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Arquivo da categoria: Antropologia da Saúde

A medicina que está aí pode ser humanizada?

A medicina que está aí pode ser humanizada?

Entrevista especial com Roberto Passos Nogueira

“O que nós temos hoje é uma medicina que não é do homem, mas do ser vivo. Há uma naturalização da pessoa humana”, explica o médico.

Confira a entrevista.

“É possível uma medicina do homem?” Essa foi a questão central trazida pelo doutor em Saúde Coletiva Roberto Passos Nogueira durante o minicurso que proferiu no XI Simpósio Internacional IHU: o (des)governo biopolítico da vida humana. E ele responde: “É que a medicina que temos hoje é fundamentada em questões e métodos que se aplicam tanto ao animal quanto ao homem. Há diferenças entre medicina veterinária e medicina humana, mas seus pressupostos são os mesmos”. Na entrevista que concedeu à IHU On-Line, realizada pessoalmente logo após a palestra, Nogueira fala sobre a compreensão atual sobre a medicina do homem e também sobre os caminhos que podemos tomar para uma busca efetiva pela saúde humana.

Roberto Passos Nogueira é graduado em Medicina pela Universidade Federal do Ceará. Fez mestrado e doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente, é pesquisador associado da Universidade de Brasília. É técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA. Entre seus livros, destacamos: La Salud que Hace Mal, Un estudio alrededor del pensamiento de Ivan Illich (Buenos Aires: Lugar Editorial, 2008) e Do Físico ao Médico Moderno, A Formação Social da Prática Médica (São Paulo: Editora UNESP, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line Como podemos, atualmente, entender a medicina do homem? É possível e necessária uma outra compreensão desta medicina?

Roberto Passos Nogueira – Na verdade, o que nós temos hoje é uma medicina que não é do homem, é uma medicina do ser vivo, ou seja, considera-se o homem com o mesmo estatuto que os outros animais e as plantas. Estuda-se a anomalia dos órgãos, dos tecidos e as anomalias genéticas do mesmo modo, tanto para o homem como para os animais e as plantas. Isto é uma naturalização do homem. A medicina que existe hoje retrata a evolução do pensamento científico do século XVIII para cá. Ela criou uma compreensão da saúde e da doença que não é humana. O que eu procurei fazer na minha palestra foi indicar, a partir do pensamento de Heidegger [1], como é que poderia ser uma nova medicina que partisse da compreensão do que é a saúde do homem, como diz Dasein [2], e o que é o fechamento do homem que se dá na doença como uma forma de privação de mundo.

IHU On-Line – O que há de não humano nessa compreensão/determinação objetal da doença?

Roberto Passos Nogueira – Quando consideramos o homem como um conjunto de objetos normais ou anormais, reduzimos cada um dos órgãos, dos tecidos e células a entidades que podem ser avaliadas de acordo com esse critério de normalidade. Nós estamos passando por um crivo que se aplica a qualquer ente natural e, nesse sentido, o próprio comportamento humano é avaliado para saber se nós temos uma doença ou não, de acordo com os padrões esperados de conduta que se tornam objetos. Toda doença, seja mental ou física, é descrita como objeto normal, apenas no caso da doença mental, no que há de particular, é que se descreve um comportamento anormal, característico.

IHU On-Line – O que é ser doente enquanto homem e não enquanto organismo?

Roberto Passos Nogueira – Nós temos que partir para esta pergunta daquilo que é o homem e, naturalmente, aqui estamos seguindo a interpretação heideggeriana de que o homem é essencialmente um ser livre e aberto. Ser livre, no sentido de que ele não é causado, como é qualquer outro corpo da natureza, pode ser produzido, movido por causas. O homem sempre escolhe, na condição de escolher e ele responde a motivos e não a causas. O comportamento humano é sempre um comportamento livre diante daquilo que se lhe apresenta, na compreensão daquilo que se lhe apresenta, enquanto que os animais reagem somente a estímulos. A doença do homem, nessa condição em que se parte da compreensão do homem como ser livre e aberto, é que se trata de um fechamento do Daisen e uma perturbação da relação do Dasein com o mundo, no sentido de fazer com que ele não se mova com liberdade no seu cotidiano.

IHU On-Line – Quais são os caminhos para uma busca efetiva pela saúde humana?

Roberto Passos Nogueira – Os caminhos efetivos são difíceis de serem assinalados nesse momento, porque há muito poucas pessoas interessadas no assunto. No entanto, há uma sede muito grande por parte dos médicos, por parte de vários setores da saúde coletiva, por exemplo, de encontrar caminhos, novas interpretações que levem a uma medicina do homem. Não uma medicina humanizada, porque, por exemplo, o Ministério da Saúde tem uma política de humanização do SUS, mas o que nós queremos perguntar é se a medicina que está aí, se ela pode ser humanizada? No máximo, ela pode levar a uma relação de etiqueta mais adequada entre o médico e o paciente, de acordo com as normas da bioética e coisas semelhantes. No entanto, essencialmente, a medicina que existe hoje é uma medicina que trata o homem como objeto, como algo não humano, então essa humanização ela é apenas cosmética. Eu não quero desvalorizar essa humanização, porque quem está doente, sendo bem tratado, bem cuidado, já é um grande avanço, porque o que nós vemos aí na maioria das vezes, nos hospitais e nos centros de saúde, é algo que choca a nós, que estamos examinando, e deprime o próprio paciente. Não quero ser contra a política de humanização, quero indicar apenas, os seus limites que estão dentro da própria concepção e da estrutura da medicina.

Notas:

[1] Martin Heidegger foi um filósofo alemão, considerado um dos pensadores fundamentais século XX. Sua intenção é fazer uma recolocação do problema do ser pela refundação da Ontologia, que atribui ao conhecimento da tradição filosófica e cultural.

[2] Até o final da década de trinta, a leitura da filosofia de Heidegger estrutura-se sobre conceitos como Dasein (o ser-aí ou o ser-no-mundo), morte, angústia ou decisão. O Dasein é o ente que em cada caso propriamente questiona e investiga. É também o Dasein que detém a possibilidade de enunciar o ser, pois é ele que tem o poder da proposição em geral. Daí que na questão acerca do sentido de ser seja fundamental começar por abordar o ser deste ente particular. E tem que ser o próprio Dasein a fazer isso, tem que ser ele próprio a mostrá-lo, a partir de uma análise fenomenológica esclarecida.

 

Fonte: IHU

Ervas Medicinais – Espaço Urbano de uma Ciência Popular

Ervas Medicinais – Espaço Urbano de uma Ciência Popular

Ida Duclós

Originalmente apresentado para a FFLCH/USP

Minha pesquisa sobre o uso popular de plantas medicinais, na cidade de São Paulo, foi feita em quatro locais: duas casas de comércio que vendem produtos naturais, uma especializada no comércio de chás e numa feira, com um erveiro ambulante. Conversei com as pessoas que estavam nestes lugares comprando ervas, sem nenhuma preocupação de selecioná-las, procurando me integrar ao ambiente. A proposta de meu projeto era verificar não só os motivos que levam as pessoas a usar ervas, mas_ averiguar se este uso estava baseado num saber popular compartilhado, repassado oralmente através de gerações.”Os remédios que constituem a base das farmácias familiares consistem, geralmente, em plantas medicinais e em produtos da indústria farmacêutica…constituem um fundo comum de trocas não somente de medicamentos, mas também de experiências e de conhecimentos terapêuticos. Muitas famílias reservam uma pequena área do jardim para o cultivo das ervas medicinais, hábito adquirido na época em viviam no campo, ou então no próprio bairro, junto aos vizinhos, amigos ou pessoas mais idosas.”( Lovola,1983).

Devido ao tempo que eu tive disponível para me dedicar a este trabalho, meu universo de pesquisa foi reduzido (entrevistei treze pessoas).Talvez, minha delimitação do campo de pesquisa tivesse que ser mais específico, abrangendo um comunidade. Mesmo assim, foi possível constatar que todas as pessoas com quem conversei identificaram a fonte de seus conhecimentos não somente entre parentes e amigos, mas principalmente citaram a televisão e alguns, livros e revistas. Os mais velhos tinham o hábito de plantar em suas casas algumas ervas, como o boldo, a losna, hortelã, melissa, carqueja, arruda, quebra-pedra, poejo, alecrim. Fizeram referências à sua infância, quando o uso de medicamentos e recorrer a médicos não era usual.

“Eu aprendi ao longo dos anos, no contato com as pessoas. Eu tinha um amigo que era médico do SENAI, onde eu trabalhava, que me dizia que sempre quando passava por uma negra velha com ervas, parava para perguntar como é que ela age. Não tinha médicos no lugar onde nós estávamos quando eu era criança. Minha mãe sabia tudo, usava mais homeopatia, mas também chá de macela para acalmar. Losna que é boa para o estômago, nasce no inverno. Os médicos agora estão querendo voltar para a homeopatia, mas teve época que eles achavam tudo isso sem valor, besteira. Meu amigo médico não era assim, mas os colegas dele desprezavam quem desse valor para os chás. Eu vi estes dias o anúncio de um remédio importado de um laboratório alemão preparado com melissa. Nós aqui não ligamos para esta plantinha e os alemães vendem para nós este remédio.” (Leôncio, 82 anos, aposentado) Localizei o médico citado pelo Sr. Leôncio, descobri que ele atendia também num hospital espírita mas ele não tinha tempo disponível para uma entrevista dentro do prazo de entrega de meu trabalho.

Neste depoimento, como em todos os outros, existe alguns pontos em comum: este aposentado vai depois citar a televisão e os livros como fonte de seu conhecimento, existe uma identificação com as mulheres (mãe ou esposa) como agentes no tratamento popular e por fim a preocupação com um conflito entre a medicina oficial e a medicina caseira ou popular. O conhecimento das mulheres idosas é bastante mais detalhado, não se limitando a chás calmantes ou para o estômago. Elas trocam receitas de medicamentos caseiros, como se estas fossem de culinária.

“Uma senhora, quando fui no hospital, me ensinou a ferver a água e colocar folhas de maracujá, alecrim e chuchu. E muito bom para baixar a pressão, o médico que está tratando dela disse que a pressão melhorou depois que ela começou a tomar este chá. Hoje mesmo, fiz folhas de eucalipto fervidas para melhorar a respiração do meu marido, não é para tomar é só para respirar. Todo mundo sabe disso, desde criança que eu sei, minha mãe e minhas tias sempre me fizeram tomar chá. (Suely, dona de casa, 78 anos).

Neste caso o conflito entre o tratamento ortodoxo e a terapia popular, é resolvido pela separação dos dois domínios. Embora a melhora tenha sido atribuída a uma receita caseira, isso não é contado para o médico, que poderia não aceitar esta explicação. Este serve para verificar que houve a melhora. A representação que estas senhoras fazem dos medicamentos caseiros é que estes são receitas, que elas preparam em suas cozinhas, pertencem ao seus domínios e não interessam ao médico do hospital.

As lojas de produtos naturais visitadas são uma verdadeira miscelânea, onde existem objetos de várias procedências, incenso indiano, pão caseiro de farinha integral, tahine japonês (um preparado de soja), vitaminas americanas. Muitos produtos são a base de ervas, como sabonetes, shampoos, cremes e até travesseiros. Os produtos à venda sugerem uma mistura de esoterismo com a busca por uma vida saudável: existem pedras e cristais para melhorar a saúde física através da energização, objetos de madeira para massagem e diversos outros produtos dietéticos ou “biológicos.” As pessoas que entrevistei nestas lojas não estão interessadas especificamente no uso de plantas medicinais, mas estas fazem parte de uma representação de uma vida natural. “Eu não sei para que servem estes chás, meu médico que é homeopata e fitoterapeuta, é quem me receitou, eu quero é ter saúde.” (João, 48 anos, arquiteto)

Não existe aqui, a preocupação por plantar ervas em jardins, elas são compradas em saquinhos preparados por empresas como a Farmaervas, Mundo Verde, Mundo Natural ou Estrela de Davi (foram estas as marcas que anotei). Algumas pessoas me contaram que iniciaram um tratamento com médicos alternativos depois de terem tentado um tratamento alopata que não deu certo. Acham no entanto que podem voltar a usar alopatia alternadamente, se julgarem necessário isso. Mas, tem consciência que estão usando uma terapia não aceita pela medicina ortodoxa, e que isso significa uma mudança em sua noção do que é seu corpo e nos seus hábitos

. ” A reivindicação naturalista é, evidentemente, uma das idéias instigantes que comanda as medicinas paralelas, frequentemente qualificadas, até por elas próprias, de medicinas “naturais” e, mesmo de medicinas “verdes” (ou medicina através das plantas). Em uma sociedade que se tornou, sob muitos aspectos, uma sociedade da mediação instrumental, essa noção extremamente ambivalente, de natureza, exerce, como já vimos, a partir de 1965, verdadeiro fascínio sobre todos os que reconhecem em si a sensibilidade de uma contracultura, e mesmo de uma anticultura em gestação. A medicina oficial, pelo menos em sua tendência dominante, pode ser qualificada, segundo expressão de Lenche, como medicina contra a natureza. O terapeuta não confia de forma alguma na natureza, mas procura substituí-la, através de uma medicação decididamente alopátíca, isto é, um ataque frontal contra o agente responsável. Nessa ótica, o próprio termo “curar” tem o sentido de “guerrear”, perseguindo o invasor até que ele seja definitivamente anulado.” (Laplantine e Rabeyron, 1989)

Esta representação do corpo humano como um conjunto integrado a natureza e a contestação contra a especialidade médica, que só trata de detenninado órgão, aparece nos depoimentos de pessoas entre 35-50 anos. As pessoas mais velhas, podem manifestar um descontentamento com a alopatia, mas não tem um discurso que justifique isto, somente mencionaram que mas não tem um discurso que justifique isso, somente mencionaram que aprenderam um tratamento alternativo durante a sua infância, quando não havia recursos médicos disponíveis como atuaimente. Mostram-se ressentidas pelo seu conhecimento não ser valorizado, mas não elaboraram conceitos sobre isso, como acontece com pessoas mais jovens. Eu comecei a tomar chá por um problema crônico de saúde e obesidade. O chá substitui o café o leite. Estimula as funções dos órgãos vitais, relaxa, elimina gorduras. Teve uma época que eu tomava uma xícara com a mistura de onze chás. Mas fiz isso com acompanhamento médico. É perigoso você tomar sem conhecimento ervas fortes, como raiz de lótus, barbatimão e etc. A composição entre os chás, saber exatamente quais você deve tomar, tem que ter um médico. Fiz tratamento alopata e não resolveu. Então resolvi começar um tratamento de chás junto com acupuntura com um médico naturopata. Mudei toda minha alimentação. O efeito foi imediato, boa disposição, e meus problemas de saúde foram resolvidos ao longo do tempo em que me tratei. Os chás não são panaceia, fazem parte de um conjunto de recursos terapêuticos. Tomando chá parei de tomar café, comer açúcar e carne vermelha. O chá prepara meu organismo para uma alimentação natural, tem um efeito mais harmonizo”no meu corpo. Existe bastante carne com pimenta, deixa super agressivo. As pessoas dizem que chá é coisa de velha, para descansar. Mas isso é preconceito machista, o chá é paraharmonizar, equilibrar seu organismo. Chá você toma saudável, quando está com saúde. Mas ainda existe essa visão, que velhinha é que fica tomando chazinho. Eu tomo chá à noite para relaxar e de manhã para estimular, com o tempo você vai aprendendo a usar os chás que fazem bem para o seu organismo, não é preciso médico para saber. O aroma do chá também é importante, faz efeito em você. Não adianta ser rápido, acho que o ritual do chá faz parte da natureza do chá, você espera um pouco antes de tomar para consolidar o paladar e sentir o aroma.” (António, 47 anos, pequeno empresário) Nestas duas últimas entrevistas, o conhecimento sobre o uso das ervas não pertence ao domínio popular, mas constituem um saber científico dos médicos naturalistas. Há também uma reinvindição não para o tratamento de alguma doença mas por uma vida mais saudável, identificando as plantas medicinais com a natureza. Minha pesquisa respondeu parcialmente as hipóteses que eu tinha formulado:

1. O uso de plantas medicinais; não constitui um saber compartilhado, transmitido oralmente. Isso pode acontecer, mas é somente mais um elemento, num conjunto de informações disponíveis no meio urbano.

2. Os motivos que levam as pessoas a se utilizar das plantas medicinais na cidade está relacionado com a descrença na alopatia para resolver todos os problemas de saúde, com a valorização da natureza e uma representação simbólica sobre a doença e o corpo humano. Há um equilíbrio interior que harmoniza emoções, corpo e mente. As doenças surgem quando existe uma ruptura nessa harmonia, provocada por hábitos e comportamentos qualificados como não saudáveis, como são os da grande metrópole. Minha hipótese que as ervas medicinais fossem utilizadas por falta de recursos para pagar um attendimento médico não se confirmou. As pessoas mais idosas se referiram a épocas passadas, quando não havia disponibilidade de serviços médicos. Hoje, elas recorrem a esse atendimento com o uso paralelo dos chás, infusões, emplastros e pomadas a base de ervas. Minha pesquisa levantou novas questões que seriam interessantes de investigar:

1. a existência de um conflito entre médicos fitoterapeutas ou erveiros com a medicina tradicional.

2. os elementos esotéricos ou religiosos, presentes em lojas de produtos naturais que podem ou não estar associados ao uso das ervas.

3. as diferentes concepções da doença, saúde e corpo humano.

Bibliografia

1. Camargo, M.T.L.A – Medicina Popular, São Paulo, Almed Editora e Livraria Ltda., 1985

2. Laplantine, F. e Rabeyron, P.L. – Medicinas Paralelas, trad., São Paulo, Editora Brasiliense, 1989

3. Loyola, M.A.- Médicos e Curandeiros, São Paulo, Difel Difusão Editorial, 1984

Antropologia e Saúde

Antropologia e Saúde

por Maria Inês de Freitas Custódio*

Da década de 90 até a atualidade surgiu uma nova preocupação na Academia em estudar a saúde considerando o homem, seus relacionamentos sócio-culturais, sua maneira de lidar com o mundo e consigo próprio, com sua psiquê e comportamento em seu meio.Na busca de uma análise sobre a origem do homem, sua forma humana e suas reações diante das doenças, os estudiosos sobre o tema saúde/doença utilizaram-se da interdisciplinaridade entre as teorias produzidas nas Universidades, as pesquisas de campo, visitando famílias em domicílios, considerando suas experiências oriundas da convivência hospitalar. 

A ênfase produzida pelas Ciências Sociais direcionou-se para as questões da saúde pública/coletiva destacando a pessoa, o corpo e a doença. O enfoque deste estudo, é a construção do indivíduo, do corpo e dos sentimentos ligados aos distúrbios da saúde.

A intenção de criar um conjunto de características próprias e exclusivas para uma antropologia especializada na saúde e doença não é partilhada pela maioria dos cientistas sociais, médicos e agentes da saúde.

Ao contrário da opinião fechada das Ciências Sociais na década de 70, a antropologia social, é bem vinda hoje, no campo das ciências médicas em prol da construção de soluções para sanar as demandas sociais da saúde pública.

Alguns temas destacam-se no âmbito das Instituições e na política:

* criação de mecanismos viabilizadores da práxis das ciências sociais no cotidiano da população inerente às ciências médicas, abordando questões como: gênero, sexualidade, formação de cidadania, Aids, saúde mental; controle de natalidade, etc;

* novas metodologias de avaliação nos cursos de graduação e pós-graduação;

* oportunidades de mercado editorial na produção acadêmica dotado de menos burocracia e interesses particulares;

* apoio às pesquisas pelas agências nacionais e aos pesquisadores através de financiamentos nas áreas das ciências médicas e humanas.

Neste contexto, conta-se com a pluralidade das diversas disciplinas pensando um caminho melhor para os problemas da saúde coletiva.

A antropologia conta com a filosofia, com a sociologia, com a psicologia, com a história e, neste leque de orientações teórico-metodológicas nasce um cuidado com o ser humano, representado numa antropologia calcada em fontes nacionais e internacionais.

Na antropologia de Marcel Mauss, a atividade do pensamento coletivo é simbólica, desprezando o pensamento individual, suas representações de saúde e doença mostram por meio da dedução dos fenômenos orgânicos a crença dos indivíduos a partir de conceitos, símbolos e estruturas cristalizadas no meio em que pertencem.

As significações sociais resultam da cultura de cada povo, fortalecidas em pleno contexto situacional, local de manifestação.

De outro lado, há a possibilidade de realização de métodos quantitativos e qualitativos em pesquisas de campo envolvendo indivíduos, grupos, enfatizando os comportamentos, os motivos, as idéias, as crenças.

Esses valores traduzidos na linguagem cotidiana, não desprezam a preocupação de alguns pesquisadores frente à questão ecológica ambiental aplicada aos estudos envolvendo pessoas doentes e a grupos determinados.

A rigor, faz-se necessária a organização da investigação científica atrelada à abordagem histórica e a origem das realidades social e histórica.

Para crer num trabalho confiável etnográfico, a fonte oral vem sendo utilizada como método capaz de entender o sentido do ser doente ou saudável, reconstruindo a lógica das representações produzidas e socializadas durante a sua construção.

Modelos atuais de referência

Os estudos de representações/significados ou símbolos e práticas da saúde e doença apontam para o entendimento cultural dos grupos analisados ultrapassando a objetividade dos estudos epidemiológicos – doença rapidamente alastrável numa população (HOUAISS, 2001:170) reconhecendo limitações em seu uso, como:

* vantagem das representações sobre a prática;

* utilização de modelos tradicionais de significação sobre o corpo, a saúde e a doença;

* necessidade de focar a doença como experiência, questionando a atual análise sob dados empíricos somente.

A antropologia da saúde propõe uma nova maneira de pensar e agir em relação ao corpo, a cultura e individualidade de cada ser humano, imbuída da teoria da complexidade do pensador francês Edgar Morin:

“A complexidade é uma palavra problema e não uma palavra solução. O pensamento complexo é não o que evita ou suprime o desafio, mas o que ajuda a revelá-lo e, por vezes mesmo, a ultrapasssá-lo. A complexidade aparece certamente onde o pensamento simplificador falha, mas integra nela tudo o que põe em ordem, clareza, distinção, precisão no conhecimento. (MORIN, 2001:22).

Cada sociedade assimila as encenações do corpo e da doença de maneira peculiar, considerando os aspectos sócio-culturais da população atendida, monitorada por saberes biomédicos.

Se entendida como fenômeno social, a doença estabelece uma relação entre as ordens biológica e social, abrangendo o indivíduo corporalmente e socialmente, dessa maneira, o papel da antropologia da saúde, é tratar a doença, superando os limites biológicos do corpo e as explicações biomédicas do homem.

Cultura e doença

Na sociedade moderna, o papel da cultura popular, seus significantes e significados, somatizam os elementos de crenças e costumes de vários grupos, acompanhados da mídia e de uma variedade de informações responsáveis por interpretações discursivas dos médicos dedicados à causa.

O signo de estar doente é entendido como a percepção de sensações e sintomas desagradáveis:

* cansaço; dor de cabeça;

* dor no corpo; sono;

* fraqueza; falta de apetite; febre, e etc…,

Identificados pelo médico ou pelo paciente, representam a doença como uma construção social, traduzida e culturalmente assumida pelos simpatizantes.

Doenças como a Aids, câncer, hanseníase (lepra), tuberculose, são encaradas diferentemente por homens e mulheres de um mesmo grupo, com ou sem diagnóstico biomédico.

Nessa linha, analiticamente, o gênero construiu-se por duas vias:

* construção social;

* de forma relacional.

Para entender a sexualidade, a compreensão do processo histórico e seu desenvolvimento no Brasil, é condição, sine qua non, bem como, a ética, a ciência e a política, componentes responsáveis pela apropriação dos valores e significados dos modelos masculino e feminino de nossa ambiência.

Novamente, a antropologia da saúde interfere nas interpretações empíricas, factuais, prontas e acabadas da construção de sujeito e objeto, norteando os estudos por meio de reflexões, apresentando as incertezas inerentes ao homem, à sociedade e a espécie.

Religião e doença

Para acompanhar a evolução de determinado distúrbio da saúde, seguindo rigorosamente o tratamento indicado por especialista ou não (principalmente os alcoólatras e portadores de Aids; distúrbios psicológicos e abandono de parentes), o paciente nutre-se também do apoio religioso.

Nesses casos, a antropologia da saúde analisa os relatos dos informantes, estruturando um perfil responsável pelas causalidades, considerando a vivência da pessoa, sua doença e os envolvidos.

O resultado da pesquisa mostra a reação do paciente e suas ações, edificando sua identidade individual e social.

As religiões condenam em sua maioria os doentes, reforçando a idéia de culpa, afirmando, ser a doença, um castigo das ordens superiores pela ausência de compromisso de fé do enfermo para com a crença.

A enfermidade mental é estudada por meio de narrativas, depoimentos, estudos de casos de famílias ou histórias de vida contadas por familiares ou terceiros. Os pesquisadores reconstituem as informações (verídicas ou delirantes) atribuindo no final do estudo uma avaliação e um cuidado adequado à doença.

Esse método pressupõe uma forma de conhecimento prático, diferenciado do saber médico, enfatiza a capacidade de expressão e reflexão do enfermo sobre sua doença, diagnosticando o problema nas fontes patológica e biológica.

No entanto, é preciso distinguir o conhecimento erudito do popular, haja vista, o surgimento das formas de comunicação, ressocializações, aprendizagem, ou melhor, da recusa às intervenções.

A antropologia da saúde coletiva/pública articula a linguagem simbólica da doença, buscando:

* revelação das identidades sociais nas relações de gênero;

* condições sócio-relacionais da gerontologia;

* estudos sobre a juventude;

* temáticas preocupantes com a saúde e o bem estar do indivíduo na sociedade.

A antropologia da saúde institui e viabiliza práticas entre pensamentos e ações, teorias e experiências de vida dos doentes. Organiza os símbolos e as categorias das doenças, por meio de fontes produtoras de sentido, sejam, biológicas, políticas, sociais, econômicas e culturais.

Utilizando-se do bom senso entre os paradoxos:

* coletivo/indivíduo;

* vida/morte;

* ciências médicas/ciências sociais;

* objetividade/subjetividade.

A antropologia da saúde/doença, procura desvendar caminhos menos convergentes e construtivismos mais eficientes, num futuro próximo.

Referências Bibliográficas:

ALVES. PC & Rabelo MCM (org.) 1998. Antropologia e saúde. Traçando identidade e explorando fronteira. Fio-cruz-Relume Dumará, Rio de Janeiro.

ALVES. PC & Rabelo MCM (org.) 1998. Repensando os estudos sobre representações e práticas, pp. 107-121 In PC Alves & MCM Rabelo (org.) Op. Cit.

HOUAISS, Antônio (1915-1999) e Villar, Mauro de Salles (1939-). Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa/Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar, elaborado no Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa S/C Ltda. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. Instituto Piaget. 3ª edição, 2001.

*MARIA INÊS DE FREITAS CUSTÓDIO

Doutoranda do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Fonte: Revista Espaço Acadêmico

Antropologia e Saúde: algumas considerações

ANTROPOLOGIA E SAÚDE: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

César Augusto Soares da Costa (*)

Resumo: O objetivo deste ensaio é apresentar algumas considerações acerca da importância da Antropologia da Saúde, no que se refere aos seus principais postulados. Sendo assim, saúde, enquanto fenômeno humano global, é também objeto da Antropologia, considerando esta sob dois pontos de vista fundamentais: como reflexão filosófica sobre a peculiaridade da natureza humana, que considera o Homem como o ser que, na unidade da sua corporeidade animada, existe no mundo historicamente, concretamente, olhando assim o Homem doente e os problemas existenciais conexos com as vicissitudes da saúde; como projeto de aplicar o conhecimento do Homem enquanto ser cultural – ou que cria a cultura para responder aos desafios do ambiente e é por ela modelado – à saúde e à doença na vida humana, assim como às instituições sanitárias criadas por cada cultura específica. Assim, da década de 90 até os dias atuais surgiu uma nova preocupação na Academia em estudar a saúde considerando o homem, seus relacionamentos sócio-culturais, sua maneira de lidar com o mundo e consigo próprio, com sua psiquê e comportamento em seu meio.Palavras-chave: Antropologia, saúde, doença.  

Introdução

O objetivo deste ensaio é apresentar algumas considerações acerca da importância da Antropologia da Saúde, no que se refere aos seus principais postulados. Sendo assim, saúde, enquanto fenômeno humano global, é também objeto da Antropologia, considerando esta sob dois pontos de vista fundamentais: o primeiro, como uma reflexão filosófica sobre a peculiaridade da natureza humana, que considera o Homem como o ser que, na unidade da sua corporeidade animada, existe no mundo historicamente; o segundo como projeto de aplicar o conhecimento do Homem enquanto ser cultural – ou que cria a cultura para responder aos desafios do ambiente e é por ela modelado – à saúde e à doença na vida humana, assim como às instituições sanitárias criadas por cada cultura específica.

Assim, da década de 90 até os dias atuais surgiu uma nova preocupação na Academia em estudar a saúde considerando o homem, seus relacionamentos sócio-culturais, sua maneira de lidar com o mundo e consigo próprio, com sua psiquê e comportamento em seu meio. Na busca de uma análise sobre a origem do homem, sua forma humana e suas reações diante das doenças, os estudiosos sobre o tema saúde/doença utilizaram-se da interdisciplinaridade entre as teorias produzidas nas Universidades, as pesquisas de campo, visitando famílias em domicílios, considerando suas experiências oriundas da convivência hospitalar.

A ênfase produzida pelas Ciências Sociais direcionou-se para as questões da saúde pública/coletiva destacando a pessoa, o corpo e a doença. O enfoque deste estudo, é a construção do indivíduo, do corpo e dos sentimentos ligados aos distúrbios da saúde. A intenção de criar um conjunto de características próprias e exclusivas para uma antropologia especializada na saúde e doença não é partilhada pela maioria dos cientistas sociais, médicos e agentes da saúde. Ao contrário da opinião fechada das Ciências Sociais na década de 70, a antropologia social, é bem vinda hoje, no campo das ciências médicas em prol da construção de soluções para sanar as demandas sociais da saúde pública.

Neste contexto, conta-se com a pluralidade das diversas disciplinas pensando um caminho melhor para os problemas da saúde coletiva. A antropologia conta com a filosofia, com a sociologia, com a psicologia, com a história e, neste leque de orientações teórico-metodológicas nasce um cuidado com o ser humano, o que incide também num enfoque bioético.

1 A Antropologia da Saúde e seus objetivos

Entre os objetivos principais, da Antropologia podemos elencar: sua preocupação em fundamentar a necessidade da reflexão antropológica no contexto das ciências da saúde, nomeadamente da Medicina; a valorização da centralidade da Pessoa, enquanto sujeito cultural e social; o discurso nos processos relativos à prevenção e promoção da saúde e à prestação de cuidados; e por fim, a transmissão e contribuição que a Antropologia Médica, nas suas duas correntes, filosófica e cultural, oferece à Saúde Pública.

Competências da Antropologia da Saúde

• Reconhecimento do caráter antropológico da Medicina, como ciência e como Práxis;

• Aprofundamento da consciência, do significado e das implicações do ser humano – que é sujeito – constituir o seu objeto;

• Compreender o ser humano, como realidade plural, íntegra e una, destacando a importância das dimensões cultural e social no âmbito da Saúde Pública;

• Aprender a reconhecer a diversidade de olhares sobre o Homem na sua relação com a saúde e a doença, em contexto de multi-culturalidade, como horizonte de compreensão e instrumento de intervenção em Saúde Pública;

2 A Antropologia da Saúde e Graus de estudos

No que se refere aos graus de estudos podemos observar três:

a) Grau Epistemológico da Antropologia

• Introdução à Antropologia – Conceitos e Métodos. Interdisciplinaridade.

• Antropologia e Antropologias – a especificidade da Antropologia da Saúde. Antropologia Física, Antropologia Cultural e Antropologia Médica.

• Análise crítica dos reducionismos antropológicos.

• Grandes paradigmas antropológicos da Cultura Ocidental.

b) Grau Filosófico

• Algumas contribuições fundamentais da Antropologia Filosófica contemporânea. Pluridimensionalidade estrutural constitutiva da Pessoa Humana: relação, corporeidade, interioridade, comunicação, ética, historicidade, indigência, vulnerabilidade, mistério.

• A Pessoa Humana sujeito de cultura e à cultura (cultura e culturas) – vivências e representações de saúde e doença, do sofrimento e morte.

• O Homem entre a evidência e o mistério. O processo de medicalização da vida e da condição humana.

• A Medicina entre o paradigma humanista e o Tecnocosmos;

• Modelos de Humanismo emergentes na Medicina;

• Aplicação Bioética no tratamento de questões primordiais.

c) Grau metodológico

• Antropologia Médica: elementos conceptuais e metodológicos para uma abordagem da saúde e da doença, no âmbito da Saúde Pública Importância dos fatores culturais e sociais na consideração do binômio saúde-doença.

• Aspectos culturais determinantes da interação médico-doente no processo terapêutico. Incidência dos fatores culturais na Epidemiologia.

• Definições culturais de anatomia e de fisiologia.

3 Antropologia: cultura, religião e doença

Na sociedade moderna, o papel da cultura popular, seus significantes e significados, somatizam os elementos de crenças e costumes de vários grupos, acompanhados da mídia e de uma variedade de informações responsáveis por interpretações discursivas dos médicos dedicados à causa. O signo de estar doente é entendido como a percepção de sensações e sintomas desagradáveis: cansaço; dor de cabeça; dor no corpo; sono; fraqueza; falta de apetite; febre, e etc. Identificados pelo médico ou pelo paciente, representam a doença como uma construção social, traduzida e culturalmente assumida pelos simpatizantes. Doenças como a Aids, câncer, hanseníase (lepra), tuberculose, são encaradas diferentemente por homens e mulheres de um mesmo grupo, com ou sem diagnóstico biomédico. Nessa linha, analiticamente, o gênero construiu-se por duas vias: construção social; de forma relacional.

Para entender a sexualidade, a compreensão do processo histórico e seu desenvolvimento no Brasil, é condição, sine qua non, bem como, a ética, a ciência e a política, componentes responsáveis pela apropriação dos valores e significados dos modelos masculino e feminino de nossa ambiência. Novamente, a antropologia da saúde interfere nas interpretações empíricas, factuais, prontas e acabadas da construção de sujeito e objeto, norteando os estudos por meio de reflexões, apresentando as incertezas inerentes ao homem, à sociedade e a espécie.

Da mesma forma, para acompanhar a evolução de determinado distúrbio da saúde, seguindo rigorosamente o tratamento indicado por especialista ou não (principalmente os alcoólatras e portadores de Aids; distúrbios psicológicos e abandono de parentes), o paciente nutre-se também do apoio religioso.

As religiões de tradição conservadora condenam em sua maioria os doentes, reforçando a idéia de culpa, afirmando, ser a doença, um castigo das ordens superiores pela ausência de compromisso de fé do enfermo para com a crença. A enfermidade mental é estudada por meio de narrativas, depoimentos, estudos de casos de famílias ou histórias de vida contadas por familiares ou terceiros.

Esse método pressupõe uma forma de conhecimento prático, diferenciado do saber médico, enfatiza a capacidade de expressão e reflexão do enfermo sobre sua doença, diagnosticando o problema nas fontes patológica e biológica. No entanto, é preciso distinguir o conhecimento erudito do popular, haja vista, o surgimento das formas de comunicação, ressocializações, aprendizagem, ou melhor, da recusa às intervenções.

Portanto, a antropologia da saúde institui e viabiliza práticas entre pensamentos e ações, teorias e experiências de vida dos doentes. Organiza os símbolos e as categorias das doenças, por meio de fontes produtoras de sentido, sejam, biológicas, políticas, sociais, econômicas e culturais. Utilizando-se do bom senso entre os paradoxos: coletivo/indivíduo;vida/morte; ciências médicas/ciências sociais; objetividade/subjetividade. Assim, a antropologia da saúde, procura desvendar caminhos menos convergentes e construtivismos mais eficientes, num futuro próximo.

Referências Bibliográficas

ALVES. PC & Rabelo MCM (Org.) Antropologia e saúde. Traçando identidade e explorando fronteira. Rio de Janeiro: Fio-Cruz, Relume Dumará, 1998.

ALVES. PC & Rabelo MCM (Org.) Repensando os estudos sobre representações e práticas, In: PC Alves & MCM Rabelo (Org.) 1998. p. 107-121.

HOUAISS, Antônio (1915-1999) e Villar, Mauro de Salles (1939-). Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa/Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar, elaborado no Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa S/C Ltda. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

LUCAS, Juan de Sahagun (Dir.), Nuevas Antropologías del siglo XX, Salamanca: Sigueme 1994

MINAYO, Maria Cecília de Sousa, COIMBRA Jr., Carlos E. A. (Org.), Críticas e Actuantes – Ciências Sociais e Humanas em Saúde na América Latina. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2005.

MORRIS, David B., Doença e cultura na era pós-moderna, Lisboa: Piaget 2000.

RIVIÈRE, Claude, Introdução à Antropologia. Lisboa: Edições 70, 2007.

ROLOSANA, Carmelo Lisón (Ed.), Introducción a la antropología social e cultural – Teoría, método y prática, Madrid: Ediciones Akal, 2007.

ROSELLÓ, Francesc Torralba i, Antropología del cuidar. Barcelona: Institut Borja de Bioética, 1998.

SPISANTI, Sandro, Antropología Médica in LEONE, Salvino, PRIIVITERA, Salvatore, CUNHA, Jorge Teixeira da (Dir.) Dicionário de Bioética. Vila Nova de Gaia: Editorial Perpétuo Socorro 2001.

UCHÔA, Elizabeth, VIDAL, Jean Michel, Antropologia Médica: elementos conceituais e metodológicos para uma abordagem da saúde e da doença, Cadernos de Saúde Pública 10 (4): 497 – 504, Rio de Janeiro, Out/Dez 1994.

* Sociólogo e Pesquisador. Mestre em Teologia/PUCRS, Graduado em Sociologia/UFPEL e em Teologia/UCPEL. Professor convidado no Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina nos cursos de Pós-Graduação em Educação e Bioética na cidade de Pelotas/RS. csc193@hotmail.com

Fonte:Contribuciones a las Ciencias Sociales – Universidad de Málaga

Introdução à Antropologia da Saúde

Ementa de Antropologia da Saúde

Iniciação aos estudos antropológicos acerca da Saúde e dos aspectos sócio-culturais do processo Saúde-Doença e de suas instituições, da prevenção, da cura e da morte nas diversas culturas e, em particular, na cultura brasileira.

Objetivos

1. Possibilitar aos estudantes de enfermagem compreensão das dimensões culturais do processo Saúde/Doença e seus derivativos.

2. Criar condições para que os alunos valorizem os próprios saberes e os saberes do outro (da comunidade) em saúde, na perspectiva de sujeitos (que são) produtores de conhecimento.

3. Contribuir para a compreensão das influências culturais sobre as concepções e práticas de Saúde/Doença, prevenção, cura e morte com que os estudantes e os futuros profissionais de enfermagem poderão deparar-se no cotidiano profissional e fora dele.

Metodologia

Esta proposta de curso/disciplina está apoiada na valorização dos saberes que os alunos de enfermagem adquirem e aplicam em suas práticas docentes, enquanto sujeitos (que são) produtores de conhecimento. Assim sendo, as aulas serão dialógicas e debaterão assuntos e problemas trazidos para a sala de aula e não apenas aqueles apresentados neste programa.

Avaliação

Coerente com os objetivos do curso/disciplina, os alunos serão avaliados não só pela apresentação de trabalhos escritos (individuais ou em grupos), seminários, etc., mas também pela participação em classe e/ou interesse pela disciplina.

Conteúdo programático

1. Antropologia: aspectos epistemológicos e teóricos

1.1. Os grandes temas de estudo da Antropologia.

2. Homem/Natureza. Sociedade/Cultura. Estudo antropológico da Cultura.

3. A Saúde/Doença como tema e objeto de estudo e investigação da Antropologia. A Saúde/Doença e cultura. O olhar da alteridade.

4. As dimensões míticas, mágico-religiosas e científicas da Saúde/Doença.

5. Antropologia da Saúde, Antropologia da Doença e suas aplicações na teoria e prática da Enfermagem. Antropologia e Enfermagem.

6. A Antropologia da Saúde, o SUS e os modelos de atenção à Saúde da Família.

7. A interdisciplinaridade entre a Antropologia da Saúde e os demais campos científicos no planejamento e na execução de programas e ações de Saúde.

Bibliografia

ALVES, Paulo Cézar; MINAYO, Maria Cecília de Souza (orgs.). Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1994.
BERLINGUER, Giovanni. A Doença. São Paulo: Hucitec – ABRASCO.
_____. Questões de vida: ética, ciência, saúde. Salvador/São Paulo/Londrina: APCE- HUCITEC-CEBER, 1993.
BOLTANSKI, Luc. As classes sociais e o corpo. Rio de Janeiro: Graal, 1989.
DOUGLAS, Mary. Pureza e perigo. São Paulo: Perspectivas, 1976.
LAPLANTINE, François. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense.
_____. Antropologia da Doença. São Paulo: Martins Fontes.
MORAIS, J. F. Régis (org.). Construção social da enfermidade. São Paulo: Cortez e Morais, 1978.
NUNES, Everardo Duarte (org.). As ciências em saúde na América Latina. Brasília: OPAS, 1985.
PAIM, Jamilson S. A Reforma sanitária e os modelos assistenciais. In: ROUQUARYOL, Maria Zélia. Epidemiologia e saúde. 4. ed. Rio de Janeiro: MEDSI, 1993.
ROQUARYROL, Maria Zélia. Epidemiologia e saúde. 4. ed. Rio de Janeiro: MEDSI, 1993.
_____. Abordagens teórico-conceituais em estudos de condições de vida e saúde: algumas notas para reflexão e ação. Seminário latino-americano. Condições de Vida e Saúde. São Paulo, 10 a 13 de dezembro de 1995.
RODRIGUES, José Carlos. Tabu do corpo. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986.
_____. Tabu da Morte. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986.
SILVA, Yolanda Flores & FRANCO, Maria Celsa (org.). Saúde e Doença: uma abordagem cultural da enfermagem. Florianópolis: Papalivro, 1996, 117 p.Hemerografia Básica
CADERNOS de Saúde Pública: abordagens antropológicas em saúde. Rio de Janeiro: FIOCRUZ/ENSP. v. 9, n. 3, jul/set/1993.
CADERNOS de Saúde da Família. Construindo um novo modelo; os municípios já têm história para contar. Brasília, Ministério da Saúde, ano 1, n. 1, jan/jun,1996.
CAMPOS, Nina H. e outros. Família y familiar, un enfoque para la atención primeria. Boletin de la Oficina Sanitária Panamericana. Santiago, frebero de 1985

Fonte: Universidade Estadual de Feira de Santas  – http://saude.uefs.br/

Agora sim, uma introdução à Antropologia da Saúde….

Antropologia da saúde

Antropologia da Saúde corresponde a uma especialização ou aplicação da antropologia ao estudo do comportamento humano para obtenção e manutenção da saúde através de práticas culturais. Naturalmente, trata-se de uma divisão com fins didáticos pois não há como isolar um “fato” social do seu contexto ou realidade construída pelas sociedades humanas com sua linguagem e cultura característica.Tal ciência aplicada pode ser melhor compreendida tanto pela análise da produção de trabalhos produzidos por antropólogos e demais cientistas sociais como pela especificidades da área de aplicação e suas interfaces com demais ramos do conhecimento.

A antropologia da saúde pode se distinguir da antropologia médica se considerarmos que essa última se detém no estudo das racionalidades médicas, e no estudo das patologias e sistemas terapêuticos – a medicina, tal com conhecemos em nossa sociedade estabelecendo limites difusos com a antropologia biológica e antropologia física ou pode se deter no conceito ampliado de saúde tal como desenvolvido pela medicina social, epidemiologia e estudo da saúde pública.

Para François Laplantine, o autor de Antropologia da doença, esta ciência estuda a percepção e resposta de um grupo social à patologia, elabora e analisa modelos etiológicos e terapêuticos. Um modelo é: uma construção teórica, caráter operatório (hipótese) e também uma construção metacultural, ou seja, que visa fazer surgir e analisar as formas elementares da doença e da cura – sua estrutura seus invariantes tornando-o comparável a outros sistemas (Laplatine).

Outra contribuição relevante de nossos dias vieram de Arthur Kleinman. Segundo esse autor, observando-se a trajetória de pacientes e curadores no contexto cultural distingue-se na organização social o sistema cultural de cuidados de saúde (Health Care System) correspondendo a estas práticas: a o setor ou medicina popular / familiar, conhecida e praticada por todos; a medicina tradicional, que exige um especialista formador – a relação mestre/ discípulo e finalmente o setor médico profissional que se caracteriza-se por possuir escolas formais e hegemonia social. (Kleinman apud Uchoa; Vidal e Currer).

A esses setores correspondem modelos explicativos dos profissionais e dos pacientes e suas famílias, alguns autores que a interação de tais símbolos em uma rede semântica corresponde à construção de realidades médicas que conjugam, normas, valores, expectativas individuais e coletivas, comportamentos ou formas específicas de pensar e agir em relação à doença e saúde. (Uchoa; Vidal)

Uma outra maneira de entender as regras e técnicas e rituais que emergem da vida prática de distintas sociedades (incluindo a nossa) é sua abordagem enquanto processo cognitivo (epistéme) ou racionalidades.

Racionalidade médica, na terminologia proposta por Luz (1988), essencialmente útil para quem pretende comparar elementos (o que é uma exigência do método estrutural). Segundo essa autora, uma racionalidade médica ou sistema lógico e teoricamente estruturado, tem como condição necessária e suficiente para ser considerado como tal, a presença dos seguintes elementos:

1. Uma morfologia (concepção anatômica);
2. Uma dinâmica vital (“fisiologia”);
3. Um sistema de diagnósticos;
4. Um sistema de intervenções terapêuticas;
5. Uma doutrina médica (cosmologia).

Um século de contribuições

Assim como a própria antropologia, tais estudos se iniciaram com as descrições etnográficas do século XIX, assim temos descrições do xamanismo, e das “medicinas tradicionais” e “medicinas populares” entre as proposições teóricas do começo do século XX destacamos as contribuições de Marcel Mauss (1872 – 1950) em especial a criação da noção de técnica do corpo, entendendo o corpo humano como o primeiro e mais natural instrumento do homem nos permitindo comparar as intervenções obstétricas, cuidados de puericultura, higiene, sexualidade etc. e as distinções que faz entre magia, religião situando a prática dos curandeiros, analisando o poder dos enfeitiçamentos e crenças incluindo as célebres descrições de “morte sugerida” ou induzida por feitiçaria na Austrália e Nova Zelândia fenômeno psicossomático posteriormente estudado pelo fisiologista Cannon W. B. (1942) nas suas descrições da relação cérebro – emoção.

As práticas mágicas e simpatias em seus aspectos sociais e psicológicos estão entre os objetos de estudo de Mauss, que mais produziram ecos e até hoje permanecem na lista de interesses do antropólogo voltado para as questões do processo saúde – doença, repleto de excelentes descrições obras clássicas com “Bruxarias, Oráculos e Magia entre os Azande” de E. E. Evans-Pritchard com sua cuidadosa descrição da farmacopéia mágica e outras características religioso-étnicas desses povos da África Central ou “Pensamento Selvagem” de Claude Levi-Strauss, que nos propõe um caminho da compreensão do pensamento mágico e mitologia a partir da comparação das “operações” deste com o pensamento científico delimitando suas relações com a intuição sensível, predominante nas analogias do primeiro, e com a percepção – observação na lógica do pensamento científico.

Também é objeto da antropologia médica o modo como se formam os distintos agentes de cura, o modo como estes modificam a realidade institucional/ cultural em distintos países e organizações sócio-econômicas e o modo como se produzem e distribuem (consomem) ações e serviços de saúde, aliás a OMS, Organização Mundial de Saúde, tem estimulado desde sua fundação a associação das medicinas tradicionais à prestação de serviços primários de saúde a exemplo da bem sucedida criação dos médicos de pés descalços na China.

Antropologia da Sáude no Brasil

Pesquisas sobre as contribuições da antropologia à Medicina, Fisioterapia, Psicologia / Psicanálise, Enfermagem, Odontologia e outras áreas da saúde em estudos específicos sobre essa produção em periódicos e congressos científicos nos revelam que o Brasil, centenas de estudos exploram as relações entre saúde, doença e cura na religiosidade popular, nos sistemas etnomédicos indígenas e religiões – medicinas de matriz africana (candomblés e práticas médico religiosas de afro-descendentes) versam sobre representações do corpo e cuidados corporais, categorias de alimentação, condições de vida da classe trabalhadora, saúde mental e mesmo sobre as práticas médicas alternativas ou complementares.

Os estudos mais antigos tentam relacionar as práticas populares (folclore) às tradições formadoras de nossa cultura, analisando inicialmente segmentos étnicos e a cultura no meio rural e os estudos mais recentes, voltam-se para o meio urbano e as distintas classes sociais que caracterizam os conflitos da sociedade capitalista em transformação. As pesquisas mais recentes tendem a integrar as teorias que dão conta dos dados etnográficos (o particular) ao processo socioeconômico e cultural mais amplo (o geral) (Canesqui, 94; Queiroz; Canesqui, 86).

Bibliografia

* Canesqui, Ana Maria. Notas sobre a produção acadêmica de antropologia e saúde na década de 80. in: Alves, P.C.; Minayo, M.C.S. (org.) Saúde Doença, um olhar antropológico. RJ, FIOCRUZ, 1994
* Evans – Pritchard, E.E. Bruxarias, Oráculos e Magia entre os Azande, RJ, Zahar, 1978
* Laplatine, François. Antropologia da Doença. SP, Martins Fontes, 1991
* Levi-Strauss, Claude. Pensamento Selvagem SP, Cia Ed Nacional, 1976
* Luz, Madel T. Natural, Racional, Social ; Razão Médica e Racionalidade Científica Moderna, Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1988
* OMS – Organizacion Mundial de La Salud. Atencion primaria de salud. La experiência china, Informe de um seminário iterregional. Ginebra, OMS, 1984
* Kleinman, Arthur Concepts and a Model for the comparison of Medical Systems as Cultural Systems. IN: Currer,C e Stacey,M / Concepts of Health, Illness and Disease. A Comparative Perspective, Leomaington 1986
* Queiroz, Marcos S.; Canesqui, Ana M. Contribuições da antropologia à medicina: Uma revisão de estudos no Brasil. Revista de Saúde Pública, SP, v 20 (2); 141-151, 1986
* Uchoa, Elizabeth; Vidal, Jean Michel. Vidal Antropologia Médica: Elementos conceituais e metodológicos para uma abordagem da saúde e da doença. CAD. Saúde Pública, RJ, 10 (4); 497-404, out-dez,1994
* São Paulo, Fernando. Linguagem médica popular no Brasil; 2v. Rio de Janeiro: Barretto, 1936

Fonte: Wikipédia

Ervas Medicinais – Espaço Urbano de uma Ciência Popular

Ervas Medicinais – Espaço Urbano de uma Ciência Popular

Ida Duclós

Originalmente apresentado para a FFLCH/USP

Minha pesquisa sobre o uso popular de plantas medicinais, na cidade de São Paulo, foi feita em quatro locais: duas casas de comércio que vendem produtos naturais, uma especializada no comércio de chás e numa feira, com um erveiro ambulante. Conversei com as pessoas que estavam nestes lugares comprando ervas, sem nenhuma preocupação de selecioná-las, procurando me integrar ao ambiente. A proposta de meu projeto era verificar não só os motivos que levam as pessoas a usar ervas, mas_ averiguar se este uso estava baseado num saber popular compartilhado, repassado oralmente através de gerações.

“Os remédios que constituem a base das farmácias familiares consistem, geralmente, em plantas medicinais e em produtos da indústria farmacêutica…constituem um fundo comum de trocas não somente de medicamentos, mas também de experiências e de conhecimentos terapêuticos. Muitas famílias reservam uma pequena área do jardim para o cultivo das ervas medicinais, hábito adquirido na época em viviam no campo, ou então no próprio bairro, junto aos vizinhos, amigos ou pessoas mais idosas.”( Lovola,1983).

Devido ao tempo que eu tive disponível para me dedicar a este trabalho, meu universo de pesquisa foi reduzido (entrevistei treze pessoas).Talvez, minha delimitação do campo de pesquisa tivesse que ser mais específico, abrangendo um comunidade. Mesmo assim, foi possível constatar que todas as pessoas com quem conversei identificaram a fonte de seus conhecimentos não somente entre parentes e amigos, mas principalmente citaram a televisão e alguns, livros e revistas. Os mais velhos tinham o hábito de plantar em suas casas algumas ervas, como o boldo, a losna, hortelã, melissa, carqueja, arruda, quebra-pedra, poejo, alecrim. Fizeram referências à sua infância, quando o uso de medicamentos e recorrer a médicos não era usual.

“Eu aprendi ao longo dos anos, no contato com as pessoas. Eu tinha um amigo que era médico do SENAI, onde eu trabalhava, que me dizia que sempre quando passava por uma negra velha com ervas, parava para perguntar como é que ela age. Não tinha médicos no lugar onde nós estávamos quando eu era criança. Minha mãe sabia tudo, usava mais homeopatia, mas também chá de macela para acalmar. Losna que é boa para o estômago, nasce no inverno. Os médicos agora estão querendo voltar para a homeopatia, mas teve época que eles achavam tudo isso sem valor, besteira. Meu amigo médico não era assim, mas os colegas dele desprezavam quem desse valor para os chás. Eu vi estes dias o anúncio de um remédio importado de um laboratório alemão preparado com melissa. Nós aqui não ligamos para esta plantinha e os alemães vendem para nós este remédio.” (Leôncio, 82 anos, aposentado) Localizei o médico citado pelo Sr. Leôncio, descobri que ele atendia também num hospital espírita mas ele não tinha tempo disponível para uma entrevista dentro do prazo de entrega de meu trabalho.

Neste depoimento, como em todos os outros, existe alguns pontos em comum: este aposentado vai depois citar a televisão e os livros como fonte de seu conhecimento, existe uma identificação com as mulheres (mãe ou esposa) como agentes no tratamento popular e por fim a preocupação com um conflito entre a medicina oficial e a medicina caseira ou popular. O conhecimento das mulheres idosas é bastante mais detalhado, não se limitando a chás calmantes ou para o estômago. Elas trocam receitas de medicamentos caseiros, como se estas fossem de culinária.

“Uma senhora, quando fui no hospital, me ensinou a ferver a água e colocar folhas de maracujá, alecrim e chuchu. E muito bom para baixar a pressão, o médico que está tratando dela disse que a pressão melhorou depois que ela começou a tomar este chá. Hoje mesmo, fiz folhas de eucalipto fervidas para melhorar a respiração do meu marido, não é para tomar é só para respirar. Todo mundo sabe disso, desde criança que eu sei, minha mãe e minhas tias sempre me fizeram tomar chá. (Suely, dona de casa, 78 anos).

Neste caso o conflito entre o tratamento ortodoxo e a terapia popular, é resolvido pela separação dos dois domínios. Embora a melhora tenha sido atribuída a uma receita caseira, isso não é contado para o médico, que poderia não aceitar esta explicação. Este serve para verificar que houve a melhora. A representação que estas senhoras fazem dos medicamentos caseiros é que estes são receitas, que elas preparam em suas cozinhas, pertencem ao seus domínios e não interessam ao médico do hospital.

As lojas de produtos naturais visitadas são uma verdadeira miscelânea, onde existem objetos de várias procedências, incenso indiano, pão caseiro de farinha integral, tahine japonês (um preparado de soja), vitaminas americanas. Muitos produtos são a base de ervas, como sabonetes, shampoos, cremes e até travesseiros. Os produtos à venda sugerem uma mistura de esoterismo com a busca por uma vida saudável: existem pedras e cristais para melhorar a saúde física através da energização, objetos de madeira para massagem e diversos outros produtos dietéticos ou “biológicos.” As pessoas que entrevistei nestas lojas não estão interessadas especificamente no uso de plantas medicinais, mas estas fazem parte de uma representação de uma vida natural. “Eu não sei para que servem estes chás, meu médico que é homeopata e fitoterapeuta, é quem me receitou, eu quero é ter saúde.” (João, 48 anos, arquiteto)

Não existe aqui, a preocupação por plantar ervas em jardins, elas são compradas em saquinhos preparados por empresas como a Farmaervas, Mundo Verde, Mundo Natural ou Estrela de Davi (foram estas as marcas que anotei). Algumas pessoas me contaram que iniciaram um tratamento com médicos alternativos depois de terem tentado um tratamento alopata que não deu certo. Acham no entanto que podem voltar a usar alopatia alternadamente, se julgarem necessário isso. Mas, tem consciência que estão usando uma terapia não aceita pela medicina ortodoxa, e que isso significa uma mudança em sua noção do que é seu corpo e nos seus hábitos

. ” A reivindicação naturalista é, evidentemente, uma das idéias instigantes que comanda as medicinas paralelas, frequentemente qualificadas, até por elas próprias, de medicinas “naturais” e, mesmo de medicinas “verdes” (ou medicina através das plantas). Em uma sociedade que se tornou, sob muitos aspectos, uma sociedade da mediação instrumental, essa noção extremamente ambivalente, de natureza, exerce, como já vimos, a partir de 1965, verdadeiro fascínio sobre todos os que reconhecem em si a sensibilidade de uma contracultura, e mesmo de uma anticultura em gestação. A medicina oficial, pelo menos em sua tendência dominante, pode ser qualificada, segundo expressão de Lenche, como medicina contra a natureza. O terapeuta não confia de forma alguma na natureza, mas procura substituí-la, através de uma medicação decididamente alopátíca, isto é, um ataque frontal contra o agente responsável. Nessa ótica, o próprio termo “curar” tem o sentido de “guerrear”, perseguindo o invasor até que ele seja definitivamente anulado.” (Laplantine e Rabeyron, 1989)

Esta representação do corpo humano como um conjunto integrado a natureza e a contestação contra a especialidade médica, que só trata de detenninado órgão, aparece nos depoimentos de pessoas entre 35-50 anos. As pessoas mais velhas, podem manifestar um descontentamento com a alopatia, mas não tem um discurso que justifique isto, somente mencionaram que mas não tem um discurso que justifique isso, somente mencionaram que aprenderam um tratamento alternativo durante a sua infância, quando não havia recursos médicos disponíveis como atuaimente. Mostram-se ressentidas pelo seu conhecimento não ser valorizado, mas não elaboraram conceitos sobre isso, como acontece com pessoas mais jovens. Eu comecei a tomar chá por um problema crônico de saúde e obesidade. O chá substitui o café o leite. Estimula as funções dos órgãos vitais, relaxa, elimina gorduras. Teve uma época que eu tomava uma xícara com a mistura de onze chás. Mas fiz isso com acompanhamento médico. É perigoso você tomar sem conhecimento ervas fortes, como raiz de lótus, barbatimão e etc. A composição entre os chás, saber exatamente quais você deve tomar, tem que ter um médico. Fiz tratamento alopata e não resolveu. Então resolvi começar um tratamento de chás junto com acupuntura com um médico naturopata. Mudei toda minha alimentação. O efeito foi imediato, boa disposição, e meus problemas de saúde foram resolvidos ao longo do tempo em que me tratei. Os chás não são panaceia, fazem parte de um conjunto de recursos terapêuticos. Tomando chá parei de tomar café, comer açúcar e carne vermelha. O chá prepara meu organismo para uma alimentação natural, tem um efeito mais harmonizo”no meu corpo. Existe bastante carne com pimenta, deixa super agressivo. As pessoas dizem que chá é coisa de velha, para descansar. Mas isso é preconceito machista, o chá é paraharmonizar, equilibrar seu organismo. Chá você toma saudável, quando está com saúde. Mas ainda existe essa visão, que velhinha é que fica tomando chazinho. Eu tomo chá à noite para relaxar e de manhã para estimular, com o tempo você vai aprendendo a usar os chás que fazem bem para o seu organismo, não é preciso médico para saber. O aroma do chá também é importante, faz efeito em você. Não adianta ser rápido, acho que o ritual do chá faz parte da natureza do chá, você espera um pouco antes de tomar para consolidar o paladar e sentir o aroma.” (António, 47 anos, pequeno empresário) Nestas duas últimas entrevistas, o conhecimento sobre o uso das ervas não pertence ao domínio popular, mas constituem um saber científico dos médicos naturalistas. Há também uma reinvindição não para o tratamento de alguma doença mas por uma vida mais saudável, identificando as plantas medicinais com a natureza. Minha pesquisa respondeu parcialmente as hipóteses que eu tinha formulado:

1. O uso de plantas medicinais; não constitui um saber compartilhado, transmitido oralmente. Isso pode acontecer, mas é somente mais um elemento, num conjunto de informações disponíveis no meio urbano.

2. Os motivos que levam as pessoas a se utilizar das plantas medicinais na cidade está relacionado com a descrença na alopatia para resolver todos os problemas de saúde, com a valorização da natureza e uma representação simbólica sobre a doença e o corpo humano. Há um equilíbrio interior que harmoniza emoções, corpo e mente. As doenças surgem quando existe uma ruptura nessa harmonia, provocada por hábitos e comportamentos qualificados como não saudáveis, como são os da grande metrópole. Minha hipótese que as ervas medicinais fossem utilizadas por falta de recursos para pagar um attendimento médico não se confirmou. As pessoas mais idosas se referiram a épocas passadas, quando não havia disponibilidade de serviços médicos. Hoje, elas recorrem a esse atendimento com o uso paralelo dos chás, infusões, emplastros e pomadas a base de ervas. Minha pesquisa levantou novas questões que seriam interessantes de investigar:

1. a existência de um conflito entre médicos fitoterapeutas ou erveiros com a medicina tradicional.

2. os elementos esotéricos ou religiosos, presentes em lojas de produtos naturais que podem ou não estar associados ao uso das ervas.

3. as diferentes concepções da doença, saúde e corpo humano.

Bibliografia

1. Camargo, M.T.L.A – Medicina Popular, São Paulo, Almed Editora e Livraria Ltda., 1985

2. Laplantine, F. e Rabeyron, P.L. – Medicinas Paralelas, trad., São Paulo, Editora Brasiliense, 1989

3. Loyola, M.A.- Médicos e Curandeiros, São Paulo, Difel Difusão Editorial, 1984

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