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Arquivo da categoria: Sociologia da Juventude

Jovens são os que mais sofrem com desemprego

Jovens são os que mais sofrem com desemprego

Estudo do Ipea mostra percepção dos brasileiros sobre mercado de trabalho e qualificação profissional

O Ipea divulgou na manhã do dia 16, quarta-feira o Sistema de Indicadores de Percepção Social – trabalho e renda. O estudo foi apresentado na sede do Ipea, em Brasília,  pelo técnico de Planejamento e Pesquisa Brunu Amorim e teve transmissão ao vivo pelo site do Instituto.

Sobre os inativos, o estudo mostra que a maioria dos homens que nunca procuraram emprego é de  jovens. As mulheres, de forma geral, correspondem a 88% das pessoas que nunca procuraram emprego. Entre as causas citadas mais comuns para a inatividade estão problemas de saúde, salários baixos, afazeres domésticos e falta de qualificação profissional.

Desempregados

De acordo com a pesquisa, cerca de 45% dos desempregados procuram trabalho há mais de 6 meses. Cerca de 25% estão há mais de um ano procurando trabalho. Para Brunu Amorim, essa situação é preocupante porque representa risco de uma perda de habilidades e vínculos profissionais. Além disso, observa-se que o desemprego se concentra entre os mais jovens.

Acesso à renda

Quanto ao acesso à renda, o estudo revela que a maioria dos trabalhadores informais não recebe um terço de salário nas férias nem décimo terceiro salário, enquanto entre os trabalhadores formalizados mais de 97% recebem seus direitos trabalhistas em dia. Cerca de 18% dos trabalhadores formais entrevistados afirmaram que o valor de seu salário não está registrado corretamente na carteira de trabalho, número considerado alto pelos pesquisadores.

O estudo aponta que os trabalhadores por conta própria acreditam que as medidas que mais contribuiriam para a melhoria do desempenho de seus empreendimentos seriam diminuição dos concorrentes e aumento dos clientes (41,2%), menos impostos e taxas (14,9), facilidade de acesso ao crédito (14,3), entre outros.

Previdência

Enquanto 95% dos trabalhadores formalizados contribuem para a previdência, cerca de 68% dos não formalizados não contribuem. Destes, cerca de 55% alegam não que contribuem com a previdência por não ter renda suficiente. Entre os trabalhadores por conta-própria e empregadores de pequeno porte, 41% não contribuem com a previdência.

Oposição a Berlusconi protesta durante votações no Parlamento

Oposição a Berlusconi protesta durante votações no Parlamento

Roma e outras cidades foram palco de atos contra o primeiro-ministro.
Vitorioso no Senado e na Câmara, premiê garantiu continuidade no poder.

Um grupo de estudantes, trabalhadores e outros opositores do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, jogou tinta e bombas de fumaça contra os edifícios do Parlamento, em Roma, enquanto os deputados votavam uma moção de não-confiança no governo nesta terça-feira (14).

A moção foi derrotada por apenas 3 votos de diferença, resultando em uma vitória para Berlusconi. Se aprovada, ele poderia ter de deixar o cargo e antecipar as eleições parlamentares.

Durante a votação, os manifestantes contrários ao governo e à sua reforma universitária se reuniram em praças, agitando bandeiras. Em alguns lugares, grupos entraram em choque com a polícia antidistúrbios, que isolou o centro de Roma.

Manifestantes atacam carro da polícia no centro de Roma nesta terça-feira (14). (Foto: AFP)

Houve protestos também em outras cidades da Itália.

Em Palermo (Sicília), mais de 500 estudantes bloquearam por alguns instantes o aeroporto ao ocupar a pista de aterrissagem e exibir um cartaz onde se podia ler: “Vamos bloquear tudo, vão todos embora”. Nenhum avião pôde aterrissar ou descolar, segundo a empresa que gerencia o aeroporto.

Outros estudantes tomaram estações ferroviárias interrompendo o tráfego dos trens, antes de se dirigirem para o porto.

Estudantes enfrentam policiais durante protesto em Roma nesta terça-feira (14). (Foto: AFP)

Em Milão (norte), 50 estudantes invadiram a sede da Bolsa de Valores e exibiram o cartaz dizendo “Vocês são um bando de especuladores racistas, e tem que nos dar dinheiro”. Quando foram expulsos do prédio, começaram a jogar pedras e a gritar contra a reforma.

As manifestações provocaram também engarrafamentos em outras cidades, como Cagliari (Sardenha, norte) e Bari (sul).

A reforma da universidade prevê a fusão dos estabelecimentos menores, o acesso aos conselhos de administração de especialista externos ao mundo acadêmico e a redução dos mandatos dos reitores. Segundo seus detratores, as medidas buscam principalmente a poupança.

Fonte: G1

PSP impede direito consagrado na Constituição da República

PSP impede direito consagrado na Constituição da República
«Vamos continuar a pintar murais»

A limitação ao exercício do direito fundamental de propaganda política, onde estão incluídos os murais políticos, tem vindo a ser uma prática corrente e preocupante reincidente por parte da actuação abusiva das forças de segurança e de outras estruturas.

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No passado dia 13 de Outubro, cinco jovens estudantes, quatro raparigas e um rapaz, da Escola António Arroio, em Lisboa, foram detidos por agentes da PSP por estarem a pintar um mural, junto à rotunda das Olaias, com o lema «Vem para a luta, por uma escola pública e democrática», campanha que a JCP está a desenvolver por todo o País (como demos notícia na semana passada).

Segundo contaram ao Avante! três dos intervenientes deste cada vez mais usual e insólito caso, os agentes da autoridade insultaram os jovens, obrigando-os, apenas as raparigas, a despirem-se na casa de banho da esquadra, sob o olhar e a brutalidade de uma polícia, com o pretexto de poderem estar na posse de estupefacientes.

Situação que apenas visou humilhar as militantes comunistas, uma vez que os polícias nem mostraram interesse em revistar algumas das mochilas das estudantes, acto solicitado pelas próprias, após terem estado algumas horas na entrada do edifício, para mostrarem que não tinham nada a esconder e que apenas queriam ir para casa.

Os pais, que foram chamados para irem buscar os filhos (os que tinham menos de 16 anos), indignados com esta situação, chegaram mesmo a apresentar queixa na esquadra e esperam agora uma resposta por parte das forças de autoridade, que deveriam pugnar pelo respeito dos cidadãos e não violar frontalmente a lei com a agravante de manifestarem por ela óbvio desprezo e desrespeito.

Mas este «incidente» não demoveu os jovens de acabar o que tinham deixado por fazer e, dois dias depois, voltaram ao local. Mais uma vez, em profundo desrespeito pelas leis, as autoridades policiais voltaram a limitar e impedir o exercício de direitos, tendo apreendido, novamente, o material usado na pintura do mural, e identificado as pessoas. «Vamos continuar a pintar murais, até porque a lei está do nosso lado», afirmou um dos jovens.

 

Denunciar e resistir

 

Mas os incidentes não ficam por aqui. Na passada sexta-feira, em Leiria, um grupo de jovens comunistas que colava cartazes da Campanha Nacional do Ensino Secundário foi abordado por dois agentes da PSP, que, sem se identificarem, à paisana, impediram, violentamente, as colagens. Quando um dos jovens se justificou, defendendo que podiam estar ali, os agentes agarraram-no pelo pescoço (apresentando várias marcas), algemaram-no e meteram-no dentro de um carro em direcção à esquadra para identificação. Assim vai a democracia em Portugal.

A JCP promete continuar a denunciar estes casos e, acima de tudo, resistir, reforçando a sua acção e afirmação política. «Continuaremos a colar cartazes, a distribuir documentos e a pintar murais, continuaremos a mobilizar a juventude pela defesa dos seus direitos e aspirações», salientam os jovens comunistas, lembrando que «o direito à propaganda política não está indissociável da luta de gerações pelo direito à liberdade de expressão».

Fonte: JCP

Franceses voltam às ruas contra reforma da Previdência de Sarkozy

Franceses voltam às ruas contra reforma da Previdência de Sarkozy

Mobilizações crescem e recebem o apoio dos estudantes

Os trabalhadores franceses não aceitarão a reforma da Previdência sem luta. Foi esse o recado dado nas ruas pelos 3,5 milhões de pessoas que se mobilizaram nesse dia 12 de outubro, na maior manifestação já realizada contra o governo Sarkozy. A jornada de mobilizações e greve geral superou o do dia 23 de setembro, quando 3 milhões saíram às ruas, segundo os sindicatos.

As 244 manifestações ocorridas em todo o país exigiam o fim da reforma da Previdência do governo francês, que se mantém irredutível com os ataques. A mobilização, porém, vem crescendo a cada dia. Ao mesmo tempo em que mais franceses saem às ruas contra o projeto, cada vez mais setores também aderem às paralisações.

A reforma da Previdência de Sarkozy atrasa o tempo mínimo para as aposentadorias dos atuais 60 para 62 anos. Para quem não tiver completado os 40 anos mínimos de contribuição (que o governo quer aumentar para 41), a aposentadoria só será possível a partir dos 67 anos (hoje essa idade é de 65). Com a crise econômica e o conseqüente aumento do desemprego e da informalidade, os sindicatos denunciam que, na prática, a idade mínima para a aposentadoria vai ser de 67 anos.

Embora o governo Sarkozy coloque a elevação da estimativa de vida dos franceses como motivo para a reforma, o ataque faz parte de um pacote fiscal para conter o déficit público. A série de pacotes de estímulos concedidos pelos governos ao setor financeiro nos dois últimos anos colocou os países, principalmente da Europa, à beira da bancarrota. Agora, esses governos querem que os trabalhadores paguem pela crise.

Juventude entra em cena

As mobilizações, porém, colocam o projeto de Sarkozy em perigo. A jornada de lutas desse dia 12 contou também com o protagonismo da juventude francesa, com milhares de estudantes marchando lado a lado com os trabalhadores. A participação estudantil assustou o governo, que atacou a esquerda e os sindicatos como “irresponsáveis” por receber o apoio estudantil. O temor não é por menos. Em 2005 a juventude do país foi às ruas e derrubou a famigerada Lei do Primeiro Emprego (CPE na sigla em francês), que flexibilizava as contratações dos jovens.

A reforma da Previdência já foi aprovada pelos deputados e tramita agora no Senado. Espera-se que a votação ocorra ainda nesta semana. A disposição de luta dos trabalhadores franceses, porém, indica não arrefecer. No dia seguinte à greve geral, setores como transportes e as refinarias permaneceram paralisados. E os sindicatos prometeram uma nova jornada de greve e manifestações já para o próximo dia 16, sábado.

Fonte: PSTU

Estudantes brasileiros apóiam os estudantes e trabalhadores franceses

Estudantes brasileiros apóiam os estudantes e trabalhadores franceses

No dia 12 de outubro 3,5 milhões de pessoas saíram às ruas em mobilização na França. As diversas manifestações que tomaram todo o país exigiam o fim da reforma da Previdência do governo Sarkozy, que tem imposto duros ataques aos trabalhadores e jovens franceses diante das conseqüências da crise econômica na Europa.  O projeto de Reforma de Sarkozy tem como central o atraso do tempo mínimo para as aposentadorias que com as sistemáticas crises, o aumento do desemprego e da informalidade aumenta na prática a idade da aposentadoria de 60 para 67 anos.
Diante desses ataques, a mesma efervescência de luta da juventude francesa que em 2005 derrubou o projeto de lei que flexibilizava as contratações de jovens (Lei do Primeiro Emprego) se expressou na atual luta dos trabalhadores franceses com a adesão de milhares de estudantes. Nessa última quinta-feira as mobilizações estudantis tomaram o território Francês, paralisando cerca de 600 instituições de ensino, entre escolas e universidades, enfrentando inclusive a repressão policial. A luta estudantil tem colocado em cheque não só os projetos de reforma do governo Sarkozy mas também tem apontado a importante perspectiva da defesa dos direitos a partir da luta lado a lado com os trabalhadores.
Nesse dia 19, terça-feira e sexto dia da greve geral, os estudantes deram mais um exemplo de ousadia, resistência e rebeldia. Já passam de 850 escolas paralisadas e as manifestações tem se radicalizado ainda mais. Diante dessa situação, a saída de Sarkozy foi apelar para a repressão policial para tentar calar os estudantes: Lyon e Nanterre, periferia de Paris, foi foco da mais brutal repressão contra os manifestantes.
Frente à crise, os governos de todo o mundo tem imposto aos trabalhadores e a juventude duros ataque aos direitos sociais, salários e empregos, sempre em favor dos lucros das empresas e dos poderosos. Porém, a resistência que temos visto por parte dos trabalhadores europeus, e agora em evidência com a luta dos estudantes franceses, mostra que a mobilização é o único caminho para derrotar esses governos e impor uma saída para a crise sob a ótica da classe trabalhadora e da juventude.
Nesse sentido, a ANEL se solidariza com os milhares de estudantes franceses que tem ido as ruas com ousadia se enfrentar com os ataques de Sarkozy e exigir seus direitos ao lado dos trabalhadores. Convidamos os estudantes brasileiros a apoiarem o conjunto das mobilizações francesas que seguem sacudindo a França repudiando qualquer ação do governo e dos patrões de se utilizar da repressão para conter o movimento.
Os trabalhadores e a juventude não pagarão pela Crise! Viva a luta do povo francês!
Assembleia Nacional de Estudantes LIVRE

Estudantes entram de cabeça na greve geral contra reforma da Previdência

Estudantes entram de cabeça na greve geral contra reforma da Previdência

Mobilizações contra Sarkozy se radicalizam
A França balançou nesse dia 19 de outubro, sexto dia de greve geral desde setembro contra a reforma da Previdência do governo Sarkozy. Segundo as entidades sindicais envolvidas nas mobilizações, algo em torno de 3,5 milhões de franceses foram às ruas em 260 manifestações todo o país protestar contra a medida que aumenta a idade mínima para se aposentar e o tempo de contribuição.
Com as refinarias e boa parte dos portos paralisados, o país já sente os efeitos do desabastecimento, além de ter setores do transporte, como as ferrovias e parte dos serviços aéreos parados. Segundo o jornal Le Monde, 60% dos comboios ferroviários estão paralisados. Os caminhoneiros também aderiram massivamente aos protestos.
Junto a isso, o combativo movimento estudantil francês entrou de cabeça nas mobilizações, paralisando as atividades nas escolas e universidades e enchendo as ruas com centenas de milhares de jovens. Segundo a entidade de estudantes secundaristas FIDL, mais de 1.200 liceus se mobilizaram, parando algo como 850 colégios, um recorde nessa jornada de greves e mobilizações.
Repressão

Após se manter intransigente em relação ao ataque às aposentadorias, o governo do direitista Nicolas Sarkozy elevou o tom contra os manifestantes. Em Lyon e Nanterre (periferia de Paris), a polícia reprimiu brutalmente os manifestantes. ”Essa reforma é essencial. A França se comprometeu a fazê-la e a França irá implementá-la”, disse o presidente. Ele afirmou à imprensa que “tomará medidas” contra o desabastecimento, deixando transparecer que deve aumentar a repressão contra as mobilizações.
Posição que foi reforçada pela ministra da Justiça, Michèle Allion-Marie, que prometeu atuar com “firmeza” contra os manifestantes. A reforma faz parte do plano de austeridade adotado pelos governos europeus para conter os déficits provocados pelas políticas de ajuda e subsídios ao mercado financeiro durante a crise desatada em 2008.
Com a explosão do gasto público e o inevitável aparecimento de profundos rombos, os governos agora jogam a crise nas costas dos trabalhadores, promovendo reformas trabalhistas e previdenciárias como forma de reduzir gastos.
Movimento se radicaliza

O governo Sarkozy, aturdido com o aumento e radicalização das manifestações, ao mesmo tempo em que se mostra intransigente com os ataques, já sinaliza possíveis recuos. As mobilizações, porém, só tendem a se radicalizar. Segundo um instituto de pesquisa francês, mais de 70% da população apóiam os protestos.
Não é só o desabastecimento que tira o sono de Sarkozy. A entrada em cena da juventude francesa e a radicalização do movimento trazem de volta as cenas dos protestos protagonizados pelos jovens das periferias de Paris, em 2005. Lembram ainda das manifestações contra a Lei do Primeiro Emprego, dois anos depois.
Além de incomodar o governo, a radicalizada juventude francesa incomoda ainda as direções das burocracias sindicais, que temem um confronto direto com o governo.
Fonte: PSTU

Com a juventude pela exigência de um futuro diferente e melhor

Intervenção de Francisco Lopes
Intervenção de Francisco Lopes no jantar com jovens apoiantes da candidatura à Presidência da República

Num jantar com jovens apoiantes, no Porto, Francisco Lopes salientou que a situação actual do país afecta todo o povo português, mas em particular a juventude, afecta o seu presente e põe em causa o seu futuro. Só esta candidatura garante a exigência de mudança para a construção de um futuro diferente e melhor.

Fonte: PCP

Participação Social e Juventude

Participação Social e Juventude

Participação Social

Importância estratégica

A evolução da democracia brasileira aponta para uma combinação das instituições da democracia representativa com a crescente participação dos cidadãos nos processos de elaboração, implementação e avaliação das políticas públicas. Há, nesse contexto, a construção de uma nova relação entre o Estado e a sociedade. A criação e a consolidação de diversos canais de participação social – como os Conselhos de Políticas Públicas, Conferências, Ouvidorias, Mesas de Negociação, Consultas e Audiências Públicas – contribuíram para estimular parcerias e ampliar a participação efetiva das entidades e dos movimentos sociais nas decisões governamentais. Esse amplo processo de participação criou um ambiente de co-responsabilidade que tem dado consequência prática ao princípio constitucional da democracia participativa. Além disso, tem garantido que os mais variados setores sociais expressem suas demandas. De outro lado, o Estado reconhece o papel estratégico das organizações da sociedade civil como protagonistas de mudanças. Algumas ações são fundamentais para a edificação de uma sociedade fundada no debate: (a) ampliar espaços institucionais de discussão com a sociedade civil; (b) fomentar a participação social na formulação, acompanhamento e avaliação de políticas públicas e (c) criar ou aperfeiçoar instrumentos de consulta e participação popular.

Principais avanços recentes

2003: Nova atribuição institucional da Secretaria-Geral da Presidência da República, que passou a ser responsável pela coordenação do diálogo do Governo com a sociedade civil;

2003: Constituição e/ou reformulação de conselhos e outros espaços de participação social, tais como o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar, Conselho das Cidades, Fórum Nacional do Trabalho, Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, Conselho Nacional de Aqüicultura e Pesca e o Conselho Nacional de Economia Solidária.

2003: Realização de 27 fóruns regionais para a discussão do Plano Plurianual 2004-2007 com a participação de 2.170 entidades da sociedade civil.

2003: Realização de conferências nacionais, tais como I Conferência Nacional das Cidades, I Conferência Nacional de Meio Ambiente, I Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio-Ambiente e a I Conferência Nacional de Aqüicultura e Pesca.

2003: Estabelecimento de diálogo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) para a elaboração do Plano Safra de Agricultura Familiar e do novo Plano Nacional de Reforma Agrária.

2003: Discussão com as centrais sindicais dos anteprojetos das reformas Previdenciária e Tributária.

2003: Realização do Diálogo de Concertação do Lago de Furnas para elaboração do Plano de Desenvolvimento Regional.

2004: Instalação da Mesa Nacional de Negociação Permanente com Servidor Público.

2004: Criação do Conselho Nacional dos Direitos do Idoso.

2004: Realização de conferências nacionais, tais como a I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres e a I Conferência Nacional do Esporte.

2005: Realização do I Prêmio Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e com o Movimento Nacional pela Cidadania.

2005: Criação do Conselho Nacional de Juventude e do Conselho Nacional de Cultura.

2005: Promoção dos “Encontros da Sociedade com o MERCOSUL”.

2005: Realização de conferências nacionais, tais como a I Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial e a I Conferência Nacional de Cultura..

2006: Realização de conferências nacionais, tais como: I Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, I Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, I Conferência Nacional de Economia Solidária, I Conferência Nacional de Educação Profissional e Tecnológica e I Conferência Nacional dos Povos Indígenas.

2006: Realização da I Cúpula Social do Mercosul, em Córdoba e da II Cúpula Social do Mercosul, em Brasília.

2006: Promoção de audiências públicas sobre: Projeto de Revitalização e Integração de Bacias do Rio São Francisco; Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira – Santo Antonio e Jirau; Plano Amazônia Sustentável (PAS); Plano BR-163 Sustentável e sobre o desenvolvimento de políticas públicas para as áreas de segurança, integração nacional e radiodifusão comunitária.

2006: Promoção dos “Encontros da Sociedade com o MERCOSUL”.

2007: Discussão com os Conselhos de Políticas Públicas do Governo Federal do Plano Plurianual 2008/2011.

2007: Realização do II Prêmio Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e com o Movimento Nacional pela Cidadania

2007: Realização de consulta pública para discussão do Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável para a Ilha de Marajó.

2007: Realização da III Cúpula Social do Mercosul em Assunção e da IV Cúpula Social do Mercosul em Montevidéu.

2007: Realização do I Encontro de Política Externa, Diálogo Social e Participação Cidadã em parceria com o Ministério das Relações Exteriores.

2008: Criação do Conselho Brasileiro do Mercosul Social e Participativo e elaboração do Programa Mercosul Social e Participativo.

2008: Instituição da Mesa de Diálogo Tripartite – Trabalhadores, Empresários e Governo – para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar.

2008: Início do Programa de Formação de Conselheiros Nacionais.

2008: Realização de conferências nacionais, tais como: I Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, I Conferência Nacional de Educação Básica, I Conferência Nacional da Aprendizagem Profissional, I Conferência Nacional da Juventude, I Conferência das Comunidades Brasileiras no Exterior – “Brasileiros no Mundo” e I Conferência de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais.

2008: Realização da V Cúpula Social do Mercosul em Tucumã e da VI Cúpula Social do Mercosul em Salvador.

2008: Promoção dos “Encontros da Sociedade com o MERCOSUL”.

2009: Promoção de audiências públicas, tais como: Plano de Desenvolvimento Sustentável do Rio Xingu; atualização das políticas públicas em telecomunicações e Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento no Cerrado.

2009: Realização de conferências nacionais, tais como: I Conferência Nacional de Recursos Humanos da Administração Pública Federal, I Conferência Nacional de Segurança Pública, I Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena, I Conferência Nacional de Saúde Ambiental e I Conferência Nacional de Comunicação.

2009: Assinatura do Compromisso Nacional para Aperfeiçoar as Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar.

2009: Realização da VII Cúpula Social do Mercosul, em Assunção e da VIII Cúpula Social do Mercosul, em Montevidéu.

2009: Promoção dos “Encontros da Sociedade com o MERCOSUL”.

2009: Realização do II Encontro de Política Externa, Diálogo Social e Participação Cidadã em parceria com o Ministério das Relações Exteriores.

2010: Realização de Conferências Nacionais, tais como: I Conferência Mundial sobre o Desenvolvimento de Sistemas Universais de Seguridade Social, I Conferência Nacional de Educação e I Conferência Nacional de Defesa Civil.

2010: Realização do I Foro da Sociedade Civil da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

2010: Realização do III Prêmio Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e com o Movimento Nacional pela Cidadania.

Resumo:
2003 – 2010: Crescimento do número de Ouvidorias Federais da Administração Direta de 40 para 152.

2003 – 2010: Criação de 18 Conselhos Nacionais e reformulação de outros 18.

2003 – 2010: Realização de 63 conferências nacionais e internacionais, com a participação de aproximadamente 5,0 milhões de brasileiros em todas as suas etapas.

2010: 125 conselhos em funcionamento, com competência para aprovar diretrizes em políticas públicas nos mais diversos setores.

Metas e ações
Nota: As metas a seguir são resultado dos trabalhos do grupo técnico. A redação das metas em sua formulação de natureza estratégica pode ser lida nas Metas do Centenário.

Meta 1
Institucionalizar o Sistema Nacional de Participação Social e fortalecer os mecanismos de participação já existentes, em especial os Conselhos de Políticas Públicas, as Conferências Nacionais e as Ouvidorias.

Ações

1. Assegurar a participação social nos processos de elaboração, implementação e avaliação das políticas públicas.
2. Dar ampla publicidade às reuniões e às pautas dos conselhos, com o registro e a divulgação de suas atas e decisões.
3. Assegurar aos integrantes dos conselhos o amplo acesso às informações e documentos públicos necessários ao exame dos temas em debate e à tomada de decisão no âmbito dos conselhos.
4. Garantir que as proposições dos conselhos sejam encaminhadas e analisadas pelos órgãos competentes.
5. Garantir a realização de conferências nacionais, precedidas de etapas municipais, estaduais e regionais.
6. Garantir que as deliberações das conferências nacionais sejam encaminhadas e analisadas pelos órgãos competentes.
7. Assegurar a participação de delegados representantes da sociedade civil em todas as etapas das conferências nacionais.
8. Fortalecer as ouvidorias nas diversas áreas do Governo Federal.

Meta 2
Estruturar o Centro de Referência em Participação Social.

Ações

1. Coletar, produzir, sistematizar, analisar e divulgar informações sobre participação social;
2. Realizar estudos, pesquisas e análises sobre a temática;
3. Estruturar uma rede de parceiros e colaboradores, governamentais e não-governamentais sobre a temática.
4. Promover cursos sobre a participação social para os gestores públicos, representantes de organizações da sociedade civil e conselheiros.
5. Tornar disponível para a sociedade as informações relativas à participação social.

Juventude

Importância estratégica

Uma Nação que não dedique cuidados especiais à formação e desenvolvimento de sua juventude não pode ter pretensões de futuro melhor que seu presente.

Os jovens brasileiros na faixa etária entre 15 e 29 anos somam mais de 50 milhões de pessoas, o que corresponde a cerca de 27% da população. Possuir uma população jovem, que começa a se tornar produtiva, é uma vantagem. Esse segmento apresenta características próprias e, portanto, merece políticas públicas específicas, como, por exemplo, nas áreas de trabalho, educação, saúde, segurança pública e geração de oportunidades. Por outro lado, a despeito da singularidade e identidade geracional, as questões que afetam a juventude são vividas de forma diversificada e desigual, variando de acordo com a origem social, os níveis de renda, o sexo, a raça/etnia e as disparidades entre campo e cidade. Prova disso é que cerca de 30% dos jovens vivem em famílias com renda domiciliar per capita de até meio salário mínimo, estando mais da metade concentrados na região Nordeste. As políticas de juventude, sem perder a perspectiva da universalização dos direitos, devem assim enfocar, sobretudo, as parcelas mais vulneráveis, atuando em conjunto com outras políticas de redução das desigualdades.

Investir nos jovens é prioritário, seja através do fomento de políticas públicas a eles direcionadas, seja considerando-os como protagonistas na construção destas políticas.

Principais Avanços Recentes

2005: Criação da Secretaria Nacional de Juventude.

2005: Criação do Conselho Nacional de Juventude.

2005: Início do Programa Nacional de Inclusão de Jovens (ProJovem).

2005: Início do Programa Universidade para Todos (PROUNI).

2005: Constituição da Reunião Especializada de Juventude do Mercosul (REJ)

2006: I Encontro Nacional dos Gestores Municipais e Estaduais de Políticas Públicas de Juventude

2007: Início do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci).

2007: Início do Programa de Redução da Violência Letal contra Adolescentes e Jovens (PRVL).

2007: Articulação do Pronasci com o ProJovem, que passa a atuar nos sistemas penitenciários em 12 estados.

2007: Lançamento do ProJovem Intregrado, subdividido em quatro modalidades: Urbano, Trabalhador, Adolescente e Campo.

2008: Realização da I Conferência Nacional de Políticas Públicas para a Juventude.

2008: Início do Programa de Formação de Conselheiros Nacionais de Juventude.

2008: Lançamento pelo Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE) do Pacto pela Juventude.

2008: Aprovação da PEC da Juventude na Câmara dos Deputados (PEC 138/2003).

2009: Início do ProJovem Urbano Prisional em quatro Presídios de três estados.

2009: I Encontro Nacional de Conselheiros da Juventude.

2010: Aprovação na Câmara dos Deputados do pedido de adesão do Brasil à Organização Ibero-Americana de Juventude – (OIJ ).

2010: Realização da I Conferência das Américas de Juventude, no Rio de Janeiro, para debater as Metas do Milênio.

2010: Realização do I Encontro Nacional dos Alunos do ProJovem Urbano -Mostra Jovem.

2010: Aprovação da PEC da Juventude no Senado (PEC 138/2003).

Metas e Ações

Meta 3
Promover o aumento da escolaridade dos jovens entre 15 e 29 anos: i) eliminando o analfabetismo e estabelecendo padrões mínimos de qualidade; ii) ampliando a freqüência no ensino médio para 80% dos jovens na faixa etária de 15 a 17 anos e; iii) garantindo a freqüência de pelo menos 30% dos jovens na faixa etária de 18 a 24 anos na educação superior.

Ações

1. Ampliar o ProJovem em suas modalidade Adolescente, Urbano e Campo.
2. Ampliar o número de beneficiários do Financiamento Estudantil (Fies), do Programa Universidade Para Todos (ProUni) e as vagas nas universidades públicas federais.
3. Garantir que todos os municípios tenham pelo menos um curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA).
4. Oferecer garantias concretas de permanência dos alfabetizandos (apoio financeiro aos estados e municípios, programas de merenda escolar, material didático e saúde na escola).
5. Instituir e ampliar a Avaliação Nacional de Desempenho dos Estudantes de EJA com atenção especial aos jovens de 17 até 29 anos. (ENCEJA e ENEM com certificação).
6. Dobrar a oferta de vagas no Ensino Profissional e Tecnológico.
7. Aprimorar a transição entre os cursos de alfabetização do Brasil Alfabetizado e a continuidade de estudos em EJA.
8. Expandir a Educação de Jovens e Adultos no campo e nas prisões.
9. Aprimorar a integração da Educação de Jovens e Adultos e o Ensino Profissionalizante.

Meta 4
Reduzir a taxa de desemprego de jovens entre 18 e 29 anos para menos de 7,5%, bem como a relação da taxa de desemprego juvenil (18-29) e adulta (30-59) para 1,5; e garantir que todos os jovens ocupados tenham acesso à proteção social e aos rendimentos adequados.

Ações

1. Aprimorar e expandir o ProJovem Trabalhador.

Meta 5
Reduzir em 50% a taxa de mortalidade por causas externas entre os jovens.

Ações

1. Efetivar e expandir o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci).
2. Consolidar o Programa de Redução da Violência Letal Contra Adolescentes e Jovens.
3. Difundir metodologias que contribuam para a prevenção da violência e, sobretudo, para a diminuição das taxas de letalidade de adolescentes e jovens no Brasil.
4 Comentários para “Participação Social e Juventude”

1.
deise lucia da silva disse:
31/05/2010 às 12:17

é importante acrescentar algo voltado para uma participação do jovem em torno do diálogo entre segurança,violencia e juventude. Já que estes são os principais atores que vivenciam a violencia no país. Vejo a necessidade muito grande de se instaurar politicas mais proximas dos jovens que realmente não acessam ou possuem dificuldades de acessar projetos,planos e açoes como aqueles que estão ligados diretamente a vilência. Mas de uma maneira geral o documento conseguiu sistematizar as açoes.
2.
Alberto A G Nogueira disse:
31/05/2010 às 14:12

Estratificar situação dos aposentados do Brasil que da forma que está hoje, percebe que o proprio estado viola os direitos desses cidadãos.

A eles são impedidos os acessos a medicamentos, atendimento medico decente e o terrivel fator previdenciário que ao longo dos anos, arrefece o seu soldo salarial (aposentadoria ou pensão).
3.
Alessandro Ponce de Leon disse:
08/06/2010 às 01:37

As políticas de participação social e juventude devem ser consideradas para além das políticas sociais. Deveria ser considerada uma área estratégica de Estado.

Decisões sobre políticas econômicas ou tributarias, por exemplo, impactam na qualidade de vida dos jovens.

A aprovação do Estatuto e do plano de juventude podem consolidar um sistema de juventude em todo país. Uma força emergente que deveria ser canalizada para fortalecimento da democracia, a educação e o combate a pobreza.

abs
Alessandro Ponce de Leon
4.
Augusto César Nunes disse:
12/07/2010 às 12:08

É importante desenvolver ações voltadas para o tratamento dos dependentes químicos .Assim como ambientes favoráveis a reintrodução do jovem infrator a sociedade , sendo as drogas um ponto importante na taxa de mortalidade por causas externas entre os jovens . alguma ação voltada ao tratamento destes jovens devem ser executadas

Pais que amam demais atrapalham filhos

Pais que amam demais atrapalham filhos

Na ânsia de preparar os filhos para o futuro, muitos pais extrapolam no carinho e nas atividades educativas. Que tipo de filho eles criam?
Martha Mendonça
Felipe Varanda 

EDUCAÇÃO CONTINUADA
Thales e Tarsila em sua casa, em Niterói. Eles têm a agenda cheia de atividades e depois brincam com livros e vídeos educativos

Até aí, tudo bem. Mas hoje parece que não há apenas uma infância, e sim várias. O mercado de quartos infantis mostra isso. Há uma proposta de ambiente para cada idade. “O quarto cresce com a criança”, diz a arquiteta paranaense Kethlen Durski. “Há berços diferentes, camas que vão aumentando de tamanho, cores propícias para cada momento e até uma iluminação apropriada para cada fase.” Há quem coloque tapete de borracha pela casa para que a criança não se machuque ao engatinhar ou mesmo retire a maioria dos móveis da sala de estar (outra prova de excesso de zelo: a criança deve aprender a cair, diz a nova teoria).

A supervalorização do aprendizado na infância começou nos anos 80, quando pesquisas científicas comprovaram a plasticidade do cérebro do bebê e da criança pequena. “Aí surgiram as ideias de estimulação precoce que hoje levam a um exagero”, diz a psicanalista carioca Silvia Zornig, autora de A criança e o infantil em psicanálise. Junto com essa cobrança exagerada paradoxalmente vem a falta de limites. “Os hiperpais confortam demais, protegem demais, toleram demais, envolvem demais seus filhos o tempo todo”, diz a pediatra e escritora americana Marilyn Heins, dona de um site de dicas para os pais (parentkidsright.com). “As crianças não conseguem respirar diante desse contato exacerbado.” Sobre os hiperpais, Heins é peremptória: “O bom pai é aquele que tem a coragem de entregar seu filho para o mundo. Quem não faz isso está subestimando a criança e atrapalhando seu futuro e sua felicidade. A mensagem que está sendo enviada para a criança é: você não é bom nem inteligente o bastante para ser bem-sucedido, seja lá no que for”.

O bom pai tem a coragem de entregar seu filho para o mundo. Quem não faz isso subestima a criança

Os hiperpais costumam ser implacáveis na questão do desenvolvimento intelectual ou físico. Em São Paulo, proliferam os personal trainers infantis – professores de educação física especializados no atendimento individual de crianças e adolescentes. Luiz Ricardo Rhormens atende hoje dez crianças. Diz que a demanda é crescente. A maioria são crianças acima do peso ou que os pais consideram tímidas para os esportes coletivos. Fazem principalmente natação, caminhada e corrida. “Os pais cobram retorno, querem que a criança se comprometa com metas. Alguns são bastante neuróticos, e eu tento melhorar essa relação.”

Diretora da escola de dança Petit Danse, que tem três unidades em bairros de classe média no Rio de Janeiro, Nelma Darzi diz que a procura aumenta a cada início de ano letivo. “Muitas delas vêm de outras atividades ou vão para outras depois de sair daqui. Não é raro vermos alunos dando sinais de cansaço. Costumo conversar com as mães, mas muitas estão focadas na competitividade”, afirma. Às tradicionais aulas de natação, futebol, balé e inglês somam-se agora atividades mais diversificadas, como cursos de japonês e chinês, história da arte e etiqueta, sem falar no mercado de professores particulares que preparam alunos para os “vestibulinhos”, as provas de admissão nos colégios mais concorridos.

Neste mundo competitivo, as escolas se adaptam. Na Escola Internacional de Alphaville, num condomínio de classe média alta de São Paulo, crianças de 3 e 4 anos têm aulas sobre artistas como Miró, Van Gogh e Pollock. As aulas são apresentadas como uma forma de os alunos “apreciarem a obra e o fazer artístico e refletirem sobre o percurso de criação do artista”. A professora Cássia Bessa, coordenadora do projeto, diz que a diferenciação entre as crianças se dá cada vez mais cedo. “Há uma demanda social por isso, é a evolução natural.” Na Escola de Educação Infantil Ponto Omega, também em São Paulo, há um curso de etiqueta para os pequenos. São quatro módulos sobre como eles devem se comportar: “em casa”, “na escola”, “no clube” e “no restaurante”.

Com uma agenda tão cheia, quando as crianças estão em casa, o tempo é de brincadeira, certo? Mais ou menos. Muitos pais gostam que, em vez do divertimento totalmente livre, haja entretenimento dirigido e programas didáticos. Tarsila Naylor, de 4 anos, e seu irmão Thales, de 2, moradores de Niterói, no Rio de Janeiro, fazem balé, natação, capoeira, iniciação musical e vivência religiosa. Em casa, desde muito pequenos assistem aos DVDs da série Baby Einstein, que são divididos em faixa etária e falam de natureza, ciência e artes. (Há dois anos, uma pesquisa da Universidade de Washington demonstrou que bebês que assistem a esses programas aprendem menos palavras que os que não assistem, mas isso é outra história.) Os irmãos também veem vídeos de histórias infantis em seis línguas diferentes, para ir se acostumando com a sonoridade. “O que ninguém pode roubar de uma pessoa é o conhecimento”, diz o fiscal de tributos Carlos Mauro Naylor, pai das crianças. “Quando crescerem um pouco mais, vão entrar num curso de mandarim.”

Os superprotegidos
Como identificar as crianças com hiperpais

 

Revista Época

 

Juventude latino-americana unida pela paz e pelas transformações sociais

Juventude latino-americana unida pela paz e pelas transformações sociais

Posted by André Tokarski

Na semana que passou, Buenos Aires foi a capital da juventude latino-americana que luta pela paz e pelas transformações sociais. Nos dias 17 e 18 de agosto aconteceu o II Encontro de Juventude do Fóro de São Paulo (Forúm que reúne partidos políticos de esquerda de toda a América). A delegação da UJS foi composta por mim, Ticiana Alvares (Titi), Dir. de Solidariedade Internacional e presidente da UJS/RS e Augusto Chagas, presidente da UNE.

Logo na chegada a Buenos Aires me chamou atenção a força da campanha de comemoração do Bicentenário de Independência da Argentina. Por todos os lados anúncios, letreiros, cartazes, do Governo Federal e também da iniciativa privada, todos comemorando a marca histórica de 200 anos de independência e do início da construção da pátria argentina. Clique aqui para acessar o site do Bicentenário.

No primeiro dia tivemos a manhã livre e a feliz concidência de ser feriado na Argentina pela passagem dos 160 anos do falecimento de San Martin, um dos ícones da luta pela libertação da América espanhola. Aproveitamos para

conhecer alguns pontos importantes de Buenos Aires, como a Plaza de Mayo e a Casa Rosada (Sede do Governo da Argentina). No interior da Casa Rosada há

Plaza de Mayo e Casa Rosada

uma exposição interessante que reúne personagens de diferentes épocas que lutaram pela libertação e pela integração solidária de toda a América Latina. Ali encontramos quadros de Simon Bolivar, José Martí, Che Guevara, mas também de brasileiros como Tiradentes e Getúlio Vargas.

Já na atividade de instalação do Foro de  São Paulo, presenciamos uma fala de Manuel Zelaya, presidente deposto por um golpe de Estado em Honduras, onde ele relata expressamente que Lula e Celso Amorim salvaram sua vida, ao abrigá-lo com segurança na Embaixada brasileira de Tegucigalpa, enquanto o governo golpista o perseguia dentro de seu próprio país. Veja no vídeo abaixo o trecho em que ele fala de  Lula e do Brasil:

O II Encontro de Juventude Foro se realizou de forma muito exitosa. Foram mais de 40 organizações políticas vindas de 16 países da América Latina.

Brasileiros no Encontro de Juventude do Foro

Com grande unidade, a resolução final do Encontro tratou de reafirmar o apoio às transformações sociais em curso em inúmeros países da América Latina e de denunciar a situação conflituosa na Colômbia, país que persegue duramente organizações políticas de esquerda e do movimento social e que tem servido como um preposto aos interesses imperialista dos EUA no nosso continente. O documento destacou ainda a importância da eleição de Dilma Rouseff para a presidência do Brasil, para que o nosso país aprofunde as mudanças iniciadas com o Governo Lula e continue jogando importante papel no desenvolvimento

Uruguaios com Dilma

e na integração solidária da América Latina. Na plenária final do Encontro, foi grande a concorrência pelos adesivos de Dilma, e sem dúvida, é grande o apoio de toda a esquerda latino-americana para a eleição da nossa candidata. Veja a turma do Uruguai:

O II Encontro de Juventude também convocou todas as organizações presentes a ampliar a mobilização ao Festival Mundial das Juventudes Democráticas da FMJD, que acontecerá em dezembro de 2010 na África do Sul e do qual a UJS é parte da Comissão Organizadora Internacional.

Juvetude latino-americana unida triunfará! Viva o socialismo e viva a América Latina!

Dilma: Futuro precisa de cientistas

Dilma: Futuro precisa de cientistas

Por Osvaldo Bertolino

Garantir recursos para investimentos em ciência e tecnologia. Esse foi um dos principais compromissos assumidos pela candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff, em ato que reuniu, na sexta-feira (15), mais de duas mil pessoas no auditório da central Força Sindical, no centro da cidade de São Paulo. A multidão era composta basicamente de professores, estudantes, reitores, cientistas e sindicalistas. A candidata informou que uma parte desses recursos virá da exploração do pré-sal. Para ela, essa é uma das importantes reservas brasileiras — fazendo um paralelo com as reservas cambias e a reserva florestal amazônica. O pré-sal, disse Dilma Rousseff, é o passaporte para o futuro, a garantia de desenvolvimento do relevante papel que a Embrapa, o Inpe e a Fiocruz — dentre outros — vêm desempenhado.
A candidata afirmou que, além das condições climáticas favoráveis e da terra fértil, o Brasil dispõe de um avançado sistema de ciência, por meio da Embrapa, para a agricultura. Sobre o Inpe, Dilma Rousseff disse que ele foi determinante para o combate ao desmatamento da Amazônia. Já a Fiocruz, enfatizou, produz remédios que antes eram importados, garantindo melhorias no sistema de saúde do país. Ela lembrou a quebra de patentes de retrovirais no governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva como um sinal de avanço na soberania do país nesse seguimento. A candidata saudou a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Marco Antônio Raupp, ao lembrar que recebera uma carta-proposta de sugestões para o seu governo.
Dilma Rousseff aproveitou o momento para saudar o premiado pesquisador Miguel Nicolelis, avistado no tumulto da platéia, “O Brasil do futuro precisa de cientistas — eles iluminam o país”, disse ela, olhando para Nicolelis. Para a candidata, Nicolelis é a prova de que o Brasil pode sim ter grandes cientistas. Em entrevista após o ato, o cientista retribuiu a homenagem dizendo que Dilma Rousseff é a garantia de que a construção de um projeto de nação não será interrompida. “Esta eleição é vital para a História do Brasil e para construção de um projeto de nação. Vai decidir qual vai ser o futuro que o Brasil vai ter para muitas gerações que estão ainda por nascer. É uma proposta que eu, pessoalmente, e muitos dos meus colegas na área científica acham que chegou a hora do Brasil. E não podemos parar o trabalho pela metade. Foi por isso que eu fiz a minha opção de apoiar a candidatura da Dilma Rousseff”, afirmou o neurocientista.
Ainda no palco, a candidata focou sua intervenção na educação — a data, Dia dos Professores, foi lembrada como um momento de reflexão para o futuro do país. Para ela, a educação é o próximo passo para acabar com a desigualdade no Brasil. Com o compromisso de valorização dos professores, com salários dignos, plano de carreira e formação continuada, Dilma defendeu o respeito e o diálogo nas negociações com os trabalhadores da educação. “Acabamos com o sucateamento da educação no Brasil. De nada adianta defender a qualidade da educação sem salário decente, plano de carreira e formação continuada dos professores”, disse. Para Dilma Rousseff, nenhum ser humano se move sem estímulo. “É preciso diálogo e estímulo, não cassetetes”, argumentou. Segundo ela, a educação vai assegurar que o Brasil dê um salto e alcance o desenvolvimento. “Educação é o valor imaterial que garante que cada brasileiro tenha a oportunidade de melhorar de vida. O Brasil só será uma nação desenvolvida se apostar na educação”, ressaltou.
Convicções pessoais
A candidata sublinhou a constituição de uma consistente política de ciência e tecnologia. “Como o Brasil não tem uma cultura de investimentos privados nesse setor, o Estado precisa estar presente”, ressaltou. Ao falar do futuro, Dilma Rousseff, com voz firme disse que saudava a juventude guerreira da pátria brasileira. Ela registrou que recebera também da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) um manifesto de apoio à sua candidatura. Do mesmo, disse, recebera documento idêntico da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee) e dos reitores de universidades. Ao registrar o recebimento desses documentos, Dilma Rousseff disse que eles davam base para se discutir o que realmente interessa ao país. Para ela, essas eleições estão ocorrendo em um clima diferente. Arrancando gargalhadas do público, ela disse “nunca antes na história deste país — como diz o nosso querido presidente Lula — uma central de boatos fora montada de forma tão científica, tão organizada”.
Para ela, a direita tentou criar confusão entre a população, incitando o ódio e desrespeitando as diferenças de convicções pessoais e até mesmo o caráter laico do Estado. A candidata arrancou aplausos efusivos ao enfatizar que o respeito a todas as religiões é um princípio democrático que não pode ser violado ao saber de interesses eleitoreiros. Dilma Rousseff lembrou que o presidente Lula havia passado por algo semelhante em eleições passadas, mas que nessa a virulência atingira um grau inaceitável. Em 2002, disse ela, espalharam que um eventual governo Lula mudaria as cores da bandeira, fecharia igrejas e semearia o caos. “Fomos para as ruas, dissemos que a esperança venceria o medo, ganhamos as eleições e o Brasil hoje é esse país respeitado em todo o mundo, que não está mais de joelhos diante do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, discursou.
Programa de governo
Dilma Roussef também delineou as bases do seu programa de governo ao afirmar que governará não para um terço da população, mas para 190 milhões de brasileiros. E uma das prioridades, disse, é o investimento em educação, ciência e tecnologia, para que a juventude tenha garantias de um futuro melhor. Ao mesmo tempo, enfatizou, seu governo terá como prioridade criar condições para a melhoria da vida das crianças e dos idosos, “um governo que olhe para o povo e pensa em como melhorar a vida de cada brasileiro e brasileira”. “A educação é um grande passo para o combate à desigualdade na medida em que ela assegura a igualdade de oportunidades”, afirmou. A candidata destacou ainda o papel de programas sociais como o Bolsa Família, o Prouni, o aumento do salário mínimo, a oferta de crédito barato. “Vamos governar mirando o futuro”, resumiu.
Para ela, nessas eleições existem dois projetos bem distintos, que a central de boatos da direita tenta esconder. “De um lado, está o projeto do respeito aos seres humanos, do desenvolvimento, da democracia. De outro, está o projeto do desemprego, das privatizações, que já governou este país. Nosso povo precisa ter memória. É importante lembrar o passado para pensar no futuro”, comentou. Dilma Rousseff lembrou que foi do representante desse segundo projeto, o candidato José Serra, a iniciativa de tirar da Constituição a interiorização da educação. E que um aliado dele, o DEM, tentou acabar com o Prouni. Segundo a candidata, para o seu governo sobrou a melhor parte — o alicerce do seu governo já está pronto, com as medidas que tiraram 28 milhões de brasileiros da miséria. “Minha meta é, sem a menor dúvida, não perder um dia sequer na tarefa de tirar os outros 21 milhões que ainda estão nessa condição”, disse.
Serra do outro lado
Discursaram no evento também representantes de entidades populares e de segmentos sociais. Marco Aurélio Garcia, coordenador nacional da campanha de Dilma Rpusseff, fez um apelo para que todos se empenhassem nessa reta de chegada para garantir a continuidade da grande obra iniciada com o governo Lula. Ele lembrou que ali estavam as vítimas de Serra, uma alusão à forma repressiva com que o governo do Estado de São trata os professores. “O momento é de mobilização dos ativistas da continuidade das mudanças pelas quais o país está passando”, enfatizou.
Maria Isabel Noronha, a Bebel, presidente do Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo, alertou que as promessas de valorização da categoria e de defesa da educação feitas por Serra na campanha presidencial não passam de “conversa fiada”. “Serra é adversário dos professores. A educação no estado de São Paulo é uma vergonha. Dilma significa avanço. Serra é retrocesso”, afirmou Izabel, lembrando que o governo de São Paulo usou a polícia contra os professores em greve.
Augusto Chagas, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), disse que Serra é inimigo do estudante. Segundo ele, Serra declarou que a entidade mudou de lado. “Ele é o único ex-presidente da UNE que vem a público falar mal da nossa entidade e insinuou que a UNE mudou de lado. A UNE sempre esteve do lado certo. Ele é que mudou de lado”, disse Augusto Chagas. Ele lembrou que enquanto estudantes e professores apanhavam da polícia, Serra estava atacando com as universidades públicas. “Por isso, a nossa decisão de apoiar Dilma”, afirmou. O presidente da UNE encerrou lembrando que o secretário da educação paulista é Paulo Renato, o mesmo que foi ministro da área no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC).
Futuro da juventude
Amaro Lins, da Universidade Federal de Pernambuco, falou em nome dos demais reitores presentes e destacou que o documento entregue a Dilma Rousseff reconhecia os imensos avanços obtidos com o governo Lula. “Reconhecemos que neste governo a ciência foi avaliada como um dos pilares centrais do desenvolvimento”, disse ele, ressaltando que houve contratações de profissionais, melhorias infra-estruturais e ampliação de campis e cursos. Ana Maria Freire, viúva do educador pernambucano Paulo Freire, emocionou o público ao lamentar a campanha que tenta dividir o Brasil e espalhar o ódio. “Se vamos dividir, nós somos os de bem. Serra serve à elite e desserve ao povo. Dilma serve e enobrece o povo”, disse.
Discursaram ainda Paulo Leão, presidente da Contree; Eliane Rocha, representante da Contag; Major Olímpio, deputado estadual (PDT-SP); Rosana Xavier, bolsista do Prouni; e o senador Aloísio Mercadante (PT-SP). O senador disse que o Dia do Professor deveria ser lembrado pelas bombas, cassetetes e repressão dos governos do PSDB. Segundo, nem durante a ditadura a polícia invadiu a Universidade de São Paulo (USP) — não violando o princípio da autonomia universitária. Serra, no entanto, passou por cima da democracia e mandou a polícia ocupar a universidade. “O PSDB faz coisas para poucos. E pobre só tem oportunidade com educação. Ao destratar a educação, Serra está condenando a maior parte da juventude a viver sem futuro”, finalizou.
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Os jovens do seculo XXI – Análise Sociologica

Os jovens do seculo XXI – Análise Sociologica

O que se espera dos jovens enquanto cidadãos mudou ao longo dos tempos. Durante a ditadura do Estado Novo a educação regia-se pelo conceito de um bom cidadão. Não se esperava dos jovens mais do que uma acção conformada com a hierarquia social estabelecida, de obediência e subserviência. Não é demais lembrar dos movimentos anti-ditadura que se geraram sobretudo entre os jovens universitários, tendo alguns destes jovens enveredado pela carreira politica após o 25 de Abril. No periodo pós 25 de Abril a educação generalizou-se no seu papel de incluir todos os jovens independentemente da sua origem social num curriculo que valorizou sobretudo o cidadão activo e competente, focando-se o objectivo da formação pessoal e social dos alunos. No ultimos anos, sobretudo por volta do fim do seculo XX e inicio do seculo XXI, valoriza-se a formação da cidadania, tendo-se como objectivo a formação civica procurando incutir os valores da tolerância e partilha, da solidariedade, numa sociedade que está muito voltada para o individualismo e consumismo.
Mas que importância tem a escola para os jovens do seculo XXI? Verifica-se que a escola assume para eles sobretudo (97%) o valor da socialização. Portanto, há que entender a importância que a escola tem na formação de amizades. A funcionalidade e o realismo são conceitos vigentes da sua natureza social. Aquilo que funciona e é realista é o que conta para estes jovens que consideram que a escola lhes ensina conhecimentos importantes, e com isso se conformam. Consideram ainda que a ética do consumo exige que se trabalhe para ter dinheiro. Escola e emprego são as insitutições que mais reconhecem, são os seus valores. A familia é outra insituição que reconhecem como importante. E julgam a saida da casa familiar com a organização da sua vida futura conjugal, onde o amor é o mais importante neste cenário, sendo o divórcio aceitável quando deixa de existir amor. O seu conformismo não lhes permite efectuar grandes mudanças no papel de Homem e Mulher na sociedade, sobretudo na distribuição das tarefas domesticas e acesso ao trabalho. No que diz respeito á sexualidade, verifica-se que a iniciação sexual é cada vez mais precoce e tem lugar com amigos ou namorados, sendo entre os seus pares onde encontram apoio na sua educação sexual, tendo papel menor a escola e a familia.
É curioso verificar que estes jovens do seculo XXI tenham um grande distanciamento face á politica e associativismo, embora o associativismo recreativo assuma uma proporção um pouco maior. Quando a escola e a sociedade quer fomentar estes valores, eis que os jovens parecem não dar-lhe importância. Mas se a propria sociedade adulta rejeita estes valores é dificil fomentá-los nos jovens. O individualismo e o consumismo são mesmo os grandes valores actuais. Embora haja uma pequenissima percentagem de individuos a lutar por grandes causas.
Há de resto uma pequena percentagem de jovens que escapam a este quadro social já traçado. São os que seguem as vias da marginalidade, os que optam pelas drogas, como evasão, o fenomeno da gravidez na adolescencia, como fruto de falta de informação ou simplesmente falta de adesão ás regras de uma sexualidade segura, ou comportamentos agressivos e violentos que podem surgir em raves ou em simples graffites.
Sem fazer julgamentos, pode-se concluir que os jovens de hoje são mais realistas no que diz respeito á sua posição enquanto cidadãos, assumindo um papel mais conformista nas suas aspirações relativas ao acesso ao mercado de trabalho, considerando a escola sobretudo como fonte dos afectos, e tendo um afastamento em relação ás grandes questões como a politica e a cidadania. São sobretudo consumistas e individualistas, e dir-se-á que lhes falta um pouco de sonho na sua aspiração em relação ao futuro. Mas ao valorizarem tanto as relações sociais com a sua rede de amizades que encontram na escola, e o amor nas suas relações amorosas, pode-se dizer que são jovens cheios de afecto em função do qual regulam as suas vidas, e é como tal que devem ser entendidos.

Juventude e cultura: identidade, reconhecimento e emancipação

Juventude e cultura: identidade, reconhecimento e emancipação

PAULO DENISAR FRAGA
Professor do Departamento de Filosofia e Psicologia da Unijuí, RS.

Para se compreender a relevância da relação entre a juventude e a cultura, não basta tomar esse tema de forma externa, ou dizer, simplesmente, que a juventude é uma das mais contundentes portadoras das variadas expressões da cultura. Para além disso, o importante é tentar apreender, ainda que de forma geral, o binômio juventude–cultura na sua imanência interna, ou seja, na própria compreensão do modo de ser da juventude na sociedade moderno-contemporânea (ou tardo-capitalista).
Isso se torna importante, sobretudo, porque o problema de grande parte dos teóricos que trataram sobre a juventude consiste ou em vê-la de forma singular (como se houvesse uma única juventude), ou em não conseguir explicar como se dá a constituição-diferenciamento de suas várias identidades sem se perder da unidade.
Num estudo intitulado 1968… ou de como a besta deveio imaginação, Alejandro Ventura (1994) estabeleceu a tese de que a melhor forma para se compreender o comportamento do indivíduo na sociedade capitalista é pelo conflito profundo entre o desenvolvimento do potencial criativo versus os bloqueios do sistema, sejam estes de ordem material-externa ou moral-interna.
Muito diferente de ser apenas um “estado de espírito”, “representação estanque de uma faixa etária”, ou um “mal que se cura com o tempo”, a juventude é o momento da vida em que se dá com maior intensidade esse conflito, que interfere diretamente nas escolhas e na definição da identidade individual e coletiva das pessoas. Não podendo ser encerrada apenas pela determinação quantitativa de uma condição etária, a juventude se define especialmente como momento qualitativo em que o futuro da vida está sendo decidido, em que são tomadas as grandes decisões. E, se a juventude caracteriza-se pelo pico do conflito entre potencial criativo versus bloqueios, então essas decisões e escolhas se dão sob forte tensão e sob a figura da angústia.
Albert Camus (1997) mostrou que a saída do homem moderno angustiado é a revolta – o que pode adquirir dimensões sociais explosivas. Mas essa “revolta” não precisa ser de caráter estritamente político. Pode ser a mais “despolitizada” possível. Na verdade, ela é a busca de uma nova forma de reconhecimento, alternativa àquelas que o sistema bloqueou, àquelas que, diga-se assim, eram vinculadas ao que John Lennon, genericamente, chamou de “sonho”. É fundamentalmente a partir disso que a juventude vai se identificar pluralmente em diversas formas de reconhecimento: na religião, no modismo consumista, nas comunidades alternativas, nos esportes, na política, nas drogas, na violência, na apatia e no suicídio, na música e nas artes e, portanto, também, nas expressões mais propriamente denominadas como cultura(is). Nada disso impedindo que tais manifestações se comuniquem ou se rearticulem em diferentes graus entre si.
Ao contrário do juízo simplista e instrumental de uma certa esquerda, é socialmente superficial, historicamente falso e politicamente equivocado identificar a juventude com o progressismo. Ainda que os jovens tenham sido sujeitos marcantes em muitos eventos importantes da esquerda, não é possível ignorar, por exemplo, que na Alemanha a juventude nazista era, no tempo do grande Partido Social-Democrata Alemão, de Kautsky e Rosa Luxemburgo, muito mais numerosa do que a juventude socialista (IANNI in BRITTO, 1968: 237). Assim como não é atualmente plausível desconhecer os diversos grupos juvenis, dos skin-heads aos carecas do ABC, que reencontraram na violência a forma bárbara da diversão.
Contra a visão de que a juventude é algo quase “naturalmente” progressista – que bastaria a esquerda agitar as suas bandeiras para obter a sua adesão –, o melhor entendimento, sobre esse aspecto particular da formação ideológica juvenil, é o de Karl Mannheim (in BRITTO, 1968: 74), para quem a juventude não é nem progressista, nem conservadora. É uma enorme potencialidade em disputa. E é neste sentido que a cultura se investe de enorme valor na definição do modo de ser da juventude, em sua visão de mundo e em sua práxis social e política.
Sobretudo para o ponto de vista crítico, isso se revela explicitamente caro nos tempos atuais, quando o “novo irracionalismo brasileiro”, denunciado por Sérgio Paulo Rouanet (1992), externa o desprezo dos jovens pela cultura erudita, pela teoria e pela filosofia, pela música, pela literatura e pelas artes, numa anticultura alienada/estranhada, regada por um saber puramente instrumental, que se alimenta narcisicamente atrás de um microcomputador e no consumismo mercadológico irrefletido.
Enquanto a direita prega, a seu modo, o fim da ideologia [não como Daniel Bell (1980), que o fez teoricamente, mas como postura tacanha e rebaixada para disfarçar o caráter de sua própria ideologia – o da dissimulação fragmentária do saber e da desmobilização social], as organizações de esquerda e os setores sociais progressistas têm, em contrapartida, uma tarefa iluminista, qual seja, a da retomada do valor do conhecimento, da relação dialética afirmativa entre as culturas popular e erudita, da relação do homem com a natureza e, assim, do espírito crítico e autocrítico como um todo.
Evitando-se o subjetivismo axiológico, que sem se ater à dominação material imagina poder mudar o mundo pregando éticas universais abstratas, trata-se de apostar na formação intelectual crítica da juventude, elemento importante para o que Gramsci chamou de luta contra-hegemônica. Embate de idéias e valores, sim! Mas enraizado na vida real das lutas sociais entre as classes, que hoje não podem mais ignorar os temas ecológicos, étnicos e de gênero. Questões estas, entretanto, que só encontram sentido radical se vinculadas ao projeto de uma luta mais geral que arremeta “para além do capital”, como propõe Mészáros (in COGGIOLA, 1997).
A exigência da crítica – como forma da negação em andamento – não deve, porém, soterrar a clareza de que menos importante do que aferir “moralmente” o grau imediato de “politização” da juventude é decifrar dialeticamente o significado social e político daquilo que as juventudes estão expressando à sociedade. E ler as contradições dessa sociedade de modo imanente, na trama das relações que constituem o processo de sua totalidade. O conceito da condição juvenil como torrente de um conflito psicossocial dos indivíduos pressupõe a noção crítica de um comportamento oblíquo aos sistemas vigentes e, portanto, uma potencialidade de recusa. Mas que também pode virar simplesmente à direita ou ao comodismo em sua luta por reconhecimento. A percepção dessas culturas juvenis como modos contraditórios, porém legítimos, de ser/existir na sociedade capitalista, é um pressuposto para que com elas possa dialogar a cultura de intervenção que vem da crítica teórica.
Um filme como Trainspotting: sem limites (1996) ilustra, de modo exemplar, como um jovem pode resolver o seu conflito profundo (potencial criativo versus barreiras do sistema) sendo absorvido pelo próprio sistema. Tanto que, no começo do filme, Renton – o personagem principal – diz: “Ter uma vida, ter um emprego, ter uma carreira, uma família, ter uma casa, carros, amigos, ter um futuro… Para que eu iria querer isso? Preferi não ter uma vida. Preferi outra coisa. E os motivos?! Não há motivos. Para que motivos se tem heroína!” Ao passo que, no fim do filme, depois de dar um golpe nos amigos e arrumar muito dinheiro, se pergunta: “Por que fiz isso?” E responde: “Teria várias respostas, todas mentiras”. Daí ele assume que é mau, mas que foi a última vez, que isso vai mudar… E, então, diz: “Agora vou entrar na linha, vou ser como você: terei trabalho, família, carro, TV, um bom terno…” E arremata, na perspectiva do comodismo: “Vou viver esperando o dia de morrer”.
Renton é um jovem que resolveu o seu conflito no interior da perspectiva do sistema capitalista, fazendo entender o significado da fórmula “de como a besta devém imaginação” – não esquecendo de que “a imaginação no poder!” era um dos lemas do Maio de 1968. Não por acaso, intelectuais sixties engajados, como Gabeira e Cohn-Bendit, subscrevem, menos de 20 anos depois, no honesto interesse de saber o que foi feito dos ideais de sua geração, livros com títulos conjugados em sintomático passado como Nós, que amávamos tanto a revolução (GABEIRA, 1985). Seu objeto não é apenas um efeito dos ventos comuns da mudança histórica. Vem crivado pelo poder dos mecanismos de adaptação do sistema, que sempre querem se insinuar como normalidade racional. Veja-se, sobre isso, um ex-líder operário como Lula que, discursando como presidente de seu país, acha plausível reprisar a retórica positivista clássica da direita contra o movimento estudantil, segundo a tese de que a espécie humana “evolui” naturalmente da esquerda para a direita conforme a idade. E que o ponto racional de equilíbrio é o centro[1].
Isto posto, do ponto de vista da emancipação, a relevância histórica do trato do binômio juventude–cultura está em saber se a resolução do que se chamou aqui de luta por um novo reconhecimento se dará (re)canalizando as energias das rebeldias juvenis em favor do próprio sistema, ou se se requalificará substantivamente, convertendo-se em necessidades radicais, as quais, como disse a primeira Ágnes Heller (1978: 179) lendo Marx, constituem uma demanda cuja exigência qualitativa não pode mais ser satisfeita nos marcos da sociedade capitalista. Na hipótese dessa reversão dialética, a luta pelo reconhecimento encontra uma chance de superar as raias do estranhamento e de se afirmar no novo patamar de um processo de emancipação.

Youth lifestyles in a changing world

Youth lifestyles in a changing world

Autor: Steven Miles

Edição: Buckingham, Open University Press, 2000, 177 pp.

Durante muito tempo considerou-se que os jovens viviam em situações ditas de risco ese moviam simplesmente por uma rebeldia típica da juventude, sem se ter em contafactores de classe, género ou educação. A presente obra pretende redireccionar essesconceitos que dominaram a sociologia nos últimos 30 ou 40 anos, procurando avaliardiversas experiências que caracterizaram os estilos de vida da juventude actual. Steven Miles, sociólogo da Universidade de Playmouth, começa por abordar a naturezadas relações entre os jovens e as mudanças sociais, particularmente as tensões causadaspela divisão que existe na sociologia da juventude no que respeita às aproximaçõesestruturais e culturais às mudanças de vida da juventude. A experiência da vida socialda juventude é fundada na intersecção do estrutural com o cultural e é esse o tema destelivro. O estilo de vida dos jovens representa um significado inquestionável para asociedade com a sua própria relação com as mudanças sociais, estruturais e culturais. Nesse sentido a construção da identidade dos jovens deve ser particularmente observadapelos sociólogos. O autor considera que durante anos a sociologia negligenciou aquilo a que chama de—juventude mainstream“, em prol de uma —sociologia do melodrama“, centrando-se emaspectos como o desemprego, o consumo de drogas, a gravidez na adolescência,partindo daí para uma concepção estrutural da juventude baseada em generalizaçõessobre a sua natureza. A sociologia da juventude está embrenhada nas contestadas noções de —transição“, —cultura juvenil“ e —subcultura“. A noção de subcultura juvenil é alvo ainda de maioratenção. Muitos estudiosos reconhecem que foi dada prioridade à noção de subcultura,precisamente porque ela representa o aspecto mais visível da experiência juvenil, poisas subculturas juvenis foram desde sempre mais facilmente identificadas comoindicadoras de mudança social (e particularmente das doenças sociais, acrescenta oautor). No entanto, as subculturas juvenis podem oferecer aos jovens uma identidadediferente daquela que lhes é atribuída na escola, trabalho ou classe. O estilo da pessoa, oestilo de vida, a imagem, os valores e a ideologia, providenciam fontes simbólicasatravés das quais as identidades podem ser construídas. Considerando que facilmente seesquece que a vida cultural dos jovens reflecte a sua relação com as poderosas estruturas
dominantes, o autor sugere que a natureza dessas estruturas e a sua expressão culturalmudou tanto que hoje em dia a noção de —estilos de vida“ da juventude é mais adequadado que a de subcultura juvenil. No capítulo 2 o autor demonstra como os estilos de vida da juventude não operamindependentemente da mudança política e social mas são potencialmente menosdeterminantes e de menor carga política do que os que se haviam adoptado numaperspectiva subcultural. A crítica de Steven Miles à aproximação cultural à sociologiada juventude prende-se com o pressuposto que olha a juventude como algo essencialmente problemático e rebelde quando na maioria dos casos essa definição élimitativa. No capítulo 3 o autor reitera o seu argumento de que os estilos de vida da juventude nãopodem ser compreendidos sem referência aos contextos estruturais em que operam.Aqui, fica a educação e o emprego como sendo as mais importantes —arenas“, nas quaisas pessoas lutam para se estabelecerem como cidadãos num mundo onde, na opinião do sociólogo, continuam a ser marginalizados. Acrescenta que as influências estruturais navida dos jovens só podem ser completamente entendidas se os contextos culturais nosquais estão contextualizadas, forem activamente notados. No capítulo 4 o autor sugere que a aparente marginalização dos jovens não pode serentendida sem uma profunda compreensão da mudança social e dos contextos culturaisnos quais os jovens interpretam esses contextos. Steven Miles dá prioridade àsdiscussões sobre a fragmentação pós-moderna, a sociedade de risco e a globalização. Estes aspectos afectam as experiências dos jovens através de processos deindividualização que, por sua vez, serviram para minimizar a natureza tradicional dasatitudes e práticas juvenis, enquanto ameaçavam os meios ortodoxos nos quais ossociólogos tendiam, no passado, a colocar estas questões. Nos dois capítulos seguintes o autor examina os aspectos particulares da vida dosjovens. No capítulo 5 considera a natureza da relação dos jovens com o consumo dosmass media. Coloca a questão: será que os jovens são controlados por eles ou serão osjovens que os moldam nas suas mãos? O autor tenta identificar a forma como os jovensusam os media electrónicos, como um aspecto especialmente importante dos seusestilos de vida, particularmente nas relações com as representações de uma cultura deconsumo. No capítulo 6 discute detalhadamente o mundo das festas rave, que consideraser —uma das mais importantes formas de expressão da mudança da natureza da culturajuvenil“. Considera que a rave simplesmente representa a aceitação por parte dos jovensdos códigos ideologicamente dominantes e mais propriamente o do consumismo comoestilo de vida. E questiona: a rave será mais do que uma celebração de hedonismo, umajanela temporária de escape de uma cultura que os jovens estão activamente adesenvolver?Tomando como ponto de partida esta discussão sobre o hedonismo, o capítulo 7 foca aemergência dos jovens como consumidores, reforça o argumento de que o consumo é o primeiro palco de luta no qual os jovens se correlacionam e no qual reproduzem amudança social. O autor questiona-se se o consumo juvenil pode ser autêntico e qual opapel que tem na construção da identidade dos jovens. A obra pretende apresentar uma nova perspectiva da relação dos jovens com a mudançasocial. Apesar de considerar os jovens —barómetros da mudança social“, relembra queeles não representam apenas essa mudança, pois os jovens participam activa econscientemente no funcionamento e reprodução do sistema social.
Com uma postura muito crítica sobre o papel da sociologia da juventude, o autor sugereque devem ser feitos trabalhos específicos adaptando os estudos às próprias mudançassociais.

Em portugal

Sai em Portugal
Segundo o pesquisador em Sociologia da Juventude da Universidade de Lisboa, o espanhol Jesus Sanz Morales, “é preciso considerar os jovens como atores das políticas européias”.

Por uma Sociologia da Juventude – releituras contemporâneas

Por uma Sociologia da Juventude – releituras contemporâneas

Ana Luisa Fayet Sallas*, Maria Tarcisa Silva Bega**

* Socióloga, doutora, professora do Departamento de Ciências Sociais e do Progra-ma de Pós-Graduação em Sociologia da UFPR. Contato: analuisa@ufpr.br

** Socióloga, doutora, professora do Departamento de Ciências Sociais e do Progra-ma de Pós-Graduação em Sociologia da UFPR

Resumo

O presente trabalho tem por objetivo produzir uma reflexão teórica sobre atemática da juventude no marco de um estudo comparativo, tendo por baseos estudos empíricos produzidos no final dos anos 1990 em que os temasjuventude, violência e cidadania foram promovidos pela Unesco e realizadosem cidades como Brasília, Curitiba, Rio de Janeiro e Fortaleza. Nossa propostaprocura articular esses estudos problematizando-os a partir da (re)leiturade três grandes teóricos da Sociologia: Erving Goffman, Norbert Elias e PierreBourdieu. Qual o alcance teórico dos conceitos de estigma, anomia, identidadee habitus, ou ainda do modelo “estabelecidos e outsiders” para pensarmosnuma Sociologia da Juventude que dê conta das diferentes formas desociabilidade juvenil, e que ao mesmo tempo amplie a possibilidade de compreensãodestes atores para além da grande temática da violência e da cidadaniaem que foram enquadrados. Para tal propósito, trabalhamos com quatrograndes eixos: relações familiares, sonhos e expectativas de futuro, redesde relações juvenis e significado da vida na cidade.
Arquivo completo – http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/politica/article/viewArticle/1803

O significado da experiência escolar para segmentos das camadas médias

O significado da experiência escolar para segmentos das camadas médias

Isabel Lelis

Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, isabell@edu.puc-rio.br

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RESUMO – Este texto tem como objetivo revelar o sentido da experiência escolar para jovens de camadas médias, alunos de uma instituição privada confessional, da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Algumas questões serviram de ponto de partida para a pesquisa realizada de 2001 a 2003: como alunos com esse perfil socioeconômico e educacional constroem o seu ofício de estudante? Como articulam as relações com professores e colegas? Que relações estabelecem com as práticas de avaliação e os processos de ensinar e aprender? Relações instrumentais? Relações as quais permitem que os significados de seus grupos de referência aflorem? Que modelos de socialização são veiculados por essas escolas? O foco de análise apoiou-se em algumas das condições de produção e expressão do ofício do aluno como a caracterização socioeconômica das famílias, a trajetória escolar dos estudantes ao longo do ensino fundamental, o papel do estudo em suas vidas e práticas culturais e o lazer dos jovens.

PALAVRA CHAVE: ALUNO – SOCIOLOGIA DO ESTUDANTE – RELAÇÕES PROFESSOR-ALUNO – PRÁTICA DE ENSINO

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Com o objetivo de conhecer como o jovem de camadas médias vive a experiência escolar, nas estratégias que manifesta como aluno, iniciamos em março de 2001 uma pesquisa1 em uma escola privada da zona sul da cidade do Rio de Janeiro.
Nossa intenção era a de verificar como adolescentes se relacionavam com as práticas escolares, com as tarefas cotidianas, tendo como hipótese o fato de que um conjunto de disposições nasce na família a partir dos investimentos feitos pelos pais na escolarização da prole.
Trata-se de estudo que dá continuidade à pesquisa coordenada por Zaia Brandão “Trajetórias escolares e processos de socialização”, voltada para o conhecimento das práticas educacionais das camadas médias na transmissão do capital cultural e escolar a seus filhos.
Sendo ou não conscientes, as estratégias educativas desenvolvidas pelas famílias têm a capacidade de sedimentar habitus2, ajudando a entender como alunos se mobilizam diante dos estudos, das tarefas escolares, de suas preferências quanto aos estilos de ensinar dos professores etc.
Algumas questões serviram de ponto de partida para o estudo: como os alunos, filhos de camadas médias, imersos em escolas particulares constroem a experiência escolar? Como fabricam as relações com professores e com seus colegas? Que tipo de relação estabelecem com as práticas de avaliação e os processos de ensinar e aprender? Seriam relações instrumentais? Quais relações permitem que os significados culturais de seus grupos de referência aflorem? Que modelos de socialização são veiculados por essas escolas?
Com essas perguntas, a intenção era a de compreender o sentido da escolarização, que é pessoal e coletiva, e que confere ao aluno/ator a possibilidade de construir significados, efetuar escolhas, mover-se no interior da escola mediante um saber fazer, pois a escola não produz apenas qualificações e competências, ela contribui para que os indivíduos tenham disposições e atitudes (Dubet, Martuccelli, 1996), isto é, serem também sujeitos de sua própria educação.
Mais ainda por se tratar de uma escola privada atendida por setores das camadas médias, interessava interrogar qual o peso das práticas escolares sobre a construção do ofício de estudante, sobre os modos de apreensão da experiência escolar3.
A opção por estudar a escola privada derivou da necessidade de aproximação do universo das camadas médias, pouco explorado ainda do ponto de vista de suas estratégias educativas, mas principalmente pela necessidade de torná-las mais visíveis em termos de seus estilos de vida, de seus projetos de escolarização. Sem desconhecer a diversidade interna dessas camadas, nosso movimento foi o de realizar a pesquisa em um tipo de escola freqüentada por esses segmentos: a escola de bairro, de pequeno porte, que oferece apenas o ensino fundamental.
Essa escolha permitiu a explicitação de relações entre padrões de vida de adolescentes de extratos médios e habitus escolar, o que em última análise vem contribuir para o adensamento das diferenciações que se processam no interior desse segmento no que se refere às desigualdades em termos de oportunidades escolares dessas camadas.
Alguns autores da sociologia da educação serviram de inspiração para a pesquisa e muito ajudaram na interpretação dos dados levantados. Entre eles, destacamos a contribuição de François Dubet e Danilo Martuccelli, de Bernard Charlot e de Phillippe Perrenoud pois cada um à sua maneira tem pensado as práticas sociais – familiares e escolares – e seus impactos sobre as disposições que jovens/estudantes incorporam, manifestam e sentem na escola e fora dela. Mas foi Perrenoud no seu livro O ofício do aluno e o sentido do trabalho escolar, quem sinalizou a necessidade de investirmos na pesquisa sobre o aprender a ser estudante:
Tratando-se do que se aprende pela prática para uma prática ulterior, existe um meio indireto: analisar o tipo de relações, de comunicações, de jogos interpessoais e organizacionais que se praticam na aula, o que pelo menos, dará uma idéia do tipo de actores que a escola forma quanto às relações com o outro e na vida de uma organização. É claro, uma aprendizagem não nasce de uma prática excepcional. É pois, nas regularidades que é preciso separar as duráveis, as situações escolares que favorecem a formação de esquemas de ações e de interações relativamente estáveis e que, por um lado, possam ser transpostas para outras situações comparáveis, fora da escola ou após a escolaridade. (1994, p.32)
Se, no projeto original, a tendência era a de que o trabalho de campo se desenvolveria em duas escolas – uma considerada inovadora no sistema privado, que valoriza a realização pessoal dos estudantes, representativa de um modo mais interativo e afetivo de lidar com a escolarização e, outra, marcada como tradicional pela exigência e seleção intelectual –, o desenvolvimento da pesquisa sinalizou para o esforço de concentrar o estudo em uma única instituição. Essa redefinição foi assumida no processo de levantamento de dados e levou em consideração algumas exigências de caráter teórico-metodológico:
a construção do objeto “ofício de aluno” implicou observação prolongada de disposições (práticas, atitudes, comportamentos) incorporadas pelos jovens, geradoras, por sua vez, de esquemas particulares aplicados em diferentes situações de ensino; a observação das práticas, por envolver um conjunto extenso de atividades (aulas em todas as disciplinas, atividades extra-classe, eventos, reuniões, festas, recreio etc.) seria difícil de ser realizada em mais de uma instituição; a construção dos instrumentos – observação, entrevista e questionário– exigiu a seleção de categorias de análise, a definição de conceitos, o mapeamento de questões, operações essas indispensáveis à elaboração e reelaboração de perguntas dos roteiros de entrevista e do questionário, bem como a sua realização e a interpretação dos dados.

ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS

O colégio Santa Margarida4, onde realizamos a pesquisa, está localizado na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, em região com alta renda per capita, sendo os moradores do bairro atendidos por um conjunto de escolas privadas, escolas públicas e uma universidade particular de larga tradição na cidade e no país. Trata-se de uma instituição que enfrenta uma crise séria, provocada por um conjunto de fatores de natureza financeira e pedagógica, com repercussões sobre sua identidade. Essa crise tornou-se mais aguda nos dois últimos anos, levando a mudanças sucessivas de membros da coordenação pedagógica, perda de alunos, demissão de antigos professores e a redução do quadro de funcionários.
Em 2001, no início da pesquisa, a instabilidade tomou conta da instituição com a saída de parte da equipe diretora, provocada por cisões no interior da congregação religiosa, mantenedora da escola. Nas palavras da orientadora pedagógica do colégio, naquele momento:
…eu acho que [a saída] reproduz um pouco a história da congregação, meio que uma briga de poder de idéias, de qual igreja vai prevalecer: é a de Leonardo Boff ou é a de Eugenio Salles… E isso resvala para o corpo docente… ao mesmo tempo em que é aberta, na questão metodológico-pedagógica, por outro lado, é uma escola mais fechada, menos politizada…
Se a orientação religiosa e pedagógica foi colocada em questão, o que importa destacar como indicador significativo é a evasão de alunos nos últimos cinco anos, com desdobramentos sobre a sua imagem5. A esse quadro, acrescente o fato da mudança na composição da clientela, hoje heterogênea, pois é constituída por setores empobrecidos das camadas médias e por uma pequena parcela das camadas populares, moradores de um parque proletário próximo à escola.
Para duas das professoras entrevistadas trata-se de uma instituição tentando livrar-se da imagem de ser uma escola que perdeu em qualidade de ensino por atender a alunos portadores de dificuldades de aprendizagem e de histórias de fracasso escolar.
Quanto ao universo pesquisado, a escolha recaiu sobre alunos de 8ª série uma vez que essa série foi uma das selecionadas pelo Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Básico – Sab – na tarefa de avaliar a qualidade da escola e do ensino brasileiro. Essa fase representa um momento importante da escolarização, especialmente para as famílias de camadas médias, o cumprimento de uma etapa para entrada no ensino médio com vistas ao enfrentamento do vestibular e conseqüente conquista de uma vaga no ensino superior.
Na tarefa de decifrarmos o ofício do aluno, a equipe concentrou-se em um primeiro momento na observação das práticas no interior da sala de aula – locus principal de análise – e nos espaços por onde circulavam os alunos (sala de informática, pátio do recreio, corredores) das duas turmas de 8ª série. Foram observadas aulas em todas as disciplinas que compunham o currículo escolar no sentido de apreender os estilos de ensinar dos professores e as respostas dadas pelos alunos quanto a esse aspecto.
Em nossa grade de observação, pensada a partir de alguns eixos, foram privilegiadas as rotinas na sala de aula, o uso do tempo pelo aluno e pelo professor, as estratégias desenvolvidas pelos alunos diante das tarefas propostas pelos professores, o lugar ocupado pela avaliação (provas, exercícios) para o aluno e o professor e suas repercussões no cotidiano escolar, as atitudes dos alunos em face das regras disciplinares, as formas de comunicação/relação entre alunos e entre alunos e professores. Essa observação foi intensiva, feita por membros da equipe e cobriu todos os tempos da grade curricular. Tinha como objetivo ainda obter informações prévias para a elaboração dos roteiros das entrevistas que seriam realizadas com os professores e do questionário a ser aplicado aos alunos.
Em 2002, a observação concentrou-se na sala de aula da única turma de 8ª série6, mas foi ampliada para outros espaços como festas, eventos, reuniões pedagógicas, conselhos de classe, feiras etc. Paralelamente às observações, realizamos entrevistas com três coordenadoras pedagógicas e duas orientadoras educacionais do segundo segmento do ensino fundamental com a finalidade de mapear suas representações sobre o momento pelo qual passava a instituição, o projeto pedagógico da escola, as novas prioridades diante do trabalho pedagógico com a mudança da equipe. Realizamos também sete entrevistas com professores de diferentes disciplinas para conhecer suas representações sobre os comportamentos dos alunos, as relações diante das tarefas escolares, a mobilização em relação ao saber.
Finalmente nos valemos de um questionário construído pela equipe da pesquisa “Escolarização das elites”, coordenada por Zaia Brandão, e que foi redimensionado com base no material colhido com as nossas observações. Esse questionário7 foi aplicado a 30 alunos da 8ª série de 2003 e sua elaboração levou em conta alguns eixos de análise: origem familiar, condições socioeconômicas das famílias, práticas culturais dos jovens, representações sobre a escola e seus professores, hábitos de estudo, desempenhos acadêmicos, trajetória escolar anterior, atividades de lazer, atividades extra-classe etc.
De posse de todo o material, iniciamos os cruzamentos entre dados provenientes das observações, dados originários das entrevistas e dos questionários, no intento de verificar as condições de realização do ofício do aluno e suas formas de expressão.
Para efeito deste artigo, serão consideradas algumas das condições necessárias à constituição do ofício do aluno como o perfil socioeconômico das famílias, o fluxo escolar desses alunos, o lugar que ocupa o estudo em seu cotidiano, bem como suas práticas culturais e atividades de lazer.

OS ALUNOS E SUAS FAMÍLIAS

Os alunos situam-se em uma faixa etária entre 14 e 16 anos, sendo 42% do sexo feminino e 58% do sexo masculino. Residem, na sua maioria, no próprio bairro em que está localizada a escola ou em bairros circunvizinhos como Jardim Botânico, Leblon, Lagoa entre outros.
As famílias possuem, na maioria, dois filhos (54%), havendo 15% de estudantes filhos únicos; 31% dos alunos têm dois ou mais irmãos. O fato de essas famílias terem limitado a sua prole representa uma estratégia de reprodução própria das camadas médias mais desprovidas de capital econômico e cultural, já mapeada pela literatura especializada, e uma condição para a constituição do ofício de estudante pois a forte restrição da fecundidade significa para esses grupos poderem investir em cada filho, garantindo o máximo possível de recursos com uma despesa menor.
Em que pese a ação dessas famílias para concentrar os recursos de que dispõem na educação de poucos filhos, as falas das coordenadoras revelaram que as agendas dos alunos, antes muito sobrecarregadas de atividades extra-classe (cursos de língua, aulas de natação, de dança etc.), hoje encontram-se mais livres dadas as transformações do estilo de vida desses segmentos em processo de empobrecimento.
A situação não é prerrogativa desse grupo, mas atingiu os segmentos A e B da população brasileira, especialmente em certos setores como o dos planos de saúde, do lazer e da educação dos filhos. Dados de pesquisa desenvolvida pelo Instituto Ipsos-Marplan8 revelaram que as grandes redes de idiomas, que tem franquias espalhadas por todo o país, viram diminuir seus consumidores (especialmente nas primeiras séries do ensino fundamental) sendo a retração da ordem de 15% no número de alunos matriculados em 2002 em relação a 2001. Espremidas entre o desemprego e a deterioração dos salários de um lado e a disparada dos preços dos serviços e tarifas públicas, as camadas médias vêem-se obrigadas a redimensionar seus gastos, inclusive os considerados sagrados como a escolarização dos filhos.
Nessa direção, valeria perguntar: considerando que as atividades extra-classe (aulas de língua, dança, esportes variados) teriam a função, entre outras, de promover a aprendizagem do uso do tempo como um empreendimento partilhado entre pais e filhos (Nogueira, 1991), que conseqüências advêm para o aluno pela restrição dessas atividades? Que outras atividades preencheriam o uso do tempo fora do espaço escolar? Essas novas atividades têm impactado a forma de viverem o ofício de aluno? De que modo?
Relacionado a essa situação, há um outro dado que, de certa forma, vem relativizar achados da literatura francesa9 dos últimos anos: uma diminuição do monitoramento, pelas famílias, das tarefas escolares dos filhos. Se é verdade que os dados revelados pelos questionários apontam o fato de que o rendimento escolar freqüentemente é tema de conversa para 42% dos alunos e, algumas vezes, para 46%, em nossas observações diárias houve grande incidência de alunos que faltaram às aulas, esqueceram o material didático, não cumpriram com as tarefas solicitadas, em especial, o dever de casa. Para algumas professoras, é comum o hábito de dormir tarde entre os adolescentes usuários da internet, com prejuízos da pontualidade às aulas. As razões para tais comportamentos estariam na sobrecarga de trabalho dos pais, na diminuição do tempo de convivência e conseqüente dificuldade de monitoramento dos hábitos de estudo, como afirmaram algumas das coordenadoras entrevistadas. Se essa situação não chega a configurar um quadro de falta de participação nos processos de escolarização dos filhos, ela é reveladora da crescente participação das mulheres no mercado de trabalho e seus reflexos no trabalho pedagógico doméstico de reforço da aprendizagem escolar.
Quando passamos ao tipo de família ao qual pertencem os alunos, verificamos que 38% são nucleares, sendo que entre as demais predominam situações de unidades domésticas onde moram mães e filhos (56%) e 12% de famílias recompostas, fruto de duas ou mais uniões de um ou de ambos os parceiros. Essa característica implica uma diversidade que resulta em estilos de vida peculiares, com formas de sociabilidade específicas, o que redunda em modos distintos de relacionamento entre pais e filhos, inclusive no que diz respeito ao monitoramento da escolarização (Romanelli, 2002, p.249).
O impacto das novas configurações familiares sobre a escolarização dos filhos, segundo depoimentos de professores, leva ao freqüente esquecimento de livros ou cadernos “na casa do pai” quando de visita ocasional, com repercussões sobre o desempenho do aluno na sala de aula. Como fato que se generaliza, esse dado vem sugerir novas formas de acompanhamento da vida escolar dos filhos, diversas daquelas realizadas por famílias nucleares, constituídas por pai, mãe e filhos.
Com relação ao perfil socioeconômico, verificamos que 62% dos pais possuem diploma de ensino superior, sendo que surpreendentemente esse número cresce quando passamos às mães (73%). Apenas dois alunos assinalaram ser baixa a escolaridade final dos pais (1ª a 4ª série em um caso e 5ª a 8ª série em outro caso) e mesmo nula, caso de uma mãe de um aluno. Foi, contudo, significativo o fato de 27% dos alunos desconhecerem até que série o pai estudou, contra 12% que não sabem o grau de escolaridade da mãe. O fato de termos encontrado este perfil sugere algumas possibilidades de interpretação. Uma delas pode estar nos novos arranjos familiares que ainda têm garantida a maior presença da mãe na vida do filho e, portanto, o reconhecimento de sua ocupação, uma vez que a maioria dos alunos vive com a mãe e irmãos. Uma outra razão pode estar no baixo capital cultural das famílias desses alunos, expresso na falta de reconhecimento da importância do nível de escolaridade dos pais e, por conseguinte, do lugar que ocupam na estratificação sociocupacional. De qualquer modo, o fato de um elevado número de alunos ter afirmado não saber até que série o pai estudou torna problemática uma análise precisa, dificultando qualquer afirmação mais pontual.
Quando passamos a analisar a principal atividade econômica exercida pelos pais, o que encontramos foi um leque diversificado de ocupações no interior do que estamos chamando “camadas médias”. Sem pretender discutir neste momento abordagens metodológicas que tratam dessa categoria sociológica, o que os dados nos revelam é a presença de uma classe média constituída por advogados, médicos, engenheiros e arquitetos, pais de 42% dos estudantes e por artistas (artista gráfico, fotógrafo, músico, artista plástico), pais de 17% dos alunos. Trata-se de frações que desempenham atividades de natureza técnica, social e cultural e que constituem “o núcleo duro da classe média”(Nogueira, 1995).
No interior do que podemos chamar como média classe média/baixa classe média, encontramos 14% dos pais exercendo funções como a de funcionário público, bancário e economiário, e 7% de por pais cujas ocupações são de baixo prestígio, caso de um porteiro e um motorista. No outro extremo dessa segmentação sociocupacional, há 14% de pais ligados a atividades empresariais e comerciais.
No caso das mães, o quadro revela algumas diferenças, entre as quais um número menor de mães (27%), se comparado aos pais, exercendo ocupações de nível técnico superior (advogada, arquiteta, economista e analista de sistemas) e 20% em ocupações ligadas à arte (artista, produtora de arte, desenhista industrial, publicitária, mosaicista) e ao esporte. Mesmo se considerarmos que este último grupo pode ou não ser possuidor de título escolar, vale para os dois subgrupos a idéia de que essas frações atribuem aos fatores socioculturais (estilo de vida, natureza da ocupação, bairro onde mora) um peso significativo ao conteúdo da experiência escolar dos filhos.
Como dado sugestivo, encontramos uma variabilidade maior de ocupações entre as mães se comparada à dos pais, senão vejamos: 13% dos estudantes têm mães exercendo atividades ligadas a serviços sociais como o magistério, enfermagem, psicologia; 13% das mães dedicam-se a atividades do lar; 13% delas exercem ocupações de técnico de nível médio como balconista, vendedora, comerciária. Trata-se de profissões de caráter assistencial no primeiro caso, muito procuradas há algumas décadas por segmentos das camadas populares e médias na busca por uma mobilidade social ascendente.
Em que pese o fato de haver famílias que possuíam algum curso superior, foi sugestiva a fala de uma coordenadora ao mapear esse perfil:
…comparando com a escola Edem, os pais desse colégio não se caracterizam por serem da elite intelectual; são pais que se caracterizam pela relação custo-benefício “eu pago, quero ter qualidade de educação, retorno”. São pessoas mais individualistas e competitivas. Em uma olimpíada, tinha pai incitando o filho a competir para ganhar. São pessoas com menos comprometimento social e político. Há poucos que fogem a esta caracterização. A grande maioria não percebe a riqueza do trabalho que a escola realiza. Os pais têm uma visão pragmática, valorizam uma orientação religiosa… uma escola mais enquadradinha, mais organizadinha… Há pais que já tiveram a seguinte postura: quem foi esse professor que reprovou meu filho? Meu filho não vai passar de ano? Eu pago essa escola para meu filho passar de ano! (Coordenadora C)
Para outro professor, as famílias desconhecem tudo sobre educação, não estão preocupadas se os filhos estão aprendendo, mas que sejam aprovados ao final do ano. Trata-se de que pais que no discurso valorizam o estudo, mas na prática não manifestam a disposição de acompanhar a escolarização dos filhos, não têm tempo. Esses setores aproximar-se-iam, segundo Nogueira,
…dos pequenos comerciantes pois apelam com freqüência ao ensino privado, seja para se assegurar de um acompanhamento mais estreito e mais personalizado do aluno pela escola, seja para se esquivar de uma orientação escolar anterior estimada desfavorável e da qual discorda. Porém, diferem deles no que diz respeito às decisões escolares: contestam-nas sem hesitação todas as vezes em que estas se contrapõem a seus projetos escolares, dispostos para tanto a até mesmo mudar de estabelecimento escolar. E para isso contam com todo um patrimônio de informações sobre o modo de funcionamento real do aparelho escolar. (1991, p.102)
Para além desse tipo de comportamento, marcado pela valorização do resultado escolar e não pela qualidade dos processos de ensino-aprendizagem, algumas questões se põem: qual o significado da experiência escolar para o aluno quando a família tem para com a escola uma visão economicista do tipo custo-benefício? Qual a força o habitus familiar na constituição e desenvolvimento do hábito de estudo para essa clientela? De um modo ou de outro, o que os dados sugerem é o fato de essa escola ser hoje uma alternativa para segmentos empobrecidos das camadas médias, inclusive por cobrar anuidades mais baixas do que outras instituições situadas no mesmo bairro10.

A TRAJETÓRIA NO ENSINO FUNDAMENTAL

Ao analisarmos a trajetória escolar desses alunos desde a classe de alfabetização um dado chama a atenção: a trajetória ao longo do ensino fundamental é contínua; não revela a presença formal da reprovação, o que não significa que o fluxo pelas séries tenha plena fluência. Explicando melhor, apenas seis alunos em 32 (18%) estão na escola desde o pré-escolar, tendo 11 alunos passado por pelos menos três ou mais escolas particulares antes de ingressar na instituição investigada. Isso significa uma exposição a experiências escolares e pedagógicas diversificadas e mais, expressa a presença ativa das famílias na busca por adequar seus projetos educativos às necessidades individuais de seus filhos. Mas há também um outro elemento que se articula a essa dinâmica: o número elevado de alunos (37%) que entrou na 7ª ou 8ª série, isto é, chegou à escola para finalizar a etapa do ensino fundamental. As razões para tal podem ser variadas e vão desde a “representação” de uma escola mais fraca quanto à exigência acadêmica até a ação clandestina das famílias para evitar a reprovação.
Esses dados são provocadores na medida em que sinalizam para percursos contínuos, não erráticos de setores das camadas médias, o que não quer dizer que sejam lineares e sem rupturas. Afirmar o sucesso da escola privada tout court diante do insucesso generalizado da escola pública pela via dos índices de reprovação é temerário, uma vez que o sucesso não pode ser medido apenas pelo desempenho acadêmico final, expresso em classificações sob forma de notas ou conceitos. Há um conjunto de estratégias invisíveis acionadas pelos pais que encobrem o rendimento escolar real dos filhos em determinadas escolas privadas e, portanto, seus processos de ensino e aprendizagem, os quais precisam ser investigados pelos pesquisadores, como, por exemplo, a movimentação por entre escolas no decorrer do ensino fundamental.
De um modo ou de outro o que essas trajetórias revelam é a presença de um percurso do tipo “todo privado”, só quebrado por um número reduzido de alunos (19%) que indicou a escola pública como instituição freqüentada antes da entrada no ensino fundamental, caso de dois alunos de meios desfavorecidos, que receberam bolsas de estudo.
No rol das 34 escolas freqüentadas, todas pertencentes à rede privada, encontramos uma grande variedade de estabelecimentos: escolas de prestígio reconhecido na cidade (duas confessionais e uma leiga); escolas confessionais tradicionais que já ocuparam uma posição destacada no passado, caracterizando-se hoje como típicas escolas de bairro freqüentadas pelos moradores do entorno; escolas ditas “alternativas” (duas); escolas mais recentes, não confessionais cuja reputação se baseia em sua suposta eficácia pedagógica; escolas reconhecidas pelo baixo prestígio acadêmico. Nesse leque extremamente diversificado, deve ser assinalado o fato de que dos 32 alunos, cerca de 30% freqüentaram uma outra escola confessional.
Se à primeira vista essa informação pode sugerir que os pais têm como objetivo a educação religiosa para seus filhos, as representações tecidas por coordenadoras da escola, quando entrevistadas, vêm afastar esse tipo de projeto e confirmar os achados do estudo realizado em 1975, por Merakchi junto aos pequenos comerciantes:
…o que se vem constatando é que a demanda dos pais é menos por uma formação religiosa propriamente dita do que por um ambiente asséptico e tranqüilizador numa demonstração de que a catequese vem sendo passada para segundo plano, em favor de preocupações de ordem moral e disciplinar. Em segundo, a necessidade de remediar danos causados por fracassos escolares anteriores (ou até mesmo preveni-los quando já são pressentidos) conduz também as famílias a buscar refúgio em certos estabelecimentos privados que se encarregam de acolher jovens com dificuldades escolares, oferendo-lhes maiores chances de reintegração às fileiras nobres do sistema escolar.”(apud Nogueira, 1991, p.99)
No contexto de fluxos não lineares, uma escola confessional pode significar acolhimento, uma possibilidade desses adolescentes viverem a experiência escolar de maneira mais serena, especialmente na relação tecida com a avaliação.
Mas há um outro dado que merece ser refletido: em que pese a heterogeneidade de projetos educativos expressos na variabilidade dos estabelecimentos de ensino, as famílias têm em comum a busca pelo atendimento às necessidades de seus filhos, bem como uma preocupação pragmática com os resultados dos investimentos feitos diante do futuro de seus filhos, visto hoje como incerto em termos da manutenção/melhoria da posição ocupada ontem pelos pais no espaço social.

O ESTUDO NA VIDA DO ESTUDANTE

Existe já um razoável consenso entre nós sobre a importância da realização do dever de casa na formação do hábito de estudo e seus desdobramentos sobre o desempenho dos estudantes. Entretanto, ainda sabemos muito pouco sobre os modos pelos quais os estudantes se relacionam com as tarefas escolares, com os trabalhos feitos em casa, que remetem, em última análise, aos sentidos imprimidos pelos alunos à experiência escolar e que variam segundo a origem social, as estratégias educativas dos pais, ao ethos do estabelecimento escolar, aos estilos de trabalhar dos professores.
Nessa fase da vida do adolescente, Dubet e Martuccelli (1996) afirmam que se assiste a emergência de uma série de estratégias, e que o aluno adota a linguagem do cálculo e dos investimentos planejados. Para esses autores, o sentido do estudo se separa da pura lógica de integração escolar e de identificação com o professor, própria das primeiras séries do ensino fundamental e passa a se apoiar fragilmente entre duas matrizes: a utilidade do diploma e o interesse intelectual.
Em que pese a percepção da rentabilidade dos estudos ser heterôgenea e variar segundo os públicos sociais, tanto a utilidade do valor do diploma como a vocação para um determinado campo de estudos é volátil nesse ciclo da vida e correm ao sabor de resultados escolares e mediante o contato com as disciplinas. As forças próprias que animam, mobilizam o estudante para o estudo ainda parecem ser exteriores ao trabalho escolar e basear-se no sistema de recompensas, de encorajamento, seja por parte dos pais ou mesmo pelos professores, segundo Dubet e Martuccelli.
Embora em nossa pesquisa não tenhamos perseguido o objetivo de mapear a utilidade do diploma e o interesse por algum campo de estudo entre estudantes das camadas médias, emergiu com força o lugar que o estudo tem em suas vidas tanto do ponto de vista das condições materiais para a constituição da disposição do estudo oferecidas pelas famílias como dos cálculos acionados para a racionalização e otimização de seus desempenhos escolares
Senão vejamos: 85% dos alunos afirmaram possuir mesa de estudo e 65% e 58% respectivamente computador e internet em seu quarto, além de vários outros equipamentos como a televisão, o telefone, o vídeo etc. Isso significa que as famílias disponibilizaram condições materiais adequadas para o estudo dos filhos e, mais, expressaram a importância conferida aos processos de escolarização por esse segmento.
Quando passamos às respostas dadas pelo grupo às tarefas escolares, identificamos algumas estratégias de conduta dos adolescentes: 85% afirmaram fazer o dever de casa em geral quando essa tarefa vale nota, sendo o envolvimento com as atividades quase sempre condicionado pelo número de pontos que vale tal ou qual exercício arbitrado pelo professor, o que, por sua vez, irá gerar uma série de outras estratégias. Entre elas estão o estabelecimento de prioridades (algumas atividades valem mais do que outras e são mais valorizadas) e a realização de um “mínimo necessário” em termos de resposta às exigências acadêmicas, o que foi assinalado por alguns dos coordenadores entrevistados
Perguntados se estudam para os testes e provas marcados pela escola, 46% dos alunos afirmaram estudar apenas para as disciplinas em que estão com nota baixa e 50% afirmaram estudar e se preparar sozinhos “apenas” na véspera do dia marcado para a avaliação.
A esse dado acrescente-se que 73% dos alunos afirmam não realizar, às vezes, a tarefa solicitada, 38% copiam dos colegas em algumas ocasiões, o que pode remeter para o fato de que o ofício de aluno de camadas médias comporta uma “eficácia” que se expressa nas jogadas efetuadas, nos cálculos que precisam ser feitos e que variam em razão do efeito – professor (estilo de trabalhar, maior ou menor cobrança acadêmica) e dos recursos que possam auferir diante da realização da tarefa.
Trabalhando sobre o tema da fabricação da excelência escolar, Perrenoud analisa os mecanismos apreendidos pelo aluno para ter sucesso na escola e corrobora os nossos achados. Para o autor, “a preparação intensiva para o exame é também um trabalho, talvez até mais fastidioso, mas bem mais econômico para quem compreendeu o sistema”(1994, p.139). Em sua crítica às atitudes estereotipadas do ensino, o autor chama a atenção para a relação estratégica com a avaliação, que leva o aluno a tirar partido de todos os recursos que a situação lhe oferece. Entrando no “jogo”, caberá a ele administrar os “sinais exteriores” da competência que está sendo avaliada, seja preparando-se na última hora ou salvando apenas as aparências, seja trabalhando intensamente. De um modo ou de outro, o autor chama a atenção para um saber fazer, um habitus que ajuda o aluno a demonstrar outros saberes, outras competências instrumentais, tão necessárias quanto os conteúdos de ensino, “seja para demonstrar, valorizar ou manifestar através da palavra o que se sabe, seja para negociar a avaliação com o professor”(p.140).
Quando perguntados se recorrem à ajuda da família, uma parte significativa afirmou estudar sozinha sempre (58%), enquanto 62% estudam com colegas considerados bons na matéria e 58% buscam amigos para dar conta das tarefas. Foi expressivo o fato de 62% terem afirmado não estudar com a mãe ou o pai. Isso pode indicar a existência de uma série de mecanismos: falta de disponibilidade dos pais para acompanhamento do cotidiano escolar do filho diante da sobrecarga de trabalho dos setores médios; presença da estratégia do cálculo no ofício do aluno, no recurso ao colega, um bom aluno; presença de habitus escolar, construído no interior da família, próprio de setores que priorizam o produto final e não os processos de aprendizagem.
Considerando que o tempo gasto com o estudo expressa uma relação com a escola e com a aprendizagem dos conteúdos cognitivos, os dados sugerem, à primeira vista, que os estudos para a maioria dos alunos não chegam a comprometer o cotidiano de sua vida de adolescente: 73% dos alunos utilizam-se de uma a três horas por semana para o estudo, passando a 23% aqueles que gastam de três a cinco horas semanais. Do mesmo modo, se interrogados sobre o estudo nos finais de semana, 62% afirmaram estudar apenas algumas vezes, enquanto 12% afirmaram estudar quase sempre.
Diante desse quadro, valeria perguntar: tornaram-se esses estudantes “profissionais” na arte de driblar as demandas escolares? São blasés diante dessa escola por vê-la como instituição pouco rigorosa do ponto de vista das exigências escolares? É próprio da adolescência das camadas médias uma relação pouco laboriosa com o estudo?
Parece que uma das respostas a essas perguntas pode estar em uma relação com a experiência escolar menos tensa, mais instrumental, própria de uma geração bombardeada pelos meios de comunicação e informação, os quais por sua vez se investem também de um suposto papel pedagógico e que coloca para a escola a necessidade de buscar definir melhor a especificidade da prática pedagógica para estes tempos (Fischer, 1999, p.29).
Para Sarlo, nesta sociedade de consumo, a escola vive um dilema pois a cultura juvenil
…construiu-se no marco de uma instituição tradicionalmente consagrada aos jovens que está em crise: a escola, cujo prestígio se debilitou tanto pela queda das autoridades tradicionais quanto pela conversão dos meios de massa no espaço de uma abundância simbólica que a escola não oferece. (2000, p.39)
No espaço de uma abundância simbólica oferecida pela televisão e demais meios de comunicação, o aluno precisa dar conta, ao mesmo tempo, de duas lógicas: a lógica escolar, marcada pelo esquadrinhamento do tempo, pela centralidade da cultura escrita, pela separação das disciplinas escolares em um cenário lento e contínuo e a lógica midiática, marcada pelo imediatismo, pela instantaneidade, pela rapidez e descontinuidade das informações.
Isso parece ser evidente quando verificamos que 70% dos alunos realizam o dever de casa (quase sempre ou algumas vezes) assistindo televisão, o que remete à “dispersão” como traço distintivo dos comportamentos diante das práticas escolares.
Essa dispersão pode representar uma outra forma de se relacionar com o saber e a aprendizagem escolar, para além dos métodos pedagógicos e estilos de ensinar dos professores como bem analisaram Oliveira e Mattos (2003). Trabalhando sobre a perspectiva de uma geração zapping, como diria Sarlo (2000), Mendes de Almeida e Tracy vêm complementar nossos achados:
A geração zapping – definida pelos especialistas como aquela que vive mudando de canal o tempo todo – é emblemática dessas novas manifestações. Importa chamar a atenção, aqui, para o fato de que tanto a mídia atual quanto os especialistas vêm apontando a particular aptidão dos jovens de classe média dos grandes centros urbanos de fazer uso simultâneo de dispositivos eletrônicos, tais como telefone celular, computador, som e TV. O uso simultâneo desses recursos também se estende à realização de tarefas e obrigações que exigem concentração, como estudar. Neste sentido, podemos fazer referência, no âmbito das culturas jovens, a formas de atenção e de concentração de pensamento que se processam independentemente de vivências seqüenciais e lineares. (2003, p.68)
Se essas disposições diante das tarefas escolares marcadas por comportamentos estratégicos podem, à primeira vista, sugerir que os estudantes investigados rejeitam a prática da leitura ou têm com ela uma relação de pouca familiaridade, consumidores que são em larga escala da mídia e de outros meios de comunicação de massa, os dados obtidos pelo questionário sinalizaram alguns aspectos significativos: 62% rejeitaram a imagem de que ler é uma perda de tempo, o que não significa que seja uma de suas distrações preferidas. Mas foi também sugestivo o fato de que 69% dos alunos tenham afirmado que “só lêem quando é necessário”, revelador da linguagem do cálculo, presente também na realização do dever de casa.
Quando indagados sobre o que lêem, as informações obtidas indicaram que o que os jovens lêem quase sempre são e-mails e sites (58%), seguidos de jornais (50%) e revistas (38%). Com freqüência bem mais baixa, encontramos uma preferência por livros de ficção entre 23% dos alunos, seguida de não ficção (19%) e poesia, o gênero nunca lido por 62% dos estudantes.
Algumas questões merecem nossa reflexão: a primeira delas refere-se à rapidez na conquista de informação que os jornais e os e-mails, como suportes de leitura, garantem aos jovens das camadas médias, diferentemente da cultura letrada dos livros. Em relação à leitura do texto eletrônico, Chartier afirma que faltam estudos sobre seus usos, suas práticas, seus impactos sobre as tarefas, sobre o trabalho, mas que, sem dúvida alguma, a composição eletrônica é difundida sem mediações, sem intermediários, podendo o leitor transformar imediatamente o texto recebido por um autor (2001, p.153).
Por esta via, a leitura de e-mails e sites pode significar o acesso a um mundo sem fronteiras, onde o estudante – leitor pode ler e refazer o texto com uma liberdade que não existe no livro ou texto didático, transformando-se simultaneamente em autor.
A segunda questão refere-se ao fato de que ler um e-mail, site, jornal ou revista implica um grau diverso de internalização do mundo social, conforme Chartier (2001). Essa leitura talvez não seja tão constrangedora se a compararmos, por exemplo, à de um livro didático, ou mesmo paradidático.
Considerando que a lógica da escola está fundada no desenvolvimento intelectual de longa concentração e não se reutiliza das habilidades de leitura adquiridas pelos alunos nos suportes de leitura como e-mails, jornais revistas, somos tentados a interrogar a escola sobre os usos que faz do texto eletrônico, do jornal e das revistas, muito lidos pelos adolescentes no ofício construído como estudantes.

FORA DA ESCOLA, O QUE FAZEM OS ESTUDANTES?

Analisando a adolescência do ponto de vista do tempo, Melucci afirma que mais do que uma condição biológica, a juventude começa a coincidir com a suspensão de um compromisso estável, com um tipo de aproximação nômade em relação ao tempo, espaço e cultura. A cultura juvenil expressa-se em estilos de roupa, gêneros musicais, participação em grupos, os quais funcionam como linguagens temporárias e provisórias com as quais o indivíduo se identifica e manda sinais de reconhecimento para outros. Para o autor, a vida social é hoje dividida em múltiplas zonas de experiência, cada qual caracterizada por formas específicas de relacionamento, linguagem e regras. Esse excesso de possibilidades que a cultura engendra amplia o limite do imaginário e incorpora ao horizonte simbólico regiões inteiras de experiência que foram previamente determinadas por fatores biológicos, físicos ou materiais. Nesse sentido, a experiência é menos transmitida e cada vez mais uma realidade construída com relacionamentos e representações: menos algo para se “ter” e mais algo para se “fazer”(1997, p.9).
No caso dessa pesquisa, em que pese a afirmação de algumas professoras de que a agenda de seus alunos está mais vazia do ponto de vista de atividades extra-escolares, a realidade que encontramos nas respostas dadas ao questionário pelos adolescentes contraria as representações tecidas pelas entrevistadas: o tempo do estudante fora do tempo da escola é usado em múltiplas zonas de experiência, todas elas plenas de redes de sociabilidade e de circulação social. Assim, vamos encontrar em dados percentuais, a maioria de alunos (65%) freqüentando cursos de línguas estrangeiras, seguida por 46% fazendo alguma atividade de esporte. Essa experiência longe de ter um caráter aleatório evidencia a presença de uma estratégia desenvolvida pelas elites e camadas médias para transmitir a seus filhos um tipo de capital cultural, importante indicador de distinção social. O resultado é um bom domínio do inglês para 31% dos pesquisados e razoável para 58%. Para uma parcela de alunos, tanto o francês como o espanhol também são de domínio razoável. Essa situação é compreensível pois quando perguntados sobre viagens ao exterior foi significativo o fato de 46% dos estudantes terem viajado para o exterior nos últimos três anos, sendo o destino mais freqüente a América do Norte, seguida de países da Europa como Inglaterra, França e Espanha.
Quando passamos ao lazer, verificamos que no Rio de Janeiro, a praia ainda é o lugar que reúne a maioria dos adolescentes (65%), seguida do shopping (62%) e cinema (50%). Com alguma freqüência, vamos encontrar 50% de alunos freqüentando museus e galerias de arte, 54% indo a shows, 54% a teatros e 50% a eventos esportivos. Como dados sugestivos, encontramos alta percentagem de alunos que nunca vão à ópera e balé (69%), a cibercafé ou casa de jogos eletrônicos (73%).
Com relação a shoppings como um dos lugares mais procurados pelos nossos alunos, uma explicação pode estar no seu caráter extraterritorial e “transocial”, características que fascinam e justificam a sua alta freqüência pelos jovens, exatamente pela possibilidade de oferecimento de uma cenografia riquíssima na qual nada falta, sendo uma exposição de todos os objetos sonhados. Nele, “o mercado” potencializa a liberdade de escolha (mesmo que isso seja só uma tomada de partido imaginária), educa em saberes que são, por um lado, funcionais em sua dinâmica e, por outro, adequados ao desejo juvenil de liberdade antiinstitucional (Sarlo, 2000, p.21). Ora, na medida em que as instituições tradicionais já não podem construir marcos que se pretendam eternos, erige-se um monumento baseado justamente na velocidade de fluxos, de torrentes de significantes.
Com relação aos programas de televisão, destaca-se o número alto de alunos que quase sempre vê filmes e seriados (73%), shows e musicais (62%), programas de humor (73%), jornais e noticiários (50%).
O que sugerem esses dados? Quais os impactos sobre o sentido de viver a escola e o ofício de aluno?
Em primeiro lugar, podemos afirmar, concordando com Melucci, que adolescentes constroem a sua experiência de uma forma mais fragmentada, pois pertencem a uma diversidade de redes e de grupos: grupo familiar, grupo dos colegas da escola, grupo dos colegas de cursos livres, redes de amigos. Entrar e sair dessas diferentes formas de participação é mais rápida e mais freqüente do que antes e o tempo que os adolescentes investem em cada uma delas é reduzido. Além disso, continua Melucci, os meios de comunicação, o ambiente educacional, as relações interpessoais, o lazer e o tempo de consumo geram mensagens para os indivíduos que por sua vez são chamados a respondê-las com outras mensagens. O passo da mudança, a pluralidade das participações, a abundância de possibilidades e mensagens oferecidas aos adolescentes contribuem todos para debilitar os pontos de referência sobre os quais a identidade era tradicionalmente construída (1997, p.10).
Isso significa que a escola, antes núcleo fundamental de construção de identidade para o adolescente pode estar, a seus olhos, sendo deslocada, desintegrada como instância de socialização “pois a unidade e continuidade da experiência individual não podem ser encontradas com um modelo, grupo ou cultura definidos” (Melucci, 1997, p.11).
Em segundo lugar, o fato de o adolescente estar imerso em várias redes de circulação social pode fomentar uma relação de dispersão diante do mundo, própria de um tempo que não se repete nunca e que vai exigir contatos imediatos e intuitivos com a realidade, fora do confinamento dos rígidos limites de um pensamento racional, próprio da instituição escolar. Quem sabe não é a dispersão uma nova capacidade manifestada pelo aluno de lidar com uma abundância de canais de comunicação?
Em terceiro lugar, a geração do zapping obriga-nos a pensar na relação entre a cultura da mídia e a escolarização, para além da cultura escrita. Para Green e Bigum, essa mudança implica investir no conhecimento do currículo e da alfabetização sob novas bases, até porque uma subjetividade pós-moderna está em curso “compreendendo uma efetivação particular da identidade social e da agência social, corporificadas em novas formas de ser e tornar-se humano”(1995, p.214). Problematizando a qualificação conferida aos jovens como “alienígenas”, alienados no sentido clássico, os autores criticam o olhar preconceituoso das gerações mais velhas sobre a juventude e sobre a mídia e solicitam pesquisas que possam avançar a relação entre currículo e escolarização, fora dos marcos da pedagogia tradicional. Por essa via, a mídia eletrônica de massa está centralmente implicada como contexto socializador crítico e coloca a necessidade de se analisar pedagogias exteriores à instituição escolar.
De um modo ou de outro, o que esses autores buscam é o entendimento de que pensar o ofício do aluno à luz dos meios de comunicação de massa implica desconstruir certezas e especialmente considerar um complexo de forças que atuam sobre a construção da identidade.
Finalmente, essas novas referências vêm interrogar sobre as práticas culturais tradicionalmente identificadas com as camadas médias e, nelas, o lugar ocupado pela chamada alta cultura ou cultura letrada. À luz dos dados obtidos, o que fica evidente é que a mídia e os demais meios de comunicação de massa parecem ser os canais de informação desse grupo com impactos na forma pela qual o aluno se relaciona com o tempo, fora e dentro da escola.

UMA PERSPECTIVA A PERSEGUIR

A partir do quadro mapeado, é possível levantar algumas questões que podem ajudar a compreender melhor o jovem de camadas médias na realização de seu ofício de estudante.
A primeira delas refere-se à necessidade de aprofundamento do que significa a experiência escolar e, especialmente, do lugar ocupado hoje pela escola ao lado de outras instituições sociais. Em “O declíneo da instituição”, Dubet (2002) alerta para o fato de que, na pós-modernidade, os atores são confrontados a lógicas contraditórias e devem se situar dentro de racionalidades plurais: a da cultura da produção, da cidadania, das múltiplas identidades… O indíviduo torna-se “incerto”, fragmentado, constrangido a gerir lógicas opostas e o sujeito não está mais enraizado em um conjunto homogêneo de valores e de identidades. Ele está descentrado e partido. Para o autor, a ação explicaria menos pela necessidade de socialização do que pela economia das “razões práticas” ou das “boas razões” que remetem aos mecanismos cognitivos e às lógicas de comunicação contextualizada.
Ora, é este o indivíduo encontrado por nós na pesquisa: o aluno que é econômico na realização da atividade escolar, o aluno estrategista que usa o tempo com base no trabalho que precisa efetuar e que o faz com a lógica de “um mínimo necessário a um desempenho satisfatório”, independentemente do estilo de ensinar “do” professor, da maior ou menor afinidade com uma disciplina.
Longe de realizar uma leitura negativa do tipo “o fim da escola”, essa característica nos provoca a pensar sobre o ofício a partir de outras referências não estritamente escolares mas próprias de um tempo em que o ator não é mais o “sistema”.
Explicando melhor, hoje mais do que nunca, as instituições, nela, a escola, perderam o charme (Dubet, 2002), exigindo um trabalho de justificação permanente, que se assenta muito mais sobre o carisma pessoal do que sobre as competências técnicas dos profissionais. No quadro de uma sociedade em que o ator se separa do sistema, mais o indivíduo social e o sujeito se distinguem, e a motivação aparece mais como um problema que requer dos professores um conjunto de atributos de diversas naturezas.
Nesse contexto, o que significa ser um “bom” e um “mau” aluno? Um estudante que acata a disciplina, que reage às exigências acadêmicas de forma obediente ou um aluno que, conhecendo as regras do jogo escolar, efetua jogadas (apoiado e até estimulado pelas famílias) movido por “razões práticas” de que falava Dubet (2002), tendo em vista sair-se bem com o mínimo de esforço para logo, logo, de forma motivada, entrar na internet ou assistir um filme na televisão?
Mais do que responder a pergunta, é nossa intenção avançar sobre as novas subjetividades dos jovens, “nômades”11 por excelência, para, aprendendo com elas, poder pensar uma escola mais sintonizada com a cultura juvenil.
Considerando que não poderíamos ter a pretensão de esgotar as questões sobre o ofício do estudante das camadas médias, o que a pesquisa provocou foi a necessidade de continuar investindo em estudos a partir de uma leitura positiva sobre o jovem, a mídia e a experiência escolar fora do paradigma da escola republicana, centrada unicamente nos conhecimentos escolares, na autoridade e na disciplina. E mais, que a pesquisa sobre a escolarização das camadas médias é um objeto que exige o movimento de pensar em uma pluralidade de estilos de vida e de gostos, de valores que vão além dos volumes e estruturas de capital econômico e cultural desses grupos sociais.

Notas

1. “O ofício do aluno e o sentido da experiência escolar”, pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação da PUC-Rio, de 2001 a 2003, que contou com a participação dos alunos Alexandra de Oliveira Gomes, Cristiane Gomes de Oliveira, Eliane Santos da Silva, Luiz Otávio Neves Mattos, Paulo Roberto do Patrocínio Tonani e Thelma Polon, e foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. 2. Para Bourdieu (1997) o habitus é um “sistema adquirido de preferências, de princípios de visão e de divisão (o que chamamos comumente de gosto), de estruturas duradouras”. 3. Para Dubet e Martuccelli (1996), a experiência escolar é definida como o modo pelo qual os atores individuais e coletivos combinam as diversas lógicas de ação que estruturam o mundo escolar. Para os autores, as lógicas de ação – integração, estratégia e subjetivação – correspondem às três funções essenciais do sistema escolar: socialização, distribuição de competências e educação. 4. O nome da instituição é fictício. 5. A evasão intensificou-se de 2001 para 2002 e 2003 e foi da ordem de 10% e 15% em cada ano. 6. Em 2002, foi aberta uma única turma de 8ª série em razão da evasão de alunos de 2001. 7. Por opção da equipe, quatro desses questionários foram descartados devido ao preenchimento errado pelos alunos. 8. A referida pesquisa adotou o Critério de Classificação Econômica Brasil, dividindo a sociedade por classes econômicas (A, B, C, D e E), no sentido de avaliar o potencial de compra das famílias urbanas. A renda média familiar da classe A, em 2002, era de R$ 4.696 (A1) a R$2.869 (A2). Na classe B, a renda média familiar era de R$ 1.784 (B1) a R$ 1.158 (B2), segundo dados da Folha de S.Paulo, 15. 7. 2003. 9. Devem ser destacados o valor e a importância, para o campo da sociologia da escolarização, das revisões de literatura, produzidas por Maria Alice Nogueira, que permitiram o acesso ao estudo da relação entre famílias de camadas médias e escola. 10. Foi significativo o fato de termos encontrado em uma turma de 32 alunos, 12 com bolsa parcial. 11. Expressão cunhada por Almeida e Tracy (2003) para mostrar como a mobilidade dos jovens nas noites cariocas é um comportamento sintomático dos seus sucessivos deslocamentos em outros campos do cotidiano

Grupo de jovens protestando contra a discriminação sexual

Grupo de jovens protestando contra a discriminação sexual
Ao longo da História da Cultura Ocidental, a participação dos jovens era desconsiderada nos movimentos e transformações sociais ocorridas ao longo do tempo. A “voz da juventude” foi por muito tempo reclusa aos olhos de uma sociedade conservadora que, na maioria das vezes, ligava o jovem à imaturidade, ignorância e subserviência familiar. No entanto, a partir da segunda metade do século XX, esse cenário começou a sofrer consideráveis transformações.
A partir da década de 1960, intensas manifestações culturais e políticas juvenis indicavam que o papel do jovem começava a ter outro lugar. Nesse período, podemos destacar a ação do movimento hippie, que se contrapôs aos valores morais de sua época pregando ideais de “paz e amor”, criticando a sociedade de consumo e realizando intensa oposição à Guerra do Vietnã. Embalados pelo prazer, o uso de alucinógenos e o rock’n’roll mostraram o novo lugar da juventude.
Com o esvaziamento desse primeiro movimento, a geração hippie deu lugar a uma juventude mais conservadora que não mais se simpatizava com a ação transgressora da geração anterior. Os chamados yuppies da década de 1980, mediante a expansão do capitalismo e a competitividade do mercado de trabalho, começaram a estudar cada vez mais cedo, buscando uma carreira profissional proeminente acompanhada do tão sonhado conforto material.
A consolidação de um mundo cada vez mais integrado pelo processo de globalização provocou uma nova onda de movimentos juvenis que se colocam contra a própria sociedade que o exclui. O movimento punk é um claro exemplo de ação juvenil calcada pela crítica de um sistema que visa padronizar comportamentos em torno de um mundo cada vez mais atrelado aos resultados imediatos e à eficiência. Em contrapartida, essa reação à globalização também trouxe outras conseqüências.
A juventude nascida na década de 1980 integra, de acordo com alguns estudiosos e analistas, a chamada geração “Z”. O uso desta letra vem do termo inglês “zapping”, ou seja, dar “uma volta”. Essa tal volta, por conseguinte, simboliza a enxurrada de tecnologias que colocaram esses jovens em contato simultâneo com a TV, telefone celular e internet. A facilidade de acesso à informação transforma essa nova geração, de carta maneira, um pouco mais acomodada.
Em contrapartida, essa nova situação da juventude não indica uma morte das utopias e da ação direta do jovem na sociedade. Por mais que não possamos ver claramente a ascendência de novos movimentos juvenis politizados, não podemos desconsiderar a presença de uma juventude que possui e demonstra suas demandas sob as mais diferentes formas. Enquanto isso, as gerações futuras nos reservam a transformação que os adultos de amanhã talvez não imaginassem.
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