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Arquivo da categoria: Sociologia do Conhecimento

Morre sociólogo liberal alemão Ralf Dahrendorf aos 80 anos

Morre sociólogo liberal alemão Ralf Dahrendorf aos 80 anos
Os admiradores comparam sua independência de espírito à de Erasmo de Rotterdam. Nomeado lorde na Inglaterra, o hamburguês Dahrendorf permaneceu crítico, e se considerava apenas “um londrino”.

Faleceu na quarta-feira, 17 de junho de 2009, em Colônia, o sociólogo anglo-alemão Ralf Dahrendorf, após breve doença. Ele já tivera que cancelar as entrevistas marcadas por ocasião de seu octogésimo aniversário, em 1º de maio, sob a justificativa de que só podia falar muito baixo devido a uma inflamação na garganta.

A família do pensador liberal nascido em Hamburgo em 1929 era ativa na política. Seu pai representara o Partido Social Democrata (SPD) no Reichstag entre 1932 e 1933. Após a Segunda Guerra Mundial, Ralf Dahrendorf estudou Filosofia e Sociologia e ensinou nas universidades de Tübingen e Constança, entre outras.

Crítica e admiração

Logo Dahrendorf entrou também para a política. Em 1967, filiou-se ao Partido Liberal Democrata alemão (FDP), participando de seu diretório federal durante alguns anos. Ele atuou tanto na assembleia legislativa do estado de Baden-Württemberg quanto na câmara baixa do parlamento alemão (Bundestag). Em 1970, tornou-se comissário de Relações Exteriores e Comércio Exterior da Comunidade Europeia.

Após os anos na política, Dahrendorf voltou a se dedicar à teoria. A partir de 1974, lecionou durante dez anos na renomada London School of Economics and Political Science. Em 1983, o sociólogo não hesitou em protagonizar uma série de TV onde demonstrava aos britânicos as causas de seu ocaso como nação.

Apesar de, ou justamente graças a essa atitude crítica, ele contava com alta consideração no país de adoção. O jornal inglês The Independent o classificou como “a imagem clássica de um professor teutônico”. Em 1988, assumiu a dupla cidadania britânica, após haver sido nomeado lorde pela rainha Elizabeth 2ª, seis anos antes. Indagado sobre sua nacionalidade, respondia: “Sou londrino”.

“Pioneiro liberal”

Em um necrológio, Christoph Driessen, da agência de notícias DPA, o elogia como “grande pioneiro do liberalismo”, o qual “durante a vida experimentou e descartou muitas coisas”. Ele se via “na tradição do grande humanista Erasmo de Rotterdam, o qual também permaneceu entre todos os partidos, mesmo durante a Reforma protestante”.

Apesar de seu amor pela capital britânica, nos últimos anos o sociólogo já não tinha Londres como residência principal, mas sim a cidade alemã de Colônia, a fim de estar mais perto da família, por motivos de saúde.

Dahrendorf representou um papel importante na sociologia alemã, participando, por exemplo da disputa do positivismo, iniciada pelos filósofos Karl Popper e Theodor Adorno na década de 1960. Sua obra foi traduzida em diversos idiomas. No Brasil, foram lançados O conflito social moderno, Reflexões sobre a revolução na Europa e Homo sociologicus, entre vários outros títulos.

AV/afp/dpa

Revisão: Roselaine Wandscheer

A CRISE DOS PARADIGMAS NA SOCIOLOGIA – Problemas de explicação

A CRISE DOS PARADIGMAS NA SOCIOLOGIA – Problemas de explicação

* Octavio Ianni é professor do Departamento de Sociologia da Unicamp

Octavio Ianni (*)

A crise da sociologia pode ser real ou imaginária, mas não há dúvida de que tem sido proclamada por muitos. Em diversas escolas de pensamento, em diferentes países, uns e outros colocam-se o problema da crise de teorias, modelos ou paradigmas. Desde o término da Segunda Guerra Mundial, e em escala crescente nas décadas posteriores, esse é um problema cada vez mais central nos debates. Além dos êxitos reais ou aparentes, das modas que se sucedem, dos desenvolvimentos efetivos do ensino e pesquisa, da produção de ensaios e monografias, manuais e tratados, subsiste a controvérsia sobre a crise da explicação na sociologia.
Fala-se na decomposição dos modelos clássicos e na obsolescência de noções como as de sociedade, comunidade, capitalismo, divisão do trabalho social, consciência coletiva, classe social, consciência de classe, nação, revolução. Critica-se a abordagem histórica, globalizante ou holística, e preconiza-se a sistêmica, estrutural, neofuncionalista, fenomenológica, etnometodológica, hermenêutica, do individualismo metodológico e outras. Considera-se que os conceitos formulados pelos clássicos já não respondem às novas realidades. Agora, o objeto da sociologia deveria ser o indivíduo, ator social, ação social, movimento social, identidade, diferença, quotidiano, escolha racional.
Em 1946, na aula inaugural pronunciada na London School of Economics and Political Sciences, T. H. Marshall se mostrou preocupado com a “encruzilhada” na qual se encontrava a sociologia. As tarefas práticas eram urgentes e os recursos teóricos pareciam inadequados. As interpretações herdadas dos clássicos seriam insuficientes para fazer face às urgências da reconstrução social. Em lugar das teorias globalizantes, caberia formular “pontos de apoio intermediário”, de modo a atender aos desafios imediatos, localizados, setoriais, quotidianos, de normalização e ordenamento dos problemas sociais.
“Os sociólogos não deviam despender todas as suas energias na procura de generalizações amplas, leis universais e uma compreensão total da sociedade humana como tal. Talvez cheguem lá mais tarde se souberem esperar. Nem re comendo o caminho arenoso das profundezas do turbilhão dos fatos que enchem os olhos e ouvidos até que nada possa ser visto ou ouvido claramente. Mas, acredito que haja um meio-termo que se localiza em chão firme. Conduz a uma região cujas características não são nem gargantuanas nem liliputianas, onde a sociologia pode escolher unidades de estudo de um escopo manejável, não a sociedade, progresso, moral e civilização, mas estruturas sociais específicas nas quais as funções e processos básicos têm significados determinados” (Marshall, 1967, p. 32).
Seja em termos de “pontos de apoio intermediário” conforme Marshall, de “principia media”, segundo Mannheim (1949), ou “teorias.de alcance médio”, na versão de Merton (1951, 1967), o que está em curso é o debate sobre a insuficiência ou obsolescência das teorias clássicas. Debate no qual, aos poucos, se propõem outros temas e metodologias. A problemática sociológica é posta em causa por representantes de diferentes escolas de pensamento, em diversos países. .
Essa controvérsia prossegue e generalizase. Torna-se uma onda. Bourricaud (1975, p. 584) critica o. “sociologismo”, o “hiperfuncionalismo” e o “realismo totalitário”. Afirma, entre outras observações semelhantes, que “o realismo totalitário continua a constituir o modo de interpretação ao qual, espontânea e implicitamente, recorre a maioria dos sociólogos radicais”. Para superar essas limitações, preconiza a recriação do “individualismo atomístico” herdado do liberalismo e do marginalismo, conforme as contribuições de Mancur Olson, Albert Hirschman e outros. Propõe o conceito de “neo-individualismo”, no qual se admite a existência de “grupos”, “classes” e “sociedades”, entre aspas. Está a caminho das teorias do “individualismo metodológico” e “escolha racional”, vistas como aspectos básicos de um novo paradigma sociológico posto sobre os escombros dos clássicos.
Touraine (1984) dá continuidade à crítica dos “modelos clássicos”. Alega que se acham em “decomposição”, já que se baseiam em conceitos insatisfatórios, tais como “funcionalismo”, “modernização”, “sociedade” e outros. “Na realidade, o que esta sociologia denomina sociedade não é senão a confusão de uma atividade social, definível em termos gerais – como a produção indus trial ou o mercado -, e de um Estado nacional.
A unidade da sociedade é aquela que lhe dá e impõe um poder legítimo. Suas fronteiras não são teóricas, mas reais: as dos postos da aduana. A sociedade é o pseudônimo da pátria” (idem, p. 22). Os conceitos elaborados pelos clássicos parecem não deixar espaço para os indivíduos, os atores sociais. “Um dos aspectos mais importantes da sociologia clássica é que, ao criar grandes conjuntos históricos portadores de sentidos em si mesmos, reduzem a análise da ação social à pesquisa da posição do ator no sistema” (idem, p. 35). Cabe eleger como objeto da sociologia a ação social, o ator social, o movimento social. E abandonar o sistema, os grandes conjuntos, os conceitos abrangentes, a visão macro da sociedade. Mesmo porque essas noções corresponderiam a uma realidade social passada, superada, que já não mais se constitui como objeto da sociologia. “A sociologia da ação recusa esta explicação do ator pelo sistema. Ao contrário, vê em toda situação o resultado das relações entre atores, definidos tanto por suas orientações culturais como por seus conflitos sociais” (idem, pp. 35-36). Nesses termos é que Touraine desenvolve a idéia de que a “decomposição” do pensamento sociológico herdado do passado parece irreversível. Trata-se da “crise de um modelo clássico de representação da vida social”, acompanhada da “formação de um novo modelo, a partir do qual pode desenvolver-se uma orientação sociológica mais específica e mais coerente” (Touraine, 1985, -pp. 15-25).
Entre os críticos que estão propondo novos modelos, teorias ou paradigmas é freqüente a insistência na idéia de que o objeto da sociologia mudou. Os clássicos estariam apoiados em noções que, se foram cabíveis no passado, já não atendem às peculiaridades do século XX. Ao criticar as noções de capitalismo e industrialismo, que seriam importantes nas sociologias de Marx e Weber, Giddens sublinha a “informação”, o “poder administrativo”, o “poder militar”, a “guerra”, a “racionalização” e outras como aspectos básicos da “modernidade” do século XX. Portanto, não se trata mais, como se fazia anteriormente, de continuar a explicar a realidade social em termos de industrialismo e capitalismo. “A dissolução do mundo tradicional, sob o impacto da modernidade, não é o resultado do capitalismo, do industrialismo, ou mesmo da concentração dos instrumentos administrativos pelos Estados modernos. É o resultado de tudo isso, em combinação com os meios modernos de uso da força militar e de fazer a guerra (Giddens, 1988, p. 28). A modernidade é muito mais complexa e fundamental do que sugerem as noções de capitalismo e industriaïismo. Cabe acrescentar outros “parâmetros de modernidade”, dentre os quais se destaca a parafernália da informática, “um dos mais característicos traços da época moderna. Os Estados modernos, e o sistema mundial moderno como um todo, envolvem uma tremenda aceleração na produção e organização de informação. Embora seja habitualmente suposto que apenas agora, no final do século XX, estamos entrando na era da informação, as sociedades modernas têm sido sociedades de informação desde os seus inícios” (idem, p. 27). Em síntese, trata-se de superar a “teoria da sociedade industrial”, um resíduo do século XIX, um “mito” ultrapassado. E “reconciliar uma epistemologia da ciência social, revista, com novos esquemas para análise do desenvolvimento das sociedades avançadas” (Giddens, 1976, p. 703).
Uma parte importante dessa história está sintetizada em livros e artigos de T. H. Marshall, Merton, Mannheim, Florestan Fernandes, Gurvitch, Sorokin, Cuvillier, C. W. Mills, Barrington Moore Jr., Gouldner, Giddens, Collins, Bourricaud, Bourdieu, Touraine, Piaget, Lukács, Goldmann, Horkheimer, Adorno, Habermas, Gadamer, Ricoeur, Morro, Elster e outros. Uns se colocam radicalmente em favor de novos paradigmas. Outros propõem renovações ou desenvolvimentos dos clássicos, incorporando-se aí contribuições contemporâneas. E há os que reconhecem que a criação de novos paradigmas não implica necessariamente a desqualificação dos outros. Mesmo porque, na história do pensamento sociológico, ao lado das oposições e rupturas, registram-se também convergências e continuidades. No conjunto, discutem-se problemas relacionados tanto ao método como ao objeto da sociologia. Discutem-se prioridades, ou acomodações, quanto à indução quantitativa e qualitativa à análise sincrônica e diacrônica, ao contraponto das partes com o todo, à dinâmica e à estabilidade sociais, ao indivíduo e sociedade, ao objetivo e subjetivo. Aos poucos, formulam-se novas teorias sociológicas, tais como estruturalismo(s), neofuncionalismo, estrutural-funcionalismo, fenomenologia, etnometodologia, hermenêutica, sociologia da ação ou acionalismo, individualismo metodológico e outras. Formulam-se outros temas e outros métodos de explicação ou compreensão, ao mesmo tempo em que se inaugurara outras linguagens.

Clássicos e contemporâneos

Há algo de imaginário no debate sobre a crise da sociologia. Se é verdade que há impasses reais no presente, também é verdade que as controvérsias sobre o seu objeto e método são mais ou menos permanentes. Dizem respeito às exigências da produção intelectual, com a singularidade de que a sociologia é uma ciência que sempre se pensa, ao mesmo tempo em que se realiza, desenvolve, enfrenta impasses, reorienta. Talvez mais do que outras ciências sociais, ela se pensa de modo contínuo, criticamente. Há uma espécie de sociologia da sociologia em toda produção sociológica de maior envergadura.
Entretanto, algumas vezes colocam-se problemas reais. Gurvitch (1986) perguntou certa vez se a sociologia fez outra coisa se não passar por crises. E disse que algumas delas colocaram questões básicas.
“Crise das relações entre filosofia da história e sociologia, crise da procura do ‘fator predominante’, crise do evolucionismo, crise do racionalismo social, crise da ‘compreensão’ que rejeita a explicação, crise do formalismo, crise do psicologismo à Pareto, à Freud e, mais recentemente, à Moreno, crise da relação entre a teoria sociológica e a investigação empírica em sociologia, avivando-se, segundo as características espirituais de Sorokin (1), em testomania e quantofrenia … Importa, sobretudo aqui, insistir no fato de todas as crises em sociologia, independentemente da sua correspondência com as crises sociais às quais serviam de réplicas, sempre se reportarem ao problema da explicação: ou que se tenha pretendido explicar demasiado, ou que se tenha dado explicações falsas, ou se reduzisse em demasia a explicação a favor de uma simples constatação, ou, enfim – como nas investigações empíricas de hoje, sobretudo nos Estados Unidos e entre os imitadores franceses dos americanos – tenha-se renunciado quase por completo à explicação, transformando, no melhor dos casos, a sociologia em sociografia” (idem, vol. II, pp. 525-526).
Aliás, conforme lembra Merton (1979, p. 149), cada geração de sociólogos tende “a identificar a sua época como um momento decisivo no desenvolvimento da disciplina, para melhor ou para pior”. Em certos casos, no entanto, a crise pode ser real, relativa a problemas de explicação, impasses teóricos. Inspirado nas reflexões de Kuhn, sobre “ciência normal” e “revoluções científicas”, Merton chama a atenção dos sociólogos para problemas de cunho epistemológico. “Os aspectos da sociologia que supostamente fornecem os sinais e sintomas da crise são de natureza familiar – uma mudança e choque da doutrina acompanhadas de uma tensão aprofundada, é algumas vezes conflito exaltado, entre os praticantes do ofício. O choque implica a forte reivindicação de que os paradigmas existentes são incapazes de resolver os problemas que deveriam, em princípio, ser capazes de resolver” (idem, ibidem) (2).
A controvérsia sobre os clássicos e os contemporâneos, em certos casos, envolve a tese de que a sociologia é uma ciência pouco amadurecida. A importância dos textos clássicos e a freqüente volta a eles seriam indícios de imaturidade, ciência em formação, ainda não constituída, pré-paradigmática. Dada essa imaturidade e, portanto, a reduzida incorporação daqueles textos ao corpos teórico da sociologia, os sociólogos contemporâneos são obrigados a voltar continuamente a eles. Por isso, diz Merton, a sociologia reluta em abandoná-los. Todo sociólogo precisa demonstrar um conhecimento de primeira mão daqueles que deixaram a sua marca na sociologia.
“Embora o físico, enquanto físico, não precisa apoiar-se no Principia de Newton, ou o biólogo, enquanto tal, na leitura e releitura de A Origem das Espécies de Darwin, o sociotógo, enquanto sociólogo antes do que historiador da sociologia, tem ampla razão para estudar as obras de Weber, Durkheim e Simmel e, pelo mesmo motivo, voltar ocasionalmente às obras de Hobbes, Rousseau, Condorcet ou Saint-Simon. . . Os dados mostram que a física e a biologia têm em geral sido mais bem-sucedidas do que as ciências sociais ém recuperar o conhecimento acumulado e relevante do passado e incorporá-lo às formulações subseqüentes. Este processo de enriquecimento pela absorção é ainda raro na sociologia. Como resultado, informações que não foram previamente recuperadas estão ainda lá, para serem empregadas de forma adequada, como novos pontos de partida” (Merton, 1967, pp. 34-35).

O argumento parece forte, mas sustenta-se pouco.

Primeiro, está baseado na idéia de que a sociologia deveria pautar-se pelo modelo “paradigmático” das ciências naturais. Um argumento de origem positivista, renovado com o neopositivismo. Supõe que a lógica do conhecimento científico é única. E que dada ciência social se constitui e amadurece na medida em que atinge os níveis alcançados pelas mais desenvolvidas, no caso as naturais, ou a física, a biologia. Essa é apenas uma posição no âmbito das reflexões sobre epistemologia. Há outras e bastante elaboradas. As conquistas científicas realizadas por Weber e Simmel, Marx, Lukács e Gramsci, Horkheimer, Adorno e Marcuse, Habermas e Gadamer, além de outros, abrem diferentes horizontes para a epistemologia das ciências sociais, e não apenas para a sociologia. As diferenças entre ciência natural e ciência social são essenciais e irreversíveis. Salvo o positivismo, que informa algumas tendências do funcionalismo, estrutural-funcionalismo e estruturalismo, a dialética hegeliana e marxista, bem como as diversas orientações da fenomenologia, estabelecem nítidas diferenças entre ciência da natureza e ciência social. Em termos epistemológicos, a sociologia e as outras ciências sociais não podem prescindir da compreensão, da explicação compreensiva. As possibilidades da pesquisa, experimentação, descrição e explicação, abertas pela ciência da natureza, pouco servem para o estudo da realidade social. O conceito, categoria, lei de causa e efeito, lei de tendência, condição de possibilidade ou previsão somente se constituem na medida em que apanham, codificam, taquigrafam as singularidades e universalidades envolvidas nas configurações e nos movimentos da realidade social.
Segundo, há o aspecto propriamente ontológico da questão. O objeto da sociologia, bem como das outras ciências sociais, envolve o indivíduo e a coletividade, as relações de coexistência e seqüência, diversidades e antagonismos. Diz respeito a seres dotados de vontade, querer, devir, ideais, ilusões, consciência, inconsciente, racionalidade, irracionalidade. Os fatos e acontecimentos sociais são sempre materiais e espirituais, envolvendo relações, processos e estruturas de dominação ou poder, e apropriação ou distribuição. Implicam indivíduos, famílias, grupos, classes, movimentos, instituições, padrões de comportamento, valores, fantasias. Esse é o mundo da liberdade e igualdade, trabalho e alienação, sofrimento e resignação, ideologia e utopia.
Terceiro, a sociedade burguesa, industrial, capitalista, moderna ou informática, modifica-se ao longo do tempo. Mas guarda algumas características essenciais. É diferente e mesma. No começo, falava-se no “individualismo possessivo”, descoberto pela economia clássica e os primeiros pensadores sociais interessados em explicar a emergência e o tecido da sociedade civil. Em fins do. século XX, fala-se no “individualismo metodológico”, acompanhado da “escolha racional”: duas descobertas das ciências sociais nos tempos da modernidade, compreendendo o marginalismo hedonista, o neoliberalismo e o marxismo analítico. O dilema indivíduo e sociedade continua a ser essencial, se queremos entender a trama das relações sociais, os espaços da liberdade, as condições da opressão. O mundo formado com a sociedade moderna, industrial, capitalista não é o mesmo nos séculos XIX e XX. Modificou-se substancialmente, está informatizado. Os meios de comunicação, em sentido amplo, revolucionaram as condições de produção, distribuição, troca e consumo, em termos materiais e espirituais. As burocracias públicas e privadas ampliaram muito o seu raio de ação, influência, indução. Tudo mudou. Mas muita coisa subsiste, ainda que recriada, necessariamente recriada. Em essência, a sociedade moderna, burguesa, informática baseia-se em alguns princípios que se reiteram ao longo da história. Nem a ciência nem a técnica, ou informática, alteraram a natureza essencial das relações, processos e estruturas de apropriação ou distribuição, de dominação ou poder. No limiar do século XXI, guardam-se aspectos essenciais do século XIX: liberdade e igualdade, trabalho e alienação, sofrimento e resignação, ideologia e utopia. “A ausência de espírito, característica da ‘modernidade racionalizada, não é apenas refletida nas páginas finais de A ética Protestante de Weber; é criada por ele. Para entender a modernidade racionalizada, não se pode apenas observá-la: precisa-se voltar ao trabalho pioneiro de Weber, a fim de apreciá-lo e experienciá-lo outra vez. Semelhantemente, o que é opressivo e sufocante na modernidade não será nunca suficientemente formulado como em O Homem Unidimensional de Marcuse” (Alexander, 1987a, 1987b). Ocorre que alguns clássicos revelam de forma particularmente exemplar, privilegiada, visionária, não só o que viram, mas também o que vemos. Em seu tempo, Weber dizia que “o mundo em que espiritualmente existimos é um mundo assinalado, em grande parte, pelas marcas de Marx e Nietzsche” (Weber, citado por Josyr-Kowalski, 1971, p. 264). Ocorre que o mundo que Weber conheceu ainda tinha muito daquele que Marx e Nietzsche haviam conhecido. Da mesma maneira que a modernidade racionalizada, revelada por Weber, tem muito da modernidade opressiva e sufocante revelada por Marcuse.
Teoria e paradigma Há momentos lógicos da reflexão sociológica sem os quais o ensino e a pesquisa contemporâneos dificilmente poderiam se desenvolver. Estes são alguns desses momentos: aparência e essência, parte e todo, singular e universal, sincrônico e diacrônico, histórico e lógico, passado e presente, sujeito e objeto, teoria e prática. É claro que a reflexão científica pode basear-se maiormente em alguns, deixando outros em segundo plano: Nem sempre a monografia e o ensaio mobilizam todos. Entretanto, necessariamente mobilizam alguns. Dizem respeito à razão científica. Caso contrário, o produto da atividade intelectual corre o risco de ficar no meio do caminho, realizar-se apenas como descrição, folclorização, ideologização. Ou apresentar-se como sucedâneo da ficção, nem sempre com. talento artístico.
Um dos requisitos lógicos fundamentais da interpretação na sociologia diz respeito à historicidade do social. O contraponto passado e presente é essencial, se se trata de explicar ou compreender a realidade social. Toda interpretação que perde, minimiza ou empobrece o momento do real, sacrifica uma dimensão básica desse mesmo real. Esta é uma conquista importante do pensamento sociológico e das outras ciências sociais. A realidade social é um objeto em movimento. As suas configurações estáveis, normais, estáticas, sincrônicas representam momentos, sistemas, estruturas da mudança, dinâmica, modificação, transformação, historicidade, devir.
Precisamente aí está uma das limitações de algumas teorias sociológicas contemporâneas. Não levam em conta essa conquista do pensamento sociológico. Em busca de novas linguagens e da redefinição do objeto da sociologia, sacrificam as tensões diacrônicas do real. Imaginam que as configurações sincrônicas resolvem a diacronia, captando o momento do real, perdendo o movimento do real.
Uma parte da controvérsia sobre paradigmas clássicos e contemporâneos passa pelo problema da historicidade da realidade social. Entre os contemporâneos, são freqüentes as propostas teóricas que simplesmente abandonam ou empobrecem a perspectiva histórica. Como se fosse possível eliminar das relações, processos e estruturas de dominação e apropriação os seus movimentos e as suas tensões. Como se a realidade social pudesse sempre resolver as- suas diversidades, desigualdades e antagonismos no âmbito das configurações sincrônicas. Como se o real não estivesse essencialmente atravessado pela relação de negatividade. Daí a imagem abstrata, rarefeita, cerebrina que transparece em estudos como os do estrutural-funcionalismo de Parsons.
“A idéia-chave dessa teoria, como o leitor deve estar lembrado, é o ponto de vista de que para toda sociedade existe certo número limitado de atividades necessárias, ou ‘funções’, tais como a obtenção de alimento, o adestramento da próxima geração etc. e um número igualmente limitado de ‘estruturas’, ou maneiras pelas quais a sociedade pode ser organizada para realizar essas funções. Em essência, a teoria estrutural-funcionalista busca os elementos básicos da sociedade humana, abstraída de tempo e lugar, junto com as regras de combinação desses elementos. Dá a impressão de procurar algo na sociedade humana correspondente à tábua periódica dos elementos na química” t Moore, 1972) (3).
Esse é um ponto essencial no debate sobre aspectos ontológicos e epistemólógicos da sociologia. Trata-se de aperfeiçoar e desenvolver a teoria sociológica, sem perder a dimensão histórica da realidade social. A influência de paradigmas emprestados das ciências físicas e naturais tem levado certos sociólogos a uma espécie de pasteurização da realidade social, o que evidentemente se expressa no conceito, na interpretação. “No presente a sociologia está dominada por uma espécie de abstração, dando a impressão de que lida com objetos isolados, em estado de repouso. Mesmo o conceito de mudança social é freqüentemente usado como se referido a um estado fixo. Pode-se dizer que se é forçado a ver o estado de repouso como normal; e o movimento como um caso especial” (Elias, 1978).
O declínio da perspectiva histórica é algo relativamente generalizado na sociologia e no pensamento social contemporâneos. Um processo que já se havia manifestado incipiente no positivismo de Comte, bem como na economia política vulgar, acentua-se posteriormente e parece expandir-se bastante nos tempos atuais. “Um crescente ‘cansaço da história’ caracteriza, ao menos no Ocidente, a segunda metade do século XX. As técnicas de pesquisa da ciência social atual, extremamente refinadas, e orientadas em um sentido quantitativo, deslocam cada vez mais o pensamento histórico do lugar que ocupava no âmbito da Ilustração e do idealismo alemão, em Dilthey, nas tradicionais ciências do espírito, na filosofia da vida e também na filosofia da existência” (Schmidt, 1973, p. 13).
Aos poucos, as tecnologias da pesquisa, matemáticas, informáticas, invadem o objeto e o método da sociologia. A modernização da atividade científica, com base na institucionalização, burocratização, industrialização, formação de equipes numerosas de seniors e juniors, trabalhando com equipamentos eletrônicos, informáticos e matemáticos, provoca alterações na definição do objeto e das condições lógicas e teóricas da interpretação. “A desintegração das ciências humanas tem a sua origem, no fundo, em uma ilusão perseguida com metódica obsessão, que consiste em crer na possibilidade de fugir, do contexto consciente da história humana e das suas sempre renovadas decisões valorativas e de poder, para a a-historicidade das fórmulas matemáticas” (H. Luthey, citado por Schmidt, idem, pp. 13-14).
Aqui, cabe lembrar o que já havia sido posto por Hegel e retomado várias vezes, mais tarde, nas controvérsias sobre quantidade e qualidade. A indução quantitativa não participa do objeto, não faz parte dele, é exterior. Apanha estruturas externas ao ser social. “Em outras palavras, a verdade acerca de objetos matemáticos existe fora deles, no sujeito do conhecimento. Esses objetos, portanto, são, em sentido estrito, não-verdadeiros, entidades inessenciais externas” (Marcuse, 1978, pp. 101-102) (4).
São vários os problemas epistemológicos que precisariam ser melhor examinados, se quiséssemos esclarecer mais a controvérsia sobre a crise de paradigmas na sociologia. Além dos já analisados, em forma breve, cabe lembrar o da relação sujeito-objeto do conhecimento. Na sociologia, essa é sempre uma relação complexa, com sérias implicações quanto ao objeto e método. As diversas perspectivas teóricas mostram que a relação sujeito-objeto nem sempre se resolve numa tranqüila relação de exterioridade, como se o real e o pensado se mantivessem incólumes. Essa é uma hipótese do positivismo e está presente no funcionalismo, estruturalismo, estrutural-funcionalismo e outras teorias. Mas a sociologia inspirada na fenomenologia sempre carrega a hipótese da cumplicidade. A redução fenomenológica e a hermenêutica tendem a tornar ambos cúmplices do conhecido, objeto e sujeito. Ao passo que a sociologia de inspiração dialética, se pensamos em Marx, Lukács, Gramsci e alguns outros, leva à hipótese da dependência mútua, da reciprocidade. O sujeito e o objeto constituem-se simultânea, reciprocamente. A reflexão científica pode corresponder a um momento fundamental da constituição do real. Enquanto não se constitue como categoria, concreto pensado, pleno de determinações, o real está no limbo.
São vários os momentos lógicos da reflexão sociológica, se pensarmos em termos de aparência e essência, parte e todo, singular e universal, qualidade e quantidade, sincrônico e diacrônico, histórico, e lógico, passado e presente, sujeito e objeto, teoria e prática. Mas as teorias não os mobilizam sempre nos mesmos termos de modo similar, homogêneo. Aliás, as teorias distinguem-se, entre outros aspectos, precisamente porque conferem ênfase diversa aos momentos lógicos da reflexão. Há conceitos sociológicos que são comuns a várias teorias. As vezes, o objeto é concebido de maneira semelhante. Mas a interpretação pode não ser precisamente a mesma. E quando a interpretação se revela diversa, logo se constata que a importância relativa dos momentos lógicos da reflexão não é exatamente a mesma. Nesse sentido é que as teorias podem ser mais ou menos distintas, distantes ou opostas.
Princípios explicativos Entretanto, a multiplicidade das teorias não implica, necessariamente, a multiplicidade de epistemologias. É possível supor que dada epistemologia pode fundamentar diferentes propostas teóricas. Aliás, quando buscamos os princípios epistemológicos em que se fundam as teorias, verificamos que dada epistemologia parece fundamentar diversas teorias. É nesse sentido que Elster (1989, p. 181) sugere existirem basicamente “três tipos principais de explicação científica: a causal, a funcionalista e a intencional”. São os paradigmas, ou princípios, que sintetizam as possibilidades de explicação científica. Afirma Elster que a abordagem causal é comum a todas as ciências, naturais e sociais; diz que a explicação funcionalista não tem cabimento nas ciências sociais, pois se baseia em uma analogia equívoca, retirada da biologia. E acrescenta que, nas ciências sociais, as explicações podem ser baseadas na “causalidade intencional”, com variações, conforme se trate de processos internos aos indivíduos ou processos relativos à interação entre indivíduos. “As ciências sociais usam extensamente a análise intencional, no nível das ações individuais. A análise funcionalista, entretanto, não tem lugar nas ciências sociais porque não existe analogia sociológica à teoria da seleção natural. O paradigma adequado para as ciências sociais é uma explicação causal-intencional mista – compreensão intencional das ações individuais e explicação causal de suas interações” (idem, ibidem) (5).
Podemos discordar de alguns aspectos da “filosofia da ciência”, ou “paradigma”, que Elster está propondo para as ciências sociais. Mas não há dúvida de que ele põe o problema básico: alguns paradigmas fundamentam múltiplas teorias.
As teorias sociológicas do passado e presente organizam-se, em última instância, com base em princípios explicativos fundamentais. É verdade que há variações, convergências, nuanças, divergências. Mas predominam alguns princípios, constituindo os fundamentos dos paradigmas conhecidos na sociologia.
Uma relação das teorias sociológicas, passadas e presentes, naturalmente incluiria evolucionismo, positivismo, funcionalismo, marxismo; compreensivo ou típico ideal, hiperempirismo dialético, neofuncionalismo, estruturalismo, estrutural-funcionalismo, teoria da troca, teoria do conflito, interacionismo simbólico, fenomenologia, etnometodologia, hermenêutica, sociologia da ação social ou acionalista, teoria do campo sociológico, teoria da estruturação, sociologia sistêmica, individualismo metodológico, teoria crítica da sociedade e outras. São teorias distintas ou aparentadas. Dialogam entre si, mas também se opõem e contrapõem. Implicam diferentes noções do objeto, apesar do acordo mais ou menos geral sobre o que é o social. Baseiam-se em diferentes métodos de interpretação, envolvendo a explicação, a compreensão, a explicação compreensiva. Lidam com os momentos lógicos da reflexão de forma peculiar, priorizando uns em lugar de outros. Certas teorias possuem cunho histórico, ao passo que outras focalizam a realidade em termos supra-históricos. E há as que se mostram simplesmente a-históricas. Também a relação sujeito-objeto é diferenciada, polarizando-se em três modalidades principais: exterioridade, cumplicidade e reciprocidade.
Mas é possível dizer que as teorias sociológicas do passado e presente organizam-se, em última instância, com base em princípios explicativos tais como: evolução, causação funcional, estrutura significativa, redução fenomenológica, conexão de sentido e contradição. Neste ponto é que a controvérsia sobre os paradigmas precisaria demorar-se mais. Aí, o debate sobre a crise de paradigmas na sociologia tem muito a realizar, se quer elucidar os fundamentos da questão.
Note-se que a noção de paradigma compreende uma teoria básica, uma fórmula epistemológica geral, um modo coerente de interpretar ou um princípio explicativo fundamental. Envolve requisitos epistemológicos e ontológicos, caracterizando uma perspectiva interpretativa, explicativa ou compreensiva, articulada, internamente consistente. Na linguagem da sociologia, um paradigma compreende a articulação dos momentos lógicos essenciais da reflexão: aparência e essência, parte e todo, singular e universal, sincrônico e diacrônico, quantidade e qualidade, histórico e lógico, passado e presente, sujeito e objeto, teoria e prática. São momentos lógicos que se traduzem interpretativamente em evolução, causação funcional, estrutura significativa, redução fenomenológica, conexão de sentido e contradição.
É claro que essa noção de paradigma deixa de lado a acepção sociológica, ou melhor, sociologística, que privilegia o conjunto de hábitos comuns aos que se dedicam ao ensino e pesquisa, as codificações estabelecidas em manuais, os laços institucionais e o jargão próprio de cada grupo de sociólogos reunidos em centros, institutos, departamentos ou outros lugares. Naturalmente, esta acepção apresenta algum interesse, se queremos conhecer as condições sociais, políticas, ideológicas, institucionais, materiais e técnicas de produção e reprodução do conhecimento científico. Mas não é suficiente, se queremos elucidar questões relativas ao objeto e método da sociologia (Masterman, 19?9, pp. 72-108; Barnes, 1986; Ribeiro dos Santos, 1979; Boudon, 1977).
Vejamos alguns exemplos nos quais podemos clarificar um pouco mais as relações entre teoria e paradigma.
Merton dedica-se bastante ao funcionalismo e pode ser considerado o principal teórico do que poderíamos denominar neofuncionalismo. Está preocupado com o paradigma, enquanto codificação da teoria, dos requisitos fundamentais da explicação sociológica. Propõe “um paradigma para a análise funcional na sociologia” (Merton, 1951, cap. I, e 196?, cap. II). Essa é uma contribuição importante, na qual conceitos e procedimentos lógicos são precisados, aprimorados. É inegável a contribuição de Merton para a teoria. Entretanto, cabe perguntar se a sua teoria funcionalista inaugura propriamente um paradigma, ou apenas dá continuidade e inova outro já disponível. Haveria diferenças essenciais entre os paradigmas de Merton e Durkheim ou seriam complementares? Em outros termos, há principalmente continunidades entre As Regras do Método Sociológico de Durkheim e “Funções Manifestas e Latentes” do livro Teoria Social e Estrututra Social de Merton. São muito fortes as evidências de que Merton efetivamente repõe, retoma e desenvolve, em outra linguagem, o paradigma formulado por Durkheim. Se falarmos em teorias, supondo que Merton e Durkheim são autores de duas teorias sociológicas, podemos admitir que ambas se inspiram no mesmo princípio explicativo, de causação funcional. A despeito do seu empenho em formalizar um paradigma neofuncionalista, parece evidente que reitera o princípio de causação funcional codificado por Durkheim. Princípio esse que já havia sido retomado por Malinowski, Radcliffe-Brown e outros. Naturalmente, realiza contribuições da maior importância quando elabora as noções de função manifesta e função latente; quando se empenha em demonstrar que o funcionalismo não implica, necessariamente, uma visão conservadora da realidade social. Mas nem muda nem corrige, apenas aperfeiçoa o paradigma codificado anteriormente por Durkheim em seus estudos metodológicos e em suas monografias. Um paradigma com muita influência no pensa- mento sociológico, presente em várias teorias sociológicas contemporâneas (Fernandes, 1959, parte III; Gouldner, 1970).
Um raciocínio semelhante pode ser feito a propósito de Gramsci, no contraponto com Marx. É claro que aí também há invenções a considerar. A linguagem de Gramsci é outra. Contém menos economia política, outra história. Gramsci elabora as categorias de hegemonia, bloco de poder, intelectual orgânico e outras. É o autor de uma teoria razoavelmente articulada, consistente, compreendendo também classes subalternas, guerra de posição e guerra de movimento, Ocidente e Oriente. Em uma comparação com a de Marx, fica logo evidente que são duas, com semelhanças e diferenças. Entretanto, o paradigma é, em essência, o mesmo. Ambas as teorias apóiam-se no princípio da contradição, que funda um paradigma (Coutinho, 1981; Macciocchi, 1976).
Aliás, cabe reconhecer que há diálogos, implícitos e explícitos, entre representantes de diferentes paradigmas. Indicam problemas metodológicos merecedores de atenção. Permitiriam ilações. Ao analisar a divisão do trabalho social como um processo relativo ao conjunto da sociedade, compreendendo aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais, Durkheim leva a noção de anomia bastante próxima à de alienação, formulada por Marx. O próprio conceito durkheimiano de divisão do trabalho, por suas especificidades e abrangências, lida com problemas que também haviam atraído a atenção de Marx, quando se referia às dimensões singulares, particulares e gerais desse processo social abrangente, de alcance histórico. Também Weber e Marx encontram-se algumas vezes. Conforme sugere o próprio Weber, “todas as leis e construções do desenvolvimento histórico especificamente marxistas possuem um . caráter de tipo-ideal, na medida em que sejam teoricamente corretas” (Weber, 1979, pp. 79-127). O diálogo continua. Na sociologia contemporânea, os mesmos Weber e Marx, passando por Lukács, são indispensáveis se queremos compreender algumas das teses básicas da teoria crítica da sociedade, formuladas por Horkheimer, Adorno e Marcuse.
O problema pode ser colocado assim: as teorias sociológicas contemporâneas lidam com alguns princípios explicativos fundamentais, comtìns. Estes têm sido elaborados por sociólogos; cientistas sociais e filósofos na época dos clássicos, na transição do século e contemporaneamente. As teorias multiplicam-se. Há contínuas criações quanto ao objeto e método, conceitos e interpretações, temas e linguagens. Em certos casos, ocorre a reiteração de princípios explicativos, aperfeiçoados ou não; ao passo que, em outros, verifica-se algo de novo: a invenção paradigmática.
Vista assim, em alguns dos seus aspectos relevantes, a controvérsia sobre paradigmas, bem como teorias e paradigmas, ajuda a explicitar determinadas singularidades da sociologia como ciência social. São singularidades do maior interesse, por suas implicações epistemológicas e ontológicas. Vejamos quais são, em modo breve.
Primeiro, a sociologia pode ser considerada uma ciência que se pensa criticamente, todo o tempo. O sociólogo tanto produz interpretações substantivas como assume e desenvolve as suas contribuições, dúvidas, polêmicas. Há um debate metodológico freqüente não só nas entrelinhas e notas, mas também em escritos básicos de sociólogos das mais diversas tendências, passados e contemporâneos. Em boa medida, as polêmicas sustentadas por Marx, Durkheim, Weber, Lukács, Gramsci, Wright Mills, Gouldner, Barrington Moore Jr., Gurvitch, Merton., Adorno, Popper, Habermas e outros têm algo, ou muito, a ver com o marxismo. E retomam ou iniciam discussões da maior importância sobre o objeto e o método da sociologia.
Segundo, cabe reconhecer que o objeto da sociologia é a realidade social em movimento, formação e transformação. Essa realidade é alheia e interna à reflexão. O objeto e o sujeito do conhecimento distinguem-se e confundem-se. Há todo um complexo exorcismo em toda interpretação, explicação ou compreensão dessa reálidade. Ela é um ser do qual o sujeito participa, em alguma medida, pelo universo de práticas, valores, ideais, fantasias. Simultaneamente, é um ser em movimento, modificação, devir; revolução. Desafia todo o tempo o pensamento, como algo conhecido e incógnito, transparente e opaco. Estava no passado e está no presente, -mesmo e diferente.
Terceiro, a sociologia é uma forma de autoconsciência científica da realidade social. Tem raízes nos impasses; problemas, lutas e ilusões que desafiam os indivíduos, grupos, classes, movimentos, partidos, setores, regiões e a sociedade como um todo. É claro que as fórmulas dos sociólogos são individuais. Há aqueles que reconhecem alguma, ou muita, relação entre as suas reflexões e o jogo das forças sociais, grupos, classes etc. Toda produção sociológica aparece identificada com um nome, autor, escola, instituição, centro, instituto. Mas a sociologia do conhecimento já avançou o suficiente para revelar, a uns e outros, que o pensamento sociológico guarda uma relação complexa e essencial com as condições de existência social, ou configurações sociais de vida, de setores, grupos, classes ou a sociedade como um todo. E quando se torna possível reunir produções sociológicas de orientação teórica semelhante, logo resulta a idéia de estilo de pensamento, ou visão do mundo.
Quarto, o desafio permanente e reiterado diz respeito à relação entre ciência e arte, teoria e técnica, conhecimento e poder ou teoria e prática. O pensamento sociológico clássico, da passagem do século e contemporâneo, sempre tem algo a ver com a prática, tanto em sua origem como em seu destino. Daí o longo debate sobre a busca da isenção, neutralidade, distanciamento ou vocação da sociologia. Esse é um desafio permanente na história do pensamento sociológico. Está no centro da polêmica contemporânea simbolizada nos escritos de Adorno e Popper. “A controvérsia que divide hoje positivistas e dialéticos refere-se, sobretudo em seu núcleo, às finalidades práticas do estudo, a seus respectivos interesses em modificar a realidade social, que é o que orienta os seus trabalhos teóricos e o que determina, no fundo, as suas metodologias diferentes” (Baier, 1969, p. 12).
Quinto, na sociologia, o sujeito do conhecimento é individual e coletivo. O sociólogo naturalmente dispõe de todas as condições para estabelecer o seu objeto de estudo. É evidente o estilo pessoal do autor no escrito, na interpretação. Mas uma leitura mais atenta logo indicará o diálogo, o engajamento, a reciprocidade, implícita ou explicitamente, do autor com este ou aquele setor social, grupo, instituição, classe, movimento, partido, corrente de opinião pública, sociedade. São freqüentes as obras de sociologia que expressam um autor e uma configuração, um eu e um nós, um sujeito simultaneamente individual e coletivo do conhecimento. É daí que nasce o pathos de algumas obras fundamentais da sociologia.
Notas

1 – Ver, a respeito, Sorokin (1956), especialmente os capítulos 4 e 7 (N. do Ed.).
2 – Note-se que algumas reflexões de Merton sobre paradigmas na sociologia estão inspiradas em Kuhn.
3 – Consultar também, a esse respeito, Mills (1975). 4 – Ver, também, a respeito, Mannheim (1953) e Blumer (1956).
5 – O mesmo problema é examinado por Elster (1979).

Uma “sociologia crítica do conhecimento”

Uma “sociologia crítica do conhecimento”: Michael Löwy e sua proposta de sociologia do conhecimento
Rodrigo Bischoff Belli
Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM)
Resumo: Este texto vem apresentar o resultado de uma série de leituras iniciais sobre o estudo dos limites de uma sociologia do conhecimento de influência marxista. Para tal empreitada, toma-se como ponto de partida, e objeto da análise deste artigo, alguns textos do sociólogo Michael Löwy sobre o assunto. Sua escolha foi definida pelo tratamento crítico específico que o autor aplica à tradição sociológica referente aos estudos sobre a atividade do conhecimento, partindo das premissas do materialismo histórico-dialético.
Palavras-chave: Marxismo, Sociologia do Conhecimento, Michael Löwy
Apresentação
As ciências humanas, e em especial as ciências sociais, se caracterizam como um campo científico distinto dos demais devido a ênfase atribuída ao subjetivismo – embora nem sempre seja reconhecido desta forma, até mesmo em seu interior. Subjetividade esta determinada pela relação particular entre sujeito e o objeto. Ao contrário do que ocorre em outras ciências, o cientista social, ao estudar um determinado fenômeno, é capaz de conceituá-lo e abstraí-lo a ponto de relacionar essa experiência ao seu modo de vida, proporcionando, em maior ou menor grau, uma reflexão crítica de sua posição na sociedade. Ocorre também a situação de que o objeto estudado é consciente e capaz de estabelecer uma relação mais complexa com o cientista do que nas outras ciências; um grupo social que não concordasse com aquilo que um cientista escrevesse sobre eles, mesmo que ele estivesse correto, exerceria, certamente, uma coerção maior sobre o pesquisador do que qualquer outro objeto das ciências naturais sobre o pesquisador desta área.[1] Dada essa situação específica entre sujeito e objeto do saber, caberia definir qual é relação entre os valores do pesquisador e a produção do conhecimento? Traçados esses limites, qual seria então o método mais adequado, aquele que proporcionaria uma melhor compreensão da realidade social? Estas são as questões que norteiam a análise de Löwy na formulação de uma metodologia própria às ciências humanas e na elaboração de uma “sociologia crítica do conhecimento” (LÖWY, 1994, p. 9).
A tese geral de Löwy é desenvolvida pelo próprio autor através da análise e síntese de três correntes específicas dentro das ciências sociais – positivismo, historicismo e marxismo – que proporcionaram os paradigmas epistemológicos e metodológicos para os estudos sobre a construção social do conhecimento, distinguindo-se, assim, do tratamento dado pela filosofia a este objeto até então. Löwy descreve os determinantes históricos de cada corrente, ou seja, quais as condições históricas que proporcionaram o surgimento, a reprodução e a superação de cada maneira de pensar. Sua tese geral é formada por três aspectos:
Primeiro: o objeto das ciências sociais é completamente distinto do das ciências naturais, pois que ele está diretamente ligado, em maior ou menor grau, a vida do pesquisador. A eficácia de compreensão do objeto aumenta a medida que o pesquisador conhece os determinantes sociais de seu pensamento, ao contrário do que pensam os adeptos da neutralidade científica.
Segundo: essa posição distinta da dos outros cientistas evidencia o caráter político da atividade do pesquisador social. Por mais que ele tente manter uma posição de resguardo com relação ao restante da sociedade, o produto de seu trabalho provoca uma série de reações dentro da mesma.
Terceiro: dado o caráter histórico da construção e reprodução do saber, que legitima uma certa forma de dominação social que se apresenta incoerente e destrutiva, aliado ao reconhecimento da posição intervencionista do cientista na sociedade, é possível conceber a existência de um ponto de vista calcado nas relações sociais capaz de fornecer uma melhor compreensão do real. Conseqüentemente, abriria a possibilidade da adoção de uma prática transformadora da realidade mais eficaz.
Apresentamos agora como Löwy desenvolve sua análise.
A recusa do modelo científico-natural de objetividade às ciências sociais
Um dos fundamentos da tese de uma sociologia crítica do conhecimento é a de que não se pode utilizar nos estudos das ciências sociais a mesma metodologia de análise aplicada aos fenômenos naturais. Os fenômenos sociais apresentam uma série de especificidades que inviabilizam a aplicação do modelo científico-natural de objetividade pelas ciências sociais.
Segundo Löwy, o método de observação adequado às ciências sociais deve reconhecer que seu objeto de estudo possui um caráter histórico, ou seja, suscetível de transformação pela ação humana (LÖWY, 1978, p. 15). Também deve ser observado que a relação entre sujeito e objeto do conhecimento é completamente parcial. Disto, apreende-se que o objeto de estudos do pesquisador social se apresenta como parte atuante de sua vida, levando-o a perceber que a análise que ele empreende não é apenas do objeto em si, mas de sua relação com aquele e dos dois com o restante da sociedade. A atividade científica não se apresenta como uma esfera dissociada do restante da atividade social; os problemas vividos pelo cientista em sua relação com as várias determinações de sua existência influenciam na maneira como ele analisa e compreende o seu objeto, assim como na maneira como o conhecimento é utilizado. O conhecimento produzido pelas ciências sociais é, pois, definido, em grande medida, pela visão de mundo da classe social da qual o cientista pertence:
A realidade social, como toda a realidade, é infinita. Toda ciência implica uma escolha, e nas ciências históricas essa escolha não é um produto do acaso, mas está em relação orgânica com uma certa perspectiva global. As visões do mundo das classes sociais condicionam, pois, não somente a última etapa da pesquisa científica social, a interpretação dos fatos, a formulação das teorias, mas a escolha mesma do objeto de estudo, a definição do que é essencial e do que é acessório, as questões que colocamos à realidade, numa palavra, a problemática da pesquisa (LÖWY, 1978, p. 15, grifo do autor).
A posição metodológica defendida por Löwy vai de encontro às concepções metodológicas positivistas, em suas diversas variações históricas. Tanto naquilo que poderíamos identificar como positivismo clássico, ligado às figuras de Auguste Comte e Èmile Durkheim, quanto em autores não positivistas que, apesar de seus discursos, não superaram certos paradigmas dessa corrente, caso de Max Weber. Vejamos rapidamente as características principais indicadas por Löwy de cada variação positivista.
O positivismo clássico adota uma postura de homogeneidade epistemológica entre ciências naturais e sociais (LÖWY, 1978, p. 10). Em outras palavras, significa que os objetos de ambas as ciências são concebidos como se possuíssem as mesmas características, exigindo do cientista social o mesmo método e a mesma postura do cientista que se encarrega de estudar os fenômenos naturais. Com esta concepção, deixa-se de lado a constatação de que o cientista é, apesar de suas especificidades psicológicas e sociológicas, um ser social como outro qualquer, e que, portanto, suas paixões e preconceitos estão intimamente vinculados com o produto de seu trabalho.
O caso de Max Weber é curioso. Este autor clássico da sociologia supera os autores positivistas ao considerar a necessidade de uma metodologia própria às ciências sociais, dada a constatação de que os fenômenos estudados por este ramo do conhecimento possuem características diversas às dos outros ramos científicos, em especial no que tange a problematização do estudo.
Weber reconhece que os valores do observador, nas ciências sociais, desempenham um papel destacado na seleção do objeto da pesquisa científica, na determinação da problemática [...]. Mas ele assinala que as respostas fornecidas, a pesquisa mesma [...], devem estar livres de qualquer valoração[...] (LÖWY, 1978, p. 14, grifo do autor).
Entretanto, Weber ainda admite a necessidade, própria da atividade científica, de que a análise e a exposição do objeto devem ser os mais livres possíveis de juízos de valor. Isso porque o papel do cientista é o de esclarecer os fatos, e não o de mudar os rumos do mundo, atributo próprio do sujeito político.
É interessante observar o que pronunciou o próprio Weber em duas palestras que se transformaram em textos sobre ciência e política como vocações distintas (Cf. WEBER, 1999). Inicialmente, ele afirma que “só aquele que se coloca pura e simplesmente ao serviço de sua causa possui, no mundo da ciência, ‘personalidade’” (WEBER, 1999, p. 27, grifo do autor). Porém, o entusiasmo e a paixão provindos da causa do pesquisador parecem ser nocivos em outro momento do texto:
Costuma-se dizer, e eu concordo, que a política não tem seu lugar nas salas de aulas das universidades. [...] Com efeito, uma coisa é tomar uma posição política prática, e outra coisa é analisar cientificamente as estruturas políticas e as doutrinas dos partidos (WEBER, 1999, p. 38).
Weber, por mais que aparente superar a posição positivista da eliminação dos pressupostos num primeiro momento, assimila na totalidade de sua metodologia a dicotomia entre ciência e política; mais precisamente, a dicotomia entre ciência e atividade social prática. Deste modo, tanto Weber quanto os outros positivistas não vislumbram a contradição existente em suas concepções: a saber, se o pesquisador orienta sua pesquisa a um determinado nível de isenção, não estaria ele predispondo si próprio e o objeto em questão a um roteiro de investigação determinado? Sim, ele estará. E é por isso que constituição de uma metodologia que promova uma maior eficácia de compreensão do real está, entre outras tarefas, na superação das contradições do ideário positivista.
A necessidade mediadora do relativismo
A negação da neutralidade científica pretendida pelo positivismo traz à tona a necessidade de se conceber um modelo de objetividade para as ciências sociais que leve em consideração a constatação de que todo conhecimento sobre o social “é relativo a uma certa perspectiva, orientada para uma certa visão social de mundo, vinculada a um ponto de vista de uma dada classe social em um momento histórico determinado (Standortgebundenheit)” (LÖWY, 1994, p. 204, grifo do autor). Cabe ressaltar, entretanto, que não se trata de um relativismo absoluto, que considera válida qualquer tentativa de explicação do mundo por acreditar que a objetividade do conhecimento seja puramente subjetiva[2]. O relativismo a que Löwy se refere reconhece que certas posições sociais, em determinados períodos históricos, são mais favoráveis à verdade objetiva do que outras. Qual seria, então, o ponto de vista de classe mais privilegiado epistemologicamente para o conhecimento da realidade social atual? Löwy busca a resposta analisando as concepções de Mannheim e dos chamados marxistas historicistas (Gramsci, Lúkacs, Goldmann e Bloch).
Mannheim reconhece o caráter relativo do conhecimento, tal como Löwy apresenta (LÖWY, 1998, p. 78-9). Entretanto, Mannheim considera que o marxismo, visão de mundo que originalmente aponta a relatividade do conhecimento, não fora capaz de desenvolver suas premissas epistemológicas entre os seus adeptos (MANNHEIM, 1982, p. 151). Aliás, nenhuma ideologia teria sido capaz de desenvolver essa atitude reflexiva. Constatação que leva Mannheim a conceber que todo o conhecimento produzido pela sociedade sobre ela mesma seria unilateral e fragmentado. Para uma compreensão mais eficaz da realidade seria necessária uma síntese de perspectivas, capaz de adequar os diferentes conhecimentos produzidos numa unidade coerente e dinâmica (MANNHEIM, 1982, p. 172-8).
A questão mais uma vez se coloca: quem faria esta síntese? Mannheim responde: os intelectuais; a intelligentsia sem vínculos. Antes ligados a uma determinada classe, os intelectuais teriam assumido uma nova posição social com o desenvolvimento da atividade científica, a ponto de reconhecerem a si próprios como uma classe.
[...] (existe) entre todos os grupos de intelectuais, um vínculo sociológico de unificação, ou seja, a educação, que os enlaça de modo surpreendente. A participação em uma herança cultural comum tende progressivamente a suprimir as diferenças de nascimento, status, profissão e riqueza, e a unir os indivíduos instruídos com base na educação recebida.
[...] o homem instruído é determinado, quanto ao seu horizonte intelectual, de múltiplas maneiras. Essa herança cultural adquirida sujeita-o à influência de tendências opostas na realidade social, enquanto a pessoa cuja orientação face ao todo não se processa em virtude da sua instrução, mas que participa diretamente no processo social de produção, tende simplesmente a absorver a Weltanschauung (visão social de mundo) desse grupo particular e a agir exclusivamente sob a influência das condições impostas por sua situação social imediata (MANNHEIM, 1982, p.180-1).
O que Mannheim não percebe, segundo Löwy, é que a posição dos intelectuais parece ser uma tentativa de conciliação do radicalismo do proletariado e do conservadorismo da burguesia. Um ponto de vista próprio da classe média, da pequena burguesia da qual boa parte dos intelectuais está ligada (LÖWY, 1998, p. 85). Os intelectuais, portanto, não estariam desvinculados das já existentes posições sociais. A ciência se apresenta mais uma vez, com contornos menos definidos do que no positivismo, como que distinta da atividade social.
Descartada a possibilidade de uma solução eclética para o problema do ponto de vista epistemologicamente privilegiado, Löwy busca no marxismo não positivista a resposta da questão.
Alguns marxistas consideram que o ponto de vista favorável ao conhecimento estaria vinculado à atividade revolucionária. Eles teriam deduzido isso de algumas passagens de Marx, que atenta como a burguesia foi capaz de colocar como históricas as instituições feudais outrora tachadas de eternas, mas que não conseguiu aplicar a sua crítica a suas próprias instituições, tarefa que caberia ao proletariado.
[...] vimos que os meios de produção e de troca que serviram de base à formação da burguesia foram gerados na sociedade feudal. Em certo estágio do desenvolvimento [...], as condições da propriedade feudal deixaram de corresponder às forças produtivas já desenvolvidas. Entravavam a produção em vez de a incrementarem. Transformaram-se em meros grilhões. Era preciso arrebentá-los, e assim sucedeu.
[...]
Diante de nossos olhos, desenrola-se um movimento análogo.
[...]
As armas que a burguesia usou para abalar o feudalismo voltam-se agora contra ela mesma (MARX & ENGELS, 2001, p.32-4).
Porém, essa tese nega a capacidade dos cientistas que adotam o ponto de vista conservador em produzir conhecimento objetivo. Não são raros os casos em que cientistas afinados ao status quo são mais perspicazes em reconhecer as contradições sociais do que aqueles que se colocam como revolucionários. Adotar essa tese é, em ultima ratio, ceder a solução eclética proposta por Mannheim.
O que deve ser percebido de leituras mais atentas dos textos marxianos e marxistas é a “especificidade do ponto de vista do proletário com relação ao das classes revolucionárias do passado” (LÖWY, 1994, p. 207, grifo do autor). Ao contrário da burguesia, o proletariado só pode cumprir o seu papel revolucionário se reconhecer e tomar como bandeira a busca pela verdade, pois seu objetivo é o fim da luta de classes. O proletariado não pode esconder os motivos de sua luta e nem tampouco se fiar na sorte para o estabelecimento de uma nova ordem; sua posição social exige uma ação consciente, atrelada o máximo possível com a realidade.
Esta necessidade vital, que permite ao ponto de vista do proletariado o atual privilégio epistemológico, não pode ser entendida como uma posição científica suprema, como se fosse a garantia de um conhecimento verdadeiro. O próprio Marx reconhece, segundo Löwy, a importância superior das análises de Ricardo, um ideólogo burguês, em relação com as de Sismondi, teórico suíço anticapitalista (LÖWY, 1998, p. 101). A ciência, pois, é uma atividade que não pode ser concebida simplesmente pelos limites da luta de classe. Ao tomar esta posição, como fazem os chamados marxistas positivistas ao enfatizarem a existência de uma ciência proletária e uma ciência burguesa (LÖWY, 1978, p. 24), comete-se erro semelhante ao dos positivistas: considera-se de maneira unilateral, incompleta, uma atividade social totalizante. A ciência perde, com os positivistas clássicos, seu caráter particular, histórico; já para os marxistas positivistas a ciência perde seu caráter universalmente humano, que perpassa a condição de classe. Evitando o erro destas concepções, Löwy admite a existência de uma ”autonomia relativa da ciência social” (LÖWY, 1978, p. 33, grifo do autor).
A realidade e o cientista como uma paisagem e um artista
Löwy demonstra essa autonomia científica recorrendo a metáfora do artista. Para ele, a atividade do cientista é semelhante a de um artista. O objeto de estudos do cientista social se assemelha a paisagem que o artista procura retratar. Para ambas as atividades é crucial o ponto de observação daquilo que será examinado ou retratado. A posição do artista ou do cientista vai definir o que pode ser observado. Um artista que se estabelece aos pés de uma montanha poderá desenhar apenas aquilo que se apresenta a ele: a montanha e qualquer outro objeto que esteja próximo à sua base; se ele sobe a montanha e faz do cume o seu mirante de observação, terá, de certo, um horizonte inteiro a retratar. O mesmo ocorre com o cientista, claro que de uma maneira mais complexa, mas não menos inteligível de se compreender, se comparada a este exemplo tópico. Como todo o estudo de Löwy deixa perceber, o que define o mirante do cientista é o ponto de vista de classe que ele toma para compreender a realidade, a paisagem a ser retratada (LÖWY, 1994, p. 212-3).
Mas apenas a posição do mirante não é capaz de garantir um retrato pleno da paisagem. Apresenta-se como determinante a técnica do artista. É a sua experiência que define como a paisagem será retratada. Para o cientista, sua técnica é o método de pesquisa. Método este que não se define exclusivamente pelo ponto de vista que toma, mas sim por uma imensidão de pesquisas anteriores que, fracassadas ou não, contribuíram para o seu desenvolvimento. Mesmo influenciada por determinados pontos de vista, a atividade científica possui um propósito claramente universal: o conhecimento da realidade. Se se esquece essa premissa, a ciência se torna exclusivamente instrumento de dominação (LÖWY, 1994, p. 214).
É por isso que as pesquisas de Löwy ressaltam o caráter científico da atividade revolucionária do proletariado já apontado por Marx, Engels e tantos outros. O proletário se apresenta como uma classe social que precisa de verdade para se libertar, permitindo àqueles que se colocam em seu ponto de vista reconhecer tanto o caráter particular quanto o universal do conhecimento: respectivamente, o de que conhecer é uma atividade ligada intimamente a vida dos indivíduos e de que esse conhecimento é necessário a toda sociedade (LÖWY, 1994, p. 217-8).
Considerações finais
A tese de Löwy, a “sociologia crítica do conhecimento”, se constitui, a princípio, como uma tentativa de superação das contradições metodológicas existentes nas correntes teóricas que unilateralizam a relação sujeito-objeto nas ciências humanas.
Ao negar o suposto distanciamento valorativo do cientista social diante de seu objeto, demonstrando como a ciência é uma atividade social distinta das outras – mas mesmo assim atividade social, Löwy propõe um modelo de ação para todos os ramos da chamada ciência humana. A “sociologia crítica do conhecimento” não seria um novo ramo da ciência acadêmica, seria sim um marco de renovação para todas as ciências sociais; seria uma tentativa de superação dos entraves de uma postura cientificista que se pretende desvinculada da atividade social.
É certo que nas obras analisadas no presente texto, esse plano de ação está muito generalizado. Ele aponta apenas os pressupostos necessários para evitar os erros já cometidos por outros cientistas que trataram do assunto, não descrevendo um método propriamente dito. Mas Löwy deixa claro que esse método é o método marxista: o materialismo histórico-dialético.

Referências

LÖWY, Michael. “Objetividade e ponto de vista de classe nas ciências sociais”. In Método dialético e teoria política. 2ª ed. – Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1978.
__________. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento [tradução de Juarez Guimarães e Suzanne Felicie Léwy]. 5ª ed. rev. – São Paulo : Cortez, 1994.
__________. Ideologias e ciência social: elementos para uma análise marxista. 12ª ed. – São Paulo : Cortez, 1998.
MANNHEIM, Karl. Ideologia e utopia [tradução de Sérgio Magalhães Santeiro]. 4ª ed. – Rio de Janeiro : Zahar, 1982.
MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista [tradução de Suely Tomazini Barros Cassal]. Porto Alegre : L&PM, 2001.
SCHUTZ, Alfred. “O mundo da vida” e “Transcendências e realidades múltiplas”. In WAGNER, Helmut R. (org.). Fenomenologia e relações sociais: textos escolhidos de Alfred Schutz [tradução de Ângela Melin]. Rio de Janeiro : Zahar, 1979, respectivamente, p.72-6 e p.241-3.
WEBER, Max. Ciência e Política: duas vocações [tradução de Leônidas Hegenberg & Octany Silveira da Mota]. 14ª ed. – São Paulo : Cultrix, 1999.
Notas
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[1] Seria difícil imaginar que uma rocha reclamasse da classificação que um geólogo atribuiu a ela de maneira equivocada ou que uma espécie da fauna ou da flora desenvolvesse uma crise de identidade numa situação semelhante. É claro que se deve ressaltar que estudos equivocados nos ramos das ciências naturais denotam uma série de conseqüências problemáticas tanto quanto nas ciências humanas. E isto é próprio da atividade científica. Entretanto, nas ciências humanas, a crítica pode vir do próprio objeto de estudo, enquanto que noutras vertentes científicas a crítica surge ao cientista quase que exclusivamente de seus pares.
[2] Um exemplo dessa atitude epistemológica no campo da sociologia é o método fenomenológico proposto por Alfred Schutz. Para este autor, e para outros que concordam com sua teoria, seria real apenas aquilo que se apresenta a nossa experiência primeira, ou seja, à simples aparência. Como existem diversas maneiras de apreender o real, a realidade seria conformada de acordo com a prática transcendente das diversas percepções. A objetividade passaria a ser formada pelo confronto de diversas interpretações do fenômeno observado, e não mais pela análise material do próprio objeto (SCHUTZ apud WAGNER, 1979).
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