos trabalhadores. Serra seria uma continuação piorada de FHC por conta da crise internacional que se avizinha.

É necessário lutar contra a direita, mas isso não significa votar em Dilma. Muitas vezes os termos “esquerda” e “direita” são bastante imprecisos. Hoje essa indefinição é tão ampla que inclui na “esquerda” a socialdemocracia europeia que administra o capitalismo há décadas na Europa. Ou ainda o PSB no Brasil que apresentou como candidato ao governo de São Paulo o presidente da Fiesp.

Os marxistas definem a localização das posições políticas a partir da classe social representada. Aí a confusão desaparece. Para nós, os representantes da “direita” são os defensores da grande burguesia e do imperialismo. E como estão a grande burguesia e o imperialismo nessas eleições?

Os banqueiros estão financiando as duas campanhas, e é provável que estejam dando mais dinheiro para Dilma que para Serra. Eles têm todas as razões para confiar em ambos. Durante os dois governos FHC, os bancos lucraram R$ 35 bilhões, uma soma fantástica. No entanto, nos dois governos Lula, os lucros dos bancos cresceram ainda mais, chegando a R$ 170 bilhões. Não por acaso, num dos jantares de apoio a Dilma estava presente o banqueiro Safra, uma das maiores fortunas do país.

As grandes empresas, como um todo, quadruplicaram seus lucros no governo Lula. Este é o motivo pelo qual, no início de setembro, as empresas já tinham doado R$ 39,5 milhões para a campanha de Dilma e R$ 26 milhões para a de Serra.

É verdade que a maioria das grandes empresas de comunicação, incluindo TVs e jornais, apoiam Serra. Isso possibilita ao governo uma imagem de vítima perante a burguesia. No entanto, Lula e Dilma têm a seu lado pesos pesados como a Vale, Eike Batista e inúmeros outros empresários.

O apoio dos governos imperialistas também é uma referência importante para identificar quem representa a grande burguesia nas eleições. É indiscutível que todos eles estão muito tranquilos com as eleições no país, porque sabem que seus interesses estarão garantidos com PT ou PSDB. E também é inegável que Lula conta com uma enorme simpatia entre esses governos. Não é por acaso que conseguiu a realização da Copa e da Olimpíada no país, o que está sendo muito usado na campanha eleitoral.

Por último, podemos ter como referência a posição dos políticos da direita tradicional, que sempre representaram a burguesia no país. Obviamente o PSDB e o DEM são partes importantes dessa representação política. Mas se pode dizer a mesma coisa de Sarney, Collor, Maluf, Jader Barbalho que apóiam Dilma.

Voto nulo no segundo turno

Na verdade, temos dois representantes da grande burguesia e da direita nesse segundo turno. Dilma é apoiada pelo PT, pela CUT e por uma parte da esquerda do país, por expressar a colaboração de classes entre a grande burguesia (que mandou no governo Lula assim como no de FHC) e os trabalhadores. Essa é a grande confusão política existente hoje entre os trabalhadores. Não ajudaremos a ampliar essa confusão.

Cada voto dado em Dilma ou em Serra ampliará a força do novo governo eleito para atacar os trabalhadores. Não se pode esquecer a crise econômica internacional que se avizinha. Não é por acaso que tanto Dilma quanto Serra já manifestaram que vão implementar uma nova reforma da Previdência assim que eleitos.

Cada voto nulo nesse segundo turno significará menos força para o governo eleito. Foi impossível para a luta dos trabalhadores nessa conjuntura romper a falsa polarização eleitoral entre as duas candidaturas. Mas é necessário expressar nossa rejeição às duas alternativas patronais em disputa. Não serão eleitos em nosso nome.

Nota nº 4 (PCO)

PCO no segundo turno – Nem Dilma, nem Serra: voto nulo

A direção do Partido da Causa Operária (PCO) se reuniu nesse sábado e decidiu pelo voto nulo no segundo turno das eleições, assim como já havia feito nas duas últimas eleições, em 2002 e 2006.

Nesse sábado, a direção do PCO se reuniu e decidiu a posição do partido no segundo turno. Assim como em 2002 e 2006, ficou definido que seria chamado o voto nulo. Em uma plenária realizada com militantes e simpatizantes do partido, o companheiro Rui Costa Pimenta fez um breve balanço das eleições, cujas principais conclusões expomos aqui.

O companheiro, que concorreu pelo PCO à presidência da República, ressaltou que o próximo governo, independentemente de quem esteja à frente dele, terá que fazer determinadas reformas exigidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Para o FMI “a economia brasileira está indo muito bem e o ambiente é favorável em termos de comércio e investimentos internacionais. Este é o momento para reformas estruturais” (EFE, 7/10/2010). Isso significa que pretendem que o próximo governo seja uma reedição do governo FHC, ou seja, um governo que vai esfolar a população trabalhadora para garantir que os banqueiros continuem recebendo um terço do PIB brasileiro, como ocorreu no governo Lula.

Como já havíamos denunciado, está em marcha um estelionato eleitoral. O verdadeiro programa que será colocado em prática não será o que foi professado pelos candidatos, mas o que foi exigido pelo FMI.

A idéia é promover uma verdadeira pilhagem da economia nacional. O próximo governo completará o serviço que FHC e Lula não conseguiram: a reforma trabalhista, sindical e a privatização das empresas estatais restantes: o Banco do Brasil, os Correios etc. Não basta a política do governo Lula, que é raivosamente pró-imperialista. Os banqueiros e grandes especuladores internacionais precisam sempre de mais, pois a crise piora a cada dia. É preciso um governo que esteja completamente a serviço do imperialismo e que aja ferozmente contra a população.

Embora Serra fosse o homem ideal para levar o plano adiante, ele não tem condições políticas de colocá-lo em prática. É preciso de alguém que enfrente a resistência popular.

Se Serra ganhasse as eleições, certamente seria necessário um governo em conjunto com o PT para realizar o plano. Mas caso Dilma Rousseff seja a próxima presidenta, o que é mais provável, o imperialismo precisa de garantias de que ela colocará o plano em prática conforme desejado. Para isso serviu o segundo turno.

Por isso, chamamos a população a não depositar nenhuma confiança no próximo governo e se colocar desde já contra o plano de austeridade do imperialismo.

Posição do PCO

Por que votar nulo no segundo turno das eleições

Apresentamos aqui uma análise dos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais e do que está em jogo nesse segundo turno, em que se enfrentam a candidata Dilma Rousseff, do PT, e José Serra, do PSDB

14 de outubro de 2010

Para se compreender o que está em jogo no segundo turno das eleições presidenciais, é preciso ter em mente que as eleições são um terreno em que a burguesia, os grandes capitalistas, procuram criar as condições políticas tanto entre a população como no controle do estado para colocar em prática seus planos políticos e econômicos. Os candidatos, nesse sentido, são em grande medida peões desse jogo, embora a burguesia tenha que levar em consideração certas condições para que as eleições não percam a aparência de verossimilhança.

Quais são os planos da burguesia e do imperialismo para o Brasil? Essa semana uma declaração do FMI esclareceu a questão ao declarar que “o Brasil precisa de um plano de reformas”, bem como a redução da dívida pública. Isso significa que o FMI propõe um novo governo FHC. Diz a lenda que o motivo pra tais reformas seria o “momento econômico favorável” do País.

Enquanto ocorrem as eleições aqui, em todos os principais países da Europa; Espanha, Portugal, França, Itália, Inglaterra, se discute a luta contra os planos de austeridade da dívida pública. Essa é uma política centralizada do FMI e do Banco Mundial, que são as organizações do Consenso de Washington, do imperialismo, dos grandes banqueiros mundiais e dos grandes capitalistas internacionais.

Pouco depois de estourar em todo o mundo a crise econômica, os especuladores se apressaram e declararam o fim da crise. No entanto, o fato é que para conter minimamente a crise foi necessário gastar quantias verdadeiramente astronômicas de dinheiro. Mas em algum momento será preciso responder por todo esse dinheiro doado aos grandes capitalistas e banqueiros.

Podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que chegou essa hora e quem vai pagar são os trabalhadores em todo o mundo. Por isso, os planos de austeridade na Europa e, conseqüentemente, as lutas contra esses planos.

O plano brasileiro

No Brasil não será diferente. Não se trata de um plano de austeridade qualquer. O governo Lula transferiu um terço do orçamento federal para os banqueiros e especuladores, dinheiro perto do qual o “mensalão” é um trocado. No entanto, a dívida pública brasileira coloca em xeque esse verdadeiro “mensalão banqueiro”, bem como ameaça o investimento dos especuladores, que vinham ao país devido a uma enorme folga de caixa do governo.

Um dado importante também é que apesar de o governo Lula ser raivosamente imperialista, o imperialismo não se contenta, pois precisa de um governo cada vez mais monstruoso para conter a crise crescente.

Não basta a política do governo Lula, que é profundamente imperialista mas que dá uma esmola para um ou outro. O imperialismo tem um plano drástico para o Brasil, que prevê um ataque em regra às condições de vida da população, bem como a entrega do que restou das empresas estatais.

O que esperar do segundo turno

O segundo turno tem uma função importante para saber o que vai ser o governo do PT. O esmagamento do PSDB e da direita levaria toda situação política para a esquerda, o que não é o desejo do FMI.

O FMI possui um plano que tem que ser imposto à força em todo o País, inclusive aos políticos burgueses.

Todos os planos de ajuste foram feitos dessa forma. Na Bolívia, o governo ganhou a eleição, mas precisava do colégio eleitoral para governar. O FMI e o Banco Mundial impuseram o plano como condição para o governo se eleger. Dessa forma, o governo assinou um plano que era o contrário do que ele tinha divulgado na campanha eleitoral. O mesmo foi feito em diversos lugares, como na Bolívia, Rússia, Polônia etc. O FMI declarou recentemente que é preciso um plano de ajuste no Brasil e esse plano será imposto ao governo Dilma. O plano não é apenas de estabilização, mas de desmantelamento dos Correios, maior desmantelamento da Petrobras e outras privatizações, como portos, aeroportos etc., para que a população pague a crise gerada pelos bancos. O ataque feito pela direita na campanha eleitoral com o objetivo de colocar em prática esse plano, não é um ataque, portanto, especificamente contra Lula ou PT, mas sim contra todo o povo.

A política correta nesse momento é se opor ao golpe que a direita está planejando para subverter o resultado eleitoral, denunciando as manobras da burguesia em curso e chamar o voto nulo.

A política do FMI será pressionar o PT para que este aplique o plano de austeridade. A campanha do PSDB no segundo turno deverá ser uma defesa aberta das privatizações. Se ele fizer isso, perderia “ganhando” como afirmam, porque colocaria claramente qual é o programa que deve ser colocado em prática no Brasil. Seria uma força de oposição expressiva sobre o governo do PT, que serviria para limitar a demagogia desse. Nesse sentido, é preciso salientar que as manobras da direita para levar Serra para o segundo turno só foram possíveis diante da enorme capitulação do PT.

O PT vai aplicar o plano do FMI. É preciso não simplesmente fazer propaganda do voto nulo. Há outras questões importantes que é preciso denunciar. A eleição é um jogo de cartas marcadas. Há um plano de austeridade que será colocado em prática.

O PT e PMDB têm ampla maioria no Congresso Nacional, de forma que o plano será negociado com essa maioria. O mais provável é que o PT ganhe no segundo turno e que o FMI negocie o plano para que seja implementado pelo PT.

Votar nulo contra o plano de austeridade do FMI

Chamamos a esquerda a se pronunciar diante do plano da direita para o País e denunciar a capitulação do PT diante da direita.

Embora Serra fosse o homem ideal para levar o plano adiante, o primeiro turno das eleições demonstrou que é, do ponto de vista mesmo do apoio puramente eleitoral, o que menos tem condições políticas de colocá-lo em prática, apesar de ser o seu mais adequado representante.

Isso, porém, não exclui, de forma alguma a vitória de Serra, embora improvável. O grande capital e o FMI, com a participação decisiva do monopólio totalitário da imprensa capitalista, conseguiram levar um candidato semi-morto ao segundo turno, com seus 24% de votos. Se isso foi possível, porque não seria possível elegê-lo?

Toda a eleição é uma grande farsa antidemocrática para favorecer o PSDB justamente porque ele encarna mais acabadamente a política de ataque às condições de vida do povo.

Se Serra ganhasse as eleições, certamente seria necessário um governo em conjunto com o PT para realizar o plano. Mas caso Dilma Rousseff seja a próxima presidenta, o que é mais provável, o imperialismo precisa de garantias de que ela colocará o plano em prática conforme desejado. Para isso serviu o segundo turno. Toda a pressão eleitoral que está sendo feita sobre o PT tem como um dos objetivos disciplinar o partido e o seu bloco de apoio, composto por setores mais secundários da burguesia nacional, à política do FMI.

A capitulação do PT diante dessa política é absolutamente evidente. Razão pela qual seria absurdo chamar a votar no PT contra o plano de austeridade. A esquerda não tem uma política realmente independente da direita. Ambos acabam sendo disciplinados para colocar em prática os planos dos bancos.

Embora seja um erro dizer que PT e PSDB, Dilma e Serra, FHC e Lula são idênticos, as diferenças existentes, que decorrem da relação dos dois blocos políticos com as massas, não significa que o PT e seu bloco sejam capazes de levar adiante, no essencial, outra política que não seja a política do grande capital.

Por isso, chamamos a população a não depositar nenhuma confiança no próximo governo e se colocar desde já contra o plano de austeridade do imperialismo.

É absolutamente necessário denunciar o caráter profundamente antidemocrático da eleição que não é dirigido apenas e nem principalmente contra o PT, embora este seja o seu alvo imediato, mas ao conjunto das organizações operária e, principalmente, do povo trabalhador. As façanhas da esquerda no primeiro turno das eleições caracterizam um semi-golpe de Estado para favorecer o bloco da direita e seu candidato, José Serra. Lutar contra este golpe não é favorecer o PT, mas defender os direitos democráticos das massas, da mesma forma que a luta contra as tentativas da direita na Bolívia contra Evo Morales e o povo, na Venezuela, contra Chavez e os trabalhadores venezuelanos, em Honduras e mais recentemente no Equador. A direita usa a política vacilante, oportunista e capituladora da esquerda burguesa e oportunista para desfechar o seu ataque contra a classe operária, suas organizações e todo o povo.

É preciso chamar a atenção da população de que há toda uma operação que está sendo feita nos bastidores, para lançar esse plano de austeridade, cassar os direitos da população, o que já vem acontecendo durante a própria eleição.

É preciso chamar a população a lutar contra toda a manipulação eleitoral feita para preservar o regime político.

Além disso, é necessário lançar uma plataforma econômica que defenda não às privatizações, reestatização da Petrobras, não à privatização dos bancos, não ao pagamento da dívida pública, não à privatização dos Correios.

Por último, é preciso uma plataforma democrática: pela liberdade de organização partidária, pela preservação e ampliação dos direitos políticos, civis e sociais, não à intervenção nos sindicatos, fim da ditadura do TSE, eleição de todos os juízes, revogação de todas as leis que amarram a eleição.

 

Nota nº 5 (PCR)

Derrotar Serra e a extrema direita – Avançar as lutas dos trabalhadores e do povo

Durante oito anos, de 1994 a 2002, os trabalhadores brasileiros sentiram na pele o que é um governo do PSDB: arrocho de salários, compra de deputados para aprovar a reeleição e privatizações de lucrativas empresas estatais.

Para enganar o povo, o governo do PSDB afirmou que o dinheiro das privatizações seria investido na educação, na saúde e na habitação. Mas, após entregar a preço de banana um rico e valioso patrimônio público a grandes monopólios privados, usou o dinheiro arrecadado em corrupção e no pagamento de juros aos banqueiros. No final, o Brasil ficou sem empresas como Vale do Rio Doce, Embratel, Telebrás e também sem os investimentos sociais.

Não bastasse, FHC criou o PROER (Programa de Estimulo e Reestruturação do Sistema Financeiro) para entregar R$ 25 bilhões dos cofres públicos aos banqueiros e sucateou a educa-ção pública.

Não fosse a resistência dos trabalhadores, teria privatizado o Banco do Brasil, a CEF, os Correios, implantado a AlCA (Área de Livre Comércio das Américas) e instalado uma base militar dos Estados Unidos no Município de Alcântara, no Maranhão, acabando com o que resta de nossa soberania.

Quando os trabalhadores reagiram a essa política e realizarem greves, o governo do PSDB agiu com toda a truculência. Prova disso foi a intervenção das tropas do Exército nas refinarias da Petrobras para reprimir a greve dos petroleiros em maio de 1995.

Em resumo, o programa do PSDB para o Brasil significa privatização do patrimônio público, repressão aos trabalhadores, arrocho dos salários e completa submissão ao imperialismo norte-americano.

Agora, o PSDB, com a candidatura de José Serra, pretende retomar o governo para mais uma vez implementar essa política.  De fato, como já deixou claro em várias entrevistas, Serra é favorável a que o Brasil aprofunde sua relação de dependência com os EUA, e eleito defenderá a Alca em detrimento do Mercosul e tudo fará para derrubar os governos populares de Cuba, da Venezuela e da Bolívia.

Como se sabe, Cuba fez uma revolução em 1959 para conquistar sua independência e acabar com a exploração dos trabalhadores pelos capitalistas e, desde então, sofre um genocida bloqueio econômico e político dos Estados Unidos da América (EUA). Já os governos de Hugo Chávez, na Venezuela, e de Evo Morales na Bolívia, adotaram medidas contra a espoliação das riquezas dos seus países pelas multinacionais e enfrentam as oligarquias que há séculos roubam o povo desses países.

Porém, enquanto ataca os governos progressistas da América Latina, Serra nada diz sobre as sete bases militares que os EUA instalaram na Colômbia, a reativação da 4ª Frota Naval dos EUA ou sobre o vergonhoso golpe militar em Honduras, patrocinado pela CIA em julho do ano passado.

Ainda em sua campanha reacionária, Serra ataca o MST e as ocupações de terra, mas se cala sobre os 4,5 milhões de famílias sem terra existentes no país, resultado do avanço do capitalismo no campo, e sobre o fato de apenas 15 mil fazendeiros possuírem 98 milhões de hectares. Aliás, entre 1995 e 1996, no governo de FHC, 400 mil pequenos agricultores foram expulsos do campo e engrossaram o exercito dos sem terra em nosso país.

Por essas razões, o Partido Comunista Revolucionário (PCR), partido fundado pelo revolucionário Manoel Lisboa – covardemente assassinado pela ditadura militar em 1973 – convoca os trabalhadores e a juventude a derrotarem o candidato do PSDB e eleger Dilma Roussef, do PT, presidente da República.

É verdade que o governo Lula frustrou os trabalhadores ao não reestatizar as estatais privatizadas, continuar pagando juros bilionários da chamada dívida pública, manter privilégios para o agronegócio e cumprir um triste papel na intervenção do Haiti.

Mas é verdade também que não reprimiu os trabalhadores, apoiou os governos progressistas de Hugo Chávez e de Evo Morales e o governo revolucionário de Cuba, aumentou as verbas para a educação pública, ampliando o número de universidades públicas e de escolas técnicas e elevou o valor do salário mínimo.

Claro que isso é muito pouco diante das grandes injustiças que existem em nosso país; afinal, 1/3 da população vivem em condições precárias, milhões de jovens estão desempregados e os salários dos trabalhadores estão entre os mais baixos do mundo.

Porém, não há dúvida de que se o governo fosse do PSDB, essa situação seria ainda pior. E nós, os comunistas revolucionários, lutamos para melhorar as condições de vida do povo e não para piorá-las.  Por isso, nessa eleição, derrotar o candidato da extrema direita e do imperialismo e eleger Dilma é a melhor opção para o movimento operário e popular.

Só uma transformação profunda acabará com a exploração dos trabalhadores

Hoje, o Brasil, apesar de ser a oitava economia do mundo e de ter um PIB de R$ 3 trilhões, é um dos países mais desiguais do mundo: 55 milhões de brasileiros ainda moram em condições precárias, 18,7 milhões sobrevivem com renda domiciliar inferior a ¼ do salário mínimo, 94,3% dos brasileiros recebem até R$ 900 por mês e a cada 15 segundos uma mulher é agredida.

A causa dessa situação está no fato de uma minoria de pessoas, a burguesia, ser dona do conjunto das riquezas que são produzidas em nosso país. De fato, segundo estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicada (Ipea), os 10%  mais ricos do Brasil se apropriam de 75% da riqueza do país e de acordo com dados do Censo Agropecuário apenas 46 mil pessoas detêm metade das terras existentes no Brasil.

Em outras palavras, na sociedade capitalista, devido à propriedade privada dos meios de produção, o crescimento econômico beneficia principalmente as classes ricas e tudo o que os trabalhadores produzem vai para o bolso dos donos das fábricas, das terras, das máquinas, dos edifícios, etc. Os operários trabalham muitas vezes mais de dez horas por dia, mas recebem em troca um salário que mal dá para chegar ao fim do mês; já seus patrões, a classe dos exploradores, são ricos e vivem no luxo e na fartura.

A mudança de que o Brasil precisa

Assim, apesar de sucessivas eleições para presidente da Republica, o Brasil continua sendo um país onde uma minoria rica explora impiedosamente os trabalhadores. Na verdade, as eleições na democracia burguesa são profundamente antidemocráticas, pois enquanto os candidatos dos ricos gastam rios de dinheiro em suas campanhas, os candidatos dos trabalhadores ganham baixos salários e dispõem unicamente do reconhecimento popular pelas lutas desenvolvidas contra as injustiças. O resultado é que os ricos elegem sempre a maioria dos governantes e dos parlamentares. Após a eleição, os políticos dos ricos tratam de pagar em dobro o dinheiro que receberam para suas campanhas com obras públicas superfaturadas e várias outras negociatas.

Portanto, para termos uma eleição verdadeiramente democrática é necessário democratizar a sociedade, isto é, acabar com a propriedade privada dos meios de produção e transformar o sistema econômico capitalista em socialista. Em resumo, a salvação dos pobres, dos trabalhadores está na luta contra a exploração dos capitalistas e numa revolução popular que de uma vez por todas, acabe com a exploração do homem pelo homem em nosso país.

De fato, sem a luta de Zumbi e dos negros no Quilombo dos Palmares, a escravidão não teria tido fim no Brasil.

Também foi com a organização e a luta dos trabalhadores que se conquistou o direito de greve, o aumento dos salários e os sem-terra conseguiram desapropriar vários latifúndios.

Foi ainda com manifestações, passeatas e a luta revolucionária que o povo brasileiro acabou com a ditadura militar no Brasil. E será também com a luta que os trabalhadores acabarão com a exploração que sofrem dos patrões e construirão uma democracia popular.

Agosto de 2010

Partido Comunista Revolucionário

As propostas do PCR para mudar o Brasil

A luta do PCR é, portanto, para estabelecer um poder popular democrático no Brasil e para que seja adotado um conjunto de medidas revolucionárias para acabar com as injustiças em nosso país e garantir uma vida digna e justa para a imensa    maioria da população brasileira.

1. Nacionalização dos bancos: união de todos os bancos em um só banco, ou seja, fusão de todos os bancos em um só banco de Estado;
2. socialização de todos os grandes monopólios e consórcios capitalistas e de todos os meios de produção nos setores estratégicos da economia;
3. fim da espoliação imperialista sobre a economia nacional, com a nacionalização de todos os monopólios e bancos estrangeiros; estancamento da sangria de nossos recursos para o exterior, pondo fim às remessas de lucros; pré-sal para o povo brasileiro;
4. redução da jornada de trabalho para seis horas; garantia de emprego e trabalho obrigatórios para todos; proibição do trabalho infantil;
5. expropriação da propriedade latifundiária e das grandes empresas agroindustriais; nacionalização da terra e fim do monopólio privado da terra. Reforma agrária;
6. anulação dos impostos extorsivos cobrados do povo; imposto sobre as grandes fortunas e progressivo – quem ganha mais, paga mais;
7. estatização de todos os meios de transporte coletivo;
8. educação pública e gratuita para todos e em todos os níveis; fim do lucro na educação;
9. democratização dos meios de comunicação, com a socialização de todos os grandes canais de televisão, jornais e rá-dios; garantia a todos os cidadãos de acesso aos meios de comunicação;
10. fim da violência contra a mulher; direitos iguais; fim do racismo e da discriminação dos negros e punição aos infratores; firme combate à exploração sexual de mulheres e crianças;
11. fim de qualquer discriminação religiosa, de raça ou sexo; plena garantia à liberdade religiosa;
12. demarcação e posse imediata de todas as terras indígenas; garantia de escolas diferenciadas para os índios e incentivo e apoio às línguas indígenas; defesa da cultura e dos direitos dos povos indígenas;
13. garantia de saúde pública e gratuita para todos.

 

Nota nº 5( PCML)

Por que votar em Dilma?

Editorial do Jornal Inverta sobre o segundo turno das eleições presidenciais

Votar em Dilma é derrotar o plano da oligarquias

Por que votar em Dilma? Quem duvida da capacidade da direita em manobrar o processo eleitoral brasileiro e impor seus objetivos imediatos e futuros à classe  trabalhadora e o povo pobre em geral em nosso país, que tire suas próprias lições desse primeiro turno das eleições presidenciais. Os números são muito visíveis. Do total de eleitores 135.804.433: 81,88% foram às urnas e se 18,12% abstiveram; dos votantes 8,64 % votaram em branco ou nulo, Dilma Rousseff (PT) obteve 46,91% dos votos válidos, José Serra (PSDB) 32,61% e Marina Silva (PV)  19,33%; 1,15% votaram nos demais candidatos. Qual a conclusão que se tira de tudo isto? Primeiro, a direita através de sua nova cara hegemonizada pelo PSDB, que concentrou seus votos na candidatura de José Serra. A esquerda institucional, do  PT ao PCO, se dividiu apesar da clara hegemonia do Partido dos Trabalhadores, e graças a essa divisão, fez crescer o bloco da esquerda institucional oportunista.  Conclusão: a direita usou a esquerda oportunista para chegar ao segundo turno, ameaçando jogar o Brasil, em especial, seu povo trabalhador e humilde de volta às mesmas condições  de vida do  governo Fernando Henrique Cardoso, com o agravante da ideia aventureira de iniciar uma escalada de agressão aos países-irmãos da América Latina que na atual conjuntura mundial e continental avançam na luta contra o imperialismo, em especial dos Estados Unidos, rumo à sua libertação. Portanto, a regressão ao modelo FHC e pró imperialista representado por Serra exige do povo  brasileiro um rotundo Não neste segundo turno eleitoral.

Já a esquerda oportunista, que cresceu na representação mímica de Marina Silva e do PV, conduzindo o processo eleitoral brasileiro à dramática ameaça do retrocesso de suas conquistas, deveria receber uma lição histórica talvez na mesma intensidade que recebeu Heloísa Helena no processo eleitoral anterior, afinal, o recado que o povo paulista mandou ao Congresso ao eleger o palhaço Tiririca, o sr.  Francisco Everardo Oliveira Silva, indica uma consciência em torno do que representa a grande maioria nesta instância de poder no país, contudo, ainda não compreendeu que em outras instâncias, tais como ao nível executivo: prefeitos, governadores e Presidência da República também se apresenta a mesma imagem no sentido em que sua presença no processo eleitoral tem por objetivo o entretenimento do povo para que o processo real transcorra de acordo com os objetivos das classes dominantes do país, isto é, as velhas oligarquias de cara nova. Quem se iludiu com a imagem produzida da candidata Marina Silva, que ora destacava o fato de que “não sabia ler, nem escrever já na fase adulta” e se apresentava como pessoa humilde, e em seguida se apresentava como grande pensadora estratégica de um modelo autossustentável e integrado num pensamento de totalidade do desenvolvimento brasileiro, não fez mais que acreditar no Tiririca, no sentido da representação, a diferença apenas no significado real das proposições. Enquanto Tiririca apresentava sua plataforma sintetizada na expressão “pior do que está não fica”, Marina, com todo o seu tom de seriedade, sofrimento e apelo a deus, aos votos dos evangélicos, apresentava seu grande modelo de pensamento integral de desenvolvimento autossustentável no Brasil sobre o mesmo princípio: continuarei o PAC, o Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, as obras de infraestrutura, a estabilidade econômica, quer dizer, ‘pior do que está não fica’.

Qual a diferença de Marina Silva e do Tiririca em termos de plataforma apresentada nas eleições? Quanto a sua consciência desse papel, pergunta-se: Como alguém que renunciou a enfrentar os latifúndios e o agronegócio, no Ministério do Meio Ambiente no Governo Lula, e toda sua administração resumiu-se a prisões de “pobres diabos”, que na luta pela sobrevivência se lançam na utilização inconsciente de pequenas posses de terra, exploração da fauna, flora e marinha? Além disso, administração povoada também de escândalos de corrupção no IBAMA, como o caso do diretor executivo Marcílio Monteiro, em Belém do Pará, apontado como chefe da quadrilha que negociava o desmatamento criminoso da Amazônia. Como pode em sã consciência apresentar sua ideia de  modelo sustentável numa sociedade cujas relações de produção combinam a acumulação primitiva com a exploração formal e real do trabalho ao capital? Quem pode acreditar que a exploração do agronegócio, com o latifúndio e o minifúndio pode dar lugar a um modelo autossustentável integrado ao desenvolvimento econômico e meio ambiente, voltados aos interesses da grande maioria do povo brasileiro?

Quem pode acreditar que este nível de exploração do campo, em termos agrícolas, que é subordinado totalmente ao processo industrial das cidades, em especial, a indústria paulista, que ambas permitiriam tal modelo? E ainda, quem poderia imaginar que a grande indústria no Brasil e agronegócio, entrelaçado e associado com as grandes empresas e os monopólios industriais, comerciais e financeiros das oligarquias internacionais permitiriam este modelo de desenvolvimento integral, estratégico e autossustentável apresentado pela grande pensadora estratégica Marina Silva? A pergunta aqui é: somos  todos tiriricas?

O exame consciente das proposições efetuadas pela esquerda oportunista pintada de verde é que  não passam de espetáculo ilusório, que só existe no show das câmeras da mídia nazifascista com a mudança de vestuário, closes e efeitos especiais próprios do espetáculo eleitoral e do debate manipulado. Todos os debates televisivos no primeiro turno nada tiveram de democrático, tratava-se de um debate de 3 contra 1, pois numa pequena soma de tempo entre os candidatos era, para cada 1 hora de debate, 15 minutos eram para Dilma, e 45 minutos eram contra ela. Nos poupamos de considerações sobre o discurso de Plínio Arruda Sampaio, que por analogia ao de Marina Silva, mais cinicamente se apresentou pois se o modelo autossustentável ‘aos moldes da Noruega’ é impossível diante das relações de produção capitalista no país, mas inimaginável é um modelo socialista contra o capital. A palavra concedida a Plínio Arruda Sampaio só foi permitida pela mídia nazifascista por sua origem de classe nas famílias quatrocentonas paulistanas, pois como Eduardo Suplicy, funciona como um rebelde que não sai da adolescência mas que deve ser tolerado.

Serra em seu discurso de comemoração do êxito estratégico de usar Marina e Plínio para chegar ao segundo turno, justificou: “vamos vencer as eleições pelas nossas tradições e crenças, pelas nossas famílias, pelos nossos filhos e pelos nossos netos, pelo Brasil verde e amarelo”. E cinicamente  começou seu discurso dizendo que só tinha uma cara; o jovem radical da esquerda católica é agora o radical da direita católica, na mais completa sintonia com a organização Trabalho, Família e Propriedade e a Opus Dei. Na verdade, o conceito de ‘cara’  utilizado por Serra deve ser  entendido na lógica hegeliana: antes a  cara da esquerda católica, agora a cara da direita católica e ao fim, ao meio e ao cabo a unidade da cara de pau em afirmar que tinha uma única cara, quando se sabe que ela personifica  muitos conteúdos e significados distintos, isto é, o agronegócio, os monopólios industriais, as oligarquias financeiras, em síntese, a cara do capital.

Por que votar em Dilma? Dilma Roussef embora tenha adaptado suas ideias de transformação brasileira  de acordo com a nova situação vivida pelo país, diante da atual correlação de forças e desenvolvimento da consciência revolucionária do povo brasileiro, por sua trajetória de vida, de origem humilde e revolucionária, chegou ao limite máximo de moral e idealismo revolucionário combatendo em armas a ditadura militar do capital no Brasil. Foi presa e torturada, sobreviveu e foi coerente com suas posições até os dias atuais; sua passagem pelo PDT aos tempos da liderança de Leonel Brizola deveu-se a uma posição política adotada por uma parte do egresso grupo de esquerda liderado por Carlos Lamarca, cuja análise das mudanças da realidade mundiais e do Brasil compreendia o espaço para a construção de partido de massas capaz de assegurar a democracia no país e o conjunto de liberdades contidas nesse conceito que propiciasse o desenvolvimento do país, permitindo que o povo trabalhador saísse das amarras da opressão, da miséria absoluta, e da situação de analfabetismo extremas, fortalecendo a sua consciência e acumulação de forças para um posterior momento de lutas e transformações mais decisivas rumo à sua libertação. A morte de Brizola e a estrutura orgânica dos quadros do PDT – como projeto político – romperam-se sobre o fenômeno político do surgimento da liderança de Lula e do Partido dos Trabalhadores. Sua passagem a esta organização partidária constituiu uma posição coerente para com seu objetivos historicamente assumidos com o povo brasileiro. Sua formação política e técnica se deu no curso da luta sem abandonar seus pontos de vista e sofrendo todas as discriminações relativas à mulher de esquerda e ex-guerrilheira. No PT, com a vitória de Lula, assumiu responsabilidades em ministérios que envolveram visão estratégica, técnica e política, como ministra das Minas e Energias e posteriormente como ministra da Casa Civil; ministério  profundamente abalado moralmente pelos escândalos de corrupção e o show da mídia nazifascista. Seu caráter a frente da Casa Civil superou todo o processo desmoralizante a que sucumbiu José Dirceu; promoveu de forma clara a moralização de toda a estrutura administrativa. Assumiu tarefas especiais dos grandes programas voltados diretamente para os seus objetivos e compromissos assumidos com o povo brasileiro: o emprego e desenvolvimento econômico através da construção de moradias para o povo pobre e outras obras de infraestrutura, mantendo a gestão estratégica de energia no país, traduzidas no forte desempenho e prestígio atingidos pela Petrobras. Sem dúvida, Dilma no governo Lula foi o contrapeso consciente às contradições de uma administração que herda a estrutura de quadros de FHC, do compadrio coronelista do período da ditadura militar no país. E que diante de tudo isto, fez valer sua integridade moral e respeito aos compromissos que desde cedo assumiu em sua militância.

Votar em Dilma não é apenas assegurar as mínimas conquistas neste período de 8 anos de mandatos consecutivos de Lula, mas a certeza da continuidade do caminho democrático do país, sua relação de respeito político com os demais países da América Latina e não permitir o retrocesso e a aventura imperialista das oligarquias, que dominam a economia e as estruturas arcaicas da sociedade. É garantir a continuidade da luta do povo brasileiro e latino-americano à sua libertação que se fará inexoravelmente diante das difíceis decisões e dramáticas ações decorrentes da crise do capital no país e no mundo. Por isso nosso voto continua em  Dilma Roussef!

Isto não significa um apoio acrítico ou que nos iludimos com as possibilidades de conquistar os objetivos históricos da classe operária e do povo pobre no país através do processo eleitoral e de governos dentro das regras do capital, mas a clara análise que diante da correlação de forças do momento histórico esta via de luta cumpre importância fundamental para o prosseguimento da luta sob novas condições que necessariamente estão por vir.

Nestes termos, nossas palavras de ordem são:

Defender o povo brasileiro!

Votar em Dilma Roussef!

Derrotar Serra e o plano reacionário das oligarquias!

P.I.Bvilla
OC do PCML
Outubro de 2010
Nota nº 6 (Movimento Negação da Negação)
A Esquerda e o 2o turno: VOTO NULO!

A.N.K.

17/10/2010

A Esquerda e o 2o turno: VOTO NULO!

Como já haviam se manifestado o PSTU, o PCO e nós do MNN, Plínio de Arruda Sampaio se posicionou, agora, corretamente e claramente, pelo VOTO NULO. Defendendo o VOTO NULO no segundo turno, afirmou Plínio: “A única posição correta neste momento é do voto nulo”. No texto “Manifesto à nação”, o candidato do PSOL chamou ainda o voto nulo de “um claro posicionamento contra o atual sistema e a manifestação de nenhum compromisso com as duas candidaturas”.

No mesmo dia em que o Manifesto de Plínio era publicado, sexta-feira dia 15, no entanto, a direção nacional do PSOL se reuniu em São Paulo para decidir, equivocadamente, a posição do partido. Em sentido contrário a Plínio, a direção não considerou o voto nulo como “única posição correta neste momento”. Prevalecendo a posição da bancada de deputados do partido, a direção chamou “nenhum voto a Serra”. O chamado se desdobrou em duas posições: “voto nulo / branco” e “voto crítico em Dilma”.

Chico Alencar e Ivan Valente, deputados eleitos no Rio e em São Paulo, deixam claro em seus respectivos sites na internet que vão chamar o “voto crítico em Dilma”, considerando Dilma Roussef como um mal menor em relação ao candidato tucano.

A posição desse setor do PSOL coincide com aquela adotada pelo PCB. O Partido Comunista Brasileiro, que no primeiro turno levou a cabo a candidatura de Ivan Pinheiro, levantou a seguinte palavra de ordem: Derrotar Serra nas urnas e depois derrotar Dilma nas ruas.

Ora, diante do avanço do bonapartismo lulista, o PCB, com essa posição, parece parodiar o Partido Comunista Alemão no início da década de 30, quando sustentava que se podia deixar Hitler chegar ao poder: este derrotaria a Social Democracia e depois o PCA derrotaria Hitler. Sabemos o que ocorreu: chegando ao poder em 1933, Hitler varreu a Social Democracia e massacrou o próprio Partido Comunista Alemão, assim como, todas as lideranças operárias socialistas.

O fundamento que motiva a posição do PSOL e do PCB de apoiar a candidatura de Dilma é a crença de que o PT é um mal menor, pois o PT, aparentemente, foi – e para alguns ainda é – um partido de esquerda. Isto ficou claro na campanha do primeiro turno. Com medo de parecer de direita, estas organizações socialistas batiam mais ou antes em FHC e no PSDB, para depois fazer críticas ao PT.

Não só a esquerda socialista, mas também o próprio PSDB comprou o discurso petista/lulista. A campanha de José Serra seguiu em grande parte essa cartilha grosseira. Basta lembrar que Serra, surpreendentemente, chegou a colocar na sua propaganda eleitoral da TV o próprio Lula.

Ora, quem seria o maior inimigo, sobretudo, da classe operária brasileira? Seria Fernando Henrique, um liberal, já carta fora do baralho? Ou o maior inimigo seria aquele partido que fala em nome do capital internacional? Aquele que recebe o maior financiamento de campanha dos banqueiros e dos capitalistas como atestam as contas da campanha de Dilma? Aquele que atrelou todos os sindicatos ao Estado? Aquele que bloqueia toda ação sindical independente da classe trabalhadora? Aquele partido que impede toda organização independente nas fábricas? Aquele partido cuja burocracia sindical agride os trabalhadores que procuram fazer qualquer propaganda socialista nas portas das grandes fábricas? Aquele partido cuja burocracia sindical deda os operários de oposição aos patrões, provocando as suas demissões?

Sem dúvida, é necessário quebrar com o dogma, hoje mais evidente do que nunca: “o PT é um partido de esquerda”. Não, o PT é o principal bloqueio para a construção de uma verdadeira direção da classe operária brasileira e mesmo latino-americana.

Também cabe lembrar as palavras do maior cabo eleitoral de Dilma, o presidente Lula, que declarou certa vez: “eu nunca fui de esquerda”.

E o que representa a candidatura de José Serra do PSDB? Quando foi fundado, em 1988, o PSDB procurava ainda ser uma opção de centro-esquerda ao PMDB e ao PT. Atualmente, representa apenas setores do grande capital descontentes que não obtiveram grande participação no Estado lulista durante estes últimos anos. Ainda por cima, Serra tem como aliado o DEM, grupo político que, apesar de quase liquidado, de forma clara, aglutina alguns dos setores da extrema direita no país, particularmente, aqueles vinculados à grande produção rural.

Essa vacilação demonstrada na posição de “voto crítico a Dilma” é absurda e embasada no velho mito de que o PT é de esquerda. Sim, trata-se de uma “esquerda” apoiada pelo grande capital internacional e pelos banqueiros. Iludem-se esses setores da esquerda socialista brasileira pensando que vão garantir um espaço para si próprios com a vitória de Dilma. Caso isto ocorra, em breve, serão marginalizados, senão massacrados, como aconteceu com toda a esquerda que militou no interior do próprio PT.

Mas, sobretudo, tal apoio crítico a Dilma de modo algum aponta uma perspectiva para a classe trabalhadora e a juventude deste país. Pelo contrário, reafirma a crença (religiosa) no petismo e divide ainda mais a esquerda socialista e a classe operária brasileira. Neste segundo turno, devemos fazer nossas, as palavras do candidato Plínio, aquelas do PSTU, do PCO, do MNN: “a única posição correta neste momento é do voto nulo”.

Nem Serra, Nem Dilma! Nulo neles!

José Arbex deixa conselho editorial do Jornal Brasil de Fato

José Arbex deixa conselho editorial do Jornal Brasil de Fato


Jornalista critica apoio do jornal para a candidatura Dilma, ignorando outras posições, como a do voto nulo. Leia abaixo a carta de ruptura.

Carta ao Conselho Editorial do Brasil de Fato

Acabo de ler a versão virtual da tiragem especial sobre eleições.

Tenho dois comentários e algumas considerações:

1. Tecnicamente, o jornal atingiu o auge. A apresentação está tecnicamente perfeita, bonita, agradável, acessível.

2. Politicamente, o jornal também atingiu o auge, no sentido de ter chegado a um limite: não se trata mais de um jornal, mas sim de um panfleto especial sobre as eleições. Para mim, isso significa a morte do jornal Brasil de Fato e o nascimento oficial de mais um órgão chapa branca. Um órgão tecnicamente perfeito, mas politicamente subordinado ao lulismo.

Sem entrar no mérito das posições, é conhecido o fato de que vários setores da esquerda não apoiam a candidatura Dilma, embora sejam contrários à candidatura Serra. Plínio de Arruda Sampaio, por exemplo, acaba de lançar um manifesto propondo o voto nulo. Eu mesmo me manifestei contrário ao apoio a Dilma, embora não tenha defendido o voto nulo. E a posição dos companheiros da Refundação Comunista é favorável ao voto em Dilma, mas com todos os “mas”, “senões” e “talvez” que desaparecem da edição especial: o lema da Refundação, se não estou enganado, é: “derrotar Serra nas urnas e a Dilma nas ruas”, o que está longe de transformar Dilma em ícone da redenção nacional (coisa que a edição especial faz, na pratica, sem o menor pudor).

O jornal Brasil de Fato, obviamente, só considera digno de publicação no especial sobre as eleições a posição que apóia explicitamente a candidatura Dilma. O jornal Brasil de Fato, ao fazê-lo, pratica a mesma operação que Altamiro Borges corretamente critica na própria edição especial, só que inverte o sinal: o Brasil de Fato se torna um palanque para a Dilma, precisamente como a “grande mídia” é um palanque de Serra. Pior ainda: ao considerar legítima e merecedora de publicação apenas uma determinada posição, descartando liminarmente todas as outras que existem no interior do Conselho Editorial, o jornal passa a impressão pública (exposta em 2 milhões de exemplares) de que há uma unanimidade no interior do conselho: trata-se de uma prática sórdida e bem conhecida, consagrada na época que um certo Josef comandava o regime de terror na URSS.

Diante disso, minha posição no Conselho Editorial se torna insustentável. Sei que ocorreu algo semelhante em 2006, mas voltei a integrar o jornal, na época, por considerar que o MST era muito maior, muito mais importante, muito mais vital do que eventuais divergências. Só que a situação agora é qualitativamente nova. O jornal Brasil de Fato transformou-se num planfletão lulista, e isso marca – na minha opinião, obviamente – reflexo de um processo de desmantelamento histórico do MST e de ruptura de uma boa parte da esquerda com sua própria história e princípios éticos. Trata-se de uma debandada tão grande e imunda que permite, entre outras coisas, que lideranças da “esquerda” declarem sem ruborizar o seu apoio ao agronegócio, à aliança com os neocompanheiros José Sarney e Michel Temer e o acobertamento cúmplice e conivente de manobras sórdidas nos corredores palacianos.

Já abordei várias vezes esse tema em reunião do Conselho Editorial e nunca fui levado suficientemente a sério. O MST, que era – sempre na minha opinião – o último grande bastião de resistência à cooptação oficial, está claramente sendo triturado pela máquina do Estado terrorista brasileiro, agora operada pelo lulismo. E tudo em nome do… “combate à direita”! A frase “Dilma não é o governo dos nossos sonhos, mas Serra é o governo de nossos pesadelos”, que consagra a posição editorial assumida pelo jornal, pode ser um bom achado de marketing, um ótimo recurso de oratória, uma bela saída para escapar de um dilema político. Mas se o critério for a boa oratória, que se convoque então Carlos Lacerda. Ele tem ótimas lições a dar nesse campo.

Não vou ser cúmplice disso. Nesse mesmo sentido – e embora não seja essa lista o palco para esse debate – coloco em questão a legitimidade de minha permanência à frente da Associação dos Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes (e por isso envio esta carta com cópia à diretoria da AAENFF, a quem peço que remete ao conjunto de seus associados). Encaminho também a algumas outras listas, para que se marque publicamente a minha ruptura com esse trágico desfecho.

Aos vencedores, as batatas.

Abraços

Jose Arbex Jr.

Personagens revolucionários

Vladimir Alexandrovitch ANTONOV-OVSEIENKO (1884 – 1937)

Nascido em 1884, na cidade de Tchernigov, no seio de uma família de um comandante da reserva de regimentos de infantaria da Rússia Czarista. Seu pseudônimo partidário foi “Schtyk” e o literário, “A. Galsky”.

Antonov-Ovseienko ingressou no movimento revolucionário russo, em 1901, quando era cadete da Escola Militar de Voronez e da Escola de Engenharia Militar de Nikolaievsk. Nesse mesmo ano, foi expulso dessas instituições militares, por recusar-se a prestar juramento de lealdade ao Czar Nikolau II. Entrou no Partido Operário Social-Democrático Russo (POSDR) em 1902.

Desertou das Forças Armadas Czaristas durante o ascenso revolucionário de 1905, passando a colaborar para a edição do jornal militar-clandestino Kazarma (Caserna). A Revolução de 1905-1907 envolveu Antonov-Ovseienko em atividades na Polônia, onde foi parte ativa da organização da insurreição armada. Depois desse episódio, foi preso. Foi libertado em virtude de uma ampla anistia.

Depois de participar da Conferência da Organização Militar do POSDR, ocorrida nesse mesmo ano, ocupou-se com a organização da insurreição armada de Sebastopol. Por isso, foi condenado à morte, sentença depois convertida a 20 anos de trabalhos forçados. Em junho de 1907, um grupo de mencheviques conseguiu libertá-lo, fazendo um buraco na parede da prisão em que se encontrava.

Nos anos da I Guerra Mundial, Antonov-Ovseienko atuou, na redação do jornal Noshe Slovo (Nossa Palavra). Em maio de 1917, regressou do exílio e ingressou nas fileiras do POSDR-Bolchevique, passando a dirigir a organização militar-partidária e tornando-se membro do Comitê Central.

Nos dias que precederam a Revolução de Outubro, foi eleito membro do Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado  e com N. I. Podvoisky e G. I. Tchudnovsky, assumiu a direção militar das operações da insurreição, visando à tomada do Palácio de Inverno e à prisão do Governo Provisório.

Foi um dos principais estrategistas e comandantes militares da captura do Palácio de Inverno, tendo dirigido, pessoalmente, a Guarda Vermelha dos Trabalhadores e a Divisão dos Marinheiros de Kronstadt. Prendeu todos os membros do Governo Provisório.

Depois da revolução, foi eleito membro do Comissariado Colegiado do Povo para Assuntos de Guerra e de Marinha no Fronte Interno. Em fins de 1923, Antonov-Ovseienko aderiu à Oposição de Esquerda. Em virtude disso, foi afastado de seu comando militar e removido, em 1925, do cenário da luta política.

Antonov-Ovseienko permaneceu nas fileiras da Oposição até 1928, quando capitulou ao stalinismo, então no cargo de representante político da URSS enviado para a Lituânia e, depois, para a Polônia. Foi, ainda, cônsul geral da URSS em Barcelona, cooperando com a sustentação do Governo de Frente Popular da Espanha.

Posicionou-se, no âmbito do Tribunal Supremo do Colégio Militar, repudiando suas “ilusões trotskystas”, em favor da punição de todos os acusados pela burocracia contra-revolucionária. Mas, em outubro de 1937, depois de retornar à URSS, foi preso em sua casa em Moscou, sob a acusação de prática de “crime contra o Estado Soviético”. Como se negasse a assinar a confissão de culpa, falsificada por Vyschinsky, foi condenado a 10 anos de prisão e torturado até a morte.

Nikolai BUKHARIN (1888 – 1938)

Nikolai Ivanovich Bukharin nasceu em Moscou, em 9 de outubro de 1888. Economista e jornalista, tem grande destaque entre os teóricos do marxismo. Em 1906, organiza uma greve e une-se aos bolcheviques. Em 1910, vai para o exílio após uma série de prisões. É em 1912 que conhece Lênin e torna-se um dos seus colaboradores mais próximos. Também colaborou com Trotsky durante o período em que esteve exilado.

Durante a Revolução de Outubro, dirigiu o levante em Moscou. Ainda em 1917, é eleito membro do Comitê Central do Partido Bolchevique, cargo que ocupa até o fim de sua vida. Bukharin foi o grande elaborador dos fundamentos econômicos da jovem República Soviética – a Nova Economia Política (NEP), idealizada por Lênin.

Após a morte de Lênin, em 1924, aliou-se a Stálin. A partir de 1928, Stálin inicia a coletivização forçada no campo contra a política defendida por Bukharin de concessões aos setores da burguesia e da pequena burguesia no campo.

Na verdade, essa foi uma política que Lênin colocava como transitória, e Bukharin a eternizou. Ele dizia que a NEP deveria se desenvolver gradativamente até o socialismo. Assim, transformou-se no defensor dos kulaks, proprietários de terra que exploravam a mão-de-obra dos camponeses pobres.

Bukharin era o líder da oposição de direita. Stálin, constatando seu potencial concorrente, afasta-o de suas tarefas no Estado. Em 1937, Bukharin é preso e, em 1938 e condenado à morte. Nem mesmo a autocrítica que fez, assumindo-se como contra-revolucionário, lhe salvou a vida. Ainda em 1938, foi executado no segundo processo de Moscou.

Os cargos que ocupou demonstram a sua importância política. De 1917 até 1934, foi membro do Comitê Central do Partido Bolchevique (depois PCUS). Foi redator-chefe do Pravda, o órgão de imprensa bolchevique, por mais de dez anos, de 1918 a 1929. Esteve à frente da comissão encarregada de elaborar a Constituição do Estado Soviético. Em 1926, foi eleito presidente do Comitê Executivo da III Internacional. Dentre suas obras, destacam-se O ABC do Comunismo e O testamento político de Lênin.

MAXIMO GORKY (1868-1936)

Este era o pseudônimo de Aleksj Maximovic Peskov, um dos maiores escritores de todos os tempos. Em seus contos e romances, refletiu a sua militância e a luta de classes. Gorky nasceu pobre e perdeu seus pais muito cedo, o que o obrigou a trabalhar. Foi, pois, lavando pratos num navio que fazia viagens pelo Volga que teve despertado seu interesse por se tornar um ativista, a partir de livros emprestados pelo cozinheiro. Ele também trabalhou como sapateiro, desenhista, pescador, vigia, vendedor de frutas, jardineiro, padeiro e jornalista, entre outras atividades que realizou para sobreviver.

Foi com apenas 15 anos que publicou seu primeirto romance, Romá Gordieiev e os três (1883), o que não lhe garantiu de forma alguma a sobrevivência. Diante da fome, do frio e da falta de perspectivas de melhoras, tentou suicídio aos 19 anos, mas sobreviveu. Esse fato, Gorky registrou em “Um incidente na vida de Makar” (1892) e “Como aprendi a escrever” (1912). Curiosamente, foi esse episódio frustrado que fez com que se engajasse de uma vez por todas na luta política, seguindo o marxismo e as idéias de Lênin. Sua primeira obra de sucesso foi a peça de teatro “Pequenos Burgueses” (1910), em que descreve os conflitos da família de comerciantes Bessemov.
Em 1905, juntou-se aos bolcheviques e teve grande importância na organização da imprensa do partido. Com a derrota da revolução de 1905, o escritor foi preso e libertado mediante uma forte campanha, apoiada por intelectuais de peso na Rússia. O escritor se tornou grande amigo de Lênin. No momento decisivo da história da Rússia, porém, Gorky colocou-se contra a Revolução de Outubro.

Abandonando o partido, sai da União Soviética, para onde regressaria somente em 1931, quando o país já estava sob a ditadura estalinista. Apoiado por Stalin, cria o Instituto de Literatura Máximo Gorky, em 1933, se transformando num ícone vivo da literatura.
Em 18 de junho de 1936, uma pneumonia lhe tirou a vida, deixando inconclusa a sua última obra, “A vida de Klim Samgin”. O enterro foi acompanhado pessoalmente por Stálin. Dois anos mais tarde, entretanto, Trotsky escreve o artigo “Quatro médicos que sabiam demais”, publicado no New York Times, em que denuncia que Gorky teria sido envenenado a mando de Stálin.

Após sua morte, uma homenagem: do ditador, a cidade em que nascera – Nizhny Novgorod – passou a se chamar Gorky, tendo retomado seu nome original em 1991, com a queda definitiva dos estados operários do Leste Europeu.

Principais obras:

1883 – Romá Gordieiev e os três
1892 – Um incidente na vida de Makar
1906 – Os Bárbaros
1906 – Os Inimigos
1907 – A Mãe
1908 – A Confissão
1908 – Os Últimos
1910 – Pequenos burgueses
1910 – Gente Esquisita
1911 – Vassa Alheleznova
1912 – Como aprendi a escrever
1912 – Os Kykov
1912-1913 – Infância, Ganhando meu pão e Minhas Universidades (trilogia autobiográfica)
1924 – Recordações sobre Lênin
1925 – Os Artamonov
1927-1936 – A vida de Klim Samgin (não terminado)
1928 – Yegor Bolychov

Lev KAMENEV (1883 – 1936)

Um dos principais dirigentes do Partido Bolchevique e da Revolução de Outubro, Kamenev era também engenheiro ferroviário. Kamenev era casado com a irmã de Trotsky, Olga Bronstein. Por esta proximidade, tentou sistematicamente ganhar Trotsky, então membro da ala menchevique, para os bolcheviques antes de 1905.

Ingressa no Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) em 1901. No ano seguinte, é preso e exilado, mas consegue fugir. Em sua fuga, conhece Lênin e junta-se aos bolcheviques.

Kamenev foi condenado ao exílio em 1914, não podendo, segundo a pena, regressar jamais à Rússia. A Revolução de Fevereiro, no entanto, leva-o de para a direção do partido. Nesse período, Lênin também regressava à Rússia, apresentando as Teses de Abril. Kamenev fez dura oposição a Lênin e se colocou contra a tomada do poder, fato que o faz renunciar à direção do partido. Em outubro, porém, participa da insurreição ativamente.

Em 1918, Kamenev vai a Londres, sob orientação de Lênin, para fazer propaganda do novo regime soviético para os trabalhadores ingleses. Ele acaba sendo preso e deportado para a Finlândia, de onde só consegue retornar à Rússia no ano seguinte, encontrando o país em plena guerra civil.

Após a morte de Lênin, junta-se com Stálin e Zinoviev, formando o grupo que ficaria conhecido como a Troika. O objetivo central dessa aliança era combater a Oposição de Esquerda e dissipar a influência de Trotsky.

Discordando dos rumos que tomava o governo, Kamenev e Zinoviev rompem a Troika e estabelecem uma relação com Trotsky, formando a Oposição Unificada. Logo, porém, se reconciliam com a burocracia.

Em 1935, o assassinato de Kirov detona os processos de Moscou ou o grande expurgo. Kamenev é acusado de envolvimento na morte de Kirov – que, na verdade, foi morto a mando de Stálin -, sendo condenado a dez anos de prisão. Em 1936, é condenado e executado no primeiro processo de Moscou, acusado de planejar o assassinato de Stálin.

Alexander KERENSKY (1891-1970)

Nascido em Simbirski, no dia 22 de abril, foi um dos líderes do Partido Socialista Revolucionário da Rússia entre 1905 e 1912. Advogado, fazia parte da ala direita da organização. Em 1912, Kerensky mudou para o Partido Trabalhista Russo (Toil) e foi eleito para a Duma, o parlamento russo.

Após a Revolução de Fevereiro, que derrubou o regime czarista na Rússia, Kerensky se transformou em ministro-presidente, o principal cargo do Governo Provisório. Seu governo foi a primeira experiência de frente popular na história, em que governavam juntos setores da burguesia e representantes do proletariado. Antes disso, fora presidente do Soviete de Petrogrado e passara pelos ministérios da Justiça e da Guerra. A principal ação de Kerensky no Governo Provisório, além de combater à morte os bolcheviques, foi a continuidade da guerra contra a Alemanha. Seu curto mandato – de junho a outubro de 1917 – também foi marcado por fraudes e corrupção.

Entre suas atividades, Kerensky foi editor-chefe da revista Novaia Rossiia, publicação provinciana russa que, após outubro de 1917, passou a ser editada em Paris. Nesse veículo, a luta de classes era combatida ferozmente por preceitos morais e da fé.

A política de conciliação de classes do Governo Provisório, levada adiante por Kerensky, resultou na tentativa de golpe pelo general Kornilov, então chefe de Estado Maior do Governo Provisório. Kerensky havia fechado um acordo com Kornilov para massacrar os bolcheviques. Sob pretexto de que esses estariam preparando uma insurreição, pediu ao general que colocasse a cavalaria a disposição da repressão aos bolcheviques.

Kornilov dispôs a cavalaria em Petrogrado contra os bolcheviques, mas não somente: apontou suas armas contra o próprio Governo Provisório, exigindo que o poder fosse entregue. As massas, dirigidas pelo Partido Bolchevique, resistiram. Aramaram barricadas na entrada de Petrogrado, impedindo o golpe. Os soldados de Kornilov não se atreveram a atacar as massas. O golpe foi derrotado, mas o Governo Provisório continuava isolado das principais reivindicações do povo russo – nas palavras de Lênin, “pão, paz e terra”.

Foi assim que, em outubro de 1917 Kerensky e a burguesia são derrotados, e os trabalhadores, tendo os bolcheviques à frente, tomam o poder na Rússia, liderados por Lênin e Trotsky. Kerensky foge para a Europa Ocidental e, em 1940, passa a viver nos Estados Unidos, onde morreu na cidade de Nova Iorque, em 1970.

ALEXANDRA KOLLONTAI (1872 – 1952)

Cada distinção especial para as mulheres no trabalho de uma organização operária é uma forma de elevar a consciência das trabalhadoras e aproximá-las das fileiras daqueles que estão lutando por um futuro melhor. O Dia da Mulher e o lento, meticuloso trabalho feito para elevar a autoconsciência da mulher trabalhadora estão servindo à causa, não da divisão, mas da união da classe trabalhadora.”

Nascida numa família rica de origem nobre, em 31 de maio de 1872, na Finlândia, Chura Domontovich – seu nome de nascimento – foi a principal dirigente mulher da Revolução de Outubro. O nome Kollontai veio do casamento com o primo Vladimir Kollontai, oficial do Exército do czar.

O encontro com o marxismo veio ainda na juventude, numa Rússia em que os debates e ações contra o czarismo fervilhavam sobre o regime decadente. Em 1890, ingressa no Partido Social-Democrata Operário Russo (POSDR). Sua primeira prova de fogo foi a revolução de 1905, da qual participou ativamente e lhe rendeu a amizade com Lênin e Krupskaia. Nesse período, fazia parte da fração menchevique do POSDR, em que permanece até por volta de 1915 para se alinhar, definitivamente, aos bolcheviques.

Formada em economia na Suíça, escritora, legisladora, propagandista: eis algumas das habilidades desta revolucionária. Kollontai foi, talvez, quem, pela primeira vez na história, tenha conseguido relacionar e sistematizar feminismo e marxismo. Como ativa militante feminista e socialista, defendeu a inclusão da mulher na revolução, mas sabia que isso não bastava e que a extinção da propriedade privada não acabaria automaticamente com a opressão histórica da mulher. Por isso, defendeu a liberdade de organização das mulheres.

Em 1917, pouco antes da revolução e ainda na presa, foi eleita para o Comitê Central no VI Congresso do Partido. Após a revolução de fevereiro de 1917, retorna a Rússia. Já no governo dos sovietes, foi Comissária do Povo para a Segurança Social. Em 1918, porém, renuncia ao Comitê Central por se opor ao tratado de paz de Brest-Litovsk, assinado por Trotsky para tirar a Rússia da guerra, impondo a derrota do país no conflito.

Nunca separada da luta das mulheres, em 1918, organizou o primeiro Congresso de Mulheres Trabalhadoras da Rússia. É de sua autoria a legislação revolucionária soviética que estabeleceu, de forma inédita, a igualdade de direitos entre mulheres e homens.

Em 1930, numa declaração pública, manifestou seu apoio ao regime estalinista. Ironicamente, o regime que passara a apoiar foi o mesmo que acabou, entre outras coisas, com os maiores avanços que a humanidade já vira com relação às mulheres. O estalinismo enterrou, junto com suas vítimas executadas, os direitos das mulheres e a nova concepção de família que surgia, resgatando o que havia de pior do moralismo burguês e religioso.

Kollontai morreu em Petrogrado, em 9 de março de 1952. Ao longo de sua vida, ocupou cargos diplomáticos como embaixadora russa na Suécia, no México e na Noruega. Foi a primeira mulher do planeta a atingir tal status.

Nadejda KRUPSKAYA (1869 -1939)

Nascida em São Petersburgo, em 26 de fevereiro de 1869, Nadejda Krupskaya Konstantínovna foi uma grande revolucionária russa, além de professora e escritora. Seu primeiro contato com o marxismo revolucionário se deu ainda muito cedo, quando, quase como todos os jovens de sua época, participava de ações e movimentos clandestinos contra o czar.

Em 1894, conhece Lênin, com quem se casou em julho de 1898. Com ele viveu até o dia da sua morte, acompanhando em cada exílio, da Sibéria à Suíça, e durante a sua grave doença.

De suas atividades no Partido Bolchevique, destacam-se os cargos de secretária da fração bolchevique ainda no Partido Social-Democrata Russo (POSDR), secretária do Conselho do jornal Iskra. na Rússia pós-revolução de Outubro, foi responsável pela organização e desenvolvimento do sistema de ensino. Foi, Krupskaya, também, quem iniciou a organização do sistema de bibliotecas da União Soviética. Ainda hoje, a Rússia tem alguns dos maiores e melhores acervos de livros do mundo.

Após a morte de Lênin, em 1924, juntou-se à Oposição de Esquerda. Com os expurgos estalinistas – que levaram ao assassinato os principais líderes do grupo oposicionista – Krupskaia afastou-se do grupo. Os estalinistas a isolaram politicamente.

Vladimir LÊNIN (1870 – 1924)

Vladimir Ilich Ulianov nasceu em 22 de abril de 1870 e faleceu em 21 de janeiro de 1924. Por sua devoção militante à vitória do proletariado conjugada com uma excepcional formação teórica marxista e visão estratégica, viria a cumprir um papel decisivo nos principais embates políticos que marcariam a história do início do século XX.

Lênin era filho de uma família pequeno-burguesa da província de Simbrinski. Seu irmão mais velho, Alexander Ulianov, então com 21 anos (1887), estava entre os quinze jovens acusados criminalmente por participarem de uma conspiração para assassinar o czar Alexander III.. Sua irmã Ana também foi condenada à prisão domiciliar por ter sido acusada de participação secundária na conspiração.

George Plekhanov, que era uma das principais figuras intelectuais da social-democracia russa e dirigente de um desses pequenos grupos marxistas chamado “Grupo da Emancipação do Trabalho”, fundado em 1883, foi a principal referência para Lênin até o II Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), onde surgiram duas correntes devido às divergências sobre a concepção de partido: os bolcheviques, dirigidos por Lênin e os mencheviques, dirigidos por Plekhanov e Martov.

Lênin participou do grupo “União e Luta pela Emancipação da Classe Operária” de Petrogrado e militou ativamente junto com Martov não mais somente dos círculos de leitura, mas atuou junto a fábricas operárias importantes em protestos e greves. Por tais atividades foi preso, julgado e deportado para Sibéria. Nesta época, conheceu a professora e também militante Nádia Krupskaia que viria a ser sua companheira de vida.

A militância de Lênin neste período teve como propósito central a unificação dos grupos marxistas em um só partido e para isso via como instrumento principal a edição do jornal que pudesse coordenar as atividades dos revolucionários. Quando saiu da prisão, dedicou-se a organizar o clandestino Iskra (A Centelha).

Em Abril de 1905, ocorre em Londres o III Congresso do POSDR, em que os bolcheviques são maioria, e Lênin foi eleito presidente do Congresso. Em janeiro de 1912, diante da crise do POSDR, Lênin convoca sob sua direção uma conferência e a proclama como o verdadeiro partido, elegendo uma direção majoritariamente bolchevique e de mencheviques aliados.

Em fevereiro de 1917, a Revolução Russa inicia sua segunda fase: o czar é deposto, reconstroem-se os sovietes e forma-se o Governo Provisório, com o apoio direto dos mencheviques e dos socialistas revolucionários e com a linha conciliadora dos bolcheviques.

Lênin, do exterior, se enfurece com a linha de não enfrentar o Governo Provisório, que tinha o populista Kerensky à cabeça e não toma nenhuma das medidas reivindicadas pelos trabalhadores, soldados e camponeses. Consegue chegar a Petrogrado no final de março com as “Teses de Abril” e abre uma polêmica para mudar os rumos do partido e mais uma vez empenha toda a sua autoridade para ganhar a luta política que seria a decisiva de toda sua vida, a luta para que os trabalhadores tomassem o poder e construíssem a revolução. Daí surge a bandeira de “Todo o poder aos Sovietes”.

Entre abril e outubro, desenvolve-se uma longa jornada de enfrentamentos políticos internos e nas organizações operárias. Trotsky volta também do exílio e assume a direção do Soviete de Petrogrado.

A influência dos bolcheviques vai crescendo cada vez mais nos sovietes. Neste período, derrota-se a tentativa do golpe direitista do general Kornilov. Lênin vai para o exílio mais uma vez por medida de segurança, já que o Governo Provisório acusa-o de agente do governo alemão. Neste período escreve “O Estado e a Revolução”, em que polemiza com os anarquistas e os reformistas os desafios da construção do Estado proletário.

Lênin desenvolve, a partir de setembro de 1917, outra luta interna para que o partido se preparasse para a tomada do poder em seus aspectos políticos e militares. Após duras polêmicas e crises internas, ganha o debate e a direção do partido começa os preparativos para o assalto ao poder. No dia 25 de outubro, é votada a palavra-de-ordem “todo o poder dos sovietes”. Neste momento, vários pontos estratégicos da cidade já estavam tomados, entre eles o Palácio de Inverno. Para o novo Comitê Executivo do II Congresso dos Sovietes foi eleito entre os bolcheviques Lênin, Trotsky, Zinoviev, Kamenev, Ríkov, Noguín, Kolontai, Riazanóv, Lunacharsky, Murálov, Stutchka, Antonov-Ovseienko, Krilenko e Sklinansky.

Depois de tomar o poder na Rússia Soviética, assume como principal tarefa não somente defender a Revolução, mas expandi-la como parte dessa luta. Os bolcheviques compreendem a Revolução Russa desde o princípio como parte da Revolução Européia e mundial. Para tal, era necessária uma organização que respondesse à tarefa, e assim foi fundada, em 1919, a III Internacional ou Internacional Comunista da qual Vladimir faria parte de sua direção.

Lênin morreu aos 54 anos, debilitado fisicamente também devido aos atentados terroristas que sofreu. Antes de falecer, fez os seus últimos discursos no dia 31 de outubro no Comitê Executivo dos Sovietes e no 4º Congresso da Internacional Comunista, em 19 de novembro de 1923. Lênin não teve tempo de travar sua última batalha, a luta contra a burocratização do Estado Soviético, proposição que fizera a Trotsky, já que havia percebido as deformações burocráticas de uma nova camada social que estava se apossando do Estado e governando-o em proveito próprio e cujo principal representante era Josef Stalin.

Anatoli LUNACHARSKY (1875-1933)

Nascido na Rússia, foi ter contato com o marxismo na Suíça, durante seus estudos em Zurique, onde conheceu os revolucionários alemães Rosa Luxemburgo e Leo Jogiches. Quando regressa à Rússia, em 1896, já é um militante ativo contra o czarismo, passando a compor as fileiras do Partido Social-Democrata Operário da Rússia (POSDR). A opção lhe rende a prisão pela Okhrana – polícia secreta do czar – e o exílio na Sibéria.

Em 1903, ainda na Sibéria, durante o congresso do POSDR, alinha-se aos bolcheviques. Porém só retorna a Moscou em 1905. Impactado pela derrota da revolução russa de 1905, amplia suas diferenças com Lênin, levando-o a romper com os bolcheviques e passar à fração menchevique do POSDR. Lunacharsky defendia a necessidade de unir a religião ao marxismo. Ele voltaria a se integrar aos bolcheviques em 1917.

Foi, entretanto, na área da educação e cultura que teve maior atuação. Antes da Revolução de Outubro, exerceu atividades de dramaturgo, crítico de arte e jornalista, sendo responsável pela edição de diversas publicações políticas e culturais.

No governo soviético, foi eleito comissário de Educação Pública, permanecendo no cargo até 1929. Um de seus grandes feitos foi reduzir o índice de analfabetismo, que era altíssimo na Rússia pré-revolucionária, perto de 65% da população. Conseguiu reduzir a quase zero esse índice.

Durante seu mandato, foi criado o Proletkult, órgão especial para a cultura do Estado Soviético, cuja tradução é “cultura proletária”. Estatizou o cinema, ação que rendeu alguns dos maiores clássicos mundiais da sétima arte, como O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein.

Foi um grande incentivador da cultura, permitindo avanços também no teatro e na literatura, bem como em outras artes.

Na luta contra a burocratização do Estado Socialista, colocou-se ao lado de Stalin. É quando passa a assumir tarefas diplomáticas, obtendo, em troca, diversos privilégios. Representou a União Soviética na Liga das Nações em 1930. Em 1933, foi nomeado embaixador soviético na Espanha por Stalin, mas morreu na França antes que assumisse o cargo.

Georg PLEKHÁNOV (1856-1918)

Um dos principais teóricos e propagandistas do marxismo, Plekhánov fundou o primeiro grupo marxista da Rússia, em 1883, o Emancipação do Trabalho. Considerado o pai do marxismo russo, foi perseguido pelo czarismo e esteve exilado por diversos anos. Plekhánov também lutou contra o anarquismo e o terrorismo, bastante em voga na Rússia de sua época.

Foi fundador do Partido Social-Democrata Operário da Rússia (POSDR), em 1898, juntou-se aos mencheviques em 1903, no segundo congresso do partido. Durante a I Guerra Mundial, apoiou a campanha da Rússia no conflito, assumindo uma postura patriota e chocando-se com os bolcheviques, que eram contrários à guerra.

Suas principais contribuições estão no campo teórico do marxismo.

O próprio Lênin, formado dentro da escola plekhanovista, considerava sua obra o que existia de melhor no campo da filosofia do marxismo e do materialismo histórico. Ironicamente, Plekhánov se opôs à Revolução de Outubro, apesar de ter sido favorável à Revolução de Fevereiro, que derrubou o czar. Após a primeira insurreição, passou a apoiar o Governo Provisório. Em seu testamento, disse, a respeito da defesa de tomada do poder feita por Lênin: “é minha criatura, mas sua revolução será uma desgraça para todo o movimento operário”.

Dentre suas obras mais conhecidas, está O papel do indivíduo na história, de 1898, em que determina que “nenhum grande homem pode impor à sociedade relações que já não se coadunam com o estado destas forças ou que ainda não se coadunam com elas”.

Evgeni PREOBRAZHENSKY (1886 – 1937)

O economista Alexeyevich Evgeni Preobrazhensky, na sua juventude, se dedicou a organizar o Partido Bolchevique nos montes Urais e na Sibéria, o que lhe rendeu uma boa quantidade de prisões e condenações. Em 1917, foi eleito para o Comitê Central do partido.

Preobrazhensky sempre esteve mais próximo de Trotsky, desde a discussão sobre os sindicatos. Ele era o responsável por apresentar, nos congresso do partido, as posições da oposição.

Quando, em 1929, Stálin guina à esquerda com a coletivização forçada no campo, Preobrazhensky capitula ao regime. Em 1935, é acusado de traição e, um ano depois, foi executado sem julgamento nos Processos de Moscou.

Grande economista, deixou uma importante obra teórica marxista. Foi co-autor de ABC do Comunismo, junto com Bukharin, coordenou o plano de industrialização da URSS, tarefa pela qual ficou conhecido, e foi editor do Pravda.

Alexei RYKOV (1881-1938)

De origem camponesa, Rykov se tornou um importante revolucionário. Sua entrada no Partido Social-Democrata Operário Russo (POSDR) foi em 1898, mas somente em 1903 aderiu à fração bolchevique, no segundo Congresso do partido. Em 1905, participou ativamente da revolução.

No período que precedeu a Revolução de Outubro, Rykov esteve exilado na Sibéria, retornando após fevereiro de 1917. Membro do Comitê Central do Partido Bolchevique na Revolução de Outubro, Rykov foi um dos colaboradores mais próximos de Lênin. Ele fez parte do Comitê Militar Revolucionário, que preparou a tomada do poder em Moscou.

No governo dos soviets, foi eleito presidente do Conselho Supremo de Economia. Após a morte de Lênin, Rykov foi nomeado o primeiro comissário do Povo do Interior, permanecendo no cargo até 1929. Fazia parte da ala direita do Partido Bolchevique nos anos 1920, defendendo, junto a Bukharin, a restauração parcial da economia de mercado sob a Nova Política Econômica (NEP).

Quando se inicia a luta de Trotsky contra a burocratização do Estado Soviético, Rykov apóia Stalin contra a Oposição de Esquerda. De nada adiantou. Em 1937, Rykov cai em desgraça perante Stalin e é expulso do partido em 27 de fevereiro, mais uma vez junto com Bukharin. Apontado como trotskista, julgado e condenado por terrorismo e traição nos processos de Moscou – os expurgos estalinistas -, foi executado em março de 1938.

Sergo ORDZHONIKIDZE (1886-1937)

O médico Sergo Ordzhonikidze juntou-se à fração bolchevique do Partido Social-Democrata Russo (POSDR) em 1903, em Tíflis, capital da Geórgia, de onde era natural. Antes de 1917, suas tarefas eram, essencialmente, de organização clandestina do partido. Por esta razão, esteve preso inúmeras vezes. Antes de se estabelecer na Rússia, participou da Revolução Constitucional Persa, como membro da comissão indicada pelos bolcheviques, até 1909.

Amigo pessoal de Stalin, foi membro do Comitê Central do Partido Bolchevique na época da Revolução de Outubro. Durante a guerra civil, assumiu o posto de comissário da Ucrânia e comandou o estabelecimento do poder soviético na Armênia e na Ucrânia. A brutalidade com que desempenhou esta tarefa, entretanto, fez com que o próprio Lênin pedisse a sua expulsão do Comitê Central do partido.

A partir de 1926, indicado por Stalin, tornou-se presidente da Comissão Central de Controle, “caçando” os membros da Oposição Unificada. Assumiu, ainda, o cargo de comissário do Povo para a Indústria Pesada, em 1928, assumindo, posteriormente, o Politiburô (1934).

Tendo sido responsável pela morte de diversos velhos bolcheviques nos expurgos estalinistas, ele mesmo caiu em desgraça ao tentar proteger seu irmão, que foi morto nos mesmos processos. Junto a isso, começaram a se difundir boatos de que ele estava preparando uma denúncia dos crimes de Stálin. Segundo Nikita Kruschev, que denunciou os crimes da ditadura estalinista em 1956, Ordzhonikidze fez confidências ao seu amigo Mikoyan sobre os assassinatos dos membros do partido, situação que não podia mais suportar. No dia seguinte, foi encontrado morto.

Apesar da história oficial contar que ele cometeu suicídio, há suspeitas de que tenha sido assassinado a mando do ditador. O médico que fez a sua necropsia foi executado pouco tempo depois.

Joseph STÁLIN (1879 – 1953)

Joseph Vissarionovich Djugashvili nasceu em Tíflis, capital da Georgia, em 21 de dezembro de 1879, numa família de origem camponesa, embora seu pai tenha se tornado operário sapateiro e a mãe, costureira. Joseph teve uma infância dura. Sua militância teve início aos 15 anos, quando ingressou no Partido Social-Democrata Russo (POSDR).

Em 1901, foi eleito para o Comitê de Tíflis do POSDR. Em 1903, foi condenado a três anos de exílio na Sibéria por organizar clandestinamente o partido na Geórgia. A essa, sucederam-se várias outras condenações por conta de seu trabalho clandestino de organização do partido no Cáucaso.

O pseudônimo Stálin, que significa “homem de aço”, foi adotado em 1912. Por essa época e até 1917, foi o editor do Pravda, órgão de imprensa do Partido Bolchevique.

Após outubro de 1917, Stálin assume o cargo de comissário para as nacionalidades, no Soviete dos Comissários do Povo. Foi em abril de 1922 que se elegeu secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), cargo que manteria até a sua morte. Pouco depois, Lênin adoece. Ao mesmo tempo, os trabalhadores russos começam amargar a frustração da derrota da revolução européia. Sem expandir a revolução, tem início um período de duras privações. Essa combinação de fatores marcou o início da derrota da Revolução Russa, com uma das ditaduras mais sangrentas da história.

Com a morte de Lênin, em 1924, logo após a derrota da revolução alemã (1923), abre-se uma disputa pelos rumos da jovem URSS. Stálin cria, então, a teoria do “socialismo num só país”, segundo a qual a revolução mundial deveria ser relegada a segundo plano, devendo-se, em primeiro lugar e a qualquer custo, garantir-se a revolução nacional. Para isso, Stálin contava com a derrota da revolução alemã que, de certa forma, sustentou entre as massas russas a sua teoria – a mesma que levaria à restauração do capitalismo e à derrocada do Estado socialista.

Como conseqüência da teoria do socialismo num só país, vieram outras teorias, como a dos “campos (burgueses) progressivos”, com a qual Stálin emplacou todo o tipo de aliança, impondo sucessivos fracassos aos trabalhadores. Um exemplo explícito foi o chamado ao apoio ao Kuomitang, partido nacionalista chinês.

Em agosto de 1939, Stálin assinou um pacto de não-agressão com Hitler. A URSS foi invadida pelos alemães em 1941.

Suas guinadas bruscas – ora para a direita, ora para a esquerda – levaram a políticas desastrosas. Num primeiro momento, fez concessões “exageradas” a setores da burguesia e da pequena burguesia – sobretudo do campo -, deturpando a Nova Economia Política de Lênin, abrindo espaço para o surgimento dos nepman, espécies de capitalistas dentro do Estado operário. Em seguida, em 1928, Stálin dá um giro brutal, iniciando a coletivização forçada no campo, em que por decreto resolve expropriar todas as terras. Essa medida genocida foi causadora de grande fome e miséria na URSS. Estima-se que só na Ucrânia 4,5 milhões de pessoas tenham morrido de fome. Em outras regiões, o número de mortos chegou a 3 milhões.

Nos anos 1930, Stalin consolida um forte aparato repressivo e inicia uma perseguição implacável a seus opositores. A mínima suspeita de oposição era motivo para prisões, deportações e execuções. Nos expurgos, foi morta a maioria dos velhos bolcheviques que dirigiram a Revolução de Outubro.

Segundo arquivos da própria União Soviética, foram executadas cerca de 800 mil pessoas; 1,7 milhões foram submetidas a fome e necessidades básicas. Como a falsificação era uma marca do regime, alguns historiadores acreditam que esses números sejam ainda maiores e chegam a falar em milhões de vítimas.

Uma das marcas ideológicas mais fortes da ditadura estalinista foi o culto à personalidade. Do herói coletivo dos tempos da revolução ao realismo socialista, nem a arte e a cultura escaparam da adequação ao regime.

Em contraposição a si, Stalin colocou Trotsky na posição de contra-revolucionário e passou a chamar de trotskistas todos que o questionassem ou à sua política. De fato, havia uma razão de ser assim. Trotsky, mesmo perseguido e no exílio, nunca deixou de lutar pela revolução permanente e denunciar os crimes e a burocratização estalinistas, opondo-se frontalmente à teoria do socialismo num só país.

Até que, em 1940, Stálin atinge seu inimigo central. Da URSS, orienta o assassinato de Trotsky, que estava no México, pelas mãos do agente Ramón Mercader.

A repressão somada à derrota da revolução européia e à miséria do povo russo – ao mesmo tempo em que a casta estalinista gozava de todo o tipo de privilégios – implantou o silêncio e o medo na URSS. Não suportando as ações de Stálin, até mesmo sua mulher, Nadejda, se suicidou.

Todas as conquistas da Revolução Russa – igualdade para as mulheres, avanços na educação, na cultura e nas artes, melhoria do nível de vida e das condições de trabalho – foram jogadas na lata do lixo da história pela ditadura estalinista.

Stálin morreu em 1953 de derrame cerebral. Foi sepultado ao lado de Lênin, no Kremlin. Em 1956, Nikita Khrushchev denunciou os crimes cometidos por Stálin no 20º Congresso do PCUS. O corpo de Stálin, então, foi retirado e enterrado fora do palácio.

Jakob SVERDLOV (1885 – 1919)

SverdlovJakob Mikhailovitch SVERDLOV nasceu na cidade russa de Nizhny Novgorod, numa família pequeno burguesa de origem judia. Com apenas 17 anos, organiza ação clandestina contra o czarismo e é preso pela primeira vez. Em 1902, ingressa no Partido Operário Social-Democrata da Rússia (POSDR) e, no ano seguinte, adere à fração bolchevique.

Foi condenado e deportado para a Sibéria por ter participado da revolução de 1905, mas consegue fugir em 1910 e passa a dirigir o Pravda, até ser novamente preso e deportado. A Revolução de Fevereiro permitiu o seu retorno à Rússia. Em agosto de 1917, é eleito para o Comitê Central do Partido Bolchevique.

Sverdlov defendeu sempre a revolução armada e esteve à frente da insurreição de Outubro. Durante sua curta vida, esteve no centro da direção do Partido Bolchevique, formando com Lênin e Trotsky uma equipe forte.

Destacava-se como orador e agitador do partido. Desde que foi eleito ao Comitê Central até sua morte, foi o responsável pela organização do partido. Trotsky escreveu, um dia após a sua morte, um obituário em que é possível perceber a importância deste abnegado militante. Sobre a formação do Exército Vermelho, disse Trotsky: “Sverdlov mobilizou trabalhadores do Partido, destacou-os de uma série de postos, encontrando-os aqui, ali e em todos os lugares, selecionando o homem certo para o trabalho certo. A Sverdlov pertence inquestionavelmente a parte de leão no mérito devido aos nossos sucessos militares, durante os últimos seis meses”.

Morre aos 34 anos, apenas dois anos após ter sido um dos nomes decisivos da Revolução de Outubro, não se sabe ao certo se de tuberculose ou de gripe espanhola. No dia seguinte à sua morte, Trotsky escreveu um obituário em que diz que a perda de Sverdlov “foi um desses golpes cruéis e insidiosos que o destino muito freqüentemente nos provoca”.

G. I. TCHUDNOVSKY (1899 – data indefinida)

Nasceu, provavelmente, em 1899. Ainda adolescente, ingressou no Partido Operário Social-Democrático Russo (POSDR). Preso e exilado em decorrência de suas atividades revolucionárias, conseguiu fugir, emigrando para os EUA.

Durante a I Guerra Mundial, tornou-se um dos colaboradores do jornal Nashe Slovo (Nossa Palavra), dirigido por Trotsky. Em maio de 1917, regressou à Rússia, vindo de um campo de concentração no Canadá, em companhia de Trotsky.

Por dever de prestação de serviço militar, Tchudnosky ingressou nas Forças Armadas do Governo Provisório e, após atuar durante três meses no fronte de guerra, conquistou postos de direção numa das corporações militares. A partir dos primeiros dias da Revolução Outubro, Tchudnosky não mais se separou dos campos de batalha proletário-revolucionários.

Em 23 de outubro de 1917, em meio à insurreição, formou-se um trio especial para assumir a direção da tomada do Palácio de Inverno, cujas figuras centrais eram Podvoisky, Antonov-Ovseienko e Tchudnovsky. Podvoisky e Tchudnovsky foram os responsáveis pela formulação técnica da ação militar a ser empreendida na tomada do Palácio de Inverno.

Nos primeiros meses de 1918, Tchudnovsky se dirigiu para a Ucrânia. Em meio aos batalhões revolucionários, combateu as tropas imperialistas dos ocupantes alemães e austríacos e os bandos armados da Rada Central, organismo contra-revolucionário unificador dos partidos nacionalistas-burgueses e pequeno-burgueses. Esses últimos capturaram-no e condenaram-no à morte, sem conseguirem, porém, executar a sentença.

Ao penetrarem em Kiev, as Forças Armadas Vermelhas libertaram-no, mas não por muito tempo. Os destacamentos vermelhos foram forçados a bater em retirada da cidade de Kharkov. Tchudnovsky foi assassinado, possivelmente por inimigos imperialistas alemães. A data e o local da morte de Tchudnovsky permanecem desconhecidos.

Leon TROTSKY (O Trosko) (1879 – 1940)

Lev Davidovitch Bronstein nasceu no seio de uma família de camponeses, no dia 7 de novembro de 1879, na cidade de Yakovka, na Ucrânia. O menino, que definiu sua infância, na autobiografia Minha Vida, como “monótona, incolor, das famílias modestas da burguesia, soterrada numa aldeia, num rincão sombrio campo, onde a natureza é tão rica quanto mesquinha, e limitadas aos costumes e às idéias e interesses”, não podia imaginar que um dia seria, ao lado de Lênin o principal dirigente de uma revolução.

Levado por um primo, Moisés Filipovich Spenzer, Trotsky foi a Odessa estudar matemática, onde teve seus primeiros contatos com a militância. Ainda estudante, participou de movimentos clandestinos contra o regime czarista. Em 1897, organizou a Liga Operária do Sul da Rússia. Foi assim que veio sua primeira prisão, em 1898, condenado à pena de dois anos de detenção.

Trotsky foi um grande revolucionário que pagou caro na sua vida pessoal pela sua escolha por lutar ao lado da classe operária. Afastado de sua primeira esposa por um dos tantos exílios, acabou conhecendo Natalia Sedova, também revolucionária, com quem viveu até sua morte.

Em 1903 esteve exilado na Sibéria, condenado a uma pena de quatro anos. Entretanto, antes que se cumprisse o prazo, escapou assumindo o pseudônimo Trotsky, nome que pertencia originalmente a um guarda que conhecera em uma de suas muitas prisões em Odessa. Em Londres, para onde fugira, conheceu Lênin. Nesse período, indicado por Lênin, torna-se editor e colaborador do Iskra, jornal do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR).

Porém ainda nao foi esse encvontro que marcaria a união dos dois líderes da Revolução de Outubro. Trotsky e Lênin ainda divergiriam bastante antes de convergirem definitivamente em 1917. trotsky esteve ao lado dos mencheviques, de quem se afasta antes de 1905, mas sem aderir aos bolcheviques.

Em 1905, foi eleito presidente do Soviete de Petrogrado, então o principal comitê. Após a revolução fracassada desse ano, é condenado e deportado. No exterior, cria o jornal Pravda. Sua maior elaboração desse período, entretanto, foi a teoria da revolução permanente, a qual se oporia Stálin com a sua teoria do socialismo num só país. Resumidamente, Trotsky defendia a expansão da revolução para o resto do mundo, especialmente aos países imperialistas. Toda e qualquer revolução que se limitasse às fronteiras nacionais, cedo ou tarde seria derrotada.

Em maio de 1917, regressa à Rússia e ja encontra Lênin com suas Teses de Abril. Coloca-se desde a sua chegada de acordo com as mesmas, considerando-as como uma “aceitação tácita da revolução permanente”.

Em agosto de 1917, acontece o congresso que unifica o grupo de Trotsky ao Partido Bolchevique. Ele, então, é eleito membro do Comitê Central do partido e do Comitê Revolucionário.

À frente do Exército Vermelho, Trotsky dirige, em Outubro de 1917, a insurreição. Após a Revolução de Outubro, Trotsky assume o cargo de comissário de Assuntos Exteriores, marcado pela assinatura da paz de Brest-Litovsk, que tirou a Rússia da Primeira Guerra Mundial.

Com a morte de Lênin e o avanço da burocracia, Trotsky passou a ser perseguido pelo estalinismo. O grupo que ficou conhecido como Troika – Stálin, Kamenev e Zinoviev – era o principal impulsionador da oposição a Trotsky. Zinoviev e Kameneve chegariam a romper com a Troika para se juntarem a Trotsky na Oposição Unificada, mas logo voltariam a integram o grupo de Stálin.

Por um lado, havia uma oposição de políticas centrada na teoria da revolução permanente contra a teoria do socialismo num só país. Somava-se a isso o interesse da burocracia soviética em manter os privilégios que detinha. O estalinismo disseminou a idéia de que Trotsky era um contra-revolucionário. Essa ideologia encontrou espaço num país que vivia o retrocesso da revolução e a fome, além da desilusão sofrida com a derrota da revolução européia.

Trotsky foi condenado nos processos de Moscou e foi expulso da URSS, em 1928. dedicou-se, no exterior, a organizar a Oposição de Esquerda Internacional, fundando, em 1938, no México, a IV Internacional. Ele mesmo formulou o programa de fundação da nova organização, conhecido como Programa de transição, guia para revolucionários de hoje e muitas vezes deturpado pelo reformismo.

Em agosto de 1940, Trotsky é assassinado pelo agente da GPU Ramón Mercader, por ordem de Stálin, no México, na cidade de Coyoacán, onde vivia com sua companheira Natalia Sedova. Trotsky, além de ter dirigido militarmente o maior feito da classe trabalhadora, foi um grande teórico e escritor. Denunciou a ditadura estalinista em Os crimes de Stálin, escreveu sobre o seu amigo e camarada Lênin em A vida de Lênin – sua juventude e Lênin. Entre suas obras mais lidas, também estão A história da Revolução Russa e A revolução traída.

DZIGA VERTOV (1896 a 1954)

Este era o pseudônimo de Denis Arkadievitch Kaufman, um dos maiores documentaristas de todos os tempos. O pseudônimo autoconcedido significa algo como “gira a roda”. Sua importância está no fato de ter documentado os principais acontecimentos do jovem Estado Socialista Soviético. Foi o primeiro redator e editor do primeiro cinejornal da União Soviética, contratado pelo governo dos sovietes em 1918, em plena guerra civil. Vertov é o criador das teorias do kino-glaz (cine-olho) e do kino-pravda (cine-verdade).

Em 1934, em ocasião dos dez anos da morte do líder de Outubro, Vertov produz Três cânticos para Lênin. No auge da burocracia soviética, é mantido no ostracismo artístico. O regime lhe atribuiu tarefas menores e burocráticas, como a produção de noticiários que mais faziam propaganda do estalinismo do que informavam.

Seu principal filme é Um homem com uma câmera (1929), que é uma captura de cenas da realidade, durante um dia inteiro – do amanhecer à noite – com o mínimo de interferência.

Filmografia:

1918 – Kinonedelia (série)
1919 – O aniversário da Revolução
1920 – A batalha de Tsaritsin
1922 – História da Guerra Civil
1924 – Brinquedos Soviéticos
1924 – Cine-Olho
1922/25 – Kino-pravda (série)
1926 – A sexta parte do mundo
1927/28 – O décimo primeiro ano (ou O Onézimo)
1929 – Um homem com uma câmera
1931 – Entusiasmo
1934 – Três cânticos para Lenin
1937 – Canção de ninar
1937 – Memórias de Sergo Ordjonikidze
1938 – Três heroínas
1941/44 – filmes reportagens rodados num refúgio na Ásia Central
1944 – Nas Montanhas de Ala-Tau
1947 – O juramento dos jovens
1947/53 – noticiário de atualidades “Novidades do dia” (série)

Gregory Evséievíteh ZINOVIEV (1883 – 1936)

Zinoviev foi um dos principais dirigentes do Partido Bolchevique e da Revolução de Outubro. Ingressou no Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) em 1901, aderindo, na divisão do partido, no congresso de 1903, à ala bolchevique. Em 1907, é eleito, em Londres, membro do Comitê Central. Desse período até 1917, sofreu várias prisões e foi deportado. Durante a Primeira Guerra Mundial, Zinoviev estava exilado na Suíça, junto com Lênin, de quem era amigo e colaborador próximo.

Em 1917, após a Revolução de Fevereiro, retorna à Rússia secretamente num trem, junto com outros deportados. Entre eles, estava Lênin com suas Teses de Abril. Contudo, defendou o Governo Provisório e foi contrário à tomada do poder. Apesar disso, em Outubro, engaja-se na revolução e na construção do novo Estado Soviético ativamente. Zinoviev chegou a ser presidente do Soviete de Petrogrado. De 1919 a 1926, foi o primeiro presidente do Comitê Executivo da Internacional.

Quando Lênin morre, em 1924, passa a integrar a Troika, grupo formado por ele, Kamenev e Stálin, empenhado em combater as idéias e o próprio Trotsky. No entanto, acaba rompendo a Troika, junto com Kamenev, e aproximando-se Trotsky. Zinoviev reconheceu que as acusações contra Trotsky eram falsas, tornado-se num grande agitador da Oposição Unificada. Em 1927, é expulso do partido. Em conseqüência disso, capitula ao estalinismo em 1928. O assassinato de Kirov – na verdade morto a mando de Stálin – detona os processos de Moscou ou o grande expurgo. Zinoviev e Kamenev são acusados de envolvimento no crime, sendo condenados a dez anos de prisão. Foi executado em 1936, no primeiro processo de Moscou.

OBS: Esta área do especial seguirá sendo atualizada ao longo deste ano, com outros personagens

PT tenta adotar no Ceará teses da Confecom sobre controle da mídia

PT tenta adotar no Ceará teses da Confecom sobre controle da mídia

Projeto que cria Conselho de Comunicação Social foi aprovado na Assembleia por unanimidade e vai sanção do governador

A Assembleia Legislativa do Ceará aprovou, por unanimidade, projeto que cria o Conselho de Comunicação Social do Estado (Cecs). Conforme o texto, o conselho vai integrar a Secretaria da Casa Civil do Estado, tendo por finalidade formular e acompanhar a execução da política estadual de comunicação, exercendo funções consultivas, normativas, fiscalizadoras e deliberativas.

De acordo com autora do projeto, deputada Rachel Marques (PT), a proposta foi formulada a partir das deliberações das conferências estaduais e da 1.ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). “Na Confecom foi proposto que o conselho seja órgão integrante da Secretaria da Casa Civil do Estado e que seja formado pelo poder público, sociedade civil/usuários e empresários”, justificou Rachel.

Programa de Dilma. Entre as resoluções aprovadas pela 1.ª Confecom, promovida por iniciativa do governo federal, estavam iniciativas patrocinadas por setores do PT, cujo objetivo é estabelecer o controle dos meios de comunicação. Suas teses chegaram a integrar o programa de governo da presidenciável petista, Dilma Rousseff, apresentado ao TSE por ocasião do registro de sua candidatura, mas foram retiradas.

Segundo Raquel, o objetivo da criação do conselho é formular e acompanhar a execução da política estadual de comunicação, dentro do que estabelece a Constituição sobre liberdade de expressão. Para entrar em vigor, ainda precisa ser sancionada pelo governador Cid Gomes (PSB).

O presidente do Sindicato dos Jornalistas do Ceará, Claylson Martins, disse que vai trabalhar para viabilizar a atuação do conselho, por meio de audiência a ser marcada com o governador Cid Gomes (PSB). A Câmara Municipal de Fortaleza também poderá propor a criação de um conselho municipal com as mesmas finalidades, segundo antecipou o vereador Acrísio Sena (PT).

***

Após aprovarem, deputados não defendem Conselho

Autora do projeto que sugere ao Executivo a criação do Conselho Estadual de Comunicação, Rachel Marques (PT) não tem ido às sessões legislativas. PSDB atribui projeto ao PT

Depois de ter sido aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa do Ceará, o projeto que propõe ao governador Cid Gomes a criação do Conselho Estadual de Comunicação não tem um parlamentar sequer que o defenda publicamente.

Desde que a polêmica começou, na quinta-feira, dois dias após a votação e um depois de O POVO ter noticiado a aprovação, a deputada Rachel Marques (PT) não tem ido às sessões plenárias.

Ela tem sido procurada pelo O POVO, por telefone, para defender o projeto do qual é autora, mas o contato com ela tem sido frustrado.

Correligionários da petista têm se restringido a esclarecer que a medida não foi idealizada pelo PT, como deputados do PSDB têm afirmado. Esse é o caso dos deputados Nelson Martins e Artur Bruno, ambos do PT.

Na sessão de ontem, o deputado Luiz Pontes (PSDB) considerou “vergonhosa” a aprovação do projeto, da qual a bancada tucana não participou, segundo ele, embora as presenças tenham sido contabilizadas no painel eletrônico. E ainda criticou a declaração de Cid, que disse desconhecer o teor do projeto.

Em resposta a Luiz Pontes, que afirmou que o projeto foi criado pelo PT, Nelson esclareceu que o conselho foi idealizado pela 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), da qual participaram diversos setores da sociedade civil, em dezembro de 2009, em Brasília. Esclarecimentos como esses têm sido as únicas declarações dos petistas sobre o projeto. Não se dizem contrários, nem favoráveis. “É melhor procurar a Rachel”, escapuliu Nelson quando questionado.

Segundo o presidente do Sindicato dos Jornalistas no Estado do Ceará (Sindjorce), Claylson Martins, após aprovada durante a Confecom, a proposta de criação do Conselho Estadual de Comunicação chegou às mãos de Rachel Marques através da Rede Cearense pela Comunicação (RedCom), organização composta por 30 entidades estaduais de comunicação, responsável por redigir o projeto. A rede não possui representantes do empresariado cearense, que rejeitou o conselho, como o fez a Associação Cearense de Emissoras de Rádio e Televisão (Acert).

Para Claylson, o conselho não fere a liberdade de expressão, como afirmam os críticos. “Muito pelo contrário, ele amplia o acesso à comunicação, quando abre a discussão de políticas de comunicação para toda a sociedade”, argumentou. Caso aprovado, o conselho será formado por 25 membros, sendo sete do poder público e 18 da sociedade civil (empresários da comunicação, trabalhadores do setor e consumidores).

Crítica ao projeto

A criação do conselho tem sido duramente criticada por setores da sociedade, inclusive nacionalmente. Em nota, a executiva nacional do PPS informou que está preparando ação direta de inconstitucionalidade contra a medida, que, segundo o partido, fere a liberdade de expressão.

A Ordem dos Advogados do Brasil – Secção Ceará (OAB-CE) já avisou que ingressará na Justiça caso a criação do Conselho seja acatada por Cid. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) também se posicionou contrário à medida.

Nova Política Econômica – NEP

Nova Política Econômica – NEP

 

A Nova Política Econômica, política levada a cabo pelo Partido Comunista e o Estado Soviético no período de transição do capitalismo ao socialismo. Suas bases foram traçadas por Lênin na obra “Tarefas Imediatas do Poder Soviético” e teve início na primavera de 1918. A intervenção militar do imperialismo internacional e a guerra civil obrigaram a adoção de uma política econômica especial, de emergência, que se denominou “Comunismo de Guerra”. Como o Comunismo de Guerra não se coadunava com a construção econômica em tempos de paz, o X Congresso do Partido Comunista (bolchevique) da Rússia deliberou em março de 1921 substituir o sistema de contingenciamento — fundamento do Comunismo de Guerra — pelo imposto em espécie e conceder aos camponeses o direito de venderem livremente os excedentes de seus produtos depois de pago o imposto. Assim se deu o primeiro passo na transição da política do Comunismo de Guerra à NEP.
A substituição do sistema de contingenciamento pelo imposto em espécie, o estímulo às relações monetário-mercantis motivaram o interesse material dos camponeses em ampliar a produção agrícola. A fim de dar um novo impulso às economias camponesas e envolve-las gradualmente pela via socialista, se tomaram medidas para um amplo desenvolvimento no campo das formas mais simples de cooperação que deveriam demonstrar, na prática, aos camponeses as vantagens da gestão coletiva dos assuntos econômicos, transmitir-lhes os hábitos de administração coletiva, de venda, de crédito, etc. e, desta forma, prepara-lhes para a condução conjunta da produção dos kolkoses. F O plano de cooperação de Lênin era parte integrante da Nova Política Econômica.
A utilização dos estímulo econômicos, das relações monetário-mercantis, do princípio do interesse material dos trabalhadores no desenvolvimento da produção foi também a base da política do Estado Soviético na indústria. Tendo em suas mãos toda a indústria pesada e média, o Estado arredava, inclusive a particulares, empresas pequenas. Um pequeno número de empresas foram concedidas a capitalistas estrangeiros. O arrendamento e as concessões foram formas do capitalismo de Estado na economia soviética. Entretanto não tiveram ampla difusão. Se levou a cabo a transição paulatina das empresas industriais (em primeiro lugar, das empresas da indústria ligeira e alimentícia) para a autogestão financeira. A base para determinar as proporções do salário na indústria foi o princípio socialista de calcular o mesmo segundo a quantidade e qualidade do trabalho realizado e previu a introdução do trabalho por empreitada. Se fortaleceu e se modernizou a planificação centralizada da indústria, ao mesmo tempo que se liquidou a excessiva centralização da administração que existia nos anos da guerra civil. A base da administração da indústria foram os consórcios de produção — associações com auto-gestão financeira — e os sindicatos, que se ocuparam da organização planificada da venda da produção dos consórcios. Se implantou e consolidou o princípio de comando único — o mais conveniente para dirigir empresas com auto-gestão financeira —, com ampla participação dos trabalhadores e de suas organizações sociais (sindicatos, etc.) na administração da indústria.
A adoção da NEP redundou em uma reanimação e um certo aumento dos componentes capitalistas na economia: se permitiu o comércio privado, a indústria capitalista privada; ocorreu certo incremento dos camponeses ricos como consequência do desenvolvimento das relações monetário-mercantís no campo, o arrendamento de terra e a utilização do trabalho assalariado; foram admitidas concessões e o arrendamento de empresas estatais a particulares. Nestas circunstâncias, ressaltou Lênin, que tentar proibir o capitalismo havia sido uma tolice. A única política acertada era a utilização do capitalismo (com limitações e sobre um rigoroso controle do Estado) para elevar as forças produtivas.
A NEP respondia da maneira mais completa à pluralidade de tipos de economia do período de transição. Assegurava um incremento acelerado dos componentes socialistas, concedia espaço à pequena produção mercantil e, ao mesmo tempo, em formas acessíveis e aceitáveis para os trabalhadores, processava este desenvolvimento em direção ao socialismo, e limitava e removia os componentes capitalistas. Desta maneira a NEP foi um método determinado da construção socialista que se caracterizou pelos seguinte traços fundamentais: Posse pelo Estado proletário dos recursos de comando da economia: admissão do capitalismo de maneira limitada, sob o controle do Estado, o qual estava relacionado inevitavelmente com a luta econômica dos componentes socialistas e capitalistas segundo o princípio de “quem vencerá a quem”; desenvolvimento do comércio como forma fundamental das relações econômicas entre a indústria socialista e a pequena produção mercantil camponesa; utilização ampla dos estímulos econômicos, das relações monetário-mercantis para desenvolver todos os ramos da economia; industrialização socialista como condição decisiva para criar a base técnico-material do socialismo; mudança gradual e voluntária da pequena produção mercantil para a grande economia socialista mediante a cooperação. A NEP assegurou um estreito nexo mutuamente vantajoso entre a cidade e o campo, entre a indústria a agricultura. Sua significação política consistiu em que serviu, nesta etapa histórica da União Soviética, para consolidar a aliança da classe operária e o campesinato, e foi uma condição importantíssima para fortalecer a ditadura do proletariado. A NEP, como um dos modos mais eficazes para incorporar os trabalhadores na construção socialista, a combinação acertada dos interesses sociais e particulares, o interesse material pessoal dos produtores diretos dos bens materiais no incremento constante da economia nacional, na construção da base econômica do socialismo.
Lênin preveniu reiteradas vezes de que a aplicação desta política enfrentava inevitáveis dificuldades. A Nova Política Econômica, de um lado, contribuiu para a reconstituição e desenvolvimento da economia nacional, o fortalecimento dos componentes socialistas e, de outro lado, criou nos primeiros tempos a possibilidade de fortalecer tendências capitalistas. Por isso a NEP não significava o fim da luta de classes no país, mas sua continuação sob novas formas (veja-se Luta de Classes no Período de Transição do Capitalismo ao Socialismo). Ao mesmo tempo, a situação objetiva decorrente da adoção da Nova Política Econômica propiciou as condições par o triunfo do socialismo sobre o capitalismo.
Baseando-se na NEP se reconstituiu em um prazo brevíssimo a economia nacional arruinada durante os anos da intervenção militar estrangeira e a guerra civil. Em dois qüinqüênios planificados se efetuou a industrialização do país, se levou a cabo a mudança dos camponeses para a produção socialista em extensas fazendas coletivas. A NEP assegurou a superação da pluralidade de tipos de economia e a criação de base econômica do socialismo. Ao final do segundo Plano Qüinqüenal, na URSS se havia construído basicamente o socialismo. Terminou o período de transição do capitalismo para o socialismo, e, com ele, chegou ao fim a política econômica deste período, a NEP.
A NEP teve grande importância internacional tanto no plano de influenciar em toda a marcha da história mundial, da luta entre dois sistemas, como do ponto de vista da elaboração das vias, forma e métodos da construção socialista. Assegurou o êxito da construção da econômica, o triunfo na frente econômica, para onde, após a guerra civil, havia se transferido a luta entre o capitalismo e o socialismo em “escala mundial” como indicou Lênin. Ao mesmo tempo, a NEP era um método cientificamente fundamentado de construção do socialismo, de incorporação nesta obra das massas indigentes, tarefa que, como destacava Lênin, enfrentarão os socialistas de todos os países. A experiência da construção socialista em outros países confirmou esta previsão: levando em conta suas condições históricas concretas no período de transição do capitalismo ao socialismo, estes países realizaram ou estão realizando uma política econômica que, fundamentalmente, coincide com a NEP.

80 anos sem Vladimir Mayakovsky

Biografia

Vladimir Mayakovsky nasceu e passou a infância na aldeia de Bagdadi, nos arredores de Kutaíssi, na Geórgia, Rússia.

Lá cursou o ginásio e, após a morte súbita do pai, a família ficou na miséria e transferiu-se para Moscou, onde Vladimir continuou seus estudos.

Fortemente impressionado pelo movimento revolucionário russo e impregnado desde cedo de obras socialistas, ingressou aos quinze anos na facção bolchevique do Partido Social-Democrático Operário Russo.

Detido em duas ocasiões, foi solto por falta de provas, mas em 1909-1910 passou onze meses na prisão. Entrou na Escola de Belas Artes, onde se encontrou com David Burliuk, que foi o grande incentivador de sua iniciação poética. Os dois amigos fizeram parte do grupo fundador do assim chamado cubo-futurismo russo, ao lado de Khlebnikov, Kamiênski e outros. Foram expulsos da Escola de Belas Artes. Procurando difundir suas concepções artísticas, realizaram viagens pela Rússia.

Após a Revolução de Outubro, todo o grupo manifestou sua adesão ao novo regime. Durante a Guerra Civil, Mayakovsky se dedicou a desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início da consolidação do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc. Fundou em 1923 a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), que reuniu a “esquerda das artes”, isto é, os escritores e artistas que pretendiam aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social.

Fez inúmeras viagens pelo país, aparecendo diante de vastos auditórios para os quais lia os seus versos. Viajou também pela Europa Ocidental, México e Estados Unidos. Entrou freqüentemente em choque com os “burocratas’’ e com os que pretendiam reduzir a poesia a fórmulas simplistas.
Foi homem de grandes paixões, arrebatado e lírico, épico e satírico ao mesmo tempo.

Suicidou-se com um tiro em 1930.

Obra

Sua obra, profundamente revolucionária na forma e nas idéias que defendeu, apresenta-se coerente, original, veemente, una. A linguagem que emprega é a do dia a dia, sem nenhuma consideração pela divisão em temas e vocábulos “poéticos” e “não-poéticos”, a par de uma constante elaboração, que vai desde a invenção vocabular até o inusitado arrojo das rimas.

Ao mesmo tempo, o gosto pelo desmesurado, o hiperbólico, alia-se em sua poesia à dimensão crítico-satírica. Criou longos poemas e quadras e dísticos que se gravam na memória; ensaios sobre a arte poética e artigos curtos de jornal; peças de forte sentido social e rápidas cenas sobre assuntos do dia; roteiros de cinema arrojados e fantasiosos e breves filmes de propaganda.

Tem exercido influência profunda em todo o desenvolvimento da poesia russa moderna.

Fonte Wikpedia

Dossiê Maiakovski
CRONOLOGIA DE MAIAKÓVSKI
Boris Schnnaiderman

1893 — Vladímir Vladímirovitch Maiakóvski nasce na aldeia de Bagdádi, nos arredores de Kutaíssi (hoje Maiakóvski), na Geórgia, filho do inspetor florestal Vladimir Constantinovith Maiakóvski e de Aleksandra Aleksiéievna.

1902 — Adoece gravemente de tifo. Segundo reminiscências de sua mãe, A. A. Maiakóvskaia1, foi então que ele se tornou um defensor ardoroso da água fervida.

1902-1904 — Cursa o ginásio de Kutaíssi, para onde se transferiu a família. É um leitor apaixonado de romances de aventuras. Começa a estudar desenho e pintura.

1905 — Lê discursos, jornais e folhetos socialistas. Participa de manifestações que são o reflexo local da Revolução de 1905.

1906 — Morte do pai de Maiakóvski. A família transfere-se para Moscou, em condições de extrema penúria. O menino é matriculado no quarto ano de um ginásio moscovita, onde estuda mal. Continua suas leituras socialistas. Escreveria mais tarde na autobiografia “Eu mesmo”,2 lembrando aqueles dias: “Eu simplesmente não aceitava a literatura. Filosofia. Hegel. Ciências naturais. Mas sobretudo o marxismo. Não existe obra de arte que me tenha entusiasmado mais que o ‘Prefácio’ de Marx”.3

1908 — Abandona o ginásio e ingressa no Partido Operário Social-Democrático Russo, ligando-se à sua ala bolchevique. Executa algumas tarefas, como propagandista nos meios operários. Em março, é preso numa tipografia clandestina. Pouco depois, é solto sob fiança. No outono, ingressa numa escola de Artes e Ofícios.

1909 — Segunda prisão, seguida de uma terceira, desta vez como participante num plano de evasão de mulheres presas.

1910 — O encarceramento se prolonga, e o jovem completa onze meses na prisão de Butirki. Ali se atira a uma leitura febril de romances e da poesia russa da época, sobretudo da escola simbolista. Faz versos. “Obrigado aos guardas: ao soltar-me, tiraram aquilo. Senão, era capaz de publicar!” Saindo da prisão, abandona o ginásio. Dedica-se novamente à pintura, desta vez num estúdio. “Fiquei pintando serviços de chá prateados, em companhia de não sei que damazinhas. Depois de um ano percebi: estava estudando prendas domésticas”.

1911 — Torna-se aluno do pintor P. I. Kélin, cuja arte realista elogiaria mais tarde. Ingressa na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura, “o único lugar onde me aceitaram sem exigir atestado de bons antecedentes.”… “Fiquei espantado: protegiam-se os imitadores e perseguiam-se os independentes. Lariônov4, Máchkov. O instinto revolucionário me colocou do lado dos que eram expulsos”. Na escola torna-se amigo de seu colega, o pintor e poeta David Burliuk. O próprio Maiakóvski se referiria depois à amizade entre ambos, com alguma ironia, como ponto de partida do futurismo russo. “É com um amor de todos os momentos que penso em David. Um amigo magnífico. Meu verdadeiro mestre. Burliuk me fez poeta. Lia-me franceses e alemães. Empurrava-me livros. Andando, falava sem parar. Não me soltava um instante sequer. Dava cinqüenta copeques por dia. Para que escrevesse sem passar fome.”

1912 — O poema “Noite” se torna seu primeiro texto publicado. Participa do grupo dos cubo-futuristas, que passa a editar o almanaque “Bofetada no gosto público”. Este sai com uma declaração assinada por Maiakóvski, ao lado de Burliuk, A. Krutchônikh e V. Khliébnikov. Maiakóvski toma parte em discussões públicas, leituras de poemas e outras atividades no gênero, que marcaram a deflagração do movimento futurista russo.

1913 — Violentas polêmicas. Maiakóvski assume atitudes de desafio e usa a famosa blusa amarela. Publica o artigo “Teatro, cinema, futurismo”, com ataques ao realismo da época. Apresentação da tragédia “Vladímir Maiakóvski”, que rompe totalmente as convenções teatrais em voga e resulta em tremenda assuada.1914 — Maiakóvski e Burliuk são convidados pela diretoria da Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura a abandonar a violenta campanha de agitação a favor do futurismo. Em conseqüência da recusa, expulsam-nos do estabelecimento. Viagens pela Rússia em companhia dos demais cubo-futuristas, aos quais se uniu o poeta V. V. Kamiênski. Deflagrada a Primeira Guerra Mundial, Maiakóvski passa por um momento de entusiasmo patriótico. Depois, predomina a repugnância pela carnificina, conforme se constata pelos versos, pela autobiografia e por outros escritos. Mas, “para falar da guerra, é preciso tê-la visto”. Apresenta-se como voluntário, sendo recusado, por suspeição política. É característico desse período o poema “A mãe e o crepúsculo morto pelos alemães”.

1915 — Passa algum tempo em Kuokala, no Golfo da Finlândia, local de veraneio de artistas e escritores. Ali continua a escrever o poema “Uma nuvem de calças”. Faz uma visita a Górki. “M. Gorki. Li para ele partes da ‘nuvem’. Num repente de sensibilidade, cobriu-me de lágrimas todo o colete. Comovera-o com os meus versos. Fiquei um tanto orgulhoso. Pouco depois, tornou-se claro que ele chorava em todo colete de poeta. Assim mesmo, guardei, o colete. Posso cedê-lo a algum museu da província”. Depois da estadia em Kuokala, estabelece-se em Petrogrado. Conhece o estudioso de literatura Óssip Brik, cuja mulher, Lília Brik, torna-se o grande amor de Maiakóvski. Conclui os poemas “Uma nuvem de calças” e “A flauta vértebra”. Submetido à censura, o primeiro desses poemas sai com “uma seis páginas cobertas de pontos”. Convocado para as fileiras em outubro, desta vez não quer ir para a linha de frente e se faz passar por desenhista, a fim de não sair de Petersburgo. Assiste a aulas noturnas sobre desenho de automóveis. Sua condição de convocado dificulta a atividade literária, pois os soldados são proibidos de publicar materiais.

1916 — Colabora na revista “Liétopis” (Anais), dirigida por Górki e de tendência pacifista. Conclui os poemas “A guerra e o mundo” e “O homem”.

1917 — Deflagrada a Revolução de Fevereiro (27 de fevereiro; 12 de março pelo Calendário Gregoriano, introduzido depois de Outubro), toma parte ativa nos acontecimentos e assume por alguns dias o comando da Escola de Motoristas. Nos meses do governo de Kerênski, sua posição política assemelha-se à dos bolcheviques. A exemplo dos demais membros do grupo cubo-futurista, aceita plenamente a Revolução de Outubro. “A minha revolução. Fui ao Smólni5. Trabalhei. Fiz tudo que vinha às mãos.”

1918 — Escreve “Ode à Revolução”, “Marcha de Esquerda” e outros poemas revolucionários. Desempenha o papel principal em diversos filmes (muitos contemporâneos exaltaram seus dotes como ator) e escreve argumentos para cinema. Em 25 de outubro, montada em Petrogrado, em comemoração do aniversário da Revolução de Outubro, a peça de Maiakóvski “Mistério-bufo”, sob a direção de V. Meyerhold e com cenários de Casimir Maliévitch, fundador do Suprematismo e um dos expoentes da pintura moderna russa. A obra provoca forte oposição nos meios teatrais. Os atores são reunidos por meio de anúncios em jornais, e o próprio Maiakóvski precisa desempenhar três papéis. O espetáculo é suspenso depois de apenas três sessões. Não obstante a divergência de concepções estéticas, Maiakóvski e o grupo cubo-futurista encontram apoio no Comissário da Instrução Pública, A. V. Lunatchárski. Editam “A arte da Comuna”, órgão do Comissariado.

1919 — Transfere-se para Moscou. Realiza muitas viagens, para conferências e leituras de poemas. Ingressa na ROSTA (sigla de Rossíiskoie Tieliegráfnoie Aguentstvo — Agência Telegráfica Russa), onde redige versos para cartazes e freqüentemente os desenha também.

1920 — Atividade muito intensa na ROSTA. Acaba de escrever o poema “150.000.000” e publica-o anônimo, “para que cada um pudesse completá-lo e melhorar. Ninguém o fez, em compensação todos sabiam quem era o autor”. Nas difíceis condições da Guerra Civil, Maiakóvski se considera um combatente, conforme se pode constatar pela sua obra da época. Reelabora o “Mistério-bufo”.

1921 — Depois de vencer inúmeras dificuldades burocráticas, apresenta uma versão nova do “Mistério-bufo”, ainda sob a direção de Meyerhold, e que tem perto de cem representações. A mesma peça é levada em alemão, para os participantes do III Congresso do Comintern, realizado em Moscou. Maiakóvski passa a escrever no jornal “Izviéstia” (Notícias).

1922 — Aparecem as últimas “vitrinas” da ROSTA. Maiakóvski organiza a editora MAF, que lançará as obras dos futuristas. Trabalha no poema “Quinta Internacional”, que não será concluído. Viaja pelo Ocidente, visitando a Letônia, Berlim e Paris. Escreve a autobiografia “Eu mesmo”.

1923 — Organiza com seus amigos futuristas a revista “Lef” (de Liévi front” — frente de esquerda), que, segundo a intenção declarada de Maiakóvski, deveria aliar arte revolucionária e luta pela transformação social. Na revista, colaboram Eisenstein, Pasternak, Dziga-Viértov, Isaac Bábel, Óssip Brik, Assiéiev, Ródtchenko, etc. Escreve o poema “A respeito disso”, além de poemas didáticos, propaganda política e propaganda de produtos comerciais. Publica versos inspirados pela viagem ao Ocidente e um livro de impressões em prosa.

1924 — Viaja intensamente pela Rússia: conferências, discussões, leitura de poemas. Escreve um dedicado ao jubileu de Púchkin. Termina o longo poema “Vladímir Ilitch Lênin”. Faz uma viagem a Berlim e outra a Paris.

1925 — Publica um livro de versos inspirados pela sua estada em Paris, além de trabalhos em prosa. Conclui o poema “O proletário voador”. Inicia uma longa viagem ao exterior: pretende dar volta ao mundo, mas, depois de seis meses, tendo estado sobretudo em França, Espanha, México e Estados Unidos, regressa apressadamente à pátria. Organiza o livro em prosa “Minha descoberta da América” e publica poemas inspirados pela viagem.

1926 — Dedica-se intensamente à colaboração, em prosa e verso, na imprensa cotidiana. Intensifica também suas viagens pela União Soviética. “Continuo a tradição interrompida dos trovadores e menestréis”. Escreve o ensaio “Como fazer versos?”. Publica o poema “A Sierguéi Iessiênin”. Escreve cenários de cinema.

1927 — Aparece o primeiro número da revista “Nóvi Lef” (Novo Lef). Outra viagem pela Europa: Berlim, Paris, Praga, Varsóvia. Escreve o poema “Bem!”. Publica impressões de viagem (em prosa). Continua sua atividade de cenarista, mas os cenários mais importantes não são aproveitados. O cenário “Esquece a lareira!” daria origem à peça “O percevejo”.

1929 — Estréia de “O percevejo”. Nova estada em Paris. Escreve “Os banhos”.

1930 — Estréia de “Os banhos”. O poeta adere à RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), num período de grande polêmicas. Inaugura-se a exposição “Vinte anos de atividade de Maiakóvski”, o que suscita novos debates e ataques ao poeta, enquanto outros preferem simplesmente silenciar sobre a exposição. Maiakóvski e seus amigos ficam evidentemente chocados com a ausência, na inauguração, de representantes das agremiações literárias e da imprensa. Numa discussão pública, que tem lugar no auditório do Instituto Plekhânov de Economia Popular, sofre ataques de estudantes, que repetem as velhas acusações: “incompreensível para as massas”, “usa palavras indecentes”, etc. Maiakóvski replica: “Quando eu morrer, vocês vão ler meus versos com lágrimas de enternecimento”. Na ata da sessão consta: “Alguns riem”6. A fase de depressão que atravessa é agravada por sucessivas afecções da garganta, particularmente penosas para quem procurava sempre falar em público, e cuja poesia está marcada pela oralidade. Termina o poema “A plenos pulmões”. Suicida-se com um tiro (14 de abril).

MANHÃ

A chuva lúgubre olha de través.
Através
da grade magra
os fios elétricos da idéia férrea –
colchão de penas.
Apenas
as pernas
das estrelas ascendentes
apóiam nele facilmente os pés.
Mas o destroçar dos faróis,
reis
na coroa de gás,
se faz
mais doloroso aos
buquêshostisdasprostitutasdotrotoar.
No ar
o troar
do riso-espinho dos motejos –
das venenosas
rosas
amarelas se propaga
em zig-zag.
Agrada olhar de
trás do alarde
e do medo:
ao escravo
das cruzes
quieto-sofrido-indiferentes,
e ao esquife
das casas
suspeitas
o oriente
deita no mesmo vaso em cinza e brasas.

1912
(Poemas – Vladímir Maiakóvski. Trad. Augusto de Campos e Boris Schnaiderman. Tempo Brasileiro, 1967, pp. 47-8)

ALGUM DIA VOCÊ PODERIA?

Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquoas num prato
as maçãs do rosto do oceano.

Nas escamas de um peixe de estanho,
li lábios novos chamando.

E você? Poderia
algum dia
por seu turno tocar um noturno
louco na flauta dos esgotos?

1913
(Poemas – Vladímir Maiakóvski. Trad. Haroldo de Campos. Tempo Brasileiro, 1967, p. 53)

QUADRO COMPLETO DA PRIMAVERA

Folhinhas.
Linhas. Zibelinas sozinhas.

1913 (Poemas – Vladímir Maiakóvski. Trad. Haroldo de Campos. Tempo Brasileiro, 1967, p. 53)

NOTAS

1 “Dietstvo i iunost Vladimira Maiakóvskovo” “Infância e juventude de Vladimir Maiakóvski”, na coletânea de depoimentos já citada.

2 “Iam sam”, Vol. I, ob. cit.

3 Foram tiradas da mesma autobiografia as demais citações que aqui aparecem sem indicação de fonte.

4 Mikhail Lariônov, pintor russo, fundador do movimento pictórico denominado “raionismo”; considerado geralmente um dos pioneiros da pintura abstrata.

5 O internato para moças da nobreza onde se instalara o quartel-general dos bolcheviques.

6 Há uma narração desses fatos baseada na própria ata da sessão, feita pelo secretário desta, V. I. Slavínski, e incluída no livro de reminiscências sobre Maiakóvski, já citado. O poeta Nicolai Assiéiev recorda-os também no livro “Zatchém i komu nujná poésia” (Para que e para quem a poesia é necessária), Editora Soviétski Pissátiel (Escritor Soviético), Moscou, 1961.

Boris Schnnaiderman é professor de Literatura Russa da USP e tradutor de poetas russos

Fonte: APROPUC – Associação dos Professores da PUC de Sãpo Paulo

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 621 outros seguidores