Especial Bolsa Família
Bolsa Família: avanços e limites. Entrevista especial com Lena Lavinas
Criado com o intuito de integrar e unificar ao Fome Zero um conjunto de antigos programas como o “Bolsa Escola”, “Auxílio Gás” e o “Cartão Alimentação”, nasceu, no início do governo Lula, o Bolsa Família. Prestes a completar sete anos, qual o saldo do programa? Afinal, ele é assistencialista? Essas foram questões levantadas durante a entrevista que a IHU On-Line fez, por telefone, com a professora Lena Lavinas. “O Brasil, finalmente, conseguiu instituir um sistema de cobertura ampliada em termos de segurança social para sua população que associa, ao mesmo tempo, benefícios de base contributiva, benefícios assistências para quem está em situação de risco extremo, e, também, o Sistema Único de Saúde”, explicou.
Na entrevista, a economista analisa os impactos do Bolsa Família, reflete sobre o perfil das pessoas que recebem o benefício e defende: “não importa no que são gastos os recursos do programa. As duas avaliações do governo mostram que as pessoas gastam prioritariamente com alimentação. Mas essa é uma pergunta que nem precisamos fazer aos beneficiários”. Ela ainda responde às questões sobre a Renda Básica de Cidadania, onde explica o projeto e fala das suas possíveis contribuições caso fosse implementado no Brasil.
Lena Lavinas é graduada em Economia pelo Institut d’Etudes pour le Développement Economique (França). É mestre e doutora em Estudos sobre a América Latina pelo Institut de Hautes Etudes d’Amérique Latine (França). Realizou o pós-doutorado no Centre de Sociologie Urbaine. É membro do comitê editorial do Feminist Economics (EUA) e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre seus livros estão Programas Sociais de Combate à Fome: o legado dos anos de estabilização econômica (Rio de Janeiro: Editora UFRJ – Ipea, 2004) e Emprego Feminino no Brasil: mudanças institucionais e novas inserções no mercado de trabalho (Santiago do Chile: Cepal, 2002).
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Qual é o balanço que se pode fazer desse programa social?
Lena Lavinas – Primeiro, é importante nós situarmos o Bolsa Família no âmbito do Sistema Único de Assistência Social, que foi criado no Brasil juntamente com o surgimento da Seguridade Social. O Brasil, finalmente, conseguiu instituir um sistema de cobertura ampliada em termos de segurança social para sua população que associa, ao mesmo tempo, benefícios de base contributiva, benefícios assistências para quem está em situação de risco extremo, e também o Sistema Único de Saúde. Embora o Bolsa Família apareça como um mecanismo que dá continuidade a um programa que exigia muita coisa, anteriormente, e conseguiu ampliar o número de beneficiados com transferência de renda, ele de transformou num pilar importante do Sistema Único de Assistência Social que ainda temos que consolidar, porque, a princípio ele é fundado como um direito em caso de necessidade, mas, na prática, e essa é uma das fraquezas do Bolsa Família, não atende a toda demanda.
Isso porque o Bolsa Família considera um universo de pessoas abaixo da linha da pobreza, cujo cálculo foi elaborado a partir do Censo de 2000. Por isso, na prática, a cobertura do Bolsa Família não garante que todos aqueles que têm necessidades sejam contemplados. Essa é a maior falha do programa.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2009, 50% das pessoas que vivem ainda abaixo da linha da pobreza de 140 reais por mês ainda não recebe qualquer benefício do governo. Se, por um lado, houve uma grande expansão do número de beneficiados do Bolsa Família, e isso é muito bom, a institucionalidade do Sistema Único de Assistência Social não está garantida na medida em que o direito a um benefício atendendo aos requisitos dos programa não é uma carta certa. Dentro Sistema Único de Assistência Social, o Bolsa Família é aquele que ganhou mais notoriedade, mas ele não é o único. Além dele, há o Banco de Dados do Cidadão (BDC). O grande problema é que eles têm linhas de pobreza distintas, assim como o valor dos benefícios.
Apesar de todas essas contradições e dificuldades, estamos avançando para termos um Sistema de Assistência Social que é integrado à lógica mais ampla do Sistema de Proteção Social e não a uma coisa que tínhamos nos anos 1980, marcado pela benevolência, uma atitude extremamente marginal e residual do Estado ligado à atuação das Primeiras Damas.
IHU On-Line – Muitos afirmam que se trata de um programa que se insere nas denominadas políticas sociais compensatórias, outros o chamam de programa assistencialista. Como a senhora define o Bolsa Família?
Lena Lavinas – Temos que entender que há um problema assistencial e isso não quer dizer que o programa seja assistencialista. Um programa assistencialista tem caráter clientelista, onde as pessoas recebem alguma coisa em troca de um apoio político ou outra coisa. O Bolsa Família rompe com essa lógica porque vem do governo federal, não é um beneficio dado em nível municipal nem estadual. As pessoas preenchem um cadastro e, se forem selecionadas, serão contempladas. Não é um programa caracterizadamente assistencialista, mas é um programa assistencial, e isso não é um problema. Em todos os países do mundo, inclusive Suécia, Dinamarca, Noruega e França, existem programas assistenciais. Como deve ser o perfil desse tipo de programa? Eles devem ser políticas de grande cobertura, políticas de qualidade, políticas que não estigmatizam os beneficiários.
Por hora, o Bolsa Família é uma política com impacto relativamente pequeno. A redução da pobreza nos últimos anos no Brasil não se deve ao Bolsa Família, mas sim à retomada do crescimento e à criação de empregos, sobretudo na faixa de um a três salários mínimos. Temos que entender que políticas assistenciais são necessárias em todos os países do mundo.
IHU On-Line – Qual é o perfil de quem recebe o Bolsa Família?
Lena Lavinas – Quem recebe o Bolsa Família são pessoas que têm uma renda mensal abaixo dos 140 reais. Como é voltado para a frequência escolar da criança, está diretamente orientado para famílias com crianças. Como temos um benefício de prestação continuada que atende pessoas de mais de 65 anos de pobreza extrema com renda per capita inferior a um quarto de salário mínimo, essas pessoas idosas já estariam contempladas pelo BDC se vivessem em famílias miseráveis. O perfil que domina o Bolsa Família, portanto, é de famílias pobres com crianças em idade escolar.
IHU On-Line – Estudos realizados indicam no que é gasto os recursos do programa?
Lena Lavinas – Olha, não importa no que são gastos os recursos do programa. As duas avaliações do governo mostram que as pessoas gastam prioritariamente com alimentação. Mas essa é uma pergunta que nem precisamos fazer aos beneficiários, porque evidentemente quem tem uma renda mensal inferior a 140 reais, vai gastar majoritariamente com alimentos. Todos nós sabemos que, quanto menor a renda dos indivíduos, maior a proporção que eles gastam com alimentos. Ninguém precisa fazer estudo para saber disso. Uma pessoa rica que ganha dez mil reais por mês gasta muito menos, em proporção, com alimentos. Ainda assim, não importa com o que elas gastam. Quando damos dinheiro às pessoas, elas têm que ser capazes de escolher o que é melhor para elas. Pode ser que seja melhor comprar alimentos, mas também pode ser que se tenha gasto com um sapato para o filho poder ir à escola ou uma roupa para poder procurar emprego. Essa é a diferença das políticas públicas em relação à benevolência privada. Quando o governo quer escolher no lugar dos pobres, dá saúde e educação de graça. Elas recebem alguma coisa porque o Estado considera que aquilo é melhor para elas. Agora, se damos dinheiro, a escolha é da pessoa.
IHU On-Line – Como a senhora qualifica a proposta de Renda Básica de Cidadania? Que argumentos sociais e econômicos justificam a instituição deste tipo de transferência de renda?
Lena Lavinas – A Renda Básica de Cidadania não tem nada a ver com o Bolsa Família. A Renda Básica de Cidadania é uma transferência de renda garantida a todos os cidadãos membros de uma comunidade política partindo do pressuposto que o país tenha uma riqueza muito grande e que todos os indivíduos, por serem iguais, tenham direito a partilhar alguma coisa em comum. Por exemplo, a renda do pré-sal no Brasil. Descobrirmos uma riqueza tão grande, que requer tecnologia, grandes investimentos públicos e que vai trazer receitas muito importantes. Podemos discutir se vale ou não a pena o Brasil decidir compartilhar a receita do pré-sal entre todos os brasileiros. A ideia da Renda Básica é que, independentemente do sexo, da idade, da religião e da renda que cada indivíduo tenha, se crie algo comum para todos, porque queremos que todos se sintam iguais na condição de cidadãos daquela comunidade política. Essa é uma política voltada para o direito de todos em compartilhar uma renda do país onde vive e do qual se contribui com seu trabalho para que este seja um país próspero. Uma política de Renda Básica, que ainda não existe no Brasil, evidentemente, não mudaria em nada as políticas de erradicação da pobreza, porque são coisas distintas.
IHU On-Line – A Renda Básica de Cidadania tem algum impacto sobre o mundo do trabalho? Ela possibilita, por exemplo, melhores condições de trabalho ou a busca por melhores postos de trabalho?
Lena Lavinas – A Renda Básica de Cidadania não tem impacto sobre nada, a princípio. Isto, evidentemente, depende do valor do benefício. Temos que entender que não basta dar, é preciso estar dentro de um determinado valor que corresponde a alguma coisa para aquela sociedade. Para você ter uma ideia: no Alasca essa renda para cada indivíduo gira em torno de 2500 dólares por ano. É algo como 200 dólares por mês. O que isso significa? Significa que se uma pessoa recebe 200 dólares por mês, como um direito, se ela tiver um emprego precário, este pode não ser aceito porque a pessoa já tem uma renda mínima que lhe permite aumentar seu poder de barganha e dizer: “eu não vou fazer coisas, como trabalhar em carvoaria”, “não vou mais mandar meu filho para o trabalho”, “vou negociar melhores condições de trabalho”. Isso porque a pessoa consegue desmercantilizar parte da sua força de trabalho. Mas isso tudo depende do valor dessa renda, da relação homem/mulher, entre outros.
IHU On-Line – Quais as contribuições da Renda Básica de Cidadania sobre a distribuição de renda e, especialmente, na erradicação da pobreza?
Lena Lavinas – A distribuição de renda tende a melhorar por uma simples razão: na medida em que eu dou o mesmo valor para todo mundo, a distribuição não muda. Porém, as pessoas mais pobres têm famílias maiores e como a renda é calculada com base na renda familiar, vamos acabar diminuindo a desigualdade. Mas, na erradicação da pobreza, o impacto é muito grande. Porque, se garantirmos uma renda para todas as pessoas num mínimo de, por exemplo, 100 reais para todos, isso realmente permitiria que as pessoas que vivem em extrema pobreza tivessem condições de se organizar melhor e aproveitar outras oportunidades.
Entre 2003 e 2009 o governo alocou 0,5% do PIB no Bolsa Família
Duas das principais medidas econômicas do governo Lula beneficiaram diretamente a vida de, pelo menos, 58 milhões de pessoas. A primeira é o forte reajuste do salário mínimo acima da inflação nos últimos anos, que atinge 26,879 milhões de trabalhadores (dados de 2008) e 18,425 milhões de aposentados e pensionistas. A outra é a expansão dos benefícios sociais. O número de detentores do cartão que dá direito ao Bolsa Família chega a 12,6 milhões.
— O Bolsa Família tem escala para impactar o voto, apesar de representar pouco do PIB. É que, na política, uma pessoa é um voto — explica o economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas (FGV).
A reportagem, sob o título “Renda transferida a milhões de eleitores”, é de Henrique Gomes Batista e Maria Fernanda Delmas e publicada pelo jornal O Globo, -01-09-2010.
Se quem recebe os benefícios sociais ou teve a renda recomposta é potencial eleitor, o impacto econômico das medidas é ainda maior. Os números tratam dos titulares dos recebimentos, sem contar seus dependentes.
Neri lembra que o Bolsa Família, por exemplo, a um custo baixo, atinge famílias com muitas crianças e chefiadas por mulheres.
O professor Ricardo Carneiro, da Unicamp, calcula que entre 2003 e 2009 o governo alocou 0,5% do PIB no Bolsa Família.
O atual salário mínimo, de R$ 510, embute um aumento real de 53,67% no governo Lula, entre 2003 e este ano, segundo dados oficiais do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Para quem se lembra da luta para que o mínimo valesse US$ 100, uma informação: hoje ele equivale a US$ 291,40, muito acima dos US$ 65 do início do Plano Real. Segundo dados de 2008 do IBGE, 29,1% dos trabalhadores do país, incluindo informais, recebiam o mínimo. No Nordeste, esse percentual chega a 48%.
O diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz, reforça que os ganhos reais do salário mínimo têm um alcance além da vida dos trabalhadores que o recebem: mdash; O salário mínimo é um importante patamar da economia nacional. Vejo diversas categorias que conseguiram ganhos reais porque utilizaram o valor como parâmetro.
Ganz afirma que mesmo o aumento real de 7,7% das aposentadorias maiores que o salário mínimo, obtido em 2010, também usou como argumento o forte ganho do piso nos últimos anos. O especialista diz que o salário mínimo é um dos responsáveis pelo crescimento do PIB, principalmente pelo impacto que gera nas aposentadorias e na economia informal.
O professor da PUC-RJ Luiz Roberto Cunha concorda com a tese de que, se o Bolsa Família foi importante para a redução da pobreza, o mérito principal do aumento do salário mínimo foi a redução da desigualdade:
— Muitos dizem que há efeitos negativos, como uma maior pressão no déficit da Previdência e na inflação. Mas os ganhos sociais e econômicos são enormes.
Amir Khair, mestre em finanças públicas pela FGV-SP, defende que as transferências de renda no Brasil sejam feitas numa camada de renda menor:
— Quando se ativa a economia embaixo, todos saem ganhando. Cria-se mais consumo, as empresas produzem e lucram mais e geram empregos.
Carneiro, da Unicamp, calcula que, no início do governo Lula, o salário médio no país era quase quatro vezes e meia maior que o salário mínimo.
No início de 2010, a diferença caiu para duas vezes e meia:
— Não estou nem um pouco surpreso com o resultado das pesquisas eleitorais (que mostram Dilma Rousseff, do PT, bem à frente de José Serra, do PSDB, na disputa pela Presidência).
Economista faz releitura: ‘É o social, estúpido!’
Cunha cita inclusive a “boa inflação”, vista claramente no aumento do custo dos serviços de empregados domésticos, categoria de quase 8 milhões de pessoas no Brasil. Nos últimos quatro anos, a expansão dos preços desse serviço foi, no mínimo, o dobro da inflação oficial, medida pelo IPCA. Em 2005, a inflação geral foi de 5,72% e a do setor, 11,59%. No ano passado, a situação se repetiu. O IPCA subiu 4,31% e os preços do serviço doméstico, 8,74%.
— Certamente, a forte alta do preço dos serviços nos últimos anos foi motivada pelo aumento da renda de cabeleireiras, encanadores, marceneiros, costureiras. Houve um impacto na inflação, mas certamente um forte ganho social. O salário mínimo ajudou muito na conquista deste momento de quase felicidade geral da nação que vivemos — afirma o professor da PUC.
Neri lembra que um ganho pequeno de renda faz mais diferença no bolso dos pobres. Há um crescimento chinês na base de distribuição, e a redução de desigualdade é o fermento no crescimento do bolo, acredita.
O economista da FGV até parafraseia a famosa frase de James Carville, o marqueteiro de Bill Clinton na eleição presidencial de 1992, que saiu-se com “É a economia, estúpido!” para explicar a George Bush pai por que o democrata liderava na corrida.
— É o social, estúpido! — brinca Neri, acrescentando que, em 2010, o governo está jogando dinheiro de helicóptero com os programas de transferências de renda em geral.
Bolsa Família. Desafios para entrar em uma nova fase
O Programa Bolsa Família enfrenta desafios para entrar em uma nova fase, com ajustes e maior utilização de seu cadastro como ferramenta para outras políticas públicas.
A reportagem é de Marina Pita e publicada pela revista Desafios do Desenvolvimento do Ipea, maio/junho 2010, editada em 14-08-2010.
O Bolsa Família está consolidado como política social no Brasil, cumprindo seu objetivo de transferir renda para famílias carentes. Atualmente o programa atende 15,5 milhões de famílias, distribuindo 0,37% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. É um dos fatores para a redução de quase três pontos, entre 1995 e 2004, do índice de Gini, medida de concentração de renda, sendo responsável por 7% da queda. Desde o início do programa, em 2003, 19,4 milhões de famílias saíram da extrema pobreza, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas.
Após sete anos de funcionamento o programa enfrenta desafios para entrar em uma nova fase, com ajustes e com uma maior utilização de seu cadastro como ferramenta de elaboração de novas políticas sociais. Parte desse esforço está no fortalecimento do Cadastro Único para Programas Sociais (também conhecido como CadÚnico), para o qual está sendo implementado um novo sistema operacional no segundo semestre deste ano. A dificuldade, porém, está em ampliar os projetos sociais sem inflar o Bolsa Família e descaracterizá-lo, garantindo um maior uso do CadÚnico como referência, e mantendo o programa dentro de seu foco.
Essa é a preocupação de alguns pesquisadores, como Natália Satyro, professora do departamento de ciências políticas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Depois de completada a primeira fase do Bolsa Família, corremos o risco de ter gente achando que tudo é responsabilidade do programa, já que ele é o carro chefe da política social”, diz. As preocupações com outras necessidades além de transferência de renda são legítimas, mas devem ser feitas para o público do programa, e não por meio dele, avalia Natália, acrescentando ser necessário, no momento, pensar uma segunda geração de políticas sociais que permitam que mais pessoas sejam retiradas da condição de pobreza.
Alguns resultados do programa, que incluem também maior frequência escolar e acompanhamento em unidades básicas de saúde, porém, só poderão ser sentidos, de fato, na próxima geração, ressalta a professora da UFMG. “Não podemos achar que as pessoas vão conseguir sair da condição de pobreza em três anos, ganhando R$ 60 reais mensais. É preciso ter consciência que este é um trabalho intergeracional”.
Atualmente o benefício do Bolsa Família não é pago a todos aqueles que se encaixam no perfil. Isso porque ele está submetido a um orçamento definido que, apesar de crescente desde o início do programa, ainda não atinge o total da população necessitada.
Segundo detalha o Texto para Discussão (TD) 1424, de autoria do técnico em planejamento e pesquisa do Ipea, Sergei Soares, e de Natália, o programa encontra- se condicionado às possibilidades orçamentárias. “A Lei no 10.836, de 09 de janeiro de 2004, que o cria, estabelece em seu artigo sexto, parágrafo único: O Poder Executivo deverá compatibilizar a quantidade de beneficiários do Programa Bolsa Família com as dotações orçamentárias existentes. (…) Uma vez esgotada a dotação orçamentária, ninguém mais pode passar a receber o benefício, pelo menos até que haja crédito suplementar”.
Sua amplitude é, portanto, motivo de intenso debate. Soares, técnico em planejamento e pesquisa do Ipea, defende que o Bolsa Família deveria se tornar um direito, e portanto universal. Segundo o pesquisador, é preciso definir claramente o caráter do programa, hoje “nem totalmente um programa de geração de oportunidades, nem plenamente um programa de proteção social”. O técnico discorda ainda da cobrança de condicionalidades (frequência escolar e acompanhamento de saúde). “Ainda não estamos no nível de cortar benefícios dos que não cumprirem as exigências, porque esse corte penalizaria justamente as famílias mais necessitadas”, afirma Soares.
A professora titular da PUC-SP e coordenadora do núcleo de seguridade e proteção social da universidade, Aldaíza Sposati, defende a separação da política para a infância da garantia de renda para sobrevivência de famílias em situação de vulnerabilidade, e também aponta para a necessidade de se caminhar para sua universalização enquanto direito: “é correto apoiar o desenvolvimento da criança dentro de uma política de proteção social envolvendo saúde e educação. O Bolsa Família, no entanto, só coloca foco na criança indiretamente, sendo que deveria ser seu objetivo principal. A preocupação não pode estar na fiscalização e sim nos resultados”, justifica.
Para a professora, adequar os programas pelo modelo mais inclusivo e garantir o benefício para todas as crianças até 14 anos como uma política voltada para a infância é imprescindível, e melhorar o programa e incluir na agenda de debates a próxima geração de políticas sociais é um dos desafios para os próximos governos, e para toda a sociedade brasileira.
Segundo explicitaram Natália e Soares no TD 1424, “pode-se pensar que o Programa Bolsa Família (PBF) cumpriu um importante papel nesta primeira fase. São conhecidos os impactos do PBF na redução da pobreza, na diminuição da desigualdade de renda, na maior frequência escolar e na garantia de que as crianças beneficiárias não se submetam ao trabalho infantil como antes. Contudo, (…) conclui-se que o PBF deve se transformar a partir de agora.”
O cadastro como ferramenta
Entretanto, para alavancar esta transformação, e estimular que mais famílias obtenham renda própria e adequada, é preciso avaliar com maior precisão o CadÚnico, instrumento valioso para tanto de pesquisa tanto para elaboração de políticas públicas.
O CadÚnico é constituído por sua base de dados, instrumentos, procedimentos e sistemas eletrônicos, e sua base de informações pode ser usada pelos governos municipais, estaduais e federal para obter o diagnóstico socioeconômico das famílias cadastradas. Dessa forma, possibilita a análise das principais necessidades destas famílias e auxilia o poder público na formulação e gestão de políticas voltadas a esse segmento da população.
Ele abrange informações das características de domicílio, composição familiar, qualificação escolar e qualificação profissional dos componentes da família, situação no mercado de trabalho, remuneração e despesas familiares de cerca de 18 milhões de famílias.
O cadastro conta com um bom questionário e, principalmente, uma adesão massiva de milhares de agentes municipais, e é a primeira experiência de coleta de informações sobre grande parte das famílias no Brasil que vai além de um nome e um número, avaliam Natália e Soares na publicação do Ipea. “Ou seja, enquanto cadastro de pobres, o Cadastro Único é admiravelmente bom”, citam os pesquisadores.
Mas, conforme destaca o Texto para Discussão 1486: “urge conhecer melhor o perfil das famílias do CadÚnico”, porque é nele que deve ser procurado o públicoalvo preferencial para projetos de inclusão produtiva. Atualmente, uma série de programas complementares utiliza a ferramenta para definir o público alvo de suas ações. “O Bolsa Família não é um programa isolado. Está ancorado em vigorosas políticas públicas. Integrado com outros ministérios”, afirmou o ex-ministro do Desenvolvimento Social (MDS) Patrus Ananias, em palestra proferida na Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), em fevereiro. Os Programa Brasil Alfabetizado, o ProJovem, o Projeto de Promoção do Desenvolvimento Local e Economia Solidária, o Programa Nacional da Agricultura Familiar, Programas de Microcrédito do Banco do Nordeste, a Tarifa Social de Energia Elétrica e o Programa Luz para Todos utilizam o CadÚnico, que cadastra todas as famílias com renda mensal per capita de até meio salário mínimo, mesmo aquelas não beneficiárias do programa Bolsa Família.
Considerado uma revolução tal qual o programa de transferência de renda, o banco de dados das famílias em situação de vulnerabilidade ainda carece de ajustes, como melhorar a qualidade e veracidade das informações, sua atualização e facilidade de acesso aos potenciais usuários, entre outros. Para Soares, “é cada vez mais importante unificar as informações dos cidadãos em um único sistema, inclusive caminhar para que se tenha, no futuro, um cadastro com informações de todos os brasileiros e não apenas daqueles em situação vulnerável.”
A opinião é compartilhada por Natália, que defende um esforço institucional maior pela apropriação do banco de dados pelas diversas áreas governamentais. “É preciso haver movimento interno de aceitação do cadastro como sendo o banco de dados. Ainda não são todos que estão usando, essa ainda é uma visão restrita. Tem áreas que continuam querendo ter seu próprio banco de dados. No entanto, quando conseguirmos centralizar, não haverá instrumento igual no mundo, não desse tamanho”.
Mas de nada adianta ter o instrumento se os dados ali inseridos não puderem ser lidos e interpretados. Se a vulnerabilidade se concretiza de variadas formas, e as carências a serem combatidas pelas políticas públicas, neste sentido, também são complexas e diversas, é preciso ter estudos precisos para poder propor intervenções na realidade.
O próprio Ipea fez um levantamento das condições de inserção (ou não) dos beneficiários do Bolsa Família, que evidenciam as necessidades dessa população para garantir rendimento próprio. “A primeira coisa a ser considerada é que apenas 43% dos indivíduos no perfil CadÚnico são economicamente ativos”, lembra José Aparecido Ribeiro, técnico de planejamento e pesquisa da diretoria de estudos e políticas sociais (Disoc) do Ipea.
Ele destaca ainda que uma parte da população economicamente ativa não precisa de qualificação profissional para se inserir no mercado de trabalho. Este é o caso, por exemplo, de mulheres chefes de família que têm crianças pequenas. Cerca de 1,4 milhão de famílias estão nessa condição, o que representa cerca de 8,3% do cadastro único. Porém, menos de um terço destas têm acesso a creche. Aproximadamente 1,02 milhão de famílias não têm acesso à educação infantil. “Esse é um dado importante porque indica a necessidade de um tipo de intervenção do Estado. Não adianta querer dar curso para essas mulheres, não haverá resultado enquanto não for oferecido um local para deixar os filhos”, explica Ribeiro.
A necessidade de um olhar específico para alguns outros grupos também ficou evidente no levantamento, defende Ribeiro. Um deles é de empregadas domésticas, que compõe quase 10% da PEA do banco de dados. “O trabalho doméstico ainda é muito precarizado, com forte componente racial e de gênero. O grosso ainda não acessa os direitos trabalhistas, não tem carteira assinada. É preciso pensar em formas de intervenção, incentivo aos empregadores registrarem, por exemplo. Ainda é uma herança escravista a ser enfrentada”, diz o pesquisador.
Outro número também é bastante significativo: 22% da PEA (População Economicamente Ativa) do CadÚnico é formada por trabalhadores da agricultura familiar. Isso, segundo Ribeiro, demonstra a fragilidade da política agrária do país, apesar de uma série de iniciativas incidirem diretamente sob essa população – como a recém aprovada obrigatoriedade de pelo menos 30% dos produtos adquiridos para alimentar os estudantes com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) provir da agricultura familiar por meio de Lei Federal.
Diante do tamanho dessa população, entretanto, Ribeiro defende medidas mais enérgicas: “é preciso tirar o ranço da reforma agrária. O brasileiro precisa saber que as famílias que fazem queijo e vinho na Europa – tão apreciados – se mantem por conta de uma forte política de incentivo à agricultura familiar”, diz. Ele considera ser necessário ampliar o acesso à assessoria técnica e ao crédito com baixas taxas de juros, por exemplo, para auxiliar este segmento específico. “A política do setor agrícola deve ir além da distribuição de terra e agronegócio”, declara.
Ele lembra ainda que 7% dos cadastrados economicamente ativos são trabalhadores agrícolas sem carteira, antigamente chamados de bóias-frias, que requerem uma série de outras intervenções do Estado, como maior fiscalização das empresas e, em alguns casos, intervenção do Ministério Público.
Uma outra parcela importante a ser alvo de ações de inserção produtiva, talvez a que mais requereria qualificação profissional, na opinião do técnico do Ipea, são os empregados sem carteira em atividades não agrícolas (13% da PEA do CadÚnico), em sua maioria jovens e inseridos economicamente de alguma forma. “É mais possível redirecionar a carreira dessas pessoas. Há um material humano para ser trabalhado. Uma boa oportunidade”, avalia Ribeiro.
Os programas de transferência de renda e o PIB
Para Sergei Soares, técnico de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, programas de renda mínima e até mesmo a Renda Básica de Cidadania são satisfatórios na medida em que compensam a tendência do mercado promover uma distribuição de renda desigual
Por: Patricia Fachin
“O impacto de um programa de renda mínima clássico, no qual todos recebem o mesmo valor, independentemente da sua renda prévia, é sempre menor que o impacto de um programa de renda mínima focalizado, no qual apenas os mais pobres recebem ou então os mais pobres recebem mais”. A opinião é de Serguei Soares. Em entrevista, concedida, por e-mail, para a IHU On-Line, ele assinala que “o grande poder distributivo do Bolsa Família se deve ao fato de seus benefícios estarem avassaladoramente concentrados no terço mais pobre da população brasileira”. Segundo ele, caso os recursos aplicados no Bolsa Família “tivessem sido distribuídos igualmente entre todos, haveria, sem dúvida, um impacto progressivo sobre a desigualdade, mas menor que o verificado”.
Soares informa que o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o Bolsa Família são os programas de transferência com mais destaque no país. “35% dos brasileiros vivem em famílias beneficiárias do Bolsa Família, e 5,9% vivem em famílias que recebem pelo menos um BPC”. Isto significa que esses programas são responsáveis “por aproximadamente 1/3 da redução da desigualdade”.
Soares é doutor em Economia pela Universidade de Brasília – UnB. Atualmente, é técnico de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – DF. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Economia do Bem-Estar Social. Atuando, principalmente, nos seguintes temas: habilidades cognitivas, capital humano, educação.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Quais são os programas de transferência de renda mais pertinentes, hoje, no Brasil, e que percentual da população brasileira recebe esses benefícios?
Sergei Soares - A rigor, “transferência de renda” poderia incluir uma vasta gama de políticas e programas. Pagamento de aposentadorias da Previdência Social e até pagamentos de juros a pessoas físicas são considerados transferências de renda. No entanto, o termo usualmente é usado para se referir às transferências focalizadas de renda, nas quais a pobreza da família recipiente é uma condição para receber o benefício. Se entendermos o termo assim, então as principais transferências de renda no Brasil são o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o Bolsa Família.
O Benefício de Prestação Continuada consiste no pagamento de um salário mínimo a todos os indivíduos incapazes de trabalhar por deficiência ou idade avançada e vivendo em famílias cuja renda familiar per capita é inferior a ¼ de um salário mínimo. O Bolsa Família consiste em um benefício fixo de R$ 68, pago a famílias cuja renda per capita é inferior a R$ 70 ao mês, dois benefícios variáveis, um de R$ 22 e outro de R$ 33, pagos a famílias cuja renda per capita é inferior a R$ 140. O benefício de R$ 22 é pago por cada criança com menos de 16 anos, até um máximo de três, e o benefício de R$ 33 é pago por cada adolescente com 16 ou 17 anos, até um máximo de dois. Deste modo, o benefício total do Bolsa Família varia de R$ 22 até R$ 200.
Hoje, aproximadamente, 12,4 milhões de famílias recebem o Bolsa Família (cobertura líquida, que não inclui benefícios bloqueados, a cobertura bruta ultrapassa os 13 milhões), e 3,1 milhões de indivíduos (1,7 milhões de deficientes e 1,6 milhões de idosos) recebem o Benefício de Prestação Continuada. O IBGE estima a população brasileira em 193 milhões de habitantes, o que quer dizer que 1,6% da população é recipiente direto do BPC, e 6,4%é recipiente direto do Bolsa Família. Os recipientes indiretos, ou seja, os indivíduos que vivem em famílias que recebem estes benefícios são mais numerosos. Trinta e cinco (35%) dos brasileiros vivem em famílias beneficiárias do Bolsa Família, e 5,9% vivem em famílias que recebem pelo menos um BPC.
Em termos orçamentários, no entanto, o BPC é maior. Em 2009, foram gastos R$ 16,8 bilhões com benefícios do BPC contra R$ 12,4 bilhões com benefícios do Bolsa Família. Juntos, não chegam a 1% do PIB.
IHU On-Line – Quais os efeitos dos programas de renda mínima na incidência da queda da desigualdade social?
Sergei Soares - Não há, no Brasil, um programa de renda mínima. Isso porque o Bolsa Família não é direito, e o BPC é apenas para aqueles que são impedidos de trabalhar. Estes dois programas, no entanto, têm sido responsáveis por aproximadamente 1/3 da redução da desigualdade medida pelo Coeficiente de Gini desde 2001. Considerando que juntos não chegam a 1% do PIB, isto é bem impressionante.
IHU On-Line – Mas esses programas podem ser vistos como um recurso para equilibrar a redistribuição de renda do país?
Sergei Soares - Um verdadeiro programa de renda mínima sem dúvida contribuirá para uma melhor distribuição de renda. O impacto de um programa de renda mínima clássico, no qual todos recebem o mesmo valor, independentemente da sua renda prévia, é sempre menor que o impacto de um programa de renda mínima focalizado, no qual apenas os mais pobres recebem ou então os mais pobres recebem mais. O grande poder distributivo do Bolsa Família se deve ao fato de seus benefícios estarem avassaladoramente concentrados no terço mais pobre da população brasileira. Se estes mesmos recursos tivessem sido distribuídos igualmente entre todos, haveria, sem dúvida, um impacto progressivo sobre a desigualdade, mas menor que o verificado.
IHU On-Line – Como programas de renda mínima e a Renda Básica de Cidadania propiciam bem-estar social?
Sergei Soares - Na medida em que um real adicional vale muito mais para um indivíduo à beira da fome que para um indivíduo rico, a transferência de renda de ricos para pobres, via tributação e transferência, aumenta o bem-estar total da sociedade.
IHU On-Line – No Brasil, quais são os efeitos de programas de transferência de renda sobre o mercado de trabalho?
Sergei Soares - Há seis estudos econométricos sobre participação no mercado de trabalho e programas de transferência de renda, e nenhum encontra efeitos substantivos, salvo sobre as mães. As mães reduzem o número de horas trabalhadas em até oito horas semanais (o número exato depende do estudo). Dada a importância de estímulo na infância para o desenvolvimento cognitivo das crianças, este é um efeito a ser comemorado.
IHU On-Line – Que transformações os programas de distribuição de renda causam nas famílias que vivem com um salário mínimo ou com uma renda menor?
Sergei Soares - Famílias que vivem com um salário mínimo devem ter, no mínimo, quatro membros para receberem um benefício do Bolsa Família. A maior parte das famílias que recebe o Bolsa Família ganha menos de um salário mínimo. As famílias que têm um ganha-pão com um salário mínimo são as menos pobres dentre as beneficiárias e, consequentemente, aquelas cujas vidas são menos influenciadas pelo Bolsa Família.
IHU On-Line – Que aspectos deveriam caracterizar um programa de renda mínima ou a Renda Básica de Cidadania eficientes?
Sergei Soares - Antes de tudo, deve ser um direito. Não pode ter “portas de saída” nem condicionalidades fora aquelas já exigidas de todos. Pode ser um direito de todos independente de sua renda ou apenas daqueles cuja renda vier a cair abaixo de certo patamar.
IHU On-Line – A partir da renda mínima e da Renda Básica de Cidadania, é possível pensar que modelo de país?
Sergei Soares - Qualquer que seja o modelo de país, uma renda mínima ou uma Renda Básica de Cidadania produzirá uma sociedade mais igualitária, mais justa e, em longo prazo, maiores oportunidades.
IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Sergei Soares - Espero que renda mínima ou Renda Básica de Cidadania sejam implementadas o quanto antes.
Bolsa Família tem impacto positivo sobre evasão escolar
Alunos cujas famílias recebem dinheiro do Bolsa Família apresentam melhores índices de aprovação e abandono escolar que os estudantes regulares da rede pública brasileira. Esse é o principal resultado do cruzamento de informações entre o Educacenso e o Sistema Presença, ferramenta do Ministério da Educação (MEC) que verifica se os filhos dos beneficiados do principal programa social do governo federal estão indo à escola.
De acordo com dados cedidos pelo MEC, dos 500 mil alunos do ensino médio de 16 e 17 anos que recebem o Bolsa Família 81,1% passam de ano, enquanto a taxa de aprovação média dos mais de 7 milhões de jovens do censo escolar de 2008 no antigo colegial é de 72,6%. O índice de abandono da escola nesse ciclo educacional chega a 7,2% entre os beneficiários de transferência de renda do governo e 14,3% entre o total geral de estudantes contabilizados pelo Instituto de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão de estatísticas do MEC.
No ensino fundamental, que concentra mais de 30 milhões de crianças matriculadas da 1ª à 8ª séries, a taxa de evasão dos mais de 9 milhões de alunos beneficiários do Bolsa Família é de 3,6%. O restante dos estudantes dessa etapa apresenta índice de 4,8% de abandono da escola. Em termos de aprovação, os alunos do ensino fundamental que não recebem apoio social têm melhor desempenho, com taxa de 82,3%, ante média de 80,5% daquelas crianças cujos pais recebem recursos federais.
Segundo Daniel Ximenes, diretor de estudos e acompanhamento das vulnerabilidades educacionais do MEC, a diferença de desempenho – em termos de frequência e rendimento – está diretamente relacionado com os benefícios do Bolsa Família recebidos pelas famílias pobres.
“A transferência de renda condicionada provoca alerta e cobrança por parte dos pais e reforça o desafio de fazer as crianças permanecerem na escola com maior regularidade. No longo prazo, isso ajuda a corrigir trajetória ruim no processo educacional brasileiro entre crianças e jovens da turma da pobreza”, afirma Ximenes.
O diretor do MEC aproveitou para divulgar resultado do mais recente monitoramento de frequência escolar do Bolsa Família, referente aos meses de fevereiro e março. O balanço mostra que 95% dos 14,117 milhões de crianças e jovens beneficiários com identificação escolar cumprem a regra de frequência exigida pelo programa. O acompanhamento revela que 276,9 mil alunos estão abaixo da exigência e 322,9 mil sequer têm um registro de frequência, totalizando quase 600 mil crianças em situação irregular.
Nesse caso, os beneficiários podem ser punidos pelo Ministério do Desenvolvimento Social, que coordena o programa. Para receber o benefício do Bolsa Família em dia, uma das condicionalidades é que os pais matriculem os filhos na escola. Os alunos de até 15 anos precisam manter participação de, no mínimo, 85% das aulas a cada mês. A determinação para adolescentes de 16 e 17 anos é de frequência a pelo menos 75% das aulas.
Bolsa-Família ainda fica aquém da Previdência Rural
Ao contrário do que o governo costuma divulgar, o Bolsa-Família, apesar de ser uma importante ferramenta de combate à pobreza, não é o maior e mais importante programa de distribuição de renda do País. Os programas de transferência de renda garantidos pela Constituição de 1988 – como a Previdência Rural e o Benefício de Prestação Continuada (BPC-Loas) – têm um impacto mais significativo na redução da pobreza. O terceiro em impacto social é o Bolsa-Família.
Atualmente, 12,6% da população brasileira vive em situação de indigência (renda inferior a ¼ do salário mínimo) e outros 32% em situação de pobreza (renda menor do que meio salário mínimo). Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que, se fosse retirado o Bolsa-Família dessa conta, a indigência saltaria para 13,9% e a pobreza para 33%.
Mas a situação fica muito pior quando o cálculo desconsidera não só o Bolsa-Família como também benefícios previdenciários e o BPC. Nesse caso, a indigência e a pobreza passariam a representar 23,4% e 43,7% da população brasileira, respectivamente. “Isso mostra que a Previdência Social e o BPC conseguem retirar uma parcela maior da população da indigência, permitindo uma mobilidade maior do que o Bolsa-Família”, afirmou a pesquisada do Ipea, Luciana Jaccoud.
FUNRURAL
A Previdência Rural foi criada ainda no regime militar, em 1971, com o nome de Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural), que anos depois passou a atender também os pescadores (1972) e os garimpeiros (1975). Era quase uma esmola, sem impacto na redução de pobreza e transferência de renda porque pagava benefícios de apenas meio salário mínimo ao cabeça do casal, com 65 anos. As pensões eram limitadas a 30% do benefício.
A Constituição de 1988 aprovou e o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) pôs em prática a universalização previdenciária com a ampliação dos benefícios para um salário mínimo, acesso de homens e mulheres idosos à Previdência Rural e redução da idade de aposentadoria (60 para homens e 55 para mulheres).
Os benefícios pagos pela Previdência Rural e o BPC-Loas lideram o volume de recursos destinados pelo governo para reduzir as desigualdades. Só no ano passado foram mais de R$ 40 bilhões desembolsados para pagamento de mais de 11 milhões de benefícios. Esse valor corresponde, sozinho, a todo o déficit da Previdência Rural em 2009. Isso porque, a contribuição paga pelos trabalhadores rurais com base na produção é insuficiente para bancar as aposentadorias.
Somente com BPC-Loas, que está incorporado às contas do Instituto Nacional do Serviço Social (INSS), é liberado R$ 1,4 bilhão para atender 3,1 milhões de pessoas. Recebem o BPC 1,5 milhão de idosos com mais de 65 anos e 1,6 milhão de pessoas com deficiência. No caso do Bolsa-Família, está prevista a liberação de R$ 13,1 bilhões para atender 12,9 milhões de famílias neste ano. Em 2009, foram gastos R$ 12,4 bilhões.
MUDAR DE PATAMAR
Para o secretário de Previdência Social, Helmut Schwarzer, os programas têm focos diferentes, mas os três têm impacto relevante na diminuição das desigualdades. “A taxa de pobreza entre os idosos é de algo em torno de 10%. Eles estão comparativamente bem em relação à sociedade”, disse Schwarzer.
E a justificativa é simples. No caso da Previdência Social – maior parte dos benefícios pagos é para o trabalhador rural – e BPC, o valor do benefício corresponde a um salário mínimo (R$ 510). Já no Bolsa Família, essa assistência varia de R$ 22 a R$ 200. “Quem recebe a Previdência Rural e BPC tem mais condições de mudar de patamar. Com essa determinação constitucional, o índice de pobreza entre os idosos é extremamente baixo. É um ganho social enorme para o País”, destacou a pesquisadora Luciana Jaccoud.
Apesar de ter um peso menor na redução das desigualdades, Luciana explicou que o Bolsa-Família também é um programa fundamental porque atende um público diferenciado, famílias com crianças que vivem em situação de extrema pobreza. “Contempla um público que está excluído das determinações constitucionais”, disse a pesquisadora.
Bolsa-Família esbarra na educação
Um levantamento com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE mostra resultados aparentemente contraditórios para o Bolsa-Família em 2008, na comparação com 2007. Na faixa de 15 a 17 anos, incluída no benefício a partir do ano passado, a taxa de escolarização cresceu de 1 a 7,4 pontos em 20 Estados e só recuou em 3. No grupo de 7 a 14 anos, porém, 8 das 27 unidades da Federação viram cair seu porcentual de matriculados em até 1,1 ponto.
A reportagem é de Wilson Tosta e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 25-10-2009.
No agrupamento mais velho, cresceram mais de quatro pontos Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Piauí, Sergipe e Minas. No grupo mais jovem, perderam estudantes o Distrito Federal, Santa Catarina, Goiás, Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Piauí e Pernambuco. Uma das condições para integrar o programa, que oficialmente completou seis anos no dia 20, é a frequência escolar.
“A mudança das condicionalidades do Bolsa-Família é um foco que a gente precisa abordar”, defende a coordenadora de Avaliação Educacional do Distrito Federal, Gláucia Guerra. A capital federal tem problemas de Estado pobre, perdendo alunos nos dois grupos etários no período – só Rio Grande do Norte está nessa situação.
Segundo a Pnad, o DF registrou menos 0,2 ponto porcentual de matrícula na faixa de 7 a 14 anos , passando de 98,2% para 98%. Na faixa seguinte, a queda foi de 87,6% para 87,4%.
A defesa de Gláucia de modificações nas condições para ingresso e permanência no Bolsa-Família se assemelha à do diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPS-FGV), Marcelo Néri. “As condicionalidades do programa já eram obsoletas. Agora ficaram mais”, diz ele. “Falta uma agenda mais desafiadora.”
Ele sugere incluir indicadores de desempenho e prêmios, como cadernetas de poupança, para os estudantes. O procedimento foi adotado em Nova York, onde um programa semelhante ao brasileiro foi atrelado ao avanço escolar dos beneficiários. Néri esclarece, porém, que não defende o estabelecimento de uma nota de corte para todos os alunos. “Se fizer a avaliação só pela nota, vai penalizar os pobres, porque 80% do desempenho é dado pelo background familiar, e esses jovens vêm de famílias com baixa escolaridade.”
CAUTELA
As diferenças de resultados dos dois grupos etários do programa, no ano passado, são acentuadas, embora especialistas recomendem cautela na comparação. A escolarização de 7 a 14 já se situa em patamar muito alto – o Estado com menor taxa, Alagoas, tem 95,9%, segundo a Pnad. Em contraste, entre os jovens de 15 a 17 há mais espaço para crescer: neles, nenhum Estado bateu os 90%, e o que tem menor taxa, Rondônia, mesmo crescendo 1,7 ponto porcentual, foi a 76%, ou seja, ainda tem um em cada quatro jovens desse grupo fora da escola.
No agrupamento mais jovem, apenas nove Estados cresceram de 0,5 a 1,1 ponto: Tocantins, Pará, Amapá, Rondônia, Rio Grande do Sul, Amazonas, Acre, Bahia e Mato Grosso do Sul. Nacionalmente, as duas faixas cresceram de 97,6% a 97,9% e de 82,1% a 84,1.
As mudanças ocorreram em um período de aumento nas verbas do Bolsa-Família. O projeto absorveu R$ 10.811.168.987 em 2008, R$ 1.589.076.926 (17,23%) a mais que os R$ 9.222.092.061 de 2007. O Estado com maior aumento foi o Amapá, com 47,19% a mais – 0,6 de ganho da escolarização na faixa de 7 a 14 e mais e 1,5 no grupo de 15 a 17.
Em segundo, veio o Rio, que no ano passado ganhou R$ 115 milhões a mais – aumento de 30,89% nos recursos, para uma expansão de apenas 0,1 ponto na escolarização dos mais jovens (98,1% para 98,2%) e de 1,5 na outra, de 86,5% para 88%. Foi a segunda maior do País, atrás do Amapá (89,2%) e à frente de São Paulo (87%).
Com queda de 1,1 no grupo mais jovem, Santa Catarina ficou em último lugar na faixa de 7 a 14 – sua escolarização aí caiu de 99% para 97,9%. No grupo de 15 a 17, cresceu 0,7 ponto. Coincidentemente, foi a unidade da Federação com menor aumento de recursos de 2007 para 2008, apenas 3,65% (mais R$ 3.888.443). No ano anterior, fora o único Estado a ter redução de verbas, menos 0,4 ponto, equivalente a pouco mais de R$ 533 mil, de acordo com dados do Portal da Transparência.
ANÁLISE
A secretária nacional de Renda de Cidadania do Ministério do Desenvolvimento Social, Lúcia Modesto, atribui o aumento na escolarização dos jovens de 15 a 17 anos à chegada do Bolsa-Família a essa faixa. Ela afirma, porém, que o recuo na faixa de 7 a 14, em sua maior parte, pode ser devido a variações nas amostras da Pnad, ou seja, uma questão de medição.
“O único dado fora da curva é Santa Catarina”, diz ela. “Precisaria ver o movimento demográfico para opinar.”
Lúcia ressalta que o aumento de gastos do projeto deveu-se a reajuste no valor dos benefícios, porque o número de famílias permaneceu o mesmo. Atualmente, de 6 a 17 anos, há 16,6 milhões de estudantes inscritos no programa, cerca de 30% do total dessa faixa.
Expansão do Bolsa-Família elevou PIB em R$ 43,1 bilhões, indica estudo
A expansão do valor total dos benefícios pagos pelo Bolsa-Família entre 2005 e 2006, de R$ 1,8 bilhão, provocou um crescimento adicional do PIB de R$ 43,1 bilhões, e receitas adicionais de impostos de R$ 12,6 bilhões. Esse ganho tributário é 70% maior do que o total de benefícios pagos pelo Bolsa-Família em 2006, que foi de R$ 7,5 bilhões.
A reportagem é de Fernando Dantas e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 16-10-2009.
Essas estimativas estão num estudo recém concluído dos economistas Naercio Aquino Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas (CPP) do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), antigo Ibmec-São Paulo, e de Paulo Henrique Landim Junior, aluno da graduação do Insper.
O objetivo do trabalho era investigar os efeitos do Bolsa-Família – que hoje atinge 12,9 milhões de famílias – na economia dos municípios. Os pesquisadores investigaram 5,5 mil municípios nos anos de 2004, 2005 e 2006. Os dados utilizados foram o PIB, a população e a arrecadação de tributos nos municípios, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); e os desembolsos do Bolsa-Família, do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS).
A partir dessa base, Menezes e Landim empregaram métodos estatísticos para calcular o impacto na economia municipal de aumentos dos repasses do programa per capita – os repasses divididos pela população do município (e não pelo número de beneficiários). A conclusão foi de que um aumento de 10% no repasse médio per capita do Bolsa-Família leva a uma ampliação de 0,6% no PIB municipal no ano em que ocorre a expansão e no seguinte.
“O impacto pode parecer pequeno, mas quando analisamos os efeitos levando em conta os números absolutos do PIB, ele é bem grande”, diz Menezes.
A magnitude do efeito do Bolsa-Família no PIB ficou clara quando os pesquisadores fizeram o que chamaram de “análise de custo-benefício”, tomando os anos de 2005 e 2006. Entre os dois períodos, os repasses do programa subiram de R$ 5,7 bilhões para R$ 7,5 bilhões, num salto de R$ 1,8 bilhão, ou de 30,34%. O valor médio do repasse em 2006 foi de R$ 61,97 por família, e o porcentual da população beneficiada foi de 36,4%.
Considerando-se a relação de 0,6% a mais de PIB para cada 10% a mais de Bolsa-Família, o aumento de 30,34% em 2006 significa um ganho no conjunto dos municípios – isto é, do País – de 1,82%. Aplicado ao PIB de 2006 de R$ 2,37 trilhões, chega-se ao PIB adicional de R$ 43,1 bilhões. Dessa forma, para cada R$ 0,04 de Bolsa-Família a mais, o ganho de PIB foi de R$ 1.
Menezes fez cálculos adicionais, levando em conta que a distribuição do aumento do Bolsa-Família de 2005 para 2006 não foi homogênea entre todos os municípios brasileiros, e obteve resultados muito parecidos.
Ele diz que aquele efeito explica-se pelo chamado “multiplicador keynesiano”, que faz com que um gasto adicional circule pela economia – de quem paga para quem recebe – várias vezes, aumentando a demanda bem mais do que o seu valor inicial.
A análise dos dois economistas permitiu avaliar também o impacto dos aumentos de repasses do Bolsa-Família nos diferentes setores da economia municipal. O maior efeito foi encontrado na indústria – para cada 10% a mais de Bolsa-Família, o PIB industrial aumenta 0,81%. Nos serviços, o impacto foi de 0,19%, enquanto na agricultura não foi registrado efeito significativo.
“É possível que a indústria tenha sido mais afetada por causa do aumento de consumo de energia elétrica, água, esgoto e gás das famílias pobres e extremamente pobres que recebem Bolsa-Família”, diz Menezes.
No caso da arrecadação municipal, o estudo indica que um aumento de 10% nos repasses leva a um aumento médio de 1,36%. Levando-se em conta o total de impostos gerados nos municípios em 2006, de R$ 304,7 bilhões, concluiu-se que o aumento de 30,34% do Bolsa-Família provocou uma alta de 4,1% na arrecadação, ou R$ 12,6 bilhões.
NÚMEROS
R$ 7,5 bilhões
foi o total gasto com o Bolsa-Família em 2006
R$ 1,8 bilhão
refere-se à parcela que superou o gasto de 2005
R$ 43 bilhões
foi o PIB gerado pelo gasto adicional com o Bolsa-Família em 2006
R$12,6 bilhões
foi a receita adicional de impostos com o programa em 2006
”Bolsa-Família distribui renda, mas não reduz desigualdade”
Ex-presidente do IBGE, o economista e ambientalista Sérgio Besserman destacou o mercado de trabalho formal como o ponto alto da Pnad 2008, mas salientou que a mostra, mais uma vez, evidenciou “a nossa horrorosa distribuição de renda”. Analisando os resultados, Besserman, que hoje preside a Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável e de Governança Metropolitana do Rio, afirma que é realmente lento o combate à desigualdade, que poderá ser obtido mais rapidamente com uma política de distribuição do conhecimento.
A entrevista é de Irany Tereza e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 19-09-2009.
Eis a entrevista.
O agravamento da crise torna esse retrato da Pnad sem efeito?
Essa Pnad não capta ocasionais efeitos dos impactos da crise econômica no Brasil, que têm de ser acompanhados pelas pesquisas conjunturais, como a de emprego, industrial. No entanto, não creio que esse ano de crise tenha tido a capacidade de alterar muito as informações da Pnad, exceto no que diz respeito ao mercado de trabalho.
O ritmo lento dos ganhos sociais, como índice de Gini e taxa de analfabetismo, é coerente?
Combater a desigualdade é muito difícil, envolve mudanças estruturais. O combate à desigualdade não comporta demagogias ou factóides, nem políticas superficiais. Os indicadores citados (índice de Gini e analfabetismo) são indicadores de estoque. Distribuição de renda não se muda estalando os dedos, só se muda quando se distribui ativos. Por exemplo: o Bolsa-Família, um programa bem-sucedido de combate à pobreza. Alguns acham que é um instrumento também de combate à desigualdade. Não é. Ele realmente ajuda a tirar famílias do limiar da pobreza, mas para se conseguir avanços verdadeiros é preciso distribuir ativos, fatores capazes de gerar renda.
E o que poderia acelerar?
A distribuição de terras, no caso de uma reforma agrária, coisa que sou contra. Na Bolívia, em 1952, distribuíram o rebanho para toda a população. Seis meses depois, todos tinham comido a sua vaca e o rebanho bovino acabou. Poderiam ser usados outros ativos, tipo fábricas, como se faz em períodos revolucionários. Mas, como estamos no século XXI, a desigualdade pode ser combatida com distribuição do conhecimento, porque esse é o principal ativo mundial e não se precisa expropriar ninguém. Não temos ainda no Brasil políticas públicas ou dinâmica social que permitam dizer que estamos no caminho de modificar a nossa horrorosa distribuição de renda.
E a estagnação da taxa de analfabetismo?
É um índice de estoque e, portanto, caminha devagar, mesmo. Isso é normal, não acho preocupante. Mas, quando falo em distribuição do conhecimento, não estou me referindo a alfabetizar, mas à escolarização – que aumentou -, à qualidade do ensino, cultura, valorização do conhecimento. Isso não é só inovação tecnológica na ponta, nos laboratórios das universidades de elite. O conhecimento é o garçom, o motorista de táxi, todo o mundo. E nós valorizamos muito pouco o conhecimento. É mais fácil a gente acreditar em duendes.
Para governo, imagem do Bolsa-Família é positiva
A secretária executiva substituta do Ministério do Desenvolvimento Social, Rosilene Rocha, disse ontem que as impressões dos analistas da ONU sobre o Bolsa-Família são ótimas. “Quando estive em Genebra, há duas semanas, na fase de elaboração do relatório, a principal recomendação que ouvi foi relacionada à ampliação do programa”, contou.
A reportagem é d e Roldão Arruda e publicada pelo jornal Estado de S. Paulo, 26-05-2009.
A secretária debateu o Bolsa-Família no Comitê pelos Direitos Econômicos e Sociais. “Na ocasião, o presidente Lula ainda não havia autorizado a ampliação do programa, iniciada na semana passada. Quando informei que a mudança estava a caminho, eles elogiaram a iniciativa”, disse ela.
Os técnicos chegaram a sugerir a extensão do programa a todas as famílias brasileiras: “Expliquei a eles que temos limitações orçamentárias”.
O programa desperta enorme atenção na ONU, segundo Roseli. “Não existe no mundo um programa de transferência de renda com tanta amplitude. Ele chega ao 5.564 municípios do País e acolhe 1/4 da população brasileira.”
Além da secretária executiva, o ministério enviou para Genebra um técnico do Ipea carregado de informações sobre a redução dos índices de pobreza no País. “Ele mostrou que, mesmo com a crise, a pobreza continua diminuindo, graças ao salário mínimo e ao Bolsa-Família. Os números indicam que as classes D e E ainda não foram atingidas pela crise.”
O Bolsa-Família atende atualmente 11,1 milhões de famílias. Com a ampliação, iniciada na semana passada, mais 1,3 milhão serão cadastradas ainda neste ano. Em 2010 deverão ser acrescentadas mais 600 mil à lista – o que totalizará 1,9 milhão.
A preocupação do governo agora é chegar às famílias com dificuldades de acesso às prefeituras, onde é feito cadastramento. Isso inclui populações indígenas e quilombolas, além de pessoas que vivem na rua e trabalhadores resgatados de situações análogas à escravidão.
Banco Mundial vê Bolsa-Família como exemplo
O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, mencionou o Bolsa-Família, criado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em janeiro de 2004, como um dos exemplos de programas de transferência de renda para suporte e segurança social. O México, que tem um programa semelhante, denominado Oportunidades, também foi lembrado pelo executivo.
Ele disse que esse tipo de programa, com destinação de recursos equivalente a “menos de 1,5% ou 1% do PIB” do país em que é executado, “mostra que se pode fazer verdadeira diferença com programas modestos”.
Zoellick disse ainda que o Banco Mundial vai ampliar o financiamento para o Brasil, mas não citou valores específicos. O chefe do Bird afirmou que a América Latina como um todo deve receber US$ 35 bilhões ao longo de dois anos.
Ele reconheceu que o Brasil começou a crise “em posição melhor, pois nos últimos dez anos fez muito para desenvolver reservas internacionais, melhorou produtividade, tem o tipo de programa que mencionei (Bolsa-Família), mas inevitavelmente será também atingido pela crise mundial”.
O País, continua o executivo, “tem a vantagem de ter uma economia de dimensão continental, então pode depender mais da demanda doméstica”.
No entanto, Zoellick observou que, mesmo com população crescente de renda média, ainda há “muitas pessoas pobres”. “E muitos desses pobres têm muito pouco ou nenhum amortecedor (proteção contra a crise).”
Ele comparou os efeitos da crise nos países desenvolvidos, mencionando o fato de que nessas economias a população perde casas e carros. Já quando o choque atinge as economias em desenvolvimento “não há lugar para ir, não tem comida, não tem proteção”.
Zoellick concluiu: “Então, esse é um exemplo de onde precisamos trabalhar com as autoridades brasileiras”.
De acordo com o presidente do Banco Mundial, o País “tem boas estruturas em ação, mas precisa assegurar que haja os recursos necessários”.
”Bolsa-Família é política de governo e projeto de poder”, afirma Frei Betto
O escritor e frade dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, é amigo dos mais próximos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se conhecem desde as grandes greves do ABC Paulista, no final dos anos 70, quando Lula despontou no cenário político nacional. Com a vitória petista, em 2002, Frei Betto foi para o Palácio do Planalto e ajudou a costurar o Fome Zero, anunciado logo após a posse, mas trocado um ano depois pelo Bolsa-Família. Hoje, fora do Planalto, o dominicano critica a mudança. Para ele, o governo “trocou um projeto de nação por um projeto de poder”.
Eis a entrevista.
Na sua avaliação, a situação social do País melhorou com o Bolsa-Família? Teria sido melhor com o Fome Zero?
O Bolsa-Família melhorou as condições sociais de milhares de pessoas que viviam na miséria. Porém, a proposta do Fome Zero era mais abrangente e possuía caráter emancipatório. Não conheço outra política pública na história do Brasil que tenha provocado tanta empolgação na opinião pública. O Bolsa-Família tem aspectos positivos, mas possui caráter compensatório. Até hoje não se descobriu a porta de saída das famílias que dele dependem.
O Fome Zero tinha porta de saída?
A porta de saída era óbvia: um mutirão de políticas públicas – alfabetização, recursos hídricos, cooperativismo, capacitação profissional, etc -, coroado pela reforma agrária. Assim, as famílias ficariam apenas dois anos na dependência dos recursos da União e estariam em condições de, em seguida, produzir a própria renda.
O ministro Patrus Ananias, do Desenvolvimento Social, vê exageros na cobrança da porta de saída.
Patrus Ananias é um excelente ministro, competente administrador. Mas ele sabe que o Bolsa-Família é uma política de governo e não uma política de Estado. Caso mude o governo – e queira Deus que não volte às mãos da oposição – essas políticas públicas podem ser desativadas e, as famílias, retornarem à miséria. A porta de saída todos no governo a conhecem. Falta vontade política de meter a mão na maçaneta e abri-la: a reforma agrária.
O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) disse que o maior programa de compra de votos do mundo se chama Bolsa-Família.
Em meu livro Calendário do Poder, descrevo em detalhes como o Fome Zero foi descartado para dar lugar ao Bolsa-Família. E com a exclusão do Fome Zero da pauta do governo a sociedade civil foi junta, ou seja, optou-se pela parceria apenas com os entes públicos, o que resultou na desmobilização de milhares de comitês gestores eleitos democraticamente, com representantes da sociedade civil. A única explicação que encontro para isso é assegurar, via beneficiários, uma fonte de votos.
Acha que a aprovação do governo está ligada ao Bolsa-Família?
Sem dúvida nenhuma, porque nenhum governo, desde Vargas, fez política social com a abrangência com que faz o governo Lula. O Brasil e a América Latina são melhores com Lula do que sem ele. E espero que consiga fazer o sucessor, ou a sucessora.
Como define politicamente a troca do Fome Zero pelo Bolsa-Família?
Aqueles que, dentro do governo, operaram a morte do Fome Zero em troca do Bolsa-Família trocaram, a meu ver, um projeto de nação por um projeto de poder. Só falta o PT aceitar Michel Temer como vice da Dilma…
Continua amigo de Lula?
Amigo, admirador, eleitor e, sobretudo, irmão, com quem se briga, se discorda, mas há laços mais profundos que nos unem.
Educação ainda é maior desafio do Bolsa Família
287 x 39. Uma conta simples, facilmente resolvida por uma criança do 5º ano (4ª série) do ensino fundamental de um bom colégio urbano. Apresentada a um aluno da 7ª série de uma escola rural de Poço Redondo, Semiárido de Sergipe, revelou-se um problema insolúvel, permanecendo assim mesmo com a ajuda da irmã, estudante do 1º ano do ensino médio.
Há pequenos avanços, mas a combinação de escolas deficientes com a dificuldade de aprendizado dos alunos mais carentes mantém o problema educacional um dos maiores desafios para elevar o nível de vida das regiões mais pobres do Brasil. Rosângela Leandro do Nascimento, vice-diretora de uma unidade bem aparelhada para os padrões regionais, a Escola Municipal Jovino de Carvalho (só ensino fundamental e educação noturna de jovens e adultos), no povoado de Riacho (Paulo Afonso, Bahia), admite que contas de multiplicar com algarismos maiores que 5 são muito difíceis para seus alunos.
Há quatro anos, a então diretora da mesma escola Jovino de Carvalho, Deunilzair das Neves Lima, hoje afastada por problemas de saúde, apresentou à reportagem números desalentadores apurados nas últimas provas aplicadas. O aproveitamento médio fora de 50%, caindo para 30% entre os inscritos no Bolsa Família.
Quando comparados com aqueles números, o aproveitamento do ano de 2008 revela algum progresso. Segundo dados fornecidos pela secretaria da escola, o índice de aprovação do ano passado dos alunos da 1ª à 8ª série que não abandonaram os estudos foi de 66%, caindo para 61% entre os beneficiários do Bolsa Família, cerca de 300 entre os 520 matriculados.
A escola Jovino de Carvalho fica a 20 quilômetros da sede de um dos mais desenvolvidos municípios do Semiárido nordestino (Paulo Afonso, sede de quatro grandes usinas hidrelétricas, 14º IDH entre os 415 municípios baianos). Limpa, bem conservada, com biblioteca diversificada, instalações para as crianças escovarem os dentes, estoque de merenda escolar farto e variado, dois computadores novos para uso dos alunos (oferta de uma ONG) e internet sem fio instalada pela prefeitura.
Faltam, porém, salas de aula. Por causa disso, o laboratório de ciências, que tem equipamentos, está desativado, desalojado pela secretaria da escola que, por sua vez, cedeu seu espaço para uma sala de aula. A vice-diretora disse que, apesar dos avanços “de 2005 para cá”, ainda há muita dificuldade de aprendizado e muito desinteresse.
“Muitos alunos só vêm para garantir a presença para o Bolsa Família (o programa exige frequência mínima à escola)”, lamenta. E a carência de salas obriga a escola a uma prática comum na região, e que dificulta mais ainda o aprendizado: juntar mais de uma série na mesma turma. Em Panelas, município de Fátima, Bahia, a solução para abrigar os alunos da 3ª série foi dividi-los por aproveitamento: os mais adiantados ficam com a 4ª série e os mais atrasados, com a 2ª.
Em São José da Tapera, Alagoas, uma confusão na passagem de oito para nove anos do ensino fundamental obrigou pelo menos 13 escolas rurais (o município tem 41 escolas no total) a pular o 2º ano que seria a antiga 1ª série.
Segundo a professora Flávia Santos Fontes, uma das três coordenadoras da Secretaria de Educação municipal, no processo de transformação de série para ano, os alunos do que seria o 1º ano em 2008 (antiga alfabetização) foram passados para o 2º ano em agosto e para o 3º no fim do ano. Dessa forma, as escolas que passaram de um sistema para o outro ficaram sem 2ª série este ano.
A coordenadora disse que, como o Ministério da Educação (MEC) não aceitou que os alunos fossem retidos no 2º ano, eles tiveram que passar de ano mesmo sem estar preparados. Segundo ela, só a forte repetência esperada para este ano nas turmas afetadas vai corrigir o problema, evitando que as escolas não tenham 3º ano em 2010.
A secretária nacional de Educação Básica do MEC, Maria Pilar Lacerda, disse que, a partir da demanda da reportagem, consultou a Secretaria de Educação do município alagoano e constatou que, efetivamente, está havendo problema na implantação do ensino fundamental de nove anos. Ela avalia que houve um erro de interpretação e o MEC vai enviar um técnico para ajudar na reorganização da sequência curricular nas escolas afetadas. A proposta a ser apresentada será a da aplicação da chamada provinha aos alunos de 7 e 8 anos para, dessa forma, saber quem está no 2º ou no 3º ano. A secretária disse ainda que o caso de São José da Tapera é preocupante, mas que, no geral, a mudança está sendo feita sem problemas.
A repetência e a forte evasão de alunos são problemas graves na escola Professora Laurentina Ignez de Castro (alfabetização à 8ª série) em Campinas do Castro, Cícero Dantas (BA), apesar dos esforços da equipe de professores dirigida pela professora Marta Vasconcela Pires da Silva. Em 2008 a escola teve 37% de reprovação e 23% de abandono, uma queda dramática nas aprovações que dois anos antes foram de 73,7%.
A evasão de 2008, segundo a diretora, foi de alunos da 5ª à 8ª séries, a maioria para acompanhar os pais que foram trabalhar como boias-frias em outros Estados. “Eles [os pais] não gostam de trabalhar na roça. Deixam de investir aqui para ir para fora e voltar com uma moto, uma coisa. Não sei se é bom”, reflete. Marta disse que ela e sua equipe estão fazendo um trabalho de conscientização dos pais para a necessidade de investir nos estudos dos filhos, independentemente da obrigatoriedade imposta pelo Bolsa Família. Além disso, a equipe de 21 professores está dando duas horas extras por semana em aulas de reforço na tentativa de reverter o quadro negativo do aproveitamento dos alunos.
Apesar das dificuldades na educação, ela é considerada a grande janela de perspectiva até pelo pessimista prefeito de Poço Redondo, o franciscano frei Enoque Salvador de Melo (PSB). Crítico do Bolsa Família, que considera só assistencialismo, e dos assentamentos de sem-terra, que considera embriões de “favelas rurais”, ele avalia que a farta disponibilidade de recursos para a educação “se bem direcionada” pode abrir espaço para que o município que ele dirige pela terceira vez possa começar a superar os péssimos indicadores socioeconômicos que ostenta.
Poço Redondo recebe R$ 800 mil por mês para a educação. Em um ano (R$ 9,8 milhões), o valor é mais que o dobro da cota municipal no Fundo de Participação dos Municípios (FPM) para 2009. Do total, 60% vão para salários e aperfeiçoamento de professores. Por causa do piso salarial do magistério, de R$ 950, o prefeito conta que na cidade já surgiu uma espécie de nova “profissão” – a do quincas, o marido de professora.
Dependência cresce junto com o Bolsa Família
Cerca de 30 quilômetros de uma estrada de terra muito ruim, cheia de atoleiros em dias de chuva, separam o povoado de Serra da Guia, onde vive a família de Maria José dos Santos, 47 anos, da sede do município de Poço Redondo, pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Sergipe (dados de 2000). Maria José está chegando da feira na cidade com alguns dos 13 filhos vivos, de 19 nascidos. Comprou dois quilos de carne, farinha e alguns outros mantimentos, usando parte do único rendimento fixo da família, os R$ 167 mensais do Bolsa Família.
É a segunda vez em quatro anos que o Valor visita Maria José e sua família, cadastrada no principal programa de transferência de renda do Brasil como em situação de miséria extrema e, por isso, elegível para a maior faixa de concessão do benefício. Há quatro anos ela preparava-se para começar a receber R$ 95 mensais do programa. O benefício, hoje reajustado em 76%, reforçou a dieta magra da casa. Fora isso, pouco mudou no cotidiano de carência da família Santos.
Como há quatro anos, a reportagem percorreu vários municípios do Semiárido nordestino e procurou as mesmas famílias na tentativa de avaliar seus progressos na qualidade de vida desde 2005. Das três famílias novamente contactadas, a de Maria José foi a que mostrou menores sinais de mobilidade econômica. Em São José da Tapera (AL), a família de Joselma dos Santos deu alguns passos adiante, mas a única evolução segura na renda veio do programa do governo – de R$ 30 para R$ 122 mensais. Em Cícero Dantas (BA), Marlúcia Aureliana do Nascimento trilhou a velha rota da migração para o Sudeste, comum entre os homens. Nas três cidades, outras 4,1 mil famílias passaram a receber o benefício, mas todas ainda dependem dele.
As três famílias vivem no Nordeste rural, chamado pela socióloga Sonia Rocha de “núcleo duro da pobreza no Brasil”, uma classificação assumida pelo próprio Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), responsável pelo Bolsa Família. A secretária nacional de Renda de Cidadania do MDS, Lucia Modesto, diz que o “núcleo duro” da pobreza é o mais difícil de ser quebrado, fato já constatado na experiência chilena (Chile Solidário), anterior à brasileira.
Maria José ganhou uma apertada casinha de dois dormitórios como parte dos esforços para a erradicação da doença de Chagas. Na mais pura tradição dos puxadinhos das favelas cariocas, a família acoplou a ela mais dois dormitórios e um banheiro rústico, tudo sem reboco. Uma nova cisterna para captar água da chuva veio no mesmo pacote. A velha casa de taipa (caibros e ripas com barro socado), que deveria ter sido demolida como prevê o combate ao besouro transmissor da doença (barbeiro), permaneceu de pé. Serve de despensa e cozinha, com seu velho fogão a lenha. O fogão a energia solar, ganho de uma ONG regional (Instituto Xingó), tem ares de pouco uso, guardado no que deveria ser a cozinha, inacabada, para dar mais espaço à família.
Não há geladeira, televisão, telefone ou eletrodomésticos, apesar de a energia elétrica ter chegado há mais de quatro anos. Não há também camas, só velhos colchões, e nem armários nos quartos. Maior sonho? “É tanta coisa que se eu for dizer leva a tarde toda”, titubeia Maria José, para então completar: “Uma geladeira.” Faz todo sentido. Hoje, os velhos caibros da casa velha servem de varal para secar e armazenar as tripas de boi que, apesar de acossadas pelas moscas varejeiras, serão ao longo da semana a principal fonte de proteína animal da família junto com a pouca carne trazida da feira.
Dependendo do dia, a casa pode ter 11, 15 ou mais moradores, começando pela matriarca, Alta Maria da Conceição, idade desconhecida de todos, inclusive dela própria. “Mãe não tem documento”, justifica Maria José. Os oito filhos menores, quatro gêmeos, ainda moram com os pais, mas os outros estão sempre perto, inclusive uma filha casada com criança e marido desempregado. “Seu” Antonio Rosa de Jesus trabalha por diária (R$ 20) em uma fazenda, mas vai quando quer e vai cada vez menos.
Maria José ainda faz vassouras com palha de pindoba (tipo de palmeira), mas a demanda só diminui. A pequena roça garante feijão para os humanos e milho para os poucos bichos quando a chuva ajuda, como este ano. Garantir as crianças na escola para não perder o Bolsa Família é a grande preocupação de todos.
Em uma casinha de porta e janela atrás de um galpãozinho precário à margem da rodovia AL-220, na localidade rural de Sítio Cachoeirinha, município de São José da Tapera (5.424º lugar no ranking do IDH municipal), Alagoas, mora Joselma dos Santos, 24, com o marido Rogério dos Santos, 26, e dois dos três filhos (Márcia, 5, e Rogério, 3). Valdemir, 8, do primeiro casamento, mora com a avó materna em uma casa próxima.
Há quatro anos Joselma estava grávida de seis meses do pequeno Rogério, o marido trabalhava como boia-fria em Tocantins, e ela evitava ir ao médico porque, sem dinheiro para condução, precisava caminhar seis horas para chegar ao posto de saúde. Sua renda segura era apenas R$ 30 do antigo Bolsa Alimentação. É outra cadastrada em situação de pobreza extrema.
Apesar de a insegurança ser a mesma, houve progresso na vida da família, que parou de crescer porque Joselma teve que fazer ligadura de trompas, pois não conseguia ter filhos de parto normal. Uma boa safra na roça em 2008, o preço favorável do feijão colhido e algum retorno das viagens de Rogério permitiram ao casal comprar geladeira, televisão (com parabólica) e aumentar a casa, agora com três quartinhos (sem portas), sala, cozinha com fogão a gás e banheiro com pia e vaso de louça.
Com a venda de um terreno adquirido com o dinheiro da safra, Rogério comprou uma moto seminova. Há três anos, abriram uma vendinha de bebidas no galpão da frente, mas a receita líquida de R$ 100 por mês, em média, não dá para pagar a prestação de R$ 208 do freezer e a loja ameaça tomá-lo.
Joselma está insatisfeita com a qualidade da escola das crianças, mas o lado da saúde melhorou muito. Um posto de saúde da família foi aberto a cerca de uma hora de caminhada ou a poucos minutos de moto. Ela diz que as consultas precisam ser marcadas com 15 dias de antecedência, mas em casos de gravidez ou de doença grave, o médico vai à casa. O que preocupa mais é a falta de perspectiva: ou sorte na roça, ou a migração temporária de Rogério. “Tô pensando em ir em dezembro”, diz ele.
Quem já foi e não sabe se volta é Marlúcia Aureliana do Nascimento que há quatro anos morava com o marido e cinco filhos em Campinas do Castro, povoado a 24 quilômetros da sede do município de Cícero Dantas, Bahia. Agora, separada, está colhendo laranjas em Tabatinga, região de Araraquara, oeste paulista. Levou quatro dos filhos e um neto. O filho menor, de seis anos, ficou com a avó materna.
Marlúcia seguiu uma tradição comum entre os homens da região. Eles vão, trabalham como boia fria por oito meses com carteira assinada e muitos voltam para aproveitar o seguro-desemprego nos outros quatro meses do ano. Ela fez o mesmo no primeiro ano. Localizada por telefone, disse que não sabe se voltará a sua terra em fevereiro, término do contrato.
Ela admite ficar se for incluída entre os empregados do pomar que permanecem no emprego, cuidando da terra entre uma safra e outra. Já fez um curso de culinária e outro de costura (para fazer bichos de pelúcia). Não achou nada na primeira carreira e não gostou da segunda. “Eu queria fazer lençóis, toalhas, essas coisas. Bichinhos de pelúcia, não gostei.”
Maria recebe R$ 150 do Bolsa Família do cadastro mantido na Bahia. Ganha por produção no laranjal, de R$ 200 a R$ 300 por quinzena porque não consegue ter a produtividade dos mais experientes. A filha mais velha também trabalha na colheita e o ex-marido dá uma ajuda. Paga R$ 150 de aluguel de uma casa de quarto, sala, banheiro e cozinha e, segundo sua mãe, manda R$ 150 por mês para pagar uma dívida que deixou na Bahia.
Ela não compra móveis para a casa porque espera retornar para Campinas do Castro, mas não consegue juntar dinheiro para voltar em situação melhor e sabe que não terá trabalho na sua terra. As crianças, gêmeos de 11 anos, estão na escola em Tabatinga, o que dificulta o regresso. José, de 17 anos, estuda à noite. Marlúcia acorda às 4 horas da manhã e só volta para casa à noitinha. “Tem gente que pensa que a gente só vem [para o sul] pra curtir. Só Deus sabe o sofrimento”.
Governo estuda ampliar Bolsa Família
O governo federal estuda estender o benefício básico do Bolsa Família, atualmente em R$ 68, a todas as famílias atendidas pelo programa.
A reportagem é de Eduardo Scolese e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 09-10-2009.
Hoje esse benefício é restrito a famílias “extremamente pobres”, com renda per capita mensal de até R$ 70. A ideia é oferecê-lo também aos demais beneficiários, com renda individual entre R$ 70,01 e R$ 140. Dessa forma, haveria uma linha única de corte de renda para inclusão no programa.
O ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) disse que a iniciativa poderá constar do projeto de lei da chamada CLS (Consolidação das Leis Sociais), que o presidente Lula pretende enviar ao Congresso para, no ano eleitoral de 2010, transformar em lei suas principais ações sociais.
“Esse é um assunto que está pautado”, disse. Segundo ele, “é muito pequena” a diferença hoje entre o total de beneficiários do programa (11,9 milhões de famílias) e aquelas que não recebem o benefício básico (2,6 milhões de famílias).
Na prática, a extensão do benefício básico a essas famílias terá um impacto mensal de R$ 180 milhões -o custo mensal do programa é de cerca de R$ 1 bilhão. Em 2010, como existe a estimativa de atingir 12,9 milhões de famílias, o orçamento do programa se aproximará dos R$ 14 bilhões.
Hoje uma família beneficiária pode receber de R$ 22 a R$ 200. O programa está respaldado numa lei de 2004 e, com a CLS, será incluído numa legislação ampliada da área social, com outros programas nacionais vinculados, como o de inclusão de jovens (Projovem) e o de atenção às famílias (Paif).
Ontem, o presidente Lula reuniu ministros da área social numa primeira conversa sobre a formatação desse projeto de lei. Não há prazo para a sua finalização, já que é preciso uma avaliação jurídica sobre quais poderiam ser incluídos no projeto e, depois, no Congresso, transformados em lei.
Outros ajustes
Existem outras propostas em análise no governo para mudanças no Bolsa Família.
Uma delas, que também pode ser incluída na CLS, é mudar o critério de inclusão das famílias, hoje restrita à renda (de até R$ 140 mensais por pessoa).
A renda seria um dos fatores levados em conta, mas viria acompanhada, por exemplo, das condições de moradia e de acesso a bens e serviços. A pasta tem identificado que se tornou comum, diante do temor de não ser incluída no programa, a família omitir dados de renda.
“A própria pessoa às vezes fica um pouco em dúvida se deve ou não declarar [determinado rendimento]. Não é questão de mau-caratismo, é questão de estratégia de sobrevivência. A pessoa, se arrumar um emprego hoje, pode perder o emprego amanhã. Vai abrir mão do benefício?”, afirma o ministro do Desenvolvimento Social.
Por exemplo: uma família de uma comunidade carente com renda per capita de R$ 141 não tem direito hoje ao benefício.
Outras duas propostas a serem incluídas na CLS: 1) regulamentação de decreto presidencial de março de 2008 que prevê a revisão a cada dois anos da renda dos beneficiários; 2) acompanhamento não apenas da frequência mas também do desempenho escolar das crianças e dos adolescentes.