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Arquivo da categoria: Economia da Saúde

A indústria dos planos de saúde contra Michael Moore

A indústria dos planos de saúde contra Michael Moore

Depois da realização do documentário “Sicko”, uma denúncia contra o sistema privado de saúde nos Estados Unidos, executivos de empresas de planos de saúde decidiram desencadear um plano contra o trabalho de Michael Moore. Um estudo recente da Faculdade de Medicina de Harvard indicou que quase 45 mil estadunidenses morrem anualmente (um a cada doze minutos) principalmente porque não têm seguro de saúde. Mas para o grupo de pressão das empresas, a única tragédia seria a possibilidade de uma verdadeira reforma do sistema de saúde. O artigo é de Amy Goodman.

Amy Goodman – Democracy Now

Michael Moore, ganhador do Oscar como melhor documentarista, faz excelentes filmes que, em geral, não são consideradas obras de suspense que gerem a sensação de estar “à beira do abismo”. Tudo isso poderia mudar a partir de uma denúncia feita por um informante do noticiário de Democracy Now, segundo a qual executivos de empresas de planos de saúde pensaram que talvez fosse necessário por em marcha um plano para “atirar Moore pelo precipício”.

O informante era Wendel Potter, ex portavoz da gigante dos planos de saúde Cigna. Potter mencionou uma reunião de estratégia industrial na qual se tratou do tema de como responder ao documentário “Sicko”, de Michael Moore, produzido em 2007, filme que critica a indústria de seguros de saúde dos Estados Unidos. Potter me disse que não estava seguro da gravidade da ameaça, mas acrescentou em tom inquietante: “Ainda que não tenham pensado em fazer isso literalmente, para ser honesto, quando comecei a fazer o que estou fazendo, temi por minha própria saúde e bem estar; talvez tenha sido paranoia, mas essas empresas jogam para ganhar”.

Moore ganhou um Oscar em 2002 com seu filme sobre a violência armada intitulado “Bowling for Columbine”. Logo depois fez “Fahrenheit 9/11”, um filme sobre a presidência de George W. Bush que se transformou no documentário de maior arrecadação na história dos Estados Unidos. Quando Moore disse a um jornalista que seu próximo trabalho seria sobre o sistema de saúde estadunidense, a indústria de planos de saúde tomou nota.

A associação comercial Planos de Seguro de Saúde dos Estados Unidos (AHIP, na sigla em inglês), principal grupo de pressão das empresas do setor, teve um enviado secreto na estreia mundial de “Sicko” no Festival de Cannes, na França. O agente saiu rapidamente da estreia e foi participar de uma teleconferência com executivos da indústria, entre eles Potter.

“Tínhamos muito medo”, disse Potter, “e nos demos conta de que teríamos que desenvolver uma campanha mais sofisticada e cara para conseguir rechaçar a ideia da cobertura de saúde universal. Temíamos que isso realmente despertasse a opinião pública. Nossas pesquisas nos diziam que a maioria das pessoas estava a favor de uma intervenção maior do governo no sistema de saúde”.

A AHIP contratou uma equipe de relações públicas, APCO Worldwide, fundada pelo poderoso escritório de advogados Arnold & Poter, para coordenar a resposta. A APCO formou o falso movimento de base de consumidores “Health Care America” para contrapor a prevista popularidade de “Sicko”, o filme de Moore, e para gerar medo em torno do chamado “sistema de saúde dirigido pelo governo”.

Em seu recente livro “Deadly Spin: An Insurance Company Insider Speaks Out on How Corporate PR is Killing Health Care and Deceiving Americans” (Giro mortal: um informante explica como as relações públicas das empresas de seguros estão acabando com o sistema se saúde e enganando os estadunidenses) Potter escreve que se encontrou “com um filme muito comovedor e eficaz na hora de condenar as práticas das empresas privadas de seguros de saúde. Várias vezes tive que fazer um esforço para conter as lágrimas. Moore conseguiu entender bem qual é o problema”.

A indústria de seguros anunciou que sua campanha contra “Sicko” havia sido um rotundo sucesso. Potter escreveu: “AHIP e APCO Worldwide conseguiram introduzir seus argumentos na maioria dos artigos sobre o documentário quando nenhum jornalista havia investigado o suficiente para descobrir que as empresas tinham fornecido a maior quantidade de dinheiro para a criação da Health Care America. De fato, todos, desde a cadeia de notícias CNN até o jornal USA Today, referiram-se a Health Care America como se fosse um grupo legítimo.

O jornal New York Times publicou um artigo, uma espécie de resenha de “Sicko”, na qual citava o porta voz da Health Care America dizendo que isso representava um passo na direção do socialismo. Nem esse jornalista, nem nenhum outro que tenha visto, tentaram tornar público que, de fato, este movimento estava financiado em grande medida pelas empresas de seguro da saúde.

Moore disse que Potter era o “Daniel Ellsberg dos Estados Unidos corporativo”, uma referência ao famoso informante do Pentágono cujas revelações ajudaram a por fim à guerra do Vietnã. A corajosa postura de Potter gerou um impacto no debate, mas a indústria dos planos de saúde, os hospitais e a Associação Médica Estadunidense continua debilitando os elementos do plano que ameaça os seus lucros.

Um estudo recente da Faculdade de Medicina de Harvard indicou que quase 45 mil estadunidenses morrem anualmente (um a cada doze minutos) principalmente porque não têm seguro de saúde. Mas para o grupo de pressão das empresas, a única tragédia seria a possibilidade de uma verdadeira reforma do sistema de saúde. Em 2009, as maiores empresas do setor destinaram mais de 86 milhões de dólares à Câmara de Comércio dos Estados Unidos para que esta se opusesse à reforma do sistema de saúde. Este ano, as cinco maiores seguradoras do país aportaram uma soma de dinheiro três vezes maior tanto para candidatos republicanos como para democratas com a intenção de fazer retroceder ainda mais a reforma da saúde. O representante democrata por Nova York, defensor do sistema de saúde público, declarou no Congresso que “o Partido Republicano é uma subsidiária que pertence por completo à indústria de seguros”.

“Provavelmente estarão a favor da retórica das empresas privadas quando afirmam que necessitamos ter mais ‘soluções baseadas no mercado’ (como eles dizem) e menos regulações, que, sem dúvida, são o tipo de coisa que os republicanos vão tratar de conseguir porque regulação é o que essas empresas não querem”, disse Potter.

A indústria de seguros da saúde não está desperdiçando seu dinheiro. Moore disse: “Neste informe estratégico compilado pelas empresas acerca do dano que “Sicko” poderia ocasionar, há uma linha que basicamente diz que no pior dos casos o filme poderia desencadear um levante populista contra as companhias. Essas empresas, em 2006 e 2007, já sabiam que os estadunidenses estavam fartos das empresas de seguros com fins lucrativos e que um dia o povo poderia se levantar e dizer ‘isto terminou’. Este é um sistema enfermo: permitimos que as empresas lucrem a nossa custa quando ficamos doentes!”

Isso é estar doente de verdade.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

A medicina que está aí pode ser humanizada?

A medicina que está aí pode ser humanizada?

Entrevista especial com Roberto Passos Nogueira

“O que nós temos hoje é uma medicina que não é do homem, mas do ser vivo. Há uma naturalização da pessoa humana”, explica o médico.

Confira a entrevista.

“É possível uma medicina do homem?” Essa foi a questão central trazida pelo doutor em Saúde Coletiva Roberto Passos Nogueira durante o minicurso que proferiu no XI Simpósio Internacional IHU: o (des)governo biopolítico da vida humana. E ele responde: “É que a medicina que temos hoje é fundamentada em questões e métodos que se aplicam tanto ao animal quanto ao homem. Há diferenças entre medicina veterinária e medicina humana, mas seus pressupostos são os mesmos”. Na entrevista que concedeu à IHU On-Line, realizada pessoalmente logo após a palestra, Nogueira fala sobre a compreensão atual sobre a medicina do homem e também sobre os caminhos que podemos tomar para uma busca efetiva pela saúde humana.

Roberto Passos Nogueira é graduado em Medicina pela Universidade Federal do Ceará. Fez mestrado e doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente, é pesquisador associado da Universidade de Brasília. É técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA. Entre seus livros, destacamos: La Salud que Hace Mal, Un estudio alrededor del pensamiento de Ivan Illich (Buenos Aires: Lugar Editorial, 2008) e Do Físico ao Médico Moderno, A Formação Social da Prática Médica (São Paulo: Editora UNESP, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line Como podemos, atualmente, entender a medicina do homem? É possível e necessária uma outra compreensão desta medicina?

Roberto Passos Nogueira – Na verdade, o que nós temos hoje é uma medicina que não é do homem, é uma medicina do ser vivo, ou seja, considera-se o homem com o mesmo estatuto que os outros animais e as plantas. Estuda-se a anomalia dos órgãos, dos tecidos e as anomalias genéticas do mesmo modo, tanto para o homem como para os animais e as plantas. Isto é uma naturalização do homem. A medicina que existe hoje retrata a evolução do pensamento científico do século XVIII para cá. Ela criou uma compreensão da saúde e da doença que não é humana. O que eu procurei fazer na minha palestra foi indicar, a partir do pensamento de Heidegger [1], como é que poderia ser uma nova medicina que partisse da compreensão do que é a saúde do homem, como diz Dasein [2], e o que é o fechamento do homem que se dá na doença como uma forma de privação de mundo.

IHU On-Line – O que há de não humano nessa compreensão/determinação objetal da doença?

Roberto Passos Nogueira – Quando consideramos o homem como um conjunto de objetos normais ou anormais, reduzimos cada um dos órgãos, dos tecidos e células a entidades que podem ser avaliadas de acordo com esse critério de normalidade. Nós estamos passando por um crivo que se aplica a qualquer ente natural e, nesse sentido, o próprio comportamento humano é avaliado para saber se nós temos uma doença ou não, de acordo com os padrões esperados de conduta que se tornam objetos. Toda doença, seja mental ou física, é descrita como objeto normal, apenas no caso da doença mental, no que há de particular, é que se descreve um comportamento anormal, característico.

IHU On-Line – O que é ser doente enquanto homem e não enquanto organismo?

Roberto Passos Nogueira – Nós temos que partir para esta pergunta daquilo que é o homem e, naturalmente, aqui estamos seguindo a interpretação heideggeriana de que o homem é essencialmente um ser livre e aberto. Ser livre, no sentido de que ele não é causado, como é qualquer outro corpo da natureza, pode ser produzido, movido por causas. O homem sempre escolhe, na condição de escolher e ele responde a motivos e não a causas. O comportamento humano é sempre um comportamento livre diante daquilo que se lhe apresenta, na compreensão daquilo que se lhe apresenta, enquanto que os animais reagem somente a estímulos. A doença do homem, nessa condição em que se parte da compreensão do homem como ser livre e aberto, é que se trata de um fechamento do Daisen e uma perturbação da relação do Dasein com o mundo, no sentido de fazer com que ele não se mova com liberdade no seu cotidiano.

IHU On-Line – Quais são os caminhos para uma busca efetiva pela saúde humana?

Roberto Passos Nogueira – Os caminhos efetivos são difíceis de serem assinalados nesse momento, porque há muito poucas pessoas interessadas no assunto. No entanto, há uma sede muito grande por parte dos médicos, por parte de vários setores da saúde coletiva, por exemplo, de encontrar caminhos, novas interpretações que levem a uma medicina do homem. Não uma medicina humanizada, porque, por exemplo, o Ministério da Saúde tem uma política de humanização do SUS, mas o que nós queremos perguntar é se a medicina que está aí, se ela pode ser humanizada? No máximo, ela pode levar a uma relação de etiqueta mais adequada entre o médico e o paciente, de acordo com as normas da bioética e coisas semelhantes. No entanto, essencialmente, a medicina que existe hoje é uma medicina que trata o homem como objeto, como algo não humano, então essa humanização ela é apenas cosmética. Eu não quero desvalorizar essa humanização, porque quem está doente, sendo bem tratado, bem cuidado, já é um grande avanço, porque o que nós vemos aí na maioria das vezes, nos hospitais e nos centros de saúde, é algo que choca a nós, que estamos examinando, e deprime o próprio paciente. Não quero ser contra a política de humanização, quero indicar apenas, os seus limites que estão dentro da própria concepção e da estrutura da medicina.

Notas:

[1] Martin Heidegger foi um filósofo alemão, considerado um dos pensadores fundamentais século XX. Sua intenção é fazer uma recolocação do problema do ser pela refundação da Ontologia, que atribui ao conhecimento da tradição filosófica e cultural.

[2] Até o final da década de trinta, a leitura da filosofia de Heidegger estrutura-se sobre conceitos como Dasein (o ser-aí ou o ser-no-mundo), morte, angústia ou decisão. O Dasein é o ente que em cada caso propriamente questiona e investiga. É também o Dasein que detém a possibilidade de enunciar o ser, pois é ele que tem o poder da proposição em geral. Daí que na questão acerca do sentido de ser seja fundamental começar por abordar o ser deste ente particular. E tem que ser o próprio Dasein a fazer isso, tem que ser ele próprio a mostrá-lo, a partir de uma análise fenomenológica esclarecida.

 

Fonte: IHU

Pesquisadores brasileiros lançam livro sobre Economia Política da Saúde

Pesquisadores brasileiros lançam livro sobre Economia Política da Saúde

Economia Política, Trabalho e Conhecimento em Saúde. É este o título do livro lançado no início do mês de dezembro por César Ricardo Siqueira Bolaño e Luiz Marcos de Oliveira Silva, que organizaram uma coletânea de artigos escritos por pesquisadores do campo da Economia da Saúde. Na obra, a saúde é discutida dentro de uma perspectiva histórica, considerando as transformações técnicas e sociais do processo produtivo e o ambiente político-econômico em que se inserem.O livro, publicado pela Editora UFS, prioriza os estudos teórico-conceituais e empíricos sobre a relação existente entre saúde e capitalismo, na perspectiva da economia política, com análises sobre os processos de produção e consumo na área da saúde, utilizando como referência os determinantes macroeconômicos e a dinâmica deste mercado no Brasil. Na oportunidade, também é destacada a questão da comunicação e da informação em saúde, dada a importância de ambas para a Economia do Conhecimento.De acordo com Luiz Marcos de Oliveira, os custos da publicação foram divididos entre o Programa Editorial da Universidade Federal de Sergipe, a Fundação Oviêdo Teixeira e os próprios autores. “O resultado deste investimento é a materialização das informações e resultados de pesquisa na área da Saúde, possibilitando a análise da situação atual e sugerindo novas possibilidades de encaminhamento das políticas públicas para o setor. Dividimos o livro em três partes – uma que trata da dinâmica de acumulação do setor de Saúde, outra sobre a Economia do Conhecimento e Inovação em Saúde e uma terceira a respeito do trabalho médico e estrutura ocupacional na área”, diz.

“A obra traz discussões desde a temática da mercantilização da saúde, reestruturação produtiva e transição tecnológica até a abordagem funcional e os sistemas de informação, comunicação e produção de conhecimento em saúde. Alguns textos avaliam a proteção social nos países avançados, os processos de trabalho no setor e a capacidade regulatória da formação médica. Temos ainda um estudo de caso dos serviços de saúde no Nordeste e em Pernambuco”, ressalta César Bolaño.

Além dos organizadores, integram a equipe responsável pela autoria dos artigos Ana Luiza d’Ávila Viana, Hudson Pacífico da Silva, Paulo Eduardo M. Elias, Emerson Elias Merhy, Túlio Batista Franco, Isaac Epstein, Denise Pires, Eduardo Raupp de Vargas, Paulo Antônio Zawislak, João Policarpo R. Lima, Abraham Benzaquén Sicsú, Fernando Augusto Mansor de Mattos, Rosa Amélia Andrade Dantas, Célia Regina Pierantoni, Thereza Christina Varella e Tânia França.

Retirado do sítio Eptic Saúde

Ementa de Economia da Saúde

Economia da Saúde

Ementa: O objetivo do curso é analisar as questões relevantes no setor de saúde sob a perspectiva econômica. O curso está dividido em três partes.

A primeira parte apresenta os elementos fundamentais da teoria econômica para analisar o mercado de serviços de saúde e inclui o estudo de tópicos como a produção de serviços de saúde, perigo moral, a disponibilidade para pagar e a mensuração do valor da vida.

A segunda parte trata da questão da saúde pública, do mercado de seguros de saúde da tecnologia.

A terceira parte e última aborda o estudo das instituições que atuam no mercado de serviços de saúde.

Programa

1. Uma visão geral da economia da saúde

2. Produção, demanda dos serviços de saúde perigo moral à pagar

3. Saúde pública, epidemiologia e economia política

4. Bens públicos: o caso das doenças infecciosas

5. O mercado de seguros de saúde e o problema da seleção adversa

1. Regulação, particularidades institucionais do setor de saúde e demanda induzida pela oferta.

Avaliação

A avaliação do curso será feita através de uma prova escrita e um trabalho individual. O trabalho individual poderá constituir-se de uma aplicação dos conceitos utilizados ao caso brasileiro ou de um estudo bibliográfico aprofundado de tópicos de interesse para a disciplina. O aluno deverá propor o tópico do trabalho ao professor que avaliará sua adequação ao curso.

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