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O legado de Gerald Cohen, fundador do marxismo analítico

O legado de Gerald Cohen, fundador do marxismo analítico

Em uma série de cinco artigos, o sociólogo mexicano Julio Boltvinik analisa a contribuição do filósofo Gerald Cohen para os estudos da obra de Marx. A operação decisiva que criou o marxismo analítico foi o rechaço da pretensão de que o marxismo possui valiosos métodos intelectuais próprios, o que permitiu a apropriação de uma rica corrente metodológica que este, em seu detrimento, havia evitado. Na última etapa de sua vida, Cohen abordou temas de filosofia moral e política, que os marxistas costumavam desdenhar.

Em seu livro “Por que não o socialismo?”, Gerald Cohen recorda que nas emergências, como em inundações ou num incêndio as pessoas atuam com base nos princípios solidários de um acampamento. A viabilidade do socialismo que Cohen discute não se refere a se podemos chegar a ele a partir de onde estamos, agora, mas se o socialismo funcionaria e se seria estável. Cohen pensa que o principal problema do socialismo não é o egoísmo, mas que não sabemos como desenhar a maquinaria que o faria funcionar; seria nossa carência de uma tecnologia organizacional adequada: nosso problema é de desenho.

Julio Boltvinik – La Jornada

Primeira Parte: por que o marxismo se ocupou da filosofia política e moral

Fiquei sabendo da morte deste grande filósofo muitos meses depois de ocorrida e me doeu muito, apesar de meu contato com sua obra intelectual (quase) se limitasse a sua lúcida crítica ao enfoque de “capacidades” capabilities de Amartya Sen, já que sua obra em torno do pensamento de Marx eu (quase) não tinha lido. Embora tivesse sua grande obra de “juventude”, publicada em 1978: “A teoria da história de Karl Marx: Uma defesa”, que foi considerada como a insígnia do marxismo analítico, tinha lido somente com grande admiração e assombro o primeiro capítulo, intitulado “Imagens da história em Hegel e Marx”. Ao ficar sabendo de sua morte há uns seis meses adquiri alguns de seus outros livros e os tenho lido com avidez, aumentando minha admiração por sua grande capacidade e rigor analíticos. Na introdução à nova edição desta obra juvenil ele explica o que é o marxismo analítico e como ingressou nessa corrente de interpretação.

A operação decisiva que criou o marxismo analítico foi o rechaço da pretensão de que o marxismo possui valiosos métodos intelectuais próprios, o que permitiu a apropriação de uma rica corrente metodológica que este, em seu detrimento, havia evitado.

Este é um assunto central e que merece um tratamento detalhado que desejo fornecer. Devo adiantar que minha admiração por Cohen não impede que tenha fortes desacordos com ele, inclusive em temas centrais. Hoje me interessa apresentar este grande filósofo. Comecemos por alguns extratos autobiográficos:

“Me considero judeu mas não acredito no Deus do Antigo Testamento. Fui criado tanto para ser judeu como para ser antirreligioso e sigo sendo muito judeu e bastante ateu. Minha mãe era orgulhosa de ter se tornado proletária em Montreal, depois de ter nascido numa família burguesa da Ucrânia. Meu pai, também operário, pertencia a uma organização judaica antirreligiosa, antissionista e fortemente pro-soviética. Minha primeira escola, dirigida por essa organização, era muito política e antirreligiosa. Nas tardes, a linguagem de instrução era o ídiche. Judeus e judias de esquerda nos ensinavam história judaica (e de outros povos) e a língua e a literatura ídiche. Até quando narravam as histórias do Antigo Testamento as impregnavam do vernáculo marxista. Uma das matérias em ídiche era História da Luta de Classes.

Quando os estadunidenses matam vietnamitas, os soviéticos cercam os tchecos, os sérvios assassinam bósnios, sinto-me enojado, frustrado e triste. Mas quando os israelenses destroem casas e matam homens, mulheres e crianças nos territórios ocupados, há sangue em minhas próprias mãos e choro de vergonha. Por que me sinto tão judeu? Parte da resposta é que a tradição judaica foi bombardeada em minha alma na infância. Mas outra razão é o antissemitismo. Sartre exagerou quando disse que é o antissemita que cria o judeu. Mas quem poderia negar que o antissemita reforça o sentimento judaico no judeu?” (If you’re an Egalitarian, How Come You’re so Rich?,[algo como: Se você é igualitarista, como pode ser tão rico?] Harvard University Press, 2000, pp. 20-34.)

Cohen escreveu vários livros. Seu último grande livro tem uma importância e é de uma complexidade similar ao primeiro: Rescuing Justice and Equality [Resgatar a Justiça e a Equidade] (Harvard University Press, 2008). Como bom marxista (creio que o foi, apesar de suas próprias dúvidas e das de muitos), Cohen trata de explicar por que, na última etapa de sua vida (o que se reflete neste livro), abordou temas de filosofia moral e política, que os marxistas costumavam desdenhar.

Começa com uma anedota. Viaja em 1964 para a Tchecoslováquia e fica na casa de sua tia paterna, cujo marido (Norman Freed) era editor do World Marxist Review. Uma noite, diz, fiz-lhe uma pergunta sobre a relação entre, por um lado, a justiça e os valores morais e, por outro, a prática política comunista. Seu tio político lhe respondeu sardonicamente: “Não me fale de moralidade. Não estou interessado na moral”. Cohen explica que isto significava que a moralidade é pura fábula. Ante a insistência de Cohen, que disse que o que Freed fazia refletia um compromisso moral, este respondeu: “Não tem nada a ver com moral. Estou lutando por minha classe. Em seu desprezo pela moralidade, o tio Norman estava expressando, em forma literal, uma venerável, profunda e desastrosamente enganosa auto concepção marxista, disse Cohen. A razão mais importante da exclusão das questões morais é que o marxismo se apresentava a si mesmo, perante si mesmo, como a consciência da luta no mundo, e não como um conjunto de ideais propostos ao mundo para que este se lhes ajuste. O marxismo, explica, em contraposição ao socialismo utópico, era científico: baseava-se nos duros fatos históricos e na dura análise econômica. Essa autodescrição era em parte uma bravata, acrescenta, porque os valores de igualdade, comunidade e auto realização humana eram sem dúvida parte integral da estrutura de crenças marxistas.

Mas os marxistas não examinavam os princípios de igualdade, ou de fato nenhum outro valor ou princípio. Em troca, assinala, dedicaram sua energia intelectual à dura carapaça factual, que rodeava tais valores, às teses audaciosas explicativas da história e do capitalismo (Ibid, pp. 101-103).

Cohen continua:

“Mas agora o marxismo perdeu a maior parte de sua carapaça, sua dura concha de supostos fatos. Quase ninguém o defende na academia. Na medida em que o marxismo esteja ainda vivo – e se pode dizer que um certo tipo de marxismo está vivo, por exemplo, em trabalhos acadêmicos como os de Roemer nos EUA e Van Parijs na Bélgica – apresenta-se a si mesmo como um conjunto de valores e um conjunto de desenhos para realizar tais valores. É agora, portanto, muito menos diferente do socialismo utópico do que em algum outro momento pôde afirmar que era. Sua concha está partida e se desmancha, seu ventre débil restou exposto”. (p. 103)

Cohen descreve como se deu a perda da carapaça factual relativa à igualdade. No passado, atuavam duas tendências irresistíveis que, juntas, garantiam um futuro de igualdade material. Por um lado, a ampliação de uma classe social organizada (convertida em maioria), cuja posição social, no lado prejudicado pela desigualdade, dirigia sua luta a favor da igualdade; por outro, o desenvolvimento das forças produtivas levariam a um mundo em que todos poderíamos ter tudo o que quiséssemos, o que faria desaparecer a desigualdade. Cohen disse que esta possibilidade já não está certa, porque o planeta se rebelou e impôs limites naturais ao que se pode produzir. Por outro lado, o proletariado está deixando de ser o que era: a maioria explorada e carente da população, que levaria a doutrina do direito do trabalhador ao fruto de seu trabalho e a doutrina igualitária a coincidirem. Mas os explorados e os desprovidos deixaram de ser os mesmos e deixaram de ser maioria (inclusive no terceiro mundo, onde predomina o exército industrial de reserva).

Por isso, os valores socialistas deixaram de ter um laço com a estrutura social capitalista e, portanto, os temas de filosofia política e moral voltaram a ser importantes para o marxismo. Por essa razão Cohen se ocupava deles. No entanto, a desigualdade mundial é brutal e está aumentando.

(*) Quando editei dois números temáticos sobre pobreza, em 2003 da extinta revista Comercio Exterior (vol. 53, números 5 e 6, de maio e junho) inclui extratos de seu ensaio Igualdad de que? Sobre o bem estar, os bens e as capacidades, em que constam partes do enfoque de Sem e propõe uma rota para reconstruí-lo. Este material eu utilizei durante muitos anos em meus cursos sobre pobreza no Colégio de México.

Segunda parte: Por que não o socialismo?

Embora se trate de um pequeno livro de bolso (Why not socialism?, Princeton University Press, 2009, 83 pp.), o último que publicou em vida, e ainda que em 2001 tenha publicado um ensaio com o mesmo nome, do qual o volume é uma versão modificada, simbolicamente é muito interessante que seu último tomo seja sobre o socialismo, fechando assim o círculo iniciado com seu primeiro livro (como comentei antes, “A teoria da história de Marx: uma defesa”. Vários amigos e leitores me escreveram para me informar que existe sim uma edição em espanhol (publicada na Espanha), mas não consegui encontrá-la na internet.

“Por que não o socialismo?” tem cinco capítulos. No primeiro, Cohen mostra que nas viagens de acampamento (daqui para frente acampamento) quase todos preferimos uma forma de vida socialista. No segundo torna explícitos os princípios de igualdade e comunidade, que prevalecem no socialismo. Em terceiro questiona se esses princípios, levados a escala social, tornam o socialismo desejável. No quarto, se o socialismo é viável. O livro termina com um pequeno epílogo.

Quando vamos acampar não há hierarquias entre nós e nosso propósito comum é passar bem. As instalações e as equipes de que dispomos (mesmo sendo alguns privados) estão sob controle coletivo. Há uma forma de divisão do trabalho. Nesses contextos, a maior parte das pessoas, inclusive a maior parte dos anti-igualitaristas, aceitam e dão por sensatas normas de igualdade e de reciprocidade, disse Cohen. Acrescenta que, embora possamos imaginar um acampamento baseado em regras de mercado, a maior parte das pessoas o repudiaria, o que exemplifica com eventos hipotéticos:

a)Harry é muito bom pescando, mas exige, por sua contribuição, comer apenas o melhor peixe. Os demais raciocinam corretamente e observam que não tem de compensar a boa fortuna que o tornou um bom pescador;

b) Sylvia encontra uma macieira e pede para ser recompensada com menos trabalho ou mais espaço na sua barraca de acampamento. Os demais rechaçam sua atitude.

Cohen acrescenta outros dois exemplos similares. Em todos eles, os demais repudiam e se incomodam com a cobiça dos envolvidos. Pergunta-se então se não é a forma socialista obviamente a melhor para organizar um acampamento.

Os princípios que segundo Cohen prevalecem no acampamento são os da igualdade radical (ou socialista) de oportunidades e o da comunidade. O segundo restringe a operação do primeiro, que tolera algumas desigualdades de resultado. Ele distingue três tipos de igualdade de oportunidades: a) a igualdade burguesa de oportunidades, que caracteriza (ao menos nas aspirações) a da era liberal: elimina restrições socialmente construídas (formais e informais) de status, como o de ser subalterno, negro ou, poderíamos acrescentar, mulher; b) a igualdade liberal de esquerda, que elimina, além das restrições anteriores, os obstáculos das circunstâncias sociais de nascimento e infância dos indivíduos que já então se situam em desvantagem (não escolhida). Um exemplo de políticas para criar este tipo de igualdade são as orientadas para compensar, desde a mais tenra idade, as crianças em condições carentes; c) igualdade socialista de oportunidades, que corrige, além das anteriores, as desvantagens inatas dos indivíduos que, como as anteriores, não foram escolhidas por eles. Por isso, se prevalece esta forma de igualdade de oportunidades, as diferenças de resultado refletirão somente, disse, diferenças de gosto e de escolha (especialmente entre trabalho e ócio) que não constituem desigualdades porque supõem um desfrute similar da vida.

No entanto, mais adiante acrescenta uma passagem larga e interessante, que parece contradizer o que acaba de assinalar, e na qual explica que há três formas de desigualdade consistentes com o princípio de igualdade socialista de oportunidades. O primeiro tipo é o que havia referido antes, que só reflete diferenças de gosto/escolha, e não é problemático. O segundo é o que chama escolha lamentável, aquelas que por descuido ou pouco esforço levam a uma situação de desvantagem, e o indivíduo se arrepende de suas escolhas prévias. Cohen pensa que esta forma de desigualdade geraria por si mesma, relativamente, pouca desigualdade. A desigualdade verdadeiramente preocupante é a terceira, que reflete o que os filósofos chamam de sorte de escolha. À parte a aposta direta, da qual o jogador não se arrependeria, a mais importante é o elemento de sorte de opção presente nas desigualdades de mercado, que refletem apostas sobre onde pôr seu dinheiro ou seu trabalho. (quem, por exemplo, pôs seu trabalho na indústria manufatureira ou na construção, no México em 2007, teve uma probabilidade muito maior de perder do que quem pôs o dinheiro no comércio). Cohen enfatiza que, enquanto se pode abster de fazer apostas diretas, não se pode evadir das apostas de mercado numa sociedade de mercado, pois o mercado, por assim dizer, é um cassino de que é difícil escapar, e as desigualdades que produz estão contaminadas com a injustiça. Embora as desigualdades segunda e terceira não sejam condenadas pela justiça, são no entanto repugnantes para os socialistas, quando ocorrem numa escala suficientemente grande, disse Cohen, pois contradizem o princípio de comunidade. Portanto, o princípio socialista de igualdade de oportunidade tem de ser suavizado pelo de comunidade, se a sociedade há de desenvolver o caráter socialista que torna o acampamento atrativo, acrescenta.

Ele explica o sentido de comunidade que usa: comunidade é o que as pessoas impõem aos outros e, se necessário e possível, que cuida deles. Nosso autor desenvolve em detalhe as diferenças entre a reciprocidade comunitária e a reciprocidade de mercado. A primeira é um princípio antimercantil de acordo, com o qual eu te sirvo, não pelo que posso obter em troca ao fazê-lo, mas porque tu necessitas ou queres o meu serviço, e tu, pela mesma razão serves a mim. Em troca, no mercado, o motivo imediato da atividade produtiva é tipicamente uma mescla de cobiça e medo, em proporções que mudam conforme a posição da pessoa no mercado e o caráter pessoal. No mercado, sirvo aos outros já para obter algo deles que desejo – essa é a motivação da cobiça – ou para assegurar-me de que algo que busco evitar seja evitado – essa é a motivação do medo.

Na comunidade, nega-se o caráter instrumental das relações de mercado. Na sequência, me dedicarei aos capítulos 3, 4 e ao epílogo do livro de Cohen. Adianto uma frase, assim citada da canção que Cohen cantava em ídiche, quando criança, na escola: “Se nos considerássemos uns aos outros um vizinho, um amigo, um irmão, seria um mundo maravilhoso, maravilhoso”.

Terceira parte: O socialismo de mercado

Nos capítulos 3 e 4 de Why not socialism? (Princeton University Press, 2009) Cohen põe à prova os princípios da igualdade socialista de oportunidades e de comunidade que derivou (capítulo 2) como princípios constitutivos do socialismo da prática das viagens de acampamento, ao enfrentá-los com as perguntas de se são desejáveis e viáveis, a sua possível escala macrossocial e permanente. Muitos, assinala, notariam os traços especiais do acampamento para distingui-lo da vida normal da sociedade moderna, e duvidariam da desejabilidade e da viabilidade de aplicar nela os princípios apontados por Cohen com seu exemplo: trata-se de uma atividade recreativa na qual não há grupos que competem e em que as pessoas se conhecem pessoalmente e na qual não há tensão entre as responsabilidades familiares e sociais. Cohen pensa que as diferenças apontadas não minam a desejabilidade e a ampliação em escala social dos valores do acampamento.

“Não penso que a cooperação e a ausência de egoísmo no acampamento sejam adequados apenas entre amigos ou no interior de uma pequena comunidade. Na provisão mútua de uma sociedade de mercado, as pessoas são essencialmente indiferentes ao destino do agricultor cujos alimentos come. Sigo achando atrativo o sentimento de uma canção de esquerda que aprendi na minha infância e que começa assim: “Se nos considerássemos uns aos outros um vizinho, um irmão, o mundo seria maravilhoso, maravilhoso”.

Passando ao tema da viabilidade do socialismo e contra a ideia de que só em atividades recreativas os seus princípios se tornam atrativos, Cohen recorda que nas emergências, como em inundações ou num incêndio as pessoas atuam com base nos princípios do acampamento. Os mexicanos recordamos, com grande emoção da explosão de solidariedade, sentimento que acreditávamos quase inexistente, depois do terremoto de 1985. A viabilidade do socialismo que Cohen discute não se refere a se podemos chegar a ele a partir de onde estamos, agora, mas se o socialismo funcionaria e se seria estável. Cohen assinala duas possíveis razões pelas quais se pode pensar que o socialismo em escala social é inviável:

1) os limites da natureza humana: seríamos insuficientemente generosos e cooperativos;

2) mesmo se as pessoas forem ou puderem se tornar, na cultura adequada, suficientemente generosas, não sabemos como fazer com que (através de estímulos e regras apropriados) a generosidade faça as rodas da economia girarem, em contraste com o egoísmo humano que sabemos conduzi-la muito bem para esse fim.

Cohen pensa que o principal problema do socialismo não é o egoísmo, mas que não sabemos como desenhar a maquinaria que o faria funcionar; seria nossa carência de uma tecnologia organizacional adequada: nosso problema é de desenho. Afinal de contas, acrescenta, propensões egoístas e generosas habitam (quase?) todo mundo e, no mundo real, depende-se muito da generosidade ou, para dizê-lo de maneira mais geral e mais negativa, de incentivos não mercantis. Por exemplo, não é preciso sinais de mercado para saber quais enfermidades hão de ser curadas ou que matérias ensinar no colégio, mas nos guiamos por uma concepção das necessidades humanas. No entanto, uma vez que se transcendem os bens que todos querem, por estarem ligados às necessidades e nos encontramos na esfera das mercadorias opcionais, torna-se mais difícil saber o que produzir e como produzi-lo sem sinais do mercado.

Acrescenta que muito poucos economistas socialistas estariam em desacordo com essa afirmação. Tenho a impressão de que Cohen, influenciado por economistas muito próximos vinculados à corrente principal (ortodoxa) dessa disciplina, tinha uma ideia do funcionamento dos mercados que se parece mais com os modelos de competição perfeita dos neoclássicos, e não com os mercados realmente existentes. Um mundo sem oligopólios e sem o tsunami da publicidade, que terminam por criar a demanda para os bens que eles decidem produzir. Um mundo em que prevalece a soberania do consumidor. Por isso afirma que os sinais do mercado revelam que vale a pena produzir (veja-se em itálico na citação seguinte). Em troca, fala dos padecimentos, da planificação compreensiva: “Sabemos que a planificação central, ao menos como foi praticada no passado, é uma má receita para o êxito econômico, ao menos uma vez que a sociedade usufruiu dos elementos essenciais de uma economia moderna”. Compara o modelo ideal do mercado (e sua suposta eficiência) com a planificação realmente existente. Pretende combinar, para tanto, os princípios socialistas com esta imagem do mercado:

À luz dos padecimentos da planificação compreensiva, por um lado, e da injustiça dos resultados de mercado e da depreciável moral das motivações mercantis, por outro, é natural perguntar se seria viável manter os benefícios de informação que o mercado provê, com respeito ao que deve ser produzido, enquanto se eliminam seus pressupostos motivacionais e suas consequências distributivas. Podemos ter eficiência de mercado na produção sem seus incentivos e sua distribuição de recompensas?

Há maneiras, disse, de introduzir fortes elementos de comunidade e igualdade num sistema econômico em que prevaleça a eleição baseada no interesse egoísta: uma, o Estado de Bem Estar Social, que retira do mercado grande parte da provisão para as necessidades; outra, o socialismo de mercado. Chama-se socialismo porque elimina a divisão entre capital e trabalho: toda população é proprietária do capital das empresas que, possuídas pelos trabalhadores ou pelo Estado, enfrentam-se nos mercados competitivos. Cohen é agudamente consciente de que o socialismo de mercado “reduz sem eliminar a ênfase socialista na realidade econômica. E prejudica também a comunidade, pois no mercado não há reciprocidade comunitária. Ele não é um fã do socialismo de mercado:

O socialismo de mercado não satisfaz plenamente aos padrões socialistas de justiça distributiva e, embora o torne melhor que o capitalismo, está em defasagem porque há injustiça num sistema que confere altas recompensas às pessoas muito talentosas que organizam cooperativas altamente produtivas. É também um socialismo deficiente, porque o intercâmbio mercantil que se encontra em seu centro atua contra o princípio de comunidade… A história do século XX estimula a ideia de que a maneira mais fácil de gerar produtividade numa sociedade moderna é alimentando os motivos da cobiça e do medo. Mas não devemos nunca esquecer que cobiça e medo são motivos repugnantes. Os socialistas de velho estilo com frequência ignoram em sua condenação moral da motivação mercantil a justificação instrumental da mesma, realizada por Adam Smith. Alguns super entusiásticos socialistas de mercado tendem, de maneira oposta, a esquecer que o mercado é intrinsecamente repugnante.

E, citando o epílogo do livro, com Einstein arremata seu belo livro, assim:

Concordo com Albert Einstein que ‘o socialismo é o desejo da humanidade de ir mais além da fase predadora do desenvolvimento humano’. Todo mercado, mesmo um mercado socialista, é um sistema predatório. Nosso propósito de ir mais além da depredação tem falado até agora. Não creio que a conclusão correta seja dar-se por vencido.

Quarta parte: o exame da validade do materialismo histórico

A nova edição em inglês (2000) da Teoria da história de Karl Marx: Uma Defesa, de Gerald Alan Cohen (a original é de 1978), inclui uma nova introdução e quatro capítulos acrescidos ao final. Hoje me referirei ao capítulo 13, no qual ele põe em dúvida a conclusão básica de seu livro: a teoria da história de Marx é verdadeira! Assim o expressa:

“(…) cheguei a me perguntar se a teoria que o livro defende é verdadeira. Não acredito, agora, que o materialismo histórico seja falso, mas não estou seguro a respeito de como saber se é ou não verdadeiro. Isto é opaco porque temos uma concepção tosca de que tipo de evidência o confirmaria ou rechaçaria. Ainda que trate em KMTH (como Cohen abrevia sua obra) de ter a teoria mais precisa e de clarificar suas condições de confirmação, resultará evidente das linhas descritas neste capítulo que se requer clarificação adicional”. (p.341)

Contraste-se esta visão do materialismo histórico como teoria científica sujeita a comprovação empírica com a postura de György Márkus:

“A teoria do progresso humano não é a ‘ciência positiva’ da história. Só tem sentido como um elemento do esforço histórico prático para dar à história humana o sentido de progresso, quer dizer, para criar condições sob as quais todos os indivíduos possam participar de maneira efetiva e igual nas decisões que determinam como dar forma ao marco social e institucional de suas vidas para viver melhor, de acordo com seus próprios valores e necessidades” (Sobre a possibilidade de uma teoria crítica, Desacatos, N° 23, p. 186).

Cohen adverte, aproximando-se de Márkus, cuja obra, ao que parece, não conhecia, que “suas reservas sobre a teoria não debilitam sua crença de que é desejável e possível extinguir as relações sociais capitalistas e reorganizar a sociedade sobre uma base justa e humanitária”, visto que a apreciação dos principais males do capitalismo não depende de teses ambiciosas sobre o conjunto da história humana. Tampouco a possibilidade de estabelecer uma sociedade sem exploração e acolhedora da plenitude humana requer nem talvez derive de tais teses.

Cohen identifica quatro doutrinas, todas materialistas, formuladas por Marx, que ademais têm em comum a ênfase na atividade produtiva: antropologia filosófica, que concebe os humanos como seres essencialmente criativos; teoria da história, na qual o crescimento dos poderes produtivos é a força que determina a mudança social; ciência econômica, em que o valor é explicado em termos do tempo de trabalho; e uma visão da sociedade futura: o bem supremo do comunismo é que ele permite um prodigioso florescimento do talento humano.

Cohen sustenta que a antropologia de Marx sofre severamente de unilateralidade: tem uma ênfase exclusiva no lado criativo da natureza humana [esquece Cohen o papel central das necessidades nessa antropologia] mas não atende à relação do sujeito consigo mesmo e à relação com os outros, que é uma forma mediada de relação consigo mesmo. Diz que Marx (quase) deixou de fora a necessidade humana da auto identificação ou identidade e suas manifestações sociais. Argumenta que os agrupamentos humanos que não tem caráter econômico, como as comunidades religiosas e as nações são tão fortes e duráveis em parte porque oferecem satisfação da necessidade individual de auto identificação. Ao aderir a comunidades tradicionais, acrescenta, as pessoas tem um sentido do que são. Cohen está pensando mais no que Abraham Maslow chama de necessidade de pertencimento, do que na de identidade. Maslow disse:

Podemos subestimar a profunda importância do bairro, do território próprio, do clã, dos nossos, de nossa classe, do nosso grupo. Temos esquecido nossas profundas tendências animais à manada, a nos unir, a pertencer. Qualquer sociedade boa deve satisfazer a essa necessidade, de uma ou de outra maneira, se há de sobreviver e ser saudável.

Por isso Cohen assinala que “o interesse em se definir ou se situar não é satisfeito pelo desenvolvimento dos poderes humanos. Mesmo quando uma pessoa ganha em entendimento de si mesmo através da atividade criativa, uma vez que se reconhece no que fez, modula tipicamente um entendimento de si mesmo, como ser que possui um certo tipo de capacidade, não é por isso capaz de situar a si mesmo como membro de uma comunidade”. A pessoa, acrescenta, necessita saber quem é e como isso que é se conecta com outros; tem de identificar-se com alguma parte da realidade social objetiva. Cohen introduz aqui duas advertências:

1) não sustenta que haja uma necessidade de religião ou de nacionalismo, mas que esses tem sido fatores históricos de satisfação da necessidade de identidade;

2) ao falar de necessidade de entender a si mesmo, diz Cohen, a quem parecer que assim reinterpreta a necessidade de identidade, uso entendimento num sentido que inclui o falso entendimento.

As formas mais comuns da religião e o nacionalismo constituem meios imaturos de satisfação da necessidade de identidade, apropriados para um estado menos plenamente civilizado de desenvolvimento humano.

E quanto à visão de futuro, Cohen põem em dúvida tanto a ideia de Marx da desaparição dos papéis (aos que o viam como restrições o desenvolvimento humano) no comunismo, como o ideal de multilateralismo no desenvolvimento das capacidades. Marx insistia em que todos realizariam a plena gama de capacidades, mas Cohen se pergunta: o que tem de mal em alguém se dedicar a uma ou a poucas atividades e que restem muitos talentos em cada indivíduo sem serem desenvolvidos? Anota que há uma eleição frequente entre um modesto desenvolvimento de várias habilidades ou o desenvolvimento virtuoso de uma ou poucas, e não há base para afirmar a superioridade geral de uma opção.

O desenvolvimento pleno não se segue necessariamente do desenvolvimento livre. Termina o capítulo abordando a pergunta sobre se a unilateralidade da antropologia filosófica (a que qualifica de falsa) é a origem da falta de atenção do materialismo histórico aos fenômenos, mas o espaço se esgotou e não pude criticar a visão limitada de Cohen da antropologia filosófica de Marx.

(*) Há uma edição em espanhol que traduz a obra original de 1978, da Siglo XXI Editores España (agradeço esta informação a Paulette Dieterlen e a dois leitores). Em inglês a obra é Karl Marx’s Theory of History: A Defense, Clarendon Press, Oxford, 2000, 442 páginas. Como se avalia, as dúvidas (veja-se a seguir), surgiram em Cohen rapidamente.

(**) Até o final do capítulo Cohen expressa seu domínio insuficiente do conceito de essência humana, o qual corresponde ao seu desconhecimento do trabalho Marxismo e Antropologia, de György Márkus, sistematização única do conceito de essência humana em Marx. Isto se reflete em seu tratamento superficial, como veremos, da antropologia filosófica de Marx.

(***) Compare-se com as seguintes idéias de Erich Fromm, expressas em Psicanálise da Sociedade Contemporânea: “A escala da humanidade, o grau no qual o homem se afasta de si mesmo como um eu separado depende do grau em que tenha saído do clã e do grau em cujo processo de individuação se tenha desenvolvido. O membro de um clã primitivo poderia expressar seu sentido de identidade na fórmula eu sou nós; ele não pode se conceber como um indivíduo que existe independentemente de seu grupo. Apesar de o desenvolvimento da cultura ocidental ter se orientado na direção de criar as bases para a experiência plena do individualismo, para a maioria das pessoas esse não passou de uma fachada, por trás da qual se esconde o fracasso em adquirir um sentido individual de identidade, que foi substituído pelos de nação, religião, classe e ocupação. Em lugar da identidade pré-individualista, desenvolve-se uma identidade gregária, na qual o sentido de identidade depende de um pertencimento inquestionável à multidão.

Quinta parte: Com Márkus respondo à crítica de Cohen à antropologia filosófica de Marx

No texto anterior deixei pendente a resposta à tese de Cohen (expressa no capítulo 13 de Teoria da História de Karl Marx: Uma Defesa – THKM) de que a antropologia filosófica de Marx é unilateral, visto que deixa fora a necessidade humana de identidade e, portanto, dá importância a fenômenos como o nacionalismo e a filiação a grupos religiosos. Assinalei, no entanto, que Cohen não cita (pelo que suponho que não conhecia) o livro de György Márkus (“Marxismo e Antropologia” (Grijalbo, 1973 e 1985), que contém a sistematização plena (e única) da antropologia filosófica de Marx, cujo exame (embora seja parcial e sucinto) pode ajudar a discernir se Cohen tem razão.

Em primeiro lugar, Fromm assinalou que a maior parte dos indivíduos das sociedades modernas são incapazes de assumir uma identidade individual e se refugiam numa forma modificada da identidade do ser humano primitivo (eu sou nós); eu sou a multidão (veja-se nota acima). Em segundo lugar, devo observar, nem Marx nem Márkus formularam uma lista ou um esquema de necessidades humanas, daí porque assinalar a omissão de alguma delas e, sobretudo, converter tal omissão em algo que torne a antropologia filosófica de Marx falsa é desacertado e desproporcional.

Tampouco no esquema de necessidades de Maslow se incluía a necessidade de identidade, mas sim a de pertencimento (grupal). Em troca, nas concepções de necessidades de Fromm e de Max Neef e coautores, a identidade ou o sentido de identidade é uma necessidade explícita. Em terceiro lugar, é necessário afirmar claramente que as pessoas necessitamos pertencer a um grupo social, mas ele não faz necessariamente com que nossa identidade (que também, em minha opinião, é uma necessidade universal) não possa ser individualista-universalista. Maslow diz que as pessoas autorrealizadoras (as que conseguiram realizar suas potencialidades centrais) “identificam-se com toda a humanidade. Tem um profundo sentimento de identificação, simpatia e afeto pelos seres humanos em geral, como se todos fossem de uma só família. No entanto, poucos o entendem: são como estrangeiros onde quer que vivam”.

Ninguém classificaria como falsa a teoria das necessidades de Maslow por omitir a necessidade de identidade. Apesar de Marx e Márkus não elaborarem uma lista de necessidades humanas, encontramos na antropologia filosófica do primeiro, sistematizada pelo segundo, uma série de elementos que, em minha opinião, apontam para a necessidade de identidade grupal (cito juntando extratos não necessariamente literais da obra de Márkus e os comento entre colchetes):

Antes de qualquer coisa, o homem é um ente genérico, isto é, um ser social e comunitário. Esta descrição do ser humano como comunidade significa, por uma parte, que o homem não pode levar uma vida humana, não pode ser homem como tal senão em sua relação com os demais e a consequência dessa relação. Por outro lado, significa que o indivíduo não é indivíduo humano senão à medida em que se apropria das capacidades, das formas de conduta, das ideias, etc., originadas e produzidas pelos indivíduos que o precederam ou que coexistam com ele, e as assimila (mais ou menos universalmente) a sua vida e a sua atividade. Assim, pois, o indivíduo humano concreto como tal é um produto em si mesmo histórico-social.

A história de um indivíduo singular, disse Marx, não se pode de modo algum arrancar da história dos indivíduos precedentes e contemporâneos, mas está por esta determinada (Ideologia Alemã). A individualidade concreta especificamente humana não se origina senão a partir da participação ativa no mundo produzido pelo homem, através de uma determinada apropriação deste. [Até aqui resta claro que o homem, independentemente de suas percepções, está inserido objetivamente na comunidade – e parcialmente determinado por esta]. Porém, por outro lado, as inter-relações entre os indivíduos não são nunca relações naturais imediatas, tem sempre como pressuposto as de troca [intercâmbio] material e espiritual que esses indivíduos encontram. A sociabilidade do homem não se reduz ao ato de produção. Marx atribui uma função particular no processo genético da sociedade à humanização das relações naturais entre os sexos e entre as gerações. A sociabilidade é um traço essencial do indivíduo inteiro e penetra em todas as formas de sua atividade vital [Portanto, a sociabilidade é também um traço social de sua consciência, que inclui seu sentido de pertencimento e de identidade].

A vida coletiva, social produz também novas necessidades individuais, que são, antes de tudo a necessidade de ajuste humano. A produção adquire caráter social no sentido concreto de que os indivíduos começam a produzir uns para os outros, seus produtos se completam reciprocamente, seu trabalho se converte em autêntico componente integrante de um trabalho total social, e os produtos se convertem em produto comum do trabalhador coletivo [Com a divisão ampliada do trabalho a comunidade ou sociedade começa a mudar]. A atividade do indivíduo se torna objetivamente dependente da atividade de um âmbito cada vez mais amplo de indivíduos; ao mesmo tempo, constituem-se para os indivíduos as condições históricas mais elementares, nas quais as experiências podem se apropriar, o saber e a riqueza do mundo acumulados pela humanidade inteira, e utilizá-los.

Processo no qual o homem se torna ente social universal. A história das hordas, das tribos e das etnias origina paulatinamente a história universal, e o indivíduo mesmo se converte num ente universal, num ser histórico-universal. Essa ampliação da troca entre os homens produz as condições da autonomia do homem individual, com respeito ao seu próprio entorno e, sobre a base dessa autonomia, as condições do desenvolvimento da interioridade humana, da individualidade humana real. O homem não se torna realmente indivíduo senão no curso da evolução histórica, precisamente porque, através da troca cada vez mais universal, essa evolução dissolve aquelas pequenas comunidades. [Marx vê a possibilidade de um novo sentido de identidade, que rebaixa ao comunitário, ao da nação, similar à dos auto realizadores de Maslow, antes referida].

Nesse sentido a universalização e a individualização do homem são um processo unitário, embora essa unidade não se realize durante toda uma gigantesca época histórica, senão através de contraposições (a universalização é na era da alienação a unidade da individualização e da despersonalização).

A antropologia filosófica marxista contém todos os elementos, ainda que não estejam explícitos, como se avalia, para fundar a necessidade da identidade. Mas a visualiza num sentido dinâmico: da identidade da família e do clã, passando pela da tribo e da nação, até chegar à identidade da espécie, a identidade genérica. Creio que Cohen não avaliou essa tendência positiva a superar o paroquial. Em todo caso, podemos conceder a Cohen que Marx subestimou as resistências e as dificuldades que o trânsito do eu sou nós para o “eu sou eu, membro da espécie Homo sapiens, mas plenamente individualizado”.

Conheça a página de Julio Boltvinik

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

Elaboração de Projetos Sociais – 39ª Edição – São Paulo – SP

Elaboração de Projetos Sociais – 39ª Edição - São Paulo – SP


Objetivo: O curso visa contribuir para o aprimoramento de técnicas em Elabotação de Projetos Sociais.


Público Alvo: Profissionais que atuam na área da assitência social, gestores e profissionais de organizações do terceiro setor, estudantes e profissionais envolvidos em projetos sociais.
Datas:
08, 15,*22 e 29 de maio de 2010 (aos sábados).
( * )
Sendo que nos dias 08, 15 e 29 de maio de 2010 (datas com aulas presenciais) e no dia *22 de maio de 2010 , atividade não presencial com assessoria por e-mail (acompanha anexos de exercícios).
Horário: 08h30 as 17h:30
Carga Horária: 32 horas.
Local: IMAM – Inovação e Melhoramento na Administração Moderna <>
Rua Loefgreen, 1400 – Vila Mariana – São Paulo – SP.
(Próximo a Estação Santa Cruz do Metrô).

Investimento: R$ 522,00 (quinhentos e vinte e dois reais).

Para pagamentos divididos em 03 Parcelas:
1ª Parcela: R$ 174,00 (cento e setenta e quatro reais).
Banco: Caixa Econômica Federal – Agência: 4128 – C/C: 003.00.000.182-3
2ª Parcela: R$ 174,00 (cento e setenta e quatro reais) – Cheque para 30 dias.
3ª Parcela: R$ 174,00 (cento e setenta e quatro reais) – Cheque para 60 dias.

Para pagamentos divididos em 04 Parcelas:
1ª Parcela: R$ 140,00 (cento e quarenta reais).
Banco: Caixa Econômica Federal – Agência: 4128 – C/C: 003.00.000.182-3
2ª Parcela: R$ 140,00 (cento e quarenta reais). – Cheque para 30 dias.
3ª Parcela: R$ 140,00 (cento e quarenta reais). – Cheque para 60 dias.
4ª Parcela: R$ 140,00 (cento e quarenta reais). – Cheque para 90 dias.

Desconto de 10% para para três ou mais inscrições pertencentes à mesma instituição.

Incluso : Material didático, Coffee Break e Certificado.
Informações e Inscrições: (11) 2283-5838
E-mail:perspectivasocial@perspectivasocial.com.br
Vagas Limitadas

Metodologia: O curso será desenvolvido em forma de oficina para possibilitar aos participantes maior interação com os conteúdos aplicados.

Conteúdo Programatico:

  • Diagnostico para identificação do Publico Alvo.
  • Breve Histórico.
  • Refencial Teórico.
  • Justificativa.
  • Público Alvo.
  • Objetivos: Geral e Específico.
  • Impactos dos objetivos específicos.
  • Metas.
  • Metodologia.
  • Equipe Técnica.
  • Plano de Trabalho:
    • Cronograma de Atividades.
    • Orçamento Físico.
  • Processo de Avaliação.
  • Indicadores de Resultados.
  • Cronograma de Atividades para Avaliação.
  • Carta de Encaminhamento a Patrocinadores.
  • Considerações finais.

Assessores:

Divaneide Alves – CRESS 37.155 – 9ª Região – São Paulo – SP.

  • Pós-Graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Universidade Bagozzi – Curitiba – PR.
  • Graduada em Serviço Social pela PUC – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – SP.
  • Coordenadora Municipal da Área da Assistência Social do Programa Federal – ProJovem com Trabalho Interdisciplinar; Elevação de Escolaridade, Orientação para Qualificação Profissional e Desenvolvimento de Ações Comunitárias – Guarulhos – SP.
  • Consultora pela Perspectiva Social – Consultoria & Assessoria em :
  • Gestão em Desenvolvimento de Projetos Sociais no Terceiro Setor.
  • Assessora em Serviço Social.

Professor Carlos Gaia.

  • Pós-Graduado em Sócio-Psicologia – Análise de Fenomenos Sociais pela FESPSP – Fundação Escola de Sociologia e Política em São Paulo – SP.
  • Graduado em Filosofia Pela – USF – Universidade de São Francisco.
  • Consultor em Desenvolvimento Social pela Perspectiva Social – Consultoria & Assessoria Ltda.
  • Presidente do Instituo GHAYA para o Desenvolvimento Humano.
  • Coordenador de Grupos de Estudos – Homem e Sociedade ( Espaço Lógos – Perspectiva Social ).


Para se inscrever neste curso, preencha o nosso formulário de INSCRIÇÃO


Outros Cursos :

Gestão Social: Desenvolvimento Comunitário – São Paulo – SP.

Elaboração de Projetos Sociais – Campinas – SP.


Realização:

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*A Coordenação do evento reserva-se ao direito de transferir para uma próxima data ou de cancelar o programa, caso não atinja o numero mínimo de participantes.


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O “Feliz Natal” numa outra perspectiva…

O “Feliz Natal” numa outra perspectiva…

Moises Diniz – EcoDebate

 

Fico impressionado com o comportamento das pessoas nestes dias de resguardo de Natal e aguardo de Ano Novo. É como se uma luz incandescente emergisse de cada veia e de cada neurônio. É um espetáculo o que acontece no cérebro de cada pessoa.

As pessoas ficam mais alegres, acreditam mais, reduzem os seus medos. Acreditam que o 13º salário vai quitar todas as dívidas e que, de uma hora para outra, a vida vai ser bem melhor no ano que vai nascer.

Aquele que te fez sofrer aperta a tua mão e tu respondes com ternura ao mesmo aperto de mãos. O carrasco que te algemou recebe um abraço teu, mesmo que não tenhas mãos.

O menino da periferia, de cor negra e já sem dentes básicos, aguarda inquieto aquele embrulho que vai lhe trazer alegria. O seu pobre pai, alcoolizado na esquina, não percebe o tamanho do sonho do filho. E se percebe se alcooliza para não perceber.

A menina adolescente acredita que são verdadeiras aquelas palavras lindas que ouviu no celular, que só liga a cobrar, e que não vai demorar a chegada daquele príncipe encantado.

Ela não sabe que aquele calhorda quer apenas se aproveitar de sua carne tenra. Que do outro lado da vila, da vida, da palafita ele dorme numa mansão inconsolável e que o seu sonho juvenil vai acordar com os gritos da primeira briga de rua do ano.

O dono do boteco na ponta da rua acredita que todo o bairro esquecido pelos homens do poder vai se lembrar de quitar as suas dívidas. Ele sonha encher, no ano que vem e que chega sob as primeiras luzes e nos mais sutis apertos de mão, as prateleiras com mais feijão e açúcar, bolacha, sardinha e arroz, palito de fósforo, pouco papel, goiabada e cibalena, muito sal, farinha e pão dormido, lâmina de barbear semanal.

O homem do boteco é como a gente que vende sonhos a prazo, não exige assinatura, não cobra a fatura e nem digital. Tudo fica aguardando o Natal, o Ano Novo que vai chegar como búfalo, locomotiva e temporal.

Esses dias especiais vão trazer de volta o meu emprego, a minha alegria, o meu pão, a mulher perdida, a conta esquecida que o vizinho não pagou. Vai ter leite em toda mama, vergonha em todo homem, beleza em toda dama.

Não serei mais tão estúpido a ponto de não perceber os olhares do povo que exige mais abrigo, escola e pão. Vou abraçar o amanhecer e ver que a vida não passa de um pedaço do universo que também se partiu.

Verei que a felicidade humana é como um pouco de carne na boca sempre faminta de um rico qualquer. E que cada um alimenta o seu animal a partir do tamanho da alma do seu próprio dono.

Por isso me incomodam esses abraços, que parecem laços, pedaços de sonhos que não vão se realizar, como se uma serpente engolisse a outra que também lhe quer bem.

Neste Natal as serpentes de cada mente humana vão abraçar as outras serpentes. Será um abraço de quem come e dorme, veste e acorda a custa do trabalho humano, dos outros trabalhos que não são os seus.

Neste final de ano incerto eu vou abraçar meus amigos que ainda não conheci. Pois sei o quanto é fácil abraçar o meu irmão, minha filha, meu parente. Como abraçar os que choram nas ruas nas quais eu não ando, nas periferias que me fazem medo?

Como dizer ‘Feliz Natal’ para quem não nasceu e ‘Feliz Novo Ano’ para quem envelheceu? Por que abraçar as serpentes que cultivamos e fingir que não vemos a dor que elas produzem lá mais distante, onde meus olhos não alcançam, minha solidariedade não atinge e minha voz não leva nenhum acalanto?

Um Natal assim me deixa doente, é como uma doença antiga, do tempo em que o meu coração se partiu em três, quatro pedaços colossais, a amar meus desejos pequenos e a esquecer os desejos gigantes da humanidade.

Queria um Natal diferente, onde o homem amasse de fato a si mesmo e aos outros. Que as árvores não fossem sufocadas pelos coronéis do carbono, nem as águas, nem o ar, nem as larvas, nem as sementes, nem os pássaros sadios, os doentes, nem as raízes, nem os lagos, nem os homens, nem os peixes, nem os animais de pele, de escama, de asas, nem as lagartas, nem a terra.

Nenhum pedaço de sol eu posso dar, nenhuma esmola que não agüenta uma investigação. Por isso eu vou proteger o sol neste Natal, a única beleza natural que eu posso cuidar. Abraçar a lua não me deixará em conflito com os donos do poder.

Acho que vou acabar abraçando a chuva aqui nesta Amazônia indecente, que fica nua nas aldeias indígenas e não se preocupa com a cretinice dos apóstatas do verde e apóstolos do medo e da moral divina.

Vou abraçar o vento, vou falar com os pedaços soltos de asfalto, porque sei que eles são restos mortais milenares de nossos antepassados, de nossas árvores, animais, tudo que se acumulou no subsolo invisível do planeta. Com eles conversarei.

Pedirei perdão aos entes da floresta, aos meninos pobres e às adolescentes convertidas à prostituição, aos desempregados do capital, aos negros, aos povos indígenas, aos homossexuais, aos africanos, palestinos, aos latinos e iraquianos.

Feliz Natal ao homem das margens dos igarapés amazônicos, às mulheres que não lhe deram a oportunidade de pintar o cabelo, os lábios, usar um bracelete, um vestido de moda, aos pássaros que não se vestem contra o frio ou para adornar a noite.

Lutarei contra os meus medos e as minhas antipatias ao novo, ao desconhecido e a tudo aquilo que maltrata e provoca dúvida, preconceito e aversão. Uma idéia nova, uma pessoa doente, sem lar e esperança, uma nódoa na minha blusa de linho, um desvio no meu caminho, um medo de repartir, de amar.

Feliz Natal aos homens de sonho nobre, de idéias encantadas e coletivas. Que cada silêncio de rua faça nascer uma fogueira de sonhos.

Feliz Natal à humanidade que não se rende ao atraso de acumular sempre as mesmas dores no costado dos fracos e as mais iluminadas alegrias nas almas de poucos.

Feliz Natal!

Moises Diniz é neto de nordestinos de Riacho do Sangue e índios ashaninkas das margens do Rio Amônia, no Acre.

Fonte:turcoluis.blogspot.com

O Peru de Natal – Mário de Andrade

O Peru de Natal

Mário de Andrade

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas “loucuras”. Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de “louco”. “É doido, coitado!” falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes…), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas “loucuras”:

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania… Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo…

— Meu filho, não fale assim…

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!…

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus… Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

“É louco, mesmo” pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da “casca”, cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos… Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai…

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo… Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente… (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que “vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai”, um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor… Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de “bem-casados”. Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!…


Mário de Andrade
(1893-1945), nasceu em São Paulo, mostrando desde cedo inclinação pela música e literatura. Seu interesse pelas artes levou-o a realizar em São Paulo, de parceria com Oswald de Andrade, a Semana de Arte Moderna, que rasgou novas perspectivas para a cultura brasileira. Sua obra, essencialmente brasileira, reflete um nacionalismo humanista, que nada tem de místico e abstrato. “Macunaíma”, baseada em temas folclóricos é, geralmente, considerada a sua obra-prima.


O texto acima foi extraído do livro “
Nós e o Natal“, Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, pág. 23..

Conheça a vida e a obra de Mário de Andrade visitando “Biografias“.

Fonte:

Moradores de uma terra sem dono

Moradores de uma terra sem dono

O retrato da realidade dos moradores em situação de rua, indivíduos invisíveis aos olhos da sociedade, que perderam a cidadania e na medida em que nada têm, a principal coisa que lhes falta é dignidade

Robson Rodrigues*

Pri Vilariño

A crescente população em situação de rua no Brasil é o retrato mais cruel da miséria social que se aprofunda em diversos ramos da esfera pública. O atual estado é a consequência de uma reação em cadeia que relaciona os altos índices de desemprego, rebaixamento salarial, uso de drogas e violência. Morar na rua é o reflexo visível do agravamento social no Brasil, e a falta de políticas públicas eficientes se constitui negligência do poder público em garantir a esse cidadão condições mínimas de sobrevivência. Os mais miseráveis estão entre os que mais incomodam politicamente, estigmatizados como perigosos socialmente por serem os que não participam da geração de riquezas.

Um contingente de pessoas que pouco usufrui dos serviços básicos públicos, à mercê do Estado e indiferente à sociedade civil. Para sobreviver buscam alternativas para o banho, necessidades fisiológicas, alimentação e vestuário. Vivendo literalmente nas ruas e dormindo sobre trapos ou papelão, pessoas que constroem nas ruas suas próprias histórias, mas não como querem; não sob circunstâncias de suas próprias escolhas, e sim, sob aquelas com as quais se defrontam diretamente, legadas e transmitidas principalmente pelo passado trágico de uma vida que deixaram para trás. Apesar de serem atores da própria história, só são capazes de agir nos limites que a realidade impõe.

“E nesse aspecto veremos que a sociedade brasileira e seu ainda recente processo democrático não desenvolveram plenamente tais mecanismos. Ainda temos significativas parcelas da população alijadas da participação seja do processo político, seja da própria condição de cidadão” Juraci de Oliveira, Sociólogo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP)

Pri Vilariño

SOCIEDADE E ESTADO

O atual estado no qual se encontra a população de rua brasileira é o resultado de um conjunto de fatores que colaboram para a manutenção dessa situa ção. A ineficácia do sistema público se agrava quando não estão disponibilizados meios sociais fundamentais – programas de saú de, atendimento a usuários de drogas, abrigos, atenção à família, entre outros. O fator de primeira instância relacionado à situação dos moradores de rua é o desenvolvimento de novas técnicas de trabalho, criando uma enorme massa de desempregados na qual o sistema capitalista não consegue sustentar.

Numa sociedade capitalista que se organiza com base na compra e venda da força de trabalho, a legitimidade social e a dignidade pessoal de um indivíduo se afirmam por meio da ética do trabalho. A população de rua tem um histórico de perdas de emprego e baixa qualificação profissional, assim não se asseguram como integrantes do tecido social.

As causas relacionadas são multifatoriais e vão de questões como as mudanças nas relações de trabalho decorrentes da tecnologização dos processos produtivos, fluxos migratórios de mão de obra e a redução e desvalorização das atividades de baixa qualificação. Na avaliação do psicólogo e pesquisador de população de rua e uso de drogas da Faculdade de Saúde Pública da USP, Dr. Walter Varanda, “os estigmas do fracasso, da impotência, da vagabundagem e da menos- valia levam ao distanciamento das estruturas sociais, e no anonimato restam as estratégias de sobrevivência possíveis na região central e áreas comerciais da cidade, que incluem, por sua vez, uma ampla rede solidária que torna a vida nas ruas uma alternativa viável, ou pelo menos mais viável que a pobreza extrema. Nesse contexto, relaxa-se a obrigatoriedade de deveres, regras de convivência e obviamente do alto custo de vida urbano, e de maneira geral, esse problema social incomoda as grandes metrópoles no mundo inteiro”.

O descaso do Estado com os desabrigados reflete inclusive nas leis que regem o País. Até 2009, a mendicância era considerada uma transgressão penal no Brasil, quando o artigo da Lei de Contravenções Penais foi revogado pela Lei nº 11.983 pelovogação pode até significar um avanço no modo como o poder público trata o caso, porém demonstra também como um Estado incapaz de garantir condições mínimas de sobrevivência, até recentemente, condenava quem mendigasse.

Segundo o Ministério de Desenvolvimento Social, já existem políticas específicas voltadas para essa parcela da população. Desde 2006, o Ministério envia recursos para serviços de acolhimento de famílias em situação de risco nos municípios. O repasse do Ministério é de 1 milhão de reais para 94 municípios brasileiros que têm mais de 250 mil habitantes. Esses recursos são originários do que chamamos de “Piso de Alta Complexidade II”. Ele é destinado ao “Serviço de acolhimento institucional para adultos e famílias em situação de rua”. Esse serviço é executado nas casas de passagens e abrigos institucionais. Porém, as políticas da esfera federal divergem com as da municipal.

Nesse aspecto, a cidade de São Paulo deu provas de que ainda não trata do tema com a devida atenção. Isso pode ser demonstrado, por exemplo, com o fechamento de quatro mil vagas em albergues no centro de São Paulo, concentrando o atendimento nos bairros mais afastados. A possibilidade de não encontrar vaga em albergues para moradores de rua ou pessoas em situação de rua é cada vez maior. Sem contar, por exemplo, as rampas “contra morador de rua” nas extremidades subterrâneas da Avenida Paulista, com piso “chapiscado”, tornando-o mais áspero e incômodo para quem tentar dormir. Os viadutos da grande cidade acabam por se tornar “condomínios de luxo” dessa classe de brasileiros excluídos.

Para o arte-educador do Centro de Inclusão de Pessoa em Situação de Rua, Orlando Coelho Barbosa, “um dos fatores apontados como autoritário é o fechamento dos albergues na região central da cidade e sua abertura em localidades distantes, em outras palavras, higienização. Assim, nota-se um número maior de pessoas dormindo nas ruas da região central”, alerta.

Contudo, tal ação não tem surtido o e fei to na proporção esperada, e muitos moradores de rua permanecem no centro, até porque uma de suas atividades mais característica – a de coletar papel e outros materiais para reciclagem – tem nessa região seu principal manancial.

Isso evidenciaria uma tendência a impelir os moradores de rua a saírem das zonas centrais da cidade. Na análise do sociólogo, especialista em Gestão Educacional e supervisor de programas de educação, trabalho, cultura e formação profissional, Juraci Antonio de Oliveira, a situação demonstra que a sociedade brasileira ainda não atingiu seu estágio máximo de desenvolvimento democrático. “Isso tudo nos leva ao tema da democracia (…). O que se coloca em jogo aqui são os canais, os meios de participação com que contam os diversos grupos e segmentos que compõem o tecido social. E nesse aspecto veremos que a sociedade brasileira e seu ainda recente processo democrático não desenvolveram plenamente tais mecanismos. Ainda temos significativas parcelas da população alijadas da participação seja do processo político, seja da própria condição de cidadão”, argumenta.

Além disso, o indivíduo das ruas muitas vezes é privado de seu direito de ir e vir, uma afronta à cidadania e à democracia. Para Oliveira, “é comum quando, às vésperas de importantes eventos na cidade, acontece a tentativa de afastar os moradores de rua das regiões que se constituem como os cartões postais. Isso evidencia a falta de sensibilidade dos governos municipais quanto a essa questão”, destaca o sociólogo.

Por outro lado, não se deve negar a resistência de parte de algumas dessas pessoas com relação aos albergues. Conhecidos como local de passagem, uma vez que oferecem abrigos de curta duração, os albergues têm horários definidos e regras consideradas rígidas pelos usuários, além disso, os internos precisam deixar seus objetos pessoais, submeter-se ao banho vigiado e permanecer em silêncio. Tais regras impelem conflitos entre frequentadores e agentes quanto a funcionalidade da instituição. A questão se agrava quando se observa a existência de uma regra implícita que relaciona bom comportamento a tempo de permanência.

E nesse estado de calamidade pública a responsabilidade não recai apenas sobre os ombros do Estado, a sociedade civil é responsável também pelos traumas sociais. A culpabilização do morador de rua pela situação em que se encontra não desobriga a sociedade civil de qualquer responsabilidade. Na opinião do pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da USP, Walter Varanda, ao adotarmos a distinção entre a sociedade civil e o poder público, para a devida responsabilização do Estado, ficamos à mercê de explicações e justificativas oficiais, que nem sempre condizem com a complexidade da questão e alimentam o estereótipo do morador de rua que se recusa a aceitar supostas ajudas para a sua reintegração social em troca da “liberdade” da vida nas ruas.

A consequência direta da usurpação da cidadania e dos direitos fundamentais está diretamente associada ao crescimento assustador da população de rua. Segundo a Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua realizada pelo Governo Federal por meio do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), em abril de 2008, o ministério identificou 31.922 pessoas –acima de 18 anos – vivendo nessa condição. A pesquisa envolveu 71 municípios, sendo 23 capitais e 48 cidades com mais de 300 mil habitantes.

Na análise do ex-morador de rua e coordenador do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), Anderson Lopes Miranda, o número atual é muito maior. “O Brasil tem 5.565 municípios, se o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) fizesse um censo que estamos cobrando, o número estaria em torno de um milhão de pessoas vivendo nas ruas”, calcula.

Para se ter uma ideia, só na cidade de São Paulo, nas últimas duas décadas, o número saltou de três para mais de 13 mil pessoas vivendo nas ruas. Para o pesquisador Walter Varanda, “o crescimento da população de rua seria ainda maior, não fosse o alto índice de mortalidade decorrente das condições de insalubridade a que estão sujeitos”, acrescenta.

Fora de São Paulo é mais difícil mensurar o número e a situação dos moradores de rua. E a própria sociedade tenta esconder essa realidade assustadoramente cruel. Segundo Anderson Lopes Miranda, “as cidades omitem sua população de rua porque não querem reconhecer que falta muito a se fazer por essas pessoas”. Miranda, que morou por 15 anos nas ruas, relata que nas capitais o indivíduo até consegue tirar documentos e utilizar alguns serviços básicos; já fora dos grandes centros a situação é inversa. “Por meio da ‘higienização’ a guarda das prefeituras retira todos os pertences do indivíduo, inclusive documentos e bens pessoais”, conta.

Para o arte-educador do Centro de Inclusão de Pessoa em Situação de Rua, Orlando Coelho Barbosa, “não existe por parte do governo municipal uma política clara em relação à população de rua, que seja intersecretarial, mas sim, ações pontuais. As entidades conveniadas reclamam também dos valores repassados para manutenção dos equipamentos destinados a essa população”. Ou seja, políticas paliativas que não resolvem o problema, dessa forma, o sistema público não enxerga as sutis diferenças entre viver na rua, estar na rua e ficar na rua, detalhes fundamentais na hora do desenvolvimento estratégico.

Assim, esse é um problema tanto da sociedade quanto do Estado e revela uma impotência em lidar com a situação de forma civilizada. De acordo com o pesquisador Walter Varanda, essa destituição total dos direitos do outro mostra desvios de caráter incompatíveis com a vida em sociedade. “O morador de rua torna-se, nesses casos, depositário de estigmas e negatividades, atuando como elemento expiatório de desequilíbrios sociais decorrentes do individualismo vigente na sociedade moderna. A simples aceitação das diferenças sociais nessa ordem de grandeza desumaniza a ponto de se confundir a pessoa com a situação em que ela se encontra, alimentando o estigma a ela imposto, negando sua história de vida e impedindo a identificação de suas qualificações e potencialidades como se elas não existissem e não fosse possível um novo projeto de vida”, afirma o pesquisador.

“O simples nascer investe o indivíduo de uma soma inalienável de direitos, apenas pelo fato de ingressar na sociedade humana. Viver, tornar-se um ser no mundo, é assumir, com os demais, uma herança moral, que faz de cada qual um portador de prerrogativas sociais” Milton Santos (1926 – 2001), Geógrafo

Pri Vilariño

CIDADANIA CORROMPIDA

O conceito de cidadania na sociedade a qual vivemos está fortemente relacionado à noção de democracia e direitos que permitem ao indivíduo participar de escolhas que afetam suas vidas. O pensador Norberto Bobbio concebia um regime democrático como um método de governo, um conjunto de regras de procedimento para a formação das decisões coletivas, no qual está prevista e facilitada a ampla participação dos interessados.

Contudo, como garantir direitos básicos a esse segmento de excluídos, sendo que quase a metade dessa população não possui qualquer documento pessoal como carteira de identidade ou título de eleitor – símbolos de cidadania – o que as exclui da vida civil, deixando de ter direitos e de serem reconhecidos como cidadãos? Indivíduos que pouco participam de processos fundamentais da vida política do cidadão, como votar. É nesse quesito que a atual democracia peca ao não cumprir suas promessas de igualdade, de ampla participação e garantia de direitos.

Mesmo despojados do preceito básico da democracia, tais indivíduos se constituem como cidadãos. Segundo o sociólogo Juraci Antonio de Oliveira, “os direitos humanos foram uma conquista ao longo da história da civilização e que ainda hoje, em pleno século 21, é um campo que se encontra longe do consenso. O mesmo ocorre com status de cidadão. Poderíamos dizer que no limite, moradores de rua e tantos outros excluídos, são cidadãos, porém não são tratados como tal, não exercem seus direitos e deveres dentro dos padrões minimamente aceitáveis”, argumenta.

Já para o arte-educador do Centro de Inclusão de Pessoa em Situação de Rua, Orlando Coelho, “essas pessoas não são vistas como sujeitos de direito e que de alguma forma, em algum momento de suas vidas ou tiveram seus direitos negados ou alijados, mas, como vítimas de sua incapacidade ou de seu pecado e por lhes destinarmos um olhar de caridade, piedade, misturado com desprezo, não há um reconhecimento de sua humanidade”.

O geógrafo e professor Milton Santos acrescenta: “O simples nascer investe o indivíduo de uma soma inalienável de direitos, apenas pelo fato de ingressar na sociedade humana. Viver, tornar-se um ser no mundo, é assumir, com os demais, uma herança moral, que faz de cada qual um portador de prerrogativas sociais. Direito a um teto, à comida, à educação, à saúde, à proteção contra o frio, a chuva e as intempéries; direito ao trabalho, à justiça, à liberdade e a uma existência digna”.

Mesmo sendo cidadãos por natureza, eles têm suas prerrogativas sucumbidas pelo Estado, que se diz pluralista e representativo, mas que não garante meios de sobrevivência a todos os cidadãos. De tal modo que não são apenas moradores sem casa, são também cidadãos sem direitos. Disso nasce a crítica na qual o filosofo Jean-Jacques Rousseau admitia que essa representatividade não traduz a vontade de um cidadão para o outro. Rousseau acreditava que a vontade só será geral se tiver a participação de todos os cidadãos de um Estado. Para ele, a soberania só existe se for geral. “(…) É a [vontade] de todo um povo ou de uma parte dele. No primeiro caso, esta vontade declarada é um ato de soberania e faz lei, no segundo, é simplesmente uma vontade particular, um ato de magistratura ou, quanto muito, um decreto”.

Mesmo em que no atual contexto de um país com mais de 190 milhões de pessoas a representatividade seja necessária, no caso dos moradores de rua o Estado não se aproxima de modo eficiente dessa categoria. Portanto, mesmo que os princípios democráticos indiquem igualdade entre os diferentes estratos sociais, o morador em situação de rua em nada é igual com relação ao restante da população. São iguais apenas entre si devido à própria condição, uma massa de desabrigados que estão em seu estado máximo de carência, o que reforça a perda da própria identidade e a situação de total exclusão social.

Essa opressão se materializa na violência e na intolerância praticada por vários agentes da sociedade contra os moradores de rua em geral. Os níveis de agressão e impunidade crescem a cada dia em todos os sentidos. O número de vítimas ao longo de 10 anos foi proporcionalmente maior. Os fatos recentes comprovam, e o mais marcante de todos foi o massacre ocorrido em 2004, no qual 15 moradores de rua foram atacados por um grupo, enquanto dormiam, na região central da cidade de São Paulo. Das 15 pessoas que dormiam, sete morreram, até hoje apenas um dos apontados como culpados pelos assassinatos foi preso.

“Os estigmas do fracasso, da impotência, da vagabundagem e da menos-valia levam ao distanciamento das estruturas sociais, e no anonimato restam as estratégias de sobrevivência possíveis (…) que incluem,  por sua vez, uma ampla rede solidária que torna a vida nas ruas uma alternativa viável, ou pelo menos mais viável que a pobreza extrema” Pesquisador de população de rua e uso de drogas da Faculdade de Saúde Pública da USP

Pri Vilariño

O EFEITO DAS GRANDES CIDADES

A população de rua faz parte do cenário das grandes cidades do mundo. Trata-se de um segmento social que, sem trabalho e sem casa, utiliza a rua como espaço de sobrevivência e moradia.

Para o sociólogo Juraci Antonio de Oliveira, “esse talvez seja um fenômeno comum aos grandes centros urbanos, onde convivemos com múltiplas realidades. De tanto convivermos com a diversidade e a adversidade, já não percebemos as nuances da cidade”.
Desse modo, esses indivíduos se tornam seres invisíveis aos olhos da sociedade, saturados pela miséria das ruas, pela negação dos direitos básicos e essenciais e vítimas dos próprios estigmas e adversidades. O sociólogo alemão Georg Simmel (1858 – 1918) destacava essa relação entre o indivíduo e a metrópole, da influência da grande cidade moderna na personalidade e na vida mental dos seus habitantes. Uma individualidade urbana caracterizada pela reserva, desconfiança, apatia e falta de solidariedade.

O que Simmel falava se torna evidente nas cidades do Brasil. A exposição dos habitantes urbanos a diversos contrastes e estímulos sucessivos da deplorável situação a qual se encontram os moradores de rua é tão grande a ponto de se chegar ao esgotamento da sensibilização, gerando cada vez mais discriminação e apatia. Essa indiferença com relação ao morador de rua – causada pela mendicância – provoca o que Simmel chamou de “caráter blasé”, ou seja, essas experiências vividas cotidianamente causam indiferença de grande parte dos indivíduos. Se não fosse assim, segundo o sociólogo alemão, os habitantes dos grandes centros entrariam num estado mental de excitação tal que levaria a neurose, dada à diversidade, velocidade e intensidade dos estímulos aos quais estão expostos.

“Assim como uma vida imoderada de prazeres torna-se blasé, porque excita por muito tempo os nervos nas suas reações mais fortes, até que eles acabam por já não ter nenhuma reação, assim também as impressões inofensivas, pela rapidez e pela incompatibilidade da sua mudança, forçam os nervos a respostas tão violentas, irrompem para cá e para lá de modo tão brutal, que eles entregam a sua última reserva de forças e, permanecendo no mesmo meio, já não têm tempo para acumular uma nova (…). A incapacidade, assim originada, de reagir aos novos estímulos com uma energia que lhes seja adequada é justamente aquele caráter blasé”, afirmou Georg Simmel.
O indivíduo da grande cidade como São Paulo, rodeado por milhares de modificações individuais, cria um órgão protetor. A presença da população de rua na modernidade está tão incorporada à paisagem que já se tornou banal. Paradoxalmente, só são notados pela grande maioria da população quando não estão presentes. A intensificação de ver constantemente pessoas no estado máximo de carência e desamparo não gera mais compaixão; ao contrário, brota uma mudança acelerada e ininterrupta das impressões interiores e exteriores, e a contemporaneidade não é apenas um cenário onde esse grupo reside, é, antes de mais nada, um pré-requisito para que ele exista.

Por outro lado, podemos evocar também o dramaturgo alemão Bertolt Brecht que propunha o exercício do distanciamento como forma de estranhamento da realidade para podermos exercer melhor nossa crítica. Dessa forma, podemos perceber as iniquidades do cotidiano, das quais não nos damos conta, pois estamos imersos nessa realidade e dela fazemos parte. Brecht dizia que aquele que não estranha mais a violência, que sequer a percebe, é porque também já se tornou violento.

Quem são os moradores de rua?

De acordo com o Censo de São Paulo de 2010 realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (Fipe), coordenado pela economista e professora da FEA – USP (Universidade de São Paulo), Silvia Maria Schor, quase 80% das pessoas que vivem nas ruas são homens em idade média de 40 anos. Os dados revelam a dificuldade de reintegração ao mercado de trabalho.

Isso expõe o quanto a desqualificação profissional limita a inserção no mercado de trabalho. O pesquisador de população de rua e uso de drogas da Faculdade de Saúde Pública da USP, Dr. Walter Varanda vai além. “A população de rua é constituída na sua maior parte por adultos em idade produtiva, como mostram os censos realizados, sua situação é praticamente a mesma ao longo das últimas décadas apesar de serem sujeitos de direitos, e existem sérios equívocos em tratá-la como caso de polícia”, salientou o pesquisador.

O perfil dessas pessoas mostra que, apesar de mais de 90% saberem ler e escrever, a maioria não chegou a completar o ensino fundamental. Para o sociólogo Juraci Antonio de Oliveira, “o fato da maioria dessas pessoas terem certo grau de escolaridade indica que tinham um nível de participação na vida social”. Porém, na atual situação a qual estão, encontram-se à margem da Desenvolvisociedade e desprovidas de atuarem como devidos cidadãos que são. Os dados também revelam que na sua grande maioria são “não brancos”, incluindo-se os negros, pardos, amarelos e indígenas. Observe no gráfico os números sobre a distribuição dos moradores de rua por cor e sexo, segundo os dados da pesquisa.

O uso de drogas também é uma constante. A maioria dos moradores de rua bebe e usa drogas. Entre os 18 e 30 anos, a proporção atinge 80%. A droga mais consumida é o crack. De acordo com o pesquisador Walter Varanda, o uso de álcool e drogas está relacionado ao autocontrole, autonomia e estados alterados de consciência em decorrência do uso. “Aos rituais de uso estão associados à sociabilidade, às relações de parceria, proteção e segurança. A vida nas ruas é recheada de códigos, de “jeitos” que tornam o crack para uns e a bebida para a maioria uma opção interessante, sem falar da disseminação da maconha, que permeia o uso das outras drogas. Isto quer dizer que o uso abusivo, na situação de rua, é mais intenso que em outras situações em que o sujeito convivesse com algum controle social. Quando os ganhos com o uso da substância são maiores que os ganhos em situações nas quais haja controle, por exemplo, no ambiente de trabalho ou familiar, o sujeito vai procurá-la na rua”, expõe o pesquisador.

Também a alta taxa de usuários se deve à intervenção neuroquímica da substância que alivia, conforta, estimula, anestesia, diminui a autocensura, relaxa o autojulgamento e permite certa maleabilidade da autoimagem, principalmente aquela que o sujeito não gosta. “Além disso, a embriaguez viabiliza processos nostálgicos através de mergulhos em dinâmicas emocionais regredidas, permitindo a reedição de padrões comportamentais aprendidos e valorizados em outros momentos da vida”, lembrou VarandOutro fator que pode ajudar a entender esse fenômeno é a questão do histórico da população de rua da cidade, já que mais da metade dos moradores foi internada em alguma instituição, predominando casas de detenção, clínicas de recuperação de álcool e drogas e Febem. Entre os jovens, 70% já passaram por alguma instituição.

Entre o espaço público e o privado

Excluídos da sociedade, os moradores de rua ressignificam o único espaço que lhes foi permitido ocupar, o espaço público, transformando-o em seu “lugar”, um espaço privado. Espalhados pelos ambientes coletivos da cidade, fazendo comida no asfalto, arrumando suas camas, limpando as calçadas como se estivessem dentro de uma casa: assim vivem os moradores de rua. Ao andar pelas ruas de São Paulo vemos essas pessoas dormindo nas calçadas, passando por situações constrangedoras, pedindo esmolas para sobreviver. Essa é a realidade das pessoas que fazem da rua sua casa e nelas constroem sua intimidade. Assim, a ideia de individualização que está nas casas, na separação das coisas por cômodos e quarto que servem para proteger a intimidade do indivíduo ganha outro sentido. O viver nas ruas, um lugar aparentemente inabitável, tem sua própria lógica de funcionamento que vai além das possibilidades.

A relação que o homem estabelece com o espaço que ocupa é uma das mais importantes para sua sobrevivência. As mudanças de comportamento social foram sempre precedidas de mudanças físicas de local. Por mais que a rua não seja um local para viver, já que se trata de um ambiente público, de passagem e não de permanência, ela acaba sendo senão única, a mais viável opção. Alguns pensadores já apontam que a habitação é um ponto base e adquire uma importância para harmonizar a vida. O pensador Norberto Elias aponta que “o quarto de dormir tornou-se uma das áreas mais privadas e íntimas da vida humana. Suas paredes visíveis e invisíveis vedam os aspectos mais ‘privados’, ‘íntimos’, irrepreensivelmente ‘animais’ da nossa existência à vista de outras pessoas”.

O modo como essas pessoas constituem o único espaço que lhes foi permitido aponta que conseguiram transformar em “seu lugar”, que aproximaram cada um à sua maneira dois mundos aos quais estamos inseridos: o público e o privado.

REFERÊNCIAS
SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. 4ª edição. São Paulo: Nobel, 1998.

VIEIRA, M. A C. et cols., População de rua. Quem é, como vive, como é vista. São Paulo: HUCITEC, 1992.

* Robson Rodrigues é jornalista

Fonte: Portal  Sociologia Ciência e Vida

Hoje não vai chover canivetes…

Hoje não vai chover canivetes…

Desenvolvido por volta das décadas de 1930 e 1940, o interacionismo simbólico continua a ser uma alternativa para compreender a sociedade

Emerson José Sena da Silveira*

Não raramente criticados pelas ciências em geral (sociais, históricas ou naturais), os aforismos fornecem um amplo quadro de compreensão, podendo tornar-se fonte de reflexões. Em se tratando do título do presente artigo, os canivetes remetem, entre tantos aspectos, a maledicências. Por outro lado, pode referir-se tanto aos poderes penetrantes da ordem e da lei (a justiça é representada por uma mulher de venda nos olhos com uma balança e uma espada), quanto às grandes estruturas, como família, Igreja, mercado e Estado. Esses poderes cortantes recaem sobre os indivíduos indefesos e ficam à mercê de afiadas forças. Diante dessa ambivalência, recai um questionamento: será essa reflexão aforística apenas uma concepção sucinta da realidade ou sua adiposa caricatura?

Para apontar as principais linhas de uma teorização microssociológica (perspectiva subjetiva ou intersubjetiva individual), como se classifica o interacionismo simbólico, é válido estabelecer um contraponto a partir de uma teoria macrossociológica (perspectiva objetiva, funcional ou estrutural).

Contrariamente ao que afirmava Durkheim, a perspectiva interacionista simbólica aponta que os fatos sociais não se impõem aos indivíduos como realidade objetiva e peremptória, anterior a qualquer existência individual. O fato social não é uma realidade pronta, que se coloca diante dos indivíduos, esbofeteando-lhes a face e explicando, a contento e inquestionavelmente, as outras realidades: política, econômica, cultural, religiosa.

A título de ilustração, invertendo a perspectiva funcionalista de Durkheim (a preeminência do social sobre o individual), tome-se uma situação cotidiana: um motorista estaciona diante de uma placa que ordena ser proibido estacionar. Cria-se um impasse: se, de um lado, ao ser multado pelo policial, o motorista tenta convencê-lo a desconsiderar a infração, por outro lado, o policial usa de sua autoridade quer seja para obter gratificação, quer seja para manter o respeito às regras. Dessa forma, a existência das regras é construída, também, a partir da interação entre o policial e o motorista, já que, no papel, elas são pura abstração.

Para a corrente interacionista, os fatos sociais são realizações práticas mediadas pela linguagem. Se alguém quiser entender as relações sociais, deverá prestar atenção na linguagem: naquilo que as pessoas dizem, na forma como dizem, naquilo que ocultam ao falar, nas falhas, na direção que a linguagem verbal e não verbal aponta e deixa de apontar. É um mundo fascinante a nossa espreita, o tempo todo

Na perspectiva microssociológica do interacionismo simbólico, essa regra é construída concretamente quando os dois atores em questão, o motorista e o policial, travam uma relação social e negociam, ou não, a aplicação, a extensão e o sentido da regra. Portanto, a regra não flutua no ar, como uma bolha de sabão, mas existe, na medida em que os atores sociais travam contato e interação. E isso é feito pela linguagem e pelos sistemas de comunicação, a maioria deles tão “naturalizados”, para não dizer banalizados, que seu funcionamento passa despercebido, fazendo parte da rotina diária de cada indivíduo.

Por outro lado, o sentido compartilhado forma uma grossa corrente que funciona como uma espécie de ímã, e cujo fenômeno preponderante, no setor da comunicação, é de atenção difusa, ou seja, olhar e não enxergar. De fato, em geral, as pessoas passam diante de murais de avisos, passeiam os olhos, mas, ao serem indagadas sobre a especificidade deles, desconhecem, porque, embora os tenham percebido, não os observaram. Em palavras simples, olharam sem ver.

Instala-se um paradoxo necessário para a vida em sociedade, que é a atitude natural para com o mundo. Em alguns casos, essa atitude é suspensa, normalmente quando ocorrem certas doenças, como a esquizofrenia, ou quando vigoram atitudes racionais, como a crítica inteligente e sagaz, ou em momentos de crises sociais, culturais e religiosas.

Para se ter uma ideia de como essas grossas correntes geram fortes pressões para que algo seja interpretado dentro de um determinado padrão, que é pelo menos consentido por uma maioria, tome-se o exemplo dos experimentos feitos por Harold Garfinkel, fundador da etnometodologia (anos 1940, EUA), sobre a produção do consenso interativo no cotidiano das relações sociais, ou breaching experiments. Esses experimentos consistem em quebrar radicalmente padrões de expectativa de interação socialmente compartilhada. Por exemplo, ao receber convidados para uma festa, estende-se a mão e, com um sorriso, emitem-se frases como: “Estou muito infeliz de vê-lo por aqui” ou “Foi péssima a sua presença, não volte nunca”. Comportamentos como esses causam total desorientação, choque e confusão. As tentativas de acomodar-se ao sentido esperado são intensa e imediatamente acionadas.

Para a corrente interacionista, os fatos sociais são realizações práticas mediadas pela linguagem. Se alguém quiser entender as relações sociais, deverá prestar atenção na linguagem: naquilo que as pessoas dizem, na forma como dizem, naquilo que ocultam ao falar, nas falhas, na direção que a linguagem verbal e não verbal aponta e deixa de apontar. É um mundo fascinante a nossa espreita, o tempo todo.

Longe de ser uma rocha que cai sobre a cabeça do indivíduo, a sociedade é uma construção cotidiana, feita pelos atores sociais, dos mais variados estratos, das mais variadas ocupações, das mais variadas posições políticas, das mais variadas crenças ou concepções filosóficas, em constante interação: o médico, o gari, o professor…

Essa identificação não é simplesmente objetiva e abstrata, prescrita por um sistema de papéis sociais ou por um sistema de classes. Pelo contrário, o policial é um cidadão com identidade, que tem residência em um local, que interage e mantém relações com outras pessoas, que possui uma história, que está imerso numa rede de relações.

O interacionismo critica as metodologias sociológicas tradicionais: o conhecimento sociológico é produzido pelo pesquisador a partir tanto da observação direta e imediata das interações entre os atores sociais e das suas ações práticas, quanto do sentido que eles atribuem aos objetos, às situações, aos símbolos que os cercam.

Desprezar as motivações pessoais e a liberdade subjetiva dos atores, privilegiando princípios objetivos, é criar uma “bolha especulativa”. O interacionismo simbólico baseia-se em uma concepção teórica segundo a qual os objetos sociais são, interminavelmente, construídos e reconstruídos pelos atores. No entanto, a interação social é frágil, temporária, em constante construção pelos homens, de modo que estes podem, por meio dela, interpretar o mundo em que estão inseridos e no qual interagem.

Por outro lado emerge uma lógica pre-estabelecida casualmente a partir de uma ordem de fatos externos e fixos, proclamados por diversas correntes teóricas, tais como: a titânica luta de classes (burguesia versus proletariado, por exemplo); a “redenção” ateia do comunismo vindo triunfalmente nos braços do verdadeiro sujeito histórico (devidamente conduzido por dedos stalinistas); os proletários; a sabedoria “vesga” da “mão invisível” e “esclerosada” (só escolhe os poderosos e as elites econômicas e políticas) do mercado (liberalismo econômico e neoliberalismo) que tudo guia. Esses fatos externos não capturam todo o significado das ações sociais em permanente processo de interação; antes, fornecem o contexto em que elas se desenrolam.

Essa realidade vai ao encontro da concepção do antropólogo norte-americano, Clifford Geertz, ao lembrar o sociólogo alemão Max Weber: somos animais imersos em teias de significados, que tecemos também, tanto quanto desfazemos; acrescentese a essa perspectiva: tanto quanto elas nos fazem e nos desfazem.

Alguns, numa postura crítica ao interacionismo simbólico, diriam que o problema reside no fato de que essas teias endurecem, tornam as instituições férreas e as mãos econômicas frias. Enfim, são teias de aço, que apertam as pessoas, espremem-lhes os cérebros e aprisionam as utopias.

A teoria interacionista sugere alguns princípios de investigação do mundo intersubjetivo das interações: relacionar símbolos e interação; partir do, e tomar o ponto de vista do, agente; estudar o caráter situacional da interação e o dinamismo, bem como a estabilidade; generalizar da descrição para a teoria (SILVERMAN, 1995). Os métodos ligados a essa vertente sociológica empregam técnicas, como observação participante e entrevistas etnográfi cas, resultando descrições narrativas e análise de casos

PRINCIPAIS PENSADORES

A partir dos anos 1920, privilegiando o processo pelo qual os comportamentos de alguns indivíduos respondem, positiva ou negativamente, às expectativas, George Hebert Mead desenvolveu estudos psicossociais no departamento de sociologia da Universidade de Chicago. Inicia-se, desde então, o interacionismo simbólico.

Mead entende que a sociedade humana fundamenta-se na base do consenso, de sentidos compartilhados, na forma de compreensões e expectativas comuns. A interação é elemento constituinte do comportamento social e das atitudes humanas. Por quê? Porque a natureza dos objetos do mundo social é simbólica, já que o ser humano é simultaneamente sujeito e agente, interpreta e simboliza. Sua teoria privilegia dois aspectos fundadores da ação e da sociedade: a convergência na comunicação da díade sociedade-indivíduo e da tríade sociedade-indivíduo-mente.

Baseada em uma linguagem com significados convencionados em um código, por um grupo de pessoas, por uma comunidade ou por uma sociedade, a mente seria a capacidade humana de aprender e usar símbolos, possibilitando a comunicação.

A teoria interacionista sugere alguns princípios de investigação do mundo intersubjetivo das interações: relacionar símbolos e interação; partir do, e tomar o ponto de vista do, agente; estudar o caráter situacional da interação e o dinamismo, bem como a estabilidade; generalizar da descrição para a teoria (SILVERMAN, 1995). Os métodos ligados a essa vertente sociológica empregam técnicas, como observação participante e entrevistas etnográficas, resultando descrições narrativas e análise de casos.

Entre 1930 e 1970, nos EUA, sobressaíram duas correntes interacionistas: “Escola de Chicago”, expressa por Herbert Blumer, e a “Escola de Iowa”, expressa por Manford Kunh (SILVERMAN, 1995).

Já que a natureza do comportamento humano é imprevisível e indeterminada, Blumer propõe uma metodologia distinta para o estudo do homem. Daí ser importante perceber a realidade social pelos conceitos que buscam expressar o caráter processual da realidade. O self e a sociedade são processos dinâmicos. Admite-se a existência da interação simbólica, característica dos humanos, e da interação não simbólica (conversação de gestos), característica tanto dos homens quanto dos animais. Iniciando seus estudos sobre o interacionismo simbólico, em 1937, Blumer seguiu o pensamento de Mead, refletindo sobre a natureza da interação simbólica, a natureza da sociedade e da vida em grupo (ação humana e em conjunto).

A sociedade humana é interação permanente, só existe em ação, em processo constante de atividade em que os indivíduos interagem. O mundo social é sempre aberto para reafirmações ou mudanças por meio das interpretações e ações dos indivíduos. Por isso, os seres humanos são atores sociais interpretando seus papéis e orientando suas ações de modo que tenham significado para eles. Para isso, utilizam linguagem, rótulos e rotinas para gerenciar ou manipular, utilizam impressões e outros modos de ação culturalmente específicos.

Por outro lado, considerando apenas os aspectos cognitivos e não afetivos do comportamento humano para buscar as previsões universais da conduta humana, Manford Kunh propõe um horizonte de método comum em todas as disciplinas científicas. Essa concepção pode levar a algumas caricaturas analíticas, como as relacionadas aos estudos de comportamento de namoro e de relação sexual, por exemplo, que, embora sejam apontadas como resultado de testes com rigor científico, conduzem a afirmações passíveis de questionamento. Um exemplo disso é o estudo do comportamento da paquera, em que um dos sinais não verbais de interesse, entre as mulheres, seria o de passarem as mãos no cabelo, jogando-os para trás; e o sinal dos homens seria rir de soslaio, colocando os polegares no bolso como a lamentar por não ter dinheiro para sair com a mulher.

Na perspectiva de Kunh, o self e a sociedade seriam estruturas de padrões estáveis e previsíveis. Isso norteia a concepção da natureza do comportamento humano como determinado pelas definições do ator (mesmo as autodefinições), sendo, então, previsíveis. Em relação ao método de investigação, procura concretizar as noções interacionistas em elementos que possam ser empregados em testes empíricos.

A sociedade humana é interação permanente, só existe em ação, em processo constante de atividade em que os indivíduos interagem. O mundo social é sempre aberto para reafirmações ou mudanças por meio das interpretações e ações dos indivíduos. Por isso, os seres humanos são atores sociais interpretando seus papéis e orientando suas ações de modo que tenham significado para eles. Para isso, utilizam linguagem, rótulos e rotinas para gerenciar ou manipular, utilizam impressões e outros modos de ação culturalmente específicos

INTERACIONISMO NOS DIAS DE HOJE

Apesar das teorias interacionistas remontarem há décadas, em particular aos anos 1940, é no atual contexto que elas ganharam nova projeção, podendo revelar um fôlego renovado. E que contexto é esse? Trata-se de um contexto de crise, de mudanças profundas na estrutura social e cultural.

As crises dos anos de 1970 e 1980 sobrepõemse. Primeiramente, uma crise econômico-energética, evidenciada pelo lançamento do polêmico relatório “Os limites do crescimento”, feito pelo Clube de Roma e por um grupo de cientistas do Massachusetts Institute of Technology (M. I. T.), abrindo intensos debates sobre a questão da escassez e do modelo de crescimento econômico capitalista vigente.

A segunda é a crise do sujeito universal e moderno, criticado e abandonado em muitas vertentes teóricas. Perguntamse sociólogos e antropólogos quem é esse sujeito. Alguns falam em “virada culturalista” nas ciências sociais, expressão do ceticismo pós-moderno ou da rejeição às grandes teorias.

Com a queda da filiação e da capacidade de reprodução, socialização, enfim, com a desregulação da conduta, acontece a terceira crise, que é a dos movimentos sociais e dos aparelhos tradicionais de controle social: partido, sindicato, Estado-nação, Igreja.

Paradoxalmente, essa virada foi responsável pelas seguintes contribuições: contribuiu para a receptividade de novas questões, como o comportamento de consumo; para a diluição e o amargo espanto de teóricos marxistas e de outras linhagens aferrados a velhas temáticas e vocabulários, como burguesia, proletariado, classe social, incapazes de descrever as vertiginosas transformações contemporâneas.

Entretanto, é preciso acentuar que as mudanças macrossociais, ao transformarem as noções de tempo e espaço e a qualidade das interações sociais, refletem-se no nível microssocial, de onde voltam a influenciar as estruturas, por meio da ação social dos indivíduos.

Falta, porém, no âmbito do interacionismo simbólico, uma sociologia da desigualdade, da pobreza, do poder, que apreenda a interpenetração múltipla entre os sujeitos – de carne, osso, lágrimas e sangue – e as estruturas socioeconômicas – com todo seu aparato, simbólico e material, às vezes cruel, de dominação e poder.

REFERÊNCIAS
COULON, Alan. Etnometodologia. Petrópolis, 1995.

______. A Eescola de Cchicago. Ccampinas: Papirus, 1995.

CARVALHO, Anabela Soriano; MARQUES, Rafael. Teorias da Iinteracção. In: FERREIiRAa, Carvalho J. M. et al., Sociologia. Lisboa: McGgrawHill, 1995.

GRFINKEL, Harold. Studies in Ethnomethodology. Cambridge England: Polity Press, 1984.

HAGUETTE, Maria Teresa F. Metodologias Qualitativas na Sociologia. Petrópolis: Vozes, 1992.

HANS, Joas. Interacionismo Simbólico e a Escola de Chicago. In: GIDDENS, Anthony; TURNER, Jonathan (org.). Teoria Social Hoje. São Paulo: UNESP, 1999.

LIMA, Rita de Cássia Pereira. Sociologia do desvio e interacionismo. In: Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(1): 185-201, maio de 2001.

SILVERMAN, David. Iinterpreting qualitative data: methods for analysing talk, text and interaction. London: SAGE, 1995.

* Emerson José Sena da Silveira é graduado em Ciências Sociais e doutor em Ciência da Religião (Prog. de Pós-Graduação em Ciência da Religião PPCIR; Univ. Federal de Juiz de Fora – UFJF). Pós-doutorado pelo PPCIR-UFJF, área de concentração ‘Ciências Sociais da Religião’. Professor Adjunto I, Dep. de Ciência da Religião (PPCIR-UFJF). Publicou Corpo, emoção e rito: antropologia dos carismáticos católicos (Armazém Digital Editora, 2008) e Por uma sociologia do turismo (Editora Zouk, 2007). Em coautoria com José Maria: Apresentação de trabalhos acadêmicos: normas técnicas (5a Edição, Editora, Vozes, 2010) e com Reinaldo Dias: Turismo religioso: ensaios e reflexões (Editora Alínea, 2003)

Fonte: Portal Sociologia ciências e vida

Adolescente que conhece suas origens é agente político

Adolescente que conhece suas origens é agente político

Música, poesia e desenhos de alunos de escolas públicas podem torná-los sujeitos políticos da sociedade

Fonte: Agência USP

Nas salas de aula de uma escola pública em São Paulo, os alunos não são ensinados a relacionar o conteúdo dos livros à história de sua própria comunidade. Por conta disso, não se sentem pertencentes à humanidade, facilitando a aceitação de rótulos e estigmas como o de “favelado qualquer”. Apesar disso, uma pesquisa realizada na Faculdade de Educação (FE) da USP demonstrou o quanto é possível mudar esse quadro utilizando o que é produzido cotidianamente pelos estudantes, como a música, a poesia e os desenhos, para que eles mesmos identifiquem os elos com seus antepassados. Ao fazerem isso, são capazes de se afirmarem como verdadeiros sujeitos políticos “da sociedade” e “na sociedade”.

A psicanalista Maíra Ferreira, autora da dissertação A rima na escola, o verso na história: um estudo sobre a criação poética e a afirmação étnico-social em jovens de uma escola pública de São Paulo , aponta a escravidão como a “barbárie brasileira”, cujas consequências ainda subjulgam a sociedade, principalmente quando o assunto é pobreza, discriminação e afirmação étnico-social. Com esse olhar, ela estudou durante dois anos uma turma de 30 alunos, amantes do rap, da sétima série de uma escola pública da favela Real Parque, localizada no Morumbi. De 2 a 3 vezes por semana, observava os alunos, conversava com eles e, junto a alguns professores, passou a intervir em sala de aula.

No início de seu trabalho na escola, a psicanalista percebeu que nos tempos vagos entre as aulas, algo comum no dia-a-dia das escolas públicas em todo o Brasil, os adolescentes rimavam, improvisavam e desenhavam com muita facilidade, demonstrando a capacidade crítica inclusive com os temas escolhidos em suas artes. Além disso, o dom da oralidade também chamou atenção da pesquisadora. Contudo, ao mesmo tempo em que apresentavam tão rica manifestação cultural, recusavam suas origens no ambiente escolar.

Segundo Maíra, essa recusa denuncia a “presença e permanência de políticas discriminatórias brasileiras desde a época dos cativeiros”. A escola, ao não reconhecer e contextualizar a importância da história da comunidade que atende, e não relacioná-la com o presente dos alunos, “perpetua a formação social e cultural do preconceito brasileiro”.

O Nordeste e o Hip Hop

Na sala de aula, a pesquisadora mostrou aos alunos as relações entre a capacidade de rimar e improvisar do rap, um dos elementos do Hip Hop, e as produções culturais do cordel e dos repentes nordestinos. Tratando-se da Favela Real Parque, os estudantes são herdeiros culturais das famílias afro-brasileiras e indígenas Pankararu, oriundas do sertão de Pernambuco, que migraram a partir da década de 1950 para São Paulo principalmente para trabalharem na construção do Estádio do Morumbi.

Em busca dessas evidências de relação entre culturas, Maíra viajou para o Nordeste, para a região do Brejo dos Padres em Pernambuco, onde pesquisou o cordel e os repentes sertanejos como a cantoria de viola e o coco de embolada, expressões claras da tradição da oralidade, tão marcante no rap dos estudantes. Com uma filmadora na mão Maíra andou pelas ruas nordestinas ouvindo e gravando declamações espontâneas: improvisos poéticos de farmacêutico, sapateiro, manicure, dentista, padre, crianças e idosos. “Em uma cidade chamada São José do Egito (PE) ouvi o seguinte ditado: Aqui quem não é poeta é louco e quem é louco faz poesia”, disse a pesquisadora.

Segundo a psicanalista, mesmo diante da violência social, a miscigenação étnico-social brasileira apresenta sua resistência: “das rodas de jongos e capoeria aos improvisos dos repentes e do rap está o movimento de resistência, apropriação e criatividade frente às políticas de discriminação existentes desde a escravidão”. Essa constatação é a prova de que durante a história do País não houve aniquilação da cultura dos povos que sofreram com tais políticas, e sim recombinação, reinvenção, recriação, ou seja, está aí um outro tipo de “marca humana” – no caso, o desejo de construir e não o de destruir.

Contudo, a “atualidade da escravidão brasileira” ainda aparece no cotidiano do brasileiro. De acordo com a pesquisadora, “a formação social brasileira está longe de elaborar e superar esse trauma que permeia as instituições de ensino e os espaços jurídicos do País”. Para isso, é essencial e possível ensinar aos alunos que eles podem e devem “atualizar as suas tradições” a fim de se apropriarem do passado, para construírem seus projetos futuros. Aliás, um dos alunos traduziu muito bem o pensamento de Maíra: “Já sei, professora. É pegar carona na tradição”.

A dissertação foi defendida no dia 4 de agosto de 2010, orientada pela professora Mônica do Amaral, e pode ser acessada neste link.

Os bancos centrais e os seu governadores: cegos, mas não mudos

Os bancos centrais e os seu governadores: cegos, mas não mudos

por Juan Torres López

Os bancos centrais são possivelmente a instituição que actuou da maneira mais inepta e incapaz na gestão e desenvolvimento da crise actual. Já expliquei em outros escritos ( ¿A qué juega el Banco de España? , Trichet, MAFO y los demás: ¿hasta cuándo? ) que deixaram que se gestassem as condições que a provocaram deixando actuar os capitais, concedendo todo tipo de privilégios e jogando sempre na equipe dos grandes proprietários, administrando a política monetária da forma que mais conviesse aos grandes detentores de liquidez.

Basta comprovar como aumentaram as desigualdades entre os rendimentos do capital e os do trabalho, ou entre os lucros das grandes empresas e a situação das pequenas e médias (que na Espanha criam e mantêm 90% do emprego) para confirmá-lo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, os 1% dos norte-americanos mais ricos obteve 23,5 por cento dos rendimentos brutos do país em 2007, ao passo que em 1976 obtinham 9% ( ROBERT H. FRANK, Income Inequality: Too Big to Ignore; Enmanuel Saez, Striking it richer: The evolution of Top Incomes in the US ). E nos anos do governo Bush, os 1% mais ricos da população apropriaram-se de 75% da riqueza gerada (David DeGraw, “The Economic Elite vs. People of the USA: Parte I y Parte II).

Os dirigentes dos bancos centrais justificaram as políticas que aumentaram tanto a desigualdade como necessárias para evitar que subissem os preços, mas o certo é que permitiram que se verificasse a subida talvez mais alta da história nos preços da habitação. E em lugar de terem conseguido promover e garantir a estabilidade financeira, sob o seu mandato como instituições “independentes” (dos governos, não dos capitais privados) verificou-se o maior número de crises e perturbações da história.

Quando dúzias de economistas viam aproximar-se a antecipavam com clareza total a crise e seus efeitos desastrosos, os bancos centrais e seus governadores e directores dedicavam-se a cobrir o temporal lançando balões fora e fazendo com os bancos privados continuassem ganhando dinheiro a mão cheias.

Suas viseiras ideológicas converteram-nos em condutores cegos, incapazes de ver a realidade que está diante dos seus olhos.

Quando a crise explodiu dedicaram-se a promover medidas que não conseguiram alcançar o que deveriam ter buscado: que o crédito flua de novo para empresas e consumidores. Ainda que, isso sim, conseguiram que os bancos privados voltassem a desfrutar novamente de e lucros impressionantes e de um poder político renovado.

Algumas das medidas que adoptaram para isso foram autênticas infâmias: mudar as normas contabilísticas ou manipular provas de stress financeiro mentirosas para dissimular e ocultar à população a situação real dos bancos a que conduziu, em boa medida, a sua incapacidade e o fanatismo ideológico com que continuam a defender políticas que em lugar de salvar as economias afundam-nas ainda mais na crise.

O EXEMPLO IRLANDÊS

A última prova disso (assim como da perversidade das políticas neoliberais que comentei em outro texto: a Irlanda como exemplo ) está também na Irlanda: em Julho afirmaram que os bancos irlandeses estavam em boas condições e agora verifica-se que é preciso injectar-lhes milhares de milhões de dólares. Sem que ninguém mova um dedo para assinalar responsáveis por semelhante engano e sem que ninguém se dê por acusado. Muito pelo contrário, inacessíveis ao desalento, continuam a pontificar como se fossem donos da verdade e nunca se houvesse equivocado. Sim, são cegos mas não mudos.

Enquanto vão acumulando os erros de prognóstico e de gestão, os governadores e outros dirigentes de bancos centrais não deixam de falar, falar e falar para pressionar os governos e difundir sem descanso as receitas que os grandes poderes financeiros, insaciáveis como sempre, reclamam sem outra consideração senão a de aproveitar a ocasião para multiplicar os seus lucros.

O governador do Banco de España é um bom exemplo disso e continua a dar mostras do seu indomável espírito de serviço aos interesses privados.

Enquanto espertos economistas fazem cabriolas dialécticas e econométricas para tentar convencer a população de que as reforma das pensões que propõem deve-se a razões de sustentabilidade futura e que busca apenas melhorar o sistema, a equidade e os bem estar dos cidadãos, o governador não tem papas na língua e revela claramente a quem se trata de satisfazer com isso. Acaba de reconhecer no Congresso dos Deputados que o que procura é tranquilizar os financeiros e, sobretudo, garantir que não tenham problema para receber a dívida que se gerou pela sua própria actuação irresponsável.

Disse textualmente que “a reforma de pensões ainda que seja a longo prazo é crucial para ganhar a confiança dos mercados” e que “a vantagem da reforma de pensões do ponto de vista dos mercados é que se sabe que a capacidade de devolver dívida da Espanha é tomada a sério … e portanto dá uma confiança ao investidor… isto tomam a sério…” ( Vídeo do governador no diário Público de 23 de noviembre ).

Como disse, cegos, mas não mudos e ao contrário da maioria das pessoas, a quem se conseguiu emudecer à base de desemprego, de salários de miséria, de dívidas e de lixo televisivo.

O original encontra-se em hl33.dinaserver.com/…

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Entre o público e o privado

Entre o público e o privado

Mauricio Dias

Em briga particular, Gilmar Mendes envolve até a Advocacia-Geral da União

Gilmar mendes não vê mesmo limites entre o público e o privado. O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal envolveu a Advocacia-Geral da União (AGU) em uma demanda particular. Trata-se da disputa societária que o ministro trava no Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), na tentativa de afastar da direção da empresa o sócio Inocêncio Mártires Coelho, ex-procurador-geral da República.

Desde 2007, quando o IDP conseguiu um terreno em Brasília e passou a lucrar com a oferta de cursos jurídicos, Mendes está em rota de colisão com Coelho. O parceiro está entronizado na administração do instituto por causa do impedimento dos demais sócios para assumir o comando, já que exercem cargos públicos.

No Tribunal de Justiça do Distrito Federal, Coelho obteve vitória e impediu a contratação de um administrador não sócio, como pretende Mendes. Mas, em 11 de outubro, um desembargador concedeu efeito suspensivo a Mendes.

O ministro do STF procurou, então, a Junta Comercial de Brasília para fazer uma averbação no contrato social do IDP, com o objetivo de afastar Coelho e colocar um não sócio na gestão. E lá vem o advogado-geral da União Luís Inácio Lucena Adams a defender Mendes e dizer que a empresa não pode ficar refém da parte minoritária.

Muito bem, a lei orgânica da Magistratura nacional proíbe a juízes atividades comerciais. Não vale para Gilmar Mendes? Por quê?

Mauricio Dias

Maurício Dias é jornalista, editor especial e colunista da edição impressa de CartaCapital. A versão completa de sua coluna é publicada semanalmente na revista. mauriciodias@cartacapital.com.br

Segundo turno: luz versus trevas

Segundo turno: luz versus trevas

Por Adalberto Monteiro

A campanha de Serra mudou o símbolo do PSDB: o tucano foi tangido para longe e em seu lugar entra um corvo, desses de cemitério. O candidato foi buscar reforço abrindo as tampas das tumbas do obscurantismo.
Serra patrocina o re-surgimento de abordagens e personagens já superadas pela democracia brasileira. A TFP (Tradição, Família e Propriedade) com a indumentária fedendo a mofo infesta blogs e avenidas. Guetos fundamentalistas panfletam suas bulas. O tema do aborto é criminosamente banalizado. A religiosidade do povo é manipulada para fins eleitoreiros.
“Trevas, volver” é a palavra de ordem da oposição neoliberal. Os inquisidores de Serra fazem rondas, empreendem implacável caçada aos hereges. Um deles pergunta para Dilma numa coletiva: “A senhora é homossexual?”. Serra, em riba de um caminhão, em Goiânia, ergue e beija um crucifixo. A senhora, esposa dele, diz que Dilma quer “matar criancinhas.” Sua campanha espalha a mentira e insufla a homofobia. Seu braço midiático cultiva a peste do preconceito. Estampam manchetes que somente os nordestinos e os pobres estão com Dilma. Acaso, não são brasileiros?
Mesmo realizando uma campanha desse naipe proclama que somente ele pode unir o Brasil. Muito ao contrário. O preconceito, o ódio, o obscurantismo – ingredientes da desagregação – jamais serão o cimento da união. A unidade nacional é um bem caro ao Brasil. Foi forjada num processo histórico prolongado e contraditório. É com base nessa unidade que, no presente, o governo do presidente Lula deu passos importantes para superar as desigualdades e deformações de nossa sociedade.
A campanha de Serra destila ácido corrosivo para minar a união do povo brasileiro. Católicos, evangélicos, espíritas, budistas, mulçumanos, judeus, praticantes das religiões afro-brasileiras, agnósticos, ateus, entre todos amplamente predomina a tolerância religiosa e todos valorizam o nosso Estado Laico compromissado com a liberdade religiosa. Liberdade religiosa lavrada pela Constituinte de 1946, por iniciativa do escritor Jorge Amado, então membro da bancada do Partido Comunista do Brasil.
Serra abriu as tumbas do obscurantismo e sabe que o reacionarismo que delas emergiu é incontrolável. Essas “criaturas”, caso ele vença, vão cobrar as duplicatas. Serra se autointitula “candidato do bem”, mas zelou um pacto com que há demais atrasado na sociedade brasileira. Tergiversa. Diz que não tem nada a ver com isso. Bota fogo na floresta e depois culpa a própria floresta. É um “pactuado” tal e qual Riobaldo de Grande Sertão, Veredas.
Obterá a vitória depois de ter vendido a alma?
As forças da luz, do desenvolvimento, do progresso social, da democracia, da liberdade, da tolerância, do sonho, do respeito ao outro deitaram raízes muito profundas no chão deste país continental. As gerações que nos precederam e nos formaram sofreram em demasia com o ódio, o autoritarismo, o preconceito que a campanha de Serra, hoje, acolhe e fermenta.
A luz vencerá as trevas. Mas, para isso, cada brasileiro, cada brasileira, verdadeiramente do bem, tem de sair às ruas com sua tocha acesa. E essa tocha é a bandeira de Dilma presidente.Às ruas, ao bom combate cidadãos, cidadãs!
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Jornalista e escritor. É presidente da Fundação Maurício Grabois e editor da revista Princípios 

Após nova tentativa de assalto, sociólogo diz que shopping seguro é só um mito

Após nova tentativa de assalto, sociólogo diz que shopping seguro é só um mito

Para o sociólogo da Unesp de Araraquara José dos Reis Santos Filho, o mito de que os shopping centers são templos de segurança se deteriorou. Ontem (17), quatro criminosos tentaram assaltar uma loja dentro do shopping Center Norte, na vila Guilherme, zona norte de São Paulo. Houve tiroteio no local, e um segurança foi ferido.
Os assaltantes quebraram a vitrine da loja Pubijou, que vende bijuterias e artigos de prata e poucos objetos de ouro, e levaram algumas peças. A Polícia Militar chegou depois do tiroteio, mas os criminosos já tinham fugido em um corsa roubado, da cor azul.
Folha – Os shoppings sempre se venderam como templos de segurança. Porém, só neste ano já foram 13 assaltos a esses locais. O que acontece?
José dos Reis Santos Filho – Isso é mito. Quem imagina construir um lugar à prova de crime em um país em que a criminalidade é endêmica? Só se for na Lua…
Mas esse mito intimidou os bandidos por um tempo. O que mudou?
Aumentaram os muros e obstáculos à criminalidade. Hoje em dia há mais casas e condomínios com cercas elétricas, guaritas etc.
O bandido então se arrisca onde há garantia de lucro e estuda as fragilidades dos sistemas de segurança. Além disso tudo, o shopping center fixa a imagem de ser um lugar onde a riqueza está disponível.
ROUBOS EM SHOPPINGS CENTERS
Só este ano foram registrados ao menos 16 casos de assaltos a joalherias em São Paulo. Desses, 12 ataques foram em shoppings e quatro, em joalherias convencionais. A onda de assaltos fez com que pelo menos cinco shoppings contratassem seguranças armados.
As polícias Civil e Militar têm adotado medidas de ações preventivas, incluindo rondas especiais em dias mais movimentados e que todos os roubos contra shoppings ou joalherias sejam investigados pelo Deic (Departamento de Investigações Sobre o Crime Organizado).
O caso mais recente foi um assalto à loja de artigos de luxo Montablanc no shopping Morumbi, na zona sul de São Paulo, em 6 de outubro.
Outro caso recente foi o assalto à relojoaria Timeland, em 15 de agosto, no shopping Pátio Higienópolis, na região central de São Paulo. Na ocasião, dois homens, um deles armado e com um falso uniforme dos Correios, renderam uma vendedora e uma mulher que havia levado uma pulseira para consertar. A dupla ordenou que a funcionária colocasse os relógios mais caros numa sacola e fugiu caminhando.
Em 7 de agosto, o Santana Parque Shopping sofreu uma tentativa de assalto. Um grupo formado por cerca de sete homens tentou assaltar duas joalherias. Houve troca de tiros e um segurança foi baleado na cabeça e acabou morrendo, após ter ficado cinco dias internado.
Em meio a onda de roubos, a associação dos shopping centers trouxe dos EUA especialistas em crimes contra o varejo, entre eles um do FBI, a polícia federal americana, para discutir segurança pública com lojistas, donos de shopping e com a cúpula da polícia. 

Código de ética do Sociólogo

CÓDIGO DE ÉTICA DO SOCIÓLOGO

Título I

Disposições gerais

Art. 1 – O Sociólogo na sua atuação profissional está obrigado à observância do presente Código, bem como a fazê-lo cumprir.

Art. 2 – Compete aos Sociólogos, Sindicatos, Associações Profissionais e à Federação Nacional zelar pelo seu cumprimento e sua divulgação.

Título II.

Dos Princípios Éticos e Fundamentais

Art. 3 – O compromisso fundamental do Sociólogo é o de interpretar a realidade dos fatos e das relações sociais através da aplicação de métodos científicos e técnicas sociológicas, buscando contribuir, a partir desses estudos, sua aplicação e divulgação para melhorar a qualidade de vida socio-ambiental da humanidade.

Art. 4 – O compromisso com a produção de informações com base científica a respeito da realidade social e sua divulgação pública precisa e correta é um direito inerente à condição atual de vida em sociedade, é um direito do cidadão que não pode ser impedido por nenhum tipo de interesse, é uma obrigação social que o Sociólogo deve assumir e defender.

Art. 5 – O Sociólogo tem o compromisso de lutar pelo exercício da soberania popular e auto-determinação dos povos  em seus aspectos políticos econômicos e sociais.

Art. 6 – O Sociólogo tem o compromisso de opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Título III

Dos Direitos e Deveres do Sociólogo

Capítulo I – Dos Direitos

Art. 7 – São direitos dos Sociólogos

a) Garantia e defesa de suas atribuições e prerrogativas estabelecidas na Lei de Reconhecimento da Profissão e neste Código;

b) Livre exercício das atividades inerentes à profissão;

c) Participar das entidades representativas e sindicais da categoria;

d) Propiciar ou realizar a investigação da realidade social a partir de critérios científicos e metodologia adequada que garantam a credibilidade e defesa pública quanto ao resultado do trabalho:

e) Propiciar a divulgação de informações resultantes de seus trabalhos e estudos que sejam de interesse público e possam contribuir para a melhoria da qualidade de vida;

f) Garantir que a divulgação pública dos resultados de pesquisas e de outros trabalhos se dê de forma precisa sem omissão ou alteração de dados que prejudiquem os resultados bem como respeitar normas de citação de fontes, autores e colaboradores:

g) Garantir a devolução das informações colhidas nos estudos e pesquisas aos sujeitos sociais envolvidos:

h) Recusar empregos, tarefas ou atribuições que comprometam a dignidade do exercício da profissão bem como recusar substituir colegas exonerados ou demitidos por defender os princípios e normas deste Código:

i) Receber remuneração por seu trabalho profissional garantindo o piso salarial da categoria, os valores delimitados nos contratos coletivos de trabalho e dissídios coletivos, a equivalência com outros profissionais de nível superior nos planos de cargos e salários dos órgãos públicos ou, no caso de atividade autônoma, os valores mínimos definidos por entidades representativas da categoria:

j) Denunciar aos órgãos competentes sempre que leigos estiverem no exercício ilegal da profissão ou lidem com resultados de pesquisa ou investigações sociológicas sem os critérios devidos:

l) Receber desagravo público por ofensa que atinja a sua honra profissional:

m) Apoiar as iniciativas e os movimentos de defesa dos interesses da categoria:

n) Denunciar a agressão e abuso de autoridades às organizações da categoria aos órgãos competentes.

o) Ter acesso às oportunidades de aprimoramento profissional.

Capítulo II

Dos Deveres

Art. 8 – São deveres do Sociólogo:

a) Desempenhar suas atividades profissionais observando a legislação em vigor:

b) Conhecer, cumprir, divulgar e fazer cumprir este Código:

c) Valorizar e dignificar a profissão bem como defender seu livre exercício:

d) Prestigiar as entidades representativas da categoria na defesa de seus direitos: as entidades científicas no aprimoramento das Ciências Sociais e as entidades democráticas na defesa da liberdade de expressão e da justiça social:

e) Combater e denunciar formas de corrupção e manipulação de informações, em especial quando comprometam o direito público da veracidade dos fatos, as ações políticas dos cidadãos e a justiça, e o favorecimento pessoal ou de grupos;

f) Combater a prática da perseguição ou discriminação por motivos sociais, políticos, religiosos, raciais ou juízo subjetivo, bem como defender o respeito ao direito à privacidade do cidadão;

g) Recusar e denunciar o desenvolvimento de pesquisas ou divulgação de seus resultados, quando houver manipulação nos critérios da metodologia científica e das normas internacionais, quando visar interesse ou favorecimento pessoal ou de grupos, com vantagens políticas ou econômicas, ou quando forem contrários aos valores humanos.

h) Ao atuar junto às instituições, responsabilizar-se por suas ações no sentido de contribuir para o desenvolvimento de seus objetivos, de acordo com os princípios e normas deste Código;

i) Responder pelas informações resultantes de estudos e pesquisas bem como pelas intervenções, assessorias e orientações desenvolvidas, desde que o trabalho em questão não tenha sido alterado por terceiros;

j) Não ser conivente com erros, faltas éticas ou morais, crimes ou contravenção de serviços profissionais;

l) Na realização de estudos e pesquisas, respeitar a dignidade de pessoas e grupos envolvidos nos trabalhos aos quais devem ser informados sobre os riscos e resultados previsíveis da sua informação e participação;

m) Procurar viabilizar a devolução das informações colhidas nos estudos e pesquisas aos sujeitos sociais envolvidos;

n) Denunciar às autoridades e órgãos competentes as coações e agressões físicas e morais sofridas no exercício da profissão;

o) Aprimorar de forma contínua os seus conhecimentos, colocando-os a serviço do fortalecimento da organização e consciência da sociedade.

p) Pagar regularmente suas obrigações com as entidades profissional às quais for associado.

Capítulo III

Do sigilo profissional

Art. 9 – O Sociólogo deve observar o sigilo profissional sobre todas as informações confiadas e/ou colhidas no exercício profissional.

Parágrafo 1 – A quebra do sigilo só é admissível quando se tratar de situação cuja gravidade possa trazer prejuízo aos direitos humanos.

Parágrafo 2 – A revelação será feita dentro do estritamente necessário, quer em relação ao assunto revelado, quer ao grau e número de pessoas que dele devem tomar conhecimento.

Art. 10 – É vedado ao Sociólogo revelar sigilo profissional.

bsp;    Parágrafo único – Intimado a prestar depoimento, deverá o Sociólogo comparecer perante a autoridade competente para declarar que está obrigado a guardar sigilo profissional, nos termos do Código Civil e deste Código.

Título IV

Das Relações Profissionais

Capítulo I

Das relações profissionais com as instituições

Art. 11 – São direitos dos Sociólogos:

a) Ter condições adequadas de trabalho, respeito a autonomia profissional e dos princípios éticos estabelecidos neste Código;

b) Denunciar falhas nos regulamentos, normas e programas de instituições em que trabalha quando os mesmos ferirem os princípios e direitos contidos neste Código;

c) Recorrer às entidades representativas da categoria, ao nível estadual e nacional, contra decisões ou omissões da instituição diante de denúncias referidas no inciso anterior.

Art. 12 – É vedado ao Sociólogo:

a) Adotar determinação que fira os princípios e diretrizes contidas neste Código, ao prestar serviço incompatível com as diretrizes da regulamentação profissional;

b) Emprestar seu nome a firmas, organizações ou empresas que utilizem métodos e técnicas das ciências sociais sem seu efetivo exercício profissional;

Capítulo II

Das relações profissionais entre Sociólogos

Art. 13 – Cabe aos Sociólogos manter entre si a solidariedade que consolida e fortalece a organização da categoria

Art. 14 – O Sociólogo, quando solicitado, deverá colaborar com seus colegas, salvo impossibilidade real, decorrente de motivos relevantes.

Art. 15 – A crítica pública ao trabalho profissional de outro Sociólogo deverá ser sempre comprovável, de inteira responsabilidade de seu autor e fundamentada nos preceitos deste Código.

Art. 16 – É vedado ao Sociólogo:

a) Ser conivente com falhas éticas e com erros praticados por outro profissional;

b) Prejudicar deliberadamente a reputação de outro profissional divulgando informações falsas;

c) Prevalecer-se de posição hierárquica para publicar em seu nome trabalho de subordinado, mesmo que executado sob sua orientação, sem citar as fontes e os colaboradores;

d) Deturpar dados quantitativos e qualitativos;

e) Apropriar-se da produção científica de outro profissional.

Art. 17 – Ao Sociólogo deve ser asseguada a mais ampla liberdade na realização de seus estudos e pesquisas.

Capítulo III

Das relações com as entidades da

categoria e demais organizações da Sociedade Civil

Art. 18 – O Sociólogo deve defender a profissão através de suas entidades representativas, participando das organizações que tenham por finalidade a defesa dos direitos profissionais no que se refere a melhoria das condições de trabalho, à fiscalização do exercício profissional e ao aprimoramento científico.

Art. 19 – O Sociólogo deverá apoiar as iniciativas e os movimentos de defesa dos interesses da categoria e divulgar no seu espaço institucional as informações das suas organizações, no sentido de ampliar e fortalecer o seu movimento.

Art. 20 – É vedado ao Sociólogo valer-se de posição ocupada na direção de entidade da categoria para obter vantagens pessoais, diretamente ou através de terceiros.

Art. 21 – O Sociólogo, ao ocupar uma chefia, não deve usar a sua autoridade funcional para obstaculizar a liberação total ou parcial da carga horária do profissional que a solicite, com base legal, às instâncias superiores.

Título V

Da aplicação e cumprimento do Código de Ética

Art. 22 – A Federação Nacional dos Sociólogos, os Sindicatos e Associações Profissionais manterão Comissão de Ética para assessorá-la na aplicação e observância deste Código.

Art. 23 – A Comissão de Ética será eleita por voto secreto, de forma separada da Diretoria da entidade, tendo mandato de igual duração.

Art. 24 – Fica a critério das entidades definir sua composição de acordo com seus Estatutos aprovados em Assembléia Geral da categoria.

Art. 25 – O descumprimento do presente Código de Ética fica sujeito a penalidades desde a advertência à eliminação dos quadros da entidade, na forma dos dispositivos legais e/ou regimentais.

Art. 26 – Constituem infrações disciplinares:

a) Transgredir preceito do Código de Ética;

b) Exercer a profissão quando impedido, ou facilitar o seu exercício por quem não esteja devidamente habilitado;

c) Aos que violarem sigilo profissional;

d) Aos que tenham conduta incompatível com o exercício profissional;

Art. 27 – São medidas disciplinares aplicáveis;

a) Advertência em aviso reservado;

b) Advertência pública;

c) Eliminação dos quadros da entidade.

Art. 28 – A pena de advertência, reservada ou pública, será aplicada nos casos previstos nas alíneas “a”, “b”, “c” e “d” do Art. 27.

Art. 29 – A pena de eliminação dos quadros da entidade será aplicada:

a) Nos casos em que couber a pena de advertência e o infrator for reincidente;

b) Aos que fizerem falsa prova dos requisitos exigidos para registro profissional;

Art. 30 – Serão considerados na aplicação das penas os antecedentes profissionais do infrator e as circunstâncias em que ocorreu a infração.

Art. 31 – Qualquer Sociólogo, cidadão ou instituição poderá dirigir representação escrita e identificada aos Sindicatos, Associações Profissionais ou à Federação Nacional para que seja apurada a existência de transgressão cometida por Sociólogo.

Art. 32 – Cabe à Comissão de Ética, criada pela entidade referida no artigo anterior, analisar as infrações a este Código que cheguem ao seu conhecimento.

Parágrafo 1 – Decidindo a Comissão pela apuração dos fatos, será notificado o indiciado, garantindo-lhe acesso aos documentos e fatos componentes da acusação e a apresentação de defesa em vinte dias úteis.

Parágrafo 2 – Após o encerramento da apuração dos fatos e apresentada a defesa, a Comissão decidirá dentro de 10 dias, dando conhecimento da decisão ao Sociólogo.

Parágrafo 3 – A decisão entrará em vigor após a certificação do seu recebimento pelo profissional objeto da apuração.

Art. 33 – A não observância pelo Sociólogo à convocação ou prazos definidos no artigo precedente, implica na aceitação dos termos da representação.

Art. 34 – A partir da data da notificação da decisão da Comissão de Ética, o Sociólogo poderá recorrer a Assembléia Geral da categoria convocada para este fim, desde que sejam respeitados os Estatutos dos Sindicatos, Associações Profissionais e da Federação para a referida convocação.

Art. 35 – Compete à Federação Nacional dos Sociólogos estabelecer procedimentos quanto aos casos omissos neste Código.

Art. 36 – O presente Código somente poderá ser alterado em Congresso Nacional da categoria, cuja proposta de modificação deverá ser encaminhada às entidades para discussão com o prazo mínimo de 90 dias.

Art. 37 – Este Código entra em vigor na data da sua votação e aprovação no X Congresso Nacional de Sociólogos do Brasil.

São Paulo, 9 de março de 1997

Lejeune Mato Grosso Xavier de Carvalho

Presidente da Federação Nacional dos Sociólogos – FNS – Brasil

Presidente dos Trabalhos da 8ª Reunião Plenária do CD da FNS

Alcione Prá

Diretor da Federação Nacional dos Sociólogos – FNS – Brasil

Regional Sudeste e Secretário dos Trabalhos da 8ª Reunião

Plenária Nacional do Conselho Deliberativo da FNS


 

Aprovado na plenária final de delegados do X Congresso Nacional de Sociólogos realizado em 13 de setembro de 1996 no campus de Porto Alegre e referendada pela 8ª Reunião Plenária Nacional do Conselho Deliberativo da FNS, realizada em são Paulo, entre os dias 7 e 9 de março de 1997

Cristóvão onirocéfalo

Cristóvão onirocéfalo – Ricardo Máximo

O que atribuiu-se sofrer em língua vária
o poligólgota condutor
de Cristos como quistos
de imaginários como leprosários
de redemoinhos como de reais moídos
Cristóvão onirocéfalo
colosso da inverossimilhança
exorta
às testemunhas e temerários
aos trêfegos e aos trágicos
a observarem
um minuto negasilente
todo um minuto de analgesia
quando o virem passar
pugilando as águas
com sua estirpe
de píncaros e epifanias!

Ricardo Máximo é poeta e professor de Sociologia e Filosofia na Universidade Cândido Mendes do Rio de Janeiro. Publicou elogiados livros de poesia, dentre eles Cantos Gozosos, Cantos Erectos e O Século XXI como Antídoto. Também participou de algumas antologias do Jornal Poesia Viva

A atualidade dos cursos de ciências sociais em SC

A atualidade dos cursos de ciências sociais em SC

QUATRO UNIVERSIDADES DO ESTADO UNC, FURB, UNIVALI E UFSC, OFERECEM FORMAÇÃO NA ÁREA

LEANDRO SCHIESSL*

O presente texto propõe um estudo do curso de ciências sociais no Estado de Santa Catarina. Faz um levantamento histórico. Busca identificar nos cursos suas características. Quais eram os objetivos quando criados e quais as expectativas para o contexto atual em meio à sociedade? Também identifica quais as principais mudanças que cada curso sofreu e quais os respectivos motivos.

Em Santa Cataria, existem apenas quatro universidades que oferecem o curso de ciências sociais: a Universidade do Contestado (UnC), a Universidade Regional de Blumenau (Furb), a Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Com exceção da Univali – que forma o acadêmico apenas como bacharel em ciências sociais ou de ciência política –, nas demais universidades acima citadas o acadêmico se forma como licenciado e como bacharel, a menos que opte por graduar-se apenas em uma das categorias.

Cabe ressaltar que a maior parte das informações descritas neste capítulo foi obtida em endereços eletrônicos nas páginas do curso de ciências sociais das universidades pesquisadas e alguns dos dados coletados foram obtidos junto aos coordenadores dos cursos, apesar de o contato com professores e/ou coordenadores dos cursos não ter sido bem-sucedido.

O curso de ciências sociais em Santa Catarina não vem de longa data. Primeiramente, surgiu na UFSC. Foi reconhecido em 1978. Nove anos após, a Furb criou o curso de ciências sociais. Em 1998, a Univali, e em 2003, a UnC. Os quatro cursos de ciências sociais em Santa Catarina tiveram longo intervalo de criação entre um e outro. Observa-se, com isso, que tiveram dificuldades para serem implantados nas universidades.

Nesses poucos anos de existência em Santa Catarina, com exceção do da Furb, os demais já sofreram alterações na matriz curricular. A UFSC, atualmente, está também adaptando a grade curricular.

Apesar de o curso de ciências sociais na Univali voltar-se somente à formação do bacharel, percebe-se uma aproximação com o curso da UnC. Ambos dão ênfase à formação profissional voltada para assuntos da região onde a universidade está inserida.

Este artigo integra o livro “Possibilidades e Limites das Ciências Sociais em Santa Catarina”. Caso tenha interesse em adquiri-lo, entre em contato pelo cienciassociais@cni.unc.br

Características e campos de atuação

Ao olhar para os cursos de ciências sociais existentes em Santa Catarina, percebe-se semelhança nos objetivos e nas características deles. Os cursos de ciências sociais estão apresentados em três eixos fundamentais: sociologia, antropologia e ciência política. O formado em ciências sociais terá domínio nessas três áreas visando a um profissional que se destaque pela sua capacidade analítica e interpretativa, voltada para a avaliação e a intervenção na realidade social e nos aspectos culturais, políticos, econômicos, ambientais e organizacionais.

Com exceção da Univali de Itajaí, que optou por formar apenas o bacharel, nas demais, o acadêmico se habilita em licenciatura e bacharelado. Nestas, o profissional está capacitado para adequar estes saberes às competências fundamentais requeridas para o exercício profissional no âmbito do magistério para os três níveis de ensino, com destaque atualmente para o ensino médio, diante da obrigatoriedade da oferta de sociologia como componente curricular. Em sala de aula, os profissionais da educação desempenharão a importante tarefa de iniciar a formação de cidadãos críticos e conscientes acerca das relações sociais, da organização da sociedade e dos aspectos que promovem o desenvolvimento.

Outro campo de atuação para o cientista social está nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, bem como em institutos de pesquisa, em organizações não-governamentais, em sindicatos, consultorias e assessorias em gestão pública, em ações ligadas à responsabilidade social, a projetos sociais, em questões de extensão universitária e também em planejamento social, entre outras. Nessas áreas, este profissional poderá assumir o compromisso permanente na edificação de uma sociedade que se desenvolva ao longo do estabelecimento de relações de confiança, cooperação e participação.

Outro ponto comum entre três dos quatro cursos, tendo em vista a formação em licenciatura, é que o acadêmico cursa disciplinas de caráter didático-pedagógico, além de realizar um estágio em uma instituição de ensino sob a supervisão de um docente. Para a formação de bacharel, no último ano de estudos, o acadêmico deverá desenvolver um trabalho de conclusão de curso (TCC) e apresentá-lo em banca.

* Leandro Schiessl é sociólogo pela Universidade do Contestado Canoinhas e graduado em teologia no Itesc

Fonte: http://www.clicrbs.com.br

 

Nas complexas teias das relações sociais

Ciências Sociais – Universidade Federal de Sergipe

NAS COMPLEXAS TEIAS DAS RELAÇÕES SOCIAIS

O curso visa formar profissionais, bacharéis e licenciados, consciente de suas responsabilidades sociais, políticas e culturais enquanto técnicos, intelectuais e cidadãos.

Se você é interessado em compreender as relações sociais e suas implicações, deve ficar tento à carreira de cientista social oferecida pela UFS. O professor Josadac Santos explica que o objetivo do curso é formar profissionais, bacharéis e licenciados, conscientes de suas responsabilidades sociais, políticas e culturais enquanto técnicos, intelectuais e cidadãos. “Devemos assegurar ao indivíduo que vai agir e interagir numa complexa teia de relações sociais, consciência crítica do mundo social onde vive, dos papéis que vai desempenhar e das opções político, ideológicas que fará como profissional e cidadão”, reforça Josadac.

O estudante Rafael Aragão orienta aqueles que estão interessados na graduação. “Nosso curso exige muita leitura e, logicamente, escrevemos muito. A leitura é essencial. Isso contribui para sermos um bom cientista social, com domínio das mais variadas teorias e conceitos, e não ficarmos presos há uma única linha de pensamento. Quem tentar ficar na ‘decoreba’, pode até chegar ao fim do curso, mas dificilmente irá mais longe”, diz Rafael, que é bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na pesquisa “Os movimentos sociais em Sergipe de 1980 a 2000 e seu papel educativo”, sob a orientação da professora Sonia Meire, do Departamento de Educação.

Quando se trata de pesquisa, a professora Verônica Teixeira Marques, egressa do curso de Ciências Sociais, reforça a importância no aprofundamento dos estudos. Segundo ela, durante a vivência na UFS, sua atividade como bolsista foi responsável por um melhor encaminhamento profissional. Graduada desde 1997, Verônica se ocupa hoje de atividades na docência, pesquisa e consultoria. “O mercado de trabalho para o bacharel em Ciências Sociais é razoavelmente amplo, mas não é simples ou fácil: o egresso pode ser professor de instituições de ensino superior, que não exigem licenciatura, pode assessorar políticos e instituições públicas ou organizações”, orienta Verônica.

Já para o licenciado em Ciências Sociais, o mercado é mais amplo devido à recente lei que obriga o estudo da Sociologia no ensino médio. Entretanto, essa situação é confusa, pois, juridicamente, apenas a profissão de sociólogo é regulamentada. O cientista social acaba precisando fazer uma opção entre as três áreas de atuação das Ciências Sociais: Antropologia, Sociologia ou Ciência Política.

Verônica Marques conta que a obrigatoriedade da Sociologia no ensino médio, apesar de legal, não vem sendo adequadamente tratada pelas autoridades competentes, como a Secretaria de Estado da Educação e universidades. A lei permite que outros profissionais, desde que tenham cursado 120 horas de Sociologia na graduação, dêem aulas, a exemplo dos licenciados em Filosofia, História e Letras. Na UFS, ao concluir o bacharelado ou a licenciatura, o profissional pode seguir na pós-graduação em Sociologia (mestrado e doutorado) ou em Antropologia (mestrado).

As Ciências Sociais no Brasil Contemporâneo

As Ciências Sociais no Brasil Contemporâneo

 

Comentário de Simon Schwartzman à tese de doutoramento de Manuel Palácios da Cunha Melo, IUPERJ, outubro de 1997.

Manuel Palácios, para esta tese, fez o levantamento mais completo e sistemático até agora da literatura de ciências sociais no Brasil, pelo uso inteligente e competente das técnicas de análise de citações. Este trabalho deve ficar como fonte de referência indispensável sobre o tema daqui para a frente. O único que sinto falta, neste particular, teria sido uma análise dos veículos das publicações utilizadas pelos diversos autores – revistas nacionais e estrangeiras, papers e artigos manuscritos, livros nacionais e estrangeiros, fontes eletrônicas, Internet. Isto nos permitiria conhecer mais a respeito dos hábitos, formas de trabalho e tipos de informação que nossos pesquisadores e alunos utilizam, um conhecimento mais direto da prática dos sociólogos, além do conteúdo de seus trabalhos. Fica a sugestão.

A função de quem está na banca de tese, no entanto, é levantar questões para debate e discussão, e neste sentido eu gostaria de começar dizendo que, de duas estratégias possíveis para a análise dos dados que levanta, Manuel Palácios escolhe a que me parece menos apropriada. O que eu esperaria seria que ele aprofundasse na análise dos dados que mapeia de forma tão competente, nos ajudando a entender o que as ciências sociais brasileiras têm de específico, e as principais características e diferenças das diversas linhagens de trabalho que ele identifica. Ele prefere, no entanto, passar rapidamente por isto, e fazer uma discussão mais ampla das ciências sociais sem referência específica aos próprios dados, partindo, depois, para uma discussão ainda mais ampla sobre a questão da universidade como um todo. O resultado é que o trabalho se debilita dos dois lados; a análise dos dados levantados não se aprofunda, e o exame das questões mais amplas tampouco atinge a profundidade que poderia ser esperada.

Creio que a melhor maneira de começar a mostrar o que penso é pela análise das citações e referências utilizadas na tese, já que este é o seu tema principal. Manuel Palácios discute, no início de seu texto, a razão pela qual os autores utilizam citações nos trabalhos acadêmicos, e diz, à página 49, que “as pesquisas sobre a prática da citação demonstram que a motivação do cientista (. . .) reside em buscar convencer o leitor, o público ao qual se destina o trabalho”. É uma idéia bem elaborada por Bruno Latour: se eu coloco um monte de autores de meu lado, eu digo que não estou sozinho no eventual qüestionamento de meu trabalho, e aumento, desta maneira, o custo que meus adversários teriam em contra-argumentar. Mais adiante, Manuel Palácios nota que “as escolhas bibliográficas exprimem os compromissos do autor, os quais, no ambiente institucionalizado da produção científica, dizem respeito à organização do trabalho intelectual na sua área específica de estudos”. Esta frase me parece perfeita, mas ela pode ser interpretada de duas maneiras. Em um primeiro sentido, ela significa que, se eu cito Marcel Mauss, isto me coloca no campo científico dos antropólogos; mas, em um segundo sentido, se eu cito Gramci, por exemplo, isto me identifica como um sociólogo na tradição marxista, enquanto que, se eu cito Edward Shils, isto me identificaria como pertencendo à corrente de pensamento liberal. No primeiro caso, a citação de Mauss serviria para mostrar ao colega, ou ao professor, que eu, como antropólogo, não desconheço a importância e o lugar de um dos fundadores da antropologia contemporânea; no segundo caso, ao citar Gramci, por exemplo, minha intenção pode não ser tanto a de convencer o leitor da importância de minhas idéias (ou das de Gramci), mas uma maneira de mostrar que meu trabalho é “politicamente correto”, que eu faço parte dos cientistas sociais aceitáveis, e que por isto minhas idéias são boas; é como vestir a camisa do Flamengo ou do Fluminense. Uma outra razão pela qual eu cito um determinado autor, e não outro, pode ser mais prosáica: ela pode depender da disponibilidade dos autores, em função da língua, do tipo de publicação, da existência ou não de bibliotecas e obras de referência a serem consultadas. Esta razão hoje em dia, com o fax, a xerox e a Internet, é menos justificável do que antes, mas ainda existe, e continuará a existir, dado o custo crescente que tem o exame de uma literatura cada vez maior e mais complexa.

Todas estas razões podem explicar, em maior ou menor grau, a seleção peculiar de fontes e referências utilizadas por Manuel Palácios em seu trabalho. É natural e esperado que ele citasse os trabalhos de seu orientador. Como convidado para fazer parte da banca, eu esperaria que alguns de meus trabalhos fossem não apenas citados, mas considerados e discutidos, o que, para surpresa minha, não ocorre. Como os temas da ciência, das universidades e das ciências sociais têm sido objeto de meu trabalho por muitos anos, eu tenho tratado de tomar conhecimento com pelo menos parte da literatura nacional e internacional a este respeito, que normalmente cito em meus textos, creio que não só para convencer meus leitores, ou para dizer qual é o meu “time”, mas sobretudo para dar aos interessados pistas e caminhos para os que queiram seguir se aprofundando nestas questões – uma outra função, desta vez didática e pedagógica, das citações. Em parte por este trabalho de divulgação, e em parte por que muitas outras pessoas fazem o mesmo, estas pistas estão disponíveis e, se seguidas, poderiam talvez aprofundar as análises e discussões constantes desta tese.

Na página 238 há dois pequenos erro de citação em uma só referência, um texto de Sheldon Rothblatt (que aparece como Sheldon Dothblat) e Björn Wittrock (que aparece como Wittrock Bjorn). São erros sem maior importância, mas sugerem que a referência não é de primeira mão, e assinala a ausência de maiores referências a estes autores. Rothblatt é um historiador das universidades européias, autor de um livro clássico sobre a modernização da universidade de Cambridge, The Revolution of the Dons; e Wittrock, cientista político sueco, é editor, entre outras tantas coisas, do livro Social Sciences and Modern States – National Experiences and Theoretical Crossroads (Cambridge, 1991), um conjunto de ensaios sobre o desenvolvimento das ciências sociais em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil, a partir de um trabalho meu denominado “Changing Roles of New Knowledge: research institutions and societal transformations in Brazil”, publicado em português como “A Força do Novo: Por uma sociologia dos conhecimentos modernos no Brasil” (Revista Brasileira de Ciências Sociais, 1987.) Se Manuel Palácios tivesse seguido esta pista, ou tantas outras espalhadas, por exemplo, pelas inúmeras publicações do Núcleo de Pesquisas sobre Educação Superior da Universidade de São Paulo, do qual fui diretor científico até 1994, ele não teria deixado de tomar em consideração pelo menos dois importantes conjuntos de trabalhos sobre os temas de sua tese, e que não obstante não são mencionados: os trabalhos de inúmeros autores latinoamericanos, incluindo a José Joaquin Brunner, no Chile, Orlando Albornoz e Hebe Vessuri, na Venezuela, Jorge Balán, na Argentina, Manuel Gil, Rollin Kent e vários outros no México sobre a questão universitária na América Latina; e os de todo o grupo de sociólogos e historiadores das universidades que se desenvolveu em associação com Burton C. Clark, incluindo, além do próprio, Daniel Levy, especialista em América Latina, Roger Geiger, com livros fundamentais sobre a ciência universitária norte-americana, sem mencionar autores como Martin Trow e o próprio Clark Kerr, famoso ex-reitor da Universidade da California.

Além destas notórias ausências internacionais, existem algumas lacunas nacionais também significativas, sobretudo pela proximidade com o tema da tese. Em 1986, a propósito de uma conferência de Jeffrey Alexander realizada em reunião da ANPOCS, fiz uma pequena revisão da discussão brasileira a respeito da natureza das ciências sociais em nosso meio, tomando como referências outros trabalhos no mesmo sentido de Wanderley Guilherme dos Santos, Bolivar Lamounier, Marisa Peirano, Eunice Durham e Valéria Pena. Mais recentemente, para o estudo sobre política de ciência e tecnologia que coordenei junto à Fundação Getúlio Vargas, Fábio Wanderley Reis preparou um texto altamente polêmico denominado “Avaliação das Ciências Sociais”, publicado no volume 3 de Ciência e Tecnologia no Brasil, Fundação Getúlio Vargas, 1996. Entre outras ausências que me chamam a atenção se incluem o volume Ciências Sociais: Ensino e Pesquisa na Graduação, editado por Elina Pessanha e Glaucia Villas Boas, que inclui trabalhos do próprio Manuel Palácios, Werneck Viana, e um texto meu, e o volume editado por Helena Bomeny e Patrícia Birman denominado As Assim Chamadas Ciências Sociais (UERJ / Relume Dumará, 1991), com contribuições, entre outros, de Mariza Peirano, Roque Laraia, Lúcia Lippi de Oliveira, Elisa Reis e tantos outros.

O problema com todas estas ausências é que as idéias e os debates constantes em toda esta literatura ficam também perdidos. Em relação às ciências sociais, por exemplo, existe uma forte discussão a respeito de quanto as ciências sociais brasileiras se aproximam, ou deveriam se aproximar, dos cânones mais estritos de qualidade de produção intelectual típicos dos países mais desenvolvidos (questão levantada por Fábio Wanderley Reis), ou quanto que esta questão deveria ser substituída por uma discussão a respeito do papel da ciência social como “discurso” ideológico, ou interpretativo da sociedade; existe uma outra dimensão de análise, que é quanto que as ciências sociais se aproximam ou não de sistemas de conhecimento voltados para a solução de problemas concretos, ou seja, em que medida que eles são ou não “policy oriented”; ou em que medida os temas das pesquisas, e o destaque que alguns autores adquirem em determinados momentos e períodos, deriva de uma lógica interna dos campos de conhecimento próprios das disciplinas, ou de um contexto político e societal mais amplo. Uma discussão a respeito dos autores que polarizam as citações em determinados sub-conjuntos de trabalhos poderia ajudar a entender um pouco mais estas questões – como entender, e que sentido tem, o fato de Pierre Bourdieu ser o autor estrangeiro mais citado, ao lado de Marx e Geertz, comparado com a ausência, por exemplo, de um Antony Giddens?

Se as ciências sociais brasileiras são o que são, por que elas são assim? Como se dá a institucionalização destas disciplinas? Qual o relacionamento entre este processo específico e a questão mais geral da ciência e da universidade brasileira, no contexto mais geral das transformações das universidades contemporâneas? Manuel Palácios discute estas questões em sua tese, muitas vezes com observações argutas e inteligentes, mas não consigo deixar de sentir que seu trabalho acaba prejudicado por uma visão fortemente normativa e retórica que acaba excluindo outros pontos de vista, e não abre espaço para uma literatura mais empírica e comparativa a respeito dos temas que aborda. Esta visão aparece sobretudo quando ele se afasta de seus dados, e trata do contexto mais amplo da história das ciências sociais brasileiras e das universidades de uma forma geral. Para mostrar isto, selecionei alguns trechos tomados mais ou menos ao acaso.

Na página 12, diz Palácios que “o homem comum é, de fato, para além do controle exercido pela comunidade sobre o pesquisador individual, o único avalista legítimo do conhecimento produzido pelos especialistas.”. Esta é claramente uma postura normativa, uma crença sem dúvida generosa no primado do homem comum, mas ela não encontra nenhum apoio na realidade dos fatos, e nem o autor se preocupa em dar alguma evidência a respeito. Na página 16 há uma outra afirmação de mesmo tipo: “a onda de economicismo vulgar que assola o planeta, condenando os homens a expectadores impotentes da história” De novo, uma frase de efeito, mas vazia de conteúdo empírico. Será que “antes” do “economicismo vulgar” os “homens” eram menos “impotentes”? Nenhuma destas expressões entre aspas tem conteúdos específicos, que possam transformar este tipo de frase em algo mais do que retórica.

Se o “homem”, que deveria fundamentar e legitimar o conhecimento científico no mundo, se tornou impotente pelo economicismo, no Brasil a coisa seria ainda pior: “o país conheceu duas décadas de uma ditadura que implementou políticas de modernização econômica desorganizadoras de formas pretéritas de sociabilidade, levando massas de milhões a uma situação de marginalização inédita” (P. 236). Talvez seja necessário ter alguma idade para não acreditar tanto assim nestas “formas pretéritas de sociabilidade”, e conhecer um pouco mais da história brasileira para se dar conta que a marginalidade nos acompanha deste os tempos de Pedro Álvares Cabral.

A conclusão que o autor tira deste quadro de impotência e marginalidade é que centros de pesquisa de qualidade, que desenvolvam conhecimentos especializados e de alto nível, são coisas autoritárias, “de cima para baixo”, e por isto sem futuro. A solução para os problemas brasileiros, nas ciências sociais como em outras esferas, deveria vir “por baixo”. Segundo ele, às páginas 236/7, “a idéia de que a ‘crise de relevância’ da ciência social pode se resolver pela criação de alguns centros de excelência isolados, desprovidos de comunicação com os seres subalternos da sociedade, contém um inegável viés autoritário. E, provavelmente, significaria uma efetiva condenação à irrelevância”. A alternativa seria fazer com que a ciência se encontrasse com o homem comum, pela “criação de formas capilares de comunicação com a sociedade, a ser promovida por uma série de múltiplas agências. Desta perspectiva, a Universidade surge como uma instituição de importância estratégica”.

O fato de que todos os países, e sobretudo os mais democráticos, tenham centros de excelência, e de que as universidades nunca tiveram este papel utópico de juntar a ciência com o homem comum, não parecem fazer Manuel Palácios desistir. Ele apresenta uma breve história do desenvolvimento das universidades modernas, e termina com uma visão curiosa a respeito da expansão do ensino superior nos Estados Unidos, que ele diz ser o “resultado de uma política para a juventude, baseada na crítica das muitas desigualdades e discriminações que dividem a América, impulsionada pelos movimentos de defesa dos direitos civis das minorias raciais, de mulheres e de gays e lésbicas” (p. 233). Esta “universidade de massas” estaria produzindo um “novo tipo de intelectual, que combina a vocação pública com a pesquisa científica”, e que quem sabe poderia servir de inspiração para nós.

Feliz ou infelizmente, este quadro da “universidade” americana não tem nada a ver com a realidade. A expansão da educação superior americana nada tem a ver com os movimentos sociais de negros, gays ou mulheres. Destes distintos movimentos, só o movimento negro tratou diretamente da questão do acesso às universidades, através dos programas de affirmative action, que, se abriram mais lugares a estudantes negros, não chegaram a alterar o tamanho do sistema como um todo. O sistema educacional norte-americano é um dos mais amplos, mas também dos mais estratificados e diferenciados do mundo, com a grande massa de estudantes vinculados aos “community colleges” onde a pesquisa científica não existe, e um número restrito de “research universities”, onde se concentra a atividade de pesquisa. Este intelectual que “combina a vocação pública com a pesquisa científica” é, ou foi, um fenômeno tipicamente francês, que nunca encontrou maior repercussão nos Estados Unidos, em que pese a politização e o afrancesamento recentes de alguns departamentos universitários, sobretudo na área da crítica literária.

A leitura equivocada da realidade norte-americana serve de base para uma proposta que é, em última análise, totalitária, a respeito das ciências sociais e das universidades brasileiras. Na p. 246 está dito que os sociólogos “não têm, hoje, livre acesso ao debate político, se estão por fora da representação partidária, dos movimentos sociais ou da assunção de funções na administração pública”, e a conclusão pareceria ser que este acesso deveria se dar a partir da criação de um novo ator coletivo, em competição ou quem sabe atuando hegemonicamente sobre os demais. Na página 247 há uma referência ao “sindicalismo de intelectuais” como “um fato relevante da vida brasileira,” e o parágrafo termina dizendo ser “indispensável para isto (ou seja, para o ingresso na vida pública) um projeto coletivo”.

Nem a experiência européia, e muito menos a norte-americana, justificam ou dão qualquer vislumbre de possibilidade a este tipo de projeto, que nega valor ao trabalho intelectual individual, elimina a diferenciação clássica e tão essencial entre a ciência e a política como vocação, nivela as universidades por baixo e busca colocá-las sob a tutela das corporações sindicais universitárias, que assumem o papel de novos partidos, demiurgos de uma nova ordem política, institucional e intelectual que se assemelha demais, me parece, à velha “ordem” buscada pelo socialismo real. Talvez seja pela insistência nesta visão totalitária do papel do conhecimento nas sociedades modernas, feito a partir das melhores intenções, que se explique parte da indigência intelectual de nossas ciências sociais, que transparece nas entrelinhas das análises bibliométricas de Manuel Palácios.

Frases para depois do artigo

“O Governo do Estado moderno é apenas um comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia” – Karl Marx

Qual o significado das Ciências Sociais no Mundo Moderno ?

Qual o significado das Ciências Sociais no Mundo Moderno ?

Ao longo da História, os homens se defrontaram com diversos problemas, esses de ordens pessoal e social. Ocorreram, no entanto, diversas tentativas de resolução, mas infelizmente pouco foi resolvido e ainda mais nesse sentido, muito se agravou.É nesse dilema que o Mundo Moderno se instaura, e, as Ciências Sociais possibilitam a compreensão desse, em todos os seus movimentos, principalmente no que se diz respeito a composição social .

O principal objetivo dessa Ciência, é permitir a compreensão, de que tudo o que acontece no mundo interfere na vida particular dos seres. Nem todos os Homens reconhecem isso e ainda muitos confundem seus dilemas pessoais com os sociais .Para explicar os de ordem pessoal, existem a Psicologia, a Psiquiatria, etc; Já os sociais são estudados pela: Sociologia, Ciência Política, Economia, Antropologia, História, etc.

Os diversos ramos, citados no parágrafo anterior, são estruturados por uma variedade imensa de pensamentos e tendências que se originam de vários autores clássicos. Portanto todo trabalho cientifico, nessa área, tem e deve sempre ter como base, a produção dos Homens nos seus diversos aspectos de vida.

Talvez a grande proporção dos problemas existentes no Mundo Moderno, tenha relação com a não conscientização,de que todos os seres humanos, entendam que suas vidas estão diretamente ligadas aos acontecimentos cotidianos da sociedade . Mas existem aqueles que possuem tal consciência, e esses são dominantes do verdadeiro significado das Ciências Sociais .

Frases para depois do artigo

“A sociologia é um esporte de combate” – Pierre Bourdieu

As ciências sociais francesas e as injecções de dinheiro da CIA

As ciências sociais francesas e as injecções de dinheiro da CIA
por Bertrand Chavaux

Desde os começos da Guerra Fria, a CIA tem tido a preocupação de assumir o controle do ensino das ciências sociais em França para subtraí-lo à influência dos comunistas. Apoiando-se no físico Pierre Auger, então director do ensino superior, a Agência promoveu a criação de uma nova secção na Escola Prática de Altos Estudos, à margem do CNRS. Depois, financiou novas instalações, a Casa das Ciências do Homem, e conseguiu, em 1975, transformá-la na École des hautes études en sciences sociales (EHESS), presidida pelo historiador anticomunista François Furet.

A história oficial da Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais (EHESS), escrita por François Furet e seus fiéis, insiste no percurso que teria permitido à instituição emancipar-se da influência dos seus mecenas estado-unidenses.

A escola, resultado de meio século de ingerência cultural estado-unidense, foi criada graças a créditos distribuídos, durante a Guerra Fria, pelas fundações Ford e Rockefeller. Apesar das suas origens diplomáticas, a instituição teria sabido “ultrapassar a ideia que a criou”, renovando “uma disciplina (a História) nas antigas tradições europeias” [1] e, tornando-se assim, segundo esta versão oficial, um pólo intelectual independente, liberto dos constrangimentos impostos pelos mecenas.

Tal tese, destinada a fazer face a possíveis acusações [2] , encobre os objectivos políticos e culturais ligados à criação da EHESS. Este controle da escola pelos historiadores, longe de exprimir qualquer emancipação da instituição, esclarece as opções estratégicas da Fundação Rockefeller, que, a partir dos anos 50, faz da História um dos instrumentos privilegiados da diplomacia cultural estadunidense.

A INSTRUMENTALIZAÇÃO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS SEGUNDO ROCKEFELLER

A partir de 1901, John D. Rockefeller (1839-1937), seguindo os conselhos do seu amigo Frederik Gates, um pastor baptista, investiu uma parte da sua colossal fortuna no financiamento de projectos filantrópicos. Assim, cria em Nova Iorque, em 1901, o Rockefeller Institute of Medical Research (que se torna em 1965 a Rockefeller University), depois, em 1902, o General Education Board e, em 1909, a Rockefeller Sanitary Commission. Estas acções viradas para a medicina e a educação levam à criação da Fundação Rockefeller. A história oficial retém apenas a vontade de “promover o bem-estar da Humanidade”, inspirada nas ideias de Andrew Carnegie que, em 1889, publica O Evangelho da Riqueza . Na realidade, a Fundação Rockefeller foi essencialmente um meio de contornar as leis “antitrusts”. Em 1911, a Standard Oil é fragmentada em várias filiais. Supostamente, esta decisão política poria fim ao monopólio que a companhia detinha nos mercados estado-unidenses do petróleo. Desde 1910, John D. Rockefeller propõe o projecto de uma Fundação, “ sob a protecção do Congresso ”, que é criada em 1913. Tal cobertura permite à família Rockefeller controlar as diferentes filiais resultantes da fragmentação ordenada pelo Tribunal Supremo em 1911. A Fundação, por exemplo, possui sozinha três milhões de acções da Standard Oil de New Jersey, a primeira empresa petrolífera do mercado.

As actividades filantrópicas da Fundação estão frequentemente ligadas aos interesses económicos e sociais da família Rockefeller [3] . Assim sendo, as ciências sociais são consideradas como um instrumento de controle social, uma aposta cultural na luta contra o socialismo. A finais de 1913, uma greve de vários meses numa filial da Standard Oil acabou, em 20 de Abril de 1914, no massacre de Ludlow, um dos episódios mais trágicos da repressão da classe operária estado-unidense.

A Fundação havia tentado estudar o movimento no quadro de um inquérito sobre as “ relações industriais ” para melhor poder canalizá-lo. Fiel a esta concepção instrumentalista das ciências sociais, a Fundação favorece, nos Estados Unidos, o seu desenvolvimento em diferentes universidades (Yale, Harvard, Chicago, Columbia) e, na Europa, assegura uma grande parte do financiamento de organismos como a London School of Economics que acolhe economistas comprometidos com a Société du Mont-Pèlerin [4] (nomeadamente Fredrich von Hayek e o seu mestre Ludwig von Mises) e, em Berlim, a Deutsche Hochschule für Politik. Estes centros intelectuais servirão, na altura da Guerra Fria, de bases europeias aos ideólogos anticomunistas financiados pelos Estados Unidos (Congrès pour la Liberté de la Culture, Société du Mont-Pèlerin…).

A FUNDAÇÃO ROCKEFELLER EM FRANÇA

Em 1917, a Fundação Laura Spellman Rockefeller (do nome da mulher do patriarca) instala-se em Paris no quadro de um programa de luta contra a tuberculose. Nessa época, em França, o financiamento privado das ciências sociais é uma prática muito marginal. Só Ernest Lavisse, director da Escola Normal Superior (ENS) de 1906 a 1919, tenta a experiência do mecenato, criando, com a ajuda de um rico banqueiro, Albert Kahn, na rua Ulm, o Comité Nacional de Estudos Sociais e Políticos (CNESP). O CNESP, oficializado pelo sucessor de Ernest Lavisse na ENS, Gustave Lanson, torna-se o “Centro de Documentação Social”, organismo dirigido por Célestin Bouglé, onde jovens investigadores iniciam a sua carreira.

Em 1931, a Fundação Rockefeller responde favoravelmente aos pedidos de financiamento de Charles Rist, professor de economia, vice-governador do Banco de França, que pretende criar um Instituto Científico de Investigações Económicas e Sociais. Ao mesmo tempo, a organização filantrópica recusa-se a apoiar um projecto mais ambicioso de Marcel Mauss. Preocupada já com a situação política francesa, a Fundação Rockefeller considera Mauss, sobrinho do sociólogo Emile Durkheim, “ muito à esquerda ”. Em 1932, o Centro de Documentação Social consegue créditos para financiar dois postos de investigador a tempo inteiro. Raymond Aron e Georges Friedman [5] serão, durante certo tempo, titulares desses postos.

De 1933 a 1940, o Instituto Científico de Investigações Económicas e Sociais, dirigido por Charles Rist, recebe 350 000 dólares; o Conselho Universitário da Investigação Social, presidido pelo reitor Charléty, 166 000 dólares; o Centro de Estudos de Política Externa, um outro organismo dirigido pelo reitor Charléty, 172 000 dólares.

Durante a Segunda Guerra Mundial, membros das fundações Ford e Rockefeller organizam o exílio do sociólogo Gurvitch, do antropólogo Lévi-Strauss e do físico Auger. Georges Gurvitch cria em Nova Iorque um instituto de sociologia. Em França, nas instalações da Fundação Rockefeller, alguns investigadores, entre os quais Jean Stoetzel [6] , continuam os seus trabalhos no seio de um organismo criado pelo regime de Vichy, a Fundação Alexis Carrel (do nome de um biólogo, Pémio Nobel em 1912, reputado pelas suas teses eugenistas)[7] .

DA 6ª SECÇÃO À CASA DAS CIÊNCIAS DO HOMEM

Em Junho de 1948, o Conselho Nacional de Segurança formaliza a criação da rede de ingerência anticomunista dos Estados Unidos nos estados aliados, o staybehind [8] . Aquando das reuniões preparatórias, John D. Rockefeller III apresenta a sua Fundação como mais apta que a organização do Plano Marshall para intervir em certos meios universitários onde dispõe de antigos contactos e onde age de novo, não obtendo luz verde senão para determinados alvos.

Ele já havia lançado na Áustria um “ Plano Marshall do Espírito ”, particularmente com o seminário de estudos americanos de Salzbourg, dirigido por Clemens Heller. A Fundação volta-se naturalmente para os intelectuais franceses, que há muito patrocina. Pierre Auger foi nomeado Director do Ensino Superior logo no seu regresso a França em 1945.

Durante a guerra, ele tinha ensinado, primeiro, na Universidade de Chicago, onde descobrira um departamento de Ciências Sociais dinâmico que servia de base aos neoconservadores [9] .

Depois, participara nos trabalhos da bomba atómica com britânicos e canadianos. Nas suas novas funções, ele enfrentou-se, no controle do Centro Nacional de Investigação Científica (CNRS) com a obstrução do Prémio Nobel Frédéric Joliot, comunista e pacifista, que se opunha à bomba. Elaborou, então, o projecto de tirar ao CNRS, por um lado, o Centro de Energia Atómica (CEA) e, por outro lado, um pólo de Ciências Sociais, que devia ficar ligado à Escola Prática de Altos Estudos (EPHE) [10] , com o qual teria constituído a 6ª Secção. Para animar esse pólo, escolheu intelectuais do grupo dos Annales [11] (Morazé, Friedmann, Braudel, Labrousse, Le Bras…).

E lá está a Fundação Rockefeller, evidentemente, para financiar esta experiência, quando em França apenas os institutos privados recorriam habitualmente ao mecenato privado.

Foram estabelecidos contactos prévios por intermédio de Claude Lévi-Strauss, na altura adido cultural da embaixada de França em Washington, depois por Charles Morazé, que se encontra com John Marshall [12] na primeira conferência da UNESCO, verdadeiro espaço de recrutamento para a constituição de redes pro-Estados Unidos na Europa. Charles Morazé, professor de História, colaborador dos Annales , membro da Fundação Nacional das Ciências Políticas, dispõe de todas as características políticas e intelectuais requeridas pela Fundação Rockefeller. Ele torna-se um dos actores-chave da criação da 6ª Secção, cujo primeiro conselho teve lugar em 1948. Um quarto dos fundos provém da Fundação Rockefeller [13] . No contexto ideológico da Guerra Fria, as organizações filantrópicas servem de biombo a operações de intervenção cultural, por vezes directamente conduzidas pelos serviços secretos dos Estados Unidos. Assim, em 1950, membros da CIA permitem a criação, em Berlim, do Congresso para a Liberdade da Cultura, organização que agrupa intelectuais hostis ao comunismo [14] . Durante 17 anos, a CIA mascara as origens do seu financiamento, utilizando a Fundação Ford. Em 1952, a Fundação Rockefeller entra com 4 500 000 francos para que Febvre e Morazé prossigam na organização da 6ª Secção.

Em 1945, graças a Clemens Heller [15] , agora instalado em Paris, a 6ª Secção obtém novos créditos a fim de organizar um programa de estudos por “ áreas culturais ” [16] .

Em 1959, é a Fundação Ford [17] que intervém por sua vez: financia maciçamente os trabalhos de Pierre Auger, a começar pelo Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN), depois entregando um milhão de dólares para a construção de uma Casa das Ciências do Homem, que possa albergar a 6ª Secção da Escola Prática de Altos Estudos e facilitar o seu desenvolvimento [18] .

Acabada a construção definitiva dessa Casa, a 6ª Secção aspira a autonomizar-se definitivamente. O decreto de 23 de Janeiro de 1975 cria oficialmente a Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais (EHESS), instituição à margem da universidade francesa, que vai acolher inúmeros ideólogos pró-estado-unidenses. Desde 1977, François Furet, historiador anticomunista, torna-se o seu presidente. Recruta, assim, o seu amigo Pierre Rosanvallon, com quem, anos mais tarde, lançará a Fundação Saint-Simon [19] . Em 1980, Furet cria um Centro de Estudos Norte-Americanos no seio da Escola. Resultado de um longo processo de ingerência cultural estado-unidense, a EHESS é uma instituição híbrida, financiada simultaneamente pelo Estado dos Estados Unidos (bolsas Fulbright) e pela Fundação Franco-Americana de Nova Iorque [20] , uma nova cobertura da CIA criada expressamente em 1976.

NOTAS

[1] Brigitte Mazon, Histoire de l’École des hautes études en sciences sociales, Le rôle du mécénat américain (1920 – 1960) , Cerf. Tese de Brigitte Mazon sob a direcção de François Furet, presidente da EHESS de 1977 a 1985.

[2] « La richesse est suspecte. Et l’argent américain suscite des amalgames : on y voit la « main de l’étranger », on soupçonne l’impérialisme, on accuse la CIA ». Ibid, p. 13.

[3] A Fundação Rockefeller também financia organizações, como a Population Council, encarregadas de pôr em prática políticas de limitação dos nascimentos.

[4] Hayek é nomeado professor na London School of Economics em 1931. «Friedrich von Hayek, pape de l’ultra-libérisme», Voltaire , 4 de Março de 2004.

[5] Georges Friedmann (1902 – 1977), professor de filosofia de origem burguesa, torna-se, a partir dos anos 20, especialista pseudo-marxista da condição operária e dos problemas ligados ao progresso técnico («a mecanização»). Contrariamente aos filósofos de entre as duas guerras (Politzer, Nizan, Aron, Lefebvre), a especulação filosófica parece-lhe insuficiente. Segundo ele, o estudo da classe operária requer um trabalho empírico (mais próximo do jornalismo do que da investigação sociológica no terreno). Em 1925, visita as fábricas da Toscânia, reunindo testemunhos de operários. A recolha de dados, em França, nos Estados Unidos e União Soviética, alimenta o seu inquérito acerca da organização do trabalho industrial, realizado no quadro do Centro de Documentação Social da Escola Normal Superior, dirigido por Célestin Bouglé.

[6] Jean Stoetzel, discípulo de Lazarsfeld, é o fundador do IFOP, o primeiro instituto francês de sondagens. Ele contribuiu, ao arrepio da tradição francesa representada por Emile Durkheim, para a importação dos métodos da sociologia empírica estado-unidense.

[7] Alexis Carrel foi membro da conspiração de “La Cagoule”. Faz parte do comité executivo animado por Coutrot do Centro de Estudos dos Problemas Humanos, de que Georges Friedmann é um dos conselheiros. Também é membro do Conselho Geral do Centro Francês de Síntese, grupo sediado em Vichy, sob a protecção de Philippe Pétain.

[8] « Stay-behind: les réseaux d’ingérence américains » por Thierry Meyssan, Voltaire , 20 de Agosto de 2001.

[9] Este departamento será financiado em breve pela Fundação Olin e acolherá François Furet nos anos 80.

[10] A EPHE é fundada em 1868 por Victor Duruy, então ministro da Instrução Pública. Vários projectos que visavam criar uma 6ª Secção (projecto Mauss, projecto Tabouriech) fracassam por falta de créditos suficientes.

[11] A escola dos Annales designa um grupo de historiadores cujas personalidades mais célebres são Fernand Braudel, Marc Bloch, Lucien Febvre e, em menos medida, Charles Morazé.

[12] John Marshall faz parte da divisão das Ciências Humanas da Fundação Rockefeller e é encarregado, com John Willits e Robert T. Crane, de encontrar em França os futuros beneficiários das subvenções. John Willits, director do departamento das Ciências Sociais da Fundação, contacta nomeadamente, por seu lado, Jacques Rueff, membro da Sociedade de Mont-Pèlerin.

[13] Estes fundos permitem subvencionar o Centro de Investigação Histórica, dirigido por Braudel, e o Centro de Estudos Económicos, dirigido por Morazé.

[14] « Quand la CIA finançait les intellectuels européens » por David Boneau, Voltaire , 27 de Novembro de 2003.

[15] Clemens Heller (1917 – 2002), diplomado por Harvard, de origem austríaca, filho do editor de Freud em Viena, organiza o seminário de Salzbourg, depois chega a França em 1949. A sua casa, na rua Vaneau, foi lugar de encontros de intelectuais. Este salão parisiense acolheu Claude Lévi-Strauss e Margaret Mead, nomeadamente.

[16] Em Outubro de 1955, Kenneth W. Thompson pede que o projecto de Angelo Tasca (conhecido por Angelo Rossi) de uma História da Internacional Comunista seja integrado no programa das «áreas culturais» da 6ª Secção. Rossi, fundador do Partido Comunista Italiano, funcionário do regime de Vichy, é o candidato apoiado por Raymond Aron para contrabalançar as teses políticas de Jean Chesneaux. É pai de Catherine Tasca, ministra da Cultura e da Comunicação do governo Jospin (2000 – 2002). Kenneth Tompson foi membro dos serviços de contra-espionagem estado-unidenses de 1944 a 1946 e participou na fuga de responsáveis nazis, depois foi professor na Universidade de Chicago em 1948, antes de fazer parte da Fundação Rockefeller em 1953.

[17] «La Fondation Ford, paravent philanthropique de la CIA» e «Pourquoi la Fondation Ford subventionne la contestation», Voltaire , 5 e 19 de Abril de 2004.

[18] Este projecto é apoiado por Febvre, Braudel e Gaston Berger, Director Geral do Ensino Superior.

[19] « La face cachée de la Fondation Saint-Simon», Voltaire, 10 de Fevereiro de 2004.

[20] De 1997 a 2001, a Fundação Franco-Americana é presidida por John Negroponte, que passa a dispor de um gabinete nas instalações da EHESS.

O original encontra-se em http://www.reseauvoltaire.net/article14465.html.
Tradução de MJS.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

Guia do G1 mostra como fiscalizar os parlamentares pela internet

Guia do G1 mostra como fiscalizar os parlamentares pela internet

É possível consultar faltas, votações, processos e pedidos de reembolso. Segundo especialista, atualmente há mais ferramentas para fiscalizar.

Mariana Oliveira Do G1, em São Paulo

Congresso Nacional (Foto: Roberto Stuckert / Agência Câmara)

Após denúncias de nomeações e exonerações no Senado por meio de atos secretos, o G1 preparou um guia com os meios que o eleitor dispõe, pela internet, para fiscalizar os parlamentares.

O guia dá dicas de como pesquisar informações referentes aos senadores e aos deputados. Além disso, há dicas sobre como consultar processos contra parlamentares e ainda como entrar em contato com os gabinetes

Mais transparência

Na avaliação do professor de ciências políticas do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Sérgio Braga, atualmente existem mais ferramentas para fiscalizar os parlamentares do que há dois anos, quando ele realizou uma pesquisa sobre transparência no Legislativo brasileiro.

Naquela época, segundo o professor, o Senado ainda não dispunha de dados sobre pedidos de reembolso feitos pelos senadores, por exemplo.

“O Senado é uma espécie de museu dos dinossauros e funciona mais lentamente do que a Câmara. Melhorou bastante, é inegável, mas ainda falta muita coisa, como fornecer cópias de notas fiscais, por exemplo”, diz Sérgio Braga.

O professor destaca ainda que o site da Câmara continua melhor no que diz respeito à transparência.

“(No Senado) tem que dar muitos cliques para chegar. A informação geralmente não é fácil de ser encontrada.”

Para ele, a transparência implantada no Legislativo deveria ser aplicada também em outros órgãos do governo federal, como o Banco Central, e o Judiciário. “O antídoto contra a corrupção é a transparência”, avalia Braga.

“Mesmo que todas as informações não estejam disponíveis, é importante que a população acompanhe o que os parlamentares fazem. E a internet é uma das principais armas da sociedade”, completa o cientista político.

Participação popular

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou no último dia 25 de junho uma medida que, se aprovada nos plenários de Senado e Câmara, pode ampliar as possibilidades de participação popular.

É uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) – 01/2008 – que permite à população protocolar pedido de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre qualquer assunto.

De acordo com a proposta, o pedido deve ser direcionado à Câmara ou ao Senado e precisa ter requerimento assinado por pelo menos 1% do eleitorado nacional que tenha votado na última eleição distribuído por cinco estados.

Como altera a Constituição, a proposta tem de ser votada em dois turnos nos plenários das duas Casas.

Sociólogo – profissão

Sociólogo – profissão

LEI Nº 6.888, DE 10 DE DEZEMBRO DE 1980

Dispõe sobre o exercício da profissão de Sociólogo e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA , faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art 1º O exercício, no País, da profissão de Sociólogo, observadas as condições de habilitação e as demais exigências legais, é assegurado:

a) aos bacharéis em Sociologia, Sociologia e Política ou Ciências Sociais, diplomados por estabelecimentos de ensino superior, oficiais ou reconhecidos;

b) aos diplomados em curso similar no exterior, após a revalidação do diploma, de acordo com a legislação em vigor;

c) aos licenciados em Sociologia, Sociologia Política ou Ciências Sociais, com licenciatura plena, realizada até a data da publicação desta Lei, em estabelecimentos de ensino superior, oficiais ou reconhecidos;

d) aos mestres ou doutores em Sociologia, Sociologia Política ou Ciências Sociais, diplomados até a data da publicação desta Lei, por estabelecimentos de pós-graduação, oficiais ou reconhecidos.

e) aos que, embora não diplomados nos termos das alíneas a, b, c e d , venham exercendo efetivamente, há mais de 5 (cinco) anos, atividade de Sociólogo, até a data da publicação desta Lei.

Art 2º É da competência do Sociólogo:

I – elaborar, supervisionar, orientar, coordenar, planejar, programar, implantar, controlar, dirigir, executar, analisar ou avaliar estudos, trabalhos, pesquisas, planos, programas e projetos atinentes à realidade social;

Il – ensinar Sociologia Geral ou Especial, nos estabelecimentos de ensino, desde que cumpridas as exigências legais;

III – assessorar e prestar consultoria a empresas, órgãos da administração pública direta ou indireta, entidades e associações, relativamente à realidade social;

IV – participar da elaboração, supervisão, orientação, coordenação, planejamento, programação, implantação, direção, controle, execução, análise ou avaliação de qualquer estudo, trabalho, pesquisa, plano, programa ou projeto global, regional ou setorial, atinente à realidade social.

Art 3º Os órgãos públicos da administração direta ou indireta ou as entidades privadas, quando encarregados da elaboração e execução de planos, estudos, programas e projetos sócio-econômicos ao nível global, regional ou setorial, manterão, em caráter permanente, ou enquanto perdurar a referida atividade, Sociólogos legalmente habilitados, em seu quadro de pessoal, ou em regime de contrato para prestação de serviços.

Art 4º As atividades de Sociólogo serão exercidas na forma de contrato de trabalho, regido pela Consolidação das Leis do trabalho, em regime do Estatuto dos Funcionários Públicos, ou como atividade autônoma.

Art 5º Admitir-se-á, igualmente, a formação de empresas ou entidades de prestação de serviço previstos nesta Lei, desde que as mesmas mantenham Sociólogo como responsável técnico e não cometam atividades privativas de Sociólogo a pessoas não habilitadas.

Art 6º O exercício da profissão de Sociólogo requer prévio registro no órgão competente do Ministério do Trabalho, e se fará mediante a apresentação de:

I – documento comprobatório de conclusão dos cursos previstos nas alíneas a, b, c e d do art.1º, ou a comprovação de que vem exercendo a profissão, na forma da alínea e do art. 1º;

II – carteira profissional.

Parágrafo único. Para os casos de profissionais incluídos na alínea e do art. 1º, a regulamentação desta Lei disporá sobre os meios e modos da devida comprovação, no prazo de 180 (cento e oitenta) dias, a partir da data da respectiva publicação.

Art 7º O Poder Executivo regulamentará esta Lei no prazo de 60 (sessenta) dias.

Art 8º Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.

Art 9º Revogam-se as disposições em contrário.

Brasília, em 10 de dezembro de 1980; 159º da Independência e 92º da República.

JOÃO FIGUEIREDO
Murilo Macedo

Regulamentada pelo DEC. N° 89.531/1984

Código de ética do sociólogo

CÓDIGO DE ÉTICA DO SOCIÓLOGO

Título I

Disposições gerais

Art. 1 – O Sociólogo na sua atuação profissional está obrigado à observância do presente Código, bem como a fazê-lo cumprir.

Art. 2 – Compete aos Sociólogos, Sindicatos, Associações Profissionais e à Federação Nacional zelar pelo seu cumprimento e sua divulgação.

Título II.

Dos Princípios Éticos e Fundamentais

Art. 3 – O compromisso fundamental do Sociólogo é o de interpretar a realidade dos fatos e das relações sociais através da aplicação de métodos científicos e técnicas sociológicas, buscando contribuir, a partir desses estudos, sua aplicação e divulgação para melhorar a qualidade de vida socio-ambiental da humanidade.

Art. 4 – O compromisso com a produção de informações com base científica a respeito da realidade social e sua divulgação pública precisa e correta é um direito inerente à condição atual de vida em sociedade, é um direito do cidadão que não pode ser impedido por nenhum tipo de interesse, é uma obrigação social que o Sociólogo deve assumir e defender.

Art. 5 – O Sociólogo tem o compromisso de lutar pelo exercício da soberania popular e auto-determinação dos povos em seus aspectos políticos econômicos e sociais.

Art. 6 – O Sociólogo tem o compromisso de opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Título III

Dos Direitos e Deveres do Sociólogo

Capítulo I – Dos Direitos

Art. 7 – São direitos dos Sociólogos

a) Garantia e defesa de suas atribuições e prerrogativas estabelecidas na Lei de Reconhecimento da Profissão e neste Código;

b) Livre exercício das atividades inerentes à profissão;

c) Participar das entidades representativas e sindicais da categoria;

d) Propiciar ou realizar a investigação da realidade social a partir de critérios científicos e metodologia adequada que garantam a credibilidade e defesa pública quanto ao resultado do trabalho:

e) Propiciar a divulgação de informações resultantes de seus trabalhos e estudos que sejam de interesse público e possam contribuir para a melhoria da qualidade de vida;

f) Garantir que a divulgação pública dos resultados de pesquisas e de outros trabalhos se dê de forma precisa sem omissão ou alteração de dados que prejudiquem os resultados bem como respeitar normas de citação de fontes, autores e colaboradores:

g) Garantir a devolução das informações colhidas nos estudos e pesquisas aos sujeitos sociais envolvidos:

h) Recusar empregos, tarefas ou atribuições que comprometam a dignidade do exercício da profissão bem como recusar substituir colegas exonerados ou demitidos por defender os princípios e normas deste Código:

i) Receber remuneração por seu trabalho profissional garantindo o piso salarial da categoria, os valores delimitados nos contratos coletivos de trabalho e dissídios coletivos, a equivalência com outros profissionais de nível superior nos planos de cargos e salários dos órgãos públicos ou, no caso de atividade autônoma, os valores mínimos definidos por entidades representativas da categoria:

j) Denunciar aos órgãos competentes sempre que leigos estiverem no exercício ilegal da profissão ou lidem com resultados de pesquisa ou investigações sociológicas sem os critérios devidos:

l) Receber desagravo público por ofensa que atinja a sua honra profissional:

m) Apoiar as iniciativas e os movimentos de defesa dos interesses da categoria:

n) Denunciar a agressão e abuso de autoridades às organizações da categoria aos órgãos competentes.

o) Ter acesso às oportunidades de aprimoramento profissional.

Capítulo II

Dos Deveres

Art. 8 – São deveres do Sociólogo:

a) Desempenhar suas atividades profissionais observando a legislação em vigor:

b) Conhecer, cumprir, divulgar e fazer cumprir este Código:

c) Valorizar e dignificar a profissão bem como defender seu livre exercício:

d) Prestigiar as entidades representativas da categoria na defesa de seus direitos: as entidades científicas no aprimoramento das Ciências Sociais e as entidades democráticas na defesa da liberdade de expressão e da justiça social:

e) Combater e denunciar formas de corrupção e manipulação de informações, em especial quando comprometam o direito público da veracidade dos fatos, as ações políticas dos cidadãos e a justiça, e o favorecimento pessoal ou de grupos;

f) Combater a prática da perseguição ou discriminação por motivos sociais, políticos, religiosos, raciais ou juízo subjetivo, bem como defender o respeito ao direito à privacidade do cidadão;

g) Recusar e denunciar o desenvolvimento de pesquisas ou divulgação de seus resultados, quando houver manipulação nos critérios da metodologia científica e das normas internacionais, quando visar interesse ou favorecimento pessoal ou de grupos, com vantagens políticas ou econômicas, ou quando forem contrários aos valores humanos.

h) Ao atuar junto às instituições, responsabilizar-se por suas ações no sentido de contribuir para o desenvolvimento de seus objetivos, de acordo com os princípios e normas deste Código;

i) Responder pelas informações resultantes de estudos e pesquisas bem como pelas intervenções, assessorias e orientações desenvolvidas, desde que o trabalho em questão não tenha sido alterado por terceiros;

j) Não ser conivente com erros, faltas éticas ou morais, crimes ou contravenção de serviços profissionais;

l) Na realização de estudos e pesquisas, respeitar a dignidade de pessoas e grupos envolvidos nos trabalhos aos quais devem ser informados sobre os riscos e resultados previsíveis da sua informação e participação;

m) Procurar viabilizar a devolução das informações colhidas nos estudos e pesquisas aos sujeitos sociais envolvidos;

n) Denunciar às autoridades e órgãos competentes as coações e agressões físicas e morais sofridas no exercício da profissão;

o) Aprimorar de forma contínua os seus conhecimentos, colocando-os a serviço do fortalecimento da organização e consciência da sociedade.

p) Pagar regularmente suas obrigações com as entidades profissional às quais for associado.

Capítulo III

Do sigilo profissional

Art. 9 – O Sociólogo deve observar o sigilo profissional sobre todas as informações confiadas e/ou colhidas no exercício profissional.

Parágrafo 1 – A quebra do sigilo só é admissível quando se tratar de situação cuja gravidade possa trazer prejuízo aos direitos humanos.

Parágrafo 2 – A revelação será feita dentro do estritamente necessário, quer em relação ao assunto revelado, quer ao grau e número de pessoas que dele devem tomar conhecimento.

Art. 10 – É vedado ao Sociólogo revelar sigilo profissional.

Parágrafo único – Intimado a prestar depoimento, deverá o Sociólogo comparecer perante a autoridade competente para declarar que está obrigado a guardar sigilo profissional, nos termos do Código Civil e deste Código.

Título IV

Das Relações Profissionais

Capítulo I

Das relações profissionais com as instituições

Art. 11 – São direitos dos Sociólogos:

a) Ter condições adequadas de trabalho, respeito a autonomia profissional e dos princípios éticos estabelecidos neste Código;

b) Denunciar falhas nos regulamentos, normas e programas de instituições em que trabalha quando os mesmos ferirem os princípios e direitos contidos neste Código;

c) Recorrer às entidades representativas da categoria, ao nível estadual e nacional, contra decisões ou omissões da instituição diante de denúncias referidas no inciso anterior.

Art. 12 – É vedado ao Sociólogo:

a) Adotar determinação que fira os princípios e diretrizes contidas neste Código, ao prestar serviço incompatível com as diretrizes da regulamentação profissional;

b) Emprestar seu nome a firmas, organizações ou empresas que utilizem métodos e técnicas das ciências sociais sem seu efetivo exercício profissional;

Capítulo II

Das relações profissionais entre Sociólogos

Art. 13 – Cabe aos Sociólogos manter entre si a solidariedade que consolida e fortalece a organização da categoria

Art. 14 – O Sociólogo, quando solicitado, deverá colaborar com seus colegas, salvo impossibilidade real, decorrente de motivos relevantes.

Art. 15 – A crítica pública ao trabalho profissional de outro Sociólogo deverá ser sempre comprovável, de inteira responsabilidade de seu autor e fundamentada nos preceitos deste Código.

Art. 16 – É vedado ao Sociólogo:

a) Ser conivente com falhas éticas e com erros praticados por outro profissional;

b) Prejudicar deliberadamente a reputação de outro profissional divulgando informações falsas;

c) Prevalecer-se de posição hierárquica para publicar em seu nome trabalho de subordinado, mesmo que executado sob sua orientação, sem citar as fontes e os colaboradores;

d) Deturpar dados quantitativos e qualitativos;

e) Apropriar-se da produção científica de outro profissional.

Art. 17 – Ao Sociólogo deve ser asseguada a mais ampla liberdade na realização de seus estudos e pesquisas.

Capítulo III

Das relações com as entidades da

categoria e demais organizações da Sociedade Civil

Art. 18 – O Sociólogo deve defender a profissão através de suas entidades representativas, participando das organizações que tenham por finalidade a defesa dos direitos profissionais no que se refere a melhoria das condições de trabalho, à fiscalização do exercício profissional e ao aprimoramento científico.

Art. 19 – O Sociólogo deverá apoiar as iniciativas e os movimentos de defesa dos interesses da categoria e divulgar no seu espaço institucional as informações das suas organizações, no sentido de ampliar e fortalecer o seu movimento.

Art. 20 – É vedado ao Sociólogo valer-se de posição ocupada na direção de entidade da categoria para obter vantagens pessoais, diretamente ou através de terceiros.

Art. 21 – O Sociólogo, ao ocupar uma chefia, não deve usar a sua autoridade funcional para obstaculizar a liberação total ou parcial da carga horária do profissional que a solicite, com base legal, às instâncias superiores.

Título V

Da aplicação e cumprimento do Código de Ética

Art. 22 – A Federação Nacional dos Sociólogos, os Sindicatos e Associações Profissionais manterão Comissão de Ética para assessorá-la na aplicação e observância deste Código.

Art. 23 – A Comissão de Ética será eleita por voto secreto, de forma separada da Diretoria da entidade, tendo mandato de igual duração.

Art. 24 – Fica a critério das entidades definir sua composição de acordo com seus Estatutos aprovados em Assembléia Geral da categoria.

Art. 25 – O descumprimento do presente Código de Ética fica sujeito a penalidades desde a advertência à eliminação dos quadros da entidade, na forma dos dispositivos legais e/ou regimentais.

Art. 26 – Constituem infrações disciplinares:

a) Transgredir preceito do Código de Ética;

b) Exercer a profissão quando impedido, ou facilitar o seu exercício por quem não esteja devidamente habilitado;

c) Aos que violarem sigilo profissional;

d) Aos que tenham conduta incompatível com o exercício profissional;

Art. 27 – São medidas disciplinares aplicáveis;

a) Advertência em aviso reservado;

b) Advertência pública;

c) Eliminação dos quadros da entidade.

Art. 28 – A pena de advertência, reservada ou pública, será aplicada nos casos previstos nas alíneas “a”, “b”, “c” e “d” do Art. 27.

Art. 29 – A pena de eliminação dos quadros da entidade será aplicada:

a) Nos casos em que couber a pena de advertência e o infrator for reincidente;

b) Aos que fizerem falsa prova dos requisitos exigidos para registro profissional;

Art. 30 – Serão considerados na aplicação das penas os antecedentes profissionais do infrator e as circunstâncias em que ocorreu a infração.

Art. 31 – Qualquer Sociólogo, cidadão ou instituição poderá dirigir representação escrita e identificada aos Sindicatos, Associações Profissionais ou à Federação Nacional para que seja apurada a existência de transgressão cometida por Sociólogo.

Art. 32 – Cabe à Comissão de Ética, criada pela entidade referida no artigo anterior, analisar as infrações a este Código que cheguem ao seu conhecimento.

Parágrafo 1 – Decidindo a Comissão pela apuração dos fatos, será notificado o indiciado, garantindo-lhe acesso aos documentos e fatos componentes da acusação e a apresentação de defesa em vinte dias úteis.

Parágrafo 2 – Após o encerramento da apuração dos fatos e apresentada a defesa, a Comissão decidirá dentro de 10 dias, dando conhecimento da decisão ao Sociólogo.

Parágrafo 3 – A decisão entrará em vigor após a certificação do seu recebimento pelo profissional objeto da apuração.

Art. 33 – A não observância pelo Sociólogo à convocação ou prazos definidos no artigo precedente, implica na aceitação dos termos da representação.

Art. 34 – A partir da data da notificação da decisão da Comissão de Ética, o Sociólogo poderá recorrer a Assembléia Geral da categoria convocada para este fim, desde que sejam respeitados os Estatutos dos Sindicatos, Associações Profissionais e da Federação para a referida convocação.

Art. 35 – Compete à Federação Nacional dos Sociólogos estabelecer procedimentos quanto aos casos omissos neste Código.

Art. 36 – O presente Código somente poderá ser alterado em Congresso Nacional da categoria, cuja proposta de modificação deverá ser encaminhada às entidades para discussão com o prazo mínimo de 90 dias.

Art. 37 – Este Código entra em vigor na data da sua votação e aprovação no X Congresso Nacional de Sociólogos do Brasil.
São Paulo, 9 de março de 1997

Lejeune Mato Grosso Xavier de Carvalho

Presidente da Federação Nacional dos Sociólogos – FNS – Brasil

Presidente dos Trabalhos da 8ª Reunião Plenária do CD da FNS

Alcione Prá

Diretor da Federação Nacional dos Sociólogos – FNS – Brasil

Regional Sudeste e Secretário dos Trabalhos da 8ª Reunião

Plenária Nacional do Conselho Deliberativo da FNS

Aprovado na plenária final de delegados do X Congresso Nacional de Sociólogos realizado em 13 de setembro de 1996 no campus de Porto Alegre e referendada pela 8ª Reunião Plenária Nacional do Conselho Deliberativo da FNS, realizada em são Paulo, entre os dias 7 e 9 de março de 1997

Britânico Attenborough vence Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais

Britânico Attenborough vence Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais

Da EFE

Oviedo (Espanha), 4 jun (EFE).- O britânico David Attenborough ganhou hoje o Prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais 2009 por sua obra de divulgação da natureza, considerada “uma das grandes contribuições à defesa da vida e à conservação do planeta”.

O brasileiro Cândido Mendes de Almeida, promotor do diálogo intercultural para o entendimento entre os povos, chegou às últimas votações, mas o prêmio acabou indo para o britânico.

Attenborough, de 83 anos, é um dos divulgadores científicos mais conhecidos mundialmente através de seus documentários para TV sobre animais, considerados pioneiros.

O júri destacou em sua decisão que os amplos conhecimentos do britânico “em ciências da natureza, antropologia social, ecologia, etologia e geografia o permitiram abordar o estudo da Terra e dos seres vivos com uma criativa e inovadora combinação de saberes”.

“Seu interesse pelos problemas de nosso tempo, sua permanente busca pela excelência e sua qualidade de pesquisa lhe valeram o reconhecimento da comunidade acadêmica internacional e lhe deram também uma grande projeção social com a difusão de seus trabalhos nos grandes meios de comunicação, especialmente na televisão”, acrescentou o júri, em sua avaliação.

Também destacou que a obra de Attenborough “é considerada uma das grandes contribuições à defesa da vida e à conservação do planeta”.

A decisão do júri foi lida pelo senador e ex-presidente da comunidade autônoma espanhola da Galícia Manuel Fraga.

Junto com Attenborough chegaram às últimas votações, além do brasileiro, dois historiadores: o britânico Eric Hobsbawm e o espanhol Manuel Fernández Álvarez. EFE

Ementas das matérias do Curso de Ciências Sociais da UFS

Ementas das matérias do Curso de Ciências Sociais da Univseridade Federal de Sergipe

405011 – Antropologia I
Visão panorâmica da Antropologia em termos de fundamentos. O processo de formação e os principais conceitos, sobretudo o conceito de cultura: a importância do trabalho de campo na definição dos rumos da antropologia.

405012 – Antropologia II
Apresentação das principais escolas antropológicas. Teorias clássicas: o evolucionismo e a escola Histórico-Cultural (Difusionismo); Teorias modernas: Boas e a Escola americana; a Escola francesa (Durkheim e Mauss); e o Funcionalismo de Malinowski e Radcliff-Brown.Justificar

405013 – Antropologia III
Principais tendências do pensamento antropológico contemporâneo. O estruturamento de Levi-Strauss. O neo-evolucionismo, a Antropologia Interpretativista e as mais novas tendências do pensamento antropológico.

405014 – Antropologia IV
Organização social e parentesco. Questões básicas sobre a Organização Social e parentesco e suas influências sobre a produção da existência, da divisão do trabalho e organização política das chamadas sociedades “primitivas” com ênfase no estudo dos clássicos; discutir a importância dos princípios de organização social sobre as regaras que orientam a produção, distribuição e consumo nas sociedades conhecidas.

405015 – Folclore Brasileiro
Folclore na perspectiva da Antropologia. Estudos de Folclores no Brasil. Análise de manifestações folclóricas: contexto e significado. Os usos do folclore no Brasil.

405016 – Etnologia Brasileira I
Estudos das sociedades indígenas brasileiras nos seus aspectos sociais, econômicos, políticos, rituais, mágico-religioso e cosmológico. As sociedades indígenas e suas relações com a sociedade nacional.

405017 – Etnologia Brasileira II
A vertente antropológica sobre o negro no Brasil. A herança cultural africana. Relações no Brasil e as formas de organização do negro.

405018 – Cultura Brasileira
Abordagem conceitual. Análise e características da cultura brasileira, as manifestações da cultura brasileira: a cultura artística, as criações populares e a política nacional de cultura.

405019 – Fundamentos de Arqueologia Pré-histórica Brasileira
A arqueologia pré-histórica: natura e objetivos. A arqueologia brasileira: objetivo, evolução e campos de ação. Principais sítios arqueológicos. Testemunhos líticos: tipologia brasileira. Testemunhos cerâmicos: tipologia brasileira. Pinturas e gravuras rupestres: evidências brasileiras. A Arqueologia e o arqueólogo. O trabalho de campo e suas etapas. Técnicas de escavação: aplicabilidade no Brasil. Estudo e classificação do material arqueológico.

405021 – Antropologia Econômica
Objeto e método da Antropologia Econômica. Formações econômicas não capitalistas. Produção. Meios de produção. Relações de produção. Relações de circulação. Forma de Estado e de consciência em relação às condições de produção e de circulação.

405022 – Antropologia da Saúde
Considerando o homem como uma totalidade, da qual a condição biológica é apenas um de seus componentes, apresenta o campo da Antropologia Médica, a problemática da enfermidade e do fenômeno médico na história das tradições teórico-metodológicas da Antropologia, enfocando a discussão nas seguintes questões: as teorias da enfermidade como produto cultural; A construção social da realidade clínica; as reflexões em torno do conceito de eficácia e antropologia da Saúde no Brasil.

405023 – Tópicos Especiais de Antropologia
Os Tópicos Especiais serão oferecidos, ocasionalmente, e terão seu conteúdo definido a partir dos seguintes critérios: 1)continuação programática de disciplinas obrigatórias ou optativas do fluxo da habilitação em Antropologia e 2)definição oportuna de temas de interesse relevante para a Antropologia.

405024 – Antropologia V
Visão panorâmica da Antropologia no contexto da história institucional das Ciências Sociais no país. Conexões entre a atuação de certos personagens e o contexto institucional, teórico e político de pesquisadores e docentes. As tradições que a disciplina veio a implantar no Brasil no processo de sua instalação (etnologia indígena, antropologia da Sociedade Nacional). A “ABA”, a “Sociedade Brasileira de Antropologia” e a “Sociedade de Etnografia e Folclore”.

405031 – Política I
A análise política, categorias, conceitos, problemas básicos da ciência política contemporânea. Diferentes perspectivas teórico-metodológicas. A construção da Ciência Política.

405032 – Política II
Teóricos do Estado Absolutista. Maquiavel, Hobbes. As revoluções burguesas e o pensamento político. Locke, Rousseau, Montesquieu, Burke e Toqueville.

405033 – Política III
A revolução industrial e o Estado Liberal. Hegel e o Estado Moderno. Movimentos sociais no século XIX. Anarquismo e Socialismo. Marx e Engels.

405034 – Política IV
Estado contemporâneo e Regimes Políticos: Socialismo Real, Nazi-Facismo, Social-democracia e Neoliberalismo. Teorias Políticas contemporâneas.

405038 – Tópicos Especiais de Política
Os tópicos especiais serão oferecidos ocasionalmente e terão seu conteúdo definido a partir dos seguintes critérios: 1)continuação programática de disciplinas obrigatórias ou optativas do fluxo da habilitação em Política e 2) definição oportuna de termo de interesse relevante para a política.

405039 – Política V
Ambigüidade do Liberalismo Brasileiro: O sistema Político Oligárquico Republicano, A Revolução de Trinta e a formação do Estado Nacional; Nacionalismo e Populismo, Reforma e revolução: Interpretação sobre o golpe de 64; A questão da democracia no Brasil contemporâneo.

405041 –Sociologia I
Abordagem da Sociologia em suas bases históricas, objeto de estudo e conceitos fundamentais a partir das concepções de Durkhein, Weber e Marx.

405042 – Sociologia II
Abordagem do paradigma durkheimiano em seus antecedentes teóricos, aprofundamento da teoria e fundamentos metodológicos de Durkeim e desdobramentos da sociologia durkheimiana no século XX.

405043 – Sociologia III
Antecedentes teóricos da abordagem weberiana, fundamentos teóricos e metodológicos e os desdobramentos da sociologia compreensiva no século XX.

405044 – Sociologia IV
Bases filosóficas da abordagem de Marx, teoria e método do paradigma marxista e seus desdobramentos no século XX.

405045 – Sociologia Rural
Abordagem das relações campo/cidade: o embate tradicionalismo e modernidade. Diversidades teóricas da Sociologia Rural. Penetração do capitalismo no campo e a sua repercussão sobre as relações de produção, de dominação e de poder. A análise destes conteúdos deve contemplar a realidade brasileira.

405046 – Sociologia do Desenvolvimento Agrário
Análise da questão agrária enquanto fenômeno nascido do capitalismo. Correlação entre a questão agrária e questão agrícola. As políticas agrárias e agrícolas versus demandas do homem do campo. Os movimentos sociais e populares frente às questões agrárias e agrícolas. Análise da realidade brasileira.

405048 – Sociologia do Desenvolvimento
Abordagem das questões do desenvolvimento. Análise da expansão do desenvolvimento capitalista: colonialismo, imperialismo e globalização enfocando as realidades latino-americanas e brasileiras.

405049 – Sociologia da Educação I
Abordagem da natureza da Sociologia da Educação. Diversidades teóricas da Sociologia da Educação. Educação como processo social. Educação e estrutura social. Educação e Estado. Educação e desenvolvimento. Educação, inovação e mudança social.

405051 – Sociologia do Trabalho
Abordagem das relações de trabalho como categoria sociológica e as diferentes concepções sobre o trabalho. Organização e divisão social do trabalho e relações do trabalhador com a sociedade e o Estado. Reivindicações trabalhistas, formação de instituições trabalhistas. Análise da formação profissional social e política do trabalhador urbano e rural. Análise das relações de trabalho na sociedade brasileira.

405042 – Sociologia das Organizações Complexas
Abordagem da natureza da Sociologia das Organizações Complexas. Diversidades teóricas da Sociologia das Organizações Complexas: estudo das principais concepções teóricas. A burocracia como organização formal. Burocracia e Poder, relações entre burocracia e tecnologia. Burocracia e Estado. O papel do intelectual na burocracia. Análise da estrutura burocrática brasileira.

405053 – Sociologia Ambiental
Abordagem das especificidades do estudo sociológico na questão ambiental discutindo a relação homem/sociedade/natureza. Desenvolvimento e a questão ambiental, dando ênfase às questões específicas do desenvolvimento e meio ambiente do Brasil.

405054 – Sociologia da Educação II
Abordagem das relações entre educação e cultura; movimentos e populares, urbanos e rurais; a busca por educação. Análise dos movimentos populares e sociais. Educação popular e cultura popular. O papel do Estado, da Igreja e da Mídia na educação popular e na educação formal. Educação popular e educação formal.

405046 – Sociologia do Planejamento
Abordagem da natureza da Sociologia do Planejamento. As diferenciações entre planejamento e planificação. Estado e Planejamento. Planejamento nacional, regional e local. Relações de planejamento inter-setorial.

405057 – Sociologia da Religião
Abordagem da natureza da Religião como elemento da cultura humana. Histórico da disciplina; principais modelos analíticos; o papel social da religião: organização, significado e participação social das diferentes comunidades e seitas religiosas; religião e controle social; estudos das religiões e organizações regionais no Brasil.

405058 – Tópicos Especiais de Sociologia
Os Tópicos especiais serão oferecidos, ocasionalmente, e terão seu conteúdo definido a partir dos seguintes critérios: 1)continuação de disciplinas obrigatórias ou optativas do fluxo da habilitação em Sociologia e 2)definição oportuna de tema de interesse relevante para a Sociologia.

405059 – Sociologia V
Abordagem das principais correntes do pensamento sociológico latino-americano contemporâneo.

405061 – Métodos e Técnicas de Pesquisa em Ciências Sociais I
A produção do conhecimento científico na pesquisa. A reconstrução social da realidade. A relação teoria e método. A quantificação nas Ciências Sociais. A formulação do problema. Hipóteses e a operacionalização das variáveis. O questionário, a amostragem. Survey: aplicações e limitações.

405062 – Métodos e Técnicas de Pesquisa em Ciências Sociais II
Análise de métodos e técnicas qualitativas nas Ciências Sociais. O estudo de caso, a história de vida e o método biográfico. A observação participante. A entrevista. A análise de conteúdo e a análise de discurso nas Ciências Sociais.

405065 – Introdução à Pesquisa I
Realização de um projeto de pesquisa, com base nos conteúdos das disciplinas, Métodos e Técnicas de Pesquisa em Ciências Sociais I e Métodos e Técnicas de Pesquisa em Ciências Sociais II, de caráter teórico ou empírico, sob a orientação de professor especialmente designado pelo departamento de Ciências Sociais, que avaliará o desempenho do aluno.

405066 – Iniciação à Pesquisa II
Realização de pesquisa empírica ou teórica e confecção do relatório da referida disciplina (monografia) sob a orientação de professor designado pelo Departamento de Ciências Sociais e também do professor responsável pela disciplina “Seminário de Pesquisa II” que coordenará seminários acompanhando o desenvolvimento do trabalho de pesquisa do estudante.

405067 – Estágio Supervisionado
Treinamento profissional em órgãos públicos e privados para execução de projetos, estudos e pesquisas no campo das Ciências Sociais.

405071 – Epistemologia das Ciências Humanas
Conceitos de Epistemologia e Filosofia das Ciências, História das Ciências. Questões de Epistemologia das Ciências. Questões de Sociologia do Conhecimento. Pressupostos Epistemológicos das Ciências Humanas. Algumas concepções epistemológicas em Ciências Humanas.

405082 – Métodos de Análise e Interpretação Social II
Abordagem das teorias de investigação social contemporâneas: estrutural-funcionalismo, fenomenologia, individualismo metodológico, praxiologia, socio-biologia.

405083 – Introdução às Ciências Sociais
O programa da disciplina deve concentrar-se na evolução das Ciências Sociais ao longo do tempo, a fim de que se possa caracterizar a evolução do pensamento relacionado ao desenvolvimento das demais Ciências Sociais.

405084 – Sociologia Urbana
Abordagens dos processos de urbanização a partir de diversas perspectivas teóricas. O papel do Estado no processo de urbanização. Os movimentos sociais e urbanos. Os conteúdos devem contemplar ma realidade latino-americana, especialmente a brasileira.

405091 – Teorias Políticas Contemporâneas
Abordagem das teorias políticas mais recentes, contextualizando-se diante das grandes questões sociais, econômicas e políticas desse final de século. Assim, recortes teóricos tais como a Teoria da Justiça, a Teoria da Ação Comunicativa, a Teoria dos Jogos, a Teoria das Novas Formas da Ação Coletiva, o Marxismo analítico etc., serão revisitados e retrabalhados comparativamente.

405092 – Teorias da Ação Coletiva
Abordagem da crise que atinge as formas tradicionais e classista de ação coletiva (sindicalismo, militantismo político etc.) no Brasil e no mundo. Discussão das implicações políticas e teóricas da emergência, nas duas últimas décadas, de novos tipos de ação (associativismo, movimento ecológico, movimentos sociais não classistas etc.), principalmente no que diz respeito às novas conotações que a distinção clássica público/privado assume nas sociedades atuais.

405093 – Política e Mídia
Abordagem da relação estreita entre mídia e política no mundo contemporâneo; influências do marketing nas estratégias e nos discursos dos atores políticos; Mudanças nas campanhas eleitorais no Brasil.

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