RSS

Arquivo da categoria: Encontro de estudantes de Ciências Sociais do Norte e Nordeste

14º Encontro de Ciências Sociais do Norte e Nordeste

XIV Encontro de Ciências Sociais do Norte e Nordeste

 

Histórico 

O Encontro de Ciências Sociais do Norte e Nordeste, que se realizará em Recife, de 8 a 11 de setembro de 2009, está em sua 14ª edição. Há mais de 20 anos, pesquisadores(as) vinculados(as) aos Programas de Pós-Graduação em Ciências Sociais e centros de pesquisa das Regiões Norte e Nordeste do Brasil iniciaram uma experiência de articulação e difusão científica que se consolidou num encontro vibrante e representativo do que há de melhor na produção científica das duas regiões.

Esses grupos de pesquisadores(as) têm promovido encontros sistemáticos com o objetivo de reunir cientistas sociais e de áreas afins em torno de suas Linhas de Pesquisa, dando visibilidade à produção científica e aos resultados de suas pesquisas através do Encontro de Ciências Sociais do Norte e Nordeste (CISO).

Até 1990, os Encontros ocorreram anualmente. As dificuldades trazidas pela nova conjuntura daquela década levou a um pequeno hiato na sua realização e, a partir do VI Encontro, em Belém-PA, sua periodicidade passou a ser bi-anual.

O CISO (que somente passou a ser identificado por esta sigla – que abrevia “CIências SOciais” – a partir de 2001, na sua décima edição, em Salvador-BA) é um evento baseado na auto-mobilização de pesquisadores e instituições regionais, não havendo nenhuma estrutura organizacional promotora permanente. Chegamos à décima quarta edição deste Encontro, o que demonstra o potencial e a vitalidade das Ciências Sociais nas regiões Norte e Nordeste do país. Na organização do XIV CISO, todos os estados das regiões Norte e Nordeste foram mobilizados (através de seus cursos de pós-graduação reconhecidos pela CAPES, nas grandes áreas das Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas e vários centros de pesquisa) e a grande maioria está representada na Comissão Científica do evento. Trata-se de uma rede de produção da pesquisa social que ultrapassa o número de 50 programas e centros.

A ampliação da produção científica na área das Ciências Sociais resulta de amplos investimentos na formação e qualificação de seus pesquisadores nas últimas décadas.

Entendemos que a proximidade temática das pesquisas desenvolvidas pelos Programas de Pós-graduação faz do diálogo e do debate crítico entre os pesquisadores não só uma exigência mas, principalmente, um importante caminho para o crescimento e fortalecimento das Ciências Sociais no Brasil.

Os Encontros de Ciências Sociais do Norte e Nordeste (CISO) têm se constituído num efetivo espaço de troca e intercâmbio interinstitucional, consolidando as redes entre pesquisadores não só das regiões Norte e Nordeste, mas de todo o Brasil. Neste sentido, é importante registrar que apesar do CISO envolver majoritariamente pesquisadores(as) das regiões Norte e Nordeste, também conta com a participação de pessoas de outras regiões e países, em diferentes momentos de sua formação ou carreira profissional, excedendo, assim, o caráter de mais do que um Encontro Regional, na prática, um Encontro de caráter Nacional, e, em várias edições, até mesmo Internacional.

No caso do XIV CISO, o reforço da conexão latino-americana (não apenas em termos de participantes convidados, mas de ampla divulgação para captação de propostas de trabalhos a serem apresentados) será bastante enfatizado, de modo a ampliar o escopo e o alcance de seu impacto.

Tradicionalmente o CISO tem sido realizado a cada dois anos, sendo organizado pelas instituições de Pesquisa e Pós-Graduação, objetivando dar visibilidade à produção acadêmica na área. Por ocasião do XIII CISO, realizado em Maceió/AL, no ano de 2007, foi definido que a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em Recife, seria responsável pela organização do evento seguinte, e que se deveria estabelecer uma ampla parceria com as Universidades locais.

Neste sentido, foi construída uma parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco, a Universidade Federal de Pernambuco, a Faculdade Marista e a Universidade Católica de Pernambuco, de modo a viabilizar todas as dimensões da realização de um evento que na sua última edição já envolveu mais de mil participantes.

Os 13 Encontros anteriores e seus locais de realização:

I, Recife, 1986

II, João Pessoa, 1987

III, Natal, 1988

IV, Salvador, 1989

V, Recife (Fundaj), 1990

VI, Belém, 1993

VII, João Pessoa, 1995

VIII, Fortaleza, 1997

IX, Natal, 1999

X, Salvador, 2001

XI, Aracaju, 2003

XII, Belém, 2005

XIII, Maceió, 2007

Objetivos

O objetivo geral dos Encontros de Ciências Sociais do Norte e Nordeste, realizados desde a década de 1980, tem sido o fortalecimento dos Programas de Pesquisa e Pós-Graduação e centros de pesquisa destas duas regiões brasileiras, bem como o intercâmbio entre pesquisadores(as), de outras partes do Brasil e do mundo.

Os objetivos específicos podem ser definidos como:

a) Dinamizar e consolidar o intercâmbio interinstitucional, estreitando os laços entre pesquisadores de diversos Programas de Pós-Graduação e centros de pesquisa das regiões Norte e Nordeste, bem como de outras regiões do Brasil;

b) Promover a reflexão crítica sobre as questões sociais, econômicas, políticas e culturais das regiões Norte e Nordeste, assim como de outras regiões do Brasil e do mundo, particularmente em suas interrelações, com ênfase nos temas das desigualdades e da justiça;

c) Estimular a formação de redes de pesquisa que tenham como temáticas as problemáticas relacionadas às regiões Norte e Nordeste ou de interesse de pesquisadores(as) que aí vivem e trabalham;

d) Prover um espaço privilegiado para a divulgação e partilha de trabalhos teóricos e resultados de pesquisas realizadas por cientistas sociais das regiões Norte e Nordeste do país ou sobre estas;

e) Fomentar o envolvimento de jovens pesquisadores(as) da área das Ciências Sociais na produção do conhecimento.

f) Identificar experiências e alternativas que permitam o efetivo enfrentamento das desigualdades, em suas formas antigas e novas, de modo a aproximar a realidade social brasileira das expectativas de justiça projetadas pela democracia.

Ciso 2009

O tema do XIV CISO será “Desigualdade e justiça social: regiões, classes e identidades no mundo globalizado”. Trata-se de um eixo temático que busca estimular o enfoque crítico e o debate ético sobre o problema das desigualdades sociais, em suas “novas” formas ou aparências, e em suas dimensões territoriais/regionais, econômicas, políticas e culturais, em perspectiva sincrônica e diacrônica.

Nos anos recentes tem havido uma maior ênfase, tanto nos debates acadêmicos como no debate público, sobre a clara correlação entre a intensificação da lógica do mercado e das interconexões globais entre economias, sociedades e culturas, e o aumento das desigualdades.

As regiões Norte e Nordeste do Brasil, por quase todos os indicadores possíveis, surgem neste contexto como lugares de concentração de persistentes e gritantes desigualdades. Há termos de comparação e estereótipos fortemente associados a tais regiões que têm impedido de se perceber e enfrentar devidamente o problema, atentando-se para transformações realizadas e em curso que atestam a contemporaneidade dessas regiões com o mundo a sua volta, para bem e para mal.

O quadro geral no qual o Norte e o Nordeste brasileiro figuram sinaliza para um maior número de pessoas e países perdedores quanto aos resultados dos processos acima mencionados. Mas também aponta para a ativação de lutas distributivas e por reconhecimento, que não só se configuram como mas também questionam clássicas modalidades de constituição de atores coletivos e de subjetividades sociais e políticas.

Por meio destas lutas a vivência e a percepção das desigualdades têm sido associadas a questões de justiça, questionando as primeiras em nome de assimetrias, violências e discriminações que violam direitos e expectativas de direitos e politizam as demandas, ainda quando elas provêm de atores inesperados e sob formas não ou pouco convencionais.

Neste sentido, o sub-título do tema geral do Encontro assinala três dessas modalidades (regiões, classes e identidades) que, embora não necessariamente novas, assumem novas configurações, visibilidade e formas de articulação de demandas vis-à-vis as referências globais (que podem se expressar de várias formas, local, regional, nacional e internacionalmente). Assim, é necessário ao mesmo tempo reiterar sua relevância e por sob claro escrutínio formas tradicionais de compreendê-las e vivenciá-las. é necessário, num Encontro cuja principal forma de identifica ção remete a uma delimitação regional, projetar a compreensão desta para além de uma demarcação meramente territorial, permitindo assim perceber os múltiplos processos e atores que a cruzam.

Teremos ainda oportunidade de reunir reflexões em torno de problemas sociais e políticos vividos pela sociedade brasileira num mundo globalizado a partir das mais variadas e diferentes perspectivas teóricas e metodológicas. Tal pluralismo de práticas intelectuais é uma exigência, por um lado, de um mundo em que se disseminam os princípios democráticos da confrontação de idéias, valores e interesses, bem como da abertura intercultural à alteridade, e, por outro lado, de uma longa tradição associada à emergência das ciências sociais modernas como discurso crítico do e sobre o social.

Neste contexto,é importante reafirmar que as reflexões do XIV CISO visam contemplar não só problemas referentes às especificidades do Norte-Nordeste, mas, também, questões referentes à própria Teoria Social contemporânea.

A condição de relativa subalternidade dessas duas regiões no contexto brasileiro não as sujeita a restringir sua reflexão à descrição de problemas a serem resolvidos nem as priva de articularem um discurso teórico sobre o mundo mais abrangente no qual se definem e são definidas. O Encontro estimulará a produção de discursos em que especificidades e teorização se fertilizem e desafiem mutuamente, dando lugar a expressões de lutas distributivas e por reconhecimento também no interior do próprio debate acadêmico, reconfigurando sua geopolítica. Donde, mais uma vez, a importância de atrair pesquisadores(as) latino-americanos, nesta edição do Encontro.

Não há dúvidas de que os Encontros de Ciências Sociais têm cumprido a tarefa de dinamização e consolidação não só dos Programas de Pós-Graduação e centros de pesquisa como, também, dos Cursos de Graduação em Ciências Sociais. Será mantida, no XIV CISO, a possibilidade de apresentação de trabalhos de estudantes de graduação, sendo esta uma forma de despertá-los, desde cedo, para a importância da produção acadêmica estimulando, assim, o surgimento de novos(as) pesquisadores(as) na área de Ciências Sociais.

Grupos de Trabalhos que serão coordenados por professores da UFS

Título do GT: Grupos dirigentes, dinâmicas do poder e políticas públicas no Norte e Nordeste brasileiro

Coordenadores: Ernesto Seidl (UFS), Igor Gastal Grill (UFMA), Frank Nilton Marcon (UFS)

Resumo: O Grupo propõe-se a discutir perspectivas de investigação das Ciências Sociais debruçadas sobre processos em curso nas dinâmicas do poder e suas vinculações com a elaboração de políticas públicas nas regiões Norte e Nordeste do país. Dentro dessa temática, serão privilegiados debates tanto a partir de resultados de investigações quanto de elementos de caráter teórico e metodológico. Os principais eixos de interesse apresentados são os seguintes: transformações morfológicas do espaço do poder local e regional, recrutamento e seleção de elites e grupos dirigentes, estratégias e lógicas de disputa e de legitimação (eleitoral, discursiva etc.) em diferentes níveis, elaboração e implementação de políticas públicas, novas formas de encenação e rituais do poder.

Sessão 1:Competição eleitoral e seleção de elites

Coordenador: Ernesto Seidl (UFS)

Debatedor: Wilson Oliveira (UFPEL)

Sessão 2: Grupos dirigentes e políticas públicas

Coordenador: Frank Marcon (UFS)

Debatedor: Fernanda Petrarca (UFRGS)

Trabalhos dos alunos da UFS aprovados no encontro

ANTROPOLOGIA DO COTIDIANO DA POLÍTICA:

Autor: Vanderson De Gois Santos (Universidade Federal de Sergipe)

Resumo: Este estudo tem como objeto a análise das concepções, práticas e relações sociais estabelecidas em torno das atividades de dois gabinetes parlamentares – de uma vereadora de Aracaju (PT) e o outro de um deputado estadual (DEM). Dessa maneira, objetiva compreender os princípios sociais e culturais que orientam as práticas rotineiras, o recrutamento de funcionários, a rede social que se constitui em torno destas atividades e o significado atribuídos pelos agentes a essas práticas e as concepções de sociedade, de representação e de política elaboradas em torno dessas atividades. Utilizamos a observação direta para apreendermos não só as principais atividades desenvolvidas pelos assessores nos gabinetes; a relação entre os assessores no dia-dia, suas formas de trabalho; quem era as pessoas que chegavam até os gabinetes; os interesses / motivos de suas visitas; os tratamentos dos assessores concedidos aos visitantes, mas também, os sentidos construídos por esses agentes que atuam como elemento de orientação de suas ações na participação nas atividades rotineiras dos gabinetes. Além disso, tem-se o uso de entrevistas gravadas biográficas semi-dirigidas na tentativa de apreensão das respectivas inserções desses agentes por meio do estudo de suas respectivas trajetórias sociais. Procurou-se adotar, também, um princípio de reflexividade teórica baseada num uso reflexivo dos pressupostos da ciência social quanto as lógicas e mecanismos nos quais o espaço social é construído, assim como, o uso da autoria dispersa, na qual não existem sobreposições de interpretações, mas participações equivalentes na construção do sentido do texto e da re-constituição do universo investigado. Os resultados apontam para uma organização das atividades de gabinete como fruto, sobretudo, das relações estabelecidas entre os parlamentares e a população no período eleitoral.

Palavras-chave: gabinete, ações e sentido

“OFFICINA DE LUZ NA TERRA PROPAGADORA DAS LETTRAS”. ESFERA PÚBLICA, SOCIABILIDADE E CAPITAL POLÍTICO NO GABINETE DE LEITURA DE MARUIM/SE

Autor: Denio Santos Azevedo (UFS)

Co-autor: UFS , UFRN

Resumo: O cerne desta pesquisa consiste em analisar o Gabinete de Leitura de Maruim como um exemplo concreto de sociabilidade moderna e urbana em uma cidade caracterizada, na segunda metade do século XIX, pela produção do açúcar. Para tal, torna-se necessário situar os Gabinetes de Leitura no espaço e no tempo, desde suas origens européias, sua implantação na capital do Império e em diversas províncias no Brasil, até instalar-se na cidade de Maruim em Sergipe no ano de 1877. Segundo Chartier (1994), estas instituições devem ser analisadas como um dos componentes de uma “revolução cultural” com origem asiática, ainda no período medieval, mas com relevância e uma feição própria, somente a partir da segunda metade do século XVII na Europa, modelo que irá influenciar a criação destas instituições no Brasil. A partir dele e de outros autores (Bourdieu, Simmel, Habermas), procurar-se-á levantar os vários significados que envolvem essa instituição cultural, política e social, entendida como esfera pública, onde as novas formas de sociabilidade aparecem e as disputas de poder são marcas registradas na busca pelo capital simbólico, necessário para a construção da então sociedade liberal-republicana emergente. Situa-la como esferas que floresceram em núcleos urbanos de economia pujante, expressando não os valores da ordem escravocrata vigente, mas a nova realidade mundialmente imposta da mão-de-obra livre assalariada emergente, sintoma da reordenação da sociedade e do espaço urbano. O entendimento dessa instituição plural, veiculadora de idéias liberais e de atuação política, subsidia a compreensão do momento de transição brasileira, e a necessidade na construção de uma identidade nacional que se faz liberal e republicana, respondendo a questões pertinentes relativas à sociedade, educação e cultura do país, especialmente na segunda metade do século XIX, conseqüente democratização da cultura a partir da concretização dos objetivos. Busca-se com esta pesquisa analisar as relações de poder no seio dos Gabinetes na segunda metade do século XIX, percebendo o confronto entre a realidade local e as visões de mundo então contemporâneos, novos grupos sociais, projetos políticos em curso, ideários diversos em busca de uma relativa homogeneidade discursiva no seio destas esferas, espaço laico que se opunha ao domínio do sagrado, sua relação com a maçonaria, pretensamente democrático dentro de uma ordem escravocrata, manifestação urbana em solo ainda ruralizado, centelha de modernidade num universo arcaico, enfim um elenco de manifestações de um período de transição. Neste trabalho o Gabinete de Leitura de Maruim será entendido como sintoma das novas sociabilidades que aconteciam no Império, confirmando a existência de uma sociedade que se transformava e se problematizava, constituindo-se esta esfera pública pautada na difusão da cultura, um componente desta transição, quiçá um marco. A diversidade social anunciada espelha-se neste momento na cidade que abriga em seus limites o grande proprietário de engenhos de açúcar, os diversos cônsules, comerciantes variados, trabalhadores livres, políticos liberais e conservadores, maçons, mulheres, escravos, dentre outros. No Gabinete de Leitura encontramos todos reunidos. Lá então são identificados os agentes sociais que idealizaram e que mantinham a instituição, os ideais que os circundam, seus reais objetivos de tornar “civilizada” e incluir nos “trilhos do progresso” as sociedades locais “atrasadas” e “ruralizadas”. O olhar mais apurado sobre o Gabinete, ponto de reunião de “homens novos”, ora velhos conhecidos da agroindústria açucareira, que apresentava sinais de crise, ora monarquistas fervorosos, que percebiam a desestruturação deste sistema político, ora representantes dos grupos sociais em ascensão, médicos, advogados, dentre outros, que se queriam urbanos, representantes de momentos históricos diferenciados e de atmosfera irrequieta, permite resgatar as reais intenções de suas atuações. Entendendo ainda, como os Gabinetes de Leitura, chegaram ao Brasil, quais os seus propósitos e quais as transformações introduzidas nas formas de sociabilidade, destacando os novos ideais e procurando moldar as sociedades em questão. Do ponto de vista formal/usual o Gabinete de Leitura é uma instituição que aluga livros, jornais, revistas, dentre outros, por vezes até para a leitura domiciliar. Mas o estudo de um gabinete não é o estudo de uma Biblioteca, esta é apenas um componente do todo que corresponde a esta esfera pública. Além do que o conteúdo do acervo das instituições aqui pesquisadas era bastante diferenciado, principalmente sendo a Biblioteca Pública financiada pelos governantes do Império, as obras caracteristicamente eram selecionas pelos ideais monárquicos e católicos. No primeiro organizavam-se, debates literários e científicos, discursos eram proferidos e por vezes publicados, produziam-se periódicos, tinham estatutos próprios, sócios contribuintes e remidos, organizavam-se, saraus, colóquios, jogos de baralho, e com uma relação muito próxima com a maçonaria, dentre outros. A princípio já se pode diferenciar as Bibliotecas Públicas do século XIX com os Gabinetes na questão do empréstimo ou aluguel do livro ou dos periódicos, pois as instituições públicas proporcionavam também a consulta gratuita, mas somente em suas dependências. Com relação a sua criação no Brasil e na Europa os motivos são bastante diferenciados. “Na Europa, em particular na França, Inglaterra e Alemanha dos séculos XVIII e XIX, correspondeu à expansão do mercado livreiro, veio ao encontro de uma população ávida de leitura e, mais que isto, apaixonada pelo gênero romance, então florescente”. Portanto, organizavam-se como estabelecimento comercial, suporte de uma indústria livreira nascente e normalmente nas mãos de um proprietário, como um negócio. No Brasil o oposto, impressão e editoração incipientes, foram criados pelos detentores do capital econômico e político, de outras esferas públicas, geralmente de caráter filantrópico, e raramente com o apoio do mecenato estatal, eram regidos por estatutos próprios, com finalidades múltiplas, podendo locar ou emprestar os impressos disponíveis em seu interior. Por fim, compreender ainda se os detentores do capital econômico, oligarquia em crise ou representantes dos novos grupos sociais, e do capital político, liberais que se diziam oposição aos conservadores, mas que pertenciam à mesma classe econômica e queriam se adequar apenas à nova realidade republicana criaram, financiaram, dirigiram e ditaram os ideais que circundavam o Gabinete de Leitura de Maruim. Ao longo de sua história este possuiu a adesão de diversos agentes com capital intelectual, possuindo estreitas relações com o Estado já republicano, todos buscando um capital específico, o simbólico, e que a partir das práticas discursivas da educação, civilização e progresso, geraram novos espaços de democratização da cultura necessária para implementação do poder simbólico e para moldar a sociedade em questão sob a ótica de uma ideologia liberal e republicana.

MOVIMENTO NEGRO CONTEMPORÃNEO EM SERGIPE: RETÓRICAS DE IDENTIDADE, MOBILIZAÇÃO E RECRUTAMENTO.

Autor: Arivaldo Telles Montalvão (Universidade Federal de Sergipe)

Co-autor: Universidade Federal de Sergipe , Universidade Federal de Sergipe

Resumo: As práticas de mobilização, de recrutamento e as retóricas das identidades das diferentes formas de organização e expressão do movimento negro no Brasil, e particularmente em Sergipe, revelam um quadro interessante de novos referenciais de identificação e diferença no âmbito do fenômeno social de emergência de movimentos sociais de apelo étnico-racial. As diferentes organizações associativas que proclamam, através de seus representantes, alguma forma de identificação com a noção política “do ser negro” em Sergipe, passam por expressões do histórico movimento negro de conteúdo extremamente político, até articulações contemporâneas de auto-afirmação e reconhecimento a partir de manifestações culturais, levando a uma multiplicidade de perspectivas e a articulações muitas vezes não duradouras. As formas de organização do movimento social negro surgem no Brasil, a partir da necessidade da população negra de lutar contra o quadro de marginalização a que foi submetida, por isso os libertos instituíram no país grupos de mobilização racial. Para Petrônio Domingues (2007) o movimento negro se caracteriza por ter a “raça” como fator de mobilização determinante, na busca de resolver os problemas da população negra decorrentes do preconceito e da discriminação racial. Nos anos de 1930, quando se tem início a mobilização coletiva dos negros, tendo a frente à organização chamada Frente Negra Brasileira (FNB), a luta dos negros organizados era contra a segregação social e espacial dos negros, tendo um discurso nacionalista e integracionista, deixando de lado a defesa das formas culturais africanas (Guimarães, Antonio Sergio A., 1999), ou seja, o recrutamento e a mobilização feitos pela FNB eram baseados segundo Guimarães (2002) “na “cor” ou na “raça” e não na “cultura” ou nas “tradições”. De fato, a FNB buscava justamente afirmar o negro como brasileiro”. É somente nos anos 1950, que se ampliará a luta anti-racista no Brasil, tendo a frente o Teatro Experimental do Negro (TEN), atuante principalmente no Rio de Janeiro, pois a luta passa a se dar, de forma incisiva, contra a introjeção do racismo no meio negro, através da aceitação do ideal do “embranquecimento”, com a aceitação dos valores estéticos brancos e a detração da herança cultural africana (Guimarães, 1999). Ainda assim continua-se com um discurso nacionalista e integracionista, por meio das lideranças do movimento negro. O discurso nacionalista e integracionista predominante nos anos 1930 e 1950, esmorece após o período ditatorial e a reabertura democrática, nos anos 1980, já que a luta contra a segregação e a discriminação racial, e a luta pela recuperação da auto- estima do negro passam a ser interpretadas pelo ideário do multiculturalismo, valorizando a herança cultural africana, procurando desligá-la do sincretismo e das adaptações com a cultura nacional brasileira (Guimarães, 1999). Nesse período surge diferentes organização no movimento negro, de diferentes matizes ideológicas e políticas; com diferentes finalidades, destacando-se as entidades culturais, políticas, jurídicas e religiosas, tendo em comum a luta contra o racismo. Com a sua pluralidade, o movimento negro trás a cena brasileira uma política que alia luta por reconhecimento, identidade e cidadania redistribuitiva. (Guimarães, 2002) Em Sergipe, as organizações de movimentos sociais da população negra passaram a estar “organizadas de maneira diversa e constituídas a partir de processos e lutas históricas específicas em torno de idéias sobre um passado de cultura e de opressão comum”. Algumas dessas organizações constituem-se, a partir dos anos 1970, ganhando representatividade legal nas décadas seguintes. É o caso da “Sociedade afrosergipana de estudo e cidadania” (antes conhecida como União dos negros de Aracaju), a “Associação Abaô de Arte-educação e cultura negra”, o “Bloco Quilombo”, a “Organização Criliber”, a associação “Marias do Egito”, entre outras, como também a existência de várias organizações, principalmente religiosas e culturais não oficiais, sendo cada qual com seus objetivos sociais específicos e estruturados a partir de um senso de comunidade próprio. Por outro lado, a questão racial, segundo Paulo Neves (2000), tem pouca visibilidade em Sergipe, sendo quase invisível e toda vez que se pensa na temática se remete a políticas do governo federal ou a movimentos negros de outros estados, deixando de lado o nosso cotidiano. Isso é uma das explicações que o autor dá para que o Movimento Negro Sergipano praticamente não exista na forma de um verdadeiro movimento social, ficando restrito a entidades de baixa representatividade dando visibilidade apenas a seus membros e as suas idéias. Outro fator segundo Paulo Neves (2000) que pode explicar a apatia do movimento negro sergipano são as disputas ideológicas e disputas por espaços sócio-econômicos, que tornam a convivência entre diferentes organizações inviáveis dentro de um mesmo coletivo. Isto nos coloca diante de um fenômeno de pulverização das formas de organização, ao mesmo tempo em que nos coloca diante de diferentes formas de expressar seus anseios coletivos destas múltimas formas de organizar-se. O objetivo desse trabalho é a análise dos diferentes discursos de identidade e diferença entre as mais distintas formas de expressão dos movimentos sociais do negro em Sergipe, quais sejam: políticos, religiosos ou culturais, pensando as diferentes estratégias de mobilização e as retóricas de recrutamento político utilizadas por tais organizações no percurso das últimas duas décadas. Tal perspectiva propõe a análise crítica das formas de auto-inclusão de tais representantes num contexto de solidariedades e lutas por direitos na nação e através da nação ou a partir de retóricas de direitos humanos universais, mas a partir de especificidades da idéia de origem que se constitui a partir da nação.

ENGAJAMENTO E MILITÂNCIA ASSOCIATIVA-FILANTRÓPICA: UM ESTUDO SOBRE MILITANTES DIRIGENTES NA CAUSA DO CÂNCER EM SERGIPE

Autor: Raquel Santos Sousa (UFS)

Frases para depois do Informe:

“Temos sociólogos bons e medíocres. Uns acabam professores, outros presidentes da República – Herbert de Souza [Betinho]

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 560 other followers