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Arquivo da categoria: Antropologia

O carnaval

O carnaval

Resumo

Este artigo pretende apresenta um olhar antropológico, sociológico e filosófico sobre a festa do carnaval que é um aspecto que caracteriza a cultura Brasileira. O conteúdo deste tem como base a obra: O que faz brasil, Brasil?, do sociólogo Roberto da Mata. Tal obra faz uma definição do Brasil, tendo interesse de responder para o leitor o que faz brasil, Brasil, mostrando a sua identidade própria.

Palavras-chave: identidade, carnaval, alegria, liberdade.

No caso do Brasil; a maior, mais livre, mais criativa, mais irreverente e mais popular de todas as festas é sem dúvida o carnaval. Tal evento é adjetivado como a festa da liberdade que possibilita viver um momento longe do trabalho, das obrigações e deveres, proporcionando um encontro com excesso de prazer, riqueza, alegria, riso e sendo propriedade de todos. Para a realidade social do Brasil, esta festa é sinônima de alegria e o trabalho de castigo, dureza e suor, controlando e enquadrando as emoções das pessoas que trabalham.

O carnaval é a festa da liberdade que possibilita viver um momento longe do trabalho, permitindo substituir o uniforme pela fantasia, comer e beber nas ruas, trocando a casa pelo mundo público, no qual o comportamento das pessoas que vão para a folia é dominado pela utopia da ausência de hierarquia repressora, em que a regra é a prática dos excessos, causando para muitas pessoas conseqüências desagradáveis, pois ao término do carnaval se volta para a rotina diária acompanhada de tais consequências.

A festa do carnaval é um modo que a sociedade tem de exprimir-se, de atualizar-se concretamente, deixando transparecer a sua alma, o seu coração, colocando para fora as suas emoções. Portanto não se pode ter um carnaval sério, senão não seria um carnaval, porque para viver o espírito carnavalesco é preciso uma grave sinceridade, pois não se pode frequentar o carnaval sem vontade. Diferente de ir a uma cerimônia oficial onde é mantida a formalidade, as diferenças sociais e a ênfase é colocada sempre na ordem e na disciplina em que as pessoas, efetivamente, distinguem-se por meio de cadeias hierárquicas que indicam e revelam sua importância.

No carnaval, o corpo e a alma devem estar juntos, sendo assim possível a mudança de lugar, inventando o mundo em direção à igualdade de todos perante a sociedade, mesmo que seja apenas durante os três dias de festa.

Contrária a uma festa formal, o carnaval é uma festa desorganizada da sociedade de massa por trocar o dia pela noite, fugindo assim do normal, trocamos a nossa casa pela rua, onde é o lugar próprio para o ritual do carnaval, estabelecendo o ponto de encontro entre as pessoas.

Os desfiles são organizados por entidades privadas: escolas de samba e blocos, onde se encontra pessoas de camadas mais baixas, mais também reuni milionários, astros de futebol, artistas da TV e muitos famosos.

Na elaboração dos desfiles são preparados com extrema pompa, onde acontece algo que os brasileiros deveriam perceber quando vão apreciar, pois há uma inversão que possibilita a igualdade: uma pessoa pobre, negra, desfila com uma fantasia de nobre, de rei ou uma figura mitológica e não há um padrão, cada participante desfila realizando um gesto diferente, criando a essência carnaval.

Por fim o carnaval é uma festa que transparece a alma brasileira e todos que gostam de brincar e participar do carnaval devem mergulhar no seu espírito e aproveitar tudo de bom que o carnaval pode proporcionar, mas não criar uma nova essência, ridicularizando o carnaval e deixando esta festa com conceito negativo.


Fabiano Cezar da Silva
Terceiro Período de Filosofia

Antropologia renovada

Antropologia renovada

Eduardo Viveiros de Castro é reconhecido por ter renovado o pensamento antropológico

Juvenal Savian Filho e Wilker Sousa. Fotos: Lucas Zappa

“Viveiros de Castro é o fundador de uma nova escola na antropologia. Com ele me sinto em completa harmonia intelectual.” Essas palavras são do antropólogo e pensador francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009) a respeito da obra do brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. Professor de antropologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele é reconhecido nacional e internacionalmente por seus estudos em etnologia indígena – o ensaio “Os Pronomes Cosmológicos e o Perspectivismo Ameríndio”, publicado em 1996, recebeu traduções para diversas línguas e foi incluído em duas antologias britânicas de textos-chave da disciplina, a primeira centrada na antropologia da religião, a outra dedicada à teoria antropológica geral. Em 2009, publicou na França o livro Métaphysiques Cannibales, no qual resume as implicações filosóficas e políticas de suas pesquisas entre os povos indígenas brasileiros. No Brasil, seu livro mais conhecido é A Inconstância da Alma Selvagem, publicado em 2002, que reúne estudos escritos ao longo de sua carreira até então. Uma segunda coleção, trazendo seus ensaios mais recentes, está em preparação, devendo ser publicada pela editora CosacNaify em 2012, sob o título A Onça e a Diferença.

Seu currículo inclui atividades intelectuais em âmbito mundial. Foi professor-associado nas universidades de Manchester e Chicago e ocupou a cátedra Simón Bolívar de Estudos Latino-americanos da Universidade de Cambridge. Foi diretor de pesquisas no Centro Nacional de Pesquisa Científica, em Paris, tornando-se membro permanente da Equipe de Pesquisa em Etnologia Ameríndia. Ainda na França, foi agraciado em 1998 com o Prix da La Francophonie, concedido pela Academia Francesa.

Aos 59 anos de idade, construiu uma obra potente e irretocável. Viveiros de Castro recebeu a reportagem da CULT em sua sala no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e falou sobre seu trabalho, a atual política indigenista, a crise ambiental e a inserção do Brasil na economia mundial.

CULT – Como se dá seu trabalho de campo e com que regularidade o senhor visita as comunidades indígenas?

Eduardo Viveiros de Castro – O principal de minhas pesquisas de campo com os povos indígenas da Amazônia fez-se entre os anos 1975 e 1988. Estive por breves períodos entre os Yawalapiti do Parque do Xingu, em Mato Grosso (hoje o estado deveria ser chamado de Mato Ralo), os Kulina do Rio Purus, no Acre, os ianomâmis da Serra de Surucucus, em Roraima, e finalmente entre os Araweté do Igarapé Ipixuna, no Médio Xingu, Pará. Apenas entre os Araweté realizei o que se pode chamar de uma pesquisa etnográfica, que requer uma convivência demorada com o povo estudado, o aprendizado da língua nativa (no meu caso, bem incipiente) e o envolvimento emocional e cognitivo – o compromisso existencial – com as questões e preocupações da vida da comunidade que generosamente aceitou receber o antropólogo. Minha estada com os Araweté não foi tão longa quanto deveria: morei no Ipixuna por cerca de dez meses, entre 1981 e 1983, quando precisei deixar a área por motivos de saúde (malárias repetidas). Depois voltei algumas vezes, em visitas curtas, perfazendo 14 meses até 1995. Isto é, na melhor das hipóteses, a metade do que se precisa para fazer um bom trabalho de campo. Mas cada um faz o que pode. Há quem aprenda mais depressa, outros precisam de mais tempo. Além disso, há povos que demandam muitos anos de convivência até que as coisas comecem a fazer sentido para o pesquisador, e outros que são mais abertos e mais diretos. Por fim, tudo depende daquilo que se quer estudar. De qualquer maneira, não me vejo como um grande pesquisador de campo. Sou um etnógrafo apenas razoável.

Há cerca de um mês, após 15 anos de ausência, voltei ao Ipixuna para uma rápida visita. A desculpa para uma ausência tão demorada, a rigor indesculpável, foi que a vida me levou para longe da Amazônia: ensino, família, períodos de residência no exterior, o lento trabalho da escrita, o peso da idade… Isso para não mencionar algumas dificuldades que acabei tendo com a autoridade indigenista local, em Altamira (PA), por causa das empresas evangélicas que queriam se instalar entre os Araweté. Aos olhos desses missionários, eu era uma espécie de Satã que estava ali entravando a almejada conquista espiritual dos índios. Assim que parei de ir com mais frequência ao Ipixuna, esses missionários conseguiram se insinuar nas aldeias, com a complacência da administração indigenista. O estrago que causaram, até agora, ainda não parece ter sido grande demais. O mérito, naturalmente, é dos próprios Araweté.

Retornei a convite dos Araweté – não foi o primeiro que me fizeram, nesses 15 anos – e da nova administração da Funai em Altamira, com quem tenho a firme intenção de colaborar, nessa fase histórica tão difícil que se abre agora para os povos indígenas do Médio Xingu, com a construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte. Está na hora também de passar o bastão e apresentar alguns de meus estudantes do Museu Nacional aos Araweté, para que possam continuar o trabalho.

O senhor concorda que, nas últimas duas ou três décadas, os “índios” têm aparecido mais no debate político e nos veículos de comunicação? Por que isso demorou tanto tempo?

Em seu livro Tristes Trópicos, Lévi-Strauss conta uma anedota reveladora. Era o começo dos anos 1930, ele estava de partida para o Brasil, onde ia ensinar sociologia na USP. Lévi-Strauss encontra o embaixador brasileiro na França, Luiz de Souza Dantas, em um jantar de cerimônia, e lhe pergunta sobre os índios brasileiros, que já então muito lhe interessavam. Ao perguntar ao embaixador como deveria proceder para visitar alguma comunidade indígena, este lhe respondeu: “Ah, meu senhor, no Brasil há muito tempo não há mais índios. Essa é uma história muito triste, mas o fato é que os índios foram exterminados pelos portugueses, pelos colonizadores, e hoje não há mais índios no Brasil. É um capítulo muito triste da história brasileira. Há muitas coisas apaixonantes a serem vistas no Brasil, mas índios, não há mais um só…” Lévi–Strauss conta que, naturalmente, quando chegou ao Brasil, descobriu que não era bem assim.

Isso não quer dizer que o embaixador (cuja aparência física, diz maliciosamente Lévi-Strauss, indicava uma óbvia contribuição indígena) estivesse mentindo deliberadamente, procurando negar uma realidade vergonhosa mas sabida. De fato, o embaixador não sabia que havia índios no Brasil; o Brasil que ele representava diplomaticamente não continha índios. O Brasil era um país desesperado para ser moderno, então não havia, porque não podia haver, mais selvagens aqui. Outro fato curioso: em 1970 (portanto, 40 anos depois do diálogo de Lévi-Strauss com o embaixador), o censo indígena da Funai indicava, para o estado do Acre, a notável população de “zero indivíduo”. Oficialmente, não havia mais índios no Acre. Aí começam a abrir as estradas por lá, a derrubar a mata, a botar boi, e eis que começam a aparecer índios a atravancar a expansão dos pastos e a destruição da floresta. (Junto com índios, como se sabe, começaram também a aparecer os seringueiros, que se imaginava como mais outra “raça” em extinção. E bem que se tentou extingui-los naquela época – lembrem-se de Chico Mendes.) Ora, índios sempre houve lá no Acre, todo mundo no Acre sabia que eles estavam lá, mas eles não existiam em Brasília, ou melhor, para Brasília. Agora sabe-se e aceita-se que o estado do Acre abriga, atualmente, 14 povos indígenas, alguns de significativa expressão demográfica, como os Kaxinauá e os Kulina. O Acre é um estado profundamente indígena, dos pontos de vista cultural, histórico e demográfico. Na verdade, ele é hoje o principal exportador de práticas e símbolos indígenas (mais ou menos transformados) para o Brasil urbano atual.

A que mais se deve essa redescoberta dos índios nas últimas décadas?

Tudo começou com uma iniciativa fracassada do governo militar, em 1978, que visava extinguir os índios, entenda-se, acelerar o processo de desconhecimento da população indígena, consagrar seu não reconhecimento como um componente diferenciado dentro da chamada “comunhão nacional”. Completar o processo de “assimilação”, isto é, de desindianização, que se entendia como inexorável e desejável ao mesmo tempo. O governo propôs um projeto de lei para “emancipar” os índios, isto é, extinguir a tutela oficial do Estado que os protegia. O verdadeiro objetivo da medida era liberar as terras indígenas, terras públicas, de domínio da União, inalienáveis, para que entrassem no mercado fundiário capitalista. Ao declarar que esta ou aquela população indígena não “era mais” índia, porque seus membros falavam português, ou usavam roupa etc., o que o projeto de lei pretendia era entregar as terras públicas de posse dos índios nas mãos dos interesses proprietariais particulares. Simplesmente se queria tirar os índios da frente do trator do capital: em vez de índio, que venham o gado, a soja, os madeireiros, o latifúndio, o mercado de terras, a mineração, a estrada, a poluição e tudo que vem junto. E que muitos chamam de “desenvolvimento”.

Mas, naquele momento, os idos de 1978, quando estava se consolidando a resistência organizada à ditadura, muito da insatisfação política da classe média, dos intelectuais principalmente, se cristalizou em torno da questão indígena, como se ela fosse uma espécie de emblema do destino de todos os brasileiros. É também nesse momento que tomam ímpeto o movimento negro, o movimento feminista, a politização ativa da orientação sexual, a emergência de diversas minorias, diversas diversidades por assim dizer: étnicas, locais, sexuais, ocupacionais, culturais etc. A luta de classes assumia cada vez mais o caráter de uma integração parcial de uma série de diferenciais traçados sobre outros eixos que a economia pura e simples (as relações de produção). Começam a surgir outros atores políticos. É o momento da especulação e da experimentação generalizadas: outras práticas do laço social, outras imagens da sociedade, que não se reduzem ao par Estado-classes sociais, mas que envolvem outras formas de vida, outros territórios existenciais. Os índios foram importantes por sua força exemplar, seu poder de condensação simbólica. Eles apareceram como portadores de outro projeto de sociedade, de outra solução de vida que contraprojetava uma imagem crítica da nossa.

A constituição de 1988 teve papel fundamental para formalizar a presença do índio dentro da comunhão nacional

Mas, desde o século 16, a vida indígena aparece como uma imagem crítica da vida “ocidental”.

Sim, sem dúvida. Há uma frase de um jovem filósofo que eu admiro muito, Patrice Maniglier, um grande especialista em Lévi-Strauss, aliás: “A antropologia nos devolve uma imagem de nós mesmos na qual nós não nos reconhecemos”. É por isso que ela é importante, porque nos devolve algo, ela nos “reflete”. Mas a gente vê essa imagem e não se reconhece nela. “Então nós, humanos, somos assim também? Podemos ser isso? Somos isso, em potência? Temos em nós a capacidade de viver assim? Essa é uma solução de vida ao nosso alcance, como espécie?” Em suma: “É possível ser feliz sem carro, geladeira e televisão?”. Isso nos dá um susto, um susto com valor de conhecimento. Os índios, desde o século 16, desempenharam essa função para a reflexão político-filosófica ocidental (para uma muito pequena parte dela, na verdade). E essa mesma função, mas modernizada, especificada e tornada mais evidente pelo fato de que os índios brasileiros da década 1970 – a década que inicia a ocupação destrutiva em larga escala da Amazônia – eram nossos conterrâneos e nossos contemporâneos, eles nos ensinavam algo não só sobre nós mesmos como sobre nosso projeto de país, o Brasil que queríamos, e que não era certamente o Brasil que tínhamos. Então, foi em torno das sociedades indígenas como diferença emergente que se constituiu a resistência contra o projeto de emancipação: uma resistência contra o projeto de privatização econômica, o branqueamento político e a estupidificação cultural do Brasil.

Os antropólogos, nesse contexto, começam a se organizar como categoria, aliando-se aos índios como atores políticos. Houve, é claro, antropólogos que tiveram um papel importantíssimo na história não só da causa indígena, mas da própria República, como Roquette Pinto ou Darcy Ribeiro, antes de (e durante) essa época. Mas naquele momento, no fim da década de 1970, os antropólogos se constituem como corporação para interpelar o governo e se opor ao projeto de emancipação. Essa mobilização sensibilizou a sociedade, entenda-se, outros intelectuais, militantes políticos de outras causas, advogados, juristas, artistas, e também as camadas médias urbanas, os estudantes… Ao mesmo tempo, e muito mais importante, os índios como que “acordaram” para seu poder de intervenção nos circuitos nacionais e internacionais de comunicação. Eles deixavam ali de ser um elemento do folclore nacional, de um passado vago e distante, e passavam a atores políticos do presente, signos críticos e urgentes de uma ultracontemporaneidade: signos do futuro, na verdade.

Enfim, é nesse momento, fim dos anos 1970, que ganha vulto todo o movimento de auto-organização de coletivos que não são mais redutíveis nem aos partidos nem aos sindicatos: a célebre “sociedade civil organizada”. É então também que começam a aparecer figuras indígenas individuais com destaque político. A primeira delas foi Mário Juruna, um deputado que foi tratado folcloricamente pela imprensa, mas que teve um papel estratégico para a emergência dos índios no cenário político-ideológico nacional e internacional (lembremos do Tribunal Russell). Juruna, que marcou presença por alguns gestos muitos simples, de grande “pega” midiática, ficou famoso com seu gravador – um edificante signo do poder da “tecnologia” nas mãos de um “selvagem”; melhor ainda, e agora de verdade, um dispositivo que preservava a potência e a imediatez da oralidade, o registro semiótico em que os indígenas se sentem completamente em casa – que armazenava as promessas e declarações de autoridades e políticos. Depois, promessa quebrada, declaração falseada pelos fatos, Juruna tocava seu gravador na frente da “otoridade” e dizia: “Mas não foi o contrário que o senhor falou?” “O senhor não havia prometido isso?” Depois de Mário Juruna, o protagonismo indígena, coletivo e individual, proliferou: associações, federações, líderes de grande expressão como Ailton Krenak e David Kopenawa.

Qual o papel da Constituinte de 1988 nesse processo?

Esse processo do fim da década de 1970 culminou em 1988, com a Constituinte e a Constituição, que tiveram um papel fundamental para formalizar a presença dos índios dentro da comunhão nacional. É aqui que se começa a reconhecer direitos coletivos, coisa que, salvo engano, mal existia no Brasil: direitos difusos, direitos coletivos, comunidades sujeitos de direito, índios, quilombolas. Uma vitória imensa, atestável no ódio que a Constituição de 1988 desperta na direita, sempre à espreita de uma oportunidade para “reformar” a Constituição, isto é, para desfigurá-la, e sempre eficaz na protelação da indispensável regulamentação de diversos artigos constitucionais.

O senhor vê com bons olhos as políticas de proteção dos direitos indígenas na era Lula?

Houve grandes conquistas, a mais importante, sem dúvida, o reconhecimento da terra indígena Raposa Serra do Sol. Mas manteve-se, ou mais, acentuou-se o projeto de governo baseado na equação falaciosa entre desenvolvimento e crescimento, em uma ideia de crescimento a qualquer preço e, nesse sentido (eu sublinho: apenas nesse sentido), o governo Lula manteve sua continuidade com todos os governos anteriores, pelo menos até Vargas e incluindo os governos da ditadura. Uma ideia de que é preciso conquistar o Brasil, ocupá-lo, civilizá-lo, modernizá-lo, desenvolvê-lo, implicando com isso a ideia de que os índios não são brasileiros, não estão lá, não vivem em suas terras segundo seus próprios esquemas civilizacionais, não possuem uma cultura viva e eficaz. Tudo isso se baseia em um modelo cultural falido, a ideia de modernidade.

E qual é esse modelo?

É o modelo de industrialização intensiva, poluente, de exportação maciça de matéria-prima, monocultura, agronegócio, transgênicos, agrotóxicos, petróleo… Ele bate de frente com os interesses das populações indígenas e, arrisco-me a dizer, com as perspectivas de toda a população do país e do planeta. O que precisamos é imaginar uma forma econômica com algum futuro, capaz de assegurar o suficiente para todos, uma vida que seja boa o bastante para as gerações vindouras. Então, eu tenho sérias restrições não à política indigenista do governo Lula – aliás, o atual presidente da Funai [Márcio Augusto Freitas de Meira] é um colega que admiro e respeito –, mas o problema é que essa política indigenista sempre teve de se dobrar aos imperativos de uma geopolítica nacional e internacional ambientalmente desastrosa. Toda vez que algum setor do governo ameaçou criar dificuldades para essa geopolitica desenvolvimentista, foi obrigado a entrar na linha, ou sair de cena. Veja Marina Silva. No caso da Funai, a tendência foi seguir os limites estreitos de manobra deixados pela Casa Civil e seu implacável desenvolvimentismo.

Qual seria, então, a alternativa a esse modelo?

O Brasil tem a oportunidade única de ser um dos poucos lugares da Terra onde um novo modelo de sociedade e de civilização poderia se constituir. Somos um dos poucos países do mundo que tem recursos suficientes para inventar outra ideia e outra prática de desenvolvimento. Parece que aprendeu muito pouco com a história recente do mundo. Quando se exporta soja e gado, está se exportando o quê? O solo, a água do país. Para fazer 1 quilo de carne, são necessários 15 mil litros de água; para 1 quilo de soja, são necessários 1.800 litros. O Brasil é o maior exportador de “água virtual” do mundo. Isso para não falarmos nos insumos venenosos: hormônios para o gado, fertilizantes, agrotóxicos… O Brasil é o maior consumidor de defensivos agrícolas do planeta. Imagine o risco sanitário a que estamos expostos. Todas essas maravilhas que tanto aumentam a produtividade agrícola (e ao mesmo tempo baixam a qualidade e a segurança dos alimentos) são-nos enfiadas garganta abaixo por grandes companhias transnacionais como a Monsanto, cuja ficha ambiental e política é mais que suja, é imunda.

E está em curso a polêmica sobre a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Quando se fala em hidrelétricas, bem, de fato talvez seja melhor do que a energia nuclear – em princípio, uma vez que a questão do lixo nuclear está bem longe de ser resolvida, além dos problemas de segurança –, mas quais são as implicações do ponto de vista, por exemplo, do abastecimento de água? E, aliás, para quem vai o principal da energia elétrica que é produzida por uma grande hidrelétrica como Tucuruí, ou Belo Monte? Vai para a população ou para as fábricas de alumínio, os projetos de extração e processamento de cobre e níquel da Amazônia? O que fazem essas fábricas de alumínio? Latas de saquê e cerveja, principalmente. Por que as fábricas de alumínio estão aqui? Por que países como o Japão não querem gastar uma imensa quantidade de energia para mover as cubas eletrolíticas onde se funde o alumínio? É melhor que um país grande, periférico e perdulário detone seus rios. A usina de Tucuruí, concebida durante o regime militar, significou 2 bilhões de reais de subsídio para as indústrias de alumínio, como constatou um especialista recentemente. O destino real da energia produzida pelo Complexo Hidrelétrico de Belo Monte ainda é uma espécie de segredo de Estado. Mas parece que essa energia virá principalmente para o Sul e o Sudeste, ou servirá para alimentar novas indústrias eletrointensivas – cobre, bauxita, níquel – no Norte, algumas aliás
não nacionais (a direita vive falando no perigo de uma invasão estrangeira da Amazônia; ela já aconteceu, mas como é uma invasão do capital, parece que pode…). Os benefícios para a população, e especialmente para a população local, são muito duvidosos.

Como se deu seu contato com o pensamento de Lévi-Strauss?

Meu contato com Lévi-Strauss antecede meu contato com a antropologia. Foi enquanto eu fazia ciências sociais, em um curso de teoria literária dado por Luiz Costa Lima. Foi ele quem me aconselhou a fazer antropologia. Isso foi nos idos de 1969, 1970. Naquele momento, o estruturalismo antropológico estava penetrando em diversas áreas das ciências humanas, como a psicanálise e a crítica literária, então o Costa Lima, professor de literatura e grande teórico da área, resolveu dar um curso sobre As Mitológicas na sociologia da PUC-Rio, onde eu estudava.

O senhor poderia apresentar-nos o conceito do perspectivismo indígena?

Esse é um assunto sobre o qual hesito um pouco em falar, porque o termo “perspectivismo indígena” se tornou excessivamente popular no meio antropológico, e a ideia que ele designa começa a sofrer o que sofre toda ideia que se difunde muito e rapidamente: banalização, de um lado, despeito, de outro. Passa a servir para tudo, ou a não servir para nada. De qualquer forma, não fui eu quem inventou sozinho a teoria do perspectivismo indígena; foi um trabalho de grupo, em que se destaca a colaboração formativa que mantive com minha colega Tânia Stolze Lima. Tomamos emprestado do vocabulário filosófico esse termo de perspectivismo para qualificar um aspecto marcante de várias, senão de todas, as culturas nativas do Novo Mundo. Trata–se da noção de que o mundo é povoado por um número indefinidamente indeterminado de espécies de seres dotadas de consciência e cultura. Isso está associado à ideia de que a forma manifesta de cada espécie é uma “roupa” que oculta uma forma interna humanoide, normalmente visível apenas aos olhos da própria espécie ou de certos seres transespecíficos, como os xamãs. Até aqui, nada de muito característico: a ideia de que a espécie humana não é um caso à parte dentro da criação, e de que há mais gente, mais pessoas no céu e na terra do que sonham nossas antropologias, é muito difundida entre as culturas tradicionais de todo o planeta.

O que distingue as cosmologias ameríndias é um desenvolvimento sui generis dessa ideia, a saber, a afirmação de que cada uma dessas espécies é dotada de um ponto de vista singular, ou melhor, é constituída como um ponto de vista singular. Assim, o modo como os seres humanos veem os animais e outras gentes do universo – deuses, espíritos, mortos, plantas, objetos e artefatos – é diferente do modo como esses seres veem os humanos e veem a si mesmos. Cada espécie de ser, a começar pela nossa própria espécie, vê-se a si mesma como humana. Assim, as onças, por exemplo, se veem como gente: cada onça individual vê a si mesma e a seus semelhantes como seres humanos, organismos anatômica e funcionalmente idênticos aos nossos. Além disso, cada tipo de ser vê certos elementos-chave de seu ambiente como se fossem objetos culturalmente elaborados: o sangue dos animais que matam é visto pelas onças como cerveja de mandioca, o barreiro em que se espojam as antas é visto como uma grande casa cerimonial, os grilos que os espectros dos mortos comem são vistos por estes como peixes assados etc. Em contrapartida, os animais não veem os humanos como humanos. As onças, assim, nos veem como animais de caça: porcos selvagens, por exemplo. É por isso que as onças nos atacam e devoram, pois todo ser humano que se preza aprecia a carne de porco selvagem. Quanto aos porcos selvagens (isto é, aqueles seres que vemos como porcos selvagens), estes também se veem como humanos, vendo, por exemplo, as frutas silvestres que comem como se fossem plantas cultivadas, enquanto veem a nós humanos como se fôssemos espíritos canibais – pois os matamos e comemos.

E o que é o humano?

É essa capacidade de socialidade. Antes, tudo era transparente a tudo, os futuros animais e os futuros humanos, vamos chamar assim, se entendiam, todos se banhavam num mesmo universo de comunicabilidade recíproca. Lévi-Strauss tem uma definição muito boa, dada numa entrevista. O entrevistador pergunta: “O que é um mito?”. Lévi-Strauss responde: “Bom, se você perguntasse a um índio das Américas, é provável que ele respondesse: ‘Um mito é uma história do tempo em que os animais falavam’”. Essa definição, que parece banal, na verdade é muito profunda. O que ele está querendo dizer é que o mito é uma história do tempo em que os homens e os animais estavam em continuidade, se comunicavam entre si. Na verdade a humanidade nunca se conformou por ter perdido essa transparência com as demais formas de vida, e os mitos são uma espécie de nostalgia da comunicação perdida.

Essa é de fato uma noção universal no pensamento ameríndio, a de um estado originário de coacessibilidade entre os humanos e os animais. As narrativas míticas são povoadas de seres cuja forma, nome e comportamento misturam atributos humanos e não humanos, em um contexto de intercomunicabilidade idêntico ao que define o mundo intra-humano atual. O propósito da mitologia, com efeito, é narrar o fim desse estado: trata-se da célebre separação entre “cultura” e “natureza” analisada nas Mitológicas de Lévi-Strauss. Mas não se trata aqui de uma diferenciação do humano com base no animal, como é o caso em nossa mitologia evolucionista moderna. A condição original comum aos humanos e animais não é a animalidade, mas a humanidade. Os mitos contam como os animais perderam os atributos herdados ou mantidos pelos humanos; os animais são ex-humanos, e não os humanos ex-animais. Se nossa antropologia popular vê a humanidade como erguida sobre alicerces animais, normalmente ocultos pela cultura – tendo outrora sido “completamente” animais, permanecemos, “no fundo”, animais –, o pensamento indígena conclui ao contrário que, tendo outrora sido humanos, os animais e outros seres do cosmo continuam a ser humanos, mesmo que de modo não evidente.

Se tudo está impregnado de humanidade, quais são as consequências disso para o modo de vida indígena?

Se tudo é humano, nós não somos especiais; esse é o ponto. E, ao mesmo tempo, se tudo é humano, cuidado com o que você faz, porque, quando corta uma árvore ou mata um bicho, você não está simplesmente movendo partículas de matéria de um lado para o outro, você está tratando com gente que tem memória, se vinga, contra-ataca, e assim por diante. Como tudo é humano, tudo tem ouvidos, todas as suas ações têm consequências.

Fonte: Revista Cult

Antropologia é ciência?

Antropologia é ciência? Parte de seus membros diz que não

Decisão da Associação Antropológica Americana de retirar a palavra “ciência” de seu plano de atuação de longo prazo acentua divisões internas da disciplina
The New York Times
A antropologia dedica-se ao estudo do homem e da humanidade, abrangendo as raças, etnias e gênero 

A antropologia dedica-se ao estudo do homem e da humanidade, abrangendo as raças, etnias e gênero (Comstock)

Antropólogos estão em meio a uma confusão sobre a natureza da profissão e de seu futuro depois que a Associação Antropológica Americana decidiu, em seu recente evento anual, tirar a palavra “ciência” da declaração de seu plano de atuação de longo prazo.

A decisão trouxe à tona tensões que há muito tempo existem entre pesquisadores de disciplinas antropológicas baseadas na ciência – inclusive arqueólogos e antropólogos físicos e culturais – e membros da profissão que estudam raça, etnia e gênero e se vêem como defensores de povos nativos ou direitos humanos.

Nos últimos dez anos, ambas as facções passaram por uma amarga fase de combate tribal depois que o grupo mais ativo politicamente atacou trabalhos sobre os ianomâmis da Venezuela e do Brasil realizados por Napoleon Chagnon, um antropólogo de linha científica, e James Neel, geneticista falecido em 2000. Com as feridas desse conflito ainda abertas, muitos antropólogos da linha científica ficaram consternados ao saber, no mês passado, que o plano de longo prazo da associação não focaria mais no avanço da antropologia como ciência, mas sim no “entendimento público”.

Até o momento, o plano de atuação da associação era o de “avançar a antropologia como a ciência que estuda a humanidade em todos os aspectos”.  O conselho executivo revisou este tópico no mês passado ao afirmar que: “O propósito desta associação deve ser o de fazer avançar a compreensão pública de humanidade em todos os seus aspectos”. E a declaração foi seguida de uma relação de subdisciplinas que inclui a pesquisa política. A palavra “ciência” foi removida de dois outros trechos na revisão da declaração.

A presidente da associação, Virginia Dominguez, da Universidade do Illinois, disse em e-mail que a palavra tinha sido retirada porque o conselho pretende incluir tanto os antropólogos que não identificam seus trabalhos com a ciência, quanto aqueles que o fazem. Ela acrescentou que a nova declaração poderia ser mais uma vez modificada caso o conselho receba boas sugestões para fazê-lo.

O novo plano de atuação difere da “declaração de princípios” da associação, que segue inalterada e ainda descreve a antropologia como ciência.

Peter Peregrine, presidente da Sociedade de Ciências Antropológicas, filiada à Associação Antropológica Americana, afirmou em e-mail aos membros que as mudanças propostas iriam minar a antropologia americana, e pediu aos seus pares que expressassem suas opiniões.

Peregrine, da Universidade Lawrence, de Wisconsin, disse em entrevista que remover a palavra ciência só faz estourar de vez as tensões entre os dois grupos. “Mesmo que o conselho volte atrás usando a palavra novamente, o leite já foi derramado e está por toda parte”, disse ele.

Ele atribuiu o ocorrido a um ataque realizado por duas correntes dentro da antropologia. Uma é a dos chamados ‘antropólogos críticos’, que vêem a antropologia como um braço do colonialismo e, portanto, algo que deve ser liquidado. A outra é a crítica pós-moderna da autoridade da ciência. “Boa parte disso é como o criacionismo, que rejeita argumentos e pensamentos racionais”, disse Peregrine.

As chamas foram ainda mais atiçadas pelos blogs, como o Psychology Today, de Alice Dreger, uma historiadora da ética da medicina. Em declaração sobre o evento da Associação Antropológica Americana em Nova Orleans, ela escreveu: “Os antropólogos que não são ‘cabeça de vento’ estão se sentindo absolutamente incomodados nesse ambiente que denigre a ciência e promove substancialmente o ativismo à coleta de informações e teorização científica.”

A associação é “uma organização muito atormentada”, disse Dreger durante entrevista. “Quando vou lá é como assistir um casamento ruim que devia ter terminado há anos”, disse ela, em menção aos dois grupos.

Dominguez, a presidente da associação, negou que antropólogos críticos ou o pensamento pós-moderno tenham influenciado a nova declaração. Ela afirmou por e-mail que estava ciente que antropólogos de linha científica já expressaram desaprovação pelos colegas de outros grupos. “Mas eles fazem isso por motivos intelectuais”, ela escreveu no e-mail. “Também tenho consciência de que eles se sentem uma minoria crescente nessa profissão, ou pelo menos dentro da associação e seus próprios departamentos, e a marginalização nunca é uma experiência agradável”.

Fonte: Veja

Brasil tem Estatuto da Igualdade Racial

Brasil tem Estatuto da Igualdade Racial

Por Flávio Jorge

Após mais de uma década de tramitação, o Estatuto da Igualdade Racial, recentemente aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, passou a vigorar a partir do dia 20 de outubro de 2010.

É um dispositivo legal que não deve ser tratado como a possibilidade de superação das desigualdades sociorraciais no país mas como um instrumento efetivo de afirmação de direitos sociais, políticos, econômicos e culturais da população negra brasileira.

Nos últimos trinta anos as conquistas da população negra, decorrentes da luta do movimento negro, seja no campo jurídico-legislativo, seja na área social e as de caráter simbólico, ajudaram o Brasil a compreender que o racismo existe e que a promoção da igualdade é fundamental para seguir mudando a vida de metade da população brasileira1.

A luta do Movimento Negro tem garantido mudanças na vida da população negra. É por meio desta luta que os governos, de caráter democrático e popular, dos municípios, dos estados e do governo federal, têm respondido a reivindicações históricas e diante do grave quadro de desigualdades sociais e econômicas, em razão das diferenças raciais, implementam políticas para a superação do racismo e para a erradicação da pobreza em nosso país.

Porém, mesmo valorizando esses avanços e conquistas, é preciso deixar explícito que o Brasil continua sendo um país injusto, onde as desigualdades sociorraciais continuam imensas, como comprovam os indicadores, pesquisas e estudos.

É a partir dessa realidade que a importância do Estatuto que entrou em vigor deve ser compreendida,  apesar dos limites impostos a ele pelo conservadorismo dos parlamentares que hoje compõem o Congresso Nacional.

O projeto do Estatuto, no período final de sua tramitação no Senado, na Comissão de Constituição e Justiça, teve como relator o senador Demóstenes Torres, do Partido dos Democratas (DEM-GO). O parecer do senador, que serviu de base para as negociações que permitiram a aprovação do Estatuto, com suas novas exigências e propostas de vetos, desfiguraram ainda mais o já mutilado projeto de lei votado na Câmara dos Deputados em setembro de 2009.

Abrindo um parêntese: é importante destacar que o partido do senador Demóstenes Torres, o Partido dos Democratas, move três ações no Supremo Tribunal Federal que colocam em risco a manutenção dos direitos e conquistas do Movimento Negro e da população negra:

  • a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) direcionada ao Decreto nº 4.887, que questiona o critério de auto-atribuição e a definição das terras ocupadas por comunidades remanescentes de quilombos  confirmadas pela Constituição de 1988;
  • a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADFP) contra a política de cotas raciais para o ingresso nos cursos de graduação da Universidade de Brasília, que tem como objetivo principal questionar a constitucionalidade das políticas de ação afirmativa de acesso ao ensino superior no país;
  • a Ação Direta de Inconstitucionalidade contra a manutenção do Programa Universidade para Todos, o ProUni, que incorpora o recorte étnico-racial na concessão de bolsas totais e parciais para jovens pobres nas universidades particulares.

Fechando o parêntese: apesar do DEM e das elites conservadoras que continuam vivas, como demonstra o processo eleitoral em curso, disputando seus interesses, postos de mando e dominação no Estado brasileiro, a partir do dia 20 de outubro de 2010, o Brasil está diante de um fato concreto que é a existência de um Estatuto da Igualdade Racial.

Finalizado o processo eleitoral em curso, a tarefa de um Congresso Nacional renovado será tratar dos artigos que precisam ser regulamentados e a implementação de novas medidas que não estão presentes na redação final do Estatuto, como as cotas raciais em universidades públicas e escolas técnicas federais, que buscam gerar condições mais equânimes de acesso da juventude negra ao conhecimento e às instituições superiores de ensino.

Ao futuro presidente ou presidenta da República caberá fazer com que o Estatuto seja respeitado e que os direitos e conquistas da população negra sejam garantidos.

Como indica tendência de voto dos eleitores   entrevistados pelo Ibope que se autoclassificaram pretos e pardos, em pesquisa recentemente divulgada2, o candidato José Serra é o preferido entre brancos e amarelos e a candidata Dilma Rousseff entre pretos e pardos.

A população negra vai votar no dia 31 de outubro de 2010 para consolidar as mudanças conseguidas nos últimos anos através de uma efetiva política de promoção da igualdade racial; para ampliar as conquistas através de políticas que promovam a inclusão social e a redução das desigualdades; para impedir qualquer retrocesso na afirmação de direitos sociais, culturais, políticos e econômicos da população negra no Brasil.

*Flávio Jorge Rodrigues da Silva, diretor da Fundação Perseu Abramo e membro da direção executiva da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN).

Notas:

1) Ver IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domícilio (Pnad) de 2009: 6,9% (13,3 milhões) de pessoas se declararam pretas e 44,28% (84,7 milhões) se declararam pardas.

2) A divisão do eleitorado por cor obedeceu às mesmas categorias do IBGE utilizadas no Censo de 2010.

Discriminação racial – 2003

Discriminação racial – 2003

Esta pesquisa é fruto de parceria entre as Fundações Perseu Abramo e a alemã Rosa Luxemburg Stiftung. É uma realização do Núcleo de Opinião Pública da FPA, sob a coordenação dos sociólogos Gustavo Venturi e Marisol Recamán.

Data de Campo: 15/set a 06/out 2003

A pesquisa “Discriminação racial e preconceito de cor no Brasil” tem como objetivo:
Investigar a percepção do preconceito de cor e práticas discriminatórias, em busca de novos subsídios para políticas públicas e intervenções do movimento social.
Traçar um estudo comparativo sobre o fenômeno do racismo e da xenofobia no Brasil e na Alemanha, a partir de dados da Fundação Rosa Luxemburgo.
Conhecer as opiniões sobre políticas públicas compensatórias para as populações discriminadas (políticas de cotas e outras);
Investigar as diferenças e identidades de opinião em relação ao preconceito de cor e ao reconhecimento do problema da discriminação racial no país; a freqüência com experiências discriminatórias e a consciência de seus direitos.
Contribuir para a reflexão e subsidiar a ação de agentes sociais envolvidos com o desenvolvimento e fortalecimento da cidadania das populações racialmente discriminadas, e para a definição de políticas públicas, seja via Estado, sociedade civil ou através da academia.

Apresentação

Esta pesquisa é fruto de parceria entre as Fundações Perseu Abramo e a alemã Rosa Luxemburg Stiftung. É uma realização do Núcleo de Opinião Pública da FPA, sob a coordenação dos sociólogos Gustavo Venturi e Marisol Recamán.

Data de Campo: 15/set a 06/out 2003

A pesquisa “Discriminação racial e preconceito de cor no Brasil” tem como objetivo:

- Investigar a percepção do preconceito de cor e práticas discriminatórias, em busca de novos subsídios para políticas públicas e intervenções do movimento social.

- Traçar um estudo comparativo sobre o fenômeno do racismo e da xenofobia no Brasil e na Alemanha, a partir de dados da Fundação Rosa Luxemburgo.
Conhecer as opiniões sobre políticas públicas compensatórias para as populações discriminadas (políticas de cotas e outras);

- Investigar as diferenças e identidades de opinião em relação ao preconceito de cor e ao reconhecimento do problema da discriminação racial no país; a freqüência com experiências discriminatórias e a consciência de seus direitos.

- Contribuir para a reflexão e subsidiar a ação de agentes sociais envolvidos com o desenvolvimento e fortalecimento da cidadania das populações racialmente discriminadas, e para a definição de políticas públicas, seja via Estado, sociedade civil ou através da academia.

Dados para download

Abaixo, links para download de apresentações (em formato PDF) sobre os temas propostos. Para baixar, basta clicar sobre os títulos.

http://www.fpa.org.br/o-que-fazemos/pesquisas-de-opiniao-publica/pesquisas-realizadas/dados-para-download

Metodologia

data do campo: 15/set a 06/out 2003

Amostra probabilística (sorteio dos municípios, dos setores censitários e dos domicílios), combinada com controle de cotas de sexo e idade na seleção dos indivíduos. Total de 5.003 entrevistas, representativas da população brasileira adulta (16 anos ou mais).

Dispersão geográfica: 266 municípios (capitais, municípios de pequeno, médio e grande portes), distribuídos em 834 setores censitários, urbanos e rurais, nas cinco macro-regiões do país (Norte, Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Sul).

Aplicação de questionário estruturado (198 perguntas, parcialmente distribuídas em 3 sub-amostras com cerca de 1.668 entrevistas cada), em abordagens pessoais e domiciliares, com duração média de 60 minutos.

Margens de erro: – 1,4 ponto percentual para o total da amostra e – 2,5 p.p. nos resultados das perguntas aplicadas em cada sub-amostra, sempre com intervalo de confiança de 95%.

Resultados

Acesse os resultados da pesquisa, que encontram-se divididos em 3 temas principais:

1 – Cotas e ações afirmativas

* Posição sobre os negros se aposentarem mais cedo, considerando as desigualdades no mercado de trabalho
* Principais grupos a serem recolocados pelo governo no mercado de trabalho
* Atuação dos governos no combate à discriminação racial (governo FHC e Lula)
* Conhecimento pessoal de casos de discriminação racial na justiça e há quanto tempo ocorreu
* Conhecimento sobre a lei contra discriminação racial
* De quem é a obrigação de combater a discriminação racial
* Opinião sobre a política de reserva de vagas nas faculdades
* Políticas que o governo deveria adotar para diminuir a desigualdade entre negros e brancos que chegam às faculdades
* Posição sobre cotas pra negros nas universidades e empresas
* Posição sobre negros se aposentarem mais cedo
* Posição sobre reserva de vagas para negros nas empresas e serviços públicos
* Principais ações de combate ao problema da violência e criminalidade entre os jovens
* Principais medidas de combate à discriminação e desigualdade no mercado de trabalho a serem adotadas pelo governo
* Principal responsável pela desigualdade entre negros e brancos
* Razões para ser contra política de cotas nas empresas

Link: http://www.fpa.org.br/o-que-fazemos/pesquisas-de-opiniao-publica/pesquisas-realizadas/cotas-e-acoes-afirmativas

2 – Evolução de atitudes preconceituosas

* Diferença e inteligência entre negros e brancos?
* Já namorou ou casou com alguém de cor diferente da sua?
* O que você faria se tivesse um chefe branco
* O que você faria se tivesse um chefe negro
* O que você faria se um(a) filho(a) casasse com uma pessoa branca
* O que você faria se um(a) filho(a) casasse com uma pessoa negra
* O que você faria se várias famílias brancas fossem morar nas vizinhanças
* O que você faria se várias famílias negras fossem morar nas vizinhanças
* Voto em políticos e negros?

Link: http://www.fpa.org.br/o-que-fazemos/pesquisas-de-opiniao-publica/pesquisas-realizadas/evolucao-de-atitudes-preconceituosas

3 – Evolução do preconceito racial no Brasil

* Evolução do grau de concordância com frases preconceituosas associadas aos negros
* Você tem preconceito de cor em relação aos brancos?
* Composição das escalas de manifestação de preconceito
* Escala complacente
* Os brancos têm preconceito de cor em relação aos negros?
* Os negros têm preconceito de cor em relação aos brancos?
* Preconceito racial manifesto
* Você tem preconceito de cor em relação aos negros?

Link: http://www.fpa.org.br/o-que-fazemos/pesquisas-de-opiniao-publica/pesquisas-realizadas/evolucao-do-preconceito-racial-no-br

Saberes, sensorialidades e artes indígenas

Saberes, sensorialidades e artes indígenas

Líderes de tribos do Acre e de SC mostram na UFSC a evolução dos povos ameríndios

Os saberes e as artes dos povos indígenas não são muito conhecidos nos centros urbanos brasileiros. Para muitos estudantes, os índios são algo do passado, dos livros de história. Felizmente, porém, a realidade é outra. Hoje, no Brasil, vivem 234 povos indígenas, que falam 180 línguas e dialetos diferentes entre si. É uma riqueza enorme de rituais, danças, tecnologias de roça e caça, maneiras de pensar e viver no mundo. Aos poucos, as universidades se abrem e começam a receber alunos e professores de comunidades indígenas.

Entre 13 e 16 de outubro, Florianópolis terá a II Mostra de Arte Indígena, na UFSC, na Udesc e no Museu da Escola Catarinense. Os povos Guarani, do Sul, e Kaxinawá, do Norte amazônico, junto a antropólogos e outros artistas, trazem um pouco de seus saberes e artes para compartilhar. Mestres e especialistas indígenas virão de suas aldeias para ministrar oficinas de pinturas corporais, entalhes, cestaria, tear e canto. Haverá, também, uma sala de “sensorialidades”, uma instalação interativa, onde, dentro de uma maloca – casa comunitária –, as pessoas podem descansar deitadas na rede e apreciar projeções de fotos e filmes, curtindo audições de sons da floresta e músicas de rituais indígenas.

No Hall da Reitoria será instalada uma escultura de Frank Koopman, artista holandês que, a pedido do professor e antropólogo Oscar Calavia, montou um totem de equipamentos industriais reconstruídos com madeira e materiais diversos, empilhados em 4,5 metros de altura. Koopman e Calavia mostram que um totem “pode ser feito de qualquer coisa” e tentam assim estabelecer um diálogo da sociedade pós-industrial com a arte dos indígenas da costa noroeste dos Estados Unidos.

Além das oficinas com mestres indígenas e das obras de arte, haverá aulas abertas para estudantes do ensino médio e infantil, professores, pedagogos e demais interessados. Nas aulas, serão apresentados e debatidos temas como xamanismos contemporâneos, com Isabel de Rose; anthropological blues e musicalidades do povo Javaé, com Sônia Lourenço; parentalidades indígenas, com Lisiane Lecznieski; história da antropologia catarinense, com Angela Bertho. No horário do almoço, na Faed/Udesc, serão exibidos filmes feitos por indígenas no projeto Vídeo nas Aldeias. Todas as atividades são gratuitas. No sábado, o projeto Cinearth mostra o longa Terra Vermelha no Museu da Escola Catarinense, às 18h.

A II Mostra de Arte Indígena tem o objetivo de proporcionar ao grande público uma forma relacional e sensorial de conviver com os povos indígenas. Dessa forma, professores e estudantes poderão conhecer e conviver em atividades artísticas e pedagógicas com indígenas de dois povos, um do Acre e outro de Santa Catarina. Será uma oportunidade para que escolares desfaçam eventuais estereótipos que tenham de povos indígenas e sejam sensibilizados pela compreensão antropológica de que somos parte de um povo rico em diversidade social e cultural. A ideia é tornar comum e corrente palavras que parecem longe do vocabulário diário das escolas, como antropologia e povos ameríndios. É oferecer uma oportunidade para que o aprendizado se dê num ambiente relacional, estético e agradável.

As sociedades indígenas estão, assim como as não indígenas, em permanente movimento, elas se transformam, não são estáticas e congeladas, não vivem fora do tempo. Por exemplo, vários jovens indígenas navegam atualmente na internet, alguns têm acesso em suas comunidades; outros a usam nas cidades onde vivem; outros ainda, em cybercafés de alguma cidade próxima, e, alguns, não têm acesso. Eu fiz pesquisa com os Matis, um povo amazônico que vive na Terra Indígena Vale do Javari, próximo à tríplice fronteira Brasil, Colômbia e Peru. Nas aldeias onde morei no ano passado, para minha pesquisa de doutorado, fizemos muitas festas rituais, as nëix tanek, onde cantamos e dançamos, imitamos e inventamos animais. Essas fotos e músicas estarão na instalação Sensorialidades, junto ao trabalho de pesquisa e de imagens feitas por outros colegas antropólogos.

Às vezes, alguns Matis e eu íamos de canoa com motor de popa 8HP para a cidade de Atalaia do Norte, e a descida do rio demorava dois ou três dias. Lá, entrávamos na internet e os meninos e as meninas pediam que eu mostrasse como se posta fotos no Orkut. Um jovem editou meus filminhos da câmera digital para mostrar toda a construção de uma grande maloca comunal. Agora, alguns deles me escrevem mensagens e mandam notícias de lá sobre os parentes por meio de redes sociais. Esse é um dos tantos mundos indígenas que meus colegas e eu conhecemos de nossas pesquisas, nossas vidas e trabalhos de campo, e que são parte desse mundo rico e diverso em artes e povos do qual fazemos parte e tanto gostamos. É esse mundo da antropologia e de povos ameríndios que queremos compartir com vocês na II Mostra.

* Doutoranda em Antropologia Social – UFSC

Pesquisadora financiada pelo Instituto Nacional de Pesquisa Brasil Plural e Capes.

Morre o antropólogo baiano Vivaldo da Costa Lima

Morre o antropólogo baiano Vivaldo da Costa Lima

Considerado um dos mais importantes estudiosos da cultura afro-brasileira, o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, de 85 anos, morreu terça-feira (21) na Fundação Baiana de Cardiologia, em Salvador (BA), onde estava internado. Autor de obras fundamentais na área, como “A Família de Santo nos Candomblés Jejes-Nagôs da Bahia” (1977), Lima, natural de Feira de Santana, era odontólogo por formação, mas pouco exerceu a atividade.

Apaixonado pela influência africana na formação da cultura da Bahia, ele passou a se dedicar às pesquisas sobre o tema. Foi um dos fundadores do Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao) da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e assumiu a titularidade como professor de antropologia da instituição em 1966, depois de participar de estudos em universidades da Nigéria e de Gana.

Na década de 1970, exerceu o cargo de diretor-geral do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), tendo como foco ações de revitalização do Pelourinho. Nos últimos anos, Lima desenvolvia estudos sobre antropologia na alimentação, que planejava publicar. “Imagino quantos candomblés farão soar seus atabaques esta noite e pelos próximos dias”, disse o ministro da Cultura, Juca Ferreira, em nota de pesar divulgada na tarde de ontem. O antropólogo foi sepultado, no fim desta tarde, no Cemitério do Campo Santo, em Salvador. (Tiago Décimo – AE)

Fonte:Cruzeiro on-line

Antropologia Cultural e Franz Boas

“Antropologia Cultural” e Franz Boas

Autora: Paula Danielle Matheus

Na aula do dia 07/05, a professora Cecilia discutiu as origens da escola boasiana de antropologia cultural e explanou sobre o texto de Celso Casto, “Antropologia cultural”, que trata das concepções de Franz Boas, grande antropólogo considerado um dos fundadores da moderna antropologia.

Nascido na Prússia (atual Alemanha) em 1858 numa família judia, entrou para a universidade em 1877, porém como estudante de física. Insatisfeito, mais tarde tornou-se geógrafo, até descobrir sua afinidade com o meio etnográfico. Sua vida foi caracterizada por mudanças e não só nesse aspecto: nesse periodo da sua vida vivia numa ponte entre Berlim e Nova York, como também, nas constantes transições de empregos no mercado de trabalho.

O primeiro trabalho de Boas com aspectos antropológicos foi um estudo dos Esquimós (hoje conhecidos como Inuit ) da ilha de Baffin, no norte do Canadá, em meados do ano de 1883. Apesar de não ser correto considerar esse primeiro trabalho de Boas como uma passagem de sua posição de geógrafo para antropólogo, com certeza foi o primeiro passo. Passou um ano em Baffin, convivendo com a comunidade em diversas atividades do dia-a-dia, mas apesar disso, seu método era mais de um observador do que um pesquisador participante, até porque essa característica do método etnográfico só veio a se tornar chave da antropologia trinta anos depois, com Malinowski. Sua experiência com os Inuit gerou-lhe observações as quais o instigou a questionar e se opunhar a idéia de que a “boa sociedade” (a dos europeus) teria vantagem sobre as ditas sociedades “selvagens”. Mais tarde, fez outra expedição, agora para estudar os Kwakiutl (Caracterizados pelo Potlach). Seu objetivo principal era estudar a língua e os mitos nativos, como também, reunir objetos para coleções museológicas. Nesse trabalho, ele desenvolveu mais seu método de pesquisa empírico, apesar de passar apenas poucos meses com os habitantes. Ele procurava intelectuais nativos – conhecidos como informantes chaves – para saber de tudo o que lhe interessava na vida daquele povo. Fazia longas entrevistas e anotava tudo que podia e, por conseguinte, não participava da vida nativa. Essa outra forma de abordagem foi realizada porque Boas não ia à suas expedições sozinho, mas sim em grupos de pessoas – geralmente seus alunos – e dessa forma o tempo gasto na pesquisa seria menor.

A vida de antropólogo de Franz Boas foi marcada pelas críticas tanto à doutrina evolucionista quanto à difusionista, porém sem considerá-las completamente erradas. Foi em cima das críticas em relação a Morgan e outros evolucionistas, que Boas começou a fazer seu trabalho. Ele era contra o evolucionismo, pois acreditava na multiculturalidade e não na unilinearidade; e era contra o difusionismo mais radical, acreditando naquele mais tênue – que ocorre entre sociedades reais, ou seja, difusão de traços culturais entre sociedades históricas separadas por pequenas distâncias físicas e geográficas.

Boas defendia a importância de se realizar pesquisas empíricas tomando a antropologia como ciência – assim como fez Malinowski e Radcliffe-Brown. Entretanto, não seria a pesquisa científica de acordo com a linha das ciências naturais e sim a das ciências humanas (dessa vez contrária a concepção de Radcliffe-Brown). A diferença entre as duas formas deriva da diferença entre os seus objetos; por serem ‘cientificas’, ambas adotam uma postura de objetividade; entretanto, as ciências naturais estudam os fatos reais (objetivos) da natureza, enquanto as ciências humanas estudam (de um modo objetivo) a subjetividade própria dos seres humanos. O objetivo das ciências naturais é chegar a generalizações; em contraste, nas ciências humanas só se pode alcançar descrições bem particulares, uma vez que generalizar teoricamente sobre culturas é totalmente equivocado, enquanto naõ existe uma base empírica etnográfica e histórica solida.

A fonte dos estudos de Boas não era a antropologia física e sim a cultural (na sua formação em alemanha abordava questões folcloristas), mesmo que tenha feito estudos sobre a craniologia. Acreditava que a etnologia deveria ser baseada na história dos povos. Muitas vezes se referem à escola boasiana com o termo “particularismo histórico” – uma forma de criticar Boas, pois se concentrar em ‘particularismos’ não possibilita a teorização sobre a humanidade e a cultura como um todo. Mesmo que esse ponto de vista tem algum valor, seria mais justo com Boas a denominação de “historicismo cultural”. Ele queria entender a história, mas não chegar a ela cheio de pré-noções e pré-conceitos. Acreditava, também, que todo trabalho tem que ser feito, nada está pronto – É necessário ir a campo e procurar saber da cultura dos povos a partir dos informantes chaves, aos quais se perguntaria o passado daquela cultura – fazendo então as histórias culturais particulares. Queria uma história baseada nos fatos e era contra as grandes teorias históricas.

Um ponto forte do trabalho de Boas era ser contra o racismo científico e o etnocentrismo. Ele sempre tentou mostrar uma dissociação entre cultura e biologia. Mostrava que a genética não determinava o tamanho do crânio especificamente de acordo com cada povo: Isso era relativo e fez com que ele se tornasse contra os craniologistas do século XIX.

Boas ao longo da sua vida foi professor da Universidade de Columbia em Nova York. Em seus anos como docente conseguiu juntar um grupo de alunos afastados de preconceitos e com visão contra o racismo científico, o que ajudou muito à transmissão do seu trabalho e de seu posicionamento. Acreditava que esse grupo de estudantes deveria fazer uma antropologia de resgate, ou seja, ir a campo e pesquisar povos que estavam passando por um processo quase de extinção. Isso para Boas tinha caráter de urgência.

Dentre seus alunos espetaculares estavam Alfred Kroeber (1876 – 1960) e Robert Lowie (1883 – 1957). Outras alunas de Boas que se tornaram expoentes na antropologia norte americana foram Margaret Mead e Ruth Benedict. Elas fundaram a linha de pensamento boasiana chamada “Cultura e Personalidade”, aproximando psicologia e cultura. Acreditava-se que para estudar a cultura teria que se olhar também como que cada indivíduo age na sociedade – teoria um tanto contra as concepções de Durkheim.

Em decorrência do sucesso desses trabalhos realizados em prol da existência de “cultura(s)” e não “cultura”, e contra o racismo, que Boas se tornou o fundador da antropologia cultural norte-americana e que sua uma abordagem se tornou das mais bem aceitas e coerentes,. Seu legado nao está apenas presente nos seus escritos acerca de sua concepção de antropologia, e sim nos ensinamentos que transmitiu a seus alunos: os expoentes da antropologia norte-americana.

Antropologia – Resumo

Antropologia – Resumo

A Antropologia é a ciência que estuda o homem, sua evolução biológica ou física, cultural e social. Embora tenha sido consolidada como disciplina científica apenas no século XIX, suas raízes encontram-se alguns séculos antes com a “descoberta” de outros povos pelos descobridores e desbravadores. Assim, podemos dividir a história, ou evolução, da Antropologia de acordo com os seguintes períodos:

* Dos séculos XVI-XIX deu-se o período da “Literatura Etnográfica” quando predominaram os relatos sobre viagens onde eram mencionadas as características dos povos “descobertos” constituindo uma descrição de sua língua, raça, religião. As descrições eram feitas geralmente por missionários, viajantes, exploradores, etc. As características físicas e sociais de povos diferentes eram tratadas em conjunto nas teorias sobre “raças”;

* No fim do século XIX surge o “Evolucionismo Social” também chamado de “Racismo Científico” (por inserir o conceito de raça superior ou inferior) ou “Darwinismo Social”. É desenvolvido o conceito de que as sociedades evoluem de um estado mais “primitivo” para outro mais “civilizado”, porém é nesse período que sai de cena o conceito de “raça” substituído pelo de “cultura”;

* Ainda no século XIX surge a “Escola Sociológica Francesa” onde são definidas as regras do método sociológico (Émile Durkheim) e conceitos como a busca pelo “Fato Social Total”, as representações coletivas, etc.;

* No início do século XX o estudo das características sociais e culturais dos povos ganhou o nome de “Antropologia Social” na Inglaterra, “Antropologia Cultural” nos EUA e “Etnologia” na França, chegando ao patamar de disciplina científica autônoma.

* Na década de 20, é a vez da corrente teórica do “Funcionalismo” segundo a qual os valores sociais e culturais devem ser compreendidos. É nesta fase que predomina a ênfase no trabalho de campo;

* Na década de 30 predomina o “Culturalismo Norte-Americano” onde há a ênfase na identificação de padrões culturais (estilos de cultura);

* Nos anos 40, surge o “Estruturalismo” (do qual fez parte Lévi-Strauss) com a distinção entre natureza e cultura, os princípios da organização da mente, etc.;

* Nos anos 60, temos a “Antropologia Interpretativa” com profunda inspiração hermenêutica e desenvolvimento da interpretação antropológica;

* E, por fim, nos anos 80, a “Antropologia Pós-Moderna” ou “Crítica” com a “politização” da relação “observador-observado” e a crítica dos paradigmas teóricos.

Descobrindo Lévi-Strauss

Lévi-Strauss

Um dos grandes pensadores do século 20, Lévi-Strauss tornou-se conhecido na França, onde seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da antropologia. Filho de um artista e membro de uma família judia francesa intelectual, estudou na Universidade de Paris.De início, cursou leis e filosofia, mas descobriu na etnologia sua verdadeira paixão. No Brasil, lecionou sociologia na recém-fundada Universidade de São Paulo, de 1935 a 1939, e fez várias expedições ao Brasil central. É o registro dessas viagens, publicado no livro “Tristes Trópicos” (1955) que lhe trará a fama. Nessa obra ele conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do Brasil.

Exilado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foi professor nesse país nos anos 1950. Na França, continuou sua carreira acadêmica, fazendo parte do círculo intelectual de Jean Paul Sartre (1905-1980), e assumiu, em 1959, o departamento de Antropologia Social no college de France, onde ficou até se aposentar, em 1982.

O estudioso jamais aceitou a visão histórica da civilização ocidental como privilegiada e única. Sempre enfatizou que a mente selvagem é igual à civilizada. Sua crença de que as características humanas são as mesmas em toda parte surgiu nas incontáveis viagens que fez ao Brasil e nas visitas a tribos de índígenas das Américas do Sul e do Norte.

O antropólogo passou mais da metade de sua vida estudando o comportamento dos índios americanos. O método usado por ele para estudar a organização social dessas tribos chama-se estruturalismo. “Estruturalismo”, diz Lévi-Strauss, “é a procura por harmonias inovadoras”.

Suas pesquisas, iniciadas a partir de premissas lingüísticas, deram à ciência contemporânea a teoria de como a mente humana trabalha. O indivíduo passa do estado natural ao cultural enquanto usa a linguagem, aprende a cozinhar, produz objetos etc. Nessa passagem, o homem obedece a leis que ele não criou: elas pertencem a um mecanismo do cérebro. Escreveu, em “O Pensamento Selvagem”, que a língua é uma razão que tem suas razões – e estas são desconhecidas pelo ser humano.

Lévi-Strauss não vê o ser humano como um habitante privilegiado do universo, mas como uma espécie passageira que deixará apenas alguns traços de sua existência quando estiver extinta.

Membro da Academia de Ciências Francesa (1973), integra também muitas academias científicas, em especial européias e norte-americanas. Também é doutor honoris causa das universidades de Bruxelas, Oxford, Chicago, Stirling, Upsala, Montréal, México, Québec, Zaïre, Visva Bharati, Yale, Harvard, Johns Hopkins e Columbia, entre outras.

Aos 97 anos, em 2005, recebeu o 17o Prêmio Internacional Catalunha, na Espanha. Declarou na ocasião: “Fico emocionado, porque estou na idade em que não se recebem nem se dão prêmios, pois sou muito velho para fazer parte de um corpo de jurados. Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele – isso é algo que sempre deveríamos ter presente”. Atualmente, mora em Paris.

Lévi-Strauss, no terceiro tomo das “Mitológicas” – lógica dos mitos – elogia a filosofia moral dos ameríndios, diferente qualitativamente da moral ocidental contemporânea. Nossa filosofia moral desconsidera a relação dos homens com os outros seres vivos e com o mundo numa certa arrogância antropológica, como se fosse possível viver isolado da natureza. Conforme o etnólogo, os ameríndios mostram saber manter melhor a relação equilibrada – nem próximo demais nem afastado demais – com o cosmos, num equilíbrio q se exprime na organização dos ciclos, no cuidado com as estações, na sabedoria de fazer conviver os ritmos fisiológicos com a culinária.

O antropólogo percebe que o Islã funcionou como uma barreira de impedimento do encontro entre o budismo e o cristianismo.

“O budismo é a malha que falta na cadeia de nossa história: é o primeiro nó e o ultimo nó: nó que ao se desfazer desfaz a cadeia. A afirmação do sentido da historia culmina fatalmente em uma negação do sentido: entre a crítica marxista que libera o homem de suas primeiras cadeias e a critica budista que consuma a sua liberação, não há oposição nem contradição.” (Otávio Paz In: ‘Claude Lévi-Strauss ou o novo festim de Esopo’)

O desconhecimento da herança budista no Ocidente ajudou no afundamento deste em seu sonho de poder, tão improvável que pode levá-lo à autodestruição.

O mundo existia antes do homem e continuará existindo. LS tem uma visão desencantada sobre a perspectiva futura. Critico do progresso, o etnólogo foi ao Novo Mundo para descobrir na raiz o que o Velho Mundo está tendo que digerir com melancolia, segundo ele. A idade de ouro não esta na cultura nem na natureza, mas talvez entre elas. Reconta incansavelmente a historia q foi se compondo atravessando os mitos. Nada de novo. O futuro inscreve-se no passado. Este ponto é importante de ser entendido pra perceber como, nas demandas do futuro, deixa-se entrever o arcaísmo mais renitente.

Apesar de a vida humana ser breve antropologicamente, ainda vale lutar e dedicar uma vida contra as danações já possíveis de se precaver, como matar a beleza, prostituir o sentido, extirpar a pureza dos elementos. Mas, pra isso, precisa ter juízo e consciência ampla do todo em que o homem esta inserido.

Biografia de Claude Lévi-Strauss – Antropólogo francês, nascido na Bélgica

Claude Lévi-Strauss

Antropólogo francês, nascido na Bélgica

Um dos grandes pensadores do século 20, Lévi-Strauss tornou-se conhecido na França, onde seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da antropologia. Filho de um artista e membro de uma família judia francesa intelectual, estudou na Universidade de Paris.De início, cursou leis e filosofia, mas descobriu na etnologia sua verdadeira paixão. No Brasil, lecionou sociologia na recém-fundada Universidade de São Paulo, de 1935 a 1939, e fez várias expedições ao Brasil central. É o registro dessas viagens, publicado no livro “Tristes Trópicos” (1955) que lhe trará a fama. Nessa obra ele conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do Brasil.

Exilado nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foi professor nesse país nos anos 1950. Na França, continuou sua carreira acadêmica, fazendo parte do círculo intelectual de Jean Paul Sartre (1905-1980), e assumiu, em 1959, o departamento de Antropologia Social no College de France, onde ficou até se aposentar, em 1982.

O estudioso jamais aceitou a visão histórica da civilização ocidental como privilegiada e única. Sempre enfatizou que a mente selvagem é igual à civilizada. Sua crença de que as características humanas são as mesmas em toda parte surgiu nas incontáveis viagens que fez ao Brasil e nas visitas a tribos de índígenas das Américas do Sul e do Norte.

O antropólogo passou mais da metade de sua vida estudando o comportamento dos índios americanos. O método usado por ele para estudar a organização social dessas tribos chama-se estruturalismo. “Estruturalismo”, diz Lévi-Strauss, “é a procura por harmonias inovadoras”.

Suas pesquisas, iniciadas a partir de premissas lingüísticas, deram à ciência contemporânea a teoria de como a mente humana trabalha. O indivíduo passa do estado natural ao cultural enquanto usa a linguagem, aprende a cozinhar, produz objetos etc. Nessa passagem, o homem obedece a leis que ele não criou: elas pertencem a um mecanismo do cérebro. Escreveu, em “O Pensamento Selvagem”, que a língua é uma razão que tem suas razões – e estas são desconhecidas pelo ser humano.

Lévi-Strauss não vê o ser humano como um habitante privilegiado do universo, mas como uma espécie passageira que deixará apenas alguns traços de sua existência quando estiver extinta.

Membro da Academia de Ciências Francesa (1973), integra também muitas academias científicas, em especial européias e norte-americanas. Também é doutor honoris causa das universidades de Bruxelas, Oxford, Chicago, Stirling, Upsala, Montréal, México, Québec, Zaïre, Visva Bharati, Yale, Harvard, Johns Hopkins e Columbia, entre outras.

Aos 97 anos, em 2005, recebeu o 17o Prêmio Internacional Catalunha, na Espanha. Declarou na ocasião: “Fico emocionado, porque estou na idade em que não se recebem nem se dão prêmios, pois sou muito velho para fazer parte de um corpo de jurados. Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele – isso é algo que sempre deveríamos ter presente”.

Fonte: http://educacao.uol.com.br

Sexo e Temperamento

Conheça o livro: Sexo e Temperamento

Margaret Mead

Relato fascinante sobre a vida íntima de três povos primitivos da   Nova Guiné, resultado de uma longa e minuciosa pesquisa científica, que discute e põe em xeque conceitos tradicionais sobre masculino e feminino, abrindo caminho, pioneiramente, para a moderna revolução de mentalidade no modo de encará-los. Uma obra clássica da moderna pesquisa antropológica.

Biografia da autora

Antropóloga estadunidense nascida em Philadelphia, Pensilvannia, famosa pela forte personalidade e pelo rigor científico. Graduou-se (1923-1929) na Universidade de Colúmbia, em Nova York, onde estudou com o antropólogo Franz Boas (1858-1942), e trabalhou no Museu Americano de História Natural (1926-1969). Além de uma pesquisa de campo (1925), sobre a adolescência em Samoa, estudou os povos ágrafos da Oceania e complexas sociedades contemporâneas e foi pioneira na utilização da fotografia para documentação de pesquisa etnográfica. Seu interesse concentrou-se em vários aspectos da psicologia e da cultura, inclusive a infância e a adolescência, o condicionamento cultural do comportamento sexual, o caráter nacional e a mudança cultural. Casou-se com Gregory Bateson (1904-1980), filho do famoso genetecista inglês William Bateson (1861-1926), quando empreendiam uma famosa pesquisa junto aos nativos da ilha de Bali (1936-1939), da qual resultaria Balinese Character (1940), um marco na história da antropologia, da antropologia visual em especial. Separaram-se (1951), guardando, todavia, uma recíproca admiração e cumplicidade intelectual até suas mortes, ambas de câncer. Com Gregory escreveu 23 livros, entre eles Coming of Age in Samoa (1928), Growing Up in New Guinea (1930), Sex and Temperament in Three Primitive Societies (1935), Photographic Analysis (1942) e Male and Female (1949). Publicou também, uma autobiografia (1972) e foi eleita presidenta da Associação Americana para o Progresso da Ciência (1973). Morreu em New York.

UFMA – Mestrado Cultura e Sociedade

UFMA – Mestrado Cultura e Sociedade

A Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFMA informa que já se encontra disponível as inscrições para o Curso de Mestrado Interdisciplinar Cultura e Sociedade que vão até o dia 15 de setembro de 2009, no horário das 8h às 12h e das 14h às 18h, na Secretaria provisória do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade, na sala do Núcleo de Educação de Jovens e Adultos – NEJA, localizada no Centro de Ciências Sociais – CCSo, Bloco E, 3º andar, Sala 304, na Av. dos Portugueses, s/nº, Campus do Bacanga.

O curso é voltado para graduados em Ciências Humanas e Sociais ou áreas afins, serão oferecidas no máximo, 20 (vinte) vagas, a serem preenchidas por ordem de classificação dos aprovados, conforme as linhas de pesquisa do Programa e do corpo docente de orientação. O preenchimento de todas as vagas não é obrigatório

A seleção ocorrerá no período de 21 de setembro a 05 de outubro de 2009. A matrícula dos candidatos selecionados ocorrerá de 19 e 20 de outubro de 2009, no horário das 8h às 12h e das 14h às 18h, na Secretaria do Programa de Pós-Graduação Cultura e Sociedade.

O inicio do curso de Mestrado está previsto para 21 de outubro de 2009, podendo ser ministrado em turno matutino e vespertino.Outras informações poderão ser obtidas diretamente na Secretaria do Programa ou pelo telefone (98) 3301-8473.

Lugar: UFMASCOM
Fonte: Bruna Almeida/PPPG

EDITAL PPPG Nº.18/2009

A Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFMA informa que já se encontra disponível as inscrições para o Curso de Mestrado Interdisciplinar Cultura e Sociedade que vão até o dia 15 de setembro de 2009, no horário das 8h às 12h e das 14h às 18h, na Secretaria provisória do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade, na sala do Núcleo de Educação de Jovens e Adultos – NEJA, localizada no Centro de Ciências Sociais – CCSo, Bloco E, 3º andar, Sala 304, na Av. dos Portugueses, s/nº, Campus do Bacanga.

Donwload (copie e cole na barra de endereço do seu navegador) – http://www.ufma.br/editais/arquivos/editalpgcult2009.pdf

Pesquisadora acha instrumentos utilizado por chimpanzés

Reutilização de instrumentos por chimpanzés pode dar pistas sobre primeiros hominíneos – estudo

Lisboa, 30 Ago (Lusa) – Uma investigadora portuguesa que estuda os comportamentos dos chimpanzés em habitat natural considera que a reutilização dos mesmos instrumentos por esses primatas não humanos pode dar pistas sobre as tecnologias usadas pelos primeiros hominíneos.

Num estudo publicado na revista Animal Cognition, a primatóloga Susana Carvalho afirma que os chimpanzés têm preferências individuais pelas pedras que usam como bigornas e martelos para partir nozes, reutilizando-as sistematicamente, como provam marcas de uso muito evidentes.

“Este novo artigo resultou da continuação do trabalho realizado na Guiné-Conacri sobre a arqueologia de chimpanzés, para tentar perceber quais poderão ser os factores que estão na origem da emergência das tecnologias em humanos e não humanos”, disse a investigadora à Lusa.

O interessante, salienta Susana Carvalho, foi “verificar pela primeira vez que os chimpanzés não só utilizam estas ferramentas de pedra diariamente na Guiné, mas também as reutilizam preferencialmente, ou seja, têm preferências individuais pelos seus próprios quebra-nozes”.

Provam-no as marcas de uso deixadas nas ferramentas – do mesmo tipo das que se encontram nas escavações arqueológicas e são normalmente associadas à possibilidade de reutilização sistemática das mesmas ferramentas – e “uma espécie de sentimento de posse”, já que não deixam os outros indivíduos utilizá-las, sublinhou.

Na perspectiva da investigadora, tratar-se-ia de “um pequeno passo evolutivo que não é visível nos registos arqueológicos, em que a emergência do sentimento de posse das ferramentas e a reutilização dos mesmos pares de ferramentas pode ter originado os primeiros eventos acidentais de produção de outras ferramentas, neste caso as lascas muitas vezes produzidas quando os chimpanzés partem nozes”.

Num estudo anterior publicado na revista Nature, a equipa internacional em que Susana Carvalho trabalha propôs o alargamento da arqueologia ao estudo das ferramentas usadas pelos primatas não humanos e a criação de uma nova disciplina dedicada à evolução nessa área.

Na óptica destes investigadores, essa nova disciplina, a Arqueologia de Primatas, é essencial para conhecer melhor as origens e evolução das tecnologias e da cultura material e a importância do uso das ferramentas na ordem primatas.

Susana Carvalho está a fazer o doutoramento na Universidade de Cambridge (Reino Unido) em Primatologia (arqueologia de chimpanzés), mas mantém a sua ligação ao Centro de Investigação de Antropologia e Saúde do Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra, onde a professora Eugénia Cunha é sua co-orientadora e mentora.

Como trabalho de campo para o doutoramento, acabou de chegar de uma estada de oito meses em Bossou, na República da Guiné, onde estuda a utilização das ferramentas de pedra pelos chimpanzés para partir nozes, comparando-a com as primeiras indústrias de pedra conhecidas dos primeiros hominíneos que viveram no Plio-Pleistoceno (há 2,6 milhões a 1,5 milhões de anos).

A comunidade de chimpanzés de Bossou é única no mundo, porque estes são os únicos que utilizam martelos e bigornas de pedra transportáveis, o que pode mais facilmente originar o desenvolvimento desta tecnologia rudimentar.

CM

Lusa/fim

Justiça garante demarcação de território indígena no Maranhão

Justiça garante demarcação de território indígena no Maranhão

SÃO LUÍS – A pedido do Ministério Público Federal no Maranhão (MPF-MA), a Justiça Federal determinou à Fundação Nacional do Índio (Funai) e à União a demarcação da Área Indígena Awá-Guajá e a retirada de todos os não-índios da região no prazo de 180 dias. O MPF vai pedir a execução imediata da sentença, para assegurar o direito do povo indígena até que sejam julgados possíveis recursos.

Na sentença, o Juiz José Carlos do Vale Madeira, da 5ª vara da Justiça Federal no Maranhão, determinou que a União efetue a demarcação de acordo com os termos da portaria nº 373/92 e do Laudo Antropológico elaborado pela perita oficial em Antropologia Eliane Cantarino O’Dwyer (Universidade Federal Fluminense), procedendo também a homologação e registro imobiliário da área, que fica nos municípios de Zé Doca e São João do Caru (MA).

A decisão determina ainda que a União efetue a remoção de todas as pessoas que se encontrarem no interior da Área Indígena Awá-Guajá, assim como a retirada de construções, cercas, estradas ou quaisquer obras existentes dentro da área demarcada. A União deverá ainda colocar placas de aviso ao longo de todo o perímetro e divulgar os trabalhos de demarcação perante a comunidade em geral.

Os Awá-Guajá são um dos últimos povos caçadores e coletores do Brasil, com um estilo de vida nômade, baseado em rotas tradicionais que interligam cerca de seis ou sete grupos que vivem autonomamente.

Inicialmente, os Awá-Guajá dividiam a terra indígena Caru com os povos Tenetehara/Guajajara. Mas isso se tornou insustentável, já que a presença dos dois povos na mesma área ocasionava tensões recorrentes que motivaram a demarcação do território Awá-Guajá, nas proximidades da Reserva Florestal do Gurupi e da Área Indígena Alto Turiaçu, maior terra indígena do Maranhão. Ainda persistem, no entanto, dentro do território destinado aos Awá, atividades de criação de gado, extração de madeira e agricultura por parte de madeireiros, fazendeiros e habitantes de povoados que se instalaram em seu entorno.

Recentemente, foi registrada ação de madeireiros efetuando derrubada de mata a menos de três quilômetros de algumas aldeias, limitando seriamente o deslocamento dos Awá e interferindo negativamente sobre o seu modo de vida. Em virtude dessas e outras interferências, os grupos Awá estão entrando em “processo de semi-sedentarização”, ou seja, modificação de seus hábitos nômades, como a caça e a coleta, para o estabelecimento dos grupos em locais fixos, tendo a agricultura como nova fonte de sustento, o que tem alterado até mesmo a forma de construção de suas moradias, causando drásticas alterações em seu estilo de vida.

Devido ao avanço das invasões em seu território, os Awá estão sendo levados à modificarem seu modo de vida, o que têm provocado profundo impacto na população Awá-Guajá. O grupo enfrenta dificuldades decorrentes da modificação em seus hábitos alimentares e até mesmo problemas de desequilíbrio demográfico, ocasionado pelo isolamento dos grupos em regiões específicas do território por conta das restrições de deslocamento.

Antropologia e história: Uma troca de olhares

Antropologia e história: Uma troca de olhares 

Jorge Carvalho para CINFORM

Ninguém questionaria seriamente nos dias atuais a necessidade do diálogo entre a Antropologia e a História. A força desse diálogo aparece no impacto da Antropologia sobre a História, principalmente quando a primeira faz com que esta última entenda a importância das diferenciações.

Do mesmo modo que a importância de uma pesquisa antropológica não depende – como diria Malinowski – da relevância da tribo ou comunidade estudada, mas sim dos resultados mais gerais que se podem extrair de uma pesquisa, o estudo de um moleiro perseguido pela Inquisição ou de um grupo de heréticos será ou não relevante, dependendo das relações que houver entre ele e elementos mais gerais. (PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. As muitas faces da história. Nove entrevistas. São Paulo, Editora UNESP, 2000:94).

Antropologia e História são pensadas hoje, efetivamente, como disciplinas que mantêm relações necessárias e excludentes, com afastamentos e aproximações, porém cada uma com uma história que lhe é muito própria. Ambas preocupadas com o desvendamento da própria sociedade que as concebeu.

A Antropologia, tantas vezes dita ‘filha do colonialismo’, se começou por calcionar os ideais societários europeus, tem permitido que a ‘linha típica’ e modelar do desenvolvimento mediterrâneo, ainda muito imbricada nas teorias sociológicas e na cronologia ideal que a historiografia reifica ao dar suporte aos curricula mínimos da educação primária e superior seja desnaturalizada (LIMA, Antônio Carlos de Souza & VIANNA, Adriana de Resende Barreto. “História, Antropologia e relações de poder – algumas considerações em torno de saberes e Fazeres sobre o social”, in MALERBA, Jurandir (Org.). A velha história. Teoria, Método e historiografia. Campinas, SP, Papirus, 1996:128).

Em seus primórdios, a Antropologia estabeleceu-se como sendo uma disciplina de caráter global que conseguia reunir ademais dos traços biológicos fortes características históricas e sócio-culturais. Seu olhar estava completamente dirigido ao passado, face às suas fortes relações com a Arqueologia. Todo o sortilégio de especulações a respeito da cultura e da vida social dos humanos se esgotava na biologia, na condição de ser natureza do homem, reduzindo toda a cultura a um problema biológico ou climático. As diferenciações tinham o caráter meramente geográfico ou, no máximo, racial. Assim era possível entender todo e qualquer comportamento, fosse ele criminal ou simplesmente desviante – para usar uma linguagem ao gosto da Antropologia do início do século XX.

O que se convencionou chamar progresso ou atraso de um povo estava dado pela raça e pelo clima. Vale mencionar, para o caso brasileiro, dois importantes antropólogos do século XIX: o Conde de Gobineau, que discutiu com o Imperador Pedro II as enormes desvantagens de uma população mestiça e negra que inviabilizava a modernização do país; ou, a posição de Louis Agassiz, professor da Universidade de Harvard, que fez previsões extremamente pessimistas para o Brasil:

A mistura de raças era um grave perigo a ser evitado, provocando demora na formação da raça pura, que deveria ser a verdadeira espinha dorsal da nação.( DA MATTA, Roberto. “Antropologia”, in SILVA, Benedito (Coord.). Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1986:58).

Em linhas gerais, assim foi o discurso da Antropologia até a sua modernização nas primeiras décadas do século XX, trabalho de antropólogos como Franz Boas, Malinowski e Radcliffe-Brown. O caso de Franz Boas é particularmente importante para as ciências humanas brasileira, em face da enorme importância que este exerceu sobre o pensamento de Gilberto Freyre, a quem orientou na Universidade Colúmbia, em Nova York, antes que o brasileiro escrevesse o clássico Casa Grande e Senzala. Hebreu imigrado para o Estados Unidos, Boas fazia uma Antropologia criteriosa, exaustiva, sempre assustado com o fantasma de Lewis Morgan. Etnólogo norte-americano dos mais acurados, Morgan sofreu um grande processo de discriminação depois de reconstituir em Ancient Society as etapas evolutivas das sociedades humanas, inspirando-se na evolução das espécies de Darwin. Toda a carga de preconceito e de ódio dos antievolucionistas e contra-revolucionários que habitavam o universo do liberalismo norte-americano foi lançada contra Morgan depois que seu livro foi reescrito por Engels com o título de Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado.

Sucesso editorial, o livro de Engels serviu para que muitos líderes operários comunistas vaticinassem o próximo epílogo do capitalismo e da propriedade privada. Discípulo de Morgan, Franz Boas encolheu-se e passou a trabalhar com seus alunos, assumindo uma postura de extrema discrição e zelo no discurso antropológico, buscando sempre se afastar de generalizações e teorizações mais ousadas e escondendo-se do evolucionismo. Manteve, contudo, uma forte oposição ao racismo e ao colonialismo próprios da Antropologia européia. Como alternativa a ela, buscou um culturalismo que se opôs às teorias evolucionistas mas que também exacerbou o seu relativismo. Foi com Franz Boas que Gilberto Freyre entusiasmou-se com a etnografia e realizou os seus estudos reunindo uma vasta documentação; também aprendeu a contestar as generalizações deterministas.

O quadro geral que os antropólogos conheceram na primeira metade do século XX foi o da incorporação da influência exercida por Durkheim e a necessidade de interpretar sociedades que se transformavam radicalmente. Tom Bottomore indica que desde o início da década de 1960 houve, na verdade, um desenvolvimento notável da antropologia marxista, que assumiu duas direções principais. Na América do Norte surgiu uma antropologia dialética radical que rejeita a distinção entre ‘primitivo’ e ‘civilizado’ em termos de inferior e superior, vê a antropologia como uma busca do ser humano ‘natural’ e atribui ao antropólogo o papel de um crítico permanente de sua própria civilização.(…) A segunda vertente importante da recente antropologia marxista é a dos estruturalistas franceses, cujas idéias foram modeladas em parte pela antropologia estruturalista de Lévi-Strauss e, em parte, pelos escritos metodológicos de Althusser. (BOTTOMORE, Tom (Org.). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988:12-13).

Na verdade, as preocupações e as pressões em favor da descolonização muito contribuíram para que o estruturalismo se desenvolvesse. O discurso da Etnologia estava descobrindo o interesse que as outras civilizações apresentam. A descoberta do outro possibilitava transformar a relativização do eurocentrismo em verdade humana. A Antropologia já conseguira, bem antes disso, romper com o paradigma biologista ou racista – apesar das dificuldades para supera-lo e eventualmente ainda ouvir-se uma ou outra voz queixar-se das três raças tristes que constituíram o Brasil, responsabilizando-as pelas mazelas sociais. Mesmo porque, até quase a metade deste século boa parte das discussões sobre sociedade e cultura nas Américas girava em torno da questão racial, atribuindo-se a algumas raças supostamente “puras” a capacidades de desenvolver mais atividades que levam ao desenvolvimento social, enquanto outras raças eram acusadas de rejeição da ordem, do progresso, do civismo, enfim daquilo que era tido como organização.

A escala evolucionária adotada ia dos que se diziam mais adiantados aos mais atrasados; dos países brancos da Europa Ocidental aos países mestiços das Américas. Discurso que, de resto, servia para justificar algumas posições políticas que buscavam, através de medidas autoritárias, exercer o controle social. O certo é que a abordagem estruturalista possibilitou a antropólogos como Godelier a distinção entre os métodos funcionalista, estruturalista e marxista, produzindo a crítica ao funcionalismo pelo seu empirismo, pela noção de interdependência funcional que exclui problemas de causalidade e pela concepção de equilíbrio; o próprio estruturalismo de Lévi-Strauss foi criticado pela sua concepção da História como uma mera sucessão de fatos acidentais; e, por fim, fazendo o elogio do marxismo ao qual atribuiu o reconhecimento da existência de estruturas reais.

Ainda no século XIX a Antropologia dividira-se em Antropologia Física e Antropologia Biológica. A primeira dedicava-se a medir estaturas, índices cranianos e faciais, buscando classificar as raças; a segunda preocupava-se com a biologia animal, sociologia animal, evolução biológica do homem, o estudo genético das populações. Foi através desse processo que se iniciou a separação entre homem e natureza, alterando-se a própria concepção de espécie que passou a admitir as variações genéticas dentro de uma mesma população. Cada vez mais eram feitas aproximações daquilo que viria a constituir-se em Antropologia Cultural.

Essa separação entre antropologia biológica e antropologia cultural (ou social) foi muito importante. Ela exprime, sem dúvida, a descoberta da cultura (e da sociedade) como fenômenos humanos singulares, dotados de lógica e autonomia próprias, que poderiam variar independentemente do plano biológico ou geográfico. (DA MATTA, 1986:58).

DO PRINCIPIO E ORIGEM DOS ÍNDIOS DO BRASIL E DE SEUS COSTUMES, ADORAÇÃO E CEREMONIAS

DO PRINCIPIO E ORIGEM DOS ÍNDIOS DO BRASIL E DE SEUS COSTUMES, ADORAÇÃO E CEREMONIAS

Fernão Cardim

Este gentio parece que não tem conhecimento do principio do Mundo, do di­lúvio parece que tem alguma noticia, mas como não tem escripturas, nem caracteres, a tal noticia é escura e confusa; porque dizem que as aguas afogarão e matarão to­dos os homens, e que somente um escapou em riba de um Janipaba, com uma sua irmã que estava prenhe, e que estes dois têm seu principio, e que dali começou sua multiplicação.

DO CONHECIMENTO QUE TEM DO CREADOR

Este gentio não tem conhecimento algum de seu Creador, nem de cousa do Céo, nem se ha pena nem gloria depois desta vida, e portanto não tem adoração nenhuma nem ceremonias, ou culto divino, mas sabem que têm alma e que esta não morre 1 e depois da morte vão a uns campos onde ha muitas figueiras ao longo de um formoso rio, e todas juntas não fazem outra cousa senão bailar; e têm grande medo do demônio, ao qual chamam Curupira, Taguaigba 2, Macachera, Anhanga, e é tanto o medo que lhe têm, que só de imaginarem nelle morrem, como aconteceu já muitas vezes; não no adorão, nem a alguma outra creatura, nem têm ídolos de nenhuma sorte, somente dizem alguns antigos que em alguns caminhos têm certos postos, aonde lhe offerecem algumas cousas pelo medo que têm delles, e por não morrerem. Algumas vezes lhe apparecem os diabos, ainda que raramente, e entre elles ha poucos endemoniados.

Usão de alguns feitiços, e feiticeiros, não porque creião nelles, nem osadorem, mas somente se dão a chupar em suas enfermidades, parecendolhes que receberão saúde, mas não por lhes parecer que ha nelles divindade, e mais o fazem por receber saúde que por outro algum respeito. Entre elles se alevantarão algumas vezes alguns feiticeiros, a que chamão Caraiba, Santo ou Santidade, e é de ordinário algum índio de ruim vida: este faz algumas feitiçarias, e cousas estranhas á natureza, como mos­trar que ressuscita a algum vivo que se faz morto, e com esta e outras cousas similhantes traz após si todo o sertão enganandoos dizendolhes que não rocem, nem

1 “And they say that the soules are converted into devils.” (Purchas, IV, 12891290). 2 Taguain, Pigtangua (Purchas, ib.) Knivet dá ainda outro nome do diabo, que é Avasaly em Purchas e Avassaty na tradução portuguesa do dr. José Hygino Duarte Pereira, na Revista do Instituto Histórico, tomo XLI, parte 1a, p. 230.

 

plantem seus legumes, e mantimentos, nem cavem, nem trabalhem, etc, por que com sua vinda é chegado o tempo em que as enxadas por si hão de cavar, e os pâni­cas 3 ir ás roças e trazer os mantimentos, e com esta falsidade os traz tão embebidos, e encantados, deixando de olhar por suas vidas, e grangear os mantimentos que, morrendo de pura fome, se vão estes ajuntamentos desfazendo pouco a pouco, até que a Santidade fica só, ou a matão.

Não têm nome próprio com que expliquem a Deus, mas dizem que Tupã é o que faz os trovões 4 e relâmpagos, e que este é o que lhes deu as enxadas, e manti­mentos, e por não terem outro nome mais próprio e natural, chamão a Deus Tupã.

DOS CASAMENTOS

Entre elles ha casamentos, porém ha muita duvida se são verdadeiros, assim por terem muitas mulheres, como pelas deixarem facilmente por qualquer arrufo, ou outra desgraça, que entre elles aconteça; mas, ou verdadeiros ou não, entre elles se fazião deste modo. Nenhum mancebo se acostumava casar antes de tomar contra­rio, e perseverava virgem até que o tomasse e matasse correndolhe primeiro suas festas por espaço de dous ou três annos; a mulher da mesma maneira não conhecia homem até lhe não vir sua regra, depois da qual lhe fazião grandes festas; ao tempo de lhe entregarem a mulher fazião grandes vinhos, e acabada a festa ficava o casamento perfeito, dandolhe uma rede lavada 5, e depois de casados começavão a beber, por­que até ali não o consentião seus pais, ensinandoos que bebessem com tento, e fos­sem considerados e prudentes em seu falar, para que o vinho lhe não fizesse mal, nem falassem cousas ruins, e então com uma cuya lhe davão os velhos antigos o pri­meiro vinho, e lhe tinhão a mão na cabeça para que não arrevessassem, porque se arrevessava tinhão para si que não seria valente, e viceversa.

 

DO MUNDO QUE TÊM EM SEU COMMER E BEBER

Este gentio come em todo o tempo, de noite e de dia, e a cada hora e momen­to, e como tem que comer não o guardão muito.tempo, mas logo comem tudo o que têm e repartem com seus amigos, de modo que de um peixe que tenhão repar­tem com todos, e têm por grande honra e primor serem liberaes, e por isso cobrão muita fama e honra, e a peior injuria que lhes podem fazer é teremnos por escassos, ou chamaremlho, e quando não têm que comer são muito soffridos com fome e sede.

3 Beasts. (Purchas, ib.)

4 “They say Tupan is the thunder and lightning”. (Purchas, ib.)

5 “And afhey they were laid, the father tooke e a wedge of stone and did cut upon a post or stake, then they say hee did cut the talles from the grand children and therefore they were borne without them”. (Purchas, ib.)

 

Não têm dias em que comão carne e peixe; comem todo gênero de carnes, ainda de animaes immundos, como cobras, sapos, ratos, e outros bichos similhantes, e também comem todo gênero de fructas, tirando algumas peçonhentas, e sua susten­tação é ordinariamente do que dá a terra sem a cultivarem, como caças e fructas; porém têm certo gênero de mantimentos de boa substancia, e sadio, e outros muitos legumes de que abaixo se fará menção. De ordinário não bebem emquanto comem, mas depois de comer bebem água, ou vinho que fazem de muitos gêneros de fructas e raizes, como abaixo se dirá, do qual bebem sem regra, nem modo e até caírem.

Têm alguns dias particulares em que fazem grandes festas, todas se resolvem em beber, e durão dous, três dias, em os quaes não comem, mas somente bebem6, e para estes beberes serem mais festejados andão alguns cantando de casa em casa, chamando e convidando quantos achão para beberem 7, e revesandose continuao estes bailos e musica todo o tempo dos vinhos, em o qual tempo não dormem, mas tudo se vae em beber, e de bêbados fazem muitos desmanchos, e quebrão as cabeças uns aos outros, e tomão as mulheres alheias, etc. Antes de comer nem depois não dão graças a Deus, nem lavão as mãos antes de comer, e depois de comer as alimpão aos cabellos, corpo e paus; não têm toalhas, nem mesa, comem assentados, ou deita­dos nas redes, ou em cocaras no chão, e a farinha comem de arremesso, e deixo outras muitas particularidades que têm no comer e beber, porque estas são as principaes.

 

DO MODO QUE TÊM EM DORMIR

Todo este gentio tem por cama umas redes de algodão, e ficão nellas dormindo no ar; estas fazem lavradas, e como no ar, e não tem outros cobertores nem roupa, sempre no verão e inverno tem fogo debaixo: não madrugão muito, agazalhãose com cedo, e pelas madrugadas ha uni principal em suas ocas 8 que deitado na rede por espaço de meia hora lhes prega, e admoesta que vão trabalhar como fizerão seus antepassados, e destribuelhes o tempo, dizendolhes as cousas que hão de fazer, e depois de alevantado continua a pregação, correndo a povoação toda. Tomarão este modo de um pássaro que se parece com os falcões o qual canta de madrugada e lhe chamam rei, senhor dos outros pássaros, e dizem elles que assim como aquelle pás­saro canta de madrugada para ser ouvido dos outros, assim convém que os princi­paes facão aquellas falas e pregações de madrugada para serem ouvidos dos seus.

6 “And there be men that emptie e whole vessel of wine”. (Purchas, ib.) 7 “And be merrie.” (Purchas, ib.) 8 Faltam estas palavras em Purchas.

 

 

DO MODO QUE TÊM EM SE VESTIR

Todos andam nus assim homens como mulheres, e não têm gênero nenhum de vestido e por nenhum caso verecundant, antes parece que estão no estado de innocencia nesta parte, pela grande honestidade e modéstia que entre si guardão, e quando algum homem fala com mulher viralhe as costas. Porém para sairem galantes, usão de varias invenções, tingindo seus corpos com certo sumo de uma arvore 9 com que ficam pretos, dando muitos riscos pelo corpo, braços, etc, a modo de imperiaes 10.

Também se empennão, fazendo diademas e bracelletes, e outras invenções muito lustrosas, e fazem muito caso de todo gênero de pennas finas. Não deixão crear cabello nas partes de seu corpo, porque todos os arrancão, somente osda cabeça deixão, os quaes tosquião de muitas maneiras, porque uns o trazem comprido com uma meia lua rapada por diante, que dizem tomarão este modo de S. Thomé, e pa­rece que tiverão delle alguma noticia, ainda que confusa. Outros fazem certo gênero de coroas e círculos que parecem frades: as mulheres todas têm cabellos compridos e de ordinario pretos, e de uns e outros é o cabello corredio; quando andão anojados deixão crescer o cabello, e as mulheres quando andão de dó, cortão os cabellos, e também quando os maridos vão longe, e nisto mostrão teremlhe amor e guardaremlhe lealdade; é tanta a variedade 11 que têm em se tosquiarem, que pela cabeça se conhecem as nações.

Agora já andão alguns vestidos, assim homens como mulheres, mas estimãono tão pouco que o não trazem por honestidade, mas por ceremonia, e porque lho mandão trazer, como se vê bem, pois alguns saem de quando em quando com umas jornes que lhes dão pelo umbigo sem mais nada, e outros somente com uma carapu­ça na cabeça, e o mais vestido deixão em casa: as mulheres fazem muito caso de fitas e pentes.

 

DAS CASAS

Usão estes Índios de umas ocas ou cascas de madeira cobertas de folha 12, e são de comprimento algumas de duzentos e trezentos palmos, e têm duas e três por­tas muito pequenas e baixas; mostrão sua valentia em buscarem madeira e esteios muito grossos e de dura, e ha casa que tem cincoenta, sessenta ou setenta lanços de 25 ou 30 palmos13 de comprido e outros tantos de largo.

Nesta casa mora um principal, ou mais, a que todos obedecem, e são de ordi­nário parentes; e em cada lanço destes pousa um casal com seus filhos e familia, sem haver repartimento entre uns e outros, e entrar em uma destas casas é ver 14 um lavarinto, porque cada lanço tem seu fogo e suas redes armadas, e alfaias, de modo que entrando nella sé vê tudo quanto tem, e casa ha que tem duzentas e mais pessoas.

9 “Of certaine fruite”. (Purchas, ib.)

10 “Many white stroakes, after the fashion of round hose, and other kinde of garments”. (Purchas, ib.)

11 Vanitie. (Purchas, ib)

12 Palme tree leaues. (Purchas, ib.)

13 Quarters. (Purchas, ib.)

14 To enter. (Purchas, ib.)

 

DA CREAÇÃO DOS FILHOS

As mulheres parindo, (e parem no chão), não levantão a creança, mas levantaa o pai, ou alguma pessoa que tomão por seu compadre, e na amizade ficão como os compadres entre os Christãos;o pai lhe corta a vide com os dentes,ou com duas pedras, dando com uma na outra, e logo se põe a jejuar até que lhe cae o umbigo, que é de ordinário até os oito dias, e até que não lhe caia não deixam o jejum, e em lhe cain­do, se é macho lhe faz um arco com frechas, e lho ata no punho da rede, e no outro punho muitos molhos d’ervas, que são os contrários que seu filho ha de matar e co­mer, e acabadas estas ceremonias fazem vinhos com que alegrão todos. As mulheres quando parem logo se vão lavar aos rios, e dão de mamar á creança de ordinário anno e meio, sem lhe darem de comer outra cousa; amão os filhos extraordinaria­mente, e trazemnos mettidos nuns pedaços de redes que chamão typoya 15 e os levão às roças e a todo o gênero de serviço, às costas, por frios e calmas, e trazemnos como ciganas escanchados no quadril, e não lhes dão nenhum gênero de castigo 16 . Para lhes não chamarem os filhos 17 têm muitos agouros, porque lhe põem algodão sobre a cabeça, penna de pássaros e paus, deitãonos sobre as palmas das mãos, e roçãonos por ellas para que creção. Estimão mais fazerem bem aos filhos que a si próprios, e agora estimão muito e amão os padres, porque lh’os crião e ensinão a ier, escrever e contar, cantar e tanger, cousas que elles muito estimão.

DO COSTUME QUE TÊM EM AGASALHAR OS HOSPEDES

Entrandolhe algum hospede pela casa a honra e agazalho que lhe fazem é chora­remno: entrando, pois, logo o hospede na casa o assentão na rede, e depois de assentado, sem lhe falarem, a mulher e filhas e mais amigas se assentam ao redor, com os cabellos baixos, tocando com a mão na mesma pessoa, e começão a chorar todas em altas vozes, com grande abundância de lagrimas, e ali contão em prosas trovadas quantas cousas têm acontecido desde que se não virão até aquella hora, e outras muitas que imaginão, e trabalhos que o hospede padeceu pelo caminho, e tu­do o mais que pôde provocar a lastima e choro. O hospede neste tempo não fala pa­lavra, mas depois de chorarem por bom espaço de tempo limpão as lagrimas, e ficão tão quietas, modestas, serenas e alegres que parece nunca chorarão, e logo se saudão, e dão o seu Ereiupe !s, e lhe trazem de comer, etc; e depois destas cerimonias con­tão os hospedes ao que vêm. Também os homens se chorão uns aos outros, mas é em casos alguns graves, como mortes, desastres de guerras, etc; têm por grande hon­ra agazalharem a todos e daremlhe todo o necessário para sua sustentação, ealgumas

15 Tupyia. (Purchas, ib.)

16 “That their children may not crie”. (Purchas, ib.) 17 Faltam estas palavras em Purchas. 18 Or welcome. (Purchas, IV, p. 1.292).

 

peças, como arcos, frechas, pássaros, pennas e outras cousas, conforme a sua pobre­za, sem algum gênero de estipendio.

DO COSTUME QUE TÊM EM BEBER FUMO

Costumão estes gentios beber fumo de petigma por, outro nome erva santa; esta seção e fazem de uma folha de palma uma canguera, que fica como canudo de canna cheio desta herva, e pondolhe o fogo na ponta metem o mais grosso na boca, e assim estão chupando e bebendo aquelle fumo, e o têm por grande mimo e regallo, e deitados em suas redes gastão em tomar estas fumaças parte dos dias e das noites. A alguns faz muito mal, e os atordoa e embebeda; a outros faz bem e lhes faz deitar muitas reimas pela boca. As mulheres também o bebem, mas são as velhas e enfer­mas, porque é elle muito medicinal, principalmente para os doentes de asthma, ca­beça ou estômago, e daqui vem grande parte dos Portuguezes beberem este fumo, e o têm por vicio, ou por preguiça, e imitando os índios gastão nisso dias e noites.

 

DO MODO QUE TÊM EM FAZER SUAS ROÇ ARIAS E COMO PAGÃO UNS AOS OUTROS

Esta nação não tem dinheiro com que possão satisfazer aos serviços que lhes fazem, mas vivem comutatione rerum e principalmente a troco de vinho fazem quanto querem, assim quando hão de fazer algumas cousas, fazem vinho e avisando os visinhos, e apelidando toda a povoação lhes rogão os queirão ajudar em suas roças, o que fazem de boa vontade, e trabalhando até as 10 horas tornão para suas casas a beber os vinhos, e se aquelle dia se não acabam as roçarias, fazem outros vinhos e vão outro dia até as 10 horas acabar seu serviço; e deste modo usão os brancos prudentes19, e que sabem a arte e maneira dos índios, e quanto fazem por vinho, por onde lhes mandão fazer vinhos, e os chamão às suas roças e canaveaes, e com isto lhes pagão.

Também usão de ordinário, por troco de algumas cousas 20, de contas bran­cas que se fazem de búzios, e a troco de alguns ramaes dão até as mulheres, e este é o resgate ordinário de que usão os brancos para lhes comprarem os escravos e escra­vas que têm para comer.

DAS JÓIAS E METARAS

Usão estes índios ordinariamente, principalmente nas festas que fazem, de colares de búzios, de diademas de pennas e de umas metaras 21 (pedras que metem no beiço de baixo) verdes, brancas, azues, muitas finas e que parecem esmeraldas ou cristal, são redondas e algumas tão compridas que lhe dão pelos peitos, e ordinário

19 Or Portugal. (Purchas, ib.) 20 To change some things for. (Purchas, ib.) 21 Broaches. (Purchas, ib.)

 

é em os grandes principaes terem um palmo e mais de comprimento: também usão de maniihas brancas dos mesmos búzios, e nas orelhas metem umas pedras brancas de comprimento de um palmo e mais, e estes outros similhantes são os arreios com que se vestem em suas festas, quer sejão em matanças dos contrários, quer de vinhos, e estas são as riquezas que mais estimão que quanto têm.

 

DO TRATAMENTO QUE FAZEM ÁS MULHERES E COMO AS ESCUDEIRÃO

Costumão estes Indios tratar bem ás mulheres, nem lhes dão nunca, nem pelejão com ei Ias, tirando em tempo de vinhos, porque então de ordinario se vingão deilas, dando por desculpa depois o vinho que beberão e logo f icão amigos como dan­tes, e não durão muito os ódios entre elles, sempre andão juntos e quando vão fora a mulher vai de traz e o marido diante para que se acontecer alguma cilada não caia a mulher nella, e tenha tempo para fugir emquanto o marido peleja com o contra­rio, etc, mas á tornada da roça ou qualquer outra parte vem a mulher diante, e o marido de traz, porque como tenha já tudo seguro, se acontecer algum desastre pos­sa a mulher que vai diante fugir para casa, e o marido ficar com os contrários, ou qualquer outra cousa. Porem em terra segura ou dentro na povoação sempre a mu­lher vai diante, e o marido de traz, porque são ciosos e querem sempre ver a mulher.

 

DOS SEUS BAILOS E CANTOS

Ainda que são malencolicos, têm seus jogos, principalmente os meninos, muito vários e graciosos, em os quaes arremedão muitos gêneros de pássaros, e com tanta festa e ordem que não ha mais que pedir, e os meninos são alegres e dados a folgar e folgão com muita quietaçáo e amizade, que entre elles não se ouvem nomes ruins, nem pulhas, nem chamarem nomes aos pais e mães, e raramente quando jogão se desconcertão, nem desavêm por causa alguma, e raramente dão uns nos outros, nem pelejão; de pequeninos os ensinão os pais a bailar e cantar e os seus bailos não são differenças de mudança, mas é um continuo bater de pés estando quedos, ou andan­do ao redor e meneando o corpo e cabeça, e tudo fazem por tal compasso :2, com tanta serenidade, ao som de um cascavel feito ao modo dos que usão os meninos em Espanha, com muitas pedrinhas dentro ou umas certas sementes de que também fazem muito boas contas, e assim bailão cantando juntamente, porque não fazem uma cousa sem outra, e têm tal compasso e ordem, que às vezes cem homens bailan­do e cantando em carreira, enfiando uns detraz dos outros, acabão todos juntamen­te uma pancada, como se estivessem todos em um lugar; são muito estimados entre elles os cantores, assim homens como mulheres, em tanto que se to mão um contra­rio bom cantor e inventor de trovas, por isso lhe dão a vida e não no comem nem aos filhos. As mulheres bailão juntamente com os homens, e fazem com os braços e corpo grandes gatimanhas e momos, principalmente quando bailão sós. Guardão

22 And pleasantnesse as can be desired. (Purchas, IV, p. 1.293)

 

entre si diferenças da vozes em sua consonância, e de ordinário as mulheres levão os tiples, contraltos e tenores.

DOS SEUS ENTERRAMENTOS

São muito mavíosos 23 e principalmente em chorar os mortos, e logo como algum morre os parentes se lanção sobre elle na rede e tão depressa que ás vezes os afogão antes de morrer, parecendolhes que está morto, e os que se não podem deitar com o morto na rede se deitão pelo chão dando grandes baques, que parece milagre não acabarem com o mesmo morto, e destes baques e choros ficão tão cortados que às vezes morrem. Quando chorão dizem muitas lastimas e magoas, e se morre a pri­meira noite 24, toda ella em peso chorão em alta voz, que é espanto não cançarem.

Para estas mortes e choros chamão os vizinhos e parentes, e se é principal, ajuntase toda a aldeia a chorar, e nisto têm também seus pontos de honra, e aos que não cho­rão lanção pragas, dizendo que não hão de ser chorados: depois de morto o lavão, e pin­tao muito galante, como pintão os contrários, e depois o cobrem de fio de algodão que não lhe parece nada, e lhe metem uma cuya 25 no rosto, e assentado o metem em um pote que para isso têm debaixo da terra, e o cobrem de terra, fazendolhe uma casa, aonde todos os dias lhe levão de comer, porque dizem que como cança de bai­lar, vem ali comer, e assi os vão chorar por algum tempo todos os dias seus paren­tes, e com elle metem todas as suas jóias e metaras 26, para que as não veja ninguém, nem se lastime; mas o defunto tinha alguma peça, como espada, etc, que lhe havião dado, torna a ficar do que lha deu, e a torna a tomar onde quer que a acha, porque dizem que como um morre perde todo o direito do que lhe tinhão dado. Depois de enterrado o defunto os parentes estão em continuo pranto de noite e de dia, come­çando uns, e acabando outros; não comem senão de noite, armão as redes junto dos telhados, e as mulheres ao segundo 27 dia cortão os cabellos, e dura este pranto to­da uma lua, a qual acabada fazem grandes vinhos para tirarem o dó, e os machos se tosquião, e as mulheres se enfeitão tingindose de preto, e estas ceremonias e outras acabadas, começão a communicar uns com os outros, assim homens como as mulhe­res; depois de lhes morrerem seus companheiros, algumas vezes, não tornam a casar, nem entrão em festas de vinhos, nem se tingem de preto, porém isto é raro entre elles, por serem muito dados a mulheres, e não podem viver sem ellas.

23 Wicked. (Purchas, ib.)

24 At avening. (Purchas, ib.)

25 Couering. (Purchas, ib.)

26 Broaches. (Purchas. ib.)

27 After twentie daies. (Purchas, ib.)

 

DAS FERRAMENTAS DE QUE USÃO

Antes de terem conhecimento dos Portuguezes usavão de ferramentas e instru­mentos de pedra, osso, pau, cannas, dentes de animal, etc, e com estes derrubava grandes matos com cunhas de pedra, ajudandose do fogo; assim mesmo cavavão a terra com uns paus agudos e faziam suas metaras 28, contas de búzios, arcos e fle­chas tão bem feitos como agora fazem, tendo instrumentos de ferro, porém gastavão muito tempo a fazer qualquer cousa, pelo que estimão muito o ferro pela facilidade que sentem em fazer suas cousas com elle, e esta é a razão porque folgão com a communicação dos brancos 29.

 

DAS ARMAS DE QUE USÃO

As armas deste gentio o ordinário são arcos e frechas e delles se honrão muito, e os fazem de boas madeiras, e muito galantes, tecidos com palma de varias cores, e lhes tingem as cordas de verde ou vermelho, e as frechas fazem muito galantes, bus­cando para ellas as mais formosas pennas que achão; fazem estas frechas de varias cannas, e na ponta lhes metem dentes de animaes ou umas certas cannas muito du­ras e cruéis, ou uns paus agudos com muitas farpas, e ás vezes as ervas com peçonha.

Estas frechas ao parecer, parece cousa se zombaria, porém é arma cruel; passão umas couraças de algodão, e dando em qualquer pau o abrem pelo meio, e acontece passarem um homem de parte a parte, e ir pregar no chão: exercitãose de muito pe­quenos nestas armas, e são grandes frecheiros e tão certeiros que lhes não escapa passarinho por pequeno que seja, nem bicho do mato, e não tem mais que quererem meter uma frecha por um olho de um pássaro, ou de um homem, ou darem em qual­quer outra cousa, por pequena que seja, que o não facão muito ao seu alvo, e por isso são muito temidos, e tão intrépidos e ferozes que mete espanto. São como bi­chos do mato, porque entrão pelo sertão a caçar despidos e descalços sem medo nem temor algum.

Vêem sobre maneira, porque á légua enxergão qualquer cousa, e da mesma maneira ouvem; atinão muito; regendose pelo sol, vão a todas as partes que querem, duzentas e trezentas léguas, por matos espessos sem errar ponto, andão muito, e sempre, de galope, e principalmente com cargas, nenhum a cavalo os pôde alcançar: são grandes pescadores e nadadores, nem temem mar, nem ondas, e aturão um dia e noite nadando, e o mesmo fazem remando e ás vezes sem comer.

Também usão por armas de espadas de pau, e os cabos dellas tecem de palma de varias cores e os empennao com pennas de varias cores, principalmente em suas festas e matanças: estas espadas são cruéis, porque não dão ferida, mas pisão e quebrão a cabeça de um homem sem haver remédio de cura.

28 Broaches. (Purchas, ib.)

29 The Portuyais. (Purchas, ib.)

30 And of their creating Gentlemen. (Purchas, IV, p. 1.294

 

DO MODO QUE ESTE GENTIO TEM ACERCA DE MATAR E COMER CARNE HUMANA 30

De todas a honras e gostos da vida, nenhum é tamanho para este gentio como matar e tomar nomes nas cabeças de seu contrários, nem entre elles ha festas que cheguem ás que fazem na morte dos que matão com grandes ceremonias, as quaes fazem desta maneira. Os que tomados na guerra vivos são destinados a matar, vêm logo de lá com um signal, que é uma cordinha delgada ao pescoço, e se é homem que pôde fugir traz uma mão atada ao pecoço debaixo da barba, e antes de entrar na povoações que ha pelo caminho os enf eitão, depennandolhes as pestanas e sobran­celhas e barbas, tosquiandoos ao seu modo, e empennandoos com pennas amarellas tão bem assentadas que lhes não apparece cabello: as quaes os fazem tão lustrosos como aos Espanhoes os seus vestidos ricos, e assim vão mostrando sua victoria por onde quer que passão. Chegando á sua terra, o saiem a receber as mulheres gritando e juntamente dando palmadas na boca, que é recebimento commum entre elles, e sem mais outra vexação ou prisão, salvo que lhes tecem no pescoço um colar redondo como corda de boa grossura, tão dura como pau, e neste colar começão de urdir grande numero de braças de corda delgada de comprimento de cabellos de mulher, arremata­da em cima com certa volta, e solta em baixo, e assim vai toda de orelha a orelha por detraz das costas e ficão com esta coleira uma horrenda cousa; e se é fronteiro e pôde fugir, lhe põem em lugar de grilhões por baixo dos giolhos uma pea de fio de tecido muito apertada, a qual para qualquer faca fica fraca, se não fossem as guardas que nenhum momento se apartão delle, quer vá pelas casas, quer para o mato, ou ande pelo terreiro, que para tudo tem liberdade, e commumente a guarda é uma que lhe dão por mulher, e também para lhe fazer de comer, o qual se seus senhores lhe nao dão de comer, como é costume, toma um arco e frecha e atira á primeira galinha ou pato que vê, de quem quer que seja, e ninguém lhe vai á mão, e assim vai engordando, sem por isso perder o somno, nem o rir e folgar como os outros, e algunsandão tão contentes com haverem de ser comidos, que por nenhuma via consentirão ser resgatados para servir, porque dizem que é triste cousa morrer, e ser fedorento e comido de bichos. Estas mulheres são commumente nesta guarda fieis, porque lhes fica em honra, e por isso são muitas vezes moças e filhas de príncipe, maxime se seus irmãos hão de ser os matadores, porque as que não têm estas obrigações muitas vezes se afeiçoão a elles de maneira que não somente lhes dão azo para fugirem, mas também se vão com elles; nem ellas correm menos riscos se as tornão a tomar que de levarem umas poucas de pancadas, e ás vezes são comidas dos mesmos a quem derão a vida.

Determinado o tempo em que ha de morrer, começam as mulheres a fazer louça, a saber: panellas, alguidares, potes para os vinhos, tão grandes que cada um levará uma pipa; isto prestes, assim os principaes como os outros mandão seus men­sageiros a convidar outros de diversas partes para tal lua, até dez, doze léguas e mais, para o qual ninguém se excusa. Os hospedes vêm em magotes com mulheres e filhos, e todos entrão no lugar com. danças e bailos, e em todo o tempo em que se junta a gente, ha vinho para os hospedes, porque sem elle todo o mais agazalhado não pres­ta; a gente junta, começão as festas alguns dias antes^onforme ao numero, e certas cerimonias que precedem, e cada uma gasta um dia.

Primeiramente têm elles para isto umas cordas de algodão de arrazoada gros­sura, não torcidas, se não tecidas de um certo lavor galante; é cousa entre elles de muito preço, e não nas têm senão alguns principaes, e segundo ei Ias são primas, bem feitas, e elles vagorosos 31, é de crer que nem em um anno se fazem: estas estão sem­pre muito guardadas, e levãose ao terreiro com grande festa e alvoroço dentro de uns alguidares, onde lhes dá um mestre disto dous nós, por dentro dos quaes com força corre uma das pontas de maneira que lhes fica bem no meio um laço; estes nós são galantes e artificiosos, que poucos se achão que os saibão fazer, porque têm algu­mas dez voltas e as cinco vão por cima das outras cinco, como se um atravessasse os dedos da mão direita por cima dos da esquerda, e depois a tingem com um polme de um barro branco como cal e deixãonas enxugar.

O segundo dia trazem muito feixes de cannas bravas de comprimento de lan­ças e mais, e á noite poemnos em roda em pé, com as pontas para cima, encostados uns nos outros, e pondolhes ao fogo ao pé se faz uma formosa e alta fogueira, ao redor da qual andão bailando homens e mulheres com maços de frechas ao hombro, mas andão muito depressa, porque o morto que ha de ser, que os vê melhor do que é visto por causa do fogo, atira com quanto acha, e quem leva, leva, e com o são muitos, poucas vezes erra.

Ao terceiro dia fazem uma dança de homens e mulheres, todos com gaitas de cannas e batem todos á uma no chão ora com um pé, ora com outro, sem discreparem, juntamente e ao mesmo compasso assoprão os canudos, e não ha outro cantar nem falar, e como são muitos e as cannas umas mais grossas, outras menos, além de atroarem os matos, fazem uma harmonia que parece musica do inferno, mas elles aturão nellas como se fossem as mais suaves do mundo; e estas são suas festas, afora outras que entremeiem com muitas graças e adivinhações.

 

31 Their taking pleasure. (Purchas, IV, p. 1.295)

 

Ao quarto dia, em rompendo a alva, levão o contrário a lavar a um rio, e vãose detendo para que, quando tornarem, seja já dia claro, e entrando pela aldea, o preso vai já com olho sobre o hombro, porque não sabe de que casa ou porta lhe ha de sair um valente que o ha de aterrar por detraz, porque, como toda sua bemaventurança consiste em morrer como valente, e a ceremonia que se segue é já das mais propinquas á morte, assim como o que ha de aterrar mostra suas forças em só elle o subjugar sem ajuda de outrem, assim elle quer mostrar animo e forças em lhe resis­tir; e às vezes o faz de maneira que, afastandose o primeiro como cansado em luta, lhe succede outro que se tem por mais valente homem, os quaes ás vezes ficão bem enxovalhados, e mais o ficarião, se já a este tempo o captivo não tivesse a pêa ou grilhões. Acabada esta luta elle em pé, bufando de birra e cansaço com o outro que o tem aterrado, sae com coro de nymphas que trazem um grande alguidar novo pin­tado, e nelle as cordas enroladas e bem alvas, e posto este presente aos pés do capti­vo, começa uma velha como versada nisto e mestra do coro a entoar uma cantiga que as outras ajudão, cuja letra e conforme a ceremonia, emquanto ellas cantão os homens to mão as cordas, e metido o laço no pescoço lhe dão um nó simples junto dos outros grandes, para que se não possa mais alargar, e feita de cada ponta uma roda de dobras metem no braço á mulher que sempre anda detraz delle com este peso e se o peso é muito pelas cordas serem grossas e compridas, dãolhe outra que traga uma das rodas, e se elle dantes era temeroso com a coleira, mais o fica com aquelles dous nós tão grandes no pescoço da banda detraz, e por isso diz um dos pés de cantiga: nós somos aquellas que fazemos estirar o pescoço ao pássaro, posto que depois de outras ceremonias lhe dizem noutro pé:

Si tu foras papagaio, voando nos fugiras.

 

A este tempo estão os potes de vinho postos em carreira pelo meio de uma ca­sa grande, e como a casa não tem repartimentos, ainda que seja de 20 ou 30 braças de comprido, está atulhada de gente, e tanto que começão a beber é um lavarinto ou inferno velos e ouvilos, porque os que bailão e cantão aturão com grandíssimo fervor quantos dias e noites os vinhos durão: porque, como esta é a própria festa das matanças, ha no beber dos vinhos muitas particularidades que durão muito, e a cada passo ourinão, e assim aturão sempre, e de noite e dia cantão e bailão, bebem e fallão cantando em magotes por toda a casa;de guerras e sortes que fizerão, e como cada um quer que lhe oução a sua história, todos fallão a quem mais alto, afora outros estrondos, sem nunca se calarem, nem por espaço de um quarto de hora. Aquella. manhã que começão a beber enfeitão o captivo por um modo particular que para isso têm, a saber: depois de limpo o rosto, e quanta penugem nelle ha, o untão com um leite de certa arvore que pega muito, e sobre elle põem um certo pó de umas cascas de ovo verde de certa ave do mato, e sobre isto o pintão de preto com pinturas ga­lantes, e untando também o corpo todo até a ponta do pé o enchem todo de penna, que para isto têm já picada e tinta de vermelho, a qual o faz parecer a metade mais grosso, e a cousa do rosto o faz parecer tanto maior e luzente, e os olhos mais peque­nos, que fica uma horrenda visão, e da mesma maneira que elles têm pintado o ros­to, o está também a espada, a qual é de pau ao modo de uma palmatória, senão que a cabeça não é tão redonda, mas quasi triangular, e as bordas acabão quasí em gume, e a haste, que será de 7 ou 8 palmos, não é toda roliça, terá junto da cabeça 4 dedos de largura e vem cada vez estreitando até o cabo, onde tem uns pendentes ou cam­painhas de penna de diversas cores, é cousa galantes e de preço entre elles, elles lhe chamão Ingapenambin, orelhas da espada. 0 derradeiro dia dos vinhos fazem no meio do terreiro uma choça de palmas ou tantas quantos são os que hão de morrer, e naquella se agazalha, e sem nunca mais entrar em casa, e todo o dia e noite é bem ser­vido de festas mais que de comer, porque lhe dão outro conducto senão uma fructa que tem sabor de nozes, para que ao outro dia não tenha muito sangue.

Ao quinto dia pela manhã, ali ás sete horas pouco mais ou menos, a compa­nheira o deixa, e se vai para casa muito saudosa e dizendo por despedida algumas lastimas pelo menos fingidas; então lhe tirão a peia e lhe passão as cordas do pesco­ço á cinta, e posto em pé á porta do que o ha de matar, sae o matador em uma dan­ça, feito alvo como uma pomba com barro branco, e uma 32 a que chamão capa de

32 Garment. (Purchas, IV, p. 1.296).

 

penna, que se ata pelos peitos, e ficãolhe as abas para cima como azas de Anjo, e nesta dança dá uma volta pelo terreiro e vem fazendo uns esgares extranhos com olhos e corpo, e com as mãos arremeda o minhoto que desce á carne, e com estas diabru­ras chega ao triste, o qual tem as cordas estiladas para as ilhargas e de cada parte um que o tem, e o captivo, se acha com que atirar, o faz de boa vontade, e muitas vezes lhe dão com que, porque lhe saem muitos valentes, e tão ligeiros em furtar o corpo que os não póde acertar. Acabado isto, vem um honrado33, padrinho do novo cavalleiro que ha de ser, e tomada a espada lh’a passa muitas vezes por entre as pernas, metendoa ora por uma parte ora por outra da própria maneira que os cachorrinhos dos sanfonineiros, lhe passão por entre as pernas, e depois tornandoa pelo meio com ambas as mãos aponta com uma estocada aos olhos do morto 34 , e isto feito lhe vira a cabeça para cima da maneira que delia hão de usar, e a mete nas mãos do matador, já como apta e idônea com aquellas bênçãos para fazer seu officio para o qual se põe algum tanto ao lado esquerdo, de tal geito que com o gume da espada lhe acerta no toutiço, porque não tira a outra parte 35,eé tanta a bruteza destes que, por não temerem outro mal senão aquelle presente tão inteiros estão como se não fosse nada, assim para fallar, como para exercitar as forças, porque depois de se despedirem da vida com dizer que muito embora morra, pois muitos tem mortos, e que alem disso cá ficão seus irmãos e parentes para o vingarem, e nisto aparelhase um para furtar o corpo, que é toda a honra de sua morte. E são nisto tão ligeiros que muitas vezes é alto dia sem o poderem matar, porque em vindo 36 a espada pelo ar, ora desvia a cabeça, ora lhe furta o corpo, e são nisto tão terríveis que se os que têm as pontas das cordas o apertão, como fazem quando o matador é frouxo, elles37 tão rijo que os trazem a si e os fazem afrouxar em que lhes pese, tendo um olho nelles e outro na espada, sem nunca estarem quedos, e como o matador os não pude enga­nar ameaçando sem dar, sob pena de lhe darem uma apupada, e elles lhe adivinhão o golpe, de maneira que, por mais baixo que venha, num assopro se abatem e fazem tão rasos que é cousa extranha, e não é menos tomarem a espada aparandolhe o braço por tal arte que sem lhe fazerem nada correm com ella juntamente para baixo e ó metem de baixo do sovaco tirando pelo matador, ao qual, se então não acudissem, o outro o despacharia, porque têm elles neste acto tantos agouros que para matar um menino de cinco annos vão tão enfeitados como para matar algum gigante, e com estas ajudas ou afouteza tantas vezes dá, até que acerta algumas e esta basta, porque tanto que elle cae lhe dá tantas até lhe que lhe quebra a cabeça, posto que já se vio um que a tinha tão dura, que nunca lha puderão quebrar, porque como a trazem sempre descuberta, têm as cabeças tão duras que as nossas em comparação deltas fi­cão como de cabaças, e quando querem injuriar algum branco lhe chamão cabeça molle.

33 Honoroble ludge. (Purchas, ib.)

34 Of the man which is to die. (Purchas, ib.)

35 For he striketh at another place. (Purchas, ib.)

36 When he sees. (Purchas, ib.)

37 Heepuls. (Purchas, íb.)

 

Se este que matarão ao cair cae de costas, e não de bruços, temno por grande agouro e prognostico que o matador ha de morrer, e ainda que caia de bruços têm muitas ceremonias, as quaes se se não guardao têm para si que o matador não pode vi­ver; e são muitas dellas tão penosas que se alguém por amor de Deus sofresse os seus trabalhos não ganharia pouco, como abaixo se dirá. Morto o triste, levãono a uma fogueira que para isto está prestes, e chegando a ella, em lhe tocando com a mão dá uma pellinha pouco mais grossa que véo de cebola, até que todo fica mais limpo e alvo que um leitão pellado, e então se entrega ao carniceiro ou magarefe, o qual lhe faz um buraco abaixo do estômago, segundo seu estyio, por onde os meninos primeiro metem a mão e tirão pelas tripas, até que o magarefe corta por onde quer, e o que lhe fica na mão é o quinhão de cada um, e o mais se reparte pela communidade, sal­vo algumas partes principaes que por grande honra, se dão aos hospedes mais honra­dos, as quaes elles levão muito assadas, de maneiras que não se corrompão, e sobre ellas depois em suas terras fazem festas e vinhos de novo.

DAS CEREMONIAS QUE SE FAZEM AO NOVO CAVALLEIRO

Acabando o matador de fazer seu officio, lhe fazem a elle outro desta manei­ra: tirada a capa de penna, e deixada a espada, se vai para casa, á porta da qual o está esperando o 38 mesmo padrinho que foi com um arco de tirar a mão, a saber, as pontas uma no lumiar de baixo e a outra em cima, e tirando pela corda como quem quer atirar, o matador passa por dentro tão subtilmente que não toca em nada, e em elle passando, o outro alarga a corda com um signal de pezar, porque errou o a que atirava, como que aquillo tem virtude para depois da guerra o fazer ligeiro, e os ini­migos o errarem; como é dentro começa de ir correndo por todas as casas, e as irmans e primas da mesma maneira diante delle dizendo: “meu irmão se chama A.” repe­tindo por toda a aldea, e se o Cavalleiro tem alguma cousa boa, quem primeiro anda lha toma até ficar sem nada. Isto acabado tem pelo chão lançados certos paus de pi­lão 9, sobre os quaes elle está em pé aquelle dia com tanto silencio, como que dera o pasmo nelle, e levandoihe ali a apresentar a cabeça do morto, tiramlhe um olho, e com as raizes ou nervos delle lhe untão os pulsos, e cortada a boca inteira lha me­tem no braço como manilha, depois se deita na sua rede como doente, e na verdade elle o está de medo, que se não cumprir perfeitamente todas as ceremonias, o ha de matar a alma do morto. D’ali a certos dias lhe dão o habito, não no peito do pellote, que elle não tem, senão na própria pelle, sarrafaçandoo por todo o corpo com um dente de cutia que se parece com dente de coelho, o qual, assim por sua pouca subtileza, como por elles terem a pelle dura, parece que rasgão algum pergaminho, e se elles são animosos não lhe dão as riscas direitas, senão cruzadas, de maneira que ficão uns lavores muito primos, e alguns gemem e gritão com as dores.

38The same iudge or stickler. (Purchas, IV, P. 1.297)
39Certaine legges of a certame Tree, called Pilan (Purchas, ib)

 

Acabado isto, tem carvão moido e sumo de erva moura com que elles esfregão as riscas ao travez, fazendoas arreganhar e inchar, que é ainda maior tormento, e em quanto lhe sarão as feridas que durão alguns dias, está elle deitado na rede sem falar nem pedir nada, e para não quebrar o silencio tem a par de si agua e farinha e certa fructa como amêndoas, que chamão mendobis 41, porque não prova peixe nem carne aquelles dias.

Depois de sarar, passados muitos dias ou mezes, se fazem grandes vinhos para elle tirar o dó e fazer o cabello, que até alli não fez, e então, se tinge de preto, e dali por diante fica habilitado para matar sem fazerem a elleceremonia que seja trabalhosa, e elle se mostra também nisso honrado ou ufano, e com um certo desdém, como quem tem já honra, e não a ganha de novo, e assim não faz mais que dar ao outro um par de pancadas, ainda que a cabeça fique inteira e elle bulindo, vaise para casa, e a este açodem logo a lhe cortar a cabeça, e as mães com os meninos ao collo lhe dão os parabéns, estreamos para a guerra tingindolhes os braços com aquelle sangue: estas são as façanhas, honras, valentias, em que estes gentios tomão nomes de que se prezão muito, e ficão dali por diante Abaétés, Murubixaba, Moçacara, que são títu­los e nomes de cavaleiros: e estas são as infelizes festas, em que estes tristes antes de terem conhecimento de seu Creador põem sua felicidade e glória.

DA DIVERSIDADE DE NAÇÕES E LÍNGUAS

Em toda esta província ha muitas e varias nações de differentes línguas, porém uma é a principal que comprehende algumas dez nações de índios: estes vivem na costa do mar, e em uma grande corda do sertão, porém são todos estes de uma só língua ainda que em algumas palavras discrepão e esta é a que entendem os Portuguezes; é fácil, e elegante, e suave, e copiosa, a diff iculdade delia está em ter muitas composições42; porem dos Portuguezes, quasi todos os que vêm do Reino e estão cá de assento e communicação com os índios a sabem em breve tempo, e os filhos dos Portuguezes cá nascidos a sabem melhor que os Portuguezes, assim homens co­mo mulheres, principalmente na Capitania de São Vicente, e com estas dez nações de índios têm os Padres communicação por lhes saberem a lingua, e serem mais domésticos e bem inclinados: estes forão e são os amigos antigos dos Portuguezes, com cuja ajuda e armas, conquistarão esta terra, pelejando contra seus próprios parentes, e outras diversas nações barbaras e erão tantos os desta casta que parecia impossível poderemse extinguir, porem os Portuguezes lhes têm dado tal pressa que quasi todos são mortos e lhes têm tal medo, que despovoão a costa e fogem pelo sertão a dentro até trezentas a quatrocentas leguas.

 

40 Broamerape.(Purchas, ib.) 41 Amenduins. (Purchas, ib.) 42 Comparisons. (Purchas, ib.) 43 Pitiguaras. (Purchas, ib.)

 

Os primeiros desta lingua se chamão Potyguaras 43 senhores da Parahiba, 30 léguas de Pernambuco, senhores do melhor pau do Brasil e grandes amigosdos Francezes, e com elies contratarão até agora, casando com elles suas filhas; mas agora na era de 84 foi a Parahiba tomada por Dipgo Flores, General de Sua Magestade, botando os Francezes fora, e deixou um forte com cem soldados, afora os Portuguezes, que tam­bém têm seu Capitão e Governador Fructuoso Barbosa, que com a principal gente de Pernambuco levou exercito por terra com que venceu os inimigos, porque do mar os da armada não pelejarão.

Perto destes vivia grande multidão de gentio que chamão Viatã, destes já não ha nenhuns, porque sendo elles amigos dos Potyguaras 44 e parentes os Portuguezes os fizerão entre si inimigos, dandolhos a comer, para que desta maneira lhes pudes­se fazer guerra e telos por escravos, e finalmente, tendo uma grande fome, os Por­tuguezes em vez de lhes acodir, os captivarão e mandarão barcos cheio a vender a outras Capitanias: ajuntouse a isto um clérigo Portuguez Mágico, que com seus enga­nos os acarretou todos os a Pernambuco, e assim se acabou esta nação, e ficando os Portuguezes sem vizinhos que os defendessem dos Potyguaras 45 , os quaes até agora que forão desbaratados, perseguirão os Portuguezes dandolhes de supito nas roças, fazendas, e engenhos, queimandolhos, e matando muita gente portugueza, por se­rem muito guerreiros; mas já pela bondade de Deus estão livres deste sobroço.

Outros ha a que chamão Tupinahas: estes habitão do Rio Real até junto dos ilhéos; estes entre si erão também contrários, os da Bahia com os do Camamu e Tinharê46.

Por uma corda do R io de São Francisco vivia outra nação a que chamavão Caaété, e também havia contrários 47 entre estes e os de Pernambuco.

Dos Ilhéos, Porto Seguro até Espírito Santo habitava outra nação, que chama­vão Tupinaquim; estes procederão dos de Pernambuco e se espalharão por uma cor­da do sertão, mulpiplicando grandemente, mas já são poucos; estes forão sempre muitos inimigos das cousas de Deus, endurecidos em seus erros, porque erão vingati­vos e querião vigarse comendo seus contrários e por serem amigos de muitas mulhe­res: já destes ha muitos christão e são firmes na fé.

Ha outra nação parentes destes, que corre do sertão de São Vicente até Per­nambuco, a que chamão Tupiguae: estes erão sem numero, vãose acabando, porque os Portuguezes os vão buscar para se servirem delles, e os que lhes escapão fogem para muito longe, por não serem escravos. Ha outra nação vizinha a estes, que chamão Apigapigtanga e Muriapigtanga. Também ha outra nação contraria aos Tupinaquins, que chamão Guaracaio ou Itati.

44 Pitiguaras. (Purchas, ib.) 45 Pitiguaras. (Purchas, ib.) 46 Intrare. (Purchas, IV, p. 1.298) 47 Contrarieties. (Purchas, ib.) 48 Timimino. (Purchas, ib.)

 

Outra nação mora no Espirito Santo a que chamão Tegmegminó 48 : erão con­trários dos Tupinaquins, mas já são poucos. Outra nação que se chama Tamuya, moradores do Rio de Janeiro, estes destruirão os Portuguezes quando povoarão o Rio, e delles ha muitos poucos, e alguns que ha no sertão se chamão Ararape.

Outra nação se chama Carijo: habitão além de São Vicente como oitenta léguas, contrários dos Tupinaquins de São Vicente; destes ha infinidade e correm pela costa do mar e sertão até o Paraguay, que habitão os Castelhanos. Todas estas nações aci­ma ditas, ainda que diferentes, e muitas dellas contrarias umas das outras, têm a mesma lingua, e nestes se faz a conversão, e tem grande respeito aos Padres da Com­panhia e no sertão suspirão por elles, e lhes chamão Abarê e Pai, desejando 49 a suas terras convertelos, e é tanto este credito que alguns Portuguezes de ruim consciên­cia se fingem Padres, vestindose em roupetas, abrindo coroas na cabeça, e dizendo que são Abarês e que os vão buscar para as igrejas dos seus pais, que são os nossos, os trazem enganados, e em chegando ao mar os repartem entre si, vendem e ferrão, fazendo primeiro nelles lá no sertão grande mortandade, roubos e saltos, tomandoIhes as filhas e mulheres, etc, e se não forão estes e semelhantes estorvos já todos os desta lingua forão convertidos á nossa santa fé.

Ha outras nações contrarias e inimigas destas, de differentes línguas, que em nome geral se chamão Tapuya, e também entre si são contrarias; primeiramente no sertão vizinho aos Tupinaquins habitão os Guaimurês50, e tomão algumas oitenta léguas de costa, e para o sertão quanto querem, são senhores dos matos selvagens, muito encorpados, e pela continuação e costume de andarem pelos matos bravos tem os couros muito rijos, e para este effeito açoutão os meninos em pequenos com uns caídos para se acostumarem a andar pelos matos bravos; não têm roças, vivem de rapina e pela ponta de frecha, comem a mandioca crua sem lhes fazer mal, e correm muito e aos brancos não dão senão de salto, usão de uns arcos muito gran­des, trazem uns paus feitiços muito grossos51, para que em chegando logo quebrem as cabeças. Quando vêm á peleja estão escondidos debaixo de folhas, e dali fazem a sua e são mui temidos, e não ha poder no mundo que os possa vencer; são muito covardes em campo, e não ousão sair, nem passão água, nem usão de embarcações, nem são dados a pescar; toda a sua vi venda é do mato; são cruéis como leões; quan­do tomão alguns contrários cortãolhe a carne com uma canna de que fazem as frechas, e os esfolão, que lhes não deixão mais que os ossos e tripas: se tomão alguma criança e os perseguem, para que lha não tomem viva lhe dão com a cabeça em um pau, desentranhâo as mulheres prenhes para lhes comerem os filhos assados. Estes dão muito trabalho em Porto Seguro, llhéos e Camamu, e estas terras se vão despo­voando por sua causa; não se lhes pode entender a lingua.

Alem destes, para o sertão e campos de Caatinga vivem muitas nações Tapuyas, que chamão Tucanuço 52, estes vivem no sertão do Rio Grande pelo direito de Porto Seguro; têm outra lingua, vivem no sertão antes que cheguem ao Aquitigpe e chamãose Nacai 53. Outros ha que chamão Oquigtajuba. Ha outra nação que chamão Pahi: estes se vestem de panno de algodão muito tapado e grosso como rede, com este se cobrem como com saio, não tem mangas; têm differente lingua. No Ari ha outros que também vivem no campo indo para o Aquitigpe. Há outros que cha­mão Parahió, é muita gente e de differente lingua.

49 Thye would come to. (Purchas, ib.) 50 Guamures. (Purchas, ib.)

51 Certaine stones made a purpose verie bigge. (Purchas, ib.)
52 Tunacunu. (Purchas, IV, p. 1.299)

 

Outros que chamão Nhandeju 54, também de differente lingua. Ha outros que chamão Macutü. Outros Napara; estes têm roças. Outros que chamão Cuxaré; estes vivem no meio do campo do sertão. Outros que vivem para a parte do sertão da Ba­hia que chamão Guayaná, têm lingua por si. Outros pelos mesmo sertão, que chamão TaicuyQ vivem em casas, têm outra lingua. Outros no mesmo sertão, que chamão Cariri 55, têm lingua differente: estas três nações e seu vizinhos são amigos dos Portuguezes. Outros que chamão Pigrü, vivem em casas. Outros que chamão Obacoatiára, estes vivem em ilhas no Rio de São Francisco, têm casas como cafuas debaixo do chão; estes quando os contrários vêm contra elles botãose á água, e de mergulho escapão, e estão muito debaixo d’agua, têm frechas grandes como chuços, sem arcos, e com ellas pelejão;são muito valentes, comem gente, têm differente lingua. Outros, que vivem muito pelo sertão a dentro, que chamão Anhehim 56, têm outra lingua. Outros que vivem em casas, que chamão Aracuaiati, têm outra lingua. Outros que chamão Cayuara, vivem em covas, têm outra lingua. Outros que chamão Guaranaguaçu 57, vivem em covas, têm outra lingua. Outros muito dentro no sertão que chamão Camuçuyara, estes têm mamas que lhes dão por baixo da cinta, e perto dos joelhos, e quando correm cingemnas na cinta, não deixão de ser muito guerreiros, comem gente, têm outra lingua. Ha outra nação que chamão Igbigraapuajara senhores de paus agudos, porque pellejão com paus tostados agudos, são valentes, comem gente, têm outra lingua. Ha outra que chamão Aruacuig s , vivem em casas, têm outra lingua, mas entendemse com estes acima ditos, que são seus vizinhos. Outros ha que chamão Guayacatu e Guayatun; estes têm lingua differente, vivem em casas. Outros ha que chamão Curupehé 60, não comem carne humana, quando matão cortão a cabeça do contrario e levãona por amostra, não têm casa, são como ciganos. Outros que chamão Guayó, vivem em casas, pellejão com frechas ervadas, comem carne humana, têm outra lingua. Outros que chamão Cicú têm a mesma lin­gua e costumes dos acima ditos. Ha outros a que chamão Pahajú, comem gente, têm outra lingua. Outros ha que chamão Jaicuju, têm a mesma lingua que estes acima. Outros que chamão Tupijó, vivem em casas, têm roças, e têm outra lingua. Outros Maracaguacu, são vizinhos dos acima ditos, têm a mesma lingua. Outros chamãose Jacurujú; têm roças, vivem em casa, têm outra língua. Outros que se chamão Tapuuys 61 são vizinhos dos sobreditos acima, têm a mesma língua. Outros ha que cha­mam Anacujü; têm a mesma língua e costumes que os de cima e todos pellejão com frechas ervadas. Outros que se chamão Piracujû; têm a mesma língua que os de cima e frechas ervadas. Outros ha que chamão Taraguaig, têm outra lingua, pellejão com frechas ervadas. Ha outros que chamão Panacujû 62, sabem a mesma lingua dos outros acima ditos. Outros chamão Tipe, são do campo, pellejão com frechas ervadas. Outros ha que chamão Guacarajara, têm outra lingua, vivem em casas, têm roças. Outros vi­zinhos dos sobreditos que chamão Camaragôã.

53 Nacy. (Purchas, íb.) 54 Mandeiu. (Purchas, ib.) /

55 Cariu. (Purchas, ib.l 56 Anhelim. (Purchas, ib.)
57 Guainaguacu. (Purchas, ib.)
58 lobiora Apuayara. (Purchas, ib.)
59 Anuacuig. (Purchas, ib.)
60 Cumpehe. (Purchas, ib.)

 

Ha outros que chamão Curupyá, forão contrários dos Tupinaquins. Outros que chamão Aquirinó têm differente lingua. Outros que chamão Piraguaygaguig, vivem de baixo de pedras, são contrários dos de cima ditos. Outros que chamão Pinacujú. Outros ha que chamão Parapotô, estes sabem a lingua dos do mar. Outros Caraembâ, tem outra lingua. Outros que chamão Caracuju, tem outra lingua. Outros que chamão Mainuma, estes se misturão com Guaimurês, contrários dos do mar; entendemse com os Guaimurês, mas têm outra lingua. Outros ha que chamão Aturary também entrão em communicação com os Guaimurês. Outros ha que chamão Quigtaio, também communicão e entrão com os Guaimurês. Ha outros que chamão Guigpé; estes forão mora­dores de Porto Seguro. Outros se chamão Quigrajubê 63, são amigos dos sobreditos. Outros que chamão Angararf, estes vivem não muito longe do mar, entre Porto Seguro e o Espirito Santo. Outros que chamão Amixocori são amigos dos de cima. Ha outros que chamão Carajá: vivem no sertão da parte de São Vicente; forão do Norte correndo para lá, têm outra lingua. Ha outros que chamão Apitupá; vivem no sertão para a banda de Aquitipi. Outros ha que chamão Caraguatajara; têm lingua differente. Ha outros que chamão Aguiguira, estes estão em communicação com os acima ditos. Outra nação ha no sertão contraria dos Muriapigtanga e dos Tarapé, é gente pequena, anã, baixos do corpo, mas grossos de perna e espaduas, a estes chamão os Portuguezes Pigmeo, e os Indios lhe chamão Tapigymirim 64, porque são pequenos. Outros ha que chamão Quiriciguig, estes vivem no sertão da Bahia, bem longe. Outros que chamão Guirig são grandes cavalleiros e amigos dos ditos acima.

Outros se chamão Guajerê; vivem no sertão de PortoSeguro muito longe. Há outra nação que chamão Aenaguig; estes forão moradores da terras dos Tupinaquins, e porque os Tupinaquins ficarão senhores das terras 65 se chamão Tupinaquins. Ha outros que chamão Guaytacâ; estes vivem na costa do mar entre o Espirito San­to e Rio de Janeiro; vivem no campo e não querem viver nos matos e vão comer ás roças, vêm dormir ás roças, vêm dormir ás casas, não têm outros thesouros, vivem como o gado que pasce no campo, e não vêm ás casas mais que a dormir; correm tanto que a cosso tomão a caça. Outros que chamão Ighigranupâ 66, são contrarios

61 Tapecuiu. (Purchas, ib.)
62 Pahacuiu. (Purchas, ib.)
63 Guigraiube. (Purchas, ib.)
64 Taepyquiri. (Purchas, IV, p. 1.300)

65 Of the Mountames. (Purchas, ib.)
66 Igbigranupan. (Purchas, ib.)

Ervas Medicinais – Espaço Urbano de uma Ciência Popular

Ervas Medicinais – Espaço Urbano de uma Ciência Popular

Ida Duclós

Originalmente apresentado para a FFLCH/USP

Minha pesquisa sobre o uso popular de plantas medicinais, na cidade de São Paulo, foi feita em quatro locais: duas casas de comércio que vendem produtos naturais, uma especializada no comércio de chás e numa feira, com um erveiro ambulante. Conversei com as pessoas que estavam nestes lugares comprando ervas, sem nenhuma preocupação de selecioná-las, procurando me integrar ao ambiente. A proposta de meu projeto era verificar não só os motivos que levam as pessoas a usar ervas, mas_ averiguar se este uso estava baseado num saber popular compartilhado, repassado oralmente através de gerações.

“Os remédios que constituem a base das farmácias familiares consistem, geralmente, em plantas medicinais e em produtos da indústria farmacêutica…constituem um fundo comum de trocas não somente de medicamentos, mas também de experiências e de conhecimentos terapêuticos. Muitas famílias reservam uma pequena área do jardim para o cultivo das ervas medicinais, hábito adquirido na época em viviam no campo, ou então no próprio bairro, junto aos vizinhos, amigos ou pessoas mais idosas.”( Lovola,1983).

Devido ao tempo que eu tive disponível para me dedicar a este trabalho, meu universo de pesquisa foi reduzido (entrevistei treze pessoas).Talvez, minha delimitação do campo de pesquisa tivesse que ser mais específico, abrangendo um comunidade. Mesmo assim, foi possível constatar que todas as pessoas com quem conversei identificaram a fonte de seus conhecimentos não somente entre parentes e amigos, mas principalmente citaram a televisão e alguns, livros e revistas. Os mais velhos tinham o hábito de plantar em suas casas algumas ervas, como o boldo, a losna, hortelã, melissa, carqueja, arruda, quebra-pedra, poejo, alecrim. Fizeram referências à sua infância, quando o uso de medicamentos e recorrer a médicos não era usual.

“Eu aprendi ao longo dos anos, no contato com as pessoas. Eu tinha um amigo que era médico do SENAI, onde eu trabalhava, que me dizia que sempre quando passava por uma negra velha com ervas, parava para perguntar como é que ela age. Não tinha médicos no lugar onde nós estávamos quando eu era criança. Minha mãe sabia tudo, usava mais homeopatia, mas também chá de macela para acalmar. Losna que é boa para o estômago, nasce no inverno. Os médicos agora estão querendo voltar para a homeopatia, mas teve época que eles achavam tudo isso sem valor, besteira. Meu amigo médico não era assim, mas os colegas dele desprezavam quem desse valor para os chás. Eu vi estes dias o anúncio de um remédio importado de um laboratório alemão preparado com melissa. Nós aqui não ligamos para esta plantinha e os alemães vendem para nós este remédio.” (Leôncio, 82 anos, aposentado) Localizei o médico citado pelo Sr. Leôncio, descobri que ele atendia também num hospital espírita mas ele não tinha tempo disponível para uma entrevista dentro do prazo de entrega de meu trabalho.

Neste depoimento, como em todos os outros, existe alguns pontos em comum: este aposentado vai depois citar a televisão e os livros como fonte de seu conhecimento, existe uma identificação com as mulheres (mãe ou esposa) como agentes no tratamento popular e por fim a preocupação com um conflito entre a medicina oficial e a medicina caseira ou popular. O conhecimento das mulheres idosas é bastante mais detalhado, não se limitando a chás calmantes ou para o estômago. Elas trocam receitas de medicamentos caseiros, como se estas fossem de culinária.

“Uma senhora, quando fui no hospital, me ensinou a ferver a água e colocar folhas de maracujá, alecrim e chuchu. E muito bom para baixar a pressão, o médico que está tratando dela disse que a pressão melhorou depois que ela começou a tomar este chá. Hoje mesmo, fiz folhas de eucalipto fervidas para melhorar a respiração do meu marido, não é para tomar é só para respirar. Todo mundo sabe disso, desde criança que eu sei, minha mãe e minhas tias sempre me fizeram tomar chá. (Suely, dona de casa, 78 anos).

Neste caso o conflito entre o tratamento ortodoxo e a terapia popular, é resolvido pela separação dos dois domínios. Embora a melhora tenha sido atribuída a uma receita caseira, isso não é contado para o médico, que poderia não aceitar esta explicação. Este serve para verificar que houve a melhora. A representação que estas senhoras fazem dos medicamentos caseiros é que estes são receitas, que elas preparam em suas cozinhas, pertencem ao seus domínios e não interessam ao médico do hospital.

As lojas de produtos naturais visitadas são uma verdadeira miscelânea, onde existem objetos de várias procedências, incenso indiano, pão caseiro de farinha integral, tahine japonês (um preparado de soja), vitaminas americanas. Muitos produtos são a base de ervas, como sabonetes, shampoos, cremes e até travesseiros. Os produtos à venda sugerem uma mistura de esoterismo com a busca por uma vida saudável: existem pedras e cristais para melhorar a saúde física através da energização, objetos de madeira para massagem e diversos outros produtos dietéticos ou “biológicos.” As pessoas que entrevistei nestas lojas não estão interessadas especificamente no uso de plantas medicinais, mas estas fazem parte de uma representação de uma vida natural. “Eu não sei para que servem estes chás, meu médico que é homeopata e fitoterapeuta, é quem me receitou, eu quero é ter saúde.” (João, 48 anos, arquiteto)

Não existe aqui, a preocupação por plantar ervas em jardins, elas são compradas em saquinhos preparados por empresas como a Farmaervas, Mundo Verde, Mundo Natural ou Estrela de Davi (foram estas as marcas que anotei). Algumas pessoas me contaram que iniciaram um tratamento com médicos alternativos depois de terem tentado um tratamento alopata que não deu certo. Acham no entanto que podem voltar a usar alopatia alternadamente, se julgarem necessário isso. Mas, tem consciência que estão usando uma terapia não aceita pela medicina ortodoxa, e que isso significa uma mudança em sua noção do que é seu corpo e nos seus hábitos

. ” A reivindicação naturalista é, evidentemente, uma das idéias instigantes que comanda as medicinas paralelas, frequentemente qualificadas, até por elas próprias, de medicinas “naturais” e, mesmo de medicinas “verdes” (ou medicina através das plantas). Em uma sociedade que se tornou, sob muitos aspectos, uma sociedade da mediação instrumental, essa noção extremamente ambivalente, de natureza, exerce, como já vimos, a partir de 1965, verdadeiro fascínio sobre todos os que reconhecem em si a sensibilidade de uma contracultura, e mesmo de uma anticultura em gestação. A medicina oficial, pelo menos em sua tendência dominante, pode ser qualificada, segundo expressão de Lenche, como medicina contra a natureza. O terapeuta não confia de forma alguma na natureza, mas procura substituí-la, através de uma medicação decididamente alopátíca, isto é, um ataque frontal contra o agente responsável. Nessa ótica, o próprio termo “curar” tem o sentido de “guerrear”, perseguindo o invasor até que ele seja definitivamente anulado.” (Laplantine e Rabeyron, 1989)

Esta representação do corpo humano como um conjunto integrado a natureza e a contestação contra a especialidade médica, que só trata de detenninado órgão, aparece nos depoimentos de pessoas entre 35-50 anos. As pessoas mais velhas, podem manifestar um descontentamento com a alopatia, mas não tem um discurso que justifique isto, somente mencionaram que mas não tem um discurso que justifique isso, somente mencionaram que aprenderam um tratamento alternativo durante a sua infância, quando não havia recursos médicos disponíveis como atuaimente. Mostram-se ressentidas pelo seu conhecimento não ser valorizado, mas não elaboraram conceitos sobre isso, como acontece com pessoas mais jovens. Eu comecei a tomar chá por um problema crônico de saúde e obesidade. O chá substitui o café o leite. Estimula as funções dos órgãos vitais, relaxa, elimina gorduras. Teve uma época que eu tomava uma xícara com a mistura de onze chás. Mas fiz isso com acompanhamento médico. É perigoso você tomar sem conhecimento ervas fortes, como raiz de lótus, barbatimão e etc. A composição entre os chás, saber exatamente quais você deve tomar, tem que ter um médico. Fiz tratamento alopata e não resolveu. Então resolvi começar um tratamento de chás junto com acupuntura com um médico naturopata. Mudei toda minha alimentação. O efeito foi imediato, boa disposição, e meus problemas de saúde foram resolvidos ao longo do tempo em que me tratei. Os chás não são panaceia, fazem parte de um conjunto de recursos terapêuticos. Tomando chá parei de tomar café, comer açúcar e carne vermelha. O chá prepara meu organismo para uma alimentação natural, tem um efeito mais harmonizo”no meu corpo. Existe bastante carne com pimenta, deixa super agressivo. As pessoas dizem que chá é coisa de velha, para descansar. Mas isso é preconceito machista, o chá é paraharmonizar, equilibrar seu organismo. Chá você toma saudável, quando está com saúde. Mas ainda existe essa visão, que velhinha é que fica tomando chazinho. Eu tomo chá à noite para relaxar e de manhã para estimular, com o tempo você vai aprendendo a usar os chás que fazem bem para o seu organismo, não é preciso médico para saber. O aroma do chá também é importante, faz efeito em você. Não adianta ser rápido, acho que o ritual do chá faz parte da natureza do chá, você espera um pouco antes de tomar para consolidar o paladar e sentir o aroma.” (António, 47 anos, pequeno empresário) Nestas duas últimas entrevistas, o conhecimento sobre o uso das ervas não pertence ao domínio popular, mas constituem um saber científico dos médicos naturalistas. Há também uma reinvindição não para o tratamento de alguma doença mas por uma vida mais saudável, identificando as plantas medicinais com a natureza. Minha pesquisa respondeu parcialmente as hipóteses que eu tinha formulado:

1. O uso de plantas medicinais; não constitui um saber compartilhado, transmitido oralmente. Isso pode acontecer, mas é somente mais um elemento, num conjunto de informações disponíveis no meio urbano.

2. Os motivos que levam as pessoas a se utilizar das plantas medicinais na cidade está relacionado com a descrença na alopatia para resolver todos os problemas de saúde, com a valorização da natureza e uma representação simbólica sobre a doença e o corpo humano. Há um equilíbrio interior que harmoniza emoções, corpo e mente. As doenças surgem quando existe uma ruptura nessa harmonia, provocada por hábitos e comportamentos qualificados como não saudáveis, como são os da grande metrópole. Minha hipótese que as ervas medicinais fossem utilizadas por falta de recursos para pagar um attendimento médico não se confirmou. As pessoas mais idosas se referiram a épocas passadas, quando não havia disponibilidade de serviços médicos. Hoje, elas recorrem a esse atendimento com o uso paralelo dos chás, infusões, emplastros e pomadas a base de ervas. Minha pesquisa levantou novas questões que seriam interessantes de investigar:

1. a existência de um conflito entre médicos fitoterapeutas ou erveiros com a medicina tradicional.

2. os elementos esotéricos ou religiosos, presentes em lojas de produtos naturais que podem ou não estar associados ao uso das ervas.

3. as diferentes concepções da doença, saúde e corpo humano.

Bibliografia

1. Camargo, M.T.L.A – Medicina Popular, São Paulo, Almed Editora e Livraria Ltda., 1985

2. Laplantine, F. e Rabeyron, P.L. – Medicinas Paralelas, trad., São Paulo, Editora Brasiliense, 1989

3. Loyola, M.A.- Médicos e Curandeiros, São Paulo, Difel Difusão Editorial, 1984

Sobre etnocentrismo em Levi-Strauss

Fichamento do texto “RAÇA E CULTURA“, Lévi-Strauss in “Raça e Ciência” – Ed. Perspectiva

Ida Duclós

Originalmente apresentado na FFLCH/USP em 25.5.1983 

1. Raça e cultura:

Lévi-Strauss diz que não se pode falar em contribuições das raças a civilização, quando se pretende lutar contra os preconceitos raciais. E explica que fazer isto seria caracterizar as raças biológicas por propriedades psicológicas particulares, o que nos afastaria da verdade científica, mesmo que estivéssemos definindo-as positivamente, O “pecado original da antropologia”, para o autor, consiste na confusão entre noção puramente biológica e produções sociológicas e psicológicas das culturas humanas.

Mas dizer que as contribuições culturais não tem nenhuma relação com a constituição anatômica e fisiológica não elimina a diversidade de sociedades e civilizações. Tal diversidade, diz Lévi-Strauss, é paralela às relações que ocorrem no plano biológico, mas se passa noutro campo. E se diferencia destas relações por estar numa outra ordem de grandeza ( muito mais culturas que raças) e por colocar a seguinte questão: tal diversidade é uma vantagem ou desvantagem para a humanidade?

Strauss defende que negar que existam “aptidões raciais inatas” também não resolve o problema levantado pela civilização do homem branco, que alcançou progresso notável enquanto outras raças permaneceram e permanecem atrasadas: e necessário, então, ir além da negativa e nos “debruçarmos” sobre um outro aspecto, o da desigualdade – ou diversidade das culturas humanas.

2. Diversidade das culturas

Quando se fala em diversidade de culturas humanas pode-se considerar sociedades contemporâneas ou sociedades que se desenvolveram no passado (neste caso, o contato direto é impossível e temos que nos contentar com os documentos escritos ou monumentos que sobreviveram) , sociedades que conhecem ou não a escrita (neste caso, as formas precedentes são praticamente desconhecidas.

: “a diversidade das culturas humanas é de fato no presente, de fato também de direito no passado, muito maior e mais rica do que tudo o que estamos destinados a conhecer a seu respeito”.

Mas reconhecer estas limitações não e suficiente, como avisa Lévi-Strauss: nas sociedades humanas existem forças que trabalham ao mesmo tempo em direções opostas ( as primeiras mantendo o particularismo, as outras tendendo para a convergência). E mais, há as relações recíprocas e a diversificação interna das sociedades agindo na problemática da diversidade. Pois,”as sociedades humanas nunca estão sozinhas…”

A diversidade, adverte o autor, não deve ser “uma observação fragmentadora ou fragmentada”: ela existe em função das relações que une os grupos, muito mais do que o isolamento destes.

3. Etnocentrismo

A diversidade das culturas não e considerada como um fenômeno natural, diz Lévi-Strauss: “a noção de humanidade, a englobar sem distinção de raça ou de civilização todas as formas da espécie humana, apareceu muito tardiamente, e teve expansão limitada”. Mas a simples afirmação de igualdade natural para todos ( como fizeram os grandes sistemas filosóficos e religiosos) contém algo de enganoso, para o autor: não é possível por de lado, simplesmente, a diversidade que existe de fato porque não e possível admitir o homem realizando sua natureza numa humanidade abstrata. Ao contrario, o homem se realiza em culturas tradicionais e as modificações se explicam em função de situações definidas no tempo e espaço.

Lévi-Strauss critica o “falso evolucionismo” como uma “tentativa para suprimir a diversidade das culturas, fingindo reconhecê-las plenamente”: a humanidade deve tornar-se una e idêntica em si mesma, o que existe como diversidade não passa de etapas ou estágios de um único desenvolvimento.

O autor traça uma diferença entre evolucionismo biológico do “pseudo evolucionismo”, advertindo que quando se “passa de fatos biológicos para fatos culturais as coisas mudam”. O evolucionismo biológico esta provavelmente carreto para raças e animais, diz o autor, mas não tem a mesma relação na evolução social e cultural. Pois, argumenta Lévi-Strauss, como vamos desenterrar crenças, gostos de um passado desconhecido ou como vamos considerar que um machado dá origem física a outro machado?

4. Culturas arcaicas e culturas primitivas

Lévi-Strauss critica e evolucionismo que procura estabelecer analogias entre culturas comparando-as com a civilização ocidental: “pois as tentativas de conhecer a riqueza e a originalidade das culturas humanas, e de reduzi-las ao estado de replicas desigualmente atrasadas da civilização ocidental, se chocam com outra dificuldade… todas as sociedades humanas têm atrás de si um passado que e aproximadamente da mesma ordem de grandeza. Hão se pode admitir a ideia de etapas do desenvolvimento porque as culturas não são estáticas, não existe “povos sem história”, existem povos do qual não conhecemos o passado.

Lévi-Strauss admite uma concepção que distingui duas espécies de história para interpretar a diversidade: uma história progressiva, aquisitiva (aon de as descobertas e invenções são acumuladas para construir uma grande civilização) e uma outra história sem este dom sintético ( ainda que ativa e talentosa)♦

5. A ideia de progresso

A hipótese de uma evolução para hierarquizar culturas contemporâneas em números casos foi desmentida pelos fatos quando se pretendia estabelecer analogias. Do mesmo modo, os fatos demonstram que não se pode traçar esquemas para sociedades que nos precederam no tempo: “o desenvolvimento dos conhecimentos pré-históricos e arqueológicos tende a desdobrar no espaço formas de civilização que estávamos levados a imaginar como escalonadas no tempo”, diz Lévi-Strauss para acrescentar em seguida que o progresso se da aos saltos, não linearmente, tendo sempre vários caminhos que pode percorrer.

A História pode ser cumulativa, em alguns casos, o que “não é privilégio de uma civilização ou de um período histórico”, diz o autor, exemplificando com á América, aonde se desenvolveram culturas com História acumulativa.

6. História Estacionaria e História Cumulativa

Considerar a América como exemplo de História cumulativa é é fruto de um interesse do homem ocidental em aproveitar certas contribuições dos Índios Americanos, diz Lévi-Strauss, pois a tendência e considerarmos os aspectos de uma cultura que tem significação para nós, qualificando-a de “cumulativa”. Mas quando a linha de desenvolvimento de uma cultura nada significa para nós, nós a qualificamos de estacionária. Esta atitude nos leva a apreendermos a historicidade de uma cultura não de acordo com suas propriedades intrínsecas, mas sim de acordo com o número e a diversidade de nossos interesses que estão engajados nelas. Com isto, Lévi-Strauss quer dizer que não devemos confundir com imobilismo a nossa ignorância dos interesses verdadeiros de uma cultura, ao mesmo tempo em que esta por ser dotada de critérios diferentes, tem o mesmo julgamento de nos. Ou nas palavras do autor: “pareceríamos uns aos outros como desprovidos de interesse, muito simplesmente porque não nos assemelhamos”.

A originalidade das culturas, diz Lévi-Strauss,”reside mais na sua maneira particular de resolver problemas, de por em perspectivas valores, que são aproximadamente os mesmos para todos homens: pois todos possuem uma linguagem, técnicas, arte, conhecimentos de tipo cientifico, crenças religiosas”, ainda que dosados de maneiras diversas.

7. Lugar da civilização ocidental

Para o autor, o fenómeno da universalização ocidental é difícil de ser avaliado, por ser praticamente único na* História da humanidade e dado a incerteza dos seus resultados. Adesão ao género de vida ocidental se da em desigualdade de forças o que leva a Lévi Strauss considerar que as sociedades não se entregam com tanta facilidade e que esta adesão se deve mais a uma ausência de escolha: “a desigualdade de força «x não depende mais da subjetividade coletiva, É um fenômeno objetivo que só o recurso a causa objetivas pode explicar”. E Lévi-Strauss constata o quanto “dependemos ainda das imensas descobertas que marcaram o que se denomina, sem qualquer exagero, a “revolução neolitica”- agricultura, criação, cerâmica e tecelagem.

8. Acaso e Civilização

Lévi-Strauss descarta a possibilidade do acaso nas grandes invenções da humanidade no passado e diz que a a revolução industrial e cientifica do Ocidente “se inscreve totalmente num período igual a cerca de meio milésimo da vida passado da humanidade”. E nos convida s a sermos modestos antes de pensarmos que ela esta destinada a mudar-lhe totalmente o significado ou reivindicarmos prioridades para uma raça, uma região ou uma pais: “e se, como é verossímil, ela deve estender-se totalidade da terra habitada, cada cultura introduzira nela tantas contribuições particulares que o Históriador dos futuros milênios, legitimamente, considerará fútil a questão de saber quem pode, dentro de um ou dois séculos, reclamar a prioridade para o conjunto7

Lévi-Strauss diz que a diferença entre culturas não pode ser cumulativa ou não, conceito que além de depender do relativismo de nossos interesses e negado ainda pelo fato de que “a humanidade não evolui num sentido único. E se, num certo plano, ela parece estacionaria ou mesmo regressiva isso não significa que, de outro ponto de vista, ela não seja o centro de importantes transformações.”

9. A Colaboração das Culturas

O principal absurdo de considerarmos uma cultura superior a outra, diz Lévi-Strauss, consiste no fato de que a medida em que uma cultura esta sozinha ela elabora muito pouco de História acumulativa: “nenhuma cultura esta só; ela é sempre capaz de coligações com outras culturas, e e isso que lhe permite edificar séries cumulativas. A possibilidade que tem uma cultura de totalizar este conjunto complexo de invenções de to das as ordens que chamamos civilização e função do número e da diversidade das culturas com que ela participa na elaboração – na maioria das vezes involuntária – de uma estratégia comum.”

Não se pode portanto fazer uma lista das invenções particulares diz Lévi-Strauss, porque a verdadeira contribuição das culturas esta no afastamento diferencial que elas apresentam entre si; civilização implica coexistência de culturas que ofereçam entre si o máximo de diversidade, e consiste mesmo nessa própria coexistência.”

A antropologia em África no passado e no presente

A antropologia em África no passado e no presente

Seminário «Ethnography as Tradition in Africa» realiza-se na próxima segunda-feira no Instituto de Ciências Sociais, em Lisboa
2009-09-25

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Antropólogo Henri-Alexandre Junod estudou os Bantus

O Instituto de Ciências Sociais (ICS-UL) vai reunir na próxima segunda-feira, 28 de Setembro, diversos investigadores nacionais e internacionais no seminário «Ethnography as Tradition in Africa», organizado por João de Pina-Cabral.

O seminário vai fazer uma apreciação de algumas das tendências que se têm vindo a manifestar na África das últimas décadas no âmbito da antropologia.

Esta ciência tem estudado África desde os dias em que os missionários e os agentes coloniais começaram a sentir necessidade de entender as pessoas com quem se confrontavam.

No caso de Moçambique, Henri-Alexandre Junod já estudava o povo do sul do país na época em que os portugueses aí instalaram uma administração colonial.

A sua obra «Usos e Costumes do Bantus», editada nos anos 20, é uma das peças mestras da antropologia mundial que tem agora uma nova edição em português do Brasil. No seminário estarão dois especialistas brasileiros que vão falar da renovada atenção que o governo brasileiro está a dar a África.

Omar Ribeiro Thomaz vai estar presente no seminário

Meio século depois da obra de Junod, David Webster escreveu «Sociedade Chope», um estudo sobre uma aldeia do sul de Moçambique que dá especial atenção às relações familiares. A obra, que se manteve inédita devido à morte do autor pelos partidários do apartheid, é agora publicada em português pelo ICS.

Mais recentemente, Harry West (professor em Londres) escreveu uma obra sobre como é que os Maconde do planalto de Mueda vivem no dia-a-dia com as suas crenças sobre bruxaria. Esta matéria será abordada por Omar Ribeiro Thomaz, que tem realizado inúmeros trabalhos de terreno no sul do país.

Durante a tarde, o simpósio vai focar três obras: o livro de Deborah James (London School of Economics) sobre a reforma agrária na África do Sul, o livro de Mike McGovern (Universidade de Yale) sobre a recente guerra civil na Costa do Marfim e o de Ramon Sarró (membro do ICS) sobre a conversão ao islamismo de um povo da costa da Guiné-Konakry.

Antropólogo: estudo não é jogo de cartas marcadas por índios

Antropólogo: estudo não é jogo de cartas marcadas por índios

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A identificação de áreas indígenas desperta reações contrárias da classe produtiva. Em Mato Grosso do Sul, onde 45 mil índios reivindicam mais espaço, os fazendeiros taxam como “viciado” o trabalhos dos especialistas responsáveis pelos estudos.

O antropólogo Rubem Thomaz de Almeida, que há 30 anos estuda a região, garante que os levantamentos feitos para embasar as demarcações pelo governo federal não são um jogo de cartas marcadas a favor dos indígenas. Ele atribui a “desconhecimento de causa” as críticas dos ruralistas.

“É necessário que eles fazendeiros entendam que o estudo não vem definido. Em estudos passados, inclusive, deixamos de incluir área porque não tínhamos argumentos nem dados suficientes para colocar espaços como terra indígena. É fundamental realizar os estudos para que o governo possa atuar e decidir um problema social gigantesco, que são 45 mil índios que estão ali sem terra, sem ter onde plantar”, afirmou Almeida.

“Temos atrás da gente a academia. Somos vinculados à Associação Brasileira de Antropologia e, se a gente incorrer em desvios na nossa produção científica, haverá facilidade em derrubar os laudos “, acrescentou.

Almeida diz ser contrário à “criminalização” dos fazendeiros e reconhece que eles deveriam ser recompensados pelo governo para deixar a terra, em valor além das benfeitorias.”Dificilmente essa coisa vai resolver sem negociação com os produtores rurais. Não podemos criminalizar os fazendeiros, dizer que são todos bandidos. Ficará muito difícil dar conta do problema se não houver mecanismo para se pagar a terra aos fazendeiros”, ressaltou.

Entretanto, o antropólogo classifica de “absurdos” os argumentos que tentam vincular a luta dos índios pela terra a interesses estrangeiros.

“São 45 mil pessoas que têm uma história, tradição, e sabem exatamente onde vivem e o que querem. Não tem Cimi Conselho Indigenista Missionário , antropólogo nem estrangeiro, absolutamente ninguém. Eles não vão deixar de reivindicar a terra. O fazem por sua conta. Quem fala o contrário é para jogar fumaça e não enfrentar o problema”, criticou.

Pesquisa da década de 80 já alertava o governo para a necessidade de reconhecer mais áreas indígenas em Mato Grosso do Sul, após o processo de colonização que resultou no confinamento de índios em aldeias delimitadas pelo próprio governo. Hoje o sudoeste do estado é apontado por estudiosos e pela própria Fundação Nacional do Índio (Funai) como o espaço mais problemático da questão indígena no Brasil. Para Almeida, o país já poderia ter superado o quadro.

“Faltou um pouco de decisão política e de ânimo do governo para dar conta antes do problema. É necessário que o governo pegue esse touro a unha e decida levar adiante primeiro os estudos e depois as decisões de demarcação e homologação de áreas ” , defendeu o antropólogo.

A expectativa dos profissionais envolvidos no trabalho de identificação em Mato Grosso do Sul é concluir a fase dos estudos em abril de 2010.

O antropólogo entende que as críticas de parte da população de Mato Grosso do Sul à vida dos índios em áreas homologadas, como a aldeia de Panambizinho, a 25 quilômetros de Dourados, deve-se a uma percepção equivocada da cultura tradicional. Na região, áreas antes produtivas viraram mato e os índios trabalham apenas com agricultura de subsistência.

“Não podemos esperar que os guarani vão produzir como nós produzimos. Eles têm um viés cultural e se mostram abertamente contra a produção em larga escala. Eles têm uma relação cosmológica importante com o mato. Buscam o mato, porque lá tem que ter bicho e tem que proteger a água. Mas eles também têm plena consciência de que quem não trabalha não come.”

Se os estudos na região confirmarem as reivindicações indígenas, os antropólogos calculam que o problema fundiário das comunidades tradicionais estará resolvido para pelo menos três gerações, cabendo aos indígenas se organizarem futuramente para viver ali.

Durante os estudos antropológicos, as equipes deverão ser acompanhadas por representantes do governo estadual e de proprietários rurais na vistoria em fazendas, além de receberem escolta policial. No ano passado, quando os estudos começaram, especialistas foram seguidos e fotografados por desconhecidos.
“A presença da polícia é um modo de a gente entrar nas áreas que precisam ser verificadas”, disse Almeida ao destacar a importância do estudo para o processo de demarcação.

Por que Cinema com Antropologia? Breve relato de uma experiência etnográfica de recepção cinematográfica

Por que Cinema com Antropologia? Breve relato de uma experiência etnográfica de recepção cinematográfica

Maria Catarina Chitolina Zanini
– UFSM é Pós-Doutora – Museu Nacional – UFRJ e Doutora em Ciência Social (Antropologia Social) – Universidade de São Paulo, USP.

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Este artigo apresenta algumas reflexões acerca do encontro entre Antropologia e Cinema baseado em caso empírico por mim vivenciado durante a elaboração e execução do projeto Antropologia e Cinema I, na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), nos anos de 2006/2007. Projeto este que foi premiado pela ABA (Associação Brasileira de Antropologia), juntamente com a Fundação Ford, como um projeto inovador no ensino da Antropologia.[1] Meu objetivo era, por meio da utilização da linguagem fílmica, introduzir, via debate, a apresentação e discussão de alguns conceitos e temas caros à Antropologia, em especial, naquela edição do projeto, acerca das questões étnicas e raciais.
Mediante esta experiência etnográfica pude melhor compreender alguns dos pressupostos que haviam me inspirado teoricamente, abandonar outros e, também, elaborar meus próprios pontos de vista acerca deste encontro entre campos de conhecimento e de criação tão ricos e complexos. Não se trata de um artigo que explorará conceituações ou teorias acerca do Cinema, mas visa salientar o quanto ele, no momento contemporâneo, está “na vida” das pessoas (Geertz, 1997), na História, nos espaços públicos e privados e negocia significados. Significados esses e representações que são matéria-prima para a Antropologia interpretar. Enfim, trata-se de um artigo que tem por objetivo salientar o quanto este encontro é “bom para pensar” e para tornar mais lúdico, por vezes, o espaço acadêmico de ensino científico.
No cruzamento das historicidades, culturalidades e criações cinematográficas, há muito em comum. São todas formas de diálogo entre as partes e o todo, entre indivíduos e suas sociedades, entre hierarquias, entre eus e outros, entre mundos. Cruzá-las, interpretá-las, pensá-las para além de si mesmas era a pretensão do projeto que tinha, também, um objetivo pragmático: ouvir e dialogar (se possível). O ponto de chegada imediato era, de fato, as pessoas que se propunham a assistir aos filmes, já previamente selecionados, e dialogar com o público ali presente, formado pela equipe do projeto e por outros espectadores.
Antropologia e Cinema I: do empírico ao campo científico.

O projeto Antropologia e Cinema I estava dividido em dois grandes módulos, cada um a ser desenvolvido durante um semestre letivo. Tais módulos se denominavam: I – A questão racial no cinema, em que foram exibidos os seguintes filmes: O Massacre de Rosewood (Rosewood, EUA, 1997), de John Singleton; Uma história americana (The long walk home, EUA, 1990), de Richard Pearce; Sarafina! – O Som da Liberdade (Sarafina!, EUA, 1993), de Darrel Roodt; Mississipi em chamas (Mississippi burning, EUA, 1988) de Alan Parker e Duro aprendizado (Higher learning, EUA, 1995), de John Singleton e o Módulo II, denominado de Etnicidade e Cinema, no qual foram exibidos os filmes: Brincando nos campos no Senhor (At play in the Fields of the Lord, EUA, 1991), de Hector Babenco; A Cozinha de Toto (The kitchen Toto, EUA/Quênia, 1990), de Harry Hook; Skinheads – A Força branca (Romper stomper, Austrália, 1992), de Geoffrey Wright; Rei dos ciganos (King of the gypsies, EUA, 1978), de Frank Pierso; Bem-vindos ao paraíso (Come see the paradise, EUA, 1990), de Alan Parker e Casamento grego (My big fat greek wedding, EUA, 2002), de Joel Zwick.
Nosso[2] objetivo era atrair para as sessões de exibição e para o debate um público variado de espectadores. Como se tratava de um projeto de extensão universitária, almejávamos fazer com que pessoas da comunidade santa-mariense em geral se sentissem atraídas pelo tema e pelas discussões. O local escolhido para as exibições foi a sala de Vídeo da Biblioteca Central, localizada num ponto estratégico do Campus universitário, o que facilitaria a vinda de um público mais diversificado. Os horários escolhidos foram às quintas-feiras pela tarde, a cada 15 dias, com encontros de, em média, 3 a 4 horas, entre filme e debate. Havia uma equipe de alunos (um bolsista[3] e voluntários) que me auxiliavam na divulgação, organização e manutenção do cronograma do projeto.[4]
A intenção era, ao final de cada sessão, tendo um debatedor convidado, iniciar a reflexão acerca das questões apresentadas nos filmes. Os debates não foram uniformes, dependendo do filme, da platéia e dos próprios debatedores, houve mais ou menos interação e maior ou menor polêmica em torno de alguns temas. Ao final de cada sessão, igualmente, fazíamos um fechamento procurando encadear as várias sessões de cinema dos módulos. Alguns filmes, igualmente, produziam um certo silêncio pós-recepção, o que nos conduziu à elaboração de um roteiro de questões a serem respondidas em silêncio, após as sessões, por aqueles que desejassem contribuir com a pesquisa. Tal instrumento era anônimo, solicitando apenas algumas informações, tais como gênero e idade para que pudéssemos analisá-los melhor posteriormente.[5] Neste questionário, a pessoa poderia se expressar mais detalhadamente acerca de sentimentos, provocações ou reflexões que o filme havia lhe suscitado. Havia aqueles que levavam os questionários para casa e os entregavam nas sessões seguintes, o que para nós, da equipe, era visto como algo muito positivo, pois observávamos que alguns filmes impactavam os espectadores e que necessitavam de um tempo maior para serem melhor compreendidos ou “enquadrados” em suas possíveis interpretações. Em todos os questionários havia uma solicitação de consentimento para que as informações ali contidas pudessem ser utilizadas para fins de pesquisa.
Para o debate convidávamos, de acordo com o filme, antropólogos, literatos, cientistas políticos, sociólogos, historiadores, militantes, entre outros. Procuramos, por meio da sugestão de leitura de textos que ficavam disponíveis numa pasta (para elaboração de cópias), que aqueles que quisessem, pudessem entrar em contato com a literatura acadêmica acerca das relações entre mídias e Antropologia e também de textos introdutórios de Antropologia que permitissem a compreensão de alguns conceitos básicos, tais como cultura, sociedade, raça, entre outros. Esta estrutura organizativa se desdobrou no Antropologia e Cinema II, no ano seguinte. Nesta nova edição, trabalhamos mais especificamente com questões de Identidades, Etnicidades e Classes, na mesma proposta do Antropologia e Cinema I, nos mesmos dias e horários e no mesmo local.
Antropologia, Cinema e negociação de sentidos.
Não procurando analisar gêneros, estilos ou entrar em discussões acerca do cinema-arte (ou não), a riqueza do encontro entre estas duas formas de expressão e conhecimento é desvendar a possibilidade, sempre inacabada, de produção de sentidos e de encontros do indivíduo consigo mesmo e com os mundos ao seu entorno, sejam próximos ou distantes, “reais” ou imaginários. Para tal, compreende-se que as sociedades são complexos sistemas em que múltiplos referentes entram em conjunção e várias instâncias e esferas (econômica, política, cultural, biológicas, entre tantas outras) negociam entre si. Produzir arte, neste sentido seria, conforme Geertz, uma forma de falar sobre “a vida”. [6] Assim, entendo que, afora as questões estéticas, o cinema comercial que foi por mim utilizado como ferramenta antropológica no projeto pode ser considerado arte. Ele fala sobre “a vida” em múltiplas dimensões, da produção, à circulação e consumo das narrativas ali expostas. Nele, está explícita ou implícita “a vida” dos produtores, dos roteiristas, das equipes técnicas, dos atores possibilitando, igualmente, que o receptor possa, ao assistir, refletir e falar de sua vida também. Isto porque há um sistema de comunicação em comum que extrapola horizontes nacionais, locais ou regionais. E, mais especificamente, no que me tocava e interessava, em relação à recepção fílmica, quanto às questões raciais e étnicas que, no mundo Ocidental, possuem uma historicidade comum em determinados aspectos.
A arte (e o cinema enquanto tal), deve ser observada como produções culturais conjuntas e não autônomas, ambas dialogam entre si (e com tantas outras instâncias), com estruturas de significados particulares, com ressonâncias específicas e objetivos específicos que vão do devaneio à mercantilização e a necessidade da obtenção do lucro, tratando o filme como mercadoria. O que, em meu entendimento, em nada desmerece seu conteúdo ou a qualidade de sua exibição. Para se “ler” um filme, é importante compreender os contextos, as épocas e os sentidos que circulavam entre indivíduos e suas coletividades, como no mundo ocidental contemporâneo, por exemplo. Afinal, uns são feitos por e para os outros. Assim, como salienta Hijiki (1998, p.7), o cinema contemporâneo falaria para o homem e também deste homem. Fazer destas falas um encontro para análise é algo que desnuda muitas riquezas acerca das construções simbólicas para o antropólogo.
Neste jogo de sentidos, de eus e/com outros, mundos se encontram. Imagens são postas, dispostas e podem (ou não) provocar reflexões. Uma das questões que também considero importante é acerca da recepção fílmica como promotora e construtora de memórias. Memórias no sentido a estas atribuídas por Halbwachs (1990), ou seja, de leituras do passado elaboradas no presente, sendo individuais e coletivas ao mesmo tempo. Ou seja, os filmes, apesar de elementos e linguagens em comum, não tocam as pessoas da mesma forma, não vibram do mesmo modo. Alguns filmes, ao serem “lidos”, interpretados e negociados, permitem que o indivíduo “construa suas memórias”, ou seja, possa refazer, narrativamente, leituras sobre seu passado, sua trajetória de vida, seus gostos, opções e também acerca de seu estatuto no mundo. Este processo possível se torna extremamente marcante pela conjugação da linguagem fílmica: imagem, som, cenários e as possíveis emoções e sentidos neles presentes e deles fruto. Enfim, observo ser o Cinema um dos veículos mais marcantes de negociação de sentidos e de encontros dos indivíduos consigo mesmos, seus mundos (interiores e exteriores) e os mundos possíveis dos outros. Assistidos em silêncio, em família, no cinema, em casas, nos quartos, as narrativas fílmicas possibilitam um dialogar entre objetividades e subjetividades que, pensadas no personagem do outro, muitas vezes faz com que as próprias individualidades mais nitidamente se manifestem. Recorro a Geertz (1997, p.150) novamente, quando alerta que a conexão central entre a arte e a vida coletiva, no entanto, não se encontra no plano instrumental, mas sim no plano semiótico. Esta conjugação, além de outras, jamais deve ser perdida de vista no diálogo entre Antropologia e Cinema. Quanto às memórias, como salienta Gómez-Orozco, os media são catalisadores de identidades que afloram “detonadas por los referentes mediaticos” (2002/3, p.7). Ouvir e compreender este afloramento é o trabalho do antropólogo no, e com o cinema.
Quando se pensa em identidades étnicas, em sociedades nas quais os indivíduos vivenciam e negociam identidades hifenizadas, observa-se que este processo de rememoração provocado pela linguagem fílmica é ainda mais marcante, muitas vezes acompanhado de processos migratórios, colonizadores e tantas outras rupturas. Ou seja, o cinema, como um espaço de falar de, e sobre os indivíduos, cria cenários, representações, narrativas que conduzem ao enfrentamento, seja consigo mesmo, seja com os outros (presentes ou passados). Por isso, observar em determinados filmes os estereótipos ali apresentados, as falas com sotaques pejorativos, os encontros raciais, de gênero e etários é algo que merece ser estudado pela Antropologia também, pois num contexto de mercado, o cinema circula sentidos, mas também tem a capacidade de fortalecer ou reprimir identidades, habitus, tendências, entre outras possibilidades. Com histórias boas para se pensar o cinema pode, com certeza, ser um excelente espaço de discussão das hierarquias sociais, das estruturas de poder cristalizadas, entre tantas outras mazelas que incomodam o espaço coletivo e acabam por naturalizar determinadas desigualdades sociais. Outra questão importante que observo nas narrativas fílmicas é o quanto estas são boas para o antropólogo observar como são construídas as intersecções, os “deslizamentos” de sentido (Bhabha, 2001), as zonas de contatos discursivos. Pelas imagens, pelas palavras, pelos cenários, eus e outros em contraste, em processos de construção de identificações e de sobrevivências. Ali se encontram os outros “traduzidos”, o que, sem dúvida é importante também para melhor se compreender as sociedades que produzem, circulam e consomem tais representações e porque essas e não outras. Afinal, inspirada em Foucault (2007), acresceria que discursos (em suas diferentes formas) são motores históricos, ou seja, podem fazer ao dizer. Para além, disso, como ressaltam Shohat e Stam (2006), é preciso procurar as “presenças relacionais” que estão nos filmes, por vezes implícitas em discursos outros.
Não se pode deixar de lembrar que historicamente tanto o Cinema quanto a Literatura tiveram um papel importante na tentativa de construção das identidades nacionais[7] e na legitimação de determinadas instâncias de poder. Inseridos em indústrias, estas formas de arte foram e são, de certa forma, discursos de poder também. O Cinema, ao ser consumido, pode, igualmente, estar sendo utilizado como uma forma demarcadora de determinado “estilo de vida” (Featherstone, 1995)[8]. Assim, arte, mercado, cultura e consumo são elementos em trânsito, fazendo com que os encontros e as tensões sejam visíveis quando observamos tais arenas como “campos” (Bourdieu, 1998), em que há agentes em disputa por interesses diversos, “reais” ou imaginários. Além disso, não se pode perder de vista os contextos múltiplos de produção, circulação e consumo dos filmes.[9] Há filmes melhores ou piores do ponto de vista técnico ou estético, mas sem dúvida, tanto os bons como os maus filmes findam por serem “bons para pensar”.
Etnografia da recepção cinematográfica? Aprender fazendo?

A região na qual está situada a Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, no centro do Rio Grande do Sul, foi colonizada por grupos étnicos diversos (alemães, italianos, portugueses, sírio-libaneses, afro-descendentes, palestinos, poloneses, judeus, entre outros) e carecia, em minha compreensão, de espaços de debate e reflexão acerca das diversidades étnicas locais e também, mais especificamente, acerca da questão racial como um problema social que merecesse reflexão. Em muitos anos de magistério nesta instituição, eu observava que as salas de aula reproduziam um certo padrão social e étnico e vislumbrei ser o espaço proporcionado pela linguagem fílmica, um fórum privilegiado para o debate antropológico mais amplo acerca das diversidades locais. Selecionei filmes que considerei capazes de “gerar o debate” e provocar reflexões.
Era comum se ouvir, após a exibição dos filmes, comentários de que algumas questões ali postas não haviam sido, até então, objeto de reflexão por parte de alguns dos espectadores. Isso nos atestava que os filmes eram, acima de tudo, “bons para pensar” e o quanto estávamos certos em algumas de nossas intenções. Optamos, na primeira edição do projeto, por utilizar filmes mais conceituados e que tinham um padrão de qualidade de imagem, som e roteiro já consagrados em nível mundial. Eram bons filmes em muitos aspectos, o que permitiu que o público se mantivesse fiel às sessões quinzenais. Posso dizer, igualmente, que pude unir duas de minhas “paixões”, a Antropologia e o Cinema e que este Projeto foi um momento marcante de minha vida profissional. Ressalto, contudo, que minha relação com o Cinema é de consumo. As críticas que faço passam mais pelo que vejo ser possível de ser tratado enquanto “objeto antropológico” do que simplesmente se a cenas foram bem feitas, se a fotografia estava perfeita, se os cenários eram bem ou mal trabalhados, entre outras questões postas por especialistas na área. Os filmes selecionados no projeto Antropologia e Cinema I foram muito férteis para a inserção do debate antropológico. Sempre respeitamos e informamos, igualmente, a recomendação de idade para assistir aos filmes, pois em alguns deles havia cenas mais marcadamente tensas. Eram filmes do circuito comercial, alguns com elencos famosos e carismáticos, o que também provocava uma empatia com a platéia em geral.
A recepção, para nós, era compreendida como um espaço de criação, de elaboração de sentidos (Orozco-Gomes, 2003/2) existentes e outros em elaboração.[10] Os receptores que ali estavam não eram meros reprodutores nem seres a serem “influenciados”, mas sim pessoas que poderiam ter um espaço e um tempo para refletirem acerca de suas construções sociais e identitárias. Aliás, se não acreditássemos nesse espaço criativo da arte e da recepção, um projeto como o nosso não poderia se propor, por meio do debate, “tocar em feridas”, ou seja, nas representações sociais e nas hierarquias que os espectadores traziam para a sala de exibição e que poderiam acreditar serem “já dadas”, naturalizadas e não construções sociais e históricas. Entendíamos, também, que cada indivíduo possui elementos de mediação presentes em suas trajetórias (vide Martín-Barbero, 2003) e que almejávamos, acima de tudo, despertar inquietação, nada mais. Não questionando uma possível passividade pelo fascínio (França, 2003), procurávamos, por meio da etnografia da recepção, estarmos atentos ao encontro entre espectadores, imagens, sons e discursos. E, tínhamos que estar atentos também à historicidade e temporalidade das construções culturais ali manifestas.
Para a equipe do projeto, tentar fazer etnografia da recepção destes filmes foi algo muito gratificante. Observar os gestos da platéia, os desconfortos nas cadeiras quando de cenas mais tensas, os comentários aos pés dos ouvidos dos colegas ao lado. Enfim, o cinema, o assistir, o ver, o ouvir, o escrever sobre ou mesmo, pensar sobre se revelou para nós em um objeto extremamente rico, seja do ponto de vista das negociações de sentido que observávamos acontecer in loco, seja pela sociabilidade que cada nova sessão favorecia. Entendemos, desta forma, o Cinema, sua forma e conteúdo e também sua produção, circulação e consumo como fatos sociais totais (Mauss, 1974), no sentido de que envolvem os sujeitos em suas múltiplas dimensões (psicológicas, histórico-sociológicas, biológicas, entre outras). Para além das hierarquias e contrastes apresentados pelas sociedades contemporâneas, o que se observa é que a dialética entre interioridades e exterioridades, entre objetividades e subjetividades, proporcionada pela arte é algo ímpar. Se a arte teria por intenção manifestar sentido por meio de suas expressões, pode-se avaliar a importância de se trabalhar o espaço das recepções cinematográficas, seja em pequenas ou em escalas qualitativamente maiores. Uma das primeiras antropólogas a fazer tal estudo, Hijiki (1988) apresenta, de uma forma bastante instigante, alguns dos passos possíveis de serem teórica e metodologicamente trilhados neste campo aberto e ainda pouco explorado, das relações entre Cinema e Antropologia. Como aponta a autora, com quem compartilho da idéia, o Cinema deve ser tomado como um “campo” e os filmes ficcionais podem ser lidos como documentos culturais. O que adviria da recepção destes documentos culturais é um processo incessante de negociação de significados e, penso, nisto residiria sua riqueza.
Para Mascarello (2005,2006), os estudos de recepção de cinema ainda são tímidos (ou inexistentes) no Brasil e que, talvez, um diálogo profícuo possa nascer da interação de perspectivas e fusão de horizontes entre campos científicos diversos. O mais importante, penso eu, seja a visão ampliada de que arte e mercado não se excluem e que as análises, seja da produção, da circulação ou do consumo do Cinema requer uma leitura das individualidades contemporâneas, das sociedades e também de que os sentidos circulam, modificam-se e podem ser esquecidos. Essa dinâmica está vivamente presente no Cinema, pois ele, ao invocar reflexão, traz à tona memórias (do passado) e sentidos novos, carentes ainda de significação. O que Mascarello denomina de “espectatorialidade cinematográfica” (2006, s.p.) foi, de certa forma, o que ousamos fazer neste campo de encontros, ainda, pequeno.
Considerações Finais

Cinema e Antropologia não poderiam dialogar entre si sem pensarmos na historicidade de tais campos de conhecimento e expressão e a forma como estão conectadas com as sociedades (locais, regionais, nacionais, globais, transnacionais, transculturais) e culturas com as quais interagem. Cada campo, com seus agentes, códigos, interesses, linguagens e bens em particular potencializam determinadas visões acerca do mundo. Campo científico e campo artístico podem dialogar? Compreende-se que sim, uma vez que, como já dito, arte e ciência estão na cultura e as culturas são dinâmicas e históricas, frutos de relações sociais e de poder diversas. Portanto, temporárias, transitórias e em constante negociação. Por meio de filmes, objetivou-se conhecer, compreender e dialogar com significados presentes e circulantes entre espectadores. Seria possível fazer uma etnografia da recepção, perguntava-nos? Além disso, seria possível permitir e dar ouvidos aos espectadores para que refletissem ou dialogassem com suas próprias representações? Não seria isto demasiada pretensão nossa? Muitas eram as questões que tínhamos (e ainda temos) acerca do encontro entre estas duas formas distintas de linguagem, a antropológica (do mundo acadêmico) e a cinematográfica (comercial), mas que entendo são, ambas, produções sociais, fruto de conjugações de poderes e saberes históricos. Ambas estão “na vida”, pretendem falar sobre a vida, da vida e fazer crer que possuem algo a dizer e merecem ser conhecidas, debatidas e questionadas.
Compreendo que, por meio da edição do projeto Antropologia e Cinema I, foi possível observar o quanto o Cinema e a utilização da linguagem fílmica é profícua para se trabalhar com temas sociais polêmicos, como as questões étnicas e raciais, por exemplo. Por ser o Cinema uma linguagem lúdica também e que permite o encontro do indivíduo consigo mesmo e com os outros, presentes na tela ou na cadeira ao lado, ele estabelece interação, reflexão e, por vezes, silêncios significativos. Mesclar Cinema e Antropologia é algo que continuamos a fazer, nas edições seguintes do projeto, sempre alterando os temas dos módulos. Compreendo que fazer etnografia da recepção é algo que requer sensibilidade e preparo teórico-metodológico adequado. De minha parte, considero que o aprendizado continua e espero que este seja um espaço de pesquisa crescente no Brasil. Para 2009, pretendemos ter mais uma edição do Antropologia e Cinema (III), que trataria da temática das “guerras” provocadas por confrontos étnicos, religiosos ou raciais.
Enfim, o que tem Antropologia e Cinema em comum? Talvez a possibilidade de invocar, provocar reflexões ou mesmo, somente a intenção discursiva de tentar fazer crer que as ações humanas tenham significados (manifestos ou latentes). O que ambas almejam talvez seja, de certa forma, compreender (ou dar sentido) às experiências humanas, reais ou imaginárias, contextuais ou não. E neste caminho, há, ainda, muito a ser partilhado e pesquisado.
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Bibliografia:
BARBOSA, Andréa e CUNHA, Edgar Teodoro da. Antropologia e Imagem. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 2 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
FEATHERSTONE, Mike. Cultura de consumo e pós-modernismo. São Paulo: Studio Nobel, 1995.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. 7 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
FRANÇA, Andréa. Terras e Fronteiras no cinema político contemporâneo. 7 letras: Rio de Janeiro, 2003.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, Editora Revista dos Tribunais, 1990.
HIJIKI, Rose Satiko. Imagem-violência. Mimesis e reflexividade em alguns filmes recentes. Dissertação apresentada ao PPGAS Antropologia Social. USP. São Paulo, 1998.
GEERTZ, Clifford. O saber local. Novos ensaios em Antropologia interpretativa. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1997.
MARTIN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2003.
MASCARELLO, Fernando. Mapeando o inexistente: os estudos de recepção cinematrográfica, por que não interessam à universidade brasileira? UNIRevista, vol1, n.3, p.1-12, jul 2006. Disponível em www.unisinos.br. Acesso em: mar. 2007.
MASCARELLO, Fernando. Mídia e recepção. Os estudos culturais e recepção cinematográfica: um breve mapeamento crítico. Trabalho apresentado no Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação- COMPÓS, XIV, Niterói, 2005.
MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: EPU, 1974. 2 v.
OROZCO- GOMEZ, Guillermo. Los estúdios de recepcion: de um modo de investigar, a uma moda, y de ahí a muchos modos. Intexto, Edição 09, 2003/02. Disponível em: www.Intexto/PPGCOM/Ufrgs. Acesso em: ago. 2005.
SHOHAT, Ella e STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006.
STAM, Robert. Multiculturalismo tropical. São Paulo: Edusp, 2008.
ZANINI, Maria Catarina Chitolina Zanini. Assistir, ouvir, ler e narrar: o papel da mídia nas construções identitárias étnicas. Revista de Antropologia (USP), São Paulo, v.48,n.2,p.699-736, 2005.
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Notas
[1] O artigo com os resultados finais do projeto denominado “Tocando na ferida: um diálogo possível entre Antropologia e Cinema”, está disponível no site da ABA (www.abant.org.br).
[2] Quando falo em nós neste artigo, estou me referindo à equipe do Projeto, formada por mim, enquanto coordenadora e por bolsistas. Assumo, contudo, total responsabilidade pelos pontos de vista aqui colocados.
[3] No projeto Antropologia e Cinema I, contei com o importante auxílio de Francine Nunes da Silva e no Antropologia e Cinema II, do bolsista Cristiano Sobroza Monteiro.
[4] Aliás, a premiação do projeto em nível nacional pela Aba, fez com que adquiríssemos uma visibilidade muito grande na Universidade e fora dela também.
[5] Ao longo de todo o ano foram respondidos 49 questionários e alguns dos depoimentos destes se encontram presentes no artigo publicado no site da ABA.
[6] Ressalta o autor: “O sentimento que um indivíduo, ou, o que é mais crítico, já que nenhum homem é uma ilha e sim parte de um todo, o sentimento que um povo tem pela vida não é transmitido unicamente através da arte. Ele surge em vários outros segmentos da cultura deste povo: na religião, na moralidade, na ciência, no comércio, na tecnologia, na política, nas formas de lazer, no direito e até na forma em que organizam sua vida prática e cotidiana” (1997, p.145).
[7] Acerca desta historicidade do cinema, observar Stam na obra Multiculturalismo Tropical (2008).
[8] Para Featherstone, “Ou seja, para compreender a cultura pós-moderna, não é preciso apenas ler os signos, mas olhar como os signos são usados por configurações de pessoas em suas práticas cotidianas” (1995, p.94).
[9] Alertam Barbosa e Cunha (2006, p.55) quanto às imagens que, “Nesse sentido, o contexto em que as imagens são construídas e articuladas é fundamental para percebermos os possíveis significados criados. O contexto é crucial na análise dos filmes não por ser definitivo, mas por ser provocativo, sugestivo, por viabilizar a construção de um quadro de possibilidades. As imagens que compõem um filme são elementos que, considerados em conjunto, nos permitem pensar, articular significados que, de forma isolada, não aconteceriam”.
[10] Este aspecto “aberto” e criativo da recepção já havia sido por mim analisado quando da recepção da novela Terra Nostra entre descendentes de imigrantes italianos na região central do Rio Grande do Sul (Zanini, 2005).

As dimensões subjetivas da política: cultura política e antropologia da política

As dimensões subjetivas da política: cultura política e antropologia da política 

Autor(es): Karina Kuschnir; Leandro Piquet Carneiro

O artigo discute o desenvolvimento do conceito de cultura política na ciência política e na antropologia, apresentando-o como o conjunto de atitudes, crenças e sentimentos que dão ordem e significado a processos políticos diversos. São discutidos os fundamentos teóricos do conceito de cultura política, segundo o qual as respostas a situações de interação social se dão através de orientações mediadas pela avaliação subjetiva que o ator faz dessas situações. A origem do conceito de cultura política é atribuída ao trabalho de Almond e Verba, The civic culture, que por sua vez inspirou-se, em certa medida, nos estudos antropológicos da escola de Cultura e Personalidade. Os estudos de cultura política têm passado por uma renovação teórica e metodológica importante, que significou uma mudança de objeto político. Os estudos recentes sobre cultura política privilegiam a análise das condições que afetam o desempenho das instituições públicas e a maior ou menor eficiência no atendimento ao interesse público. O desenvolvimento metodológico pode ser resumido como uma tentativa de utilizar diversos conjuntos de dados (surveys, etnografias, estudos históricos etc.) com o objetivo de estimar os fatores que afetam a performance das instituições políticas.

Palavra – Chaves: Antropologia;Cultura;Instituições políticas

OBS: Quem quiser este artigo mande um e-mail para: wesleydenis@yahoo.com.br

Frases para depois do artigo

 

O cientista não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é quem faz as verdadeiras perguntas. – Claude Lévi-Strauss

Antropólogo defende estudo sobre demarcação de terras indígenas

Antropólogo defende estudo sobre demarcação de terras indígenas

A identificação de áreas indígenas desperta reações contrárias do empresariado do agronegócio. Em Mato Grosso do Sul, onde 45 mil índios reivindicam mais espaço, os fazendeiros taxam como “viciado” o trabalhos dos especialistas responsáveis pelos estudos.

O antropólogo Rubem Thomaz de Almeida, que há 30 anos estuda a região, garante que os levantamentos feitos para embasar as demarcações pelo governo federal não são um jogo de cartas marcadas a favor dos indígenas. Ele atribui a “desconhecimento de causa” as críticas dos ruralistas. 

“É necessário que eles [fazendeiros] entendam que o estudo não vem definido. Em estudos passados, inclusive, deixamos de incluir área porque não tínhamos argumentos nem dados suficientes para colocar espaços como terra indígena. É fundamental realizar os estudos para que o governo possa atuar e decidir um problema social gigantesco, que são 45 mil índios que estão ali sem terra, sem ter onde plantar”, afirmou Almeida.

“Temos atrás da gente a academia. Somos vinculados à Associação Brasileira de Antropologia e, se a gente incorrer em desvios na nossa produção científica, haverá facilidade em derrubar [os laudos]”, acrescentou.

Almeida diz ser contrário à “criminalização” dos fazendeiros e reconhece que eles deveriam ser recompensados pelo governo para deixar a terra, em valor além das benfeitorias.

“Dificilmente essa coisa vai resolver sem negociação com os produtores rurais. Não podemos criminalizar os fazendeiros, dizer que são todos bandidos. Ficará muito difícil dar conta do problema se não houver mecanismo para se pagar a terra aos fazendeiros”, ressaltou.

Entretanto, o antropólogo classifica de “absurdos” os argumentos que tentam vincular a luta dos índios pela terra a interesses estrangeiros.

“São 45 mil pessoas que têm uma história, tradição, e sabem exatamente onde vivem e o que querem. Não tem Cimi [Conselho Indigenista Missionário], antropólogo nem estrangeiro, absolutamente ninguém. Eles não vão deixar de reivindicar a terra. O fazem por sua conta. Quem fala o contrário é para jogar fumaça e não enfrentar o problema”, criticou.

Pesquisa da década de 80 já alertava o governo para a necessidade de reconhecer mais áreas indígenas em Mato Grosso do Sul, após o processo de colonização que resultou no confinamento de índios em aldeias delimitadas pelo próprio governo. Hoje o sudoeste do estado é apontado por estudiosos e pela própria Fundação Nacional do Índio (Funai) como o espaço mais problemático da questão indígena no Brasil. Para Almeida, o país já poderia ter superado o quadro.

“Faltou um pouco de decisão política e de ânimo do governo para dar conta antes do problema. É necessário que o governo pegue esse touro a unha e decida levar adiante primeiro os estudos e depois as decisões [de demarcação e homologação de áreas]” , defendeu o antropólogo.

A expectativa dos profissionais envolvidos no trabalho de identificação em Mato Grosso do Sul é concluir a fase dos estudos em abril de 2010.

O antropólogo entende que as críticas de parte da população de Mato Grosso do Sul à vida dos índios em áreas homologadas, como a aldeia de Panambizinho, a 25 quilômetros de Dourados, deve-se a uma percepção equivocada da cultura tradicional. Na região, áreas antes produtivas viraram mato e os índios trabalham apenas com agricultura de subsistência.

“Não podemos esperar que os guarani vão produzir como nós produzimos. Eles têm um viés cultural e se mostram abertamente contra a produção em larga escala. Eles têm uma relação cosmológica importante com o mato. Buscam o mato, porque lá tem que ter bicho e tem que proteger a água. Mas eles também têm plena consciência de que quem não trabalha não come.”

Se os estudos na região confirmarem as reivindicações indígenas, os antropólogos calculam que o problema fundiário das comunidades tradicionais estará resolvido para pelo menos três gerações, cabendo aos indígenas se organizarem futuramente para viver ali.

Durante os estudos antropológicos, as equipes deverão ser acompanhadas por representantes do governo estadual e de proprietários rurais na vistoria em fazendas, além de receberem escolta policial. No ano passado, quando os estudos começaram, especialistas foram seguidos e fotografados por desconhecidos.

“A presença da polícia é um modo de a gente entrar nas áreas que precisam ser verificadas”, disse Almeida ao destacar a importância do estudo para o processo de demarcação.

Com informações da Agência Brasil

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