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Elaboração de Projetos Sociais – 39ª Edição - São Paulo – SP Objetivo: O curso visa contribuir para o aprimoramento de técnicas em Elabotação de Projetos Sociais. Público Alvo: Profissionais que atuam na área da assitência social, gestores e profissionais de organizações do terceiro setor, estudantes e profissionais envolvidos em projetos sociais. Investimento: R$ 522,00 (quinhentos e vinte e dois reais). Para pagamentos divididos em 03 Parcelas: Para pagamentos divididos em 04 Parcelas: Desconto de 10% para para três ou mais inscrições pertencentes à mesma instituição. Incluso : Material didático, Coffee Break e Certificado. Metodologia: O curso será desenvolvido em forma de oficina para possibilitar aos participantes maior interação com os conteúdos aplicados. Conteúdo Programatico:
Assessores: Divaneide Alves – CRESS 37.155 – 9ª Região – São Paulo – SP.
Professor Carlos Gaia.
Outros Cursos : Gestão Social: Desenvolvimento Comunitário – São Paulo – SP. Elaboração de Projetos Sociais – Campinas – SP. Realização: Perspectiva Social – Consultoria & Assessoria Ltda. *A Coordenação do evento reserva-se ao direito de transferir para uma próxima data ou de cancelar o programa, caso não atinja o numero mínimo de participantes. Copyright © 2009 – Perspectiva Social – Consultoria – Todos direitos Reservados. |
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Elaboração de Projetos Sociais – 39ª Edição – São Paulo – SP
MAGIA E CAPITALISMO – UM ESTUDO ANTROPOLÓGICO DA PUBLICIDADE
MAGIA E CAPITALISMO – UM ESTUDO ANTROPOLÓGICO DA PUBLICIDADE
| Título: | MAGIA E CAPITALISMO – UM ESTUDO ANTROPOLÓGICO DA PUBLICIDADE | |
| Volume: | 1 | |
| Indicação: | Ensino superior | |
| Coleção: | LITERATURA GERAL | |
| Autor(es) / Autora(s): | Everardo P. Guimarães Rocha | |
| Temas: | Antropologia Publicidade Comunicação |
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| Ano: | 1985 | |
| Peso: | 220 grs. | |
| Nº de Páginas | 163 | |
| ISBN: | 8511070168 | |
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Descrição
É preciso ler com cuidado esse texto de um dos jovens antropólogos mais promissores e inteligentes do Brasil. Brasil tão canibalizado pela publicidade e pelo consumismo hierárquico desvairado. Só com a ajuda de uma Antropologia Social como essa, generosa e crítica, original e criativa, genuinamente voltada para o entendimento do Brasil, é que poderemos superar e modificar essa magia, saindo finalmente do seu encanto. E quem sabe se, conhecendo bem a mágica, não poderemos domesticar nosso capitalismo totêmico e selvagem? De minha parte, eu estou convencido que sim… Do prefácio de Roberto Da Matta
Fonte: Editora Brasiliense |
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Uma gota de discórdia – Christian Carvalho Cruz
Crítico do sistema de cotas nas universidades brasileiras esquadrinha a história do racismo
Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo
Fonte: Jornal Estadão – http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,uma-gota-de-discordia,426651,0.htm
SÃO PAULO – Cinco anos atrás, ao matricular sua filha em um colégio paulistano, o sociólogo e colunista do Estado Demétrio Magnoli se deparou com uma “aberração”. Por orientação do Ministério da Educação, o formulário trazia um campo pedindo a raça do aluno. Magnoli tascou um “humana” na ficha e voltou para casa decidido a escrever Uma Gota de Sangue – História do Pensamento Racial (Editora Contexto, 400 págs., R$ 49,90), que chega às livrarias na quarta-feira, 2.
Libelo contra o que o autor chama de mito das raças – a necessidade de diferenciar seres humanos por sua ancestralidade, por uma única gota de sangue -, o livro mergulha fundo nas origens do racismo e seus desdobramentos nos tempos atuais. “Raças não existem. O que existe é o mito da raça, uma invenção recente, nascida há 150 anos junto com a expansão das potências europeias na África e na Ásia e usada para conquistar poder político e econômico”, diz Magnoli.
Uma Gota de Sangue mostra como essa invenção teria sido desinventada no pós-guerra e reinventada pelos movimentos multiculturalistas de 30 anos mais tarde, culminando em um tema caro a Magnoli: a crítica ao sistema de cotas raciais adotadas em universidades públicas brasileiras. Para ele, uma política de Estado que “cria uma clientela eleitoral” e “instala o ódio racial no meio da classe média baixa trabalhadora”.
O autor sustenta ainda um polêmico paradoxo: o de que os defensores de leis raciais de hoje resgatam o discurso que ontem ajudou a justificar a segregação entre brancos e negros. “Para os multiculturalistas, a igualdade é uma falsificação, pois não existe no mundo real; no mundo verdadeiro as pessoas não são iguais, dizem. Por isso eles querem abolir a igualdade, preferem a diferença. É um pensamento do século 19″, afirma. “Mas raça e igualdade são palavras de mundos distintos. Igualdade é democracia. Raça é diferença. Ou existe igualdade, ou existe raça.” A seguir, os principais trechos da entrevista de Magnoli ao Aliás.
A INVENÇÃO DA RAÇA
“O conceito contemporâneo de raça como famílias humanas separadas pela ancestralidade que mantêm relações hierárquicas entre si surgiu e se consolidou no quadro do evolucionismo darwinista da segunda metade do século 19. A ciência oficial criou a raça. Esse período coincidiu, e não por acaso, com o imperialismo europeu na África e na Ásia.
Muitos imaginam que o conceito de raça surgiu com a escravidão moderna. É falso. A ideia de raça não veio para explicar ou justificar a escravidão e sim para explicar e justificar o imperialismo europeu, que vinha na esteira do iluminismo e da ideia de igualdade natural entre os seres humanos. Isso tinha consequências explosivas. Como dominar uma nação se todos são iguais? Não pode haver dominação. Então precisaram de algo que relativizasse a igualdade, que, afinal, ‘é um bom princípio, mas a ciência nos mostra que ele é falso, pois na verdade não existem pessoas iguais’.
Curioso notar que só nas sociedades fundadas sobre a ideia de igualdade se torna necessário invocar o mito da raça. As sociedades fundada sobre a diferença, como todas até o iluminismo, não precisam dele. O ‘racismo científico’ se fez necessário para justificar um dos grandes processos do mundo contemporâneo, o da expansão do poder econômico das grandes nações europeias.
DESINVENÇÃO E REINVENÇÃO
“O conceito de raça foi desinventado no final da 2ª Guerra como reação ao nazismo, ao Holocausto, aos campos de extermínio. O mundo olhou para trás e disse: ‘Essa ideia de que a humanidade está dividida em raças produz sangue em grande escala, não aceitamos mais isso’. A raça então foi desconstruída, combatida nas grandes declarações sobre direitos humanos, algo a ser abolido das sociedades democráticas. Mas 20 ou 30 anos depois ela foi reiventada pelo multiculturalismo e suas políticas descritas como ações afirmativas. Essas políticas voltaram, agora sob a alegação de fazer o bem, às ideias raciais do século 19. No momento em que a genética decifra o DNA e afirma que a raça não existe, que a cor da pele é uma adaptação superficial a diferentes níveis de insolação, e que é controlada por 10 dos 25 mil genes do ser humano, a raça reaparece pelo viés cultural, como algo essencial e imutável de um povo, como gene novamente. A Bolívia, por exemplo, está se reinventando com base num conceito racial, está se tornando um país polarizado entre ameríndios e brancos. No Brasil essa proposta está codificada como Estatuto da Igualdade Racial – uma frase inviável. Raça e igualdade são palavras de universos distintos. Igualdade é democracia. Raça é diferença. Ou existe igualdade ou existe raça. O perigo do multiculturalismo é que ele quer eliminar o mestiço. Os multiculturalistas dizem que ‘esse negócio de igualdade é uma falsificação, pois não existe no mundo real; no mundo verdadeiro as pessoas não são iguais’. Eles querem abolir a igualdade, preferem a diferença. Um pensamento do século 19.
A REVIRAVOLTA OBAMA
“Nos anos 60, o que Martin Luther King fez o tempo todo foi pedir que os Estados Unidos respeitassem o princípio da igualdade previsto na Constituição americana, ou seja, ele pretendia abolir o conceito de raça da política. Barack Obama foi mais longe ao se definir como mestiço. Foi uma afirmação revolucionária, porque a mestiçagem não existe no censo e nas leis americanas. Lá, ou você é branco ou é negro, pois para se fazer leis raciais elimina-se a mestiçagem, definindo claramente a raça de cada um. E a mestiçagem é a indefinição, a não-raça. Então, quando Obama diz que é mestiço, filho de mãe branca e pai negro, ele dá um passo além de Luther King. Não se trata só de eliminar a raça da política, mas também da consciência das pessoas.
O BRASIL SE QUER MESTIÇO
“No Brasil, os racialistas propõem que as estatísticas demográficas tomem pardos e pretos como negros. Eles precisam transformar o quadro intermediário, cheio de tons indefinidos, em algo mais simples, com duas cores, para sustentar o mito da raça. Só que 42% dos brasileiros se dizem pardos, ou seja, não se classificam em raças. Vão dizer que se declarar pardo é uma proteção contra a discriminação racial, que é pior com os negros. Mas comparando os censos de 1940 e 2000 vemos que a proporção de brasileiros que se declaram pretos se reduz e a dos que se declaram brancos também. Dizer que o número de pardos aumenta porque as pessoas querem ‘embranquecer’ para fugir do preconceito é um argumento de quem lê as estatísticas só até a metade. O Brasil caminha para um momento em que 90% da população vai se dizer parda. E esse é o grande problema para lideranças do movimento negro que defendem as leis raciais. Não se faz lei racial num país em que as pessoas não definem sua raça.
NÃO SOMOS RACISTAS
“Há racismo no Brasil. O que não há é um conceito popular de que estamos separados por raças, como nos EUA. Assim, não somos racistas no sentido de a maioria dos brasileiros não interpretar o Brasil pelo prisma da raça; e também no sentido de o Estado brasileiro não ter feito leis raciais ao longo da história. Não somos racistas, embora existam racistas no Brasil. O racismo aparece na operação ilegal de certas instituições, claramente a parte da polícia que ainda prefere parar o jovem negro a parar um jovem branco. Mas o fato é que o racismo no Brasil está sempre ligado à questão socioeconômica. A violência policial baseada no preconceito racial é muito clara nas periferias e favelas. Pessoas que não têm pele branca, mas vivem em bairros de classe média, estão menos sujeitas a uma abordagem racista da polícia. Cada vez que o racismo se manifesta aqui é um escândalo, o que mostra o caráter antirracista da nação. Isso é uma vantagem, mas os defensores de leis raciais acham o contrário. Dizem que é melhor um racismo explícito à la americana do que o racismo envergonhado à la brasileira. O racismo explícito ajuda a definir interesses de raças – necessários aos que se dizem líderes raciais.
A ETERNA QUESTÃO REGIONAL
“No Brasil a desigualdade é essencialmente socioeconômica – e é terrível . Não é racial. A maioria dos pretos e pardos do País está no Norte e no Nordeste, as regiões mais pobres, enquanto a maioria dos que se declaram brancos está no Sul e no Sudeste, as regiões mais ricas. A partir disso algum perturbado poderia sugerir a criação de cotas para nordestinos. Os filhos de Tasso Jereissati, Ciro Gomes e José Sarney adorariam, porque as cotas sempre favorecem a nata do grupo privilegiado por elas. Eu não estou dizendo que não haja maior incidência de pobreza entre pretos e pardos. Há, mas em função do que ocorreu no fim da escravidão – quando os descendentes de escravos, por falta de ensino público abrangente e por falta de reforma agrária, não foram incluídos na sociedade que se modernizava – e não em função do racismo atual.
DISCRIMINAÇÃO REVERSA
“As cotas raciais não são um meio válido para corrigir diferenças socioeconômicas porque nunca reduziram pobreza em lugar nenhum onde foram implantadas. Elas beneficiam a nata do grupo privilegiado. A cota racial para ingresso em universidades públicas não está tirando vaga dos ricos, dos filhos de empresários. Esses, ou fizeram colégios e cursinhos tão bons que conseguirão passar no vestibular mesmo com um número de vagas menor em disputa ou cursarão universidade no exterior. O que a cota faz é instalar uma competição dentro da classe média baixa, uma competição racial dentro de um grupo social que veio do ensino público, entre os filhos de trabalhadores da classe média baixa. São aqueles que terminam o ensino médio. Não sejamos demagogos: vamos tirar os miseráveis dessa história, porque eles não terminarão o ensino médio, eles não serão beneficiados pelas cotas. Então, quem acaba beneficiado é o jovem de classe média baixa da cor ‘certa’ em detrimento do jovem de classe média baixa da cor ‘errada’. É a discriminação reversa.
À CAÇA DE VOTOS E PODER
“Os racialistas dizem estar fazendo justiça social por meio do sistema de cotas. É falso. O que as leis raciais visam é criar zonas de influência política e eleitoral. Isso acontece no Brasil, cada vez mais na Bolívia e em outros lugares onde falar em nome de uma etnia ou raça é desenvolver uma clientela política, é dizer ‘votem em mim porque eu defenderei os interesses desse grupo que eu acabei de definir’. A função é produzir lideranças políticas, carreiras política, poder político. Você não precisa falar para a sociedade como um todo, explicando que vai defender os interesses gerais dos cidadãos e assim competir com um monte de gente que diz a mesma coisa.
FRONTEIRA NO ÔNIBUS
“Ações afirmativas socioeconômicas, como cotas sociais e políticas de melhoria rápida e dramática das escolas públicas nas periferias, ajudariam mais os pobres a ingressar no ensino superior. Fazer isso por meio de ações afirmativas raciais leva o aluno branco a olhar para o lado e pensar: ‘Este é quem não tinha o direito de estar aqui, mas está porque tem a cor que agora virou “certa”; e eu estou separado dele não só pela cor da pele, mas pelas leis deste país, que o colocam num grupo com certos privilégios; ele está aqui porque alguém da minha cor de pele, mas com a mesma renda dele, não está’. Esse é um grande risco: cotas raciais traçam uma fronteira dentro dos ônibus, dentro dos bairros periféricos, no meio do povo, porque vizinhos de bairro e colegas de trabalho com a mesma renda vão se olhar e entender que estão separados pela cor da pele. Isso é instalar no meio do povo o ódio racial.”
As aspas do “espírito”
Por Carlos Alberto Dória
Sociologia holística faz nova investida com reedição de clássicos de Weber e Mauss
“Existiria, em teoria, fuga melhor da confrontação com o capitalismo, o sistema mais totalizador que o mundo já conheceu, do que a rejeição do conhecimento totalizador?”
Ellen Meiksins Wood, “Democracia contra Capitalismo”
Há uma sensação geral nas ciências humanas de que no dia 9 de novembro de 1989, junto com o muro de Berlim, veio abaixo toda a filosofia da história inaugurada na Revolução Francesa e que Hegel e Marx aparentemente haviam imortalizado.
O abalo foi tão forte que um medíocre historiador norte-americano, Francis Fukuyama, sentiu-se à vontade para vir à luz e declarar o “fim da história”, ou o fim das ideologias e o domínio absoluto do mercado e do neoliberalismo.
O dano sobre as ciências sociais foi enorme, pois o que as caracteriza é a necessidade de se nutrirem numa filosofia da história. A filosofia da história hegeliana, por sua vez, parte de um artigo de fé: a crença no progresso continuado do espírito humano, na objetivação da razão1.
No Ocidente, desenvolveu-se porém uma outra filosofia da história que apresenta as sociedades, ou civilizações, como irredutíveis ou incomunicáveis entre si e, portanto, possuindo cada uma um “ciclo” de vida e morte, ou seja, expressando uma constante luta entre forças racionais e irracionais com alguma sorte de triunfo dessas últimas. Esta corrente reúne a tradição “decadentista”2: Vico, Gibbon, Spengler, Gobineau, entre outros autores.
A tradição decadentista não fecundou a sociologia, a antropologia ou qualquer outra disciplina acadêmica, fundamentando acima de tudo políticas conservadoras -para elas o “fim da história” de uma cultura, sociedade ou “império” sempre nos espreita como uma ameaça de abismo a ser politicamente evitado.
O tempo se encarregou de mostrar o quanto Fukuyama era um produto da mídia, um pensador nada consistente, um “decadentista” de ocasião investindo contra a outra filosofia da história. E, aos poucos, a própria filosofia da história que parecia estar destinada à lata de lixo recupera parte do seu prestigio. Afinal, à queda do muro de Berlim não se seguiu o fim do mundo, embora o império americano o persiga com afinco.
Mas havia muros e “muros”. Muros ou pilares intelectuais. A história da Faculdade de Ciências Humanas da USP, tributária da vanguarda do pensamento francês dos anos 30 do século passado, girou, pelo menos durante meio século em torno de três autores: Durkheim, Weber e Marx, nesta ordem. A partir dos anos 90, Marx foi progressivamente sumindo das bibliografias e, conseqüentemente, dos programas das editoras.
Assim, textos valiosos, como os seus “Grundrisse”, os “rascunhos” de “O Capital”, onde se surpreende o processo de criação de Marx como em nenhum outro texto, sequer foram traduzidos integralmente para o português. Mas, ao ruir um pilar, foi todo o edifício que se abalou. Na pedagogia uspiana, Weber valia pelo “diálogo” com Marx e ambos por se contraporem ao “simplismo” funcionalista e a-histórico de Durkheim, fundador da sociologia. Tratava-se, pois, de um equilíbrio que foi rompido.
Mas o que há de comum entre as três correntes de pensamento é uma coisa só: a percepção da integridade da vida social e a afirmação metodológica de que é impossível recortá-la para explicá-la por partes. Esta a verdadeira “herança francesa”: a vida social enquanto uma totalidade de sentidos.
Conceitos como ”modo de produção” (Marx), ou “tipo ideal” (Weber), ou, ainda, “fato social total” (Durkeim), foram chave para o desenvolvimento de um sem número de pesquisas, e o que os aproxima, apesar de originados em diferentes tradições intelectuais, é o grau extremo de abstração ou o esforço para organizar o mundo empírico em explicações abrangentes.
O que se seguiu à debacle desses autores holísticos foram teorias de fôlego curto, derivadas de concepções de história nas quais os fatos parecem trazer um significado pulsante em si mesmos como, por exemplo, a chamada “história das mentalidades”: história da idéia de morte, história da infância etc.; ou a valorização da memória e do seu aspecto singular como testemunho de uma época; a exploração de “pluralidades” e diferentes “olhares”, e assim por diante. Em outras palavras, tratava-se da “pós-modernidade” procurando criar cidadania acadêmica.
De fato, o que as ciências sociais conhecem como “pós-modernidade” nega a possibilidade de explicações totalizantes da realidade histórica, ao passo que afirma o primado dos “fragmentos” da vida social como objetos únicos e legítimos do conhecimento.
No entanto, a julgar pelo movimento editorial, de repente (e não mais que de repente) os autores holísticos parecem voltar à voga. Uma preciosa e bem cuidada edição de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber, e a fundamental “Sociologia e Antropologia”, de Marcel Mauss, em extraordinária edição capa dura, fazem a reentrada em cena3.
Coisas bem produzidas, tão raras no mercado editorial das ciências humanas no Brasil, parecem querer mexer fundo no desejo do consumidor do objeto-livro. Assim, não é o velho Weber que aparece, mas um Weber remoçado, desvendado por uma nova tradução de um de seus clássicos na qual surgem diferenças “fundamentais” entre as duas versões agora à disposição.
O tradutor, em apresentação preciosista, nos propõe ler “espírito” (do capitalismo) entre aspas e sem aspas. A leitura entre aspas querendo registrar a intenção do autor em nos fazer ver a cultura do capitalismo ou a conduta de vida que lhe é correspondente, sumindo as aspas como fruto do amadurecimento de Weber no período que separa as duas edições em vida do seu texto: em 1904 e 1920. Como propósito, a nova tradução comemora o centenário do aparecimento da obra.
Weber busca, no seu livro, explicar um fato empírico instigante: o caráter predominantemente protestante dos proprietários de capital, empresários e operários qualificados das empresas modernas. Evidentemente não era uma questão nova. Marx já havia se referido à superioridade cultural do proletariado alemão, capaz de assimilar a ciência e colocar-se na vanguarda da revolução, creditando este fato à formação luterana que impunha a alfabetização como forma de contacto direto com Deus pelo acesso às sagradas escrituras. Este “diferencial competitivo”, como se diria hoje, fazia-o vanguarda num mundo de proletários bestializados e ignorantes.
Mas o que é extraordinário e original em Weber é o imbricamento que mostra entre a economia e a religião, entre a conduta de vida ascética, frugal, e a acumulação de capital. Um domínio perfeito da teologia protestante e um conhecimento profundo da dinâmica capitalista permitiram a Weber relacionar esferas da vida social que, se não eram vistas como antagônicas, se excluíam na explicação do movimento real da sociedade.
Assim, para ele, “embora o homem moderno, mesmo com a melhor das boas vontades, geralmente não seja capaz de imaginar o efetivo alcance da significação que os conteúdos de consciência religiosa tiveram para a conduta da vida, a cultura e o caráter de um povo, não cabe, contudo, evidentemente, substituir uma interpretação causal unilateralmente ‘materialista’ da cultura e da história por uma outra espiritualista, também ela unilateral”4.
Weber mostrou, através da análise concreta, que todos os aspectos da vida estão “incrustados uns nos outros” (para utilizar a expressão feliz do economista Karl Polanyi) e se os tomamos em separado, porque os percebemos empiricamente assim, nos afastamos da possibilidade de explicação científica dos fenômenos.
De fato, não há possibilidade de conhecimento científico nas ciências humanas se não nos afastamos da aparência dos fenômenos para mergulhar na busca da sua essência; e se não compreendemos esta como um conhecimento novo que integra e explica a produção da aparência -o que é distinto de um significado “oculto”, como uma outra face “cavernosa” do que estudamos. Só na construção intelectual da totalidade é que a explicação se dispõe como conhecimento novo.
“Sociologia e Antropologia”, de Marcel Mauss, é outro caso feliz de análise da vida social que, como Weber, fundou procedimentos metodológicos duradouros. O livro reúne pelo menos três ensaios com essas características: o “Ensaio sobre a dádiva – Forma e razão das trocas nas sociedades arcaicas”; o ensaio “Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a de “eu” “; e “As técnicas do corpo”.
Não é possível imaginar a antropologia francesa sem essa obra, como bem aponta Lévi-Strauss na “Introdução à obra de Marcel Mauss” (também ela peça fundamental para compreender o desenvolvimento da antropologia moderna, e que integra a edição brasileira).
Mauss era sobrinho de Durkheim, de quem foi também discípulo e, muitas vezes, co-autor de estudos clássicos de fundação da sociologia enquanto disciplina acadêmica. Ele estudou sobretudo as sociedades ditas “primitivas”, sem jamais ter realizado trabalho de campo.
O “Ensaio sobre a dádiva” (a palavra em francês é don, e alguns prefeririam traduzi-la por presente, para acentuar o seu caráter material) é considerado a obra-prima de Mauss. Nele, estuda, a partir de dados etnográficos, o que obriga as pessoas a darem presentes e, inversamente, os presenteados a retribuírem; enfim, o que move as trocas rituais5. Mauss observa que as obrigações de “dar, receber e retribuir” são movidas, em certas sociedades, pelo mana -palavra polinésia que pode ser traduzida grosseiramente por “espírito da coisa dada”. Ele é uma representação mágica da troca, pois nos diz que, se uma pessoa fica demasiado tempo com um presente, sem passá-lo adiante, o mana pode produzir malefícios para o seu possuidor.
A interpretação de Mauss é que o mana não é senão o reflexo subjetivo da exigência de uma totalidade não percebida, aquela que põe em contacto os clãs, as famílias, através das trocas rituais. Assim, por trás dessa circulação compulsória dos presentes, impulsionada pelo mana, é a própria sociedade que vai se tecendo, estabelecendo as alianças matrimoniais, impulsionando as atividades econômicas, se vendo como expressão de uma ordem espiritual que se quebraria caso as trocas rituais fossem interrompidas. A troca ritual, portanto, instaura a lei da reciprocidade que é o fundamento da sociedade. Sem ela, estaríamos no domínio da natureza, e não da cultura.
Assim, o que Mauss mostra é que a troca, que aparentemente é o denominador comum de uma série de atividades sociais heterogêneas, não se explicaria pelos fatos empíricos, mas por uma estrutura que a torna necessária e faz das trocas empíricas fatos secundários.
Em Mauss, os sujeitos aparecem então como prisioneiros de uma estrutura de necessidades. Também é assim com a noção de pessoa, que apesar da experiência moderna como um “ser psicológico”, é -nas suas várias formas: persona latina, ente moral cristão, modalidades primitivas- uma categoria social muito forte6.
Já no outro estudo citado, as técnicas do corpo são inventariadas na sua diversidade cultural (Ocidente, Índia, China, Maori, etc) e funcional (nadar, dormir, respirar, dançar, etc.), evidenciando também como o esforço “irrealizável”, a dor “intolerável”, o prazer supremo -apesar da aparente determinação meramente fisiológica, converge para a percepção de que o corpo não é senão uma expressão da socialização7.
Sem a sociologia e antropologia de Marcel Mauss, pode-se dizer que não existiria a antropologia de Lévi-Strauss e todo o desenvolvimento ulterior da corrente estruturalista, centrada na idéia de que as sociedades são constituídas a partir de níveis de trocas: as trocas de bens (economia), de mulheres (alianças matrimoniais entre clãs) e de palavras (poder político).
Esses exemplos, pinçados de Weber e Mauss, são suficientes para compreender o incômodo pós-moderno diante da sociologia e da filosofia da história de caráter holístico. O capitalista que acumula, o indígena que troca presentes, o nadador que busca a perfeição técnica do seu esporte -todos parecem excessivamente limitados na sua “liberdade”, pois são expressão de opções determinadas num nível da vida social à qual não têm acesso consciente. Isto contrasta fortemente com o aparente “espírito livre”, com a vontade fragmentada da vida pós-moderna.
1 – G. H. F. Hegel, “The Philosophy of History”, Dover Publications, New York, 1956. Ver especialmente a “Introdução”.
2 – Esta corrente foi estudada de modo sistemático e pioneiro por Julien Freund, “La Décadence”, Éditions Sirey, Paris, 1984.
3 – Max Weber, “A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo” Companhia das Letras, São Paulo, 2004; Marcel Mauss, “Sociologia e Antropologia” Cosac & Naify, São Paulo, 2004.
4 – Max Weber, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, pág. 167.
5 – Estas trocas não devem ser confundidas com as trocas econômicas “de mercado”, que fundam a análise das economias modernas.
6 – “O que quero mostrar é a série das formas que esse conceito assumiu na vida dos homens, das sociedades, com base em seus direitos, suas religiões, seus costumes, suas estruturas sociais e suas mentalidades” (Marcel Mauss, “Sociologia e Antropologia”, pág. 371).
7 – “É graças à sociedade que há segurança e presteza nos movimentos, domínio do consciente sobre a emoção e o inconsciente” ((Marcel Mauss, “Sociologia e Antropologia”, pág. 421).
Livro ‘Uma velha história da merda’ é reeditado no México
(AFP) – há 3 dias
MÉXICO, México — “O ato de cagar continua sendo um dos mais repetidos ritos de criação e realização, e, nesse contexto, todos somos artistas consumados”, sentenciou o antropólogo Alfredo López Austin, ao apresentar a reedição de seu livro “Uma velha história da merda” (Una vieja historia de la mierda).
O livro que López Austin escreveu há 20 anos junto com o artista plástico mexicano Francisco Toledo foi reeditado recentemente e reúne “relatos e saberes mesoamericanos sobre as fezes”.
Entre suas escatológicas histórias o livro conta, por exemplo, que “em Tenochtitlan um escravo podia obter a sua liberdade se, ao fugir de seu amo, entrasse em um tianguis (mercado) e pisasse na merda”.
Para os indígenas “nahuas e os purépechas antigos, o ouro e a prata eram o excremento dos deuses”, acrescentou López Austin, especialista em história mesoamericana.
A ideia do livro, que reúne ilustrações sobre as fezes, surgiu porque ambos os estudiosos se sentiram atraídos pelos “enigmas da defecação”, segundo o resumo da apresentação realizada na quarta-feira na XXI Feira do Livro de Antropologia e História.
O antropólogo mexicano considerou: “estávamos com a maturidade suficiente para não nos horrorizarmos com o fato de algum de nós escrever sobre esse tema”.
“Nas sociedades humanas, a cotidiana produção de excrementos se encontra na exata fronteira entre a natureza e a cultura, nos limites incertos entre a fisiologia, a comunicação simbólica e a mais pura criação coletiva e privada”, ressaltou o especialista.
Livro sobre militares do Brasil é lançado na próxima segunda-feira no PA
Orm – VB
BELÉM – O doutor em Antropologia Social, Celso Corrêa Pinto de Castro lança na próxima segunda-feira (22) o livro ‘Antropologia dos Militares’. O evento acontecerá no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), às 17h.
Segundo o autor, o livro reúne o estudo de vários pesquisadores sobre os militares no Brasil, usando a visão antropológica para analisar os fatos.
- Fui a campo, participei de exercícios de guerra, acompanhei eventos dos cadetes da companhia militar e convivi com eles para poder escrever com mais propriedade sobre o assunto, explica Celso Castro.
Além desta publicação, Celso escreveu outros livros como ‘A Memória Militar Sobre 1964 – Visões do Golpe’, ‘A Volta aos Quartéis’, ‘Anos de Chumbo e ‘O Espírito Militar’, dentre outros.