Os presidentes da Alas
Em 2011, será realizado na capital de Pernambuco o XXVIII Ccongresso da Aassociação Latino-Americana de Sociologia (ALAS). Saiba um pouco mais sobre a história da entidade e de seus presidentes
Sérgio Sanandaj Mattos*

A história da Associação Latino- Americana de Sociologia (ALAS) tem sido objeto de análise e reflexão de diversos autores (ver, por exemplo, MATTOS, 2005; SCRIBANO, 2005; TAVARES DOS SANTOS, 2005). As origens da sociologia remontam em países da América Latina à implantação dos cursos de “ciências jurídicas e sociais”, à importação dos positivismos europeus e ao desenvolvimento do “ensaismo” como estilo dominante das análises políticas, sociais, jurídicas e literárias (TRINDADE, 2007:71). O surgimento da ALAS em 1950 corresponde à existência de uma longa tradição do ensino da sociologia na AL, que começava a se institucionalizar mediante a sociologia de cátedra.
Fundada em 1950, em Zurique, durante o I Congresso Mundial de Sociologia, seus membros fundadores foram Alfredo Poviña e Tecera Del Franco (Argentina), José Arthur Rios (Brasil), Rafael Bernal Jiménez (Colômbia), Astolfo Tapia Moore e Marcos Goycochea Cortez (Chile), Luis Bossano e Angel Modesto Paredes (Equador), Roberto Maclean Estenós (Peru) e Rafael Caldera (Venezuela). Em sua maioria, eram advogados que lecionavam sociologia nas faculdades de Direito (BLANCO, 2005:23). Até meados da década de 1960, sociólogos como Alfredo Poviña, entre outros, de perfil doutrinário e formação jurídica, exerceram forte influência na ALAS. Em meados da década de 1960, a partir da eleição de Manuel Diegues Junior à presidência da ALAS, deslocou-se de maneira definitiva a hegemonia da sociologia jurídica.
O primeiro presidente da ALAS foi o argentino Alfredo Poviña (1904 -1967), considerado um dos principais expoentes e praticante da Sociologia de cátedra da América Latina. Foi fundador da Academia de Ciências Sociais de Mendoza, presidente da Sociedade Argentina de Sociologia e da Academia de Ciências Sociais e Jurídicas de Córdoba, e vice-presidente do Instituto Internacional de Sociologia. O segundo presidente foi o antropólogo brasileiro Manuel Diegues Junior (1912 -1991), professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, eleito no II Congresso da ALAS, realizado em 1953, nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. O congresso foi presidido por A. Carneiro Leão, professor de sociologia na Universidade do Rio de Janeiro e membro do Instituto Internacional de Sociologia. Em 1955, na cidade de Quito, Equador, no III Congresso, Alfredo Poviña foi reconduzido à presidência da ALAS, com o comitê diretivo integrado por Astolfo Tapia Moore, A. Carneiro Leão, Rafael Caldera e Odorico Pires Pinto. O congresso foi presidido pelo sociólogo, historiador e advogado Angel Modesto Paredes.
Posteriormente, no IV Congresso, rea- lizado no Chile, em 1957, Astolfo Tapia Moore (1911- 1980), ex-presidente da Sociedade Chilena de Sociologia, foi eleito presidente da ALAS. Os demais membros do Comitê Diretivo foram Georgina Gimenez de Lopes (Panamá), Odorico Pires Pinto (Brasil), Luis E. Valcarcel (Peru), e Isaac Ganón (Uruguai), Túlio Lagos Valenzuela, Maria Etina Olmedo (Paraguai), Gino Germani (Argentina) e Waldo Pereira (Chile). Em 1959, em Montevidéu, Uruguai, no V Congresso Latino-Americano de Sociologia, Isaac Ganon (1916 – 1975), professor de Sociologia na Universidade da República em Montevidéu, foi eleito presidente. O Comitê Diretivo foi formado por C. A. Campos Jimenez (Costa Rica), José Rafael Arboleda (Colômbia), José Agustín Silva Michelena (Venezuela). Ganon integrou o Comitê Executivo Provisório da International Sociological Association, no congresso constituinte da ISA (Oslo,1949).
Em 1961, em Caracas, Venezuela, no VI Congresso Latino-Americano de Sociologia, Rafael Caldera (1916 – 2009), presidente da Associação Venezuelana de Sociologia (1958 – 1966), professor na Universidade Central da Venezuela (1948 – 1968), e da Universidade Católica Andrés Bello (1953), foi eleito presidente da ALAS. No Comitê diretivo, participação de Orlando Fals Borda, como vice-presidente. Em 1964, no VII Congresso, realizado em Bogotá, Colômbia, presidido por Orlando Falls Borba, integrando o Comitê Diretivo na qualidade de vice-presidente foi eleito Anibal Quijano.
XXVIII Congresso da Associação Latino-Americana de Sociologia, coordenado por Paulo Henrique Novaes Martins de Albuquerque, atual vice-presidente da ALAS, debaterá, em Recife, de 6 a 11 de novembro de 2011, o tema “Fronteiras Abertas da América Latina”
Fim de hegemonia
Em 1967, no VIII Congresso da ALAS, em El Salvador, presidido por Edelberto Torres Rivas, o antropólogo brasileiro Manuel Diegues Junior é novamente eleito presidente. A partir desse congresso e da eleição de Manuel Diegues Junior à presidência da ALAS, desloca-se definitivamente a hegemonia da sociologia jurídica, e a ALAS começa a imprimir uma orientação mais crítica, intelectual e política no debate da produção sociológica. Diegues Junior, diretor do Centro Latino-Americano de Pesquisas em Ciências Sociais no Rio de Janeiro, foi eleito presidente após o poder institucional e a presidência por longos anos de Poviña. Os demais membros do comitê executivo foram Fals Borda, Tapia Moore, José H. Miguens, Antonio Donini e Alejandro Marroquin.
Em 1969, no IX Congresso da ALAS, no México, é eleito presidente Pablo Gonzáles Casanova, professor emérito da Universidade Nacional Autônoma do México. Presidiu a Associação Latino-Americana de Sociologia de 1969 a 1972 e de 1983 a 1985. E, em 1972, no X Congresso, realizado no Chile, Guillermo Briones, representante Internacional da UNESCO, consultor do Banco Mundial de Educação e da Cepal, professor titular da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade do Chile, foi eleito presidente da ALAS.
Em 1974, em San José da Costa Rica, no XI Congresso Latino-Americano de Sociologia, com intensos debates em torno da teoria da dependência, Daniel Camacho, professor emérito da Universidade da Costa Rica, foi eleito presidente da ALAS. No Equador, em 1977, o intelectual equatoriano Agustín Cueva (1937-1992), é eleito presidente durante o XII Congresso da ALAS. Foi professor e diretor da Escola de Sociologia de Quito (1967-1970), professor de Teoria Literária em Concepción, Chile (1970-1972) e catedrático da Universidade Nacional Autônoma de México (1973-1986). Exilado no México, durante longos anos, acabou por radicar-se nesse país. Foi casado com a socióloga brasileira Terezinha Bertussi, radicada no México. Em reconhecimento ao seu importante papel nas Ciências Sociais, a Flasco estabeleceu em 2004 o prêmio “Agustin Cueva” para o melhor trabalho de investigação social, como homenagem ao prestigioso intelectual equatoriano.
Em 1979, foi organizado no Panamá, o XIII Congresso da ALAS, e Marco Antonio Gandásegui, professor de sociologia da Universidade do Panamá, diretor-executivo do Centro de Estudos Latino-americanos (CELA) “Justo Arosemena” do Panamá, foi eleito presidente. No Comitê Diretivo da ALAS houve as participações de Márcia Rivera Hernandez, Beba C. Balve, Manuel Antonio Garreton. Em 1981, coordenado por Márcia Rivera Hernandez, ocorreu o XIV Congresso da ALAS, em Porto Rico, e Manuel Maldonado Denis (1933-1992) foi eleito presidente. Sua obra inclui-se entre os melhores livros de história e cultura de Porto Rico. Foi o vencedor do prêmio Casa de Las Américas de Cuba, pelo melhor ensaio produzido em 1976. Em 1983, ocorreu o XV Congresso da ALAS, em Manágua, Nicarágua, e Pablo Gonzalez Casanova foi eleito presidente. O Congresso foi presidido por Miguel de Castilla Urbina, presidente da Associação Nicaraguense de Cientistas Sociais, e a diretoria eleita foi constituida por Pablo Gonzalez Casanova (presidente), Miguel de Castilla Urbina (1º. vice-presidente), Orlando Fals Borda (2º. vice-presidente), Edelberto Torres Rivas, Manuel Garretón, Roberto Briceño Leon, Angel Quintero Rivera e Lais Abramo.
No Brasil, em 1986, no Rio de Janeiro, com intensos debates em torno da democracia na América Latina, efetivou-se o XVI Congresso, no qual o sociólogo e economista Theotônio dos Santos, professor da Universidade Federal Fluminense, foi eleito presidente da ALAS. Em 1988, no XVII Congresso, em Montevidéu, Gerónimo de Sierra, professor livre-docente do Departamento de Ciências Sociais da Universidade da República do Uruguai, foi eleito presidente da ALAS. No Comitê Executivo, as presenças de Luiz Suarez Salazar, Sergio Zemeno, Beba C. Balve, entre outros.
Alas e a Globalização
Nos anos 1990, e na primeira década do século 21, crescem os debates em torno da globalização, papel dos movimentos sociais, neoliberalismo, entre outros temas. Em 1991, Cuba foi sede do XVIII Congresso Latino-Americano de Sociologia, e Luiz Suarez Salazar, intelectual, escritor, investigador cubano no campo da sociologia, da história e das ciências políticas e Jurídicas, foi eleito presidente da ALAS.
Em 1993, foi realizado na Venezuela o XIX Congresso, e Heintz R. Sonntag, professor da Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais da Universidade Central da Venezuela, diretor do Centro de Estudos de Desenvolvimento (CENDES) de 1983 a 1987, foi eleito presidente da ALAS. No congresso seguinte, o XX Congresso da ALAS, realizado na cidade do México, em 1995, foi eleita presidente a socióloga Raquel Sosa Elizaga. Tem uma longa trajetória militante na esquerda socialista. Desenvolveu sua carreira profissional na Faculdade de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Autônoma do México, em particular no Centro de Estudos Latino-Americanos ao lado de extraordinários intelectuais, exilados das ditaduras do Cone Sul, como René Zavaleta, Agustín Cueva, Ruy Mauro Martini, Clodomiro Almeyde e outros.
Em 1997, no XXI Congresso, realizado em São Paulo, Emi Sader, atual secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais, foi eleito presidente da ALAS. No Chile, em 1999, na cidade de Concepción, vinte e sete anos depois do Chile sediar um congresso latino-americano de sociologia, é realizado o XXII Congresso da ALAS, e Eduardo Aquevedo Soto, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Concepción, é eleito presidente. Na Guatemala, em 2001, no XXIII Congresso da ALAS, Eduardo Velásquez Carrera, professor da Universidade de São Marcos da Guatemala, foi eleito presidente.
Em 2003, foi realizado em Arequipa, Peru, o XXIV Congresso da ALAS, e o professor Jordan Rosas Valdivia, decano da Faculdade de Ciências Históricas Sociais da Universidade Nacional de San Agustín de Arequipa e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, foi o eleito. No congresso seguinte, realizado na cidade de Porto Alegre, em 2005, José Vicente Tavares dos Santos, professor titular do Departamento de Sociologia e do programa de Pós-graduação em Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi eleito presidente da ALAS. E no ano de 2007, em Guadalajara, México, no XXVI Congresso, Jaime Preciado Coronado, professor e pesquisador do Departamento de Estudos Ibéricos e Latino-Americanos da Universidade de Guadalajara, foi eleito presidente da ALAS. O congresso seguinte, o XXVII da ALAS, foi realizado em 2009, na cidade de Buenos Aires, e Alberto Bialakowsky, pesquisador do Instituto Gino Germani, professor de Sociologia do Trabalho na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires, foi eleito presidente.
Por fim, cabe mencionar que vários sociólogos com participação na trajetória da ALAS ocuparam cargos públicos em seus respectivos países. Do grupo de fundadores da ALAS, Bossano e Paredes foram ministros no Equador; Arthur Rios foi secretário da Saúde no Brasil; Astolfo Tapia Moore teve um mandado parlamentar no Chile; e Rafael Caldera foi eleito duas vezes presidente da Venezuela (1969-1974, 1994-1999). Mais recentemente, Raquel Sosa Elizaga, que ocupou a presidência da ALAS de 1985 a 1987, foi secretária de Desenvolvimento Social (2000-2005) e secretária de Educação, Ciência e Cultura (2005-2006) do governo da cidade do México.
Referências
BLANCO, Alejandro. La Asociación Latinoamericana de Sociología: una historia de sus congresos, Sociologias, Porto Alegre, ano 7, no. 14, jul/dez 2005, p. 22-49.
CARVALHO, Lejeune Mato Grosso X. ; Mattos, Sergio Sanandaj. Sociólogos & Sociologia. História das suas entidades no Brasil e no mundo. Vol. I, Ssão Paulo: Editora Aanita Ggaribaldi, 2005.
MATTOS, Sérgio Sanandaj: Presença de Sociólogos brasileiros na ALAS. In: Revista Sociologia Ciência & Vida, n°. 17; São Paulo: Editora Escala, 2008, p.30-31.
POVIÑA, Alfredo. Nueva história de la Sociologia Latinoamericana. Córdoba:Imprenta de La Universidad Córdoba (R.Aa.), 1959.
SCRIBANO, Adrián. Orígenes de la Asociación Latinoamericana de Sociología: algunas notas a través de la visión de Alfredo Poviña, Sociologias, Porto Aalegre, ano 7, no. 14, jul/dez 2005, p.50-61.
TRINDADE, Helgio (Org.); GARRETÓN, Manuel Antonio;SIERRA, Gerónimo de; REYNA, José Luis; MURMIS, Miguel. As Ciências Sociais na América Latina em perspectiva comparada: 1930-2005, 2a ed., Porto Alegre: Editora da UFRGS/ANPOCS, 2007.
* Sérgio Sanandaj Mattos é sociólogo, professor e ex-diretor da Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo (ASESP). É co-autor do livro Sociólogos & Sociologia – História das suas entidades no Brasil e no mundo. E-mail: ss.mattos@uol.com.br
Fonte: Portal Sociologia ciências e vida.