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Arquivo da categoria: Dicas de leitura em Sociologia

As Ciências sociais na escola

 

As Ciências sociais na escola

Autor(es): Maria Teresa Nidelcoff

Editora: Brasiliense

Área(s): Ciências Sociais

Páginas:174 pág.

Descrição: Depois das propostas inovadoras de Uma Escola para o Povo e A Escola e a Compreensão da Realidade, a educadora argentina conhecida internacionalmente Maria Teresa Nidelcoff desenvolve agora metodologias ativas para o ensino sas Ciências Sociais. Dirigido aos professores de 1º e 2º graus, aqui ela propõe a introdução de atividades didáticas como o estudo de História através da realidade imediata, da poesia como forma de aprendizado, e da procura do autoconhecimento e da auto-expressão. Sem a pretensão de criar modelos, Maria Teresa Nidecoff abre espaços à imaginação e à criatividade dos professores.

Revolução e democracia em Marx e Engels

Revolução e Democracia em Marx e Engels

Por: Francisco Conte

capa do livro

As investigações acerca do lugar ocupado pela democracia no pensamento marxista tornaram-se ainda mais agudas com a débâcle do chamado socialismo realmente existente. Jaques Texier é, ao mesmo tempo, protagonista e tributário deste rico debate.

Um dos maiores divulgadores do pensamento gramsciano na França, Texier não acredita que o fim da União Soviética possa por em xeque o projeto socialista, embora tenha deslocado aquele marxismo que, construído entorno de certa leitura da Revolução de Outubro, não concebe a revolução social como radicalização da democracia.

Mergulhando em textos de Marx e Engels, alguns dos quais, como a Introdução de Engels à obra As lutas de classes na França, receberam pouca atenção até agora, Texier leva a cabo uma rigorosa pesquisa filológica – para qual a contribuição dos Cadernos do Cárcere é evidente – em que resgata a dicção visceralmente política desses autores que, apesar de certas nuances e insuficiências, se mostra profundamente democrática. Sublinha que tanto em Marx como em Engels a temática da democracia está articulada a da revolução; mas não se instaura aqui qualquer oposição, pois se trata de conquistar ao mesmo a democracia e o comunismo. Nem se pode afirmar – como acrescenta Texier na contramão de outras análises – que Marx e Engels tenham jamais abandonado a possibilidade de a revolução socialista se realizar de maneira pacífica em países de democracia consolidada.

O livro, o primeiro de Texier publicado no Brasil, está destinado – tanto pelos temas que enfrenta como pelas contribuições que suscita – a despertar um interesse que ultrapassa marcos estritamente acadêmicos.

Fonte:UFRJ

Editora: UFRJ

Ano: 2006

Tradução: Duarte Pereira

Coleção Pensamento Crítico

Livro desvenda a atualidade do pensamento de Karl Marx

Livro desvenda a atualidade do pensamento de Karl Marx

Em novembro de 2006, o Centro de Estudos Marxistas (Cemarx) da Universidade do Estado da Bahia realizou seu segundo seminário com o tema “Marx: intérprete da modernidade”. O evento reuniu uma série de pesquisadores e estudiosos da obra de Karl Marx e buscou examinar seu pensamento de forma multilateral. Com a contribuição de Mauro Castelo Branco de Moura, Carlos Zacarias F. de Sena Jr, Muniz Ferreira, José Carlos Ruy, Ricardo Moreno, Eurelino Coelho, Sérgio Lessa, Antonio Carlos Mazzeo, Milton B. de Almeida Jr e Milton Coelho,o debate foi reunido e publicado no livro Marx: intérprete da contemporaneidade, publicado pela Quarterto Editorial, de Salvador e que será lançado no próximo dia 30, às 19 horas, na Livraria Cortez, em São Paulo.

Karl Marx foi eleito o maior filósofo de todos os tempos em uma pesquisa da emissora de rádio e televisão BBC, de Londres, entre os internautas. A emissora britânica anunciou, no dia 16 de julho de 2005, o resultado final da pesquisa realizada por um dos seus sítios, denonimana In our time´s greatest philosopher, para eleger o maior filósofo da humanidade.

Na enquete, o resultado final colocou Marx em primeiro lugar, com 27,93% dos votos. Isto é, quase um de cada três participantes escolheru Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em segundo lugar, com 12,7%, menos da metade dos votos recebidos por Marx, aparece David Hume, o candidato da The Economist. Ludwig Wittgenstein, o candidato do jornal The Independent, aponta em terceiro lugar, com 6,8% e o quarto lugar é ocupado por Nietszche, com 6,49% dos votos. Platão recebeu 5,65% dos votos e ficou em quinto lugar. Depois, pela ordem Kant (candidato do diário britânico The Guardian), São Tomás de Aquino, Sócrates, Aristóteles e, finalmente, Karl Popper.

Marx formulou as teorias que basearam o socialismo moderno. O seu método de análise da sociedade e da natureza influenciou ramos do conhecimento como a história, a sociologia, a economia e a ciência política. Marx deu forma às suas idéias em livros como O manifesto comunista, O capital, A ideologia alemã, A miséria da filosofia, entre outros.

Influenciado pela dialética hegeliana rejeitou seus componentes idealistas e a reelaborou sobre novas bases filosóficas materialistas. Dessa forma, a dialética materialista de Marx se diferenciou tanto dos materialistas metafísicos e/ou mecanicistas do seu tempo, quanto dos dialéticos idealistas da própria escola hegeliana na qual se formou filosoficamente. Seu método investigativo buscava compreender a realidade concreta a partir da totalidade de fatores e a diversidade de relações entre estes, sendo, no entanto, o econômico determinante em última instância.

A apropriação política das idéias de Marx norteou os chamados movimentos revolucionários do século 20, tornando-o o pensador mais influente de todo aquele século. A sua obra segue sendo um instrumento fundamental para a compreensão do mundo contemporâneo. Em função disso a articulação acadêmica Cemarx resolveu realizar o seminário ”Karl Marx: intérprete da contemporaneidade”, visando trazer reflexões e debates acerca da contribuição marxiana e marxista para a produção acadêmica. O produto do seminário é o debate que está publicado no livro.

O seminário teve a presença massiva dos nossos estudantes, funcionários, colegas professores, militantes dos movimentos sociais e partidos da esquerda crítica do capitalismo. O evento contou também com o apoio da universidade, do Departamento de Educação do campus 2 e da participação (na coordenação) do professor Ricardo Moreno, também da Uneb (representanto o Instituto Maurício Grabois), além da presença, também na coordenação, do professor Muniz Ferreira, do programa de pós-graduação em história da UFBA.

As refexões contidas no amplo debate realizado publicadas nos artigos dos conferencistas contribuem para fazer avançar as lutas sociais que estão construindo no processo histórico a emancipação humana.

Serviço:
Lançamento Marx: intérprete da contemporaneidade
30 de abril, às 19 horas
Livraria Cortez
Rua Bartira, 317 – Perdizes – São Paulo
(ao lado da PUC/SP)

Elaboração de Projetos Sociais – 39ª Edição – São Paulo – SP

Elaboração de Projetos Sociais – 39ª Edição - São Paulo – SP


Objetivo: O curso visa contribuir para o aprimoramento de técnicas em Elabotação de Projetos Sociais.


Público Alvo: Profissionais que atuam na área da assitência social, gestores e profissionais de organizações do terceiro setor, estudantes e profissionais envolvidos em projetos sociais.
Datas:
08, 15,*22 e 29 de maio de 2010 (aos sábados).
( * )
Sendo que nos dias 08, 15 e 29 de maio de 2010 (datas com aulas presenciais) e no dia *22 de maio de 2010 , atividade não presencial com assessoria por e-mail (acompanha anexos de exercícios).
Horário: 08h30 as 17h:30
Carga Horária: 32 horas.
Local: IMAM – Inovação e Melhoramento na Administração Moderna <>
Rua Loefgreen, 1400 – Vila Mariana – São Paulo – SP.
(Próximo a Estação Santa Cruz do Metrô).

Investimento: R$ 522,00 (quinhentos e vinte e dois reais).

Para pagamentos divididos em 03 Parcelas:
1ª Parcela: R$ 174,00 (cento e setenta e quatro reais).
Banco: Caixa Econômica Federal – Agência: 4128 – C/C: 003.00.000.182-3
2ª Parcela: R$ 174,00 (cento e setenta e quatro reais) – Cheque para 30 dias.
3ª Parcela: R$ 174,00 (cento e setenta e quatro reais) – Cheque para 60 dias.

Para pagamentos divididos em 04 Parcelas:
1ª Parcela: R$ 140,00 (cento e quarenta reais).
Banco: Caixa Econômica Federal – Agência: 4128 – C/C: 003.00.000.182-3
2ª Parcela: R$ 140,00 (cento e quarenta reais). – Cheque para 30 dias.
3ª Parcela: R$ 140,00 (cento e quarenta reais). – Cheque para 60 dias.
4ª Parcela: R$ 140,00 (cento e quarenta reais). – Cheque para 90 dias.

Desconto de 10% para para três ou mais inscrições pertencentes à mesma instituição.

Incluso : Material didático, Coffee Break e Certificado.
Informações e Inscrições: (11) 2283-5838
E-mail:perspectivasocial@perspectivasocial.com.br
Vagas Limitadas

Metodologia: O curso será desenvolvido em forma de oficina para possibilitar aos participantes maior interação com os conteúdos aplicados.

Conteúdo Programatico:

  • Diagnostico para identificação do Publico Alvo.
  • Breve Histórico.
  • Refencial Teórico.
  • Justificativa.
  • Público Alvo.
  • Objetivos: Geral e Específico.
  • Impactos dos objetivos específicos.
  • Metas.
  • Metodologia.
  • Equipe Técnica.
  • Plano de Trabalho:
    • Cronograma de Atividades.
    • Orçamento Físico.
  • Processo de Avaliação.
  • Indicadores de Resultados.
  • Cronograma de Atividades para Avaliação.
  • Carta de Encaminhamento a Patrocinadores.
  • Considerações finais.

Assessores:

Divaneide Alves – CRESS 37.155 – 9ª Região – São Paulo – SP.

  • Pós-Graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Universidade Bagozzi – Curitiba – PR.
  • Graduada em Serviço Social pela PUC – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – SP.
  • Coordenadora Municipal da Área da Assistência Social do Programa Federal – ProJovem com Trabalho Interdisciplinar; Elevação de Escolaridade, Orientação para Qualificação Profissional e Desenvolvimento de Ações Comunitárias – Guarulhos – SP.
  • Consultora pela Perspectiva Social – Consultoria & Assessoria em :
  • Gestão em Desenvolvimento de Projetos Sociais no Terceiro Setor.
  • Assessora em Serviço Social.

Professor Carlos Gaia.

  • Pós-Graduado em Sócio-Psicologia – Análise de Fenomenos Sociais pela FESPSP – Fundação Escola de Sociologia e Política em São Paulo – SP.
  • Graduado em Filosofia Pela – USF – Universidade de São Francisco.
  • Consultor em Desenvolvimento Social pela Perspectiva Social – Consultoria & Assessoria Ltda.
  • Presidente do Instituo GHAYA para o Desenvolvimento Humano.
  • Coordenador de Grupos de Estudos – Homem e Sociedade ( Espaço Lógos – Perspectiva Social ).


Para se inscrever neste curso, preencha o nosso formulário de INSCRIÇÃO


Outros Cursos :

Gestão Social: Desenvolvimento Comunitário – São Paulo – SP.

Elaboração de Projetos Sociais – Campinas – SP.


Realização:

Perspectiva Social – Consultoria & Assessoria Ltda.
Desenvolvendo Ambientes & Aprimorando Pessoas.
Telefone : ( 11 ) 2283-5838
www.perspectivasocial.com.br

*A Coordenação do evento reserva-se ao direito de transferir para uma próxima data ou de cancelar o programa, caso não atinja o numero mínimo de participantes.


Copyright © 2009 – Perspectiva Social – Consultoria – Todos direitos Reservados.

Adolescente que conhece suas origens é agente político

Adolescente que conhece suas origens é agente político

Música, poesia e desenhos de alunos de escolas públicas podem torná-los sujeitos políticos da sociedade

Fonte: Agência USP

Nas salas de aula de uma escola pública em São Paulo, os alunos não são ensinados a relacionar o conteúdo dos livros à história de sua própria comunidade. Por conta disso, não se sentem pertencentes à humanidade, facilitando a aceitação de rótulos e estigmas como o de “favelado qualquer”. Apesar disso, uma pesquisa realizada na Faculdade de Educação (FE) da USP demonstrou o quanto é possível mudar esse quadro utilizando o que é produzido cotidianamente pelos estudantes, como a música, a poesia e os desenhos, para que eles mesmos identifiquem os elos com seus antepassados. Ao fazerem isso, são capazes de se afirmarem como verdadeiros sujeitos políticos “da sociedade” e “na sociedade”.

A psicanalista Maíra Ferreira, autora da dissertação A rima na escola, o verso na história: um estudo sobre a criação poética e a afirmação étnico-social em jovens de uma escola pública de São Paulo , aponta a escravidão como a “barbárie brasileira”, cujas consequências ainda subjulgam a sociedade, principalmente quando o assunto é pobreza, discriminação e afirmação étnico-social. Com esse olhar, ela estudou durante dois anos uma turma de 30 alunos, amantes do rap, da sétima série de uma escola pública da favela Real Parque, localizada no Morumbi. De 2 a 3 vezes por semana, observava os alunos, conversava com eles e, junto a alguns professores, passou a intervir em sala de aula.

No início de seu trabalho na escola, a psicanalista percebeu que nos tempos vagos entre as aulas, algo comum no dia-a-dia das escolas públicas em todo o Brasil, os adolescentes rimavam, improvisavam e desenhavam com muita facilidade, demonstrando a capacidade crítica inclusive com os temas escolhidos em suas artes. Além disso, o dom da oralidade também chamou atenção da pesquisadora. Contudo, ao mesmo tempo em que apresentavam tão rica manifestação cultural, recusavam suas origens no ambiente escolar.

Segundo Maíra, essa recusa denuncia a “presença e permanência de políticas discriminatórias brasileiras desde a época dos cativeiros”. A escola, ao não reconhecer e contextualizar a importância da história da comunidade que atende, e não relacioná-la com o presente dos alunos, “perpetua a formação social e cultural do preconceito brasileiro”.

O Nordeste e o Hip Hop

Na sala de aula, a pesquisadora mostrou aos alunos as relações entre a capacidade de rimar e improvisar do rap, um dos elementos do Hip Hop, e as produções culturais do cordel e dos repentes nordestinos. Tratando-se da Favela Real Parque, os estudantes são herdeiros culturais das famílias afro-brasileiras e indígenas Pankararu, oriundas do sertão de Pernambuco, que migraram a partir da década de 1950 para São Paulo principalmente para trabalharem na construção do Estádio do Morumbi.

Em busca dessas evidências de relação entre culturas, Maíra viajou para o Nordeste, para a região do Brejo dos Padres em Pernambuco, onde pesquisou o cordel e os repentes sertanejos como a cantoria de viola e o coco de embolada, expressões claras da tradição da oralidade, tão marcante no rap dos estudantes. Com uma filmadora na mão Maíra andou pelas ruas nordestinas ouvindo e gravando declamações espontâneas: improvisos poéticos de farmacêutico, sapateiro, manicure, dentista, padre, crianças e idosos. “Em uma cidade chamada São José do Egito (PE) ouvi o seguinte ditado: Aqui quem não é poeta é louco e quem é louco faz poesia”, disse a pesquisadora.

Segundo a psicanalista, mesmo diante da violência social, a miscigenação étnico-social brasileira apresenta sua resistência: “das rodas de jongos e capoeria aos improvisos dos repentes e do rap está o movimento de resistência, apropriação e criatividade frente às políticas de discriminação existentes desde a escravidão”. Essa constatação é a prova de que durante a história do País não houve aniquilação da cultura dos povos que sofreram com tais políticas, e sim recombinação, reinvenção, recriação, ou seja, está aí um outro tipo de “marca humana” – no caso, o desejo de construir e não o de destruir.

Contudo, a “atualidade da escravidão brasileira” ainda aparece no cotidiano do brasileiro. De acordo com a pesquisadora, “a formação social brasileira está longe de elaborar e superar esse trauma que permeia as instituições de ensino e os espaços jurídicos do País”. Para isso, é essencial e possível ensinar aos alunos que eles podem e devem “atualizar as suas tradições” a fim de se apropriarem do passado, para construírem seus projetos futuros. Aliás, um dos alunos traduziu muito bem o pensamento de Maíra: “Já sei, professora. É pegar carona na tradição”.

A dissertação foi defendida no dia 4 de agosto de 2010, orientada pela professora Mônica do Amaral, e pode ser acessada neste link.

Trabalho no mundo virtual

Trabalho no mundo virtual

A “degradação real do trabalho virtual” descrito no livro Infoproletários

Paulo Eduardo Alves Camargo-Cruz*

Shutterstock

Lançado pela Boitempo Editorial no final do ano de 2009, o livro Infoproletários – degradação real do trabalho virtual, insere se na categoria dos livros que – no campo da sociologia do trabalho – vem para desnudar as condições e as relações de trabalho do setor de telemarketing e demonstrar o modo como a exploração dos trabalhadores sobrevive. Os artigos reunidos no livro expõem a subjetividade que é intrínseca ao setor, um dos quais a sociedade – levada por um senso comum – dirige severas críticas.
O setor de telemarketing é um dos que mais crescem nos indicadores do mercado de trabalho e é atualmente o principal responsável pelas contratações dos jovens registrados em nossos dias (e por que não mencionar também das comunicações por acidente de trabalho – CAT). O livro, organizado pelos professores Ricardo Antunes e Ruy Braga, respectivamente da Unicamp e da USP, aborda em seus 11 capítulos especificidades desse ramo laboral e indica os efeitos que a reestruturação produtiva do capital – ainda em curso – produziu, de forma quantitativa e qualitativa, na exploração do trabalho ao trazer novos elementos para o debate e expor os trabalhadores do setor a um novo formato de exploração, mais “sofisticada”, por assim dizer.
Na leitura de seus capítulos podemos apreender dados e informações que levam a um melhor painel do setor e de seus trabalhadores; com frequência toma-se conhecimento da situação aviltante sofrida pelos trabalhadores das centrais de teleatividades. A pressão na atividade (maior agilidade nos atendimentos, principalmente) é analisada no artigo de Ruy Braga e se apresenta como o aspecto que mais impressiona, pois além de estar atada a um melhor rendimento salarial, é um dos fatores que causam a tendência, nas palavras do autor, a transformar o trabalhador em um “autômato inquieto”, um robô que executa ações pré-determinadas à custa de lesões, precarização das relações laborais e perda da autoestima. Não deixamos de notar que é comum o uso no setor de teleatividades de uma terminologia eivada de estrangeirismos, e que culmina com o agressivo termo “baia” denominando o local onde os operadores efetuam os atendimentos e/ou ligações.

Os setores informacionais e de teleatividades, que incluem amplos segmentos caracterizados pelo uso intensivo de novas tecnologias, como as telecomunicações e a informática, são considerados os mais dinâmicos e arrojados da economia contemporânea.

TRABALHO E NOVAS TECNOLOGIAS

Segundo Michel Burawoy, inclusive novo presidente da International Sociological Association – ISA, sociólogo que assina a orelha do livro, “a obra aponta para a profunda transformação sofrida pela classe trabalhadora e o projeto de movimento internacional operário, ante os parâmetros verificados por Karl Marx em seu tempo. Apenas a articulação entre múltiplas identidades – de gênero, de nacionalidade, de raça, assim como de classe – forjadas em terrenos políticos que transcendam a produção imediata lhes permitirá se rebelar contra o mercado e desafiar o capital global – mas, mesmo assim, apenas em um grau limitado e de uma forma fragmentária. Essa é certamente a mensagem deste livro – que revela a experiência cotidiana vivida por essa nova classe trabalhadora globalizada ligada aos serviços”.
O setor de teleatividades guarda semelhança com a situação que os bancários tinham na década de 1980. Qual seja: ser o primeiro emprego, ocupado em sua maior parte por estudantes que, tão logo formados, saíam dos bancos para trabalhar em – principalmente – administração e advocacia ou optavam por uma carreira nestes bancos, que poderia ser sólida e estável. As diferenças no trabalho desde aquela época para hoje é avassaladora. O Brasil mudou e o setor de teleatividades é formado pelos trabalhadores que, em tempos de crise econômica, depressão e desemprego, vão ocupar postos de trabalho onde existe demanda, acarretando uma profunda mudança de perfil no mundo do trabalho no Brasil, que poucos perceberam ou estão percebendo.
Paradoxalmente, os setores informacionais e de teleatividades, que incluem amplos segmentos caracterizados pelo uso intensivo de novas tecnologias, como as telecomunicações e a informática, são considerados os mais dinâmicos e arrojados da economia contemporânea. No entanto, as condições de trabalho encontradas nessas áreas podem ser tão precárias como as dos operários do século 19, retratadas por Friedrich Engels, no relançado A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, pela mesma editora.
Além de pesquisadores de várias instituições brasileiras, o livro traz as contribuições de Ursula Huws – autora de um termo, ciberproletariado, que define as novas classes que trabalham com a informatização e a tecnologia –, da Universidade de Londres, e Juan José Castillo, que analisa o surgimento de uma “casta” entre os que trabalham com tecnologia da informação – a dos programadores e analistas – da Universidade Complutense de Madri. O livro traz em seus ensaios ótimos caminhos para uma maior reflexão e aprofundamento nos estudos sobre essa classe trabalhadora que emerge em nosso país, atingindo patamares crescentes nos níveis dos mercados de trabalho. Paralelamente, serve como um painel para que se possa abrir os olhos para a condição laboral (e de saúde, de local de trabalho, salarial) aviltante a que são submetidos os trabalhadores do setor de teleatividades no Brasil.

* Paulo Eduardo Alves Camargo-Cruz é sociólogo graduado pela USP, mestre pela Unesp, diretor do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo e executivo público da Secretaria Estadual de Meio Ambiente

Fonte: Portal Sociologia Ciência e Vida

O estudo comparativo entre autores marxistas

Um grande encontro

O estudo comparativo entre autores marxistas

Professor de Sociologia na Universidade Berkeley (EUA), Michael Burawoy é um dos principais teóricos marxistas contemporâneos. Organizada e apresentada por Ruy Braga, docente do departamento de Sociologia da USP, esta reunião de seis conferências proferidas por Burawoy, no Havens Center de Wisconsin, versam sobre uma relação instigante para qualquer estudioso do pensamento sociológico: o estudo comparativo entre autores marxistas – entre eles, o próprio Marx e Antonio Gramsci – e o legado teórico do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Destaque para o último capítulo: “Os intelectuais e seu público: Bourdieu herda Wright Mills”. Mills não era bem um marxista de carteirinha, mas o texto não parece deslocado do conjunto. Sem perder de vista sua crítica às teorizações e aos métodos de Bourdieu, Burawoy presta um tributo “ao maior sociólogo público” das últimas décadas.

Título: O marxismo encontra Bourdieu
Autor: Michel Burawoy
Tradução: Fernando Rogério Jardim
Organizador: Ruy Braga
Editora: Unicamp
Coleção: Marx 21
Ano: 2010

Afundação Roberto Marinho

Afundação Roberto Marinho é um livro publicado em 1988, escrito por Romero Machado, ex-funcionário das Organizações Globo, onde tece diversas críticas sobre esta empresa.

As aspas do “espírito”

As aspas do “espírito”

Por Carlos Alberto Dória

Sociologia holística faz nova investida com reedição de clássicos de Weber e Mauss

“Existiria, em teoria, fuga melhor da confrontação com o capitalismo, o sistema mais totalizador que o mundo já conheceu, do que a rejeição do conhecimento totalizador?”
Ellen Meiksins Wood, “Democracia contra Capitalismo”

Há uma sensação geral nas ciências humanas de que no dia 9 de novembro de 1989, junto com o muro de Berlim, veio abaixo toda a filosofia da história inaugurada na Revolução Francesa e que Hegel e Marx aparentemente haviam imortalizado.

O abalo foi tão forte que um medíocre historiador norte-americano, Francis Fukuyama, sentiu-se à vontade para vir à luz e declarar o “fim da história”, ou o fim das ideologias e o domínio absoluto do mercado e do neoliberalismo.

O dano sobre as ciências sociais foi enorme, pois o que as caracteriza é a necessidade de se nutrirem numa filosofia da história. A filosofia da história hegeliana, por sua vez, parte de um artigo de fé: a crença no progresso continuado do espírito humano, na objetivação da razão1.

No Ocidente, desenvolveu-se porém uma outra filosofia da história que apresenta as sociedades, ou civilizações, como irredutíveis ou incomunicáveis entre si e, portanto, possuindo cada uma um “ciclo” de vida e morte, ou seja, expressando uma constante luta entre forças racionais e irracionais com alguma sorte de triunfo dessas últimas. Esta corrente reúne a tradição “decadentista”2: Vico, Gibbon, Spengler, Gobineau, entre outros autores.

A tradição decadentista não fecundou a sociologia, a antropologia ou qualquer outra disciplina acadêmica, fundamentando acima de tudo políticas conservadoras -para elas o “fim da história” de uma cultura, sociedade ou “império” sempre nos espreita como uma ameaça de abismo a ser politicamente evitado.

O tempo se encarregou de mostrar o quanto Fukuyama era um produto da mídia, um pensador nada consistente, um “decadentista” de ocasião investindo contra a outra filosofia da história. E, aos poucos, a própria filosofia da história que parecia estar destinada à lata de lixo recupera parte do seu prestigio. Afinal, à queda do muro de Berlim não se seguiu o fim do mundo, embora o império americano o persiga com afinco.

Mas havia muros e “muros”. Muros ou pilares intelectuais. A história da Faculdade de Ciências Humanas da USP, tributária da vanguarda do pensamento francês dos anos 30 do século passado, girou, pelo menos durante meio século em torno de três autores: Durkheim, Weber e Marx, nesta ordem. A partir dos anos 90, Marx foi progressivamente sumindo das bibliografias e, conseqüentemente, dos programas das editoras.

Assim, textos valiosos, como os seus “Grundrisse”, os “rascunhos” de “O Capital”, onde se surpreende o processo de criação de Marx como em nenhum outro texto, sequer foram traduzidos integralmente para o português. Mas, ao ruir um pilar, foi todo o edifício que se abalou. Na pedagogia uspiana, Weber valia pelo “diálogo” com Marx e ambos por se contraporem ao “simplismo” funcionalista e a-histórico de Durkheim, fundador da sociologia. Tratava-se, pois, de um equilíbrio que foi rompido.

Mas o que há de comum entre as três correntes de pensamento é uma coisa só: a percepção da integridade da vida social e a afirmação metodológica de que é impossível recortá-la para explicá-la por partes. Esta a verdadeira “herança francesa”: a vida social enquanto uma totalidade de sentidos.

Conceitos como ”modo de produção” (Marx), ou “tipo ideal” (Weber), ou, ainda, “fato social total” (Durkeim), foram chave para o desenvolvimento de um sem número de pesquisas, e o que os aproxima, apesar de originados em diferentes tradições intelectuais, é o grau extremo de abstração ou o esforço para organizar o mundo empírico em explicações abrangentes.

O que se seguiu à debacle desses autores holísticos foram teorias de fôlego curto, derivadas de concepções de história nas quais os fatos parecem trazer um significado pulsante em si mesmos como, por exemplo, a chamada “história das mentalidades”: história da idéia de morte, história da infância etc.; ou a valorização da memória e do seu aspecto singular como testemunho de uma época; a exploração de “pluralidades” e diferentes “olhares”, e assim por diante. Em outras palavras, tratava-se da “pós-modernidade” procurando criar cidadania acadêmica.

De fato, o que as ciências sociais conhecem como “pós-modernidade” nega a possibilidade de explicações totalizantes da realidade histórica, ao passo que afirma o primado dos “fragmentos” da vida social como objetos únicos e legítimos do conhecimento.

No entanto, a julgar pelo movimento editorial, de repente (e não mais que de repente) os autores holísticos parecem voltar à voga. Uma preciosa e bem cuidada edição de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber, e a fundamental “Sociologia e Antropologia”, de Marcel Mauss, em extraordinária edição capa dura, fazem a reentrada em cena3.

Coisas bem produzidas, tão raras no mercado editorial das ciências humanas no Brasil, parecem querer mexer fundo no desejo do consumidor do objeto-livro. Assim, não é o velho Weber que aparece, mas um Weber remoçado, desvendado por uma nova tradução de um de seus clássicos na qual surgem diferenças “fundamentais” entre as duas versões agora à disposição.

O tradutor, em apresentação preciosista, nos propõe ler “espírito” (do capitalismo) entre aspas e sem aspas. A leitura entre aspas querendo registrar a intenção do autor em nos fazer ver a cultura do capitalismo ou a conduta de vida que lhe é correspondente, sumindo as aspas como fruto do amadurecimento de Weber no período que separa as duas edições em vida do seu texto: em 1904 e 1920. Como propósito, a nova tradução comemora o centenário do aparecimento da obra.

Weber busca, no seu livro, explicar um fato empírico instigante: o caráter predominantemente protestante dos proprietários de capital, empresários e operários qualificados das empresas modernas. Evidentemente não era uma questão nova. Marx já havia se referido à superioridade cultural do proletariado alemão, capaz de assimilar a ciência e colocar-se na vanguarda da revolução, creditando este fato à formação luterana que impunha a alfabetização como forma de contacto direto com Deus pelo acesso às sagradas escrituras. Este “diferencial competitivo”, como se diria hoje, fazia-o vanguarda num mundo de proletários bestializados e ignorantes.

Mas o que é extraordinário e original em Weber é o imbricamento que mostra entre a economia e a religião, entre a conduta de vida ascética, frugal, e a acumulação de capital. Um domínio perfeito da teologia protestante e um conhecimento profundo da dinâmica capitalista permitiram a Weber relacionar esferas da vida social que, se não eram vistas como antagônicas, se excluíam na explicação do movimento real da sociedade.

Assim, para ele, “embora o homem moderno, mesmo com a melhor das boas vontades, geralmente não seja capaz de imaginar o efetivo alcance da significação que os conteúdos de consciência religiosa tiveram para a conduta da vida, a cultura e o caráter de um povo, não cabe, contudo, evidentemente, substituir uma interpretação causal unilateralmente ‘materialista’ da cultura e da história por uma outra espiritualista, também ela unilateral”4.

Weber mostrou, através da análise concreta, que todos os aspectos da vida estão “incrustados uns nos outros” (para utilizar a expressão feliz do economista Karl Polanyi) e se os tomamos em separado, porque os percebemos empiricamente assim, nos afastamos da possibilidade de explicação científica dos fenômenos.

De fato, não há possibilidade de conhecimento científico nas ciências humanas se não nos afastamos da aparência dos fenômenos para mergulhar na busca da sua essência; e se não compreendemos esta como um conhecimento novo que integra e explica a produção da aparência -o que é distinto de um significado “oculto”, como uma outra face “cavernosa” do que estudamos. Só na construção intelectual da totalidade é que a explicação se dispõe como conhecimento novo.

“Sociologia e Antropologia”, de Marcel Mauss, é outro caso feliz de análise da vida social que, como Weber, fundou procedimentos metodológicos duradouros. O livro reúne pelo menos três ensaios com essas características: o “Ensaio sobre a dádiva – Forma e razão das trocas nas sociedades arcaicas”; o ensaio “Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a de “eu” “; e “As técnicas do corpo”.

Não é possível imaginar a antropologia francesa sem essa obra, como bem aponta Lévi-Strauss na “Introdução à obra de Marcel Mauss” (também ela peça fundamental para compreender o desenvolvimento da antropologia moderna, e que integra a edição brasileira).

Mauss era sobrinho de Durkheim, de quem foi também discípulo e, muitas vezes, co-autor de estudos clássicos de fundação da sociologia enquanto disciplina acadêmica. Ele estudou sobretudo as sociedades ditas “primitivas”, sem jamais ter realizado trabalho de campo.

O “Ensaio sobre a dádiva” (a palavra em francês é don, e alguns prefeririam traduzi-la por presente, para acentuar o seu caráter material) é considerado a obra-prima de Mauss. Nele, estuda, a partir de dados etnográficos, o que obriga as pessoas a darem presentes e, inversamente, os presenteados a retribuírem; enfim, o que move as trocas rituais5. Mauss observa que as obrigações de “dar, receber e retribuir” são movidas, em certas sociedades, pelo mana -palavra polinésia que pode ser traduzida grosseiramente por “espírito da coisa dada”. Ele é uma representação mágica da troca, pois nos diz que, se uma pessoa fica demasiado tempo com um presente, sem passá-lo adiante, o mana pode produzir malefícios para o seu possuidor.

A interpretação de Mauss é que o mana não é senão o reflexo subjetivo da exigência de uma totalidade não percebida, aquela que põe em contacto os clãs, as famílias, através das trocas rituais. Assim, por trás dessa circulação compulsória dos presentes, impulsionada pelo mana, é a própria sociedade que vai se tecendo, estabelecendo as alianças matrimoniais, impulsionando as atividades econômicas, se vendo como expressão de uma ordem espiritual que se quebraria caso as trocas rituais fossem interrompidas. A troca ritual, portanto, instaura a lei da reciprocidade que é o fundamento da sociedade. Sem ela, estaríamos no domínio da natureza, e não da cultura.

Assim, o que Mauss mostra é que a troca, que aparentemente é o denominador comum de uma série de atividades sociais heterogêneas, não se explicaria pelos fatos empíricos, mas por uma estrutura que a torna necessária e faz das trocas empíricas fatos secundários.

Em Mauss, os sujeitos aparecem então como prisioneiros de uma estrutura de necessidades. Também é assim com a noção de pessoa, que apesar da experiência moderna como um “ser psicológico”, é -nas suas várias formas: persona latina, ente moral cristão, modalidades primitivas- uma categoria social muito forte6.

Já no outro estudo citado, as técnicas do corpo são inventariadas na sua diversidade cultural (Ocidente, Índia, China, Maori, etc) e funcional (nadar, dormir, respirar, dançar, etc.), evidenciando também como o esforço “irrealizável”, a dor “intolerável”, o prazer supremo -apesar da aparente determinação meramente fisiológica, converge para a percepção de que o corpo não é senão uma expressão da socialização7.

Sem a sociologia e antropologia de Marcel Mauss, pode-se dizer que não existiria a antropologia de Lévi-Strauss e todo o desenvolvimento ulterior da corrente estruturalista, centrada na idéia de que as sociedades são constituídas a partir de níveis de trocas: as trocas de bens (economia), de mulheres (alianças matrimoniais entre clãs) e de palavras (poder político).

Esses exemplos, pinçados de Weber e Mauss, são suficientes para compreender o incômodo pós-moderno diante da sociologia e da filosofia da história de caráter holístico. O capitalista que acumula, o indígena que troca presentes, o nadador que busca a perfeição técnica do seu esporte -todos parecem excessivamente limitados na sua “liberdade”, pois são expressão de opções determinadas num nível da vida social à qual não têm acesso consciente. Isto contrasta fortemente com o aparente “espírito livre”, com a vontade fragmentada da vida pós-moderna.

1 – G. H. F. Hegel, “The Philosophy of History”, Dover Publications, New York, 1956. Ver especialmente a “Introdução”.

2 – Esta corrente foi estudada de modo sistemático e pioneiro por Julien Freund, “La Décadence”, Éditions Sirey, Paris, 1984.

3 – Max Weber, “A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo” Companhia das Letras, São Paulo, 2004; Marcel Mauss, “Sociologia e Antropologia” Cosac & Naify, São Paulo, 2004.

4 – Max Weber, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, pág. 167.

5 – Estas trocas não devem ser confundidas com as trocas econômicas “de mercado”, que fundam a análise das economias modernas.

6 – “O que quero mostrar é a série das formas que esse conceito assumiu na vida dos homens, das sociedades, com base em seus direitos, suas religiões, seus costumes, suas estruturas sociais e suas mentalidades” (Marcel Mauss, “Sociologia e Antropologia”, pág. 371).

7 – “É graças à sociedade que há segurança e presteza nos movimentos, domínio do consciente sobre a emoção e o inconsciente” ((Marcel Mauss, “Sociologia e Antropologia”, pág. 421).

Sociologia da religião

Sociologia da religião, por Sandra Carneiro (*)

Dados do livro resenhado:
Título da obra:
Sociologia da religião – enfoques teóricos
Nome do autor:
Faustino Teixeira – organizador
Editora:
Vozes
Número de páginas:
270

Logo de início quero destacar a feliz seleção feita por Faustino Teixeira na organização do livro Sociologia da Religião. O livro é um convite para nos debruçarmos sobre os autores clássicos através de um “olhar específico”: analisar suas contribuições e reflexões sobre o fenômeno religioso. A idéia base, embora não seja inovadora, têm vários méritos, entre eles, o de oferecer a todos os interessados no tema, iniciados ou não, uma obra cujo resultado é bastante estimulante e possibilita a abertura de novos horizontes de reflexão.

Cada um dos pesquisadores convidados a integrar a coletânea tinha como projeto revisitar um autor clássico das Ciências Sociais, sendo que a porta de entrada ao conjunto da obra e ao método utilizado deveria ser feito sob o ângulo da análise da religião. Dentro desta perspectiva, os especialistas destacam os principais conceitos e as principais perspectivas adotadas pelos chamados clássicos, apresentando abordagens amplas e multifacetadas de uma temática que vem exigindo novas ressignificações. Cabe ainda destacar, que após a apresentação da síntese crítica do pensamento de cada clássico, há sempre uma breve bibliografia e um pequeno texto do próprio autor, que pode servir ao leitor interessado em aprofundar as questões tratadas.

O artigo de abertura é escrito por Ivo Lesbaupin (UFRJ e consultor do ISER/assessoria) que aborda a perspectiva do marxismo, lembrando que é importante distinguir entre o que a tradição vulgarizada do marxismo nos transmitiu e o que efetivamente Marx e Engels pensaram sobre a religião. Seu maior desafio é resgatar o pensamento originário desses autores e inicia comentando os conceitos de alienação, ideologia e produção de bens materiais na obra de Marx.. Tece também comentários sobre a identificação que Engels faz entre o cristianismo primitivo com o socialismo, mostrando que esta comparação pode ser feita sob os seguintes pontos: a origem social dos adeptos, a mensagem de libertação da servidão e da miséria, a perseguição de que foram objeto e seu sucesso histórico apesar desta perseguição.

Depois destas apresentações, Lesbaupin procura desenvolver a perspectiva aberta por outros teóricos marxistas como Rosa Luxemburgo e Antônio Gramsci. E, por último, se detém ainda nas tendências atuais do pensamento marxista, mostrando que alguns intelectuais marxistas propõem uma nova teorização a respeito do fenômeno religioso, destacando as posições defendidas por Michele Bertrand, Michael Lowy e Lucien Goldman.

Pierre Sanchis (professor emérito da UFMG) nos convida a rever as contribuições de Durkheim, a partir da pergunta – As questões tratadas pelo autor seriam atuais? E, quais seriam os traços mais relevantes da abordagem deste pioneiro com relação ao fenômeno religioso que considerava sui generis. Para Durkheim a religião não é somente um sistema de idéias, é antes de tudo um sistema de força, sua função é criar coesão. Sendo que a categoria fundante da religião seria a categoria do sagrado.

Segundo Sanchis, a afirmação de Durkheim é de que a religião é fato social, emerge do social, é signo do social – é a que recebeu maior atenção de seus analistas. No entanto, do seu ponto de vista, normalmente ressalta-se menos o oposto dialético, fortemente afirmado por Durkheim, a de que à gênese societária da religião corresponde a gênese religiosa da sociedade.

Já Cecília Mariz (UERJ) apresenta a perspectiva de Max Weber. Para ela, dentre os três autores considerados os fundadores da Sociologia – Marx, Durkheim e Weber, este último teria sido aquele que mais se dedicou em desvendar o fenômeno religioso. E, afirma: “a maior parte dos sociólogos que estudam a religião, está em diálogo com Weber. Ela nos alerta que a forma de se evitar equívocos de interpretação e entender melhor a obra de Weber e sua sociologia da religião, em particular, é ter claro o que ele queria dizer com dois conceitos básicos em sua obra – racionalidade e processo de racionalização. Mas, para entender esses conceitos é preciso conhecer também seus pressupostos sobre a história e a cultura. A religião é estudada fundamentalmente como um campo plural de tensões e possibilidades diversas.

Na sociologia da religião weberiana, as noções de conflito de interesses, de valores, tipos ideais, carisma, magia e os embates em busca da dominação são centrais. A autora nos lembra ainda que apesar da aproximação de Bourdieu com a teoria marxista, é este autor quem elabora o apêndice: Uma interpretação da teoria da religião de Max Weber, em seu livro A economia das trocas simbólicas.

Marcel Mauss é outro clássico abordado e quem o apresenta é Renata Menezes (ISER/assessoria). Segundo ela, talvez uma das maiores contribuições de Mauss seria quanto ao tratamento dos fatos sociais como totais. Ao complexificar a definição anterior estabelecida por Durkheim, a concepção de Mauss possibilitaria um avanço na percepção da dinâmica e integração dos vários domínios da vida social.

Renata Menezes destaca ainda três importantes contribuições do considerado “pai da etnologia” na França: a) ter viabilizado as condições institucionais e intelectuais para a profissionalização do trabalho de campo; b) suas reflexões sobre a troca e o contrato nas sociedades primitivas, que adquiriu importância ao se tornar o ponto de partida nos debates sobre reciprocidade, apresentados no texto intitulado Ensaio sobre a dádiva e c) o tratamento dos fatos sociais como totais.

Destaca ainda Menezes, que Mauss assumiu a “missão” de aplicar o método sociológico aos fenômenos religiosos, por razões estratégicas. Nas palavras do próprio autor: “foi por gosto filosófico e destinação consciente que, sob a indicação de Durkheim, me especializei no estudo dos fatos religiosos e a eles me consagrei para sempre, quase plenamente (….)

À Carlos Steil (UFGRS) cabe revisitar à E.E. Evans Pritchard, um dos maiores autores da antropologia social inglesa, reconhecido por associar de forma brilhante teoria com descrição etnográfica. Steil destaca , sobretudo, seus trabalhos realizados entre os azandes (Bruxaria, oráculos e magia entre os azande) e os Nuer (A religião dos nuer), dois estudos fundamentais sobre religião, consagrados na história da antropologia.

Como sugere Geertz, a pergunta que Evans Pritchard dirige à religião é: Como é possível que o que suponhamos ser o fundamento da vida genuinamente humana possa não existir em outras sociedade e mesmo assim essas sociedades existem enquanto tal e se reproduzem?

Sua postura relativista consiste explicitamente em buscar a lógica e a racionalidade que práticas, sentimentos, idéias e valores possam ter no sistema social ou religioso do nativo. Ou dito de outra forma, assim como as nossas crenças e práticas fazem sentido dentro do sistema que organiza nossa cultura e tradição, a deles o fazem dentro do seu próprio sistema.

Sua perspectiva inovadora estava justamente na proposta de deslocamento que realiza para analisar e compreender as práticas e os costumes do outro, o qual não devia estar ancorado no sistema do antropólogo, mas no do próprio nativo. Como destaca ainda Steil “possivelmente poucos antropólogos na história da disciplina levaram tão a sério a questão da alteridade quanto Evans-Pritchard e, para ele, a etnografia era percebida como “fundamental para a apreensão dos sentidos e funções que a religião adquire em qualquer sociedade em particular”.

No sexto artigo, Leila Amaral (UFJF) nos introduz ao pensamento do autor clássico menos conhecido do público: Maurice Leenhardt. Em um contexto pós-estruturalista cresce a importância da experiência de M. Leenhardt como um modelo metodológico ainda válido, particularmente porque seu compromisso com a pesquisa de campo levou-o a enfatizar a expressividade e a mudança cultural, mais do que os conceitos normalmente utilizados por outros antropólogos da época, como por exemplo, estrutura e sistema. Da mesma forma privilegiou mais a experiência concreta do que a formulação de leis formais. De acordo com Amaral, seus escritos etnográficos foram resultado de uma etnografia concebida como “um processo de autocompreensão através da compreensão do “outro”.

Seu livro mais conhecido Do Kamo: La personne et lê mythe dans le monde mélanésien ainda não foi traduzido para o português, assim como seus artigos. Mas, é justamente neste livro que Leenhardt defende o papel vital do mito como forma de circunscrever e dar expressão a certas formas essenciais de experiências que vêm se apresentando; não apenas para o nativo mas para toda a humanidade, desde seu início; como forças poderosas, continuando a lhe inspirar, sempre e em toda parte, modos de expressão estética e afetiva.

Denominando estas vivências de experiência estética de participação, o autor as qualifica como propriamente “religiosas e míticas” e, do seu ponto de vista, elas não se exprimem nos termos da razão discursiva, seja por meio de narração ou história. Elas são circunscritas através de dois modos de expressões, contrapartes permanentes da racionalidade, reconhecidas por Leenhardt como expressões afetivas: a) a “expressão estética, que é a forma geral de percepção mítica e b) a palavra que é um modo de expressão mítica.

A seguir, Pedro Ribeiro de Oliveira (UCB) trata de um dos mais criativos pensadores das Ciências Sociais contemporânea, Pierre Bourdieu e chama a atenção para um aspecto aparentemente contraditório. Embora a Sociologia da Religião não desempenhe um lugar central no conjunto de sua obra, o autor foi um de seus melhores teóricos. Seu artigo sobre religião mais conhecido é Gênese e estrutura do campo religioso.

Pedro de Oliveira destaca a densidade do texto, com excelente base teórica e inúmeras sugestões para a pesquisa mas alerta para a dificuldade de sua compreensão.

Entendendo a religião como linguagem – sistema simbólico de comunicação e pensamento -, Bourdieu informa que é enquanto sistema de pensamento que a religião interessa à sociologia. Para a religião tudo que existe ou venha a existir tem sentido porque se integra numa ordem cósmica. Um de seus maiores méritos foi descartar a crítica iluminista da religião e apontar sua especificidade – unir cada evento particular à ordem cósmica. Para Bourdieu, a religião só é socialmente eficaz quando seus esquemas de pensamento se inscrevem nas consciências individuais e nelas se incorporam como se fossem naturais, transformando-se então em hábitos.

Oliveira menciona e discute três conceitos que considera fundamentais no pensamento de Bourdieu para compreensão do fenômeno religioso: o trabalho religioso e sua divisão, o campo religioso e a relação entre especialistas e consumidores de bens religiosos.

Clifford Geertz é o oitavo clássico a ser discutido, cabendo a tarefa a Emerson Giumbelli(UFRJ) que logo de início nos chama a atenção para o fato de que Geertz se dedicou a uma variedade de temas e, no tocante à religião sua reflexões teóricas tem por base as experiências de campo vividas na Indonésia e no Marrocos.

Nos anos sessenta, publicou dois livros sobre religião – A religião de Java, de 1960 e Observando o Islã de 1968, ambos ainda não traduzidos. O seu livro mais célebre, aquele que influenciou, influencia e influenciará ainda gerações, não somente de antropólogos, mas também de outros estudiosos e intelectuais denomina-se A Interpretação das culturas e, infelizmente só teve uma parte traduzida.

Para Geertz rituais, mitos, magia e feitiçaria inseridos tanto em religiões tradicionais como em religiões históricas, compõem as expressões concretas às quais se aplica “uma análise do sistema de significados incorporado nos símbolos que formam a religião”. Além disso, Emerson chama a atenção para o fato de que Geertz concede um espaço para a dimensão psíquica e para a individualidade que raramente é reconhecido no estudo da religião pelas ciências sociais. A religião articula, a seu ver, duas dimensões (visão de mundo e ethos) encontráveis em todo e qualquer grupo e de acordo com as particularidades pelas quais cada uma das culturas se estabelece. Assim, o que uma religião faz é operar uma convergência e mesmo uma fusão entre essas duas dimensões, apoiando a validade de uma sobre a autoridade da outra, e vice-versa.

De acordo com Giumbelli, duas teorias são elaboradas por Geertz a partir de sua definição do que seja a religião: a primeira centra-se em torno da noção de perspectiva religiosa e de símbolos culturais e a segunda é nominalista porque parte de uma definição prévia do que seja religião dentro do campo circunscrito por um conjunto de realidades empíricas que se convencionou chamar de religiosas.

A fim de tornar mais compreensiva as implicações das teorias da religião encontradas em Geertz, Emerson propõe que se veja sua aplicação no campo de análise que ele próprio definiu quando estudou a trajetória histórica do islã na Indonésia e no Marrocos.

Peter Berger é o penúltimo autor do livro e é visto pelo olhar do organizador da coletânea, Faustino Teixeira (UFJF e Iser/assessoria), que informa ao leitor que o interesse do pensador pela sociologia da religião manifestou-se desde a sua tese de doutoramento.

As importantes reflexões que Berger faz a propósito da natureza da realidade social, bem como suas incursões no campo da sociologia estão presentes em várias de suas obras. Mas é, sem dúvida, o seu texto escrito em parceria com Thomas Luckmann, A construção social da realidade, que traduz melhor sua concepção do processo dialético fundamental da sociedade, definido por três momentos: externalização, objetivação e internalização.

Para Berger a religião consiste na “ousada tentativa de conceber o universo inteiro como humanamente significativo”. A religião exerce por isso, um importante papel de integração das experiências anômicas, facultando um significado para as crises biográficas. Entende ainda que há na religião uma capacidade única de “situar os fenômenos humanos em um quadro cósmico de referência”.

A obra de Daniele Hervieu-Léger, a única mulher considerada clássica, é o tema do ensaio de Marcelo Camurça (UFJF)que encerra o livro. Ela que tem sido uma das autoras mais lidas nos últimos anos, particularmente por aqueles que estão interessados em discutir o movimento da Nova Era., uma vez que tem se “dedicado à pesquisa e reflexão sobre o papel da religião na modernidade em meio às suas transformações.

Conforme ressalta Camurça, a religião para esta autora se define por meio da transmissão e perpetuação da memória de um acontecimento fundador original através de uma “linhagem religiosa” ou “linha de crença”: ou seja, para ela “uma religião é um dispositivo ideológico, prático e simbólico pelo qual é constituída, desenvolvida e controlada a consciência (individual e coletiva) de pertença a uma linha de crença particular”.

A obra de Hervieu-Léger traz como contribuição original para compreensão do papel e das transformações da religião na modernidade, a perspectiva da memória e de sua transmissão. Outro conceito fundamental de seus trabalhos é a noção de desregulação do religioso, ou seja, do processo de autonomização do indivíduo, que se produzirá na modernidade não apenas a subjetividade religiosa do crente mas, fundamentalmente, a dissociação dos elementos que compõem o dispositivo da produção de identidade religiosa clássica.

Enfim, para a autora “o problema principal para uma sociologia da modernidade é tentar compreender conjuntamente o movimento pelo qual a modernidade continua a solapar as estruturas de plausibilidade de todo sistema religioso, e aquele pelo qual ela faz surgir, ao mesmo tempo, novas formas de crer”.

Por fim, esta importante e singular obra apresenta um conjunto de questões para a reflexão que certamente irá contribuir para um público amplo refletir e renovar seus interesses por um tema que vem apaixonando muitos através de vários séculos.


(*) Sandra Carneiro é doutora em Ciências Humanas(Antropologia) pelo IFCS-UFRJ e professora do Departamento de Ciências Sociais da UERJ.

Resenah sobre "DISCURSO SOBRE AS CIÊNCIAS"

UMA BREVE ANÁLISE DO “DISCURSO SOBRE AS CIÊNCIAS” DE BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS
Texto confeccionado por
(1) Maciel Colli 

Atuações e qualificações
(1) Especializando em Ciências Penais pela PUC-RS, bacharel em Direito pela PUC-RS.

A resenha desta obra será feita da seguinte maneira: inicialmente farei um resumo abrangendo os três pontos centrais da obra (“O paradigma dominante”, “A crise do paradigma dominante”, “O paradigma emergente”), posteriormente, irei expor considerações críticas. Saliento que os dois primeiros capítulos serão tratados com maiores detalhes na parte do resumo. Deixarei para analisar e esclarecer o terceiro capítulo na parte crítica deste trabalho, juntamente com as exposições de minhas idéias sobre o assunto/texto.

1. INTRODUÇÃO

A obra “Um discurso sobre as Ciências” apresenta em suas primeiras páginas a crise de identidade das ciências no tempo em que vivemos. Esse assunto será desdobrado ao longo da obra, sendo analisados aspectos históricos das ciências naturais e sociais, bem como o atual contexto cientifico em que nos encontramos e as perspectivas para o futuro.

O autor sustenta, inicialmente, que nos encontramos em uma fase de transição entre “tempos” científicos. Para uma melhor compreensão, Boaventura utiliza-se do exemplo de Rousseau, que na obra “Discours sur Le Sciences et lês Arts”, de 1750, buscou respostas por meio de perguntas elementares e simples. Para tanto, o autor estrutura a sua obra da seguinte maneira: 1º) caracteriza a ordem científica hegemônica; 2º) analisa, sob condições teóricas e sociológicas, a crise dessa hegemonia; 3º) propõe um perfil de uma ordem científica emergente, novamente sob condições teóricas e sociológicas.

2. O PARADIGMA DOMINANTE

A ordem científica dominante, tratada na obra como “O paradigma dominante”, diz respeito ao modelo de racionalidade herdado a partir do século XVI e consolidado no século XIX. Essa nova racionalidade científica vislumbra uma única forma de se atingir o conhecimento verdadeiro, aquela decorrente da aplicação de seus próprios princípios epistemológicos e de suas regras metodológicas. Sendo um modelo totalitário, esta nova visão de mundo apresentava distinções fundamentais aos modelos de “saberes” aristotélicos e medievais: 1º) opunham-se conhecimento científico e conhecimento do senso comum (desconfiava-se das evidências da experiência imediata e do senso comum e buscava-se respostas na observação científica sistemática, rigorosa e controlável dos fenômenos naturais); 2º) opunham-se natureza e pessoa humana (buscava-se conhecer a natureza para poder controlá-la e dominá-la).

Para que ocorresse uma observação e experimentação que levasse a um conhecimento mais profundo e rigoroso da natureza, empregava-se, como instrumento privilegiado de análise, a matemática. A matemática permitia que a natureza, bem como os seus fenômenos, fossem analisados e estruturados sob dois pilares: 1º) quantificação como sinônimo de conhecimento, pelo emprego rigoroso das medições; 2º) redução da complexidade do mundo, por meio da divisão e classificação sistemática (tendo como divisão primordial aquela entre condições iniciais (reino da complicação e do acidente, onde é necessário selecionar as condições a serem observadas) e leis da natureza (reino da simplicidade e da regularidade, onde há a possibilidade de se observar e medir de forma rigorosa a natureza).

A descoberta das leis da natureza, o isolamento das condições iniciais relevantes, a produção de resultados independentemente do lugar e tempo das condições iniciais, o conhecimento causal da ciência moderna (que busca entender o “como” ao invés do “por quem” ou “para que”) promoveram, dentre outras conseqüências, a previsibilidade dos fenômenos naturais. É por meio dessa suposta previsibilidade que se firmou o conhecimento na idéia de ordem e estabilidade do mundo, sendo este “estável” e “determinável” por meio de leis físicas e matemáticas que poderiam o decompor. Eis aí o fundamento do chamado determinismo mecanicista que irá sustentar a ciência moderna (o mundo-máquina) com a sua idéia de um mundo cognoscível pela decomposição dos seus elementos constituintes.

Por se tratar de um modelo de racionalidade hegemônica da época, a ciência moderna, por intermédio de precursores como Bacon, Vico e Montesquieu, não demorou a permeabilizar o campo do comportamento social. Como bem afirma o autor, “tal como foi possível descobrir as leis da natureza, seria igualmente possível descobrir as leis da sociedade”(1).

Decorre daí, em meados do século XIX, a emergência das chamadas ciências sociais, as quais assumiriam duas correntes distintas de absorção do modelo mecanicista: 1ª) aplicava, dentre as possibilidades existentes, os princípios epistemológicos e metodológicos do estado da natureza (ciências sociais como extensão das ciências naturais); 2ª) estabelecia uma metodologia própria para as ciências sociais, com base na “especificidade do ser humano e sua distinção polar em relação à natureza”(2).

A primeira vertente defendia a aplicação de um modelo de ciências sociais erigido a partir de pressupostos das próprias ciências naturais, tendo portanto um caráter de conhecimento universalmente válido. Como bem assinala Boaventura, ao esclarecer essa corrente, “por maiores que sejam as diferenças entre os fenômenos naturais e sociais é sempre possível estudar os últimos como se fossem os primeiros”(3). Apesar das dificuldades, essa vertente admite a possibilidade de as ciências sociais se compatibilizarem com os critérios rigorosos das ciências naturais. Dessa vertente fazem parte Durkheim e Ernest Nagel.

A segunda vertente irá defender uma metodologia própria, na qual as dificuldades em compatibilizarem-se os dois campos das ciências, naturais e sociais, são instransponíveis. O fundamento detrás desse pensamento é a subjetividade do comportamento humano, o qual, revestindo-se de complexa estrutura, não pode ser analisado e explicado da mesma maneira que é explicada a natureza (por suas características exteriores observáveis). Como ressalta o autor, ao explicar a segunda corrente, “a ciência social será sempre essa ciência subjetiva e não objetiva como as ciências naturais; tem de compreender os fenômenos sociais a partir das atitudes mentais e do sentido que os agentes conferem às suas ações, para o que é necessário utilizar métodos de investigação e mesmo critérios epistemológicos diferentes das correntes nas ciências naturais”(4). Como doutrinadores dessa corrente pode-se citar Max Weber e Peter Winch.

Apesar de serem aparentemente diversas, as duas correntes acabam por dar maior relevância às ciências naturais do que às ciências sociais. De fato, a segunda vertente serviria como um indício da crise do modelo até então hegemônico.

3. A CRISE DO PARADIGMA DOMINANTE

A crise do modelo hegemônico decorre da interatividade de uma série de condições teóricas e sociais. O autor destaca, inicialmente, quatro condições teóricas que contribuíram para a crise do paradigma dominante: 1ª) a teoria da relatividade de Einstein; 2ª) a mecânica quântica; 3ª) o questionamento do rigorismo matemático; 4ª) o avanço do conhecimento nas áreas da microfísica, química e biologia na segunda metade do século XX. Nos últimos parágrafos do capítulo, o autor apresenta, em aspectos genéricos, algumas condições sociais proporcionadas pela crise do paradigma dominante.

A primeira condição teórica diz respeito à teoria da relatividade de Einstein. O ponto-chave aqui repousa na divisão feita pelo cientista entre simultaneidade de eventos no mesmo local e simultaneidade de eventos em locais diferentes (à distância). Partindo dessa idéia, as concepções até então concebidas de espaço e tempo seriam revolucionadas. “Não havendo simultaneidade universal, o tempo e o espaço absoluto de Newton deixam de existir”(5). Passa-se, portanto, a conclusão de que as leis da física e da geometria assentam-se em medições locais, pois dois acontecimentos simultâneos num sistema de referência não são simultâneos noutro sistema de referência.

A segunda condição teórica refere-se à mecânica quântica. Aliada ao princípio da incerteza de Heisenberg e à teoria de Boher, a mecânica quântica demonstra que não é possível observar ou medir um objeto sem interferir nele, “a tal ponto que o objeto que sai de um processo de medição não é o mesmo que lá entrou”(6). Três são as principais conseqüências trazidas pela mecânica quântica: 1ª) sendo limitada a estrutura do conhecimento que pode ser adquirido, as leis da física são meramente probabilísticas; 2ª) o mecanicismo é inviabilizado uma vez que a totalidade do real não é reduzível à soma das partes da divisão feita para a medição do objeto; 3ª) é muito mais complexa a divisão entre sujeito e objeto.

A terceira condição teórica está baseada na teoria de Gödel, a qual acaba por questionar o rigorismo matemático como regra absoluta da constituição da natureza. A principal conseqüência dessa teoria é possibilitar a formulação de proposições “indecidíveis” mesmo à matemática, proporções que não podem ser matematicamente nem refutadas, nem demonstradas.

A quarta e última condição teórica, representada principalmente pela teoria de Prigogine, está relacionada à quebra do modelo de mecanicismo linear do modelo newtoniano. Há, a partir da segunda metade do século XX, o desenvolvimento de um movimento convergente entre ciências naturais e sociais, caracterizado em grande parte pela transdicisplinaridade, designado por Jantsch como o “paradigma da auto-organização”(7).

Esta série de condições teóricas apresentadas propiciaram uma profunda reflexão epistemológica sobre o conhecimento científico. Duas grandes reflexões podem ser destacadas: 1ª) questiona-se o conceito de lei e de causalidade; 2ª) releva-se antes o conteúdo do conhecimento do que a sua forma.

Nos últimos parágrafos do texto são apresentadas, em aspectos genéricos, algumas condições sociais proporcionadas pela crise do paradigma dominante.

4. O PARADIGMA EMERGENTE

O autor propõe um modelo emergente, o qual denomina “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente”(8). Este modelo estrutura-se em um paradigma científico de conhecimento prudente e em um paradigma social de uma vida decente. Para justificar o seu modelo, Boaventura utiliza-se de quatro princípios sobre o conhecimento: 1º) todo conhecimento científico-natural é científico-social; 2º) todo conhecimento é local e total; 3º) todo conhecimento é autoconhecimento; 4º) todo conhecimento científico visa constituir-se em senso comum.

5. ANÁLISE CRÍTICA

Aproveito esta parte do trabalho para propor algumas observações sobre assuntos já apresentados por Boaventura em sua obra. Também neste momento, creio que seja relevante uma análise dos quatro pontos propostos pelo autor em seu novo paradigma (último capítulo da obra).

Boaventura de Sousa Santos propõe um novo modelo de ciência a partir da inter-relação entre ciências naturais e ciências sociais, fraturando o modelo totalitário das ciências naturais, via única e possível para atingir-se uma “verdade universal”. “Verdade” essa adquirida por herança do deslumbramento ocasionado pelas teorias surgidas, principalmente a partir do século XIX, como o evolucionismo de Darwin, o positivismo de Comte e a criminologia de Lombroso. Essas teorias possuíam em seu âmago uma semelhança universal, a de sustentarem os seus estudos, como o a origem da natureza e a natureza do homem, em valores matemáticos, os quais explicariam o mundo racionalmente (e mensuravelmente), garantindo a previsibilidade fenomenológica da natureza.

Não distantes do século XIX, os dias atuais ainda demonstram que a impregnação da idéia deslumbrante da cientificidade (natural) moderna ainda persiste no ensino prestado pelas mais diversas instituições de ensino. Não que as ciências naturais não possuam relevante valor, pelo contrário, contribuem e muito. Porém, ocorre que o modelo mensurável de “verdade” parece ser, ainda hoje, por muitos almejado como maneira perfectibilizada de alcançar-se o onicompreensivismo, mesmo nos campos em que haja tremenda subjetividade, como são aqueles em que a sociedade e, principalmente, o homem, como indivíduo, aparecem como principais objetos de análise.

Ora, me baseio nessa observação por meio de uma experiência propriamente vivida. A matemática, verdadeiro paradigma de ciência natural, onde a regra dos “números previsíveis” impera, sempre foi sobremaneira valorizada em detrimento das disciplinas que envolviam o estudo de questões onde suas regras não poderiam ser aplicadas diretamente (em grande parte pela presença da subjetividade), como por exemplo a filosofia. Não por acaso, uma vez que a herança de teorias como a darwinista persiste em nosso meio, demonstrando clara necessidade de reavaliação dos métodos e valores acerca ensino acadêmico. Deve-se almejar um sistema de ensino do conhecimento onde prevaleçam conjuntamente, em paridade de relevância, disciplinas inerentes tanto às ciências sociais quanto às ciências naturais. Permite-se com essa conduta, um melhor acesso ao conhecimento da sociedade, do ser humano e da cultura pelos aprendizes.

À segunda proposta de conhecimento do festejado paradigma emergente proposto por Boaventura de Sousa Santos (“Todo o conhecimento é local e total”(9)) gostaria de associar a Teoria dos Sistemas. De relevante iniciativa do biólogo alemão Ludwig von Bertalanffy, esta teoria demonstra-se cada dia mais presente nos estudos interdisciplinares acadêmicos e institucionais. O autor português demonstra que o conhecimento propagado pela ciência moderna estava pautado no avanço da especialização, podendo ser sucintamente compreendido no binômio progressivo parcelização-rigorismo, ou seja, quanto mais restrito é o objeto em que incide o estudo mais rigoroso será o conhecimento sobre ele. Logo após, sustenta que não basta que o conhecimento seja adquirido de forma local, isto é, que sejam desenvolvidas análises, descrições e estudos em geral sobre um único objeto ou em um único campo disciplinar, é necessário além disso que haja um compartilhamento sobre a pluralidade de possibilidades de condições a serem “introjetadas” naquele estudo. Esse compartilhamento revela-se pelas vias da transdisciplinaridade e da interdisciplinaridade. “E como Geertz, podemos perguntar se Foucault é historiador, filósofo, sociólogo ou cientista político”(10).

A Teoria Geral dos Sistemas, desenvolvida ao longo do século XX, tendo o biólogo Karl Ludwig von Bertalanffy como relevante precursor teórico, vai, em grande parte, ao encontro da proposta de paradigma emergente apresentado por Boaventura de Sousa Santos, senão vejamos. A Teoria dos Sistemas, tendo hoje grande representação literária na obra “A teia da Vida” (cujo título original é “The Web of Life”) de Fritjof Capra, apresenta dentre suas linhas mestres uma valorização maior do “comportamento coletivo” em relação à atuação independente dos sujeitos que compõem um determinado sistema. A questão nevrálgica a ser explorada pela Teoria dos Sistemas não é a compreensão/controle/previsibilidade sobre um objeto isolado de uma análise (como a ciência moderna pretendeu), mas sim compreender a estrutura organizacional e as conexões interiores e exteriores entre o objeto de estudo e o ambiente do qual ele faz parte(11). Dito de outra maneira, o estudo isolado de um objeto (ou parte dele) ou o estudo de uma simples causalidade de um determinado problema (determinismo mecanicista) dificilmente explicará, completamente, a relação que existe entre o objeto da pesquisa e o ambiente que o cerca. Portanto, é necessário que o estudo desenvolvido considere ao mesmo tempo as multirelações (seja entre objeto-objeto, seja entre objeto-ambiente, seja entre outro tipo de relação) e as multicausalidades (seja entre objeto e resultado, seja entre ambiente e influência em resultado, seja, novamente, em outro tipo de relação) existentes entre ambos, objeto e ambiente.

Para a busca de um conhecimento mais amplo e universal é fundamental que sejam conciliadas as diversas áreas da ciências existentes hoje em dia (sejam as naturais, sociais, humanas, ou aquelas sob quaisquer outras denominações). A interdisciplinaridade bem como a transdisciplinaridade entre campos como filosofia e história, antropologia e direito, biologia e informática, apresentam-se cada vez mais relevantes. Os limites entre uma área e outra tendem a desaparecer gradativamente, fazendo com que um conhecimento universal, multiteórico e multidisciplinar seja, aos poucos, alcançado.

A terceira proposta feita pelo autor lusitano ao novo paradigma que emerge é a de que “todo o conhecimento é autoconhecimento”(12). Dentre outras observações, apresenta-se a separação que a chamada ciência moderna (principalmente no campo das ciências naturais) fez entre o sujeito de investigação e objeto de investigação. O sujeito que investiga não se confundiria com o objeto que estaria por ser estudado, como no exemplo da antropologia que tinha como sujeito de investigação o europeu civilizado e como objeto de investigação o indivíduo “primitivo”. Toda a subjetividade da natureza humana que pudesse interferir nos resultados da pesquisa era afastada. Da mesma maneira, a religião também havia sido afastada, evitando-se que valores morais ou éticos pudessem interferir nos estudos realizados.

Hoje em dia, percebe-se outro modelo de relação sujeito-objeto na prática científica. Clausewitz, citado na obra, sustenta que “podemos afirmar hoje que o objecto é a continuação do sujeito por outros meios”(13). Pode-se dizer, portanto, que, ao contrário da propugnação científica moderna de que os sujeitos deveriam conformar-se com o que por ela fosse determinado, hoje em dia, tem-se que o determinismo científico não é mais o único parâmetro a reger a vida das pessoas (realidade/previsibilidade). Há outras maneiras de se “saber viver”. Como observado pelo autor, “hoje não se trata tanto de sobreviver como de saber viver”(14). O “saber viver” conecta-se à compreensão íntima do homem, enquanto ser vivo, de que há uma união entre ele e o objeto alvo de estudo. O objeto passa a ser, portanto, uma própria extensão do sujeito, implicando que em uma pesquisa seja adquirido conhecimento sobre o objeto, diretamente, e sobre o próprio sujeito, indiretamente.

O quarto e último item integrante do modelo de paradigma emergente proposto é aquele em que “todo o conhecimento cientifico visa constituir-se em senso comum”(15). A ciência moderna considerava o senso comum como “superficial, ilusório e falso”(16), e por isso, o repugnava. A ciência pós-moderna, por sua vez, resgata o valor presente no senso comum. O senso comum permitirá que as diversas formas de conhecimento (das ciências e do próprio cotidiano) interajam entre si, orientando as ações do ser humano e dando sentido à vida (“saber viver”), ao ponto em que coincidem causa e intenção (ciência + senso comum). É neste sentido que Boaventura de Sousa Santos sustenta que “a ciência pós-moderna, ao sensocomunizar-se, não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em autoconhecimento, o desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida”(17).

NOTAS:

1 – SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. Porto, Afrontamento: 2002. p. 18.

2 – SANTOS, op. cit., p. 19.

3 – Ibidem, p. 19.

4 – Ibidem, p. 22.

5 – SANTOS, op. cit., p. 25.

6 – Ibidem, p. 25.

7 – SANTOS, op. cit., p. 29.

8 – Ibidem, p. 37.

9 – SANTOS, op. cit., p. 46.

10 – SANTOS, op. cit., p. 50.

11 – LIN, Y.K. General Systems Theory: A mathematical approach. Nova Iorque: Springer, 1999. p. 9.

12 – SANTOS, op. cit. p. 50.

13 – Ibidem, p. 52.

14 – Ibidem, p. 52.

15 – SANTOS, op. cit., p. 55.

16 – Ibidem, p. 56.

17 – Ibidem, p. 57.

Frases para depois da resenha

 

Nos países da América Latina, os Magistrados vestem o mito de serem auto-suficientes, no entanto, conhecem o Direito, mas não a realidade. A cultura tecno-burocrática domina entre os Magistrados. – Boaventura de Souza Santos


A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade e não há sequer qualquer razão científica para a considerar melhor que as explicações alternativas da metafísica, da astrologia da religião, da arte ou da poesia. –
Boaventura de Souza Santos

Uma sociologia para os tempos de crise

Uma sociologia para os tempos de crise

por FRANCISCO DE OLIVEIRA (Conhecido como Chico de Oliveira)

Neste belo livro, seus organizadores, Michael Burawoy e Ruy Braga, anunciam seus objetivos: o debate, a defesa e as proposições de uma Sociologia pública. Sem ambiguidades, sem cientificismos e surpreendente para os padrões de um debate acadêmico que quer também transcender os muros da academia, sem deixar de conceder espaço aos adversários da “Sociologia pública” e até mesmo dar-lhes razão em certos aspectos da crítica.

Os organizadores, que respondem pela totalidade dos artigos que compõem o livro – os últimos contam também com a colaboração de Sylvia Gemignani Garcia, Leonardo Mello e Silva e Marco Aurélio Santana -, são, eles mesmos, eminentes sociólogos públicos, na definição de Michael Burawoy, sociólogo norte-americano, professor na Universidade da Califórnia em Berkeley e tendo sido já presidente da prestigiosa e poderosa American Sociological Association, da qual é ainda membro. Afirma-se, assim, em primeiro lugar, como sociólogo profissional e transita com fluência e propriedade nos terrenos da Sociologia crítica, da Sociologia para as políticas públicas e, evidentemente, da Sociologia pública.

A Sociologia profissional norte-americana recebe as maiores doações financeiras para suas pesquisas

Nosso Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde se destaca por exercer com rigor seu métier profissional e projetar sua ciência para os diversos públicos, numa perspectiva crítica. Nenhum deles recusa, como ficará mais evidente na leitura dos capítulos do livro, a forte dimensão política da ciência da sociedade. Na verdade, os autores defendem a sociedade civil como objetivo e campo específico da Sociologia. Longe, portanto, de evitar toda a “contaminação” e, ao contrário, propondo a interlocução da Sociologia com os vários públicos.

Que significam os quatro campos da divisão do trabalho sociológico abordados na obra? O primeiro recebe o nome de “Sociologia profissional” e se dedica a pesquisar e a aprofundar os próprios teoremas da Sociologia, seus métodos, suas fontes de dados e seus modelos. O segundo, o da “Sociologia crítica”, tem como objetivos interrogar os próprios fundamentos da teoria sociológica e colocá-los à prova, criticar suas bases e pressupostos, perguntarse para que e a quem serve a ciência da sociedade.

Parece óbvio e banal que serve à própria sociedade, mas o abandono da crítica pode levar essa primorosa ciência a cair na irrelevância na qual já mergulhou a economia, antigamente conhecida como “economia política”, que a hegemonia norte-americana simplesmente passou a chamar de economics.

A “Sociologia pública” é o campo da interlocução da Sociologia com o público, os vários públicos, e é daí que ela recebe sua validação social, é aí que ela informa, discute, entra em contato, exerce um papel civilizatório. A “Sociologia para as políticas públicas” já se revela pelo nome: ela é uma ciência social aplicada às questões públicas, da saúde, da administração, da educação, da mídia, e também produz sob encomenda para clientes.

Essa divisão do trabalho é histórica e difere nacional e regionalmente. Hoje, o plaidoyer de uma Sociologia pública consiste em elaborar uma nova proposição teórico-prática para os tempos da globalização, pois há uma “Sociologia globalizada”. São campos com fortes conexões e uma pode alimentar a outra: da Sociologia para as políticas públicas pode vir o requerimento de uma nova acuidade metodológica que lide com fenômenos cuja irrupção na sociedade esteja surpreendendo os velhos fundamentos clássicos: tal é o caso do feminismo, dos idosos, já tão numerosos – mesmo no Brasil -, que propõem novas políticas, dos homossexuais, dos novos direitos das crianças e dos adolescentes. Burawoy é especialmente atento a essa “divisão global” do trabalho sociológico.

Para ele, essa “globalização” é, sobretudo, de forte predomínio norte-americano e subsidiariamente europeia. Mesmo para o Brasil, cujas ciências humanas sempre foram fortemente influenciadas pela Europa Ocidental, o processo de “americanização” da Sociologia segue uma trajetória ascendente.

Mesmo para o Brasil, o processo de “americanização” da Sociologia segue uma trajetória ascendente

O diálogo com o marxismo é forte nessa Sociologia pública, e talvez mais forte ainda na Sociologia crítica, até porque o próprio Marx foi seu cultor ou fundador da crítica ao capitalismo. Há mesmo adversários que acusam a Sociologia pública e seus cultores de serem apenas “demagogos marxistas” ou populistas ávidos de aplausos. A ironia da história dessa polêmica, como salientam os autores, é que é a Sociologia profissional norte-americana quem recebe as maiores doações financeiras para as suas pesquisas.

Não se trata, desde logo, para Burawoy e Braga, de recusarem a Sociologia profissional, pois na ausência de uma base metodológica rigorosa, os outros campos não podem prosperar, e essa é a tarefa da Sociologia profissional; nem tampouco de praticar um antiamericanismo sociológico tolo, pois novos approachs metodológicos enredados vigorosamente em contextos nacionais e regionais podem produzir excelentes resultados, como bem nos mostra o caso de Portugal, com sua recente produção sociológica de qualidade mundial.

É, portanto, com coragem política e apurado profissionalismo que Burawoy e Braga nos oferecem este trabalho, fundamentado numa vasta bibliografia, sobretudo norte-americana, sendo realmente uma contribuição para nossa própria Sociologia.

LIVRO: Por uma Sociologia pública
AUTORES: Ruy Braga e Michael Burawoy
EDITORA: Alameda Casa Editorial
ANO: 2008
PÁGINAS: 283
PREÇO SUGERIDO: R$ 44,00

Democracia e Revolução

Democracia e Revolução

Nesse texto, leitor, fica evidente a importância do comunismo e da democracia para Georges Labica. Para este autor – falecido recentemente – democracia e revolução estão estreitamente imbricadas, uma nutre a outra. Processos efetivamente revolucionários exacerbam a exigência e a possibilidade efetiva de democracia; a violência não deriva do impulso revolucionário libertador, mas da potência repressiva recente da ordem estabelecida. Labica não teme as palavras e, menos ainda, a luta – ainda que formidável – que as palavras precisam designar. Se revolução é democracia revolucionária, é preciso enfrentar os burocratismos e o peso crescente do executivo, despertar da anestesia submissa e resignada que dele derivam, livrar-se tanto do estalinismo quanto da dominação burguesa.
Retomando a concepção lukacsiana de democratização, reitera que a revolução democrática permanece sendo anseio dos explorados. As impropriamente chamadas de “democracia-modelo” dos países centrais reduzem-se crescentemente a uma ditadura aberta do capital, para dentro e para fora de sua fronteiras. Marx, Lenin e Gramsci são trazidos ao texto para nos lembrar que não basta mudar o condutor da máquina capitalista, mas que é estritamente necessário acabar – quebrar, destruir – essa máquina.

AUTOR: Georges Labica

Número de Páginas: 80

O preço do passado – Anistia e reparação de perseguidos políticos no Brasil

O preço do passado – Anistia e reparação de perseguidos políticos no Brasil

Resultado de uma pesquisa cuidadosa, este trabalho analisa todo o processo histórico que envolve as políticas de anistia e reparação até o momento presente, em relação aos cerca de 60 mil perseguidos políticos durante os 21 anos de ditadura militar no país.

Em sua cronologia, o processo abarca quatro aspectos principais, que se deram sucessivamente: 1)a luta pela anistia política, visando ao reconhecimento dos direitos políticos e de expressão, e, em outra instância, à volta ao país de milhares de exilados. 2)Após o restabelecimento dos direitos políticos, a reintegração social e trabalhista dos perseguidos na sociedade. 3) A busca pela “publicização” do ocorrido, que se dava durante o período militar de diversas formas (literatura, cinema, teatro, TV) apesar da censura sofrida constantemente. E na atualidade, as novas formas de comunicação, como a Internet, são ferramentas novas para continuar o trabalho de divulgação e luta pelo não-esquecimento. 4) A procura do reconhecimento do Estado pelos erros, através de indenização financeira e reparação simbólica. Iniciado na década de 1980, este último aspecto tornou-se mais forte desde a década de 1990, e está ligado tanto a busca pela justiça como pelo “direito à verdade”, através da reivindicação da abertura de arquivos públicos, dos documentos do exército, das polícias, dos institutos médicos legais, e também da devolução dos corpos, das comprovações dos atestados de óbitos etc.

Todos esses aspectos são permeados pelo que a autora chama de “busca pela preservação da memória”, sendo a exposição e a interminável luta pela reparação por parte dos perseguidos e parentes das vítimas, o preço por reaverem seu próprio passado e o devido lugar na história do país.

Coleção Vermelho: livro põe comunicação pública em debate

Coleção Vermelho: livro põe comunicação pública em debate

A Editora Anita Garibaldi e o Vermelho acabam de lançar Comunicação Pública no Brasil — Uma Exigência Democrática. A públicação é uma coletânea de artigos que resultaram de debate promovido pelo portal em fevereiro de 2009. É também o segundo livro da Coleção Vermelho.

Com textos da jornalista Tereza Cruvinel, diretora-presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), do jornalista Laurindo Lalo Leal Filho, do coordenador do Coletivo Intervozes, João Brant, entre outros, Comunicação Pública no Brasil é uma contribuição ao debate sobre o tema.

Até cinco anos atrás, a discussão sobre comunicação pública no Brasil estava restrita aos circuitos acadêmicos e a poucas organizações. Com a iniciativa do governo Lula de criar a TV Brasil e a EBC, o tema ganhou mais visibilidade.

São poucos os títulos disponíveis que abordam essa questão. O lançamento da Coleção Vermelho traz um panorama do assunto, a partir do ponto de vista de gestores, da sociedade e de estudiosos do tema, com dados atuais, resgate histórico, comparativos com experiências de outros países.

Comunicação Pública no Brasil — Uma Exigência Democrática pode ser solicitado diretamente ao Vermelho. Basta fazer o pedido pelo e-mail livro@vermelho.org.br.

SERVIÇO

Comunicação Pública no Brasil — Uma Exigência Democrática
Editora: Anita Garibaldi Data: junho 2009 Páginas: 80
Autores: Renata Mielli (org.), Tereza Cruvinel, Beto Almeida, Laurindo Lalo Leal Filho, Indira Amaral, Fábio Cesnik, Célio Turino e João Brant
Valor: R$ 15 e R$ 10 (para pedidos acima de 50 unidades)

Sociólogo lança livro e exposição de fotos em SP

Sociólogo lança livro e exposição de fotos em SP

Nesta quarta-feira, dia 17 de junho, acontece o coquetel de lançamento do livro Fronteira – A degradação do Outro nos confins do humano, escrito pelo sociólogo José de Souza Martins, e a abertura da exposição fotográfica do autor sobre a Amazônia nos anos 1970. “São fotos feitas na década de 70, no momento mais intenso e tenso do desclocamento da frente de expansão na Amazônia, do nascimento de centenas de povoados e cidades na região. Fiz essas fotos em Rondônia, no Acre, no Mato Grosso, no Pará, na Pré-Amazônia Maranhense e em Goiás (no atual Estado do Tocantins)”, explica Martins. Os eventos acontecem na Saraiva MegaStore do Shopping Pátio Paulista (Rua Treze de Maio, 1947 – São Paulo – SP / Tel.: 11 3171-3050), a partir das 18h30. A entrada é franca. FRONTEIRA – A degradação do Outro nos confins do humano.

Um livro sobre os confins que nos tolhem e nos separam de nós mesmos

O sociólogo José de Souza Martins lança a segunda edição revista e atualizada de Fronteira – A degradação do Outro nos confins do humano (Editora Contexto). Na obra, o autor discorre sobre as fronteiras interiores do Brasil, sobre as diferentes e conflitivas espacialidades de nossa expansão interna nesse demorado movimento iniciado com a Conquista e ainda não completado. A fronteira é o espaço próprio do encontro e do desencontro de sociedades e culturas entre si diferentes, como a sociedade indígena e a sociedade dita “civilizada”; mas também é lugar em que a violência da sociedade “civilizada” se agrava.

A conflitividade própria da fronteira aparece por inteiro num dos casos analisados pelo autor neste livro, uma tragédia shakespeariana na Amazônia: o amor impossível de dois adolescentes, o índio suruí Oréia e a colona branca Arminda, em Rondônia. O desfecho dessa tragédia culminou com o trucidamento do rapaz pela família da moça e o massacre de membros da família dela pelo grupo juvenil de Oréia. “Os raptos de crianças e mulheres, de lado a lado, de brancos e índios tem um componente dramático e trágico que acentua a importância de se compreender a fronteira como fronteira do humano”, concluí o sociólogo.

A fronteira é o lugar da liminaridade, da indefinição e do conflito. Tem sido o lugar da busca desenfreada de oportunidades. Mas, também, o lugar do genocídio dos povos indígenas, no mínimo o lugar de sua redução aos valores, concepções e modos de viver da sociedade que os domina. Tem sido o lugar da espoliação de camponeses que, lenta e secularmente expulsos de áreas incorporadas ao processo moderno de reprodução ampliada e territorial do capital, refugiaram-se na terra de ninguém que separa o mundo civilizado dos territórios indígenas. Tem sido, até hoje, o lugar de renascimento da escravidão por dívida, da peonagem, da disciplina do tronco, da chibata e da morte. José de Souza Martins é sociólogo, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (fflch-usp), foi eleito fellow de Trinity Hall e professor da Cátedra Simon Bolívar da Universidade de Cambridge (1993-1994). É mestre e doutor em Sociologia pela usp. Foi professor visitante na Universidade da Flórida (1983) e na Universidade de Lisboa (2000). Recebeu o Prêmio Érico Vannucci Mendes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (cnpq) em 1993 pelo conjunto de sua obra e o Prêmio Florestan Fernandes da Sociedade Brasileira de Sociologia em 2007. Pela Contexto, publicou os livros A sociabilidade do homem simples e Sociologia da fotografia e da imagem.

Sociologia para jovens do século XXI

Lançamento do Livro “Sociologia para jovens do século XXI” na XIII Bienal do Livro
Neste sábado, dia 15 Set 09, às 17h, o livro “Sociologia para jovens do século XXI” será lançado na XIII Bienal do Livro, que se realiza no Riocentro (Rio de Janeiro-RJ), no stand da Ed. Ao Livro Técnico, n. 157, Pavilhão Azul.
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