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Arquivo do mês: janeiro 2011

As principais resoluções do XI Congresso do PC do Vietnã

As principais resoluções do XI Congresso do PC do Vietnã

Pedro de Oliveira *
Terminou no dia 19 de janeiro último o XI Congresso do Partido Comunista do Vietnã, em Hanói. Na ocasião foi eleito o novo Comitê Central do Partido, que passa a contar agora com 175 membros. Para o Politburo, foram eleitos 14 membros, três a menos que no quinquênio anterior (não houve consenso sobre três candidatos). Foi aclamado por unanimidade o novo Secretário-Geral, Nguyen Phu Trong, ex-presidente da Assembléia Nacional.

Na resolução adotada na reunião final do Congresso, após terem sido colocadas em votação as propostas encaminhadas pelo antigo Comitê Central, foi aprovada a proposta de plataforma pela construção nacional no período de transição ao socialismo. Esta proposta foi complementada e desenvolvida com as discussões realizadas durante o XI Congresso.

Os objetivos e as tarefas para o período 2011-2015

1) Estabilizar a política macro-econômica do país renovando o modelo de crescimento adotado e reestruturando a economia a partir do desenvolvimento extensivo para uma fase de harmonia maior entre o desenvolvimento extensivo e intensivo. Incrementar a qualidade e a eficiência na economia, garantindo um desenvolvimento rápido e sustentável, fortalecendo as características independentes e próprias do Vietnã. Mobilizar forças e tornar mais eficaz a exploração de todos os recursos nacionais, cuidando passo a passo para construir um moderno sistema de infra-estrutura que permita avançar na economia de mercado de orientação socialista.

2) Desenvolver e elevar a um nível superior a qualidade da educação e treinamento, assim como a capacitação de recursos humanos, promovendo e desenvolvendo a ciência e a tecnologia para uma economia baseada no conhecimento. O foco deve ser enfrentar questões delicadas como o trabalho e salários, aprimorando a vida material e espiritual dos trabalhadores. Promover as mudanças necessárias na busca pela igualdade, garantindo os direitos sociais, reduzindo a pobreza, melhorando os serviços de saúde para o povo. Avançar na esfera da cultura e da identidade nacional, preservando e promovendo as tradições culturais e ao mesmo tempo se apropriando das conquistas mais avançadas da humanidade. Proteger o meio-ambiente, tomando a iniciativa de prevenção e mitigação de desastres naturais.

3) Intensificar a defesa nacional e a capacidade de segurança do poder central. Manter a estabilidade social e política, a independência, a soberania, a unidade, a integridade territorial, a ordem social e a segurança pública. Precaver o Estado de atividades e golpes de forças hostis ao governo socialista. Levar a cabo as atividades internacionais e participar de forma pró-ativa da integração regional e mundial.

4) Continuar a promover a democracia e a força nacional com base na unidade do povo. Aperfeiçoar a eficiência do sistema de leis socialista estatal, renovando e tornando cada vez mais eficiente o trabalho da Assembléia Nacional, do Governo, das administrações locais, lutando contra a burocratização, a corrupção e o gasto público desnecessário. Integrar as atividades governamentais com as mobilizações das entidades de massa.

5) Avançar na construção e retificação do Partido em termos políticos, ideológicos e na área da organização. Persistir na atividade de renovação e qualificação de quadros, elevando o controle, a supervisão e o acompanhamento ideológico. Desenvolver a divulgação e a promoção do exemplo moral do Presidente Ho Chi Minh como uma atividade permanente. Elevar a capacidade de liderança da direção partidária e construir o Partido realmente puro e forte a partir das organizações intermediárias e de base.

Além dessas orientações mais gerais, o XI Congresso também definiu metas concretas a perseguir: crescimento econômico médio de 7 a 7,5% do PIB ao ano de 2011 a 2015; o crescimento industrial e da construção civil deverá ficar entre 7,8 a 8% nos próximos cinco anos; o crescimento da agricultura do país está projetado para ser de 2,6 a 3% neste mesmo período. A agricultura significa atualmente de 17 a 18% do PIB do Vietnã. A exportação de produtos industrializados está programada para crescer 12% ao ano enquanto que o déficit da balança comercial deve ser reduzido gradualmente até atingir certo equilíbrio por volta de 2020.

Na área social o investimento público está projetado para ser da ordem de 40% do PIB a.a. nestes próximos cinco anos. Oito milhões de empregos deverão ser gerados até 2015, sendo que a agricultura, a atividade florestal e pesqueira deverá ser responsável por 40% deste total. O índice de crescimento populacional deverá se fixar em 1% enquanto a expectativa de vida ficará em 74 anos até 2015.

O foco principal da direção deste XI Congresso

A preocupação da nova direção partidária é fortalecer a liderança do PCV e sua capacidade de combate. Outro foco é acelerar as reformas administrativas, especialmente as referentes aos procedimentos empresariais assim como as do dia-a-dia dos vietnamitas. Incrementar a qualidade dos recursos humanos para servir às demandas da industrialização, modernização e da integração global da nação. Construir um sistema sincronizado de infra-estrutura, para enfrentar os problemas de tráfego urbano e de transporte através do país. Implementar uma política salarial e de distribuição de renda. Enfrentar problemas de moral pública, como corrupção e disciplina. Por fim, foi também aprovada uma resolução a respeito da autocrítica do Comitê Central cessante, indicando como tarefa da atual direção estudar todas as sugestões e críticas que foram feitas à direção durante o processo do Congresso.

* Jornalista e membro do Conselho Editorial da revista Princípios e do Portal Vermelho

Fonte: Portal Vermelho

 

Slavoj Žižek: ‘Ame-o incondicionalmente ou odeie-o até a morte’

Slavoj Žižek: ‘Ame-o incondicionalmente ou odeie-o até a morte’

O sociólogo, filósofo lacaniano e teórico crítico analisa as relações entre Estados e defende os protestos anticapitalistas.

“Ame-o incondicionalmente ou odeie-o até a morte”. Foi assim que Slavoj Žižek foi descrito pela imprensa da Eslovênia, parte da antiga república da Iugoslávia. O filósofo, sociólogo e teórico crítico é considerado, hoje, o pensador mais revolucionário e polêmico entre os acadêmicos europeus e norte-americanos. E odiado tanto pela direita quanto pela esquerda mundial.

Slavoj Žižek (pronuncia-se Slavói Gijéque), é marxista ferrenho, porém mais próximo de Goucho Marx do que de Karl Marx. É comunista, mas acredita em Jesus e prega um cristianismo sem a figura opressora de Deus.

Tornou-se o queridinho da juventude universitária em todo o mundo ao utilizar a paixão pelo cinema para atacar Hollywood e os EUA.Tem mais de 50 livros publicados e suas palestras mundo a fora são disputadíssimas e superlotadas.

A entrevista do repórter Jorge Pontual com Žižek foi dividida em dois programas. No primeiro, o convidado analisa as as relações entre os Estados e defende que os protestos anticapitalistas, os movimentos ecológicos, os fundamentalistas de qualquer religião, as redes terroristas e todas as manifestações sociais que estão, na verdade, reforçando um mergulho cada vez mais sem volta para um mundo do capitalismo selvagem, onde as relações financeiras é que contam.

A segunda parte do programa com Slavoj Žižek vai ao ar no dia 31 de janeiro. Não perca!

Font: http://globonews.globo.com/Jornalismo/Milênio

Câmara deve analisar neste ano marco civil da internet

Câmara deve analisar neste ano marco civil da internet

Anteprojeto do Executivo define direitos e deveres de usuários e provedores de internet. Texto, que foi alterado após consulta pública, será enviado ao Congresso tão logo receba o aval da Casa Civil.

O Poder Executivo deve enviar à Câmara, em breve, o anteprojeto de lei que trata do marco civil da internet. A proposta, que está atualmente na Casa Civil, define direitos e responsabilidades de usuários e provedores. Durante consulta pública sobre o assunto, promovida pelo Ministério da Justiça no ano passado, mais de duas mil contribuições foram recebidas e, em virtude disso, o texto inicial sofreu alterações.

As mudanças dizem respeito à remoção de conteúdo inapropriado da rede. A nova redação do anteprojeto prevê que o provedor de serviço de internet somente poderá ser responsabilizado por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial, não tomar as providências para, dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o material apontado como infringente – por exemplo, algo que incite a pedofilia ou que contenha calúnia, injúria ou difamação.

O texto inicial dizia que a notificação sobre o conteúdo inadequado poderia ser feita pelo ofendido, não havendo necessidade de ordem judicial para a responsabilização do provedor. Além disso, estabelecia que o usuário responsável pela publicação do conteúdo poderia contestar o provedor, requerendo a manutenção do conteúdo e assumindo a responsabilidade exclusiva por eventuais danos a terceiros. Essa parte foi excluída do anteprojeto; agora, qualquer contra-argumentação deverá ser feita pela via judicial.

A nova versão do texto determina ainda que as regras para remoção de conteúdo inapropriado deverão ser seguidas também pelos usuários que detenham poderes de moderação sobre o conteúdo de terceiros – donos de blogs, por exemplo.

Apoio
O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) considera as alterações feitas no texto positivas. Ele inclusive sugeriu mudanças nesse sentido ao Ministério da Justiça. “Conforme o Direito brasileiro, alterar e remover conteúdo pode significar censura. Isso não deve ser tarefa de um site”, justificou.

O deputado Julio Semeghini (PSDB-SP) também apoia a proposta do governo. “Deve estar no marco civil tudo aquilo que diz respeito à garantia do usuário de ter acesso à internet, à privacidade do cidadão e até mesmo ao anonimato daquele que quiser utilizar a rede de maneira anônima. Além disso, é preciso estabelecer normas sobre a remoção de conteúdo e a responsabilidade do provedor”, explica. Segundo ele, os parlamentares deverão decidir se as regras para o armazenamento, por parte dos provedores, das informações de conexões dos usuários deverão fazer parte do marco civil ou do projeto de lei sobre crimes virtuais (PL 84/99), que tramita em regime de urgência na Câmara.

Privacidade
Já as normas para garantir a privacidade dos cidadãos na internet serão complementadas, segundo o Ministério da Justiça, pelo anteprojeto de lei que trata da proteção de informações pessoais em bancos de dados. O Executivo promoverá consulta pública, até 31 de janeiro, para discutir essa proposta.

Na opinião de Paulo Teixeira, os deputados devem primeiramente aprovar o marco civil; em seguida, uma lei que defina os crimes virtuais; e, por último, a legislação que objetiva proteger os dados pessoais, completando assim a regulação da internet.

Reportagem – Lara Haje
Edição – Marcelo Oliveira
Com informações da Rádio Câmara
Fonte: Portal da Câmara

Inflação: a mesma desculpa de sempre!

Inflação: a mesma desculpa de sempre!

Para um leitor desatento das páginas de economia dos grandes meio de comunicação, aparece como um consenso generalizado a “necessidade inescapável” de, mais uma vez, aumentar a taxa oficial de juros.

Paulo Kliass

Nos próximos dias 18 e 19 de janeiro reúne-se a diretoria do Banco Central, sob a presidência de Alexandre Tombini, para realizar o primeiro encontro do Comitê de Política Monetária (COPOM) no mandato da Presidenta Dilma. Como ocorre em todo evento a cada 45 dias, figura em pauta a definição da taxa oficial de juros – a SELIC, atualmente no patamar de 10,75% ao ano.

O mercado financeiro está em plena agitação, como sempre. Mas as apostas agora ganham em expectativa, uma vez que existe uma incerteza generalizada quanto à capacidade de Dilma Roussef manter seu compromisso à época da campanha eleitoral de reduzir a taxa de juros vigente em nosso País e trazê-la para níveis mais, digamos assim, “civilizados”… Ou seja, os desejos pesados do capital financeiro se manifestam por meio da divulgação de consultas e relatórios de empresas e indivíduos que têm interesse na continuidade dessa política monetária irracional e irresponsável. Para um leitor desatento das páginas de economia dos grandes meio de comunicação, aparece como um consenso generalizado a “necessidade inescapável” de, mais uma vez, aumentar a taxa oficial de juros.

O argumento evocado pelos agentes que operam no mercado financeiro é o de sempre: os riscos apresentados pelas informações disponíveis a respeito da economia de que a meta de inflação anual escape do controle governamental. Não custa aqui recordar alguns elementos básicos para compreender a essência de tal raciocínio. O regime atual de estabilidade macroeconômica pressupõe a existência de uma meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) . Hoje em dia ela está fixada em 4,5% ao ano, com uma margem de tolerância de 2% para cima ou para baixo. Ou seja, enquanto a inflação estiver situada entre 2,5% e 6,5% ao ano, a situação estaria dentro do intervalo esperado. Assim, caso haja uma tendência de elevação dos preços superior a tal meta anual, a solução usada até o momento tem sido, fundamentalmente, a de aumentar a taxa SELIC, de forma a promover uma elevação generalizada dos juros na economia e se obter como resultado uma redução no volume de consumo agregado, do conjunto da sociedade.

Mas afinal, por que tanta preocupação assim com a inflação, poderão perguntar alguns? Pois é, a coisa é mais complicada do que aparenta. Vamos aos poucos. De acordo com os dados preliminares do Censo 2010, a nossa pirâmide populacional apresenta por volta de 26% de pessoas com até 16 anos de idade. Isso significa dizer que 50 milhões de brasileiros, do total de 191 milhões, nasceram após 1994. A conclusão é que aproximadamente 1 em cada 4 brasileiros nasceu após o advento do Plano Real. Trata-se de uma parcela importante de nossa gente, para quem a normalidade cultural e comportamental inclui o sentido de viver em um ambiente social e econômico de preços estáveis. Para essa geração, inflação baixa e sob controle é o padrão. Porém, são crianças e jovens adolescentes, a grande maioria deles ainda dependentes dos pais e da família para efeito de assegurar a renda para a sobrevivência e o consumo.

Já os demais 141 milhões de indivíduos experimentaram, de uma forma ou outra, os períodos anteriores ao Plano Real e sentiram em sua própria pele os efeitos perversos de viver em um ambiente de preços em constante elevação acelerada e mesmo de hiperinflação. A história é longa e tortuosa – fiquemos nas últimas 5 décadas. Depois do golpe militar de 1964, a reforma monetária de 1967, com a perda de 3 zeros do “cruzeiro” da época e a criação da nova moeda – o “cruzeiro novo” ( na verdade, as cédulas antigas ganharam um carimbo com o novo valor e novo nome). Logo após, em 1970 o “cruzeiro novo” ganha cédula nova e vira simplesmente “cruzeiro”. Em 1986, após 16 anos de inflação elevada e perda do valor da moeda, o Plano Cruzado cria a moeda de mesmo nome – o “cruzeiro” perdia 3 zeros e cada 1.000 “cruzeiros” passavam a valer 1 “cruzado”. Em 1989, nova reforma monetária e cada 1.000 unidades do recente “cruzado” passavam a valer 1 ”cruzado novo”, nova moeda criada naquele momento. Pouco mais de um ano depois, no início de 1990, com o Plano Collor, a reforma monetária reintroduz o nome “cruzeiro” para a nossa moeda, sem perdas de zeros. E em agosto de 1993, o então recente “cruzeiro” vê-se transformado em “cruzeiro real”, para logo em seguida efetivar-se a transformação no nosso atual “real” por meio das tabelas de conversão da Unidade Real de Valor (URV). Ufa!

Ora, é mais do que compreensível o receio da maioria da população com relação a eventual volta aos cenários pré 1994. Quem viveu sob a égide do crescimento diário dos preços e sofreu as conseqüências de tal processo reconhece a importância do ambiente de estabilidade de preços.

Principalmente, aqueles que vivem de remuneração de seu próprio trabalho ou de aposentadoria e têm menor capacidade de se proteger da perda contínua do valor monetário do dinheiro guardado fora da esfera financeira.

Apenas a título de comparação: entre 1995 e 2010, a média da inflação oficial (IPCA) foi de 7,6% ao ano. No período mais recente, entre 2003 e 2010, a média anual caiu para 5,7%. Porém, nos 4 meses que antecederam o Plano Collor (dez/89 a mar/90), a inflação acumulada superou a marca de 700%. Apenas nos 31 dias daquele março ela foi de 82%. Já nos 12 meses que antecederam ao Plano Real, a inflação acumulada foi superior a 5.000%. Realmente, a diferença para os tempos atuais é enorme e significativa!

Por mais contraditório que possa parecer, o fenômeno da inflação é carregado de forte abstração. Ou melhor, encerra em si mesmo uma contradição: o elemento real/concreto, ao mesmo tempo em que explicita um aspecto ideal/abstrato. O concreto refere-se ao efeito gerado pelo crescimento dos preços em si mesmo, à capacidade de transformar o montante da moeda em mercadoria, ao volume das compras que podem ser efetuadas a cada momento com aqueles recursos. É a sensação bem objetiva que a sabedoria popular denomina como “sentir no próprio bolso” as conseqüências da inflação. É palpável, é real. Os preços do pão, do leite, do ônibus, da gasolina, da batata, do tomate, do telefone, da televisão, do aluguel sobem. Tudo aumenta de preço. E, mais uma vez, a sabedoria popular explica melhor com a imagem da “falta de salário no final do mês”.

No entanto, a inflação é também sintetizada por um número, por um índice. E tal movimento implica um elevado grau de abstração. Na verdade, busca-se a síntese de um fenômeno generalizado de elevação de preços no conjunto da economia para algo que se expressa sob a forma de um x % ao ano, de um y % ao mês e, às vezes, até mesmo de um z % ao dia. E aqui reside um aspecto essencial: esse de conglomerar, adensar num único número um fenômeno carregado de significados que tangenciam o econômico, o social, o cultural.

O fato é que cada indivíduo, cada família ou cada empresa apresenta um padrão de consumo diferenciado. E isso também varia de acordo com as características regionais (a cesta de consumo de uma família no Sul ou no Nordeste), com as características de renda (padrão de consumo da chamada classe A versus a classe C, por exemplo), com o tipo de empresa considerada (compradora de matérias-primas, mais intensiva em capital ou trabalho, etc). E a lista das diferenças é praticamente inesgotável: moradia própria ou pagamento aluguel; veículo próprio ou uso de transporte público; família morando em ambiente urbano ou rural; consumo nas regiões metropolitanas das capitais ou em pequenos municípios do interior; matrícula dos filhos em escola pública ou privada; uso de serviços de saúde do SUS ou pagamento de plano de saúde privado; etc, etc, etc.

Assim, quando se depara com o número “oficial” da inflação do período, cada agente econômico vai se sentir mais ou menos identificado com aquela referência. Exatamente por ser uma média, tal índice opera como se fosse uma abstração. Para tentar mapear o comportamento de forma mais específica e detalhada, aos poucos foi sendo desenvolvido um conjunto amplo de indicadores que buscam dar conta de tal diversidade de situações. E quem se atrever a correr atrás vai se deparar com uma verdadeira sopa de letrinhas, tanto para as siglas dos índices (em geral começam com a letra “I”…) como para as instituições que os elaboram. Alguns exemplos:

INPC (IBGE) – Índice Nacional de Preços ao Consumidor (1 a 6 salários mínimos)
IPC (FIPE/USP) – Índice de Preços ao Consumidor – município de São Paulo
IPC (FGV) – Índice de Preços ao Consumidor
IPC – S ( FGV) – Índice de Preços ao Consumidor – semanal
IPCA (IBGE) – Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (1 a 40 salários mínimos)
IPCA – 15 (IBGE) – Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (entre dias 15 de cada mês)
IGP – DI (FGV) – Índice Geral de Preços – disponibilidade interna
IGP – M ( FGV) – Índice Geral de Preços – mercado
ICV – SP (DIEESE) – Índice de Custo de Vida – município de São Paulo.
INCC (FGV) – Índice Nacional da Construção Civil
IPA (FGV) – Índice de Preços por Atacado
IPA – M (FGV) – Índice de Preços por Atacado – mercado

Como a apuração de cada índice resulta em um número diferente para a inflação do período, dependendo do indicador utilizado há perdas ou ganhos relativos. É conhecido o fato dos contratos das prestadoras de serviços públicos pós privatização terem sido reajustados pelo IGP-M, que apurava índices mais elevados do que a inflação oficial e dos reajustes salariais. Resultado: transferência de renda da maioria da população para um grupo restrito de empresas privadas.

Uma sofisticação importante foi a elaboração dos índices que incorporam os produtos importados e a pesquisa dos preços no atacado. Assim, por exemplo, pode-se avaliar se a inflação em um certo momento tem determinantes externos importantes, como a alta no preço do petróleo, do minério de ferro, da soja e outras bens chamados “commodities” no mercado internacional, sobre os quais a demanda brasileira não tem nenhuma capacidade de atuar – a não ser por meio da taxa de câmbio. Ou então, pode-se captar alguma tendência de elevação futura quando os preços no atacado apresentam alta. Isso significa que os insumos serão processados ou os estoques vendidos já num patamar de preços mais elevado, quando chegarem na ponta para o consumidor final.

E as diferenças continuam: a FGV divulgou que o IGP-DI para 2010 ficou em 11,3%. Mas a o IBGE informou que a inflação medida pelo IPCA para o mesmo período ficou em 5,9%. Por um lado, mais perdas para quem vive da remuneração de seu trabalho. Por outro, maior pressão do mundo financeiro sobre o governo para aumentar a taxa de juros na reunião do COPOM.

E termino com a pergunta que não quer calar: mas afinal, no frigir dos ovos, qual foi mesmo a inflação do Brasil ao longo do ano passado?

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10

Fonte: Carta Maior

Ipea e Socicom defendem regulação na área da comunicação

Ipea e Socicom defendem regulação na área da comunicação

Com apenas 7,5% da população brasileira com acesso à banda larga (dado de 2009), os benefícios da convergência digital ainda são usufruídos por uma minoria. Ao mesmo tempo, produtores de serviços, como softwares e conteúdos, não conseguem expandir a oferta diante de uma demanda tão limitada. A solução para esse impasse passaria pela ampliação do diálogo entre a indústria da comunicação e o Estado, o qual poderia incentivar o setor através de políticas públicas específicas, como o Plano Nacional de Banda Larga, sustenta estudo realizado pelo IPEA e pela Socicom.

Marcel Gomes

São Paulo – Seja como vetor de entretenimento, educação ou cultura, a indústria da comunicação no Brasil poderia desempenhar um papel mais relevante do que o atual neste período de aceleração do desenvolvimento do país. Com apenas 7,5% da população brasileira com acesso à banda larga (dado de 2009), os benefícios da convergência digital ainda são usufruídos por uma minoria. Ao mesmo tempo, produtores de serviços, como softwares e conteúdos, não conseguem expandir a oferta diante de uma demanda tão limitada. A solução para esse impasse passaria pela ampliação do diálogo entre a indústria da comunicação e o Estado, o qual poderia incentivar o setor através de políticas públicas específicas – por exemplo, através do Plano Nacional de Banda Larga, em gestação em Brasília desde o governo do presidente Lula.

Essa análise – em especial a necessidade de mais diálogo entre o setor da comunicação e o Estado – é recorrente na obra Panorama Brasileiro da Comunicação e das Telecomunicações, cujos três volumes foram lançados nesta terça-feira (12) durante seminário em São Paulo. O compêndio é inédito no setor da comunicação brasileira e pode ser atribuído ao esforço de pesquisadores do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e da Socicom (Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação), entidade que reúne quinze sociedades científicas brasileiras do campo da comunicação. Há artigos sobre tendências recentes da indústria, dados estatísticos sobre a abrangência do setor no Brasil, nos demais países da América Latina, em Portugal e na Espanha, além de um resgate da memória das associações científicas e acadêmicas brasileiras que estudam essas questões.

Ao participar do seminário, o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, ressaltou o papel que as comunicações podem ter em um projeto de desenvolvimento nacional. Segundo ele, os bens imateriais do setor de serviços são hoje mais valorizados do que os bens materiais do setor industrial, o que justificaria o estudo dessas questões e a inclusão do setor em um projeto nacional de desenvolvimento. Para o presidente da Socicom, José Marques de Melo, a demanda por o que ele chama de “bom conteúdo” é grande, uma vez que apenas uma pequena parcela da população tem acesso a ele, enquanto a maioria vive sob um estado de exclusão “cognitiva”. “Estamos em um atoleiro em que a mídia não sabe o que é interesse público ou privado. Ela faz preponderantemente entretenimento, e é bom que o faça, mas é preciso divertir ensinando. A produção precisa ter conexão com a educação e a cultura.”, disse Melo, que também é professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes da USP.

O presidente da Socicom chamou o lançamento do compêndio em parceria com o Ipea de um “momento histórico”. Para ele, essa articulação com um órgão ligado ao Estado indica que “o campo acadêmico da comunicação trilha o caminho da auto-estima, da consolidação e do compromisso público”. Enquanto outros setores da academia e da indústria nacional fizeram esse movimento há muito tempo, o setor da comunicação pagou o preço por ter seu desenvolvimento ocorrido apenas recentemente. Em sua fala, Melo refez os passos do setor enquanto área do conhecimento no país. Sua demarcação ocorreu apenas no final dos anos sessenta, por obra do jornalista Danton Jobim, então presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Jobim incentivou os debates entre profissionais do setor, acadêmicos e sindicalistas, permitindo a construção de uma identidade própria e a futura independência da área dos ramos das Letras e das Ciências Sociais. Fundador da Escola de Comunicação da UFRJ, em 1968, dava o primeiro passo para a criação de uma intelligentsia genuinamente brasileira entre pesquisadores do setor, permitindo a superação da dependência paradigmática de modelos externos.

Os avanços tecnológicos brutais dos últimos trinta anos colocaram a comunicação na agenda da sociedade civil organizada, dos sindicatos e de instituições públicas. A convergência digital obrigou a todos a discutirem a questão. Mas a razão não está apenas nela. De acordo com Gilberto Maringoni, professor de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e bolsista do Ipea, a comunicação entrou na agenda pública também por um fato político-social. Ele se refere à primeira Conferência Nacional de Comunicação, a Confecom, em 2009, um processo que incentivou o debate nos Estados e em Brasília, mobilizando empresários, movimentos sociais e a academia, entre 1600 delegados enviados dos quatro cantos do país.

Um outro fator que incentiva o debate sobre comunicação na agenda pública tem a ver com a conexão entre esse campo e o do desenvolvimento. Nesse aspecto, o Ipea assumiu papel protagonista ao incentivar as pesquisas do setor. A pergunta colocada é: dentro de um programa de desenvolvimento nacional, qual a comunicação que queremos? Maringoni arrisca uma resposta: seria um modelo em que todos tenham acesso ao serviço, mas também tenham voz. “Para isso, o debate precisa ser feito”, diz ele. O Código Brasileiro de Telecomunicações ainda é o de 1962. Rádios e tevês com concessões vencidas tornaram-se casos corriqueiros. Os artigos 220, 221 e 222 da Constituição, que tratam do tema da comunicação, ainda não foram regulamentados. “Quaisquer projetos que tratam de criar regras de convivência para o setor são taxados como censura pela grande mídia, enquanto são necessidades básicas de quaisquer outros setores da vida. Não faz sentido”, criticou Maringoni.

Diante de tantas lacunas regulatórias, o técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea, João Maria de Oliveira, co-autor de um estudo sobre banda larga publicado no compêndio, defende atividade estatal no setor. “É fundamental que haja ação do governo para coordenar investimentos públicos e privados e para que se evite a concentração dos serviços apenas nas áreas mais rentáveis”, disse ele. A banda larga é um pressuposto para a convergência digital e para a produção de conteúdos regionais, mas seu mercado ainda é marcado por grande concentração e falta de competição. Os dados coletados por Oliveira indicam que na região Sudeste, por exemplo, o preço do acesso à banda larga equivale em média a 1/3 do preço cobrado no Norte. Assim, explica o pesquisador, em uma sociedade multicultural e multimídia, as políticas públicas de regulamentação econômica dos mercados de comunicações podem assegurar que os potenciais benefícios das tecnologias convergentes possam ser difundidos e fomentem a heterogeneidade cultural do país.

fonte: Carta Maior

Pesquisa analisa comunicação e telecomunicação no Brasil

Pesquisa analisa comunicação e telecomunicação no Brasil

Panorama da comunicação e das telecomunicações será lançado terça-feira (11) em São Paulo, com a presença de especialistas e acadêmicos. Obra organizada pelo Ipea e Socicom traça um panorama do setor de comunicação e telecomunicações, estratégico para o País, que, apesar de ser muito debatido, não é objeto de muitas pesquisas por parte dos órgãos de estado. Nos três volumes do livro, foram reunidas diferentes dimensões que se complementam e ajudam na elaboração de futuras políticas públicas para o País.

Redação

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas de Comunicação (Socicom) lançam nesta terça-feira, 11, às 8h30, a obra Panorama Brasileiro da Comunicação e das Telecomunicações. A pesquisa, uma iniciativa inédita no Brasil, será lançada no escritório da Presidência da República em São Paulo (Avenida Paulista, 2.163, 17º andar), com a participação do presidente do Ipea, Marcio Pochmann, e do presidente da Socicom, José Marques de Melo.

Seminário IPEA – Panorama brasileiro das comunicações e das telecomunicações

11 de janeiro de 2011 – 8h30 às 13h00 – São Paulo
Local: Escritório da Presidência da República
Avenida Paulista, 2163 – 17º. andar

8:30 às 9:30 – Abertura

- Marcio Pochmann – Presidente do IPEA
- Cezar Alvarez – Secretário executivo do Ministério das Comunicações
- José Marques de Melo – Presidente da Socicom
- Helena Chagas – Ministra da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

9h30 às 11h00 Painel 1 – Panorama das Comunicações

- Moderador – Daniel Castro – Assessor-chefe de Imprensa e Comunicação do IPEA

- Maria Cristina Gobbi – Bolsista do IPEA

- Andréa Ferraz Fernandes – Bolsista do IPEA

- Sivaldo Pereira da Silva – Bolsista do IPEA

- Gilberto Maringoni – Professor de jornalismo da Faculdade Casper Líbero (SP) e bolsista do IPEA

11h00 às 13h00

Moderadora – Cosette Castro – Professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Católica de Brasília

Marcio Wohlers – Diretor de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura

João Maria de Oliveira – Técnico de Planejamento e Pesquisa do IPEA

É necessário confirmar presença pelo email eventos@ipea.gov.br, enviando nome completo e RG.

A obra a ser lançada nessa oportunidade traça um panorama do setor de comunicação e telecomunicações, estratégico para o País, que, apesar de ser muito debatido, não é objeto de muitas pesquisas por parte dos órgãos de estado. Nos três volumes do livro, foram reunidas diferentes dimensões que se complementam e ajudam na elaboração de futuras políticas públicas para o País. O estudo conta com a participação de pesquisadores renomados da comunicação no Brasil. Mestres e doutores de várias partes do País foram selecionados por meio de chamada pública para participar da pesquisa.

O primeiro volume é dividido em duas partes. A primeira traz o estudo das tendências nas telecomunicações e reúne artigos escritos exclusivamente para o livro, além de textos publicados originalmente na edição especial do Boletim Radar, do Ipea, sobre telecomunicações. A segunda parte traz artigos que oferecem um panorama das indústrias criativas e de conteúdos.

O segundo volume da obra é dedicado a resgatar a memória das associações científicas e acadêmicas de comunicação no Brasil. O texto descreve e diagnostica a produção de conhecimento nos principais segmentos da comunicação nacionalmente institucionalizados ou publicamente legitimados nesta primeira década do século XXI.

No terceiro volume, é apresentado o resultado parcial de quatro pesquisas sobre o Estado da Arte no campo da comunicação. O volume traz dados sobre o número de faculdades e cursos de pós-graduação em comunicação no país, com áreas de concentração e crescimento; sobre as profissões existentes na área e as novas habilidades necessárias para uma indústria de conteúdos e serviços digitais; e sobre as indústrias criativas e de conteúdos e os movimentos das empresas em direção ao modelo digital, além de uma comparação com outros países, possibilitando a análise das fragilidades e potencialidades do Brasil.

Fonte: Carta Maior

Panorama da comunicação e das telecomunicações no Brasil: nova grande obra do IPEA

Panorama da comunicação e das telecomunicações no Brasil: nova grande obra do IPEA

Dando continuidade ao extraordinário trabalho que vem desenvolvendo sob a direção de Marcio Pochmann, o IPEA lançou um amplo levantamento da situação da comunicação e das telecomunicações no Brasil, em 3 volumes. Organizados por Daniel Castro, José Marques de Melo e Cosette Castro, os volumes englobam um conjunto de 17 analises, introduzidas por Pochmann, por Marques de Melo e por Cezar Alvarez – este, recém nomeado Secretario Executivo do Ministério das Comunicações.

Os textos são os seguintes:

- Suco de Pitomba – Daniel Castro

- Indústrias criativas e de conteúdo: O dilema brasileiro para a integração do massivo ao popular – José Marques de Melo

- Comunicação digital – diálogos possíveis para a inclusão social – Cosette Castro

- A hora e a vez dos países-baleias – Marcio Pochmann

- Neutralidade de redes na internet: democracia ou economia? – Marcio Wohlers

- Efeitos da convergência sobre a aplicação de politicas públicas para fomento dos serviços de informação e comunicação – Rodrigo Abdalla
Filgueiras de Sousa, João Maria de Oliveira e Luis Claudio Kubota

- Tendências tecnológicas mundiais em telecomunicações – Fernanda De Negri e Leonardo Costa Ribeiro

- Capacitações cientificas do Brasil em telecomunicações – Paulo Meyer Nascimento

- Diferenças de escala no mercado de equipamentos de telecomunicações – Luis Claudio Kubota, Edson Domingues e Daniele Nogueira Milani

- Compras governamentais: análise de aspectos da demanda pública por equipamentos de telecomunicações – Rodrigo Abdalla Filgueiras de Sousa e João Maria de Oliveira

- Balança comercial de equipamentos de telecomunicações – Lucas Ferraz Vasconcelos

- Aspectos técnicos e econômicos da implantação da TV Digital Interativa como um modelo internacional de inclusão – André Barbosa Filho

- Estado, Cinema e Indústrias Criativas e de Conteúdos – Anita Simis

- Comunicações na América Latina: progresso tecnológico, difusão e
concentração de capital (1870-2008) – Gilberto Maringoni

- Comunicação institucional do poder público – Antonio Lassance

- Números impressionantes e diversidade marcam a mídia dos Brics – Marina Nery

- Novos desafios ao direito autoral no jornalismo – João Cláudio Garcia

BBB 11 – Ética pelo ralo

BBB 11 – Ética pelo ralo

O formato é o mesmo já consagrado pelo público e pelos anunciantes: invasão de privacidade com a venda de corpos quase sempre sarados, bronzeados e bem torneados e com a exposição de mentes vazias a abrigar ideias que trafegam entre a futilidade e a galeria de preconceitos.

Washington Araújo

Publicado originalmente no Observatório da Imprensa

No dia 11/1/201 a TV Globo levou ao ar seu programa de maior audiência no verão brasileiro: Big Brother Brasil 11. Sucesso de público, sucesso de marketing, sucesso financeiro, sempre na casa dos milhões de reais. Fracasso ético, fracasso de cidadania, fracasso de respeito aos direitos humanos fundamentais.

O prêmio será de R$ 1,5 milhão para o vencedor. O segundo e terceiro lugares levam, respectivamente, R$ 150 mil e R$ 50 mil. As inscrições para a próxima edição do BBB já estão encerradas. Ao todo, nas dez edições, foram 140 participantes. E já foram entregues mais de R$ 8,5 milhões em prêmios. Balanço raquítico, tanto numérico quanto financeiro para seus participantes, para um programa que se especializou em degradar a condição humana.

Aos 11 anos de existência, roubando sempre 25% do ano (janeiro a março) e agora entrando na puberdade como se humano fosse, o BBB começa anunciando que passará por mudanças na edição 2011. Se você pensou que as mudanças seriam para melhorar o que não tem como ser melhorado se enganou redondamente. O formato será sempre o mesmo, consagrado pelo público e pelos anunciantes: invasão de privacidade com a venda de corpos quase sempre sarados, bronzeados e bem torneados e com a exposição de mentes vazias a abrigar ideias que trafegam entre a futilidade e a galeria de preconceitos contra negros, pobres, analfabetos funcionais.

Após dez anos seguidos, sabemos que a receita do reality show inclui em sua base de sustentação as antivirtudes da mentira, da deslealdade, dos conluios e… da cafajestagem. Aos poucos, todos irão se despir de sua condição humana tão logo um deles diga que “isto aqui é um jogo”. Outros ensaiarão frases pretensamente fincadas na moral: “Mas nem tudo vou fazer para ganhar esse jogo.”

Como miquinhos amestrados, os participantes estarão ali para serem desrespeitados, não poucas vezes humilhados e muitas vezes objeto de escárnio e lições filosóficas extraídas de diferentes placas de caminhões e compartilhadas quase diariamente pelo jornalista Pedro Bial, ao que parece, senhor absoluto do reality show. Não faltarão “provas” grotescas, como colocar uma participante para botar ovo a cada trinta minutos; outra para latir ou miar a cada hora cheia; algum outro para passar 24 horas de sua vida fantasiado de bailarina ou para pular e coaxar como sapo sempre que for ativado determinado sinal acústico. O domador, que terá como chicote sua lábia de ocasião ou nalgumas vezes sua língua afiada, continuará sendo Pedro Bial que, a meu ver, representa um claro sinal de como as engrenagens que movem a televisão guardam estreita semelhança com aqueles velhos moedores de carne.

O último a sair da jaula
É inegável que Bial é talentoso. É inegável que passou parte de sua vida tendo páginas de livros ao alcance das mãos e dos olhos. É inegável também que parece inconsciente dos prejuízos éticos e morais que haverá de carregar vida afora. Isto porque a cada nova edição do reality mais se plasmam os nomes BBB e Pedro Bial. E será difícil ao ouvir um não lembrar imediatamente o outro. Porque lançamos aqui nosso nome, que poderá ter vida fugaz de cigarra ou ecoará pela eternidade. Imagino, daqui a uns 25 anos, em 2035, quando um descendente deste Pedro for reconhecido como bisneto daquele homem engraçado que fazia o Big Brother no Brasil. E os milhares de vídeos armazenados virtualmente no YouTube darão conta de ilustrar as gerações do porvir.

E, no entanto, essas quase duas dezenas de jovens estarão ali para ganhar fama instantânea, como se estivessem acondicionados naqueles pacotinhos de sopa da marca Miojo. Imagino cada um deles a envergar letreiro imaginário a nos dizer com a tristeza possível que “Coloco à venda meu corpo sem alma, meu coração quebrado e minha inteligência esgotada; vendo tudo isso muito barato porque vejo que há muita oferta no mercado”. E teremos aquele interminável desfile de senso comum. Afinal, serão 90 dias de vida desperdiçada, ou melhor, de vida em que a principal atividade humana será jogar conversa fora. O que dá no mesmo. E não será o senso comum exatamente aquele conjunto de preconceitos adquiridos antes de completarmos 15 anos de vida?

Friederich Nietzsche (1844-1900) parecia ter o dom da premonição. É que o filósofo alemão se antecipava muito quando se tratava de projetar ideias sobre a condição humana. É dele esta percepção: “O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele”. Isto porque Nietzsche foi poupado de atrações quase sérias e semi-circenses, como o BBB. No picadeiro, o macaco é aplaudido por sua imitação do humano: se equilibra e passeia de triciclo e de bicicleta, se veste de gente, com casaca e gravata, sabe usar vaso sanitário, descasca alimentos. No picadeiro do BBB, os seres humanos são aplaudidos por se mostrarem intolerantes uns com os outros, se vestem de papagaios, ladram, miam, coaxam, zumbem – e tudo como se animais fossem. Chegam a botar ovo em momento predeterminado. Se vestem de esponja e se encharcam de detergente a limpar pratos descomunais noite afora.

Em sua imitação de animal, o humano que se sobressai no BBB é aquele que consegue ficar engaiolado – digo, literalmente engaiolado – junto com outros bípedes não emplumados – por grande quantidade de horas. E sem poder satisfazer as necessidades humanas básicas, muitas vezes tendo que ficar em uma mesma posição, como seriemas destreinadas. E são os únicos animais que demonstram imensa felicidade em permanecer por mais tempo na gaiola. Não lhes jogam bananas nem pipocas, mas quem for o último a sair da jaula semi-humana ganha uma prenda. Pode ser um passeio de helicóptero, pode ser um carro, pode ser uma noite na Marquês de Sapucaí.

Heidegger reconheceria
O leitor atento deve ter percebido que em algum momento deste texto mencionei que o BBB 11 terá mudanças. Nem vou me dar ao trabalho de editar. Eis o quecopiei do site G1:

“Boninho, diretor do BBB, falou em seu Twitter nesta quarta-feira, 24/11, sobre a nova edição do programa, a 11ª, que estreará em janeiro de 2011. E ele adianta que, desta vez, as coisas vão mudar. ‘Esse ano tudo vai ser diferente… Nada é proibido no BBB, pode fazer o que quiser’, postou Boninho em seu microblog. Questionado sobre o que estaria liberado no confinamento que não estava em edições anteriores, ele respondeu: ‘Esse ano… liberado! Vai valer tudo, até porrada’. Boninho também comentou sobre as bebidas no reality show: ‘Acabou o ice no BBB… Vai ser power… chega de bebida de criança’, escreveu.”

Não terá chegado a hora de o portentoso império Globo de comunicação negociar com o governo italiano a cessão do Coliseu romano para parte das locações, ao menos aquelas em que murros e safanões, sob efeito de álcool ou não, certamente ocorrerão? E como nada compreendo de Heidegger, só me resta dizer que ao longo de toda sua vida madura Heidegger esteve obcecado pela possibilidade de haver um sentido básico do verbo “ser” que estaria por trás de sua variedade de usos. E são recorrentes suas concepções quanto ao que existe, o estudo do que é, do que existe: a questão do Ser (i.e. uma Ontologia) dependente dos filósofos antes de Sócrates, da filosofia de Platão e de Aristóteles e dos Gnósticos.

Quem sabe tivesse assistido uma única noite do BBB – caso o formato da Endemol estivesse em cena antes de 1976 –, o filósofo, por muitos cultuado, não apenas teria uma confirmação segura de que não valia mesmo a pena publicar o segundo volume de sua obra principal, O Ser e o Tempo, como também haveria de reconhecer a inexistência de algo anterior ao ser. Mas, com certeza, se fartaria com a miríade de usos dados ao verbo “ser”.

 

Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela
UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil,
Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org
Email – wlaraujo9@gmail.com

Jornalismo para quem precisa: uma proposta para 2011

Jornalismo para quem precisa: uma proposta para 2011

A demanda por um jornalismo de maior qualidade terá que ser suprida por repórteres ciosos de outro tipo de jornalismo, mais aberto e solidário, comprometido com a verdade factual e a honestidade intelectual, interessado em boas histórias. Um jornalismo mais leve e mais humano, mais preocupado com a qualidade da informação do que com a vaidade do furo. Um jornalismo vinculado à realidade, não a interesses econômicos. E isso, certamente, só poderá ser viabilizado dentro de outro modelo, cooperativo e democrático, a ser exercido a partir das novas mídias virtuais. O artigo é de Leandro Fortes.

Leandro Fortes – Brasília, eu vi

Publicado originalmente no blog Brasília, eu vi

Há alguns dias, lancei na minha página do Facebook uma idéia que venho acalentando há tempos, desde que encerrei um curso de extensão para uma faculdade privada de jornalismo, aqui em Brasília. O curso, de Técnica Geral de Jornalismo, reuniu pouco mais de 10 alunos, basicamente, porque era muito caro. Embora tenha sido uma turma de bons estudantes, gente verdadeiramente animada e interessada no ofício, me senti desconectado da real intenção do curso, que era de fazer um contraponto de método, opinião e visão ideológica a esse jornalismo que aí vemos, montado em teses absurdas, em matérias incompletas e mentirosas, omissas em tudo e contra todos, a serviço de um pensamento conservador, reacionário e golpista disseminado, para infelicidade geral, c omo coisa normal. Não é. E é sobre isso que eu queria falar enquanto ensinava, dia a após dias, os fundamentos práticos da pauta, da entrevista, da redação jornalística, da nobre função do jornalista na sociedade, no Brasil, na História.

Perguntei, então, no Facebook, o que estudantes de jornalismos e jornalistas formados achariam de eu transferir essas aulas para um espaço barato e democrático, capaz de levar esses conhecimentos a muito mais gente, sobretudo ao estudante pobre – e, quem sabe, credenciar também os pobres a brigar por uma vaga nas redações, que se tornaram ambientes muito elitistas. Encaretadas por manuais de doutrina e comportamento, adestradas pela conduta neoliberal dos anos 1990, quando passaram a responder diretamente pelas demandas do Departamento Comercial, as redações brasileiras se desprenderam da ação política, dos movimentos sociais, do protagonismo histórico a favor dos direitos humanos e da luta contra a desigualdade. Passaram, sim, a reproduzir um universo medíocre de classe média, supostamente a favor de uma modernidade pós-muro de Berlim, onde bradar contra privatizações e a adoração ao deus mercado passou a ser encarado como esquerdismo imperdoável e anacrônico.

Não por outra razão, os movimentos corporativos a favor da manutenção da obrigatoriedade do diploma de jornalista, que resistiram a todo tipo de investida patronal ao longo de duas décadas, foram definitivamente golpeados com o apoio e, em parte, a omissão, da maioria dos jovens profissionais de imprensa, notadamente os bem colocados em redações da chamada grande mídia. Vale lembrar que o jornalismo é, provavelmente, a única profissão do mundo onde existem profissionais que pedem o fim do próprio diploma. Há muitas nuances, claro, nessa discussão, inclusive porque há gente muito boa que, historicamente, se coloca contra o diploma, sobretudo velhos jornalistas criados em velhas e românticas redações, cenas de um mundo que, infelizmente, não existe mais.

Na essência, o fim da obrigatoriedade do diploma não é uma demanda de jornalistas, mas de patrões, baseada num argumento falacioso de liberdade de expressão – na verdade, de opinião –, quando a verdadeira discussão está, justamente, na formação acadêmica dos repórteres. E há uma distância abissal entre opinião e reportagem, porque a primeira qualquer um tem, enquanto a segunda não é só fruto de talento, mas de aprendizado, técnica e repetição.

Nas grandes empresas, o fim da obrigatoriedade do diploma coroou uma estratégia que tem matado o jornalismo: a proliferação de cursinhos internos de treinees, tanto para estudantes como para recém-formados, cuja base de orientação profissional é a competitividade a qualquer custo, um conceito puramente empresarial copiado, sem aparas, do decadente yupismo americano. Digo que tem matado porque esses cursinhos de monstrinhos competitivos relegam o papel universal do jornalista ao segundo plano, quando não a plano algum. A idéia de que o jornalista deva ser um profissional solidário, inserido na sociedade para lhe decifrar os dramas e transmiti-los a outros seres humanos passou a ser um devaneio, um delírio socialista a ser combatido como a um inimigo. Para justificar essa sanha, reforça-se o mito da isençã o e da imparcialidade de uma mídia paradoxalmente comprometida com tudo, menos com a sua essência informativa, originalmente baseada no universalismo e no compromisso com o cidadão.

Na outra ponta, o fim da obrigatoriedade do diploma abriu a porteira para jagunços e capangas ocuparem as redações da imprensa regional, longe da fiscalização da lei e dos sindicatos, alegremente autorizados a fazer, literalmente, qualquer coisa com qualquer pessoa. Mesmo para o novo modelo de jornalismo que se anuncia na internet, baseado em disseminação mútua de informações primárias, como no caso dos vazamentos do Wikileaks, haverá sempre a necessidade do tratamento jornalístico dos conteúdos. E, para esse serviço, não há outro trabalhador credenciado senão um bom repórter treinado e formado para essa missão. Formação esta que, insisto, deve ser feita na academia e reforçada na experiência diária da reportagem.

Recentemente, li sobre a criação, em 2010, do Instituto de Altos Estudos em Jornalismo, sob os auspícios da Editora Abril. Entre os mestres do tal centro estavam o dono da editora, Roberto Civita, mantenedor da Veja, e Carlos Alberto Di Franco, do Master de Jornalismo, uma espécie de Escola das Américas da mídia nacional voltada para a formação de “líderes” dentro das redações. Di Franco, além de tudo, é um dos expoentes, no Brasil, da ultradireitista seita católica Opus Dei, a face mais medieval e conservadora da Igreja Católica no mundo.

Sinceramente, não vejo que “altos estudos”, muito menos de jornalismo, podem sair de um lugar assim. Não tenho dúvidas de que a representação do tal instituto não é acadêmica, embora seja dirigido por Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás no governo do PT, renomado estudioso da imprensa no Brasil. Trata-se de uma representação fundamentalmente ideológica, a reforçar as mesmíssimas estruturas de poder das redações, estruturas ultraverticalizadas, essencialmente antidemocráticas e personalistas, onde a possibilidade de ascensão funcional, sobretudo a cargos de chefia, está diretamente ligada à capacidade de ser subserviente aos patrões e bestas-feras com os subordinados.

Felizmente, o surgimento da internet deu vazão a outro ambiente midiático, regido por outras regras e demandas, um devastador contraponto ao funcionamento hermético das grandes redações e ao poder hegemônico da velha mídia brasileira, inclusive de seus filhotes replicadores e retransmissores Brasil adentro. O fenômeno dos blogs e sua capacidade de mobilização informativa é só a parte mais visível de um processo de reordenamento da comunicação social no mundo. As redes sociais fragmentaram a disseminação de notícias, fatos, dados estatísticos, informes e informações em um nível adoravelmente incontrolável, criando um ambiente noticioso ainda a ser desbravado por novas gerações de repórteres que, para tal, precisam ser treinados e apresentados a novas técnicas e, sobretudo, a novas idéias.

A “era do aquário”, para ficar numa definição feliz do jornalista Franklin Martins – aliás, contrário à obrigatoriedade do diploma –, está prestes a terminar. O jornalismo decidido por cúpulas restritas, com pouco ou nenhum apego à verdade dos fatos, está reduzida a um universo patético de mau jornalismo desmascarado instantaneamente pela blogosfera, vide a versão rocambolesca da TV Globo sobre a bolinha de papel na cabeça de José Serra ou a farsa do grampo sem áudio que uniu, numa mesma trama bisonha, a revista Veja, o ministro Gilmar Mendes, do STF, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás.

Não será a escola de “altos estudos” da Veja e do professor Di Franco, portanto, a suprir essa necessidade. Essa demanda terá que ser suprida por repórteres ciosos de outro tipo de jornalismo, mais aberto e solidário, comprometido com a verdade factual e a honestidade intelectual, interessado em boas histórias. Um jornalismo mais leve e mais humano, mais preocupado com a qualidade da informação do que com a vaidade do furo. Um jornalismo vinculado à realidade, não a interesses econômicos. E isso, certamente, só poderá ser viabilizado dentro de outro modelo, cooperativo e democrático, a ser exercido a partir das novas mídias virtuais.

Por isso, é preciso estabelecer também um contraponto à ideologia da mídia hegemônica no campo da formação, em complemento aos cursos superiores de jornalismo. Abrir espaço para os milhares de estudantes de comunicação, em todo o Brasil, que não têm chance de participar dos cursinhos de treinees dos jornalões e das grandes emissoras de radiodifusão. Dar a eles, de forma prática e barata, uma oportunidade de aprender jornalismo com bons repórteres, com repórteres de verdade.

Foi nisso que pensei quando idealizei, em 2007, a Escola Livre de Jornalismo, junto com outros dois amigos, ambos ótimos jornalistas, Olímpio Cruz Neto e Gustavo Krieger. Com eles, ajudei a montar bem sucedidos ciclos de palestras e oficinas de jornalismo em Brasília. Em 2009, um ano antes do 1º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, em São Paulo, a Escola Livre, em parceria com o IESB, já havia conseguido reunir, na capital federal, os principais expoentes desse movimento no país: Luis Nassif (Blog do Nassif), Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada), Rodrigo Vianna (Escrevinhador), Marco Weissheimer (RS Urgente) e Luiz Carlos Azenha (Viomundo). Uma semana de debates ricos, bem humorados, em um auditório permanentemente lotado de estudantes de jornalismo e jornalistas profissionais. Foi nosso único evento gratuito e, claro, o de maior sucesso. Os ciclos e oficinas, embora tenham tido boa audiência, esbarravam sempre no problema do custo para os estudantes: como nos cursinhos de treinee da velha mídia, acabávamos por privilegiar um segmento de jovens já socialmente privilegiados. É dessa frustração e dessa armadilha que proponho fugir agora.

Por isso, expus no Facebook a idéia de ministrar minhas aulas de Técnica Geral de Jornalismo, divididas em módulos, de modo que cada estudante pague um valor baixo por cada aula. Ou seja, os estudantes vão às aulas que quiserem, pagam na entrada e participam de duas horas de aula de jornalismo sobre tópicos práticos e temas relevantes. Minha idéia é convocar outros repórteres de Brasília a participar desse movimento da Escola Livre de Jornalismo, com o compromisso de, em troca da aula de duas horas, receber 70% do valor arrecadado no dia, porque 30% serão sempre destinados à administração e organização do curso.

Além do valor da aula, ainda a ser estipulado, cada aluno deverá também levar um alimento não perecível qualquer, a ser distribuído para comunidades pobres do Distrito Federal ou instituições de assistência social a serem definidas com futuros parceiros. Esses mantimentos, inclusive, poderão ser usados como moeda de troca para podermos utilizar gratuitamente algum espaço físico em Brasília para ministrar as aulas. É algo ainda a ser definido.

A idéia está lançada. No Facebook, recebi quase 100 adesões imediatas de estudantes, jornalistas, incluindo alunos e ex-alunos realmente satisfeitos com a perspectiva de participar de um movimento interativo desse nível, a preços populares. Espero poder iniciar as primeiras aulas em fevereiro de 2011 e, desde já, conto com a participação de todos os amigos e colegas jornalistas do Brasil que quiserem compartilhar essa experiência. Quanto mais gente boa dando aula, mais gente boa a ser formada. Como nas experiências anteriores, a Escola Livre de Jornalismo espera contar com a parceria das faculdades de jornalismo do DF para transformar em crédito a freqüência dos estudantes nas aulas, de modo a colaborar com uma necessidade acadêmica deles, as horas extra-sala de atividades complementares.

Por favor, quem quiser participar dê o ar das graças. Nossa missão inicial é achar um lugar amplo e legal, com cadeiras e uma boa mesa de professor, para dar as aulas. A depender do nível de adesão dos colegas jornalistas, vamos organizar uma agenda para as aulas, que serão sempre aos sábados, em princípio, das 9 às 11 horas da manhã.

Por enquanto, é esse o meu manifesto, é essa a minha idéia. O resto virá, tenho certeza, na garupa de bons ventos.

Fonte: Carta Maior

Comunicação ganha documento na Cúpula Social do Mercosul

Comunicação ganha documento na Cúpula Social do Mercosul

Integrantes de organizações da sociedade civil, reunidos na Comissão de Comunicação da X Cúpula Social do Mercosul, divulgaram documento defendendo que a comunicação deve ser reconhecida como um direito a ser exercido por e para todas as pessoas. “Entendemos necessária a implementação, por parte dos Estados, de políticas públicas, com participação cidadã, para garantir a todas e todos o exercício dos direitos à livre expressão, à informação e à comunicação”, diz a declaração. Pelo Brasil participaram representantes da Altercom, do Intervozes, da Rádio de la Juventud e do Parlamento do Mercosul.

Redação

Declaração do grupo de Comunicação na Cúpula Social do Mercosul

Reunidos em Itaipú, Foz do Iguaçú, os integrantes de organizações da sociedade civil reunidos na Comissão de Comunicação dentro da X Cúpula Social do Mercosul, manifestam que:

Vivemos tempos de mudança na América Latina. Hoje, mais do que nunca, os grandes meios de difusão que são parte do poder econômico, convertem-se nos principais opositores a esas mudanças, exercendo um verdadeiro terrorismo midiático. Ao mesmo tempo, vemos com otimismo o fortalecimento e a articulação de iniciativas de comunicação transformadoras, populares, alternativas, comunitárias, educativas e outras. Esses meios disputam sentidos, questionam a hegemonia do pretenso discurso único e são expressão das diversidades de nosso continente.

Afirmamos que a Comunicação deve ser reconhecida como um Direito Humano a ser exercido por e para todas as pessoas. O Direito à Comunicação implica garantir diversidade e pluralidade. Não nos conformamos com as proclamações que reduzem a liberdade de expressão à liberdade de empresa. Não se trata somente do fato de que os Estados não censuram a imprensa. Entendemos necessária a implementação, por parte dos Estados, de políticas públicas, com participação cidadã, para garantir a todas e todos o exercício dos direitos à livre expressão, à informação e à comunicação. Dessa forma se possibilitará a expressão a povos e setores silenciados.

Entendemos que isso implica revisar e reformular os marcos regulatórios para assegurar uma comunicação democrática e horizontal. Isso implica, entre outras coisas, que a informação e a comunicação sejam consideradas um direito e não uma simples mercadoria; que se impeçam os monopólios e oligopólios na comunicação; que se assegure o livre acesso à informação pública; que se promovam e fortaleçam os meios do setor social, populares, comunitarios, educativos; que se reconheça e se facilite o direito dos povos originários a gestionar seus próprios meios preservando suas identidades: que se promova a formação de novos comunicadores/as que expressem a identidade de nossas comunidades; que se estimule e facilite a criação ou fortalecimento de redes de comunicação regionais públicas e de gestão de organizações sociais; que se impulsionem e se desenvolvam meios públicos com participação cidadã; que se assegure o acesso e utilização universal dos beneficios das tecnologias da Informação e da Comunicação, garantindo o acesso universal à banda larga para nossos povos.

Nós, dos movimentos sociais, reconhecemos e valorizamos os meios de comunicação próprios, comunitários e populares, comprometendo os maiores esforços em potencializar e articular seu trabalho para contar a história desde o olhar de nossos povos e disputar os sentidos com o discurso do poder. Isso supõe não só mais meios, mas também meios mais fortes, com novas estéticas e articulados em rede. Por isso, estes meios devem ser não só permitidos, mas também fomentados e apoiados pelos Estados. Neste sentido, rechaçamos a criminalização que se exerce atualmente contra meios comunitarios, especialmente no Paraguai e no Brasil.

Apreciamos que o novo cenário continental abra oportunidades e, ao mesmo tempo, desafios para contribuir para a integração de nossos povos, promovendo a solidariedade, facilitando o diálogo intercultural, integrando a diversidade de vozes e dando visibilidade aos povos originários e afrodescendentes, a diversidade sexual, as populações imigrantes, as pessoas com necesidades especiais, mulheres, crianças e jovens, para construir em conjunto “outra América possível”.

Propomos às chancelarias de nossos países que sejam constituídos Conselhos Consultivos da Sociedade Civil, onde ainda não existem, para tornar possível a participação das organizações da sociedade civil no proceso de integração regional. Especificamente, solicitamos que se efetive a participação da sociedade civil na Reunião Especializada de Comunicação Social.

Solicitamos que os estados desenvolvam políticas públicas para meios de comunicação em regiões de fronteira que tendam a favorecer conteúdos em defesa da integração com respeito à diversidade, com participação das populações envolvidas e atendendo sua vivência cotidiana.

Neste sentido, apontamos como exemplo a integração já exercida entre meios de comunicação da sociedade civil do Brasil e da Argentina e do Paraguai e Argentina a partir de iniciativas surgidas nas Cúpulas de Salvador (Brasil) e da Ilha do Cerrito (Argentina). Entendemos necessária a plena participação da sociedade civil na Reunião Especializada de Comunicação Social (RECS) tanto a nível nacional como regional.

Propomos aos países membros a adoção de medidas que garantam às pessoas com necesidades especiais: a) acesso aos meios de comunicação televisivos mediante a implementação de legendas, áudio-descrição e Língua dos Sinais nos programas; b) acesso aos jornais e revistas digitais e a toda informação institucional mediante o desenvolvimento de páginas Web acessíveis levando em conta as recomendações de nível internacional.

Vemos de forma positiva a incorporação nesta instância de pequenos e médios empresarios da comunicação identificados com as bandeiras das lutas dos movimentos sociais de nossos países. Por último, reiteramos o chamado a nossos presidentes para definir e implementar políticas concretas e imediatas para Democratizar a Comunicação com a ativa participação das organizações sociais.

Foz do Iguaçu, 15 de dezembro de 2010.

Pelo Brasil:

João Paulo Mehl – Intervozes
Jessica Rodrigues – Radio de la Juventud
Marco Piva – Altercom
Rafael Reis – Parlamento do Mercosul

Pelo Uruguai:

Sabrina Crovetto – Mercociudades
Alvaro Queiruga – Ovejas Negras
Soledad Fontela – Red Especial Uruguaya
Humberto De Marco – Red Especial Uruguaya
Alberto Esteves – CEDECOOP
Marianella Custodio – Federación de Estudiante Universitarios

Pelo Paraguai:

Santiago Ortiz – Radio Fe y Alegria
Atanasio Galeano – Voces de Paraguay
Lorena Escobar – Voces de Paraguay

Pela Argentina:

Carlos Borona – Cancillería
Hugo Pan – FM La Nueva
Pedro Lanteri – Radio Madres de Plaza de Mayo
José Luis Moyano – Radio El Libertador

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Formação de opinião: revisitando o poder da mídia

Formação de opinião: revisitando o poder da mídia

O fenômeno Lula, que deixa o poder, como observou um analista, “amado pelo povo e detestado pela mídia”, deve servir não só para uma reavaliação do papel da mídia, mas também como horizonte para aqueles que trabalham pela universalização da liberdade de expressão e pela efetivação do direito à comunicação.

Venício Lima

Publicado originalmente no Observatório da Imprensa

Os resultados da pesquisa CNI/Ibope divulgados no dia 16 de dezembro confirmam uma clara tendência dos últimos anos e, ao mesmo tempo, recolocam uma importante questão sobre o poder da grande mídia tradicional. De fato, a aprovação pessoal e a confiança no presidente Lula atingiram novos recordes, 87% e 81%, respectivamente; e a avaliação positiva do governo subiu para 80%, outro recorde (íntegra da pesquisa disponível aqui).

A confirmação dessa tendência ocorre apesar da grande mídia e sua cobertura política do presidente e de seu governo ter sido, ao longo dos dois mandatos, claramente hostil ou, como disse a presidente da ANJ, desempenhando o papel de oposição partidária.

Isso significa que a grande mídia perdeu o seu poder?

Monopólio da informação política
Parece não haver dúvida de que a mídia tradicional não tem mais hoje o poder de “formação de opinião” que teve no passado em relação à imensa maioria da população brasileira. E por que não?

Um texto clássico dos estudos da comunicação, escrito por dois fundadores deste campo, ainda na metade do século passado, afirmava que para os meios de comunicação exercerem influência efetiva sobre os seus públicos é necessário que se cumpram pelo menos uma das seguintes três condições, válidas até hoje: monopolização; canalização ao invés de mudança de valores básicos, e contato pessoal suplementar. Com relação à monopolização afirmam:

“Esta situação se concretiza quando não se manifesta qualquer oposição crítica na esfera dos meios de comunicação no que concerne à difusão de valores, políticas ou imagens públicas. Vale dizer que a monopolização desses meios ocorre na falta de uma contrapropaganda. Neste sentido restrito, essa monopolização pode ser encontrada em diversas circunstâncias. É claro, trata-se de uma característica da estrutura política de uma sociedade autoritária, onde o acesso a esses meios encontra-se totalmente bloqueado aos que se opõem à ideologia oficial” [cf. Paul Lazarsfeld e Robert K. Merton, "Comunicação de massa, gosto popular e ação social organizada" in G. Cohn, org. Comunicação e Indústria Cultural; CEN; 1ª. ed., 1971; pp. 230-253].

Aparentemente, a monopolização do discurso político “mediado” pela grande mídia – em regimes não-autoritários – foi quebrada pelo enorme aumento das fontes de informação, sobretudo com a incrível disseminação e capilaridade social da internet.

Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, quando de sua rápida visita ao Brasil, em abril passado, o fundador do diário espanhol El País, Juan Luis Cebrian, afirmava:

“…a internet é um fenômeno de desintermediação. E que futuro aguarda os meios de comunicação, assim como os partidos políticos e os sindicatos, num mundo desintermediado? Do início ao fim da última campanha presidencial americana, circularam pela web algo como 180 milhões de vídeos sobre os candidatos Obama e McCain, mas apenas 20 milhões haviam saído dos partidos Democrata e Republicano. As próprias organizações políticas foram ultrapassadas pela movimentação dos cidadãos. Como ordenar tudo isso? Não sei. (…) …hoje existem 2 bilhões de internautas no mundo, ou seja, um terço da população planetária já tem acesso à rede. Há 200 milhões de páginas web à escolha do navegante. Na rede, você diz o que quer, quando quiser e a quem ouvir, portanto, o acesso à informação aumentou de forma espetacular. Isso é fato [íntegra disponível aqui].

A disseminação da internet – ou seja, a quebra do monopólio informativo da grande mídia – aliada a mudanças importantes em relação à escolaridade e à redistribuição de renda que atingem boa parte da população brasileira, certamente ajudam a compreender os incríveis índices de aprovação de Lula e de seu governo, mesmo enfrentando a “oposição” da grande mídia.

Resta muito poder
Isso não significa, todavia, que a grande mídia tenha perdido todo o seu poder. Ao contrário, ela continua poderosa, por exemplo, na construção da agenda pública e na temerosa substituição de várias funções tradicionais dos partidos políticos, vale dizer, do enfraquecimento deles.

A grande mídia, em particular a mídia impressa (jornais e revistas), ainda continua poderosa como ator político em relação à reduzida parcela da população que se situa na ponta da pirâmide social e exerce influência significativa nas esferas do poder responsáveis pela formulação das políticas públicas, inclusive no setor das comunicações.

O fenômeno Lula, que deixa o poder, como observou um analista, “amado pelo povo e detestado pela mídia”, deve servir, não só para uma reavaliação do papel da mídia de massa tradicional, mas também como horizonte para aqueles que trabalham pela universalização da liberdade de expressão e pela efetivação do direito à comunicação.

 

Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

Fonte: Carta Maior

Por que a mídia não se autoavalia?

Por que a mídia não se autoavalia?

Ainda não será ao final deste ano de 2010 que a grande mídia fará uma avaliação pública de si mesma. Mas, com certeza, esta omissão grave já não passa despercebida para um número cada vez maior de brasileiros.

Venício Lima

Publicado originalmente no Observatório da Imprensa

Final de ano é tempo de balanços e previsões. Pessoais e institucionais. É momento de parar e refletir sobre o que se fez, identificar erros e acertos, corrigir o que pode ser melhorado, reavaliar caminhos e objetivos, planejar o futuro.

A grande mídia faz avaliações públicas e previsões de e para tudo: de todos os setores do governo, da iniciativa privada, das ONGs, da política, de todas as artes, esportes, religiões, do clima, das tendências… Por óbvio, a grande mídia faz avaliações e previsões internas, como em todas as empresas privadas comerciais que precisam dar conta a acionistas de metas e resultados.

O que a grande mídia não faz são avaliações públicas de si mesma, de seu próprio desempenho, de sua parcialidade, de seus preconceitos, de suas tendências, de suas omissões, de suas escolhas, de seu papel na democracia. O que a grande mídia omite é a avaliação de si mesma como um serviço que, apesar de explorado pela iniciativa privada, não perde sua natureza de serviço público.

Por que será que a mídia, apesar da indiscutível posição de centralidade que ocupa nas sociedades contemporâneas, não pauta o debate sobre seu papel como faz permanentemente em relação a todas as outras instituições na sociedade?

Adaptação do panem et circenses

A explicação da grande mídia será sempre aquela que atribui ao mercado o papel de seu único e supremo avaliador. A grande mídia dirá que é permanentemente avaliada por seus consumidores/leitores/ouvintes/telespectadores e que seu sucesso ou fracasso comercial significa o cumprimento ou não de sua missão e o atendimento ou não das necessidades de seu “público”. Se o jornal é comprado por X consumidores é porque satisfaz a eles. E essa é a melhor avaliação que pode existir. Essa é uma das versões da conhecida “teoria do controle remoto”: se o consumidor não gosta do que vê, ele pode trocar de canal ou desligar o aparelho de TV.

Como já argumentei em outra oportunidade [ver "Donos da mídia – A falácia dos argumentos"], a “teoria do controle remoto” ignora como se formam, se desenvolvem e se consolidam os hábitos culturais, incluindo aqui o hábito de assistir determinados canais e/ou programas de TV ou de ler determinadas revistas e/ou jornais. Este é um fascinante campo da complexa “sociologia do gosto”. Quando se atribui, sem mais, ao mercado o papel de supremo avaliador, reduz-se toda a problemática da comunicação de massa a uma única dimensão – do “consumo” individual – e ignora-se a complexa questão da formação social do gosto e do papel determinante que a própria mídia nela desempenha.

Além disso, o argumento pressupõe um mercado de mídia democratizado, onde estariam representadas a pluralidade e a diversidade da sociedade, o que, por óbvio, não existe. Ignora ainda o fato elementar de que não se pode gostar ou deixar de gostar daquilo que não se conhece ou cujas chances de se conhecer são extremamente reduzidas.

No fundo, trata-se de uma adaptação contemporânea [sem as problematizações levantadas por historiadores como Renata Garraffoni] do panem et circenses romano. Naturalmente, o sacrifício de cristãos, entregues às feras em espetáculos públicos, não torna a prática dos imperadores romanos correta. Dito de outra forma, nem tudo que agrada a parcela importante da população é automaticamente ético e correto.

Omissão grave

A transparência que a grande mídia corretamente cobra de outras instituições – públicas e privadas –, ela não pratica em relação a si mesma. Permanecemos em 2010 sendo um país democrático onde sequer existe um cadastro geral com acesso público dos concessionários do serviço de radiodifusão.

A transparência pública aplicada aos grupos dominantes da grande mídia certamente revelaria redes de interesses e compromissos – nem sempre legítimos – dos mais variados tipos, locais e globais. No que se refere à radiodifusão, por exemplo, revelaria os absurdos do “coronelismo eletrônico” enraizado em diferentes esferas do poder público; a propriedade cruzada como prática garantidora de oligopólios e monopólios; a exclusão de muitos e a liberdade de poucos apresentada e defendida em nome dos valores universais da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa.

Ainda não será ao final deste ano de 2010 que a grande mídia fará uma avaliação pública de si mesma. Mas, com certeza, esta omissão grave já não passa despercebida para um número cada vez maior de brasileiros.

 

Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

Fonte: Carta Maior

Os telegramas do Wikileaks, a mídia e o MST

Os telegramas do Wikileaks, a mídia e o MST

Os jornais que escreveram sobre o assunto estão perfeitamente informados de que o grupo ao qual um diplomata estadunidense atribui o aluguel de lotes de assentamento para o agronegócio não é o MST. O diplomata está enganado ou agiu de má fé. E os jornais foram desonestos ao omitirem essa informação essencial. Esse é apenas um exemplo, revelador da postura antiética da imprensa em todo o episódio. Se os vazamentos do Wikileaks mencionassem algum grande empresário brasileiro, ele seria, evidentemente, consultado pela imprensa, antes da publicação, e sua versão ganharia grande destaque. O artigo é de Igor Fuser.

Igor Fuser – Especial para a página do MST

Os jornais brasileiros divulgaram na semana passada referências ao MST feitas em telegramas sigilosos enviados nos últimos anos por diplomatas estadunidenses no Brasil aos seus superiores em Washington e revelados pela rede Wikileaks. Algumas reflexões podem ser feitas a partir da leitura desse material.

1. A imprensa empresarial brasileira manteve nesse episódio sua habitual postura de hostilidade sistemática ao MST, apresentado sempre por um viés negativo, e sem direito a apresentar o seu ponto de vista.

Para os jornais das grandes famílias que controlam a informação no país, como os Marinho e os Frias, o acesso a vazamentos da correspondência diplomática representou a chance de lançar um novo ataque à imagem do MST, sob o disfarce da objetividade jornalística. Afinal, para todos os efeitos, não seriam eles, os jornalistas, os responsáveis pelo conteúdo veiculado, e sim os autores dos telegramas.

Desrespeitou-se assim, mais uma vez, um princípio elementar da ética jornalística, que obriga os veículos de comunicação a conceder espaço a todas as partes envolvidas sempre que estão em jogo acusações ou temas controvertidos. Uma postura jornalística honesta, voltada para a busca da verdade, exigiria que O Globo, a Folha e o Estadão mobilizassem seus repórteres para investigar as acusações que diplomatas dos EUA no Brasil transmitiram aos seus superiores.

Em certos casos, nem seria necessário deslocar um repórter até o local dos fatos. Nem mesmo dar um telefonema ou sequer pesquisar os arquivos. Qualquer jornalista minimamente informado sobre os conflitos agrários está careca de saber que os assentados no Pontal do Paranapanema mencionados em um dos telegramas não possuem qualquer vínculo com o MST.

Ou seja, os jornais que escreveram sobre o assunto estão perfeitamente informados de que o grupo ao qual um diplomata estadunidense atribui o aluguel de lotes de assentamento para o agronegócio não é o MST. O diplomata está enganado ou agiu de má fé. E os jornais foram desonestos ao omitirem essa informação essencial.

Esse é apenas um exemplo, revelador da postura antiética da imprensa em todo o episódio. Se os vazamentos do Wikileaks mencionassem algum grande empresário brasileiro, ele seria, evidentemente, consultado pela imprensa, antes da publicação, e sua versão ganharia grande destaque. Já com o MST os jornais deixam de lado qualquer consideração ética.

2. A cobertura da mídia ignora o que os telegramas revelam de mais relevante: a preocupação das autoridades estadunidenses com os movimentos sociais no Brasil (e, por extensão, na América Latina como um todo). Os diplomatas gringos se comportam, no Brasil do século 21, do mesmo modo que os agentes coloniais do finado Império Britânico, sempre alertas perante o menor sinal de rebeldia dos “nativos” nos territórios sob o seu domínio.

Nas referidas mensagens, os funcionários se mostram muitos incomodados com a força dos movimentos sociais, e tratam de avaliar seus avanços e recuos, ainda que, muitas vezes, de forma equivocada. O “abril vermelho”, em especial, provoca uma reação de medo entre os agentes de Washington. Talvez por causa da cor… A pergunta é: por que tanta preocupação do império estadunidense com questões que, supostamente, deveriam interessar apenas aos brasileiros?

3. O fato é que o imperialismo estadunidense é, sim, uma parte envolvida nos conflitos agrários no Brasil. Essa constatação emerge, irrefutável, no telegrama que trata da ocupação de uma fazenda registrada em nome de proprietários estadunidenses em Unaí, Minas Gerais, em 2005. Pouco importa o tamanho da propriedade (70 mil hectares, segundo o embaixador, ou 44 mil, segundo o Incra).

O fundamental é que está em curso uma ocupação silenciosa do território rural brasileiro por empresas estrangeiras. Milhões de hectares de terra fértil – segundo alguns cálculos, 3% do território nacional – já estão em mãos de estrangeiros. O empenho do embaixador John Danilovich no caso de Unaí sinaliza a importância desse tema.

4. Em todas as referências a atores sociais brasileiros, os telegramas deixam muito claro o alinhamento dos EUA com os interesses mais conservadores – os grandes fazendeiros, os grandes empresários dos municípios onde se instalam assentamentos, os juízes mais predispostos a assinarem as ordens de reintegração de posse.

5. Por fim, o material veiculado pelo Wikileaks fornece pistas sobre o alcance da atuação da embaixada e dos órgãos consulares dos EUA como órgãos de coleta de informações políticas. Evidentemente, essas informações fazem parte do dia-a-dia da atividade diplomática em qualquer lugar no mundo. Mas a história do século 20 mostra que, quando se trata dos EUA, a diplomacia muitas vezes funciona apenas como uma fachada para a espionagem e a interferência em assuntos internos de outros países.

Aqui mesmo, no Brasil, fomos vítimas dessa postura com o envolvimento de agentes dos EUA (inclusive diplomatas) nos preparativos do golpe militar de 1964. À luz desses antecedentes, notícias como a de que o consulado estadunidense em São Paulo enviou um “assessor econômico” ao interior paulista para investigar a situação dos assentamentos de sem-terra constituem motivos de preocupação. Será essa a conduta correta de um diplomata estrangeiro em um país soberano?

(*) Igor Fuser é professor da Faculdade Cásper Líbero, doutorando em Ciência Política na USP e membro do conselho editorial do Brasil de Fato.

Fonte: Carta Maior

Quem tem medo do Wikileaks?

Quem tem medo do Wikileaks?

“Uma organização de comunicação livre, assentada no trabalho voluntário de jornalistas e tecnólogos, como depositária e transmissora daqueles que querem revelar anonimamente os segredos de um mundo podre, enfrenta aqueles que não se envergonham das atrocidades que cometem, mas se alarmam com o fato de que suas maldades sejam conhecidas por aqueles que elegemos e pagamos”, escreve o sociólogo Manuel Castells em artigo para o jornal espanhol La Vanguardia.

Manuel Castells – La Vanguardia

Texto em português publicado originalmente no IHU-Online – Publicado no La Vanguardia em 30/10/2010

Tinha que acontecer. Há tempo os governos estão preocupados com sua perda de controle da informação no mundo da internet. Já estavam incomodados com a liberdade de imprensa. Mas haviam aprendido a conviver com os meios de comunicação tradicionais. Ao contrário, o ciberespaço, povoado de fontes autônomas de informação, é uma ameaça decisiva a essa capacidade de silenciar sobre a qual a dominação sempre se fundou. Se não sabemos o que está acontecendo, mesmo que teimamos, os governantes têm as mãos livres para roubar e anistiar-se mutuamente, como na França ou na Itália, ou para massacrar milhares de civis e dar livre curso à tortura, como fizeram os Estados Unidos no Iraque ou no Afeganistão.

Os ataques contra o Wikileaks não questionam sua veracidade, mas criticam o fato de sua divulgação com o pretexto de que colocam em perigo a segurança das tropas e cidadãos. Por isso o alarma das elites políticas e midiáticas diante da publicação de centenas de milhares de documentos originais incriminatórios para os poderes fáticos nos Estados Unidos e em muitos outros países por parte do Wikileaks. Trata-se de um meio de comunicação pela internet, criado em 2007, publicado pela fundação sem fins lucrativos registrada legalmente na Alemanha, mas que opera a partir da Suécia. Conta com cinco empregados permanentes, cerca de 800 colaboradores ocasionais e centenas de voluntários distribuídos por todo o mundo: jornalistas, informáticos, engenheiros e advogados, muitos advogados para preparar sua defesa contra o que sabiam que lhes aconteceria.

Seu orçamento anual é de cerca de 300 milhões de euros, fruto de doações, cada vez mais confidenciais, mesmo que algumas sejam de fontes como a Associated Press. Foi iniciado por parte de dissidentes chineses com apoios em empresas de internet de Taiwan, mas pouco a pouco recebeu o impulso de ativistas de internet e defensores da comunicação livre unidos em uma mesma causa global: obter e divulgar a informação mais secreta que governos, corporações e, às vezes, meios de comunicação ocultam dos cidadãos. Recebem a maior parte da informação pela internet, mediante o uso de mensagens encriptadas com uma avançadíssima tecnologia de encriptação cujo uso é facilitado àqueles que querem enviar a informação seguindo seus conselhos, ou seja, desde cibercafés ou pontos quentes de Wi-Fi, o mais longe possível de seus lugares habituais. Aconselham não escrever a nenhum endereço que tenha a palavra wiki, mas utilizar outras que disponibilizam regularmente (tal como http://destiny.mooo.com). Apesar do assédio que receberam desde a sua origem, foram denunciando corrupção, abusos, tortura e matanças em todo o mundo, desde o presidente do Quênia até a lavagem de dinheiro na Suíça ou as atrocidades nas guerras dos Estados Unidos.

Receberam numerosos prêmios internacionais de reconhecimento pelo seu trabalho, incluindo os do The Economist e da Anistia Internacional. É precisamente esse crescente prestígio de profissionalismo que preocupa nas alturas. Porque a linha de defesa contra as webs autônomas na internet é negar-lhes credibilidade. Mas os 70.000 documentos publicados em julho sobre a guerra do Afeganistão ou os 400.000 sobre o Iraque divulgados agora, são documentos originais, a maioria procedentes de soldados norte-americanos ou de relatórios militares confidenciais. Em alguns casos, filtrados por soldados e agentes de segurança norte-americanos, três dos quais estão presos. O Wikileaks tem um sistema de verificação que inclui o envio de repórteres seus ao Iraque, onde entrevistam sobreviventes e consultam arquivos.

Essa é a tática midiática mais antiga: para que se esqueçam da mensagem: atacar o mensageiro. De fato, os ataques contra o Wikileaks não questionam sua veracidade, mas criticam o fato de sua divulgação, sob o pretexto de que colocam em perigo a segurança das tropas e de cidadãos. A resposta do Wikileaks: os nomes e outros sinais de identificação são apagados e são divulgados documentos sobre fatos passados, de modo que é improvável que possam colocar em perigo operações atuais. Mesmo assim, Hillary Clinton condenou a publicação sem comentar a ocultação de milhares de mortos civis e as práticas de tortura revelados pelos documentos. Nick Clegg, o vice-primeiro-ministro britânico, ao menos censurou o método, mas pediu uma investigação sobre os fatos.

Mas o mais extraordinário é que alguns meios de comunicação estão colaborando com o ataque que os serviços de inteligência lançaram contra Julian Assange, diretor do Wikileaks. Um comentário editorial da Fox News chega inclusive a cogitar o seu assassinato. E mesmo sem ir tão longe, John Burns, no The New York Times, procura mesclar tudo num nevoeiro sobre o personagem de Assange. É irônico que isso seja feito por este jornalista, bom colega de Judy Miller, a repórter do The Times que informou, consciente de que era mentira, a descoberta de armas de destruição em massa (veja-se o filme A zona verde).

É o Partido Pirata da Suécia que está protegendo o Wikileaks, disponibilizando-lhe o seu servidor central fechado em um refúgio subterrâneo à prova de qualquer interferência. Essa é a tática midiática mais antiga: para que se esqueçam da mensagem, atacar o mensageiro. Nixon fez isso em 1971 com Daniel Ellsberg, que publicou os famosos papéis do Pentágono que expuseram os crimes no Vietnã e mudaram a opinião pública sobre a guerra. Por isso Ellsberg aparece em entrevistas coletivas ao lado de Assange.

Personagem de novela, o australiano Assange passou boa parte de seus 39 anos mudando de lugar desde criança e, usando seus dotes matemáticos, fazendo ativismo hacker para causas políticas e de denúncia. Agora está mais do que nunca na semiclandestinidade, movendo-se de um país para outro, vivendo em aeroportos e evitando países onde se procuram pretextos para prendê-lo. Por isso, foi aberto na Suécia, onde se encontra mais livre, um processo contra ele por violação, que logo foi negado pela juíza (releiam o começo do romance de Stieg Larsson e verão uma estranha coincidência). É o Partido Pirata da Suécia (10% dos votos nas eleições europeias) que está protegendo o Wikileaks, deixando seu servido central trancado em um refúgio subterrâneo à prova de qualquer interferência.

O drama apenas começou. Uma organização de comunicação livre, assentada no trabalho voluntário de jornalistas e tecnólogos, como depositária e transmissora daqueles que querem revelar anonimamente os segredos de um mundo podre, enfrenta aqueles que não se envergonham das atrocidades que cometem, mas se alarmam com o fato de que suas maldades sejam conhecidas por aqueles que elegemos e pagamos. Continuará.

Tradução: Cepat (Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores)

Fonte: Carta Maior

O ano para a Globo começa mal, os números do Ibope mostram que o Jornal Nacional perdeu audiência.

O ano para a Globo começa mal, os números do Ibope mostram que o Jornal Nacional perdeu audiência.

Victor Zacharias

Desde o começo da campanha política para os candidatos à presidência do Brasil, a mídia de mercado tem sido considerada uma adversária das candidaturas petistas.

Donas de uma audiência histórica, as mídias comerciais, produziram muitas vezes matérias sem provas, e abusaram dos artigos de opinião que favoreciam o candidato da oposição.
Todo esse poder valorizou e estimulou a mídia eletrônica, nela é possível que mais vozes se manifestem, e foi neste ano que passou, que a internet teve maior importância no processo de comunicação eleitoral.

O prof. Venício Lima disse em seu artigo durante as eleições anteriores: Com relação às eleições municipais deste ano, sabe-se que não tem havido isenção nem imparcialidade na Folha, Estadão, Globo e JB. É o que revela o acompanhamento feito pelo Doxa do Iuperj.

Dá para perceber que isso já vem acontecendo há um bom tempo. Hoje o IBOPE mostra o quanto caiu a audiência do Jornal Nacional. È um processo que vem acontecendo desde 2004 quando o programa teve o seu ápice nesta década.

Comparado ao ano de 2000, ano em que o noticiário registrou 39,2 pontos e 56% de share, constatou-se que houve uma perda de 24% de público, em 2010 com sua pior média de audiência: 29,8 pontos e 49,3% de share, sendo esta a primeira vez que a atração fica abaixo de 50% de share. (Terra).

A mídia de mercado que deveria ser imparcial não tem agido desta maneira, pois tem ficado ao lado de uns em detrimento de outros, sem que o público seja informado disso. A exceção, neste caso, foi a do jornal O Estado de São Paulo que no segundo turno destas eleições presidenciais se posicionou ao lado do PSDB publicamente, um ato de honestidade de seus editores.
Acredito que este favorecimento jornalístico fere a credibilidade destes órgãos e no caso das emissoras de rádio e tv a questão é pior porque se trata de uma concessão pública.

Mídia de mercado parece que foi reconhecida pelo público como adversária de Dilma. A minha amiga Regina Brizolara, durante a posse da presidenta, tirou esta foto que registra um dos motivos pelo qual a parcialidade desta grande mídia tem causado transformações na sua audiência e na sua credibilidade.

Fonte: http://cartaolaranja.blogspot.com

Ministério das Comunicações: por onde começar?

Ministério das Comunicações: por onde começar?

A posse do novo ministro das Comunicações alimenta a expectativa de que, ao lado de outras prioridades, o caos generalizado nas concessões e as relações espúrias entre políticos no exercício do mandato e o serviço público de radiodifusão serão enfrentados. O recadastramento seria um excelente começo.

Venício Lima

Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa

Além do discurso de posse, o ex-deputado e ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo (PT-PR) deu várias entrevistas ao longo de seus primeiros dias como novo ministro das Comunicações. As interpretações de suas falas e compromissos variaram de acordo com o interesse dos entrevistadores.

Dois exemplos: a Folha de S.Paulo [7/1] destacou em manchete de capa “Ministro defende proibição de que políticos tenham TV“. Já o Estado de S.Paulo [8/1] considerou mais relevante “enterrar” um plano que, se existe, ainda não foi sequer divulgado: “Bernardo enterra plano de regulação da mídia“.

De concreto, até agora, parece que o ministro está reunindo no ministério iniciativas e pessoas que estavam dispersas em diferentes setores do governo Lula e expressavam divergências internas em relação ao rumo de políticas públicas do setor: os programas de inclusão digital, o plano nacional de banda larga e o marco regulatório para as comunicações eletrônicas, por exemplo. Há muita coisa pela frente.

Arrisco sugerir ao novo ministro que, na radiodifusão, comece com uma providência básica: o recadastramento dos concessionários e o acesso público ao cadastro geral que venha a emergir deste recadastramento [ver, neste Observatório, "O direito à informação pública" e "Onde está a informação oficial?"].

“Terra de ninguém”: o exemplo do DF
Um bom local para começar o recadastramento seria o próprio Distrito Federal, bem ao redor da sede física do Ministério das Comunicações.

Em três matérias de capa consecutivas no seu caderno “Cidades” (dias 6, 7 e 8 de janeiro) o Correio Braziliense fez uma denúncia grave que envolve o suplente do ex-governador e senador relâmpago Joaquim Roriz (cinco meses), Gim Argello (PTB-DF), no exercício do cargo desde a renúncia do titular.

Segundo o jornal, o senador Argello, por intermédio de seu filho, estaria no controle, como arrendatário (?), da Rádio Nativa FM, desde abril de 2009. Além de beneficiária indevida de recursos públicos oriundos de emendas ao Orçamento da União, a emissora FM estaria também promovendo distribuição de prêmios a ouvintes fantasmas.

As matérias do Correio, no entanto, deixam de fazer um histórico sobre a Rádio Nativa, suponho que pela dificuldade de acesso aos dados.

Com alguma dose de paciência o interessado encontrará fragmentadas em diferentes sites da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informações que revelam: a Rádio Nativa FM é a antiga Rádio OK FM cuja concessionária é a “Brasília Comunicação Ltda”. Ainda está lá que os diretores são Lino Martins Pinto – fundador do Grupo OK, falecido em 2007 e pai de criação do ex-senador Luiz Estevão – o outro diretor e, de fato, proprietário da empresa.

Como se sabe, Luiz Estevão (PMDB-DF), com mandato entre 1988 e 200, o único senador cassado pelo Senado Federal, foi acusado de envolvimento no desvio de R$ 169 milhões nas obras do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo.

O mais intrigante, todavia, é que a antiga Rádio OK FM – hoje Nativa FM –, segundo os dados da Anatel [consultados aqui, em 9/1/2011], está com a concessão vencida desde o dia 12 de junho de 2001. Seu funcionamento é, portanto, irregular.

MiniCom e Conselhos
As várias irregularidades denunciadas em relação à Radio Nativa FM – não por acaso, envolvendo um ex-senador e um senador da República – são apenas um exemplo do tipo de coronelismo eletrônico que ainda prevalece na radiodifusão do país.

Há poucos meses, aqui mesmo no Observatório e ainda em relação a Brasília, tentamos desvendar a real situação das emissoras de rádio e televisão controladas por outro político, o ex-vice governador e governador Paulo Octávio, que renunciou por ocasião do escândalo conhecido como Caixa de Pandora [ver "A terra de ninguém" e "Sobre a cartografia da terra de ninguém"].

A posse do novo ministro das Comunicações alimenta a expectativa de que, ao lado de outras prioridades, o caos generalizado nas concessões e as relações espúrias entre políticos no exercício do mandato e o serviço público de radiodifusão serão enfrentados.

O recadastramento seria um excelente começo.

Por outro lado, a posse de novos governadores nos estados brasileiros recoloca em pauta a criação dos Conselhos de Comunicação Social. O debate do tema certamente deve começar pelos estados onde esses conselhos já estão previstos nas respectivas Constituições e/ou Leis Orgânicas.

No Distrito Federal, ganha corpo um movimento para que seja regulamentado o Artigo 261 da Lei Orgânica, aprovada em 1993, que prevê a criação do Conselho de Comunicação Social do DF.

Uma das funções desses conselhos seria colaborar na fiscalização do cumprimento das leis por parte dos concessionários locais do serviço público de radiodifusão.

Talvez assim, e com o acompanhamento efetivo do MiniCom, a vigilância organizada da cidadania pudesse evitar a continuidade de situações absurdas como as acima descritas.

A ver.

Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

Fonte: Carta Maior

A guerra contra os imigrantes nos EUA

A guerra contra os imigrantes nos EUA

As reclamações contra os imigrantes nos EUA terminam quando o garçom serve a comida, a doméstica limpa a casa e o consumidor compra alfaces baratas no supermercado. A mão de obra mexicana é fundamental para que o sistema funcione. Mas não é indispensável. Há centenas de milhares de pobres no mundo que gostariam de estar no lugar dos mexicanos. E o sistema sabe disso, utilizando e manejando esse fato segundo sua conveniência. A única “vantagem” diferencial é que os mexicanos estão perto, são disponíveis e descartáveis. O artigo é de Jorge Durand.

Jorge Durand – La Jornada

Os Estados Unidos são um país guerreiro; saem de uma guerra para entrar em outra. Pode ser que esse seja o destino dos impérios, também em período de queda. Mas além dos inimigos externos, os EUA precisam de inimigos internos. Lembremos a época da proibição e da luta contra o álcool, o macarthismo, a guerra fria e o anticomunismo. Agora o perigo está na fronteira e os inimigos são os imigrantes ilegais.

Do mesmo modo que em outras épocas, as forças mais obscuras do conservadorismo levam o país do norte a situações extremas, a cometer erros históricos gigantescos que fomentam fanatismo, perseguição e violência. Muitos políticos republicanos se anunciar como verdadeiros conservadores, enquanto que os liberais, entre eles Barack Obama, sentem-se encurralados e não se atrevem a defender suas posições, e menos ainda a atacar frontalmente seus opositores.

Nas estradas dos Texas, enxergam-se anúncios com o rosto de Barack Obama desfigurado e agressivo com a legenda “socialista”. As campanhas mais absurdas, como a de acusar o presidente Obama de socialista por sua proposta de reforma do sistema de saúde, de acesso generalizado, encontram eco em amplos setores da população. E se Obama não soube ou não pode se defender, os imigrantes muitos menos, pois são os mais indefesos e vulneráveis.

A retórica da invasão de imigrantes pela fronteira com o México é acompanhada das operações Bloqueio, Guardião e, a mais agressiva, Defender a linha (Hold the line). Sobre esse tema, o antropólogo Leo Chávez analisa em seu livro Covering immigration dezenas de capas de revistas que falam de uma fronteira em crise, da necessidade de fechar a porta, de prevenir uma “invasão desde o México”, da preocupação porque a “América está mudando de cor”, e, a mais irônica, com a chamada “English spoken”, como se o país tivesse perdido a sua identidade.

Mas as reclamações contra os imigrantes terminam quando o garçom serve a comida, a doméstica limpa a casa e o consumidor compra alfaces baratas no supermercado. A mão de obra mexicana é fundamental para que o sistema funcione. Mas não é indispensável. Há centenas de milhares de pobres no mundo que gostariam de estar no lugar dos mexicanos. E o sistema sabe disso, utilizando e manejando esse fato segundo sua conveniência. A única vantagem diferencial é que nós, mexicanos, estamos perto, disponíveis e somos descartáveis. Trazer mão de obra da China, da Índia ou África teria custos adicionais e ela não poderia ser descartada com tanta facilidade.

A experiência indica que o melhor trabalhador é aquele sem documentos, que é tratado como ilegal e tem que se esconder, vive com medo, não pode reclamar e carece de direitos. As batidas policiais ocorrem nas fábricas, no comércio, nos restaurantes onde há trabalhadores em excesso, facilmente substituíveis. Há anos que não há batidas em zonas agrícolas, onde os trabalhadores são mais escassos e não há substituição. Cerca de 85% dos trabalhadores agrícolas dos EUA nasceram no México e a maioria deles não tem documentos. Esse é o nicho do mercado de trabalho que nos tem sido destinado há mais de um século.

Uma parte do problema reside no fato de que os imigrantes se tornaram visíveis e se dispersaram por todo o território estadunidense. No Texas e na Califórnia sempre houve presença mexicana, fazem parte da sociedade, da diversidade racial e cultural. Em Arkansas, Georgia, Alabama, Carolinas e outros novos estados de destino, os migrantes são os recém chegados, os estrangeiros. A raça de bronze altera o equilíbrio racial e ancestral entre brancos e negros. Mas por trás das atitudes contra os imigrantes e medidas legalistas há um conflito racial evidente.

Os afroamericanos aprenderam a levantar a voz contra qualquer evidência clara de agressão ou discriminação contra seus irmãos. Os latinos, muitas vezes, se inibem como grupo, carecem de suficiente representação política e os migrantes suportam calados as agressões. Há alguns anos, consegui compreender por que, quando se perguntava a um migrante mexicano se ele já havia se sentido discriminado, quase sempre respondia que não. A resposta me foi dada por outro migrante que já estava há muitos anos nos EUA e que me explicou que era uma questão de linguagem: se você não entende o insulto ou a agressão, o impacto é muito menor…Se não pode respondê-lo em inglês, fique quieto e aguente.

A reforma migratória converteu-se em um mito. Os republicanos afirmam que o tema só começará a ser debatido quando a fronteira estiver protegida. O que nunca vai ocorrer. Sempre haverá incidentes de fronteira. O muro está incompleto e não foi a solução. Além disso, por trás do muro é preciso ter um exército para vigiar 3 mil quilômetros de fronteira.

Não apenas isso. No interior dos EUA é preciso controlar e verificar que só se contrate gente com os papéis em ordem. Mas o sistema de verificação E-Verif é lento, complicado e tem muitos erros. Além disso, a tramitação tem que ser feita em linha, exigindo uma consulta telefônica e a espera de confirmação. Muitas pequenas empresas e empregadores não têm capacidade de fazer isso. São cerca de 10 milhões de trabalhadores que trabalham com um número falso da Previdência Social ou utilizam o número de outra pessoa, mas a imensa maioria paga impostos.

Os imigrantes irregulares subsidiaram com aproximadamente 200 bilhões de dólares o sistema de seguridade social. Esse dinheiro vai para um fundo, onde se acumula e se utiliza quando há solicitações. Mas os ilegais não podem solicitar e nunca terão direito a esse dinheiro ou à aposentadoria. Sem este dinheiro, o sistema de pensões dos EUA está quebrado.

Mas os argumentos monetários não contam quando se trata de migrantes irregulares. A falta de documentos é um pecado original que mancha para sempre a história de uma pessoa.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

Os sintomas de uma nova crise alimentar mundial

Os sintomas de uma nova crise alimentar mundial

Os preços mundiais do arroz, do trigo, do açúcar, da cevada e da carne seguiram altos ou registraram significativos aumentos em 2011, podendo replicar a crise de 2007-2008, alerta a FAO. No final de 2010, ocorreram protestos na China pelos altos preços das refeições de estudantes. Nos primeiros dias de 2011, já ocorreram protestos na Argélia e também na Tunísia, onde protestos de rua causaram a morte de pelo menos 20 pessoas. “Estamos entrando em um terreno perigoso”, alerta economista da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação.

Thalif Deen – Rebelión

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), com sede em Roma, alertou a semana passada que os preços mundiais do arroz, do trigo, do açúcar, da cevada e da carne seguiram altos ou registraram significativos aumentos em 2011, podendo replicar a crise de 2007-2008. Rob Vos, diretor de políticas de desenvolvimento e análise no Departamento de Economia e Assuntos Sociais da ONU relata que o aumento dos preços já está afetando vários países em desenvolvimento. Ele indicou ainda que nações como Índia e outras do leste e do sudoeste da Ásia sofrem inflação de dois dígitos, impulsionada pelo aumento dos preços dos alimentos e da energia. Na Bolívia, o governo se viu obrigado a reduzir os subsídios a alguns dos alimentos da cesta básica, já que estavam provocando uma disparada no déficit fiscal.

As implicações no curto prazo não são apenas que os pobres serão afetados e que mais gente poderá ser arrastada para a pobreza, mas sim que ficará mais difícil a recuperação dos países que enfrentam uma maior inflação e cairá o poder aquisitivo dos consumidores em geral. Alguns bancos centrais estão endurecendo suas políticas monetárias e governos estão se vendo obrigados a apertar o cinto, assinalou Vos, que é também chefe dos economistas da ONU.

Frederic Mousseau, diretor de políticas do Instituto Oakland, com sede em São Francisco, declarou que, em setembro passado, Moçambique já havia sofrido revoltas populares pelos altos preços do pão. Cerca de 13 pessoas morreram nestes protestos. “Ocorreram manifestações em uns 30 países em 2008 e isso pode se repetir agora uma vez que a situação não mudou nos últimos três anos”, sustentou Mousseau, autor do livro “O desafio dos altos preços dos alimentos: uma revisão das respostas para combater a fome”. Os países mais vulneráveis são os mais dependentes das importações e os menos capazes de enfrentar o aumento dos preços nos mercados com políticas públicas, sustentou. Isso concerne a muitas das nações mais pobres, com menos recursos, menos instituições e menos mecanismos públicos para apoiar a produção de alimentos”, explicou ainda Mousseau.

No final do ano passado ocorreram protestos na China pelos altos preços das refeições dos estudantes do ensino secundário, e na Argélia, pelo aumento do preço da farinha, do leite e do açúcar. Os argelinos voltaram a tomar as ruas na semana passada para protestar contra as duras condições econômicas. As manifestações terminaram com três mortos e centenas de feridos, enquanto que, na vizinha Tunísia, distúrbios similares causaram pelo menos 20 vítimas fatais.

Segundo o índice da FAO divulgado na semana passada, os preços dos cereais, dos grãos oleaginosos, lácteos, carnes e açúcar seguiram aumentando por seis meses consecutivos. “Estamos entrando em um terreno perigoso”, disse Abdolreza Abbassian, economista da FAO, para um jornal de Londres. Mousseau explicou que os preços começaram a aumentar em 2010 após as quebras de safras na Rússia e Europa Oriental, em parte causadas pelos incêndios de verão. Agora, as severas inundações que atingiram a Austrália, quarto maior exportador mundial de trigo, provavelmente afetarão a produção desse cultivo, elevando ainda os preços. “Qualquer outro acontecimento, como outro desastre climático em algum país exportador ou um novo aumento do preço do petróleo, sem dúvida alguma fará os preços dispararem, tornando a situação pior que a de 2008 e ameaçando o sustento de milhões de pessoas em todo o mundo”, acrescentou.

Por outro lado, Mousseau esclareceu que não se trata agora de um problema de escassez, como ocorreu em 2007-2008. “Não se pode usar a palavra escassez se consideramos que mais de um terço dos cereais produzidos no mundo são usados como alimento para animais, e que uma parte cada vez maior é utilizada para produzir agrocombustíveis”, observou. De fato, produziram-se 2,23 bilhões de toneladas de cereais no mundo em 2008, uma cifra sem precedentes. O nível de produção para o período 2010-2011 é levemente menor que o de 2008. A diferença é que, em 2008, foi o arroz que impulsionou a alta de preços, enquanto que, desta vez, é o trigo. Mas, em todo o caso, há uma combinação de fatores agindo: uma má colheita em uma parte do mundo provoca uma pressão sobre o mercado, que envia sinais negativos aos especuladores. Esses então começam a comprar e os preços disparam.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

O legado de Gerald Cohen, fundador do marxismo analítico

O legado de Gerald Cohen, fundador do marxismo analítico

Em uma série de cinco artigos, o sociólogo mexicano Julio Boltvinik analisa a contribuição do filósofo Gerald Cohen para os estudos da obra de Marx. A operação decisiva que criou o marxismo analítico foi o rechaço da pretensão de que o marxismo possui valiosos métodos intelectuais próprios, o que permitiu a apropriação de uma rica corrente metodológica que este, em seu detrimento, havia evitado. Na última etapa de sua vida, Cohen abordou temas de filosofia moral e política, que os marxistas costumavam desdenhar.

Em seu livro “Por que não o socialismo?”, Gerald Cohen recorda que nas emergências, como em inundações ou num incêndio as pessoas atuam com base nos princípios solidários de um acampamento. A viabilidade do socialismo que Cohen discute não se refere a se podemos chegar a ele a partir de onde estamos, agora, mas se o socialismo funcionaria e se seria estável. Cohen pensa que o principal problema do socialismo não é o egoísmo, mas que não sabemos como desenhar a maquinaria que o faria funcionar; seria nossa carência de uma tecnologia organizacional adequada: nosso problema é de desenho.

Julio Boltvinik – La Jornada

Primeira Parte: por que o marxismo se ocupou da filosofia política e moral

Fiquei sabendo da morte deste grande filósofo muitos meses depois de ocorrida e me doeu muito, apesar de meu contato com sua obra intelectual (quase) se limitasse a sua lúcida crítica ao enfoque de “capacidades” capabilities de Amartya Sen, já que sua obra em torno do pensamento de Marx eu (quase) não tinha lido. Embora tivesse sua grande obra de “juventude”, publicada em 1978: “A teoria da história de Karl Marx: Uma defesa”, que foi considerada como a insígnia do marxismo analítico, tinha lido somente com grande admiração e assombro o primeiro capítulo, intitulado “Imagens da história em Hegel e Marx”. Ao ficar sabendo de sua morte há uns seis meses adquiri alguns de seus outros livros e os tenho lido com avidez, aumentando minha admiração por sua grande capacidade e rigor analíticos. Na introdução à nova edição desta obra juvenil ele explica o que é o marxismo analítico e como ingressou nessa corrente de interpretação.

A operação decisiva que criou o marxismo analítico foi o rechaço da pretensão de que o marxismo possui valiosos métodos intelectuais próprios, o que permitiu a apropriação de uma rica corrente metodológica que este, em seu detrimento, havia evitado.

Este é um assunto central e que merece um tratamento detalhado que desejo fornecer. Devo adiantar que minha admiração por Cohen não impede que tenha fortes desacordos com ele, inclusive em temas centrais. Hoje me interessa apresentar este grande filósofo. Comecemos por alguns extratos autobiográficos:

“Me considero judeu mas não acredito no Deus do Antigo Testamento. Fui criado tanto para ser judeu como para ser antirreligioso e sigo sendo muito judeu e bastante ateu. Minha mãe era orgulhosa de ter se tornado proletária em Montreal, depois de ter nascido numa família burguesa da Ucrânia. Meu pai, também operário, pertencia a uma organização judaica antirreligiosa, antissionista e fortemente pro-soviética. Minha primeira escola, dirigida por essa organização, era muito política e antirreligiosa. Nas tardes, a linguagem de instrução era o ídiche. Judeus e judias de esquerda nos ensinavam história judaica (e de outros povos) e a língua e a literatura ídiche. Até quando narravam as histórias do Antigo Testamento as impregnavam do vernáculo marxista. Uma das matérias em ídiche era História da Luta de Classes.

Quando os estadunidenses matam vietnamitas, os soviéticos cercam os tchecos, os sérvios assassinam bósnios, sinto-me enojado, frustrado e triste. Mas quando os israelenses destroem casas e matam homens, mulheres e crianças nos territórios ocupados, há sangue em minhas próprias mãos e choro de vergonha. Por que me sinto tão judeu? Parte da resposta é que a tradição judaica foi bombardeada em minha alma na infância. Mas outra razão é o antissemitismo. Sartre exagerou quando disse que é o antissemita que cria o judeu. Mas quem poderia negar que o antissemita reforça o sentimento judaico no judeu?” (If you’re an Egalitarian, How Come You’re so Rich?,[algo como: Se você é igualitarista, como pode ser tão rico?] Harvard University Press, 2000, pp. 20-34.)

Cohen escreveu vários livros. Seu último grande livro tem uma importância e é de uma complexidade similar ao primeiro: Rescuing Justice and Equality [Resgatar a Justiça e a Equidade] (Harvard University Press, 2008). Como bom marxista (creio que o foi, apesar de suas próprias dúvidas e das de muitos), Cohen trata de explicar por que, na última etapa de sua vida (o que se reflete neste livro), abordou temas de filosofia moral e política, que os marxistas costumavam desdenhar.

Começa com uma anedota. Viaja em 1964 para a Tchecoslováquia e fica na casa de sua tia paterna, cujo marido (Norman Freed) era editor do World Marxist Review. Uma noite, diz, fiz-lhe uma pergunta sobre a relação entre, por um lado, a justiça e os valores morais e, por outro, a prática política comunista. Seu tio político lhe respondeu sardonicamente: “Não me fale de moralidade. Não estou interessado na moral”. Cohen explica que isto significava que a moralidade é pura fábula. Ante a insistência de Cohen, que disse que o que Freed fazia refletia um compromisso moral, este respondeu: “Não tem nada a ver com moral. Estou lutando por minha classe. Em seu desprezo pela moralidade, o tio Norman estava expressando, em forma literal, uma venerável, profunda e desastrosamente enganosa auto concepção marxista, disse Cohen. A razão mais importante da exclusão das questões morais é que o marxismo se apresentava a si mesmo, perante si mesmo, como a consciência da luta no mundo, e não como um conjunto de ideais propostos ao mundo para que este se lhes ajuste. O marxismo, explica, em contraposição ao socialismo utópico, era científico: baseava-se nos duros fatos históricos e na dura análise econômica. Essa autodescrição era em parte uma bravata, acrescenta, porque os valores de igualdade, comunidade e auto realização humana eram sem dúvida parte integral da estrutura de crenças marxistas.

Mas os marxistas não examinavam os princípios de igualdade, ou de fato nenhum outro valor ou princípio. Em troca, assinala, dedicaram sua energia intelectual à dura carapaça factual, que rodeava tais valores, às teses audaciosas explicativas da história e do capitalismo (Ibid, pp. 101-103).

Cohen continua:

“Mas agora o marxismo perdeu a maior parte de sua carapaça, sua dura concha de supostos fatos. Quase ninguém o defende na academia. Na medida em que o marxismo esteja ainda vivo – e se pode dizer que um certo tipo de marxismo está vivo, por exemplo, em trabalhos acadêmicos como os de Roemer nos EUA e Van Parijs na Bélgica – apresenta-se a si mesmo como um conjunto de valores e um conjunto de desenhos para realizar tais valores. É agora, portanto, muito menos diferente do socialismo utópico do que em algum outro momento pôde afirmar que era. Sua concha está partida e se desmancha, seu ventre débil restou exposto”. (p. 103)

Cohen descreve como se deu a perda da carapaça factual relativa à igualdade. No passado, atuavam duas tendências irresistíveis que, juntas, garantiam um futuro de igualdade material. Por um lado, a ampliação de uma classe social organizada (convertida em maioria), cuja posição social, no lado prejudicado pela desigualdade, dirigia sua luta a favor da igualdade; por outro, o desenvolvimento das forças produtivas levariam a um mundo em que todos poderíamos ter tudo o que quiséssemos, o que faria desaparecer a desigualdade. Cohen disse que esta possibilidade já não está certa, porque o planeta se rebelou e impôs limites naturais ao que se pode produzir. Por outro lado, o proletariado está deixando de ser o que era: a maioria explorada e carente da população, que levaria a doutrina do direito do trabalhador ao fruto de seu trabalho e a doutrina igualitária a coincidirem. Mas os explorados e os desprovidos deixaram de ser os mesmos e deixaram de ser maioria (inclusive no terceiro mundo, onde predomina o exército industrial de reserva).

Por isso, os valores socialistas deixaram de ter um laço com a estrutura social capitalista e, portanto, os temas de filosofia política e moral voltaram a ser importantes para o marxismo. Por essa razão Cohen se ocupava deles. No entanto, a desigualdade mundial é brutal e está aumentando.

(*) Quando editei dois números temáticos sobre pobreza, em 2003 da extinta revista Comercio Exterior (vol. 53, números 5 e 6, de maio e junho) inclui extratos de seu ensaio Igualdad de que? Sobre o bem estar, os bens e as capacidades, em que constam partes do enfoque de Sem e propõe uma rota para reconstruí-lo. Este material eu utilizei durante muitos anos em meus cursos sobre pobreza no Colégio de México.

Segunda parte: Por que não o socialismo?

Embora se trate de um pequeno livro de bolso (Why not socialism?, Princeton University Press, 2009, 83 pp.), o último que publicou em vida, e ainda que em 2001 tenha publicado um ensaio com o mesmo nome, do qual o volume é uma versão modificada, simbolicamente é muito interessante que seu último tomo seja sobre o socialismo, fechando assim o círculo iniciado com seu primeiro livro (como comentei antes, “A teoria da história de Marx: uma defesa”. Vários amigos e leitores me escreveram para me informar que existe sim uma edição em espanhol (publicada na Espanha), mas não consegui encontrá-la na internet.

“Por que não o socialismo?” tem cinco capítulos. No primeiro, Cohen mostra que nas viagens de acampamento (daqui para frente acampamento) quase todos preferimos uma forma de vida socialista. No segundo torna explícitos os princípios de igualdade e comunidade, que prevalecem no socialismo. Em terceiro questiona se esses princípios, levados a escala social, tornam o socialismo desejável. No quarto, se o socialismo é viável. O livro termina com um pequeno epílogo.

Quando vamos acampar não há hierarquias entre nós e nosso propósito comum é passar bem. As instalações e as equipes de que dispomos (mesmo sendo alguns privados) estão sob controle coletivo. Há uma forma de divisão do trabalho. Nesses contextos, a maior parte das pessoas, inclusive a maior parte dos anti-igualitaristas, aceitam e dão por sensatas normas de igualdade e de reciprocidade, disse Cohen. Acrescenta que, embora possamos imaginar um acampamento baseado em regras de mercado, a maior parte das pessoas o repudiaria, o que exemplifica com eventos hipotéticos:

a)Harry é muito bom pescando, mas exige, por sua contribuição, comer apenas o melhor peixe. Os demais raciocinam corretamente e observam que não tem de compensar a boa fortuna que o tornou um bom pescador;

b) Sylvia encontra uma macieira e pede para ser recompensada com menos trabalho ou mais espaço na sua barraca de acampamento. Os demais rechaçam sua atitude.

Cohen acrescenta outros dois exemplos similares. Em todos eles, os demais repudiam e se incomodam com a cobiça dos envolvidos. Pergunta-se então se não é a forma socialista obviamente a melhor para organizar um acampamento.

Os princípios que segundo Cohen prevalecem no acampamento são os da igualdade radical (ou socialista) de oportunidades e o da comunidade. O segundo restringe a operação do primeiro, que tolera algumas desigualdades de resultado. Ele distingue três tipos de igualdade de oportunidades: a) a igualdade burguesa de oportunidades, que caracteriza (ao menos nas aspirações) a da era liberal: elimina restrições socialmente construídas (formais e informais) de status, como o de ser subalterno, negro ou, poderíamos acrescentar, mulher; b) a igualdade liberal de esquerda, que elimina, além das restrições anteriores, os obstáculos das circunstâncias sociais de nascimento e infância dos indivíduos que já então se situam em desvantagem (não escolhida). Um exemplo de políticas para criar este tipo de igualdade são as orientadas para compensar, desde a mais tenra idade, as crianças em condições carentes; c) igualdade socialista de oportunidades, que corrige, além das anteriores, as desvantagens inatas dos indivíduos que, como as anteriores, não foram escolhidas por eles. Por isso, se prevalece esta forma de igualdade de oportunidades, as diferenças de resultado refletirão somente, disse, diferenças de gosto e de escolha (especialmente entre trabalho e ócio) que não constituem desigualdades porque supõem um desfrute similar da vida.

No entanto, mais adiante acrescenta uma passagem larga e interessante, que parece contradizer o que acaba de assinalar, e na qual explica que há três formas de desigualdade consistentes com o princípio de igualdade socialista de oportunidades. O primeiro tipo é o que havia referido antes, que só reflete diferenças de gosto/escolha, e não é problemático. O segundo é o que chama escolha lamentável, aquelas que por descuido ou pouco esforço levam a uma situação de desvantagem, e o indivíduo se arrepende de suas escolhas prévias. Cohen pensa que esta forma de desigualdade geraria por si mesma, relativamente, pouca desigualdade. A desigualdade verdadeiramente preocupante é a terceira, que reflete o que os filósofos chamam de sorte de escolha. À parte a aposta direta, da qual o jogador não se arrependeria, a mais importante é o elemento de sorte de opção presente nas desigualdades de mercado, que refletem apostas sobre onde pôr seu dinheiro ou seu trabalho. (quem, por exemplo, pôs seu trabalho na indústria manufatureira ou na construção, no México em 2007, teve uma probabilidade muito maior de perder do que quem pôs o dinheiro no comércio). Cohen enfatiza que, enquanto se pode abster de fazer apostas diretas, não se pode evadir das apostas de mercado numa sociedade de mercado, pois o mercado, por assim dizer, é um cassino de que é difícil escapar, e as desigualdades que produz estão contaminadas com a injustiça. Embora as desigualdades segunda e terceira não sejam condenadas pela justiça, são no entanto repugnantes para os socialistas, quando ocorrem numa escala suficientemente grande, disse Cohen, pois contradizem o princípio de comunidade. Portanto, o princípio socialista de igualdade de oportunidade tem de ser suavizado pelo de comunidade, se a sociedade há de desenvolver o caráter socialista que torna o acampamento atrativo, acrescenta.

Ele explica o sentido de comunidade que usa: comunidade é o que as pessoas impõem aos outros e, se necessário e possível, que cuida deles. Nosso autor desenvolve em detalhe as diferenças entre a reciprocidade comunitária e a reciprocidade de mercado. A primeira é um princípio antimercantil de acordo, com o qual eu te sirvo, não pelo que posso obter em troca ao fazê-lo, mas porque tu necessitas ou queres o meu serviço, e tu, pela mesma razão serves a mim. Em troca, no mercado, o motivo imediato da atividade produtiva é tipicamente uma mescla de cobiça e medo, em proporções que mudam conforme a posição da pessoa no mercado e o caráter pessoal. No mercado, sirvo aos outros já para obter algo deles que desejo – essa é a motivação da cobiça – ou para assegurar-me de que algo que busco evitar seja evitado – essa é a motivação do medo.

Na comunidade, nega-se o caráter instrumental das relações de mercado. Na sequência, me dedicarei aos capítulos 3, 4 e ao epílogo do livro de Cohen. Adianto uma frase, assim citada da canção que Cohen cantava em ídiche, quando criança, na escola: “Se nos considerássemos uns aos outros um vizinho, um amigo, um irmão, seria um mundo maravilhoso, maravilhoso”.

Terceira parte: O socialismo de mercado

Nos capítulos 3 e 4 de Why not socialism? (Princeton University Press, 2009) Cohen põe à prova os princípios da igualdade socialista de oportunidades e de comunidade que derivou (capítulo 2) como princípios constitutivos do socialismo da prática das viagens de acampamento, ao enfrentá-los com as perguntas de se são desejáveis e viáveis, a sua possível escala macrossocial e permanente. Muitos, assinala, notariam os traços especiais do acampamento para distingui-lo da vida normal da sociedade moderna, e duvidariam da desejabilidade e da viabilidade de aplicar nela os princípios apontados por Cohen com seu exemplo: trata-se de uma atividade recreativa na qual não há grupos que competem e em que as pessoas se conhecem pessoalmente e na qual não há tensão entre as responsabilidades familiares e sociais. Cohen pensa que as diferenças apontadas não minam a desejabilidade e a ampliação em escala social dos valores do acampamento.

“Não penso que a cooperação e a ausência de egoísmo no acampamento sejam adequados apenas entre amigos ou no interior de uma pequena comunidade. Na provisão mútua de uma sociedade de mercado, as pessoas são essencialmente indiferentes ao destino do agricultor cujos alimentos come. Sigo achando atrativo o sentimento de uma canção de esquerda que aprendi na minha infância e que começa assim: “Se nos considerássemos uns aos outros um vizinho, um irmão, o mundo seria maravilhoso, maravilhoso”.

Passando ao tema da viabilidade do socialismo e contra a ideia de que só em atividades recreativas os seus princípios se tornam atrativos, Cohen recorda que nas emergências, como em inundações ou num incêndio as pessoas atuam com base nos princípios do acampamento. Os mexicanos recordamos, com grande emoção da explosão de solidariedade, sentimento que acreditávamos quase inexistente, depois do terremoto de 1985. A viabilidade do socialismo que Cohen discute não se refere a se podemos chegar a ele a partir de onde estamos, agora, mas se o socialismo funcionaria e se seria estável. Cohen assinala duas possíveis razões pelas quais se pode pensar que o socialismo em escala social é inviável:

1) os limites da natureza humana: seríamos insuficientemente generosos e cooperativos;

2) mesmo se as pessoas forem ou puderem se tornar, na cultura adequada, suficientemente generosas, não sabemos como fazer com que (através de estímulos e regras apropriados) a generosidade faça as rodas da economia girarem, em contraste com o egoísmo humano que sabemos conduzi-la muito bem para esse fim.

Cohen pensa que o principal problema do socialismo não é o egoísmo, mas que não sabemos como desenhar a maquinaria que o faria funcionar; seria nossa carência de uma tecnologia organizacional adequada: nosso problema é de desenho. Afinal de contas, acrescenta, propensões egoístas e generosas habitam (quase?) todo mundo e, no mundo real, depende-se muito da generosidade ou, para dizê-lo de maneira mais geral e mais negativa, de incentivos não mercantis. Por exemplo, não é preciso sinais de mercado para saber quais enfermidades hão de ser curadas ou que matérias ensinar no colégio, mas nos guiamos por uma concepção das necessidades humanas. No entanto, uma vez que se transcendem os bens que todos querem, por estarem ligados às necessidades e nos encontramos na esfera das mercadorias opcionais, torna-se mais difícil saber o que produzir e como produzi-lo sem sinais do mercado.

Acrescenta que muito poucos economistas socialistas estariam em desacordo com essa afirmação. Tenho a impressão de que Cohen, influenciado por economistas muito próximos vinculados à corrente principal (ortodoxa) dessa disciplina, tinha uma ideia do funcionamento dos mercados que se parece mais com os modelos de competição perfeita dos neoclássicos, e não com os mercados realmente existentes. Um mundo sem oligopólios e sem o tsunami da publicidade, que terminam por criar a demanda para os bens que eles decidem produzir. Um mundo em que prevalece a soberania do consumidor. Por isso afirma que os sinais do mercado revelam que vale a pena produzir (veja-se em itálico na citação seguinte). Em troca, fala dos padecimentos, da planificação compreensiva: “Sabemos que a planificação central, ao menos como foi praticada no passado, é uma má receita para o êxito econômico, ao menos uma vez que a sociedade usufruiu dos elementos essenciais de uma economia moderna”. Compara o modelo ideal do mercado (e sua suposta eficiência) com a planificação realmente existente. Pretende combinar, para tanto, os princípios socialistas com esta imagem do mercado:

À luz dos padecimentos da planificação compreensiva, por um lado, e da injustiça dos resultados de mercado e da depreciável moral das motivações mercantis, por outro, é natural perguntar se seria viável manter os benefícios de informação que o mercado provê, com respeito ao que deve ser produzido, enquanto se eliminam seus pressupostos motivacionais e suas consequências distributivas. Podemos ter eficiência de mercado na produção sem seus incentivos e sua distribuição de recompensas?

Há maneiras, disse, de introduzir fortes elementos de comunidade e igualdade num sistema econômico em que prevaleça a eleição baseada no interesse egoísta: uma, o Estado de Bem Estar Social, que retira do mercado grande parte da provisão para as necessidades; outra, o socialismo de mercado. Chama-se socialismo porque elimina a divisão entre capital e trabalho: toda população é proprietária do capital das empresas que, possuídas pelos trabalhadores ou pelo Estado, enfrentam-se nos mercados competitivos. Cohen é agudamente consciente de que o socialismo de mercado “reduz sem eliminar a ênfase socialista na realidade econômica. E prejudica também a comunidade, pois no mercado não há reciprocidade comunitária. Ele não é um fã do socialismo de mercado:

O socialismo de mercado não satisfaz plenamente aos padrões socialistas de justiça distributiva e, embora o torne melhor que o capitalismo, está em defasagem porque há injustiça num sistema que confere altas recompensas às pessoas muito talentosas que organizam cooperativas altamente produtivas. É também um socialismo deficiente, porque o intercâmbio mercantil que se encontra em seu centro atua contra o princípio de comunidade… A história do século XX estimula a ideia de que a maneira mais fácil de gerar produtividade numa sociedade moderna é alimentando os motivos da cobiça e do medo. Mas não devemos nunca esquecer que cobiça e medo são motivos repugnantes. Os socialistas de velho estilo com frequência ignoram em sua condenação moral da motivação mercantil a justificação instrumental da mesma, realizada por Adam Smith. Alguns super entusiásticos socialistas de mercado tendem, de maneira oposta, a esquecer que o mercado é intrinsecamente repugnante.

E, citando o epílogo do livro, com Einstein arremata seu belo livro, assim:

Concordo com Albert Einstein que ‘o socialismo é o desejo da humanidade de ir mais além da fase predadora do desenvolvimento humano’. Todo mercado, mesmo um mercado socialista, é um sistema predatório. Nosso propósito de ir mais além da depredação tem falado até agora. Não creio que a conclusão correta seja dar-se por vencido.

Quarta parte: o exame da validade do materialismo histórico

A nova edição em inglês (2000) da Teoria da história de Karl Marx: Uma Defesa, de Gerald Alan Cohen (a original é de 1978), inclui uma nova introdução e quatro capítulos acrescidos ao final. Hoje me referirei ao capítulo 13, no qual ele põe em dúvida a conclusão básica de seu livro: a teoria da história de Marx é verdadeira! Assim o expressa:

“(…) cheguei a me perguntar se a teoria que o livro defende é verdadeira. Não acredito, agora, que o materialismo histórico seja falso, mas não estou seguro a respeito de como saber se é ou não verdadeiro. Isto é opaco porque temos uma concepção tosca de que tipo de evidência o confirmaria ou rechaçaria. Ainda que trate em KMTH (como Cohen abrevia sua obra) de ter a teoria mais precisa e de clarificar suas condições de confirmação, resultará evidente das linhas descritas neste capítulo que se requer clarificação adicional”. (p.341)

Contraste-se esta visão do materialismo histórico como teoria científica sujeita a comprovação empírica com a postura de György Márkus:

“A teoria do progresso humano não é a ‘ciência positiva’ da história. Só tem sentido como um elemento do esforço histórico prático para dar à história humana o sentido de progresso, quer dizer, para criar condições sob as quais todos os indivíduos possam participar de maneira efetiva e igual nas decisões que determinam como dar forma ao marco social e institucional de suas vidas para viver melhor, de acordo com seus próprios valores e necessidades” (Sobre a possibilidade de uma teoria crítica, Desacatos, N° 23, p. 186).

Cohen adverte, aproximando-se de Márkus, cuja obra, ao que parece, não conhecia, que “suas reservas sobre a teoria não debilitam sua crença de que é desejável e possível extinguir as relações sociais capitalistas e reorganizar a sociedade sobre uma base justa e humanitária”, visto que a apreciação dos principais males do capitalismo não depende de teses ambiciosas sobre o conjunto da história humana. Tampouco a possibilidade de estabelecer uma sociedade sem exploração e acolhedora da plenitude humana requer nem talvez derive de tais teses.

Cohen identifica quatro doutrinas, todas materialistas, formuladas por Marx, que ademais têm em comum a ênfase na atividade produtiva: antropologia filosófica, que concebe os humanos como seres essencialmente criativos; teoria da história, na qual o crescimento dos poderes produtivos é a força que determina a mudança social; ciência econômica, em que o valor é explicado em termos do tempo de trabalho; e uma visão da sociedade futura: o bem supremo do comunismo é que ele permite um prodigioso florescimento do talento humano.

Cohen sustenta que a antropologia de Marx sofre severamente de unilateralidade: tem uma ênfase exclusiva no lado criativo da natureza humana [esquece Cohen o papel central das necessidades nessa antropologia] mas não atende à relação do sujeito consigo mesmo e à relação com os outros, que é uma forma mediada de relação consigo mesmo. Diz que Marx (quase) deixou de fora a necessidade humana da auto identificação ou identidade e suas manifestações sociais. Argumenta que os agrupamentos humanos que não tem caráter econômico, como as comunidades religiosas e as nações são tão fortes e duráveis em parte porque oferecem satisfação da necessidade individual de auto identificação. Ao aderir a comunidades tradicionais, acrescenta, as pessoas tem um sentido do que são. Cohen está pensando mais no que Abraham Maslow chama de necessidade de pertencimento, do que na de identidade. Maslow disse:

Podemos subestimar a profunda importância do bairro, do território próprio, do clã, dos nossos, de nossa classe, do nosso grupo. Temos esquecido nossas profundas tendências animais à manada, a nos unir, a pertencer. Qualquer sociedade boa deve satisfazer a essa necessidade, de uma ou de outra maneira, se há de sobreviver e ser saudável.

Por isso Cohen assinala que “o interesse em se definir ou se situar não é satisfeito pelo desenvolvimento dos poderes humanos. Mesmo quando uma pessoa ganha em entendimento de si mesmo através da atividade criativa, uma vez que se reconhece no que fez, modula tipicamente um entendimento de si mesmo, como ser que possui um certo tipo de capacidade, não é por isso capaz de situar a si mesmo como membro de uma comunidade”. A pessoa, acrescenta, necessita saber quem é e como isso que é se conecta com outros; tem de identificar-se com alguma parte da realidade social objetiva. Cohen introduz aqui duas advertências:

1) não sustenta que haja uma necessidade de religião ou de nacionalismo, mas que esses tem sido fatores históricos de satisfação da necessidade de identidade;

2) ao falar de necessidade de entender a si mesmo, diz Cohen, a quem parecer que assim reinterpreta a necessidade de identidade, uso entendimento num sentido que inclui o falso entendimento.

As formas mais comuns da religião e o nacionalismo constituem meios imaturos de satisfação da necessidade de identidade, apropriados para um estado menos plenamente civilizado de desenvolvimento humano.

E quanto à visão de futuro, Cohen põem em dúvida tanto a ideia de Marx da desaparição dos papéis (aos que o viam como restrições o desenvolvimento humano) no comunismo, como o ideal de multilateralismo no desenvolvimento das capacidades. Marx insistia em que todos realizariam a plena gama de capacidades, mas Cohen se pergunta: o que tem de mal em alguém se dedicar a uma ou a poucas atividades e que restem muitos talentos em cada indivíduo sem serem desenvolvidos? Anota que há uma eleição frequente entre um modesto desenvolvimento de várias habilidades ou o desenvolvimento virtuoso de uma ou poucas, e não há base para afirmar a superioridade geral de uma opção.

O desenvolvimento pleno não se segue necessariamente do desenvolvimento livre. Termina o capítulo abordando a pergunta sobre se a unilateralidade da antropologia filosófica (a que qualifica de falsa) é a origem da falta de atenção do materialismo histórico aos fenômenos, mas o espaço se esgotou e não pude criticar a visão limitada de Cohen da antropologia filosófica de Marx.

(*) Há uma edição em espanhol que traduz a obra original de 1978, da Siglo XXI Editores España (agradeço esta informação a Paulette Dieterlen e a dois leitores). Em inglês a obra é Karl Marx’s Theory of History: A Defense, Clarendon Press, Oxford, 2000, 442 páginas. Como se avalia, as dúvidas (veja-se a seguir), surgiram em Cohen rapidamente.

(**) Até o final do capítulo Cohen expressa seu domínio insuficiente do conceito de essência humana, o qual corresponde ao seu desconhecimento do trabalho Marxismo e Antropologia, de György Márkus, sistematização única do conceito de essência humana em Marx. Isto se reflete em seu tratamento superficial, como veremos, da antropologia filosófica de Marx.

(***) Compare-se com as seguintes idéias de Erich Fromm, expressas em Psicanálise da Sociedade Contemporânea: “A escala da humanidade, o grau no qual o homem se afasta de si mesmo como um eu separado depende do grau em que tenha saído do clã e do grau em cujo processo de individuação se tenha desenvolvido. O membro de um clã primitivo poderia expressar seu sentido de identidade na fórmula eu sou nós; ele não pode se conceber como um indivíduo que existe independentemente de seu grupo. Apesar de o desenvolvimento da cultura ocidental ter se orientado na direção de criar as bases para a experiência plena do individualismo, para a maioria das pessoas esse não passou de uma fachada, por trás da qual se esconde o fracasso em adquirir um sentido individual de identidade, que foi substituído pelos de nação, religião, classe e ocupação. Em lugar da identidade pré-individualista, desenvolve-se uma identidade gregária, na qual o sentido de identidade depende de um pertencimento inquestionável à multidão.

Quinta parte: Com Márkus respondo à crítica de Cohen à antropologia filosófica de Marx

No texto anterior deixei pendente a resposta à tese de Cohen (expressa no capítulo 13 de Teoria da História de Karl Marx: Uma Defesa – THKM) de que a antropologia filosófica de Marx é unilateral, visto que deixa fora a necessidade humana de identidade e, portanto, dá importância a fenômenos como o nacionalismo e a filiação a grupos religiosos. Assinalei, no entanto, que Cohen não cita (pelo que suponho que não conhecia) o livro de György Márkus (“Marxismo e Antropologia” (Grijalbo, 1973 e 1985), que contém a sistematização plena (e única) da antropologia filosófica de Marx, cujo exame (embora seja parcial e sucinto) pode ajudar a discernir se Cohen tem razão.

Em primeiro lugar, Fromm assinalou que a maior parte dos indivíduos das sociedades modernas são incapazes de assumir uma identidade individual e se refugiam numa forma modificada da identidade do ser humano primitivo (eu sou nós); eu sou a multidão (veja-se nota acima). Em segundo lugar, devo observar, nem Marx nem Márkus formularam uma lista ou um esquema de necessidades humanas, daí porque assinalar a omissão de alguma delas e, sobretudo, converter tal omissão em algo que torne a antropologia filosófica de Marx falsa é desacertado e desproporcional.

Tampouco no esquema de necessidades de Maslow se incluía a necessidade de identidade, mas sim a de pertencimento (grupal). Em troca, nas concepções de necessidades de Fromm e de Max Neef e coautores, a identidade ou o sentido de identidade é uma necessidade explícita. Em terceiro lugar, é necessário afirmar claramente que as pessoas necessitamos pertencer a um grupo social, mas ele não faz necessariamente com que nossa identidade (que também, em minha opinião, é uma necessidade universal) não possa ser individualista-universalista. Maslow diz que as pessoas autorrealizadoras (as que conseguiram realizar suas potencialidades centrais) “identificam-se com toda a humanidade. Tem um profundo sentimento de identificação, simpatia e afeto pelos seres humanos em geral, como se todos fossem de uma só família. No entanto, poucos o entendem: são como estrangeiros onde quer que vivam”.

Ninguém classificaria como falsa a teoria das necessidades de Maslow por omitir a necessidade de identidade. Apesar de Marx e Márkus não elaborarem uma lista de necessidades humanas, encontramos na antropologia filosófica do primeiro, sistematizada pelo segundo, uma série de elementos que, em minha opinião, apontam para a necessidade de identidade grupal (cito juntando extratos não necessariamente literais da obra de Márkus e os comento entre colchetes):

Antes de qualquer coisa, o homem é um ente genérico, isto é, um ser social e comunitário. Esta descrição do ser humano como comunidade significa, por uma parte, que o homem não pode levar uma vida humana, não pode ser homem como tal senão em sua relação com os demais e a consequência dessa relação. Por outro lado, significa que o indivíduo não é indivíduo humano senão à medida em que se apropria das capacidades, das formas de conduta, das ideias, etc., originadas e produzidas pelos indivíduos que o precederam ou que coexistam com ele, e as assimila (mais ou menos universalmente) a sua vida e a sua atividade. Assim, pois, o indivíduo humano concreto como tal é um produto em si mesmo histórico-social.

A história de um indivíduo singular, disse Marx, não se pode de modo algum arrancar da história dos indivíduos precedentes e contemporâneos, mas está por esta determinada (Ideologia Alemã). A individualidade concreta especificamente humana não se origina senão a partir da participação ativa no mundo produzido pelo homem, através de uma determinada apropriação deste. [Até aqui resta claro que o homem, independentemente de suas percepções, está inserido objetivamente na comunidade – e parcialmente determinado por esta]. Porém, por outro lado, as inter-relações entre os indivíduos não são nunca relações naturais imediatas, tem sempre como pressuposto as de troca [intercâmbio] material e espiritual que esses indivíduos encontram. A sociabilidade do homem não se reduz ao ato de produção. Marx atribui uma função particular no processo genético da sociedade à humanização das relações naturais entre os sexos e entre as gerações. A sociabilidade é um traço essencial do indivíduo inteiro e penetra em todas as formas de sua atividade vital [Portanto, a sociabilidade é também um traço social de sua consciência, que inclui seu sentido de pertencimento e de identidade].

A vida coletiva, social produz também novas necessidades individuais, que são, antes de tudo a necessidade de ajuste humano. A produção adquire caráter social no sentido concreto de que os indivíduos começam a produzir uns para os outros, seus produtos se completam reciprocamente, seu trabalho se converte em autêntico componente integrante de um trabalho total social, e os produtos se convertem em produto comum do trabalhador coletivo [Com a divisão ampliada do trabalho a comunidade ou sociedade começa a mudar]. A atividade do indivíduo se torna objetivamente dependente da atividade de um âmbito cada vez mais amplo de indivíduos; ao mesmo tempo, constituem-se para os indivíduos as condições históricas mais elementares, nas quais as experiências podem se apropriar, o saber e a riqueza do mundo acumulados pela humanidade inteira, e utilizá-los.

Processo no qual o homem se torna ente social universal. A história das hordas, das tribos e das etnias origina paulatinamente a história universal, e o indivíduo mesmo se converte num ente universal, num ser histórico-universal. Essa ampliação da troca entre os homens produz as condições da autonomia do homem individual, com respeito ao seu próprio entorno e, sobre a base dessa autonomia, as condições do desenvolvimento da interioridade humana, da individualidade humana real. O homem não se torna realmente indivíduo senão no curso da evolução histórica, precisamente porque, através da troca cada vez mais universal, essa evolução dissolve aquelas pequenas comunidades. [Marx vê a possibilidade de um novo sentido de identidade, que rebaixa ao comunitário, ao da nação, similar à dos auto realizadores de Maslow, antes referida].

Nesse sentido a universalização e a individualização do homem são um processo unitário, embora essa unidade não se realize durante toda uma gigantesca época histórica, senão através de contraposições (a universalização é na era da alienação a unidade da individualização e da despersonalização).

A antropologia filosófica marxista contém todos os elementos, ainda que não estejam explícitos, como se avalia, para fundar a necessidade da identidade. Mas a visualiza num sentido dinâmico: da identidade da família e do clã, passando pela da tribo e da nação, até chegar à identidade da espécie, a identidade genérica. Creio que Cohen não avaliou essa tendência positiva a superar o paroquial. Em todo caso, podemos conceder a Cohen que Marx subestimou as resistências e as dificuldades que o trânsito do eu sou nós para o “eu sou eu, membro da espécie Homo sapiens, mas plenamente individualizado”.

Conheça a página de Julio Boltvinik

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

Na mira do sonho americano

Na mira do sonho americano

Samuel Johnson, autor inglês da segunda metade do século XVIII, disse que o patriotismo era o último refúgio do canalha. Sua sentença se aplica bem ao caso da extrema direita estadunidense. Ninguém duvida da safadeza de personagens como Sarah Palin e alguns pseudo-jornalistas, mas agora se tem a conexão direta com o super patriotismo homicida. É importante não esquecer que no Arizona já existia um ambiente político protofascista que literalmente tem os imigrantes latinos na mira. A direita e seus aliados nos meios de comunicação foram o motor do clima de ódio que impera não só no Arizona, mas em muitos outros estados dos EUA. O artigo é de Alejandro Nadal.

Alejandro Nadal – La Jornada

O portal de internet do comitê político de Sarah Palin incluía Gabrielle Giffords, a parlamentar do Arizona, na lista dos 20 membros do Congresso que tinham aprovado a legislação de Obama sobre a saúde. Não era uma lista qualquer. Os nomes apareciam abaixo de um mapa, a cujos estados esses parlamentares pertencem, marcados com a típica cruz de mira telescópica de um rifle. Na parte superior do mapa havia outra legenda belicosa, em que se faz alusão à necessidade de resistir.

A que se deve resistir, senhora Palin? Resposta: a nada menos que a marcha secular em direção ao socialismo que a administração Obama quer impor aos Estados Unidos. Assim mesmo: há uma marcha secular em direção ao socialismo e Obama é o artífice dessa transformação. Essa retórica foi referência repetida de Palin e de outros safados da extrema direita nos Estados Unidos.

Desde que apareceu o mencionado mapa no portal da senhora Palin muitas pessoas notaram essa incitação à violência. Mas nem Palin, nem os seus seguidores fizeram algo para mudá-la ou para modificar o tom da retórica utilizada para designar os seus opositores políticos. A senhora Palin introduziu seu mapa dos 20 parlamentares democratas malvados no twitter, com a frase: “Não retrocedam! Ao contrário, recarreguem!”.

Hoje a representante Giffords luta para sobreviver num hospital de Tucson, depois que um fanático disparou contra ela, na cabeça, em 8 de janeiro, no momento em que a parlamentar levava a cabo uma reunião destinada a entrar em contato direto com seus eleitores. O assassino matou 6 pessoas (inclusive uma criança de 9 anos) e feriu outras 14. Pode ser que o homicida Jared Loughner seja uma pessoa perturbada mentalmente, mas isso não elimina a conexão com o discurso da incitação à violência utilizado por Palin e muitos políticos que mantém posições conservadoras nos Estados Unidos.

O opositor de Gifford no mesmo distrito eleitoral em 2010 é Jesse Kelly, membro da extrema direita do Partido Republicano. É provável que este personagem seja quem mais longe foi na incitação à violência. Sua marca de campanha no ano passado incluía a convocatória a um ato com estas palavras: “Dê a vitória em novembro ao branco. Ajude a retirar Gabrielle Giffords de seu posto. Dispare um M16 automático com Jesse Kelly”. O quadro mostrava o político, um ex-marine, com seu uniforme de campanha, empunhando seu querido fuzil.

A militarização da retórica eleitoral nos Estados Unidos não é casualidade. Em meio a sua pior crise econômica em sete décadas, o país cada vez afunda mais numa trajetória de decadência. Seu setor financeiro, outrora orgulho de seu desempenho econômico, foi o epicentro dessa crise. Hoje a triste recuperação promete altos níveis de desempenho para muitos anos. A desigualdade econômica se parece cada vez mais com a de um país subdesenvolvido, dominado por uma oligarquia feroz. A extraordinária concentração de riqueza vai de par com a deterioração do sistema educativo em todo o país. Por último, os desequilíbrios macroeconômicos que marcam a economia estadunidense não são só um problema doméstico, mas, dado o papel chave do dólar no sistema internacional de pagamentos, pioram a dor de cabeça da economia mundial.

O senhor Loughner provavelmente não tem ideia desses problemas. Em seu delírio, pensa que só atua defendendo o Sonho Americano que a senhora Palin reclama para si com tanta insistência. Equivoca-se. O paradoxo é que a deputada Giffords não era a única na mira da nova extrema direita estadunidense. O principal alvo desse movimento é precisamente toda a geração de Loughner, uma geração golpeada e condenada a viver sem educação, sem a promessa de um emprego bem remunerado e estável, sem serviços de saúde adequados. Uma geração perdida que nunca poderá aspirar a um melhor nível de vida. Seu sacrifício é para que uma pequena minoria de privilegiados possam viver o sonho americano, sem sonhar com mais nada.

Samuel Johnson, autor inglês da segunda metade do século XVIII disse que o patriotismo era o último refúgio do canalha. Sua sentença se aplica bem ao caso da extrema direita estadunidense. Ninguém duvida da safadeza de personagens como Palin e alguns pseudo-jornalistas, mas agora se tem a conexão direta com o super patriotismo homicida.

Só que não há que se esquecer que no Arizona já existia um ambiente político protofascista que literalmente tem os imigrantes latinos na mira. A direita e seus aliados nos meios de comunicação foram o motor do clima de ódio que impera não só no Arizona, mas em muitos outros estados. Afinal de contas, como disse Soljenitsin, todo aquele que proclama como método a violência inexoravelmente deverá eleger a mentira como princípio.

(*) Alejandro Nadal é economista, professor pesquisador do Centro de Estudos Econômicos, no Colégio do México. Colaborador do jornal La Jornada.

Link para o original no La Jornada:

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

Tragédias Americanas

Tragédias Americanas

Com ou sem 11/09, às vésperas de completar sua primeira década, os ciclos de confrontação norte-americanos revelam muito mais inimigos internos do que externos à democracia nacional. Neste contexto, Gabrielle Giffords é mais um símbolo das tensões pelas quais passam os EUA, e que não se consistiu na primeira, e nem será a última, destas, cada vez mais recorrentes e diversas, tragédias norte-americanas. Opositores de políticas sociais, do aborto à educação sexual, à ação afirmativa, confrontam-se não só nas cortes de justiça, mas frontalmente em piquetes, ameaças de morte e ataques reais. Estamos diante de nova Guerra de Secessão que poderá ter o resultado oposto, o da regressão? O artigo é de Cristina Soreanu Pecequilo.

Cristina Soreanu Pecequilo

Logo no início de 2011, os Estados Unidos (EUA) vivenciaram mais um episódio de violência em sua história política: o tiroteio na cidade de Tucson, Arizona, ocorrido no estacionamento de um supermercado no qual se realizava um encontro (o “Congresso em sua Esquina”) entre eleitores e a deputada democrata reeleita pelo estado, Gabrielle Giffords. Até o dia 9 de Janeiro, o ataque vitimara seis pessoas (incluindo um juiz federal republicano John Roll), enquanto outras doze, incluindo Giffords, permaneciam internadas.

Em 2010, o comitê de Giffords fora invadido durante a campanha, assim como a deputada recebera fortes críticas do candidato da oposição republicana, apoiado pelo Partido do Chá, Jesse Kelly. Kelly, em algumas declarações reproduzidas depois do atentado pelas agências de notícias (EFE, 09/01/2011), havia afirmado ser necessário “disparar um rifle automático M16 com Jesse Kelly” contra Giffords. Além disso, a deputada fora incluída em uma lista de vinte democratas, divulgada por Sarah Palin, que deveriam ser derrotados no pleito de meio de mandato. Bastante criticada, esta lista trazia representações gráficas destes candidatos como alvos de armas de fogo. No caso de Giffords, sua candidatura estava “na mira” por suas posições favoráveis à reforma de saúde de Obama e moderadas na imigração.

Tema controverso no Arizona, definido como “cenário de guerra” entre “os americanos e os outros” pelo governo republicano de Jan Brewer, a imigração e o tratamento dado a ilegais esteve (e está) no centro de uma disputa jurídica entre o Arizona e o governo federal. No núcleo da disputa, a lei estadual de 2010 que permitiria às autoridades do estado abordar, interrogar e deportar pessoas suspeitas de serem imigrantes ilegais. Estas recomendações eram inspiradas pelo “Ato Patriota”, editado em 2001, depois dos atentados de 11/09, com medidas de exceção para lidar com possíveis terroristas, ultrapassando limites de direitos civis.

Guardadas as proporções, o ataque a Giffords não pode ser resumido a estas divergências sobre imigração ou sistema de saúde, ou encarado de forma isolada. Também é possível que nas semanas subsequentes ao tiroteio desconstrua-se a hipótese inicial de que Giffords fora o alvo, ocorrendo um esvaziamento natural do caso. Mesmo assim, é fundamental que não se subestime ou esqueça o ocorrido. Motivações diversas, que perpassam o tecido social norte-americano, e que representam sentimentos de inadequação social, perda de lugar no mundo, medo da diferença, valorização da força, culto às armas e a paradoxal junção nacionalismo-antigoverno, permeiam mais este episódio. Seja na esfera política, como na social, a válvula de escape norte-americana é representada por eclosões periódicas de violência.

Representadas por eventos diferentes estas manifestações possuem a mesma raiz: a insatisfação dos que perpetram a violência com o que percebem como violações do modo de vida americano e que desejam a volta a um passado idealizado republicano no qual cada um era responsável por sua vida, segurança, educação e religião. A intervenção do Estado na vida do cidadão, as teorias conspiratórias que opõem o homem simples a um Executivo poderoso e onipresente, alimentam a polarização que conforma a agenda dos radicais do chá, atravessando grupos de interesse, movimentos religiosos e o cotidiano. Parafraseando a Declaração de Independência, nos EUA de hoje, alguns setores tentam difundir a ideia que a maioria dos norte-americanos está sendo pressionada a desistir de sua “busca pela felicidade e prosperidade” por culpa do Estado e, no extremo, por culpa de seu vizinho, principalmente se ele for representante de qualquer minoria, social, racial, étnica ou religiosa. Frente a esta ameaça permanente, aos inimigos deve-se oferecer a resistência.

Dentre os mais significativos eventos que se inserem neste quadro de “resistência” podem ser lembrados: Waco 1993, quando a confrontação entre autoridades federais (FBI, Guarda Nacional e ATF- Álcool, Tabaco e Armas de Fogo) e a seita religiosa liderada por David Koresh, resultou em um massacre de civis que resistiam ao cerco federal; Oklahoma City, 1995, atentado contra prédio federal realizado, oficialmente, por Timothy McVeigh, ligados a grupos fundamentalistas brancos; Columbine, 1999, quando os estudantes Eric Harris e Dylan Klebold dispararam contra seus colegas e professores.

Desempregados invadiram empresas nas quais trabalharam atirando contra pessoas com as quais conviveram, colégios sofreram ameaças similares a Columbine, seitas religiosas e grupos fundamentalistas fecharam-se em comunidades armadas, em exemplos que se não ganharam a mídia como seus antecessores, repetem-se. Opositores de políticas sociais, do aborto à educação sexual, à ação afirmativa, confrontam-se não só nas cortes de justiça, mas frontalmente em piquetes, ameaças de morte e ataques reais. Na arena política, poucos são os que desconhecem o assassinato dos Presidentes John Kennedy Jr em 1963, Abraham Lincoln 1865, William McKinley, 1901 (o atentado a Ronald Reagan em 1981), e de políticos como Robert Kennedy em 1968. Pela internet e pela mídia tradicional, o radicalismo, de ambos os lados, prevalece, sem deixar de mencionar a relativa apologia de filmes e livros com estes episódios de violência e a dramatização acrítica (e até romântica-idealizada) de indivíduos como serial killers e líderes de seitas e movimentos sectários, dentre outros.

No caso de Lincoln, pelo menos, o contexto era o da Guerra de Secessão (1861/1865), da confrontação entre o capitalismo industrial do Norte e a economia escravagista e agrária do Sul, representativa de uma guerra fratricida que levou à união nacional via modernização. Estamos diante de nova Guerra de Secessão que poderá ter o resultado oposto, o da regressão? De certa forma sim, uma vez que a reorganização social-econômica leva ao incremento da violência. Violência esta que, na realidade, sempre esteve presente no tecido social, mas que era tornada a exceção e não a regra, via sistema político e legitimação de políticas de inclusão e respeito à convivência mútua realizadas pelo Estado com o consentimento da população ou, quando necessário, pela imposição da legalidade (bastando lembrar nos anos 1960 quando o governo federal teve que intervir diretamente em estados do sul do país que se recusavam a respeitar as políticas de igualdade racial).

As reações ao atentado de Tucson, e a muitos dos episódios aqui rapidamente lembrados, revelam estes sintomas de divisão e o esgotamento do consenso anterior: enquanto observaram-se fortes condenações ao tiroteio, principalmente dos democratas e da Casa Branca, os críticos como Palin manifestaram suas condolências timidamente, e reações de apoio ao atirador puderam ser encontradas com preocupante frequência. Estas movimentações fazem parte do declínio e mudança com os quais o país não consegue lidar, e que leva à externalização de seus problemas por meio de ações econômicas e políticas unilaterais, independente do governo, e às guerras (Iraque, 1991, 2003, Afeganistão, 2001).

Com ou sem 11/09, às vésperas de completar sua primeira década, os ciclos de confrontação norte-americanos revelam muito mais inimigos internos do que externos à democracia nacional. Neste contexto, Giffords é mais um símbolo das tensões pelas quais passam os EUA, e que não se consistiu na primeira, e nem será a última, destas, cada vez mais recorrentes e diversas, tragédias norte-americanas.

(*) Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

Fonte: Carta Maior

A luta de classes política nos Estados Unidos

A luta de classes política nos Estados Unidos

O nível de corrupção política nos Estados Unidos é assombroso. Agora tudo gira em torno do dinheiro para as campanhas eleitorais que se tornaram incrivelmente caras. As eleições da metade do mandato tiveram um custo estimado de US$ 4,5 bilhões, e a maior parte desse dinheiro veio de grandes empresas e contribuintes ricos. Estas forças poderosas, muitas das quais operando de forma anônima sob as leis dos EUA, trabalham sem descanso para defender aqueles que se encontram no topo da pirâmide da riqueza.

Jeffrey Sachs – SinPermiso

Os Estados Unidos estão em rota de colisão consigo mesmo. O acordo firmado em dezembro entre o presidente Barack Obama e os republicanos no Congresso para manter os cortes de impostos iniciados há uma década pelo presidente George W. Bush está sendo saudado como o começo de um novo consenso bipartidário. Creio, ao contrário, que é uma falsa trégua naquilo que será uma batalha campal pela alma da política estadunidense.

Do mesmo modo que ocorre em muitos países, os conflitos sobre a moral pública e a estratégia nacional se reduzem a questões envolvendo dinheiro. Nos Estados Unidos, isso é mais certo do que nunca. O país tem um déficit orçamentário anual ao redor de US$ 1 trilhão, que pode aumentar ainda mais como resultado de um novo acordo tributário. Esse nível de endividamento anual é demasiadamente alto. É preciso reduzi-lo, mas como?

O problema é a política corrupta e a perda de moral cívica dos EUA. Um partido político, o Republicano, aposta em pouco mais do que reduzir os impostos, objetivo que coloca acima de qualquer outro. Os democratas têm um leque mais amplo de interesses, como o apoio ao serviço de saúde, a educação, a formação e a infraestrutura. Mas, como os republicanos, também estão interessados em presentear com profusão cortes de impostos para seus grandes contribuintes de campanha, entre os quais predominam os estadunidenses ricos.

O resultado é um paradoxo perigoso. O déficit orçamentário dos EUA é enorme e insustentável. Os pobres são espremidos pelos cortes nos programas sociais e um mercado de trabalho fraco. Um em cada oito estadunidenses depende de cartões de alimentação para comer. No entanto, apesar deste quadro, um partido político quer acabar com as receitas tributárias por completo, e o outro se vê arrastado facilmente, contra seus melhores instintos, na tentativa de manter contentes seus contribuintes ricos.

Este frenesi de cortes de impostos vem, incrivelmente, depois de três décadas de um regime tributário de elite nos EUA, que favoreceu os ricos e poderosos. Desde que Ronald Reagan assumiu a presidência em 1981, o sistema orçamentário dos Estados Unidos se orientou para apoiar a acumulação de uma imensa riqueza no topo da pirâmide da distribuição de renda. Surpreendentemente, o 1% mais rico dos lares estadunidenses tem agora um valor mais alto que o dos 90% que estão abaixo. A receita anual dos 12 mil lares mais ricos é maior que o dos 24 milhões de lares mais pobres.

O verdadeiro jogo do Partido Republicano é tratar de fixar em seu lugar essa vantagem de receitas e riquezas. Temem, corretamente, que cedo ou tarde todo o mundo comece a exigir que o déficit orçamentário seja atacado, em parte, elevando os impostos para os ricos. Depois de tudo o que ocorreu, os ricos vivem melhor do que nunca, enquanto que o resto da sociedade estadunidense está sofrendo. Tem todo sentido aplicar mais impostos aos mais ricos.

Os republicanos se propõem a evitar isso a qualquer custo. Até aqui tiveram êxito. Mas querem fazer com que sua vitória tática – que propõe o reestabelecimento das taxas tributárias anteriores a Bush por dois anos – seja seguida por uma vitória de longo prazo na próxima primavera. Seus líderes no Congresso já estão dizendo que vão cortar o gasto público a fim de começar a reduzir o déficit.

Ironicamente, há um âmbito onde certamente se justifica fazer grandes cortes orçamentários: as forças armadas. Mas esse é o tema que a maioria dos republicanos não vai tocar. Querem cortar o orçamento não mediante o fim da inútil guerra no Afeganistão e a eliminação dos sistemas de armas desnecessários, mas sim cortando recursos da educação, da saúde e de outros benefícios da classe pobre e trabalhadora.

Ao final, não creio que o consigam. No momento, a maioria dos estadunidenses parece estar de acordo com os argumentos republicanos de que é melhor diminuir o déficit orçamentário mediante cortes de gastos ao invés de aumento de impostos. No entanto, quando chegar a hora de fazer propostas orçamentárias reais, haverá uma reação cada vez maior.

Prevejo que, empurrados contra a parede, os estadunidenses pobres e da classe trabalhadora começarão a se manifestar por justiça social.
Isso pode levar tempo. O nível de corrupção política nos Estados Unidos é assombroso. Agora tudo gira em torno do dinheiro para as campanhas eleitorais que se tornaram incrivelmente caras. As eleições da metade do mandato tiveram um custo estimado de US$ 4,5 bilhões, e a maior parte desse dinheiro veio de grandes empresas e contribuintes ricos. Estas forças poderosas, muitas das quais operando de forma anônima sob as leis dos EUA, trabalham sem descanso para defender aqueles que se encontram no topo da pirâmide da riqueza.

Mas não nos equivoquemos: ambos partidos estão implicados. Já se fala que Obama vai arrecadar US$ 1 bilhão ou mais para sua campanha de reeleição. Esta soma não virá dos pobres.

O problema para os ricos é que, tirando os gastos militares, não há mais espaço para cortar o orçamento do que em áreas de apoio básico para a classe pobre e trabalhadora. Os EUA realmente vão cortar os auxílios de saúde e as aposentadorias? O orçamento será equilibrado reduzindo-se o gasto em educação, no momento que os estudantes dos EUA já estão sendo superados por seus colegas da Ásia? Os EUA vão, de fato, permitir que sua infraestrutura pública siga se deteriorando? Os ricos tratarão de impulsionar esse programa, mas ao final fracassarão.

Obama chegou a poder com a promessa de mudança. Até agora não fez nenhuma. Seu governo está cheio de banqueiros de Wall Street. Seus altos funcionários acabam indo se unir aos bancos, como fez recentemente seu diretor de orçamento, Peter Orszag. Está sempre disposto a atender os interesses dos ricos e poderosos, sem traçar uma linha na areia, sem limites ao “toma lá, dá cá”.

Se isso seguir assim, surgirá um terceiro partido, comprometido com a limpeza da política estadunidense e a restauração de uma medida de decência e justiça. Isso também levará um tempo. O sistema político está profundamente ligado aos dois partidos no poder. No entanto, o tempo da mudança virá. Os republicanos acreditam que têm a vantagem e podem seguir pervertendo o sistema para favorecer os ricos. Creio que os acontecimentos futuros demonstrarão o quanto estão equivocados.

(*) Jeffrey Sachs é professor de Economia e Diretor do Earth Institute da Universidade de Columbia. Também é assessor especial do secretário geral das Nações Unidas sobre as Metas de Desenvolvimento do Milênio.

Traduzido do inglês para www.project-syndicate.org por David Meléndes Tormen.

Tradução para Carta Maior: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

O que está em causa

 

O que está em causa

Depois de décadas de “ajuda ao desenvolvimento” por parte do Banco Mundial e do FMI, um sexto da população mundial vive com menos de 77 centavos por dia. O que vai acontecer a Portugal (no seguimento do que aconteceu à Grécia e à Irlanda e irá acontecer à Espanha, e talvez não fique por aí) aconteceu já a muitos países em desenvolvimento. A intervenção do FMI teve sempre o mesmo objetivo: canalizar o máximo possível do rendimento do país para o pagamento da dívida. A “solução da crise” pode bem ser a eclosão da mais grave crise social dos últimos oitenta anos.

Boaventura de Sousa Santos

Portugal é um pequeno barco num mar agitado. Exigem-se bons timoneiros mas se o mar for excessivamente agitado não há barco que resista, mesmo num país que séculos atrás andou à descoberta do mundo em cascas de noz. A diferença entre então e agora é que o Adamastor era um capricho da natureza, depois da borrasca era certa a bonança e só isso tornava “realista” o grito de confiança nacionalista, do “Aqui ao leme sou
mais que eu…”.

Hoje, o Adamastor é um sistema financeiro global, controlado por um punhado de grandes investidores institucionais e instituições satélites (Banco Mundial, FMI, agências de avaliação de risco) que têm o poder de distribuir as borrascas e as bonanças a seu bel-prazer, ou seja, borrascas para a grande maioria da população do mundo, bonanças para eles próprios. Só isso explica que os 500 indivíduos mais ricos do mundo tenham uma riqueza igual à da dos 40 países mais pobres do mundo, com uma população de 416 milhões de habitantes. Depois de décadas de “ajuda ao desenvolvimento” por parte do BM e do FMI, um sexto da população mundial vive com menos de 77 cêntimos por dia.

O que vai acontecer a Portugal (no seguimento do que aconteceu à Grécia e à Irlanda e irá acontecer à Espanha, e talvez não fique por aí) aconteceu já a muitos países em desenvolvimento. Alguns resistiram às “ajudas” devido à força de líderes políticos nacionalistas (caso da Índia), outros rebelaram-se pressionados pelos protestos sociais (Argentina) e forçaram a reestruturação da dívida. Sendo diversas as causas dos problemas enfrentados pelos diferentes países, a intervenção do FMI teve sempre o mesmo objetivo: canalizar o máximo possível do rendimento do país para o pagamento da dívida. No nosso contexto, o que chamamos “nervosismo dos mercados” é um conjunto de especuladores financeiros, alguns com fortes ligações a bancos europeus, dominados pela vertigem de ganhar rios de dinheiro apostando na bancarrota do nosso país e ganhando tanto mais quanto mais provável for esse desfecho.

E se Portugal não puder pagar? Bem, isso é um problema de médio prazo (pode ser semanas ou meses). Depois se verá, mas uma coisa é certa: “as justas expectativas dos credores não podem ser defraudadas”. Longe de poder ser acalmado, este “nervosismo” é alimentado pelas agências de notação: baixam a nota do país para forçar o Governo a tomar certas medidas restritivas (sempre contra o bem-estar das populações); as medidas são tomadas, mas como tornam mais difícil a recuperação econômica do país (que permitiria pagar a dívida), a nota volta a baixar. E assim sucessivamente até a “solução da crise”, que pode bem ser a eclosão da mais grave crise social dos últimos oitenta anos.

Qualquer cidadão com as naturais luzes da vida, perguntará, como é possível tanta irracionalidade? Viveremos em democracia? As várias declarações da ONU sobre os direitos humanos são letra morta? Teremos cometidos erros tão graves que a expiação não se contenta com os anéis e exige os dedos, se não mesmo as mãos? Ninguém tem uma resposta clara para estas questões mas um reputado economista (Prêmio Nobel da Economia em 2001), que conhece bem o anunciado visitante, FMI, escreveu a respeito deste o seguinte:

“as medidas impostas pelo FMI falharam mais vezes do que as em que tiveram êxito…Depois da crise asiática de 1997, as políticas do FMI agravaram as crises na Indonésia e na Tailândia. Em muitos países, levaram à fome e à confrontação social; e mesmo quando os resultados não foram tão sombrios e conseguiram promover algum crescimento depois de algum tempo, frequentemente os benefícios foram desproporcionadamente para os de cima, deixando os de baixo mais pobres que antes. O que me espantou foi que estas políticas não fossem questionadas por quem tomava as decisões…Subjacente aos problemas do FMI e de outras instituições económicas internacionais é o problema de governação: quem decide o que fazem?” (Joseph Stiglitz, Globalization and its Discontents, 2002)

Haverá alternativa?

Deixo este tema para a próxima crônica.

(*) Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

Fonte: Carta Maior

Políticos e o marco da comunicação

Políticos e o marco da comunicação
São aspectos de difícil aprovação, ainda porque mais da metade dos deputados e senadores têm interesse direto na matéria

Paulo Bernardo, ex-ministro do Planejamento, é o atual titular da pasta das Comunicações. Dentre as primeiras iniciativas do novo ministro dessa importante área, destaca-se a continuação do trabalho iniciado pelo ex-ministro Franklin Martins, em busca de estabelecer um marco regulatório para a comunicação social em nosso país.

Dois pontos considerados positivos pela maioria são: 1. Parlamentares não poderão ser detentores de concessões de rádio e televisão. E 2. Veto a qualquer tipo de monopólio ou oligopólio, como já consta da Constituição. O mesmo grupo não poderá ser proprietário de jornal, rádio e tv, simultaneamente.

São aspectos de difícil aprovação, ainda porque mais da metade dos deputados e senadores têm interesse direto na matéria. Paulo Bernardo afirma que tudo vai depender da presidenta Dilma Rousseff.

E nega que o projeto vise a controlar o conteúdo dos programas de rádio e televisão, o que caracterizaria censura. Paulo Bernardo é funcionário do BB aposentado. Foi ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão do governo Lula, cargo que assumiu em 2005. Nasceu em 10 de março de 1952, em São Paulo. Eleito deputado federal pelo PT do Paraná, exerceu esse mandato entre 1991 e 1995. Foi reeleito mais duas vezes para a Câmara dos Deputados. Em 1999, assumiu a Secretaria da Fazenda do Estado do Mato Grosso do Sul. Os últimos ministros das Comunicações foram, em ordem cronológica: Miro Teixeira, Eunício Oliveira, Hélio Costa e José Artur Filardi, respectivamente do PDT – Miro Teixeira e PMDB – os três últimos.

Certamente, quando da discussão setores poderosos da imprensa do Brasil, como a rede Globo vai “denunciar” que o marco é para controlar a imprensa no Brasil. Mesmo sendo difícil a aprovação do projeto, pelo menos vale a pena sonhar. Já pensou?  Quem ganharia não seriam apenas os profissionais de comunicação, mas, sobretudo, a população brasileira.

Fonte: Blog do Cláudio Nunes

PCdoB se prepara para disputar Prefeitura de Aracaju

PCdoB se prepara para disputar Prefeitura de Aracaju

Uma reunião discutiu o futuro do partido, a exemplo da confirmação de lançar um nome para disputar as eleições da capital em 2012

19/01/2011 – 07:28

No último sábado, 15, dirigentes do Comitê Estadual do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em Sergipe, se reuniram para a primeira reunião do partido em 2011, com o objetivo de traçar metas que nortearão a ação partidária durante os próximos anos. Entre os presentes estavam Tânia Soares, presidenta do PC do B em Sergipe,  que conduziu a reunião, a vereadora de Aracaju Karla Trindade, o prefeito de Cristinápolis, Padre Raimundo, o vice-presidente do PCdoB e liderança política do município de Indiaroba, Adinaldo Nascimento,  o secretário da Prefeitura de Aracaju, Bosco Rollemberg e o presidente do PCdoB na capital, Hallison de Sousa, além da presença de Adalberto Monteiro, membro da Comissão Política Nacional do PC do B.

Na reunião ficou aprovado que o PC do B reafirma o seu o apoio político ao atual Governo do estado e que apresentará ao Governador idéias e opiniões para fazer avançar ainda mais as mudanças e transformações neste segundo mandato do governo Déda.

Outra decisão importante, que tende a desenhar o futuro do PCdoB, aponta para o fortalecimento e ampliação de suas lideranças e filiados. Com o intuito de alcançar um maior número de cidadãos que venham a se somar com ideias e ações, ficou definido a organização de uma forte e ampla campanha de filiação de personalidades e lideranças, que deverá alcançar todos os municípios de Sergipe, inclusive bairros e povoados, da capital e do interior.

Ainda durante o encontro, todos os participantes pontuaram, sem exceção, a excelente administração de Edvaldo Nogueira no comando da Prefeitura Municipal de Aracaju. Em tom de orgulho, por o prefeito ser do mesmo partido, os dirigentes prestaram-lhe homenagens e ressaltaram os avanços pelos quais Aracaju está passando nas diversas áreas sociais. Desta forma, pautados na confiança de saber que os componentes do partido fazem parte da história de sucesso da administração Edvaldo Nogueira, os dirigentes aprovaram o desejo de ampliar a participação do PCdoB na administração da Prefeitura de Aracaju.

Por fim, também foi decidido que o Partido Comunista do Brasil buscará disputar a sucessão da Prefeitura de Aracaju. De forma inquestionável, os dirigentes entendem que o prefeito Edvaldo Nogueira tem realizado uma gestão muito bem avaliada pela população aracajuana e que o PC do B, tem legitimidade para garantir a continuidade do trabalho desenvolvido por ele nos últimos cinco anos.

Fonte: PC do B

Partido Operário Comunista

Partido Operário Comunista

POC – Partido Operário Comunista foi uma organização brasileira de esquerda que combateu o regime militar de 1964 no intuito de implantar uma ditadura comunista no país, tendo se originado no final dos anos 60 a partir de outra organização denominada POLOP. Quando a POC decidiu se enveredar pela luta armada, alguns de seus militantes criaram a OCML-PO, também conhecida como nova Polop.

O POC conseguiu ter certa expressão no movimento estudantil de 1968, onde atuava sob a designação de Movimento Universidade Crítica, além de estabelecer alguma presença junto do meio operário das capitais.

Em abril de 1970, um grupo de militantes se desligou do POC para voltar a constituir a POLOP, sendo que os que permaneceram na agremiação passaram a enfrentar divergências internas profundas, pois alguns de seus membros defendiam a atuação conjunta com as organizações da guerrilha urbana (ALN, VPR, VAR-Palmares, etc.), chegando a se envolver em operações armadas.

Foi nesse ano que alguns militantes se desligaram do POC, no Rio Grande do Sul, para criar o MCR, que executou algumas ações armadas conjuntas com a VPR.

Até 1971, o grupo foi praticamente desmantelado no país, apesar de continuar alguma ação a partir do exterior. Dentre seus militantes da POC mortos pela repressão estão Luiz Eduardo da Rocha Merlino, Helio Zanir Sanchotene Trindade e Ary Abreu Lima. No Chile, por ocasião do golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende, em 1973, morreram Luiz Carlos Almeida e Nelson Kohl.

Revolução cubana dá samba em Florianópolis!

Revolução cubana dá samba em Florianópolis!

imagemCrédito: Cubadebate

Florianópolis

Mostrar ao Brasil e ao mundo uma Cuba livre de preconceitos, descortinando sua história, cultura e conquistas sociais. Esse é o objetivo da escola samba de Florianópolis União da Ilha da Magia. Por defender que o Carnaval é não apenas beleza e diversão, mas também informação e momento oportuno para questionamentos, a agremiação desfilará na Festa de Momo com o enredo “Cuba sim! Em nome da verdade”. É a primeira vez que a revolução cubana será homenageada numa passarela do samba.

A ideia é aproveitar os 52 anos da revolução cubana, em 2011, e os festejos pelo bicentenário das independências na América do Sul, iniciados em 2010, para exaltar a luta da ilha pela liberdade.

A mais nova escola de samba de Florianópolis, que vai para o sue terceiro ano de desfiles, associa o tema escolhido à função que avalia ser a mais importante em uma agremiação, a de trabalhar a questão da cidadania. Nesse sentido, quer questionar no Carnaval: “qual o preço da liberdade?”

“Este enredo quer mostrar a saga de um povo que sonhou revolução e lutou para conquistar sua independência. A fibra de pessoas simples, alegres, cheias de sonhos e desejos que valorizam o social, o trabalho, a educação, a cultura e o esporte. Um lugar onde se vive sem miséria ou fome e que mantém acesa a chama dos ideais de liberdade, mesmo com todo o sofrimento do bloqueio que lhes é imposto pela “nação” à qual eles tiveram a ousadia de dizer não”, diz a sinopse do enredo.

A União da Ilha da Magia, que já está realizando ensaios todas as sextas e domingo, na Praça Bento Silvério, em Lagoa da Conceição, lembra no samba os heróis da ilha, José Martí, Che Guevara e Fidel Castro. Destaca as conquistas de Cuba, mas também não deixa de mencionar os prejuízos do bloqueio norte-americano: “Um preço a pagar, não vou negar/ Mas a comunidade em primeiro lugar”, diz a letra da música.

Para preparar o desfile, os diretores da escola, que em 2010 tornou-se vice-campeã, estiveram em Cuba colhendo informações. Se encantaram com o país e se convenceram do tema. Chegaram a convidar uma das filhas de Che Guevara, a médica cubana Aleida Guevara, para a festa.

De acordo com o carnavalesco da escola, Jaime Cezário, o enredo será dividido em quatro setores, quatro alegorias e uma média de 18 alas. A história da ilha está presente nos vários elementos do desfile. As fantasias remetem desde à ditadura e à dominação do Tio Sam, até à nacionalização das empresas estrangeiras, aos tradicionais charutos cubanos e ao culto na Santeria.

“Aproveitando essa data mágica (do bicentenário), quando muitos países irmãos começaram a sonhar em ser livres de dominadores estrangeiros, encontramos um em especial, Cuba, que nos dias de hoje ainda é notícia por seus ideais de liberdade, lutas e conquistas sociais, assim como pelo preço que paga por querer administrar suas terras sem influência de nenhuma potência estrangeira, principalmente da maior delas, os Estados Unidos da América, que além de vizinho, sempre sonhou em fazê-la um paraíso de ricos e milionários”, diz a escola.

Veja abaixo o resumo do enredo, que tenta clarear um pouco da visão embaçada que muitos têm sobre Cuba. E, ao final, a letra do samba enredo.

SINOPSE DO ENREDO

Cuba sim! Em nome da verdade

O desejo de liberdade ocasiona histórias admiráveis de homens e nações que sonham em ser livres para conquistar uma sociedade mais equilibrada e justa, sem tantas diferenças entre as classes sociais, onde quase sempre, o povo faz parte da classe dos miseráveis e os que detêm o poder, a dos ricos.

Num cenário como esse, nasceu na ilha de Cuba, no final do século XIX, um poeta que sonhou com liberdade, e através de suas idéias de uma sociedade mais justa, usou a literatura como uma flecha certeira para atingir mortalmente o “poder” que estava sempre alheio aos interesses populares, e iniciar o processo que levará o povo, anos mais tarde, a administrar seu próprio destino: José Martí.

“A liberdade custa muito caro e temos ou de nos resignarmos a viver sem ela ou de nos decidirmos a pagar o seu preço.” José Martí

O poeta fundará o Partido Revolucionário Cubano, plantando sementes importantes no coração do povo, mas que num primeiro instante não consegue atingir seu principal objetivo: um governo livre de interesse de forças estrangeiras. Cuba liberta-se da dominação espanhola, mas obtém essa liberdade com a ajuda dos Estados Unidos da América, seu vizinho mais próximo que sorrateiramente se envolve na guerra pela independência contra Espanha. A independência é conquistada, mas a liberdade lhes é roubada.

Os americanos camuflam atrás dessa nobre atitude, interesses em transformar a ilha de Cuba num grande paraíso para suas empresas e milionários. Começam a apoiar ditadores que sorriem para seus interesses, mas não se preocupam com o bem-estar da população. Cuba se torna a menina dos olhos do Tio Sam, chegando ao ponto de Havana, sua capital, tornar-se o destino mais requintado das Américas e do mundo nos anos 40 e 50, ditando modas e modismos.

“Quem não se sentir ofendido com a ofensa feita a outros homens, quem não sentir na face a queimadura da bofetada dada noutra face, seja qual for a sua cor, não é digno de ser homem” José Martí

O país que se torna destino mais requintado dos anos 40 e 50, paraíso de ricos e milionários, possui uma população que sofre com os desmandos do poder, vivendo em condições precárias nos centros urbanos, o mesmo acontecendo no campo, onde agricultores e camponeses sofrem com as condições de trabalho.

Um paraíso para poucos e um sofrimento para muitos. Este clima faz surgir no seio do povo o antigo sonho de conquistar um país de justiça social e livre de interferências, mas a ação impiedosa da ditadura tenta abafar esse clamor com mãos de ferro. A insatisfação só aumenta e nos meios estudantis um novo líder surge com idéias de lutar contra a tirania dos governantes e por uma nova sociedade cubana: Fidel Castro.

“Os poderosos podem destruir uma, duas, até três rosas, mas jamais poderão deter a primavera.” Che Guevara

Em 1952 mais um golpe de estado fez tomar o poder o ditador Fugêncio Batista. Fugêncio governará com mãos de ferro e fará aumentar cada vez mais o desejo de mudanças. Fidel se destacará rapidamente entre os insatisfeitos, organizará a resistência contra a ditadura e fará movimentos para derrubá-la. Por essas tentativas, será perseguido, preso e exilado. No exílio no México, será apresentado ao médico argentino Che Guevara que se tornará o maior símbolo da revolução cubana.

Fidel organiza e lidera o movimento guerrilheiro 26 de Julho ou M26, em referência a tentativa de assaltar a maior prisao de presos politícos da ditadura em 26 de julho de 1953. A tentativa é um fracasso e os obrigam a se refugiar na Sierra Maestra. Os rebeldes lentamente se fortalecem, aumentando seu armamento e angariando apoio e o recrutamento de muitos camponeses, intelectuais, estudantes e trabalhadores urbanos insatisfeitos com o rumo da Nação. A luta se intesifica, e mesmo contando com o apoio americano, o ditador Fugêncio Batista é derrotado em 1959 e foge de Cuba.

“Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.” Che Guevara

A vitória do grupo revolucionário surpreendeu o mundo, pois à época era inimaginável que um grupo de “sonhadores” derrotassem a grande potência econômica e militar. Mas os ideais revolucionários contagiaram o povo cubano. E as idéias e os sonhos venceram as armas.

“Sonha e serás livre de espírito… luta e serás livre na vida.”Che Guevara

A vitória da revolução faz surgir um governo de orientação socialista e uma das primeiras medidas do novo governo foi nacionalizar as empresas estrangeiras, inclusive as norte-americanas. Esta atitude desagrada o seu poderoso vizinho capitalista que corta relações diplomáticas, facilitando o alinhamento de Cuba com o seu mais temido rival, a União Soviética. Essa aproximação irá gerar muitas confusões diplomáticas, o que culminará no bloqueio vigente até os dias de hoje.

“Os grandes só parecem grandes porque estamos ajoelhados!” Che Guevara

Apesar do bloqueio e de alguns problemas sociais encontrados pela revolução, as conquistas sociais foram contabilizadas. A maioria da população recebe energia elétrica e tem acesso à água potável e saneamento básico. Os que não são ainda donos de sua moradia pagam aluguéis simbólicos. A taxa de analfabetismo é praticamente zero, assim como a taxa de evasão escolar e o cubano tem acesso a um ensino – desde o fundamental ao universitário – de qualidade e totalmente gratuito. Mas, além de oferecer educação gratuita ao seu povo, o governo cubano acolhe estudantes de mais de 34 países latino-americanos, africanos e do caribe, tanto nos cursos universitários como nos cursos de mestrado e doutorado.

“O conhecimento nos faz responsáveis.” Che Guevara

O sistema de seguridade social, cujos princípios são os da solidariedade, universalidade e integridade, é um dos mais abrangentes do mundo.

A assistência à saúde em Cuba é comparável aos países mais desenvolvidos. Segundo dispositivo constitucional, o cubano tem direito a prestação gratuita de serviços médicos, hospitalares e odontológicos.

Hoje, mesmo reconhecendo que o país passa por dificuldades econômicas e possui deficiências em alguns setores como as telecomunicações e transportes, os cubanos se orgulham da revolução e dos seus resultados, que vão mais longe do que as medalhas conquistadas nas olimpíadas e nos jogos pan-americanos. O cubano tem grande amor ao seu país e faz questão de registrar que mora no único país latino americano sem favelas.

“A melhor maneira de ser livre é ser culto.” José Martí

A economia cubana sofreu grande revezes. Com a nacionalização das empresas privadas e o bloqueio americano ficou contando apenas com o apoio da sua grande parceira comercial, a União Soviética que veio a desaparecer nos anos 90, deixando Cuba sem nenhum apoio internacional.

O produto de maior destaque na economia cubana é o açúcar, seguidos pelo tabaco (com destaque para os charutos cubanos que são valorizados no mundo inteiro), a extração do níquel, a pesca, a indústria farmacêutica e a biotecnologia. Na última década o governo vem priorizando o turismo que se tornou grande fonte de divisas e empregos. Os turistas vêm atraídos por suas maravilhosas praias de águas verdes cristalinas e o encantamento das suas cidades que mantêm o clima “retrô” dos anos 50.

“O importante não é justificar o erro, mas impedir que ele se repita.” Che Guevara

Na cultura, Cuba encanta por sua diversidade. A mistura do africano com o espanhol gerou uma riqueza cultural raramente vista. A música e a dança cubana rompem fronteiras desde o início do século XX, tornando-se conhecida mundialmente. Com a presença marcante na percussão da conga (tambor), destaca-se a rumba, a salsa, o bolero, o chá-chá-chá e a habanera.

Dois terços da população cubana é negra e mestiça. São descendentes de escravos africanos, que levaram para a Ilha suas tradições religiosas, que foram passadas para seus descendentes ao longo da história. O culto mais importante é a Santeria, que funde crenças católicas com a religião tradicional Iorubá. Inicialmente praticada por escravos, ganhou popularidade e se difundiu pelo seu caráter festivo, suas cerimônias e seus Orixás.

Ao longo de 400 anos, a cozinha cubana experimentou sabores que combinavam produtos e costumes de diferentes culturas. Não há como negar a importância da influência espanhola na culinária desta parte do Caribe, assim como o peso das sucessivas levas de escravos africanos. Um prato típico da cozinha tradicional cubana é moros y cristianos, “mouros e cristãos”, que é o arroz com feijão. Outro destaque fica por conta do rum cubano e seus drinks especialíssimos e muito apreciados como a Cuba Libre e o Mojito.

A festa mais popular e animada da ilha de Cuba é o carnaval, com destaque para os de Havana e o de Santiago de Cuba. O carnaval é uma festa espontânea, com música ditada pelo ritmo das congas que são tambores artesanais. Uma música para ser sentida e vivida até o êxtase, um frenesi coletivo. No carnaval cubano o povo participa de diversas maneiras, nas comparsas (blocos), participam integrantes dos bairros e de organismos que se preparam com muito interesse durante o ano todo na confecção de fantasias e de alegorias.

No final dos anos 30 surgiu em Havana, a casa de espetáculos que iria ditar, nos anos 40 e 50, um novo conceito de apresentação de grandes shows, que vai ser imitado por todos: O Cabaré Tropicana. No seu palco os maiores artistas internacionais se apresentaram, dentre essas estrelas, Carmem Miranda.

“Uma pitada de poesia é suficiente para perfumar um século inteiro!” José Martí

É claro que Cuba tem os seus problemas e não é nenhum paraíso socialista, ainda mais por conviver há cinco décadas com um bloqueio econômico. Entretanto, não podemos deixar de ressaltar e, por que não, admirar esse povo que transformou um país com grande índice de analfabetos e miséria em uma nação que hoje é referência mundial nas artes, nos esportes, na medicina, entre outras áreas, e respeitada pela defesa intransigente de sua soberania e que, apesar de todas as dificuldades, não capitulou e permanece firme em seus ideais revolucionários.

Após os avanços e conquistas sociais alcançados nessas últimas cinco décadas, o povo cubano nunca mais será submisso a qualquer interesse externo, tão pouco abrirá mão dessas conquistas, pois os alicerces sociais estão fincados. Um povo alfabetizado e consciente politicamente não se dobra à força das armas, mas sim à dos ideais.

“Endurecer sem perder a ternura!” Che Guevara

Em 2011, Cuba comemora 52 anos da Revolução. Aproveitando esta oportunidade, é importante exaltar a luta do povo cubano pela liberdade. Existe uma Cuba que poucos conhecem, e quando descobrem sua cultura, seu povo e principalmente suas conquistas sociais, se encantam. Por este motivo nós, da Escola de Samba União da Ilha da Magia, escolhemos este enredo para o nosso carnaval. Desejamos mostrar ao Brasil e ao mundo que Cuba precisa ser vista com um olhar livre de preconceitos!

Cuba sim! Em nome da verdade.

Jaime Cezário

Carnavalesco

Veja abaixo a letra do samba de enredo:

Cuba sim! Em nome da verdade

Compositores: Júlio Maestri e Vinícius da Imperatriz

Uma forte emoção,

No meu coração…

Liberdade!

Eu sou União

A voz de um povo pela igualdade

Sonhos… de um poeta ecoam no ar

Cuba… o desejo de se libertar

Conquistou a independência

Do Tio Sam sofreu influência

Momentos de luta estão na memória

Fidel e Che fizeram história

Me levam na busca por um ideal

Que vai embalar, nosso carnaval!

Guerreiros unidos na Revolução

Pelo bem de uma Nação

Um preço a pagar, não vou negar

Mas a Comunidade em primeiro lugar

Os sonhos se tornam verdade

Trazendo pra muitos a felicidade

Com saúde, educação

A base pra um cidadão

Esporte, cultura, na arte… mistura

Riqueza, o Mundo se encantou

No Cabaré Tropicana,

Carmem Miranda deu um show!

Ilha de pura Magia

Vem sambar…

Verde, Branco e Ouro

Na Avenida vai brilhar

A multiplicação dos pobres nos EUA: já são 47,8 milhões

A multiplicação dos pobres nos EUA: já são 47,8 milhões

Definitivamente, o badalado modo de vida americano (American way of life), embora ainda atraia imigrantes desesperados e imprudentes, já não é o mesmo. A pobreza avança, acompanhando a decadência de Tio Sam, alavancada pela crise e a escandalosa concentração de renda. Já atinge 47,8 milhões de pessoas, segundo números preliminares do censo de 2009, que adota novos critérios para o cálculo da pobreza.

Proporcionalmente, o número de pobres nos EUA é comparável ao do Brasil: um em cada seis habitantes; e é maior que o da China, onde há um pobre em cada nove habitantes. No Brasil, o número foi estimado em 30 milhões de pobres no ano passado; na China, onde existem 150 milhões de pobres numa população de 1,3 bilhões de pessoas, a pobreza – proporcionalmente – é menor: lá um em cada nove chineses são pobres.É preciso ressalvar que os critérios de pobreza nos três países não são semelhantes.

Idosos

Muitos pobres norte-americanos são idosos, com idade acima de 65 anos. Vivem na pobreza devido à alta dos custos médicos e de outros serviços que não são prestados pelo Estado. Nos EUA, os créditos fiscais, subsídios de alimentos e outros programas do governo ajudaram a garantir que a taxa de pobreza não aumentasse ainda mais durante a recessão de 2009, o primeiro ano de mandato do presidente Barack Obama.

Sob a nova fórmula de cálculo adotada no censo, a pobreza total em 2009 era de 15,7%, equivalendo a 47,8 milhões de pessoas. A fórmula revelou que a pobreza cresceu de forma mais intensa entre os estadunidenses maiores de 65 anos, em todos os grupos demográficos. Aumentou também entre os adultos em idade produtiva, de 18 a 64 anos de idade, bem como entre os hispânicos e os brancos. As crianças, mesmo negras, e os casais não casados mostraram menor probabilidade de pobreza, segundo a nova medição.

Devido a novos ajustes às variações geográficas do custo de vida, as regiões oeste e noroeste mostraram a maior proporção de pobres: quase um em cada cinco pessoas no oeste. A nova forma de medir não substitui a taxa oficial de pobreza, mas será publicada ao lado das tabelas tradicionais, como um “complemento” que as agências federais e estaduais poderão usar para definir suas políticas de combate à pobreza.

Os economistas há muito tempo criticam a forma oficial tradicional de medir a pobreza porque só inclui as rendas pagas antes do pagamento de impostos e não levam em conta os gastos médicos, de transporte e com o trabalho.

Crescente polarização social

O desenvolvimento do capitalismo americano ao longo das últimas décadas foi marcado pela crescente concentração da renda e polarização social. As políticas neoliberais introduzidas por Ronald Reagan no início dos anos 1980 exacerbaram o problema. O salário mínimo acumula perda 9,3% desde então. Os salários em geral não acompanharam os preços e valem hoje, em termos reais, menos do que nos anos 1970, malgrado todo o avanço da produtividade do trabalho observada desde então. O salário/hora médio se mantém praticamente no mesmo valor real desde 1964 (ao redor de 18 dólares).

Alguns economistas estimam em cerca de 30 milhões o número de trabalhadores desempregados e subempregados no país. O número oficial fica em torno de 15 milhões (o que não é pouco), mas só compreende o chamado desemprego direto, excluindo os desocupados por desalento (que não mais procuram emprego e são excluídos da população ativa) e a multidão de precarizados a viver de bicos.

Privilégios tributários

Cerca de 3,5 milhões de pessoas nos EUA, um terço das quais são crianças, não tem moradia fixa em algum momento do ano. Nada menos que 50 milhões não têm plano de saúde. O país, é preciso esclarecer, não conta com serviço público de saúde. 49 milhões de pessoas vivem em casas onde só há comida porque recebem vales-alimentação ou frequentam dispensas de comida ou restaurantes populares para obter ajuda.

Na mesma medida em que crescia a pobreza na base da sociedade, no andar de cima as coisas caminharam no sentido inverso. Isentos de impostos, os ricos ficaram ainda mais ricos. No topo, 0,01% da população ganha 976 vezes mais do que 90% dos americanos. Metade dos americanos detém somente 2,5% da riqueza nacional. O 1% mais rico, 33,8% (Institute for Policy Studies). Em 1962, esta faixa de privilegiados detinha 125 vezes mais riqueza que a família americana média. Hoje a razão é de 190 vezes.

O 1% mais rico viu sua riqueza dobrar desde 1979. Os 90% mais pobres amargaram uma diminuição da riqueza. Sua carga tributária (reduzida de forma escandalosa por George Bush) era de mais de 60% em 1968, hoje é de menos de 40%. Obama prometeu alterar o quadro, mas não teve coragem ou força suficiente e manteve as benesses tributárias concedidas pelos republicanos.

Produto da acumulação capitalista

Que os ricos gozam de incontáveis privilégios na terra de Tio Sam ficou também comprovado nas intervenções que o Estado fez na economia para contornar a crise, derramando trilhões de dólares para resgatar banqueiros e grandes capitalistas da falência e abandonando os trabalhadores à própria sorte e ao rigor cínico e implacável dos bancos na execução da dívida hipotecária. Não há o menor sinal de que a situação tende a melhor para a classe trabalhadora no país.

A realidade dos EUA não é mais nem menos que o produto perverso da acumulação capitalista (liberta pelo neoliberalismo das amarras do chamado Estado intervencionista), que reproduz em escala ampliada a desigualdade, aumentando a concentração da renda e a polarização social. Os apologistas do império, que apresentam a decadente potência capitalista como a maior democracia de todos os tempos e terra de grandes oportunidades para quem nela queira se aventurar, certamente não têm o que falar sobre os indicadores que sinalizam o “milagre” da multiplicação dos pobres no interior do país mais rico e poderoso do mundo

Da redação, Umberto Martins e José Carlos Ruy, com agências

VI SEMINÁRIO DE LUTA CONTRA O NEOLIBERALISMO

VI SEMINÁRIO DE LUTA CONTRA O NEOLIBERALISMO

Conjuntura, eleições presidenciais e Comitês de Luta Contra o Neoliberalismo.

 

“A América Latina é um barril de pólvora” – poucas vezes a conjuntura internacional foi tão clara no sentido de comprovar a veracidade de tão conhecida afirmação: Colômbia e Venezuela recentemente estiveram à beira do conflito armado, bem como anteriormente Colômbia e Equador por ocasião do assassinato do Comandante das FARC Raul Reyes em território equatoriano; IV Frota; bases estadunidenses instaladas por toda parte; representantes da rapina subimperialista brasileira sedentos pelo sangue boliviano quando da estatização de subsidiárias da Petrobrás; golpes militares; etc.
A mencionada crise entre Colômbia – cujo governo deixou claro seu papel de ponta de lança do imperialismo estadunidense – e Venezuela transformou o futuro resultado das eleições presidenciais no Brasil em fator ainda mais dramático para a conjuntura. Certamente não interessará à classe operária latino-americana “pagar para ver”.
Há outros dois fatores, um conjuntural e outro estrutural, importantíssimos em jogo: de um lado, a América Latina unida e progressista representa uma ameaça brutal à hegemonia norte-americana e à resposta mais eficiente que este país oferecia para as crises anteriores – a superexploração dos mercados já dominados; de outro, a indústria bélica, que alavanca de forma decisiva a economia dos EUA e tem o governo americano como seu maior comprador, necessita realizar (vender) a mais-valia produzida, o que significa expandir o “mercado da guerra”. Nesse sentido, há evidências contundentes de que a tática de sobrevivência do sistema será, como já é de costume nas crises mais graves, destruir as forças produtivas do nosso continente – homens e máquinas – pela guerra.
É nesse momento dramático que os movimentos populares são chamados à ação, à mobilização e à organização. Não basta alardear aos quatro cantos a gravidade da situação, é necessário preparar a classe operária para evitar, e até mesmo resistir, ao iminente embate.
Como já havia sido dito anteriormente, o resultado das eleições presidenciais no Brasil ganha contornos cada vez mais dramáticos, influenciando o futuro de toda a América Latina, o que força os lutadores contra o neoliberalismo a tomar um posicionamento imediato.
Antes de mais nada, advertimos que o posicionamento eleitoral é momento tático e não estratégico do nosso movimento, já que, ante ao modelo estruturante do sistema “democrático burguês”, os indivíduos eleitos pouco possam interceder na realidade a favor do trabalhador, quando não fazem exatamente o contrário, como no caso trágico do governo Fernando Henrique Cardoso.
Para indicar nossa posição, utilizaremos alguns dados do Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb). O estudo indica que a insatisfação da população brasileira com o processo democrático burguês é de 62%. 46% da população vota apenas porque é obrigatório. O índice de abstenção eleitoral (não comparecimento às urnas), nas últimas eleições, girou em torno de 16% e 17%. Por outro lado, o percentual de brancos e nulos dentre os que não se abstiveram ficou entre 19% e 20%, segundo dados divulgados pelo TSE sobre a última eleição nacional. O número de filiados a agremiações políticas também é pequeno em relação ao de outros países. Esses dados demonstram que o resultado espontâneo da insatisfação tem sido a indiferença, a alienação política, e não a mobilização.
Setores da esquerda, que desconhecem a real origem do fenômeno, comemoram o nível de abstenção e/ou votos brancos e nulos, enquanto outros são contaminados pela panacéia democrática e passam a viver em função da fábrica de sonhos eleitoral: afastam-se das lutas cotidianas para disputá-lo, ou dirigem-nas em função dele. O efeito mais nocivo da “esquerda eleitoral” é justamente esse último, canalizar a energia revolucionária desencadeada pelas lutas reais para a luta imaginária. Vivem de conquistas insignificantes, tão irrelevantes que, para cada vitória, uma ou duas derrotas se seguem.
Como já demonstramos acima, a abstenção eleitoral e o número de votos brancos e nulos não resulta de um processo de crescente conscientização da massa operária e, assim sendo, defender a anulação do voto, ou a abstenção, na atual conjuntura nacional, sem cumular tal atitude com uma efetiva resposta prática, é não só incoerente como totalmente descolado da realidade.
Por outro lado, apoiar candidaturas minúsculas sob o argumento de que “há uma falsa polarização nas eleições” é trocar a causa pela consequência. Ora, não há falsa polarização nas eleições, há sim ingenuidade em se pensar que há uma efetiva representação das classes que compõem a sociedade brasileira no pleito de 2010, ou de que o aparelho do Estado estará em luta aberta e frontal durante o mesmo. Em verdade, não é só ingenuidade, mas também falta de compreensão da realidade ou sobre o que representa o “show da democracia”. Em suma, a falsidade não está na “polarização das eleições”, mas nas representações de classe. Só experimentaram desilusões com a postura da “esquerda” eleita, e que hoje governa, aqueles que acreditaram no conto de fadas do capitalismo.
Embora estejamos cientes das vicissitudes, limitações e contradições do processo eleitoral, desconhecer a conjuntura atual da América Latina, já anteriormente discutida, negar a polarização eleitoral de setores da burguesia – não entre burguesia e trabalhadores – e o fato de que um desses setores, representante direto da rapina imperialista, pode degradar ainda mais as condições de vida dos trabalhadores e fragilizar de forma decisiva a posição dos povos vizinhos que se insurgem é, desculpem-nos a franqueza, irresponsável e inconsequente. Que um dos candidatos da auto-intitulada “verdadeira esquerda” atinja mais de 10% no futuro pleito poderia representar uma verdadeira “vitória de Pirro” para a América Latina. Não há incoerência entre denunciar o processo eleitoral burguês e reconhecer suas contradições. Sun Tzu já dizia que devemos conhecer, além de nossa própria força, os pontos fracos e fortes do inimigo e explorá-los.
Por todo exposto é que o momento tático nos impõe dar suporte sim à candidatura de Dilma Roussef, mas não devemos alimentar ilusões progressistas em relação à mesma, como não nos alimentávamos antes, com Lula, ou propalá-la junto à classe trabalhadora e cruzar os braços. Para nós, apesar da tarefa imposta pela conjuntura, o processo eleitoral não representa o meio e nem o fim das nossas atividades, mas, acima de tudo, mais um momento de chamar os trabalhadores à reflexão crítica e denunciar o embuste “democrático”.
Nesse sentido, nosso apoio crítico a Dilma Roussef vem junto a um apelo pela mobilização popular. É que o governo do PT também está eivado de contradições insolúveis que, mais cedo ou mais tarde, irão se manifestar. A luta de classe e a prática, que é critério da verdade, demonstrarão que a ingênua pretensão de ser “pai dos pobres e mãe dos ricos” da esquerda institucional é irrealizável: suas posturas vacilantes levarão ao colapso social em breve e o esquizofrênico governo será chamado a tomar uma posição definitiva. Nesse dramático momento, somente a nossa mobilização poderá mudar o rumo dos acontecimentos e garantir a vitória das forças anti-imperialistas.
Nossa proposta mais contundente para tal é que dentro dos Comitês de Luta Contra o Neoliberalismo seja construída uma resistência unificada de todos os setores progressistas da sociedade contra a guerra imperialista. Evidentemente, nada disso será possível se não atentarmos às nossas próprias tarefas de organização, que são urgentes, e aumentam na medida em que a grandeza do objetivo se avulta, ante a iminência da guerra.

Saudações do VI Seminário Internacional de Luta Contra o Neoliberalismo.

O VI Seminário Internacional de Luta contra o Neoliberalismo aclama como companheiros todos os povos insurgentes da América Latina e do Mundo: Cuba, Venezuela, Nicarágua, Equador, Bolívia, Nova Colômbia (FARC-EP e ELN) China, Coréia do Norte, Vietnã, dentre outros. Somente a solidariedade da classe trabalhadora, que é universal, garantirá nossa vitória!
Neste momento, saudamos também os 19 anos do Jornal INVERTA. Os militantes da plataforma unificada anti-imperialista, antineoliberal, podem e devem ter o Jornal como seu companheiro.
Recomendamos a cada militante que leia-o criticamente e apreenda seu conteúdo, que, em torno dele, possa estruturar cada núcleo, comitê regional e/ou nacional, e construa uma organização capaz de compreender a profundidade das tarefas revolucionárias, além de pronta para a ação, especialmente nos momentos críticos, como o de agora. Com ele, ajudaremos a elevar a consciência política de cada operário e trabalhador.
Estendemo-nos em especial nessa saudação para salientar que, durante esses 19 anos de vida, o INVERTA não realizou todo o seu trabalho “sozinho”, e nem poderia. Esse cimento humano, essa força que irradia da classe trabalhadora sempre esteve e está presente, mas não podemos, nem nunca poderemos, esquecer do que é feita. O INVERTA é feito de trabalhadores que se entregam diariamente nesse processo, mesmo aqueles que apenas o lêem contribuem de alguma forma, ajudam a reacender a chama revolucionária e mantê-la viva a cada dia! Cada mão a mais que leva o Jornal às bancas, que apresenta-o aos trabalhadores, que organiza-se em torno dele é uma vitória da classe, é uma consciência que desperta, mais um passo rumo a revolução, pois esta não acontecerá da noite para o dia, como que por encanto! Somos nós, com nossas forças, sacrifício e empenho que a faremos, ninguém a fará por nós!
Aqueles que sofrem diariamente com a miséria, aqueles que não suportam mais a vida como está e sabem que tudo que existe foi por nós construído e brutalmente arrancado de nossas mãos, levantem-se! Aqueles que sabem que ainda há esperança, não desanimem! Aqueles que já estão entre nós, que revigorem suas forças e sigam caminhando, lembrando dos ensinamentos que adquiriram, mas nunca esquecendo daquilo que nos torna revolucionários e não lunáticos ou sonhadores: a ciência de libertação da classe operária, a ciência marxista-leninista! A todos aqueles que desejam dias melhores, mesmo aqueles que se encontram perdidos e descontentes em outros agrupamentos: a revolução aguarda por vocês, não o contrário!
Por isso tudo é que agradecemos também a todos os parceiros do Jornal INVERTA, celebrando seis anos do acordo de colaboração editorial com a Prensa Latina – Agência de Notícias Latino-Americana; quatro anos de colaboração editorial com a ABP – Agência Bolivariana de Prensa e; três anos de representação da Revista Tricontinental, publicação da OSPAAAL – Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina; e três anos do Movimento Continental Bolivariano.
Por último, mas não menos importante, saudamos os 18 anos da publicação do Granma Internacional no Brasil – a revolução em Cuba vive. Agradecemos a solidariedade internacional e o espírito inabalável de nossos irmãos de luta!

Todos à tarefa de organização coletiva!
Viva os 19 anos do Jornal INVERTA!
Viva os 18 anos da publicação do Granma Internacional no Brasil!
Viva o VI Seminário Internacional de Luta Contra o Neoliberalismo!
Pela construção de uma plataforma anti-imperialista para a América Latina!
Contra a guerra imperialista! Pelo fim da ocupação do Haiti!
Ousar lutar, ousar vencer, venceremos!

CEPPES
MNLC (Movimento Nacional de Luta contra o Neoliberalismo)
Juventude 5 de Julho
PCML (Br) – Partido Comunista Marxista-Leninista (Brasil)
Casa das Américas (Brasil)

O papel da luta teórica – a lição de Lênin

O papel da luta teórica – a lição de Lênin
Por Andrea Catone
Por um partido de militantes intelectuais e de intelectuais militantes. Notas complementares a FRESU, Giani. Lênin leitor de Marx. A cidade do sol, Nápoles, 2008, p. 256.

“Não se pode compreender O Capital sem estudar a Ciência da Lógica de Hegel”. Para Lênin, trata-se de uma colocação fundamental, com implicações essenciais na atividade política.

Há muito tempo a história do marxismo não é objeto de reflexão e debate teórico-político, daí, as grandes questões teóricas que apaixonaram os protagonistas do movimento operário – na fase de sua constituição e ascensão nas últimas décadas dos anos 1800 e nas primeiras dos anos 1900, ou na fase de afirmação do primeiro Estado operário –, e que conheceram uma retomada no Ocidente mediante as lutas dos anos 1960-70, resultam hoje abandonadas ao léu, ocultas pelo gossip, pela pequena polêmica taticista de todos os dias, embaçada na gíria “politiquês”, sufocada pelo atordoante silêncio em torno da perspectiva estratégica.

A teoria marxista, mesmo entre os companheiros mais politicamente empenhados, vem considerada como uma opcional, algo a se dedicar – quando se está bem – no tempo livre da “atividade prática” da política durante as pausas concedidas por esta; enfim, como momento de otium. Seu estudo não é mais concebido como momento constitutivo e fundativo do agir político que, em tal momento, é obscuro e truncado, desprovido de sua profunda razão de ser, com um “comunismo” que, no melhor dos casos, é em sua maior parte declamado e pronunciado, mas não assimilado e elaborado, com o risco de se tornar vazio, uma bandeira que se agita em alguma manifestação, um ícone ou santo na cabeceira. O desprezo pela teoria em nome de uma “prática” aprisionada na teia dos fatos cotidianos não é novidade na história do movimento operário, esbarrava também no senso comum das massas que, como diz Gramsci em Cadernos do Cárcere, é subordinado à ideologia da classe dominante. Mas, precisamente a história do movimento operário, ademais não breve, nos ensina que a luta no campo teórico e filosófico acompanhou a luta política; melhor, foi embaralhada e acoplada a esta.

Lênin: importância da teoria

Quem teve plena consciência do colocar em jogo as questões teóricas foi Lênin que, até nos momentos mais tumultuosos e intensos da Revolução Russa, encontrava tempo e modo – e aqui “encontrar” não tem nada de casual – para dedicar-se à teoria, à crítica, em defesa do materialismo, contra correntes filosóficas como a do empiriocriticismo que se infiltraram entre importantes expoentes do movimento revolucionário russo (Materialismo e empiriocriticismo, 1908) e perscrutava a relação entre Hegel e Marx. E sobre Lênin pode-se dizer tudo, menos que fosse um “revolucionário de gabinete” ou de escrivaninha.

O livro de Gianni Fresu tem a virtude de repropor – contracorrente – o problema da relação entre luta no campo teórico e luta no campo político, colocando-o na história da II Internacional, até os primeiros anos da Revolução Russa e da Internacional comunista, demonstrando o nexo dialético – em particular com os casos de Bernstein e Kautsky – entre proximidade teórica e proposta de linha política, que resulta claramente como uma determinada abertura filosófica, não, contudo, sem consequências “práticas”, e finalize por afetar em profundidade o curso da história. O “prático” Lênin, o “político em ação” – como a definição sem artifícios de Gramsci – ocupava-se não ocasionalmente com a filosofia (também apreciava definir-se muito modestamente como um “marxista de base”). É o oposto de uma concessão e de uma prática – que foi consolidada na degeneração do movimento comunista – de uma nefasta “divisão de trabalho”, que confia a teoria aos “intelectuais” e o “trabalho político” – concebido predominantemente em seu aspecto organizativo e de tática imediata, ou de atividade administrativa nas instituições locais – aos “políticos”, confirmando assim também a deterioração da política como “trabalho inferior”, como “ocupação” distanciada da estratégia.

O livro de Fresu, ao mesmo tempo militante político e intelectual militante – que já havia enfrentado, num trabalho anterior sobre Gramsci (O diabo na bolha), o problema da redução da política a uma função (coisa bem diferente do leniniano “revolucionário por profissão”), com a formação de uma “categoria política” autônoma e afastada da classe operária que aquela deveria representar –, é “atual” também por isso, porque está direcionado a confrontar essa divisão de papéis entre ocasionais intelectuais-refinados em destaque e “políticos-práticos”, que sabem como “colocar as mãos na massa”.

Teoria e práxis

Lênin, “o maior pensador do movimento operário revolucionário, de Marx em diante, como nunca antes”, segundo a conhecida expressão de Lukács (retratado, por sua vez, por Guido Oldrini em um importante livro do qual esta revista se ocupará em breve, “o mais significativo pensador marxista do século XX”), é filósofo-militante e militante-filósofo. Isso, dito em outras palavras, significa que ele não separa ou contrapõe “teoria” e “práxis”, fixados segundo o tradicional binômio “pensamento” e “ação”, mas concebe a atividade teórica, a intervenção, a tomada de posição, a luta no aspecto ideológico e cultural como práxis. A manutenção da divisão entre “teoria” e “política” é, ao contrário, útil à manutenção e consolidação da hegemonia da classe capitalista dominante, à manutenção dos subalternos em posição inferior.

Essa questão está no centro da reflexão de Gramsci, que se pôs lucidamente o problema já aberto amplamente na Internacional Comunista, de dotar o proletariado de uma verdadeira concessão autônoma do mundo, de elaborar e desenvolver uma filosofia própria e de fazer, sim, que ela se torne patrimônio de massa e não de poucas elites intelectuais, dando vida a “um progresso intelectual de massa”. Daí sua redescoberta e reavaliação de Antonio Labriola, o único no movimento social dos últimos anos de 1800 aos primeiros dos anos 1900, que teria colocado com vigor a questão de uma Weltanschauung (visão de mundo) do proletariado.

Isso, no entanto, não significa absolutamente fazer tabula rasa de todos os filósofos anteriores, nem “jogar ao mar a filosofia”, como indica o título de um polêmico artigo (publicado em 1922 na revista soviética Pod znamenem marksisma, Sob a bandeira do marxismo), que expressava uma tendência – difundida em meio a uma discreta parcela do proletariado russo –, com a ideia de uma ruptura radical com toda a história passada e de uma renovação absoluta, de um novo nascimento, de um renascimento (palingenesia) completo; tendência extremista e destrutiva contra a qual Lênin conduziu um resoluto combate teórico-político, reiterando que o marxismo não nasce por partenogenesia, mas é filho das mais avançadas filosofias e ciências dos séculos XVIII e XIX. Como escreveu num conhecido texto, que tem uma longa história, Três fontes e três partes integrantes do marxismo – publicado em 1913 e retomado na Rússia pós-revolucionária para a formação de militantes –, “a doutrina de Marx (…) é completa e harmônica e dá aos homens uma concessão integral do mundo, que não pode compatibilizar-se com nenhuma superstição, com nenhuma oposição, com nenhuma defesa da opressão burguesa. O marxismo é o sucessor legítimo de tudo o que a humanidade criou de melhor durante o século XIX: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês”. Filosofia clássica alemã: o pensamento dialético de Hegel perpassa, segundo Lênin, todo o trabalho de Marx a ponto de não se poder compreender integralmente O Capital sem estudar a Ciência da Lógica de Hegel. A dialética de Hegel constitui um colocar em jogo fundamental; ela é sistematicamente estudada, como Lênin não se cansa de recomendar aos militantes e aos redatores da Revista de Materialismo Militante.

O revisionismo de Bernstein

A batalha por uma concessão dialética e no que se refere à dialética percorre a história do movimento operário e do marxismo entre os séculos XIX e XX e é uma das questões – se não a questão central – a que se dedica o livro de Fresu, do qual não por acaso o subtítulo é “dialética e determinismo na história do movimento operário”.

Nele nos é mostrado como no debate da II Internacional vão pari passu “revisionismo” filosófico – com o “retorno a Kant” e o abandono de Hegel – e “revisionismo” político – com a colocação em discussão do projeto revolucionário de Marx em nome de uma estratégia reformista. Quando falamos de “revisionismo” o pensamento incide imediatamente em seu expoente mais significativo e importante, na social-democracia alemã e em toda a II Internacional, Eduard Bernstein, que o teoriza e organiza na forma mais orgânica – e, no final das contas, não superado em relação aos sucessivos continuadores revisionistas, até as tentativas desconexas de nosso imediato presente – em sua obra mais conhecida Os pressupostos do socialismo e as tarefas da social-democracia alemã, que retoma e amplia uma série de artigos publicados na prestigiosa Neue Zeit (Novo Tempo) entre 1896 e 1898.

O pai de todos os revisionistas trabalha – do interior de parte da própria estruturação marxista, mas incompleto e mutilado de seus elementos revolucionários essenciais – uma demolição radical do marxismo que ele entende conduzir no leito da evolução reformista, de uma concessão e de uma política burguesa de esquerda submissa à classe dominante, rejeitando qualquer proposta de transformação revolucionária.

Baseando-se na evidente debilidade da ingenuidade do messianismo revolucionário – que de modo determinista mantinha iminente a ruína da sociedade burguesa como êxito do desenvolvimento das forças produtivas, enquanto o capitalismo mostrava uma inusitada capacidade de saber reestruturar-se sob outras formas (capacidade que ampliou e aperfeiçoou sucessivamente ao longo das crises e revoluções dos anos 1900), fazendo crítica à avaliação sobre tempos e possibilidades de desenvolvimento do modo de produção capitalista, do qual anunciava um rápido esgotamento –, ele acusa o materialismo histórico de apriorismo que absolutizaria o papel da base econômica material, das relações de produção e das forças produtivas, “premindo o pensamento em uma camisa de força”. Bernstein acusa de utopismo a perspectiva revolucionária e atribui explicitamente à dialética hegeliana a responsabilidade de ter conduzido Marx e Engels a pensar, no Manifesto do Partido Comunista de 1848, em derrocamento revolucionário da sociedade burguesa na sociedade comunista, em passagem de uma forma de produção – sob controle e direção burgueses, com relações de propriedade burguesas, manifestava, no entanto, sempre mais a contradição do seu caráter social – à socialização dos meios de produção, à instauração de relações de produção comunistas.

A concessão dialética da história é que permite pensar a revolução, a superação-abolição (Aufhbung) da sociedade burguesa naquela comunista, o que não significa – ao menos uma vez! – cancelamento e erradicação integral do passado, das forças produtivas desenvolvidas, mas o desenvolvimento revolucionário delas. Bernstein não quer conceber a dialética, a contradição dialética que permite a Marx definir em sua obra mais madura o capital como “contradição em processo”. A relação dedutiva posta no Manifesto entre as condições avançadas da civilização europeia e a revolução proletária constituíam para Bernstein uma “autossugestão histórica digna de um visionário”: a dialética hegeliana, a “hegeliana lógica da contradição” constituía “o elemento mais infiel da doutrina marxista, o embuste que impedia qualquer consideração coerente sobre as coisas”; esta última se traduz no postulado positivista e antidialético dos “fatos” enquanto tais (mas cada “fato” implica uma correlação com outros “fatos” e não é completamente indiferente ou “objetivo” o modo em que tal correlação se constitui).

O movimento é tudo…

A negação do salto revolucionário leva Bernstein a conceber o desenvolvimento da democracia política (o sufrágio universal extensível a todas e todos os cidadãos ainda estava por vir) como antagônico àquele do capitalismo; a conquista da igualdade de direitos políticos teria, conforme suas palavras, reabsorvido naturalmente (isto é, por espontânea evolução) as desigualdades econômicas e os antagonismos de classe (com isso, eliminando mesmo a dialética da relação entre estrutura e superestrutura, núcleo central da crítica marxiana da economia política).

A investida de Bernstein se pretende absolutamente antidogmática, com base apenas em “fatos”, nas experimentações, nas ações mais prudentes, em nome do desprezo ao doutrinarismo, ao escolasticismo, à tradição teórica socialista que ele considera um “peso opressivo”, um freio que dificulta o desenvolvimento (quantas vezes ainda, depois de Bernstein, essa crítica foi feita a Marx para enfraquecer o caráter revolucionário dele? Recentemente, quantos também não repetiram que os comunistas têm os olhos voltados ao passado, presos a seu passado, enquanto temos a nossa frente um radioso porvir?). “Aquilo a que comumente se chama objetivo final do socialismo para mim não é nada, o movimento é tudo”: essa conhecida frase de Bernstein, valorizadíssima, ressoa ainda entre seus obtusos continuadores que desvirtuam espontaneamente a justa crítica ao dogmatismo com a negação oportunista e sem princípios da perspectiva e do objetivo conscientes que orientam a atividade organizada do partido do proletariado, transformando em objetivo da ação política o movimento pelo movimento e o movimento como um fim em si mesmo.

Tais posições predominaram nos últimos anos na “esquerda” e no PRC, e fortemente contribuíram para sua degeneração e seu despedaçamento (em demonstração ainda uma vez de que a teoria desenvolve um papel fundamental para o agir político).

A revisão de Marx – o “colocá-lo no topo”, como andava em moda dizer dentre algumas esquerdas um século atrás (e também agora…) – é parte do choque político e tem consequências pesadas sobre a política da social-democracia da II Internacional. Apesar da posição inicial correta de Kautsky, o partido alemão resvalaria cada vez mais para uma política favorável à expansão colonial (com toda a bagagem justificacionista desta como ação pedagógica e civilizadora do Ocidente sobre os povos ainda atrasados em seu desenvolvimento histórico, o fardo do homem branco e semelhantes) e para posições social-chauvinistas e social-imperialistas, que tiveram seu trágico apogeu com o voto favorável aos créditos de guerra no Bundestag (parlamento alemão), em agosto de 1914, sinalizando por um tempo o fim da II Internacional na grande carnificina da Primeira Guerra Mundial que levava os proletários de uma nação a matar os proletários de outra, botando abaixo a tradicional palavra de ordem socialista “proletários de todo o mundo, uni-vos!” na terrível prática – a serviço do grande capital – de proletários do mundo que se mataram entre si. Apenas Lênin e os bolchevistas, e algum grupo minoritário dirigido pela revolucionária Rosa Luxemburgo, moveram-se com lucidez e determinação contra a guerra imperialista. Não foi certamente acaso: a crítica à guerra imperialista vinha, com rigor teórico e paixão política, da oposição à corrente revisionista, que era ao mesmo tempo teórica e política.

Sindicato e partido

Nem um dos grandes problemas que continuam no centro do movimento operário é estranho, de forma mais ou menos indireta, à posição assumida frente à dialética de Hegel e Marx. Pensamos, por exemplo, em uma questão que se tornou crucial nos países capitalistas, particularmente na Itália, onde os salários e as condições contratuais dos assalariados retrocederam 20 anos: o papel do sindicato, a relação entre sindicato e partido político, a função e as condições da greve política de massa. O revisionista Bernstein separa claramente sindicato de partido socialista, estabelece ao primeiro o único papel de defensor dos interesses econômicos, encerra-o numa esfera economicista que se encontra totalmente dentro dos limites da sociedade capitalista, que não pode, e não quer, superá-los, e abandona a classe operária em seu papel inferior e econômico-corporativo, não se coloca o problema de transformá-la em classe geral capaz de efetuar a passagem para um novo modo de produção. Esse reconhecimento da separação entre sindicato e partido foi retomado e ampliado há alguns anos como crítica – aparentemente de esquerda, enquanto reivindicadora da plena e total autonomia dos sujeitos operários ligados ao sindicato – à concessão comunista do sindicato como “correia de transmissão” da política proletária. Contra Bernstein, que defende uma concessão tradeunionista do sindicato economicista e corporativa, intervém no final dos anos 1800 outro grande expoente da social-democracia alemã, Karl Kautsky, então com posições “ortodoxas” ao afirmar o papel da classe operária como classe geral, defendendo o valor da luta política e também da greve política. Mas Kautsky, nunca em concordância com a dialética, não concebe a possibilidade – dialética – de um sindicato defensor dos interesses econômicos dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, organismo de massa diferente do partido, que contribui para a afirmação da política revolucionária, e que ainda possa ser – depois da conquista do poder político pelo proletariado – sujeito ativo na construção do socialismo.

Anarcosindicalismo e tradeunionismo são faces de uma mesma moeda que evitam a dialética, são unilaterais, um substitui o partido político da classe operária, o sindicato, e o outro se limita ao papel estritamente econômico: não alcançam a totalidade dos processos. Lênin nas teses do III Congresso da Internacional, bem como em escritos anteriores, enfrentou a questão da relação entre sindicato e partido e sistematizou o papel dos sovietes como nova criação do proletariado e superioridade dialética da dicotomia entre economia e política no sindicato.

Oportunismo e sectarismo

Idêntica investida Lênin empreendeu nos confrontos de duas tendências, de dois modos de se colocar frente ao agir político, apresentadas muitas vezes em conjunto, aparentemente contrapostas: sectarismo e oportunismo, dois obstáculos, Scilla e Cariddi, que o movimento operário se arrisca a enfrentar. O oportunismo não vem estigmatizado por Lênin como uma doença moral contra a qual se deve manifestar condenação. Ele procura as bases objetivas daquele, em meio ao qual distingue, aliás, a corrupção das instituições parlamentares, nas quais os deputados são eleitos com mandato questionável. As tendências oportunistas são – por rejeitar, mesmo de modo mascarado, o propósito final da revolução e o acomodamento na sociedade burguesa, da qual se torna um arrimo, de organizadores do consenso entre a classe operária – uma corrente permanente do movimento operário, revelam-se em sua distribuição, mesmo na luta de classe no plano internacional, na sociedade burguesa. Ali é um fato de corrupção permanente, indisfarçável, em relação ao qual podem ser buscados antídotos – sobretudo na maneira em que se estrutura o partido, no estreito vínculo entre parlamentares, ou assessores, e partido, e entre cúpula e base do partido, evitando que surja um partido dos assessores, ou dos parlamentares –, mas que não é eliminável e em relação ao qual não valem tanto os apelos moralistas quanto os termos a que se prende, o modo como se organiza a relação partido/massas. E, mas não certamente última por importância, a concessão filosófica da qual estão armados ou não os militantes do partido.

O sectarismo é o outro obstáculo que o partido operário se arrisca a enfrentar, é a negação do partido de massa proposto pelo III Congresso da IC, da política de frente única, da aliança das classes subalternas sob orientação do proletariado. É a resposta unilateral ao oportunismo. Lênin combate decididamente as duas tendências: oportunismo e sectarismo extremo são condenados simultaneamente. Luta em duas frentes ao mesmo tempo, como contra o dogmatismo e o revisionismo. A concessão dialética lhe permite essa investida. Nisso, em Lênin há uma recusa explícita ao blanquismo, à insurreição de pequenos grupos, ao poder tomado por meio de conspiração, ao terrorismo dos populistas (narodniki, em russo).

Mas, ao mesmo tempo, Lênin luta decididamente contra o gradualismo reformista e tem a capacidade de “pensar a revolução”, segundo Georges Labica, de entendê-la como processo e não como golpe imediato, nem muito menos como golpe de Estado – só se os golpes forem também parte da luta política ou militar. A conhecida afirmação leniniana, análise concreta da situação concreta, se é explicitamente crítica a toda tentativa puramente livresca (a filosofia dialética é completamente diferente da ostentação catequética de quatro receitinhas repetidas como um mantra que se mantém para poder ser utilizado em qualquer tempo e qualquer lugar indiferentemente) é da mesma forma totalmente estranha a qualquer tentativa empírio-positivista, na lógica de uma prática com objetivo em si mesma.

Muitos outros assuntos para reflexão são oferecidos pela reconstrução feita por Fresu do percurso político e filosófico de Lênin, tendo como tela de fundo a crise da II Internacional e a abertura de uma nova fase na história da humanidade, iniciada com a grande Revolução de Outubro e a constituição da Internacional Comunista. E, certamente, permanecem abertas algumas questões complexas e difíceis, como aquela em relação ao materialismo filosófico, ao materialismo dialético, à dialética materialista, a que é dedicado o capítulo 3. Estas, no entanto, não são superadas (provaremos isso numa próxima ocasião), certamente em virtude do papel, essencial na luta política do proletariado, que Lênin e a mais alta tradição comunista determinam para a batalha de ideias, para a elaboração de uma concessão autônoma do mundo.

Artigo originalmente publicado na revista L’Ernesto. Tradução do original em italiano por Maria Lucília Ruy.

Livro desvenda a atualidade do pensamento de Karl Marx

Livro desvenda a atualidade do pensamento de Karl Marx

Em novembro de 2006, o Centro de Estudos Marxistas (Cemarx) da Universidade do Estado da Bahia realizou seu segundo seminário com o tema “Marx: intérprete da modernidade”. O evento reuniu uma série de pesquisadores e estudiosos da obra de Karl Marx e buscou examinar seu pensamento de forma multilateral. Com a contribuição de Mauro Castelo Branco de Moura, Carlos Zacarias F. de Sena Jr, Muniz Ferreira, José Carlos Ruy, Ricardo Moreno, Eurelino Coelho, Sérgio Lessa, Antonio Carlos Mazzeo, Milton B. de Almeida Jr e Milton Coelho,o debate foi reunido e publicado no livro Marx: intérprete da contemporaneidade, publicado pela Quarterto Editorial, de Salvador e que será lançado no próximo dia 30, às 19 horas, na Livraria Cortez, em São Paulo.

Karl Marx foi eleito o maior filósofo de todos os tempos em uma pesquisa da emissora de rádio e televisão BBC, de Londres, entre os internautas. A emissora britânica anunciou, no dia 16 de julho de 2005, o resultado final da pesquisa realizada por um dos seus sítios, denonimana In our time´s greatest philosopher, para eleger o maior filósofo da humanidade.

Na enquete, o resultado final colocou Marx em primeiro lugar, com 27,93% dos votos. Isto é, quase um de cada três participantes escolheru Marx como o maior filósofo de todos os tempos. Em segundo lugar, com 12,7%, menos da metade dos votos recebidos por Marx, aparece David Hume, o candidato da The Economist. Ludwig Wittgenstein, o candidato do jornal The Independent, aponta em terceiro lugar, com 6,8% e o quarto lugar é ocupado por Nietszche, com 6,49% dos votos. Platão recebeu 5,65% dos votos e ficou em quinto lugar. Depois, pela ordem Kant (candidato do diário britânico The Guardian), São Tomás de Aquino, Sócrates, Aristóteles e, finalmente, Karl Popper.

Marx formulou as teorias que basearam o socialismo moderno. O seu método de análise da sociedade e da natureza influenciou ramos do conhecimento como a história, a sociologia, a economia e a ciência política. Marx deu forma às suas idéias em livros como O manifesto comunista, O capital, A ideologia alemã, A miséria da filosofia, entre outros.

Influenciado pela dialética hegeliana rejeitou seus componentes idealistas e a reelaborou sobre novas bases filosóficas materialistas. Dessa forma, a dialética materialista de Marx se diferenciou tanto dos materialistas metafísicos e/ou mecanicistas do seu tempo, quanto dos dialéticos idealistas da própria escola hegeliana na qual se formou filosoficamente. Seu método investigativo buscava compreender a realidade concreta a partir da totalidade de fatores e a diversidade de relações entre estes, sendo, no entanto, o econômico determinante em última instância.

A apropriação política das idéias de Marx norteou os chamados movimentos revolucionários do século 20, tornando-o o pensador mais influente de todo aquele século. A sua obra segue sendo um instrumento fundamental para a compreensão do mundo contemporâneo. Em função disso a articulação acadêmica Cemarx resolveu realizar o seminário ”Karl Marx: intérprete da contemporaneidade”, visando trazer reflexões e debates acerca da contribuição marxiana e marxista para a produção acadêmica. O produto do seminário é o debate que está publicado no livro.

O seminário teve a presença massiva dos nossos estudantes, funcionários, colegas professores, militantes dos movimentos sociais e partidos da esquerda crítica do capitalismo. O evento contou também com o apoio da universidade, do Departamento de Educação do campus 2 e da participação (na coordenação) do professor Ricardo Moreno, também da Uneb (representanto o Instituto Maurício Grabois), além da presença, também na coordenação, do professor Muniz Ferreira, do programa de pós-graduação em história da UFBA.

As refexões contidas no amplo debate realizado publicadas nos artigos dos conferencistas contribuem para fazer avançar as lutas sociais que estão construindo no processo histórico a emancipação humana.

Serviço:
Lançamento Marx: intérprete da contemporaneidade
30 de abril, às 19 horas
Livraria Cortez
Rua Bartira, 317 – Perdizes – São Paulo
(ao lado da PUC/SP)

Educaçao coreana: verdades e surrealidades

Educaçao coreana: verdades e surrealidades

Ainda na era Paleozóica deste blog, o Fernando me perguntou sobre como era o sistema educacional na Coréia do Sul pois havia lido uma reportagem no Washington Post sobre a pressão que os estudantes coreanos sofrem para serem os melhores. Foi mais ou menos na mesma época em que saiu uma reportagem de capa da Veja no Brasil sobre o mesmo tema (na edição de 16/fevereiro/2005, infelizmente inacessível para quem não tenha assinatura paga). Prometi escrever sobre o assunto assim que tivesse essa Veja em mãos, pois leria a reportagem e poderia comparar com as opiniões que angario por aqui. Pois bem, a Veja chegou pelo correio semana passada, depois de longo e nada tenebroso inverno. E eis a minha opinião geral, 100% passível de discussão.

Há alguns anos eu não pegava uma revista Veja de papel. Confesso que me incomodou um pouco no início. O primeiro fato que me chamou a atenção foi a (falta de) qualidade do papel e da impressão, comparada às revistas que leio por aqui. O segundo fato foi logo na seção “Carta ao Leitor” dessa edição, uma foto da repórter responsável pela matéria da capa no castelo de Gyeongbokgung em Seul – infelizmente não tenho como mostrar a foto aqui. Mas das duas, uma: ou a foto foi tirada às pressas e não passou por um crivo técnico (entenda-se Adobagem ou Photoshopada) ou era uma montagem bem-feita – e aí teve uma adobagem feita nas coxas. Sim, porque a repórter está mais desbotada que todo o resto da foto, as tonalidades de preto não batem, a iluminação não condiz, e a sombra dela contradiz a sombra do palácio. A explicação surreal pro fenômeno seria que dois sóis levemente separados estivessem no céu no momento do clique. E ainda vivemos na Terra, não no planeta de Luke Skywalker, certo? O terceiro fato que me incomodou foi uma tabela vista ao folhear rapidamente no Guia de Saúde sobre tipos de colesterol: a tabela está completa e biologicamente ERRADA. Como isso é publicado??? Será que não houve revisão? (Diga-se de passagem, tabela nunca foi o forte da Veja.)

Passado o impacto inicial, pus-me a ler a reportagem sobre as “lições que o Brasil deveria aprender com a educação coreana”. Gostei muito de saber os números e estatísticas sobre a Coréia, principalmente em comparação com o Brasil, informação que eu não compilaria sozinha por divertimento. A reportagem inteira é um grande elogio ao sistema coreano, ao investimento maciço em educação básica que foi feito pelo país há mais de 20 anos, e que hoje recolhe excelentes frutos, através de desenvolvimento tecnológico. Até o ponto negativo colocado do sistema é visto com olhos brandos: a alta taxa de suicídio juvenil rivaliza com o Japão, mas não é maior que o do vizinho, assim como o fato de ainda existirem castigos físicos caso os alunos falhem. Esses problemas não merecem mais de um parágrafo para a Veja, afinal a matéria é sobre as benesses do sistema. Jornalismo “imparcial” é isso aí.

É fato que a Coréia soube sair do buraco do subdesenvolvimento com um planejamento e força de vontades titânicas. Aplicar uma parte substancial do capital em educação básica foi crucial para o sucesso da economia e da sociedade como um todo. Além disso, investir em ensino profissionalizante, erradicar o analfabetismo, e principalmente pagar bem os professores primários, sem dúvida, foram medidas acertadas que trouxeram (e trazem) benefícios múltiplos. Isso o Brasil deve realmente copiar.

Entretanto, ao terminar de ler a reportagem, fiquei mais curiosa sobre a educação aqui, e comecei a perguntar às pessoas com quem convivemos o que elas achavam. Existe uma unanimidade em se dizer que o ensino público aqui é ruim, fraco. “Ahn??? Como é que é???” Depois do que eu havia lido, essa informação parecia vinda de um outro planeta Coréia.

Arte infantil no metro de SeulFamily education
Alunos de escola primária expõem seus desenhos numa estação no centro de Seul; ao lado, educação familiar, também extremamente valorizada pela tradição coreana.

Logo comecei a me situar. A educação coreana festejada, modelo para o mundo, é extremamente tecnológica, voltada para o afunilamento do conhecimento. Desde cedo, tenta-se descobrir qual a melhor aptidão da criança e incentivá-la a desenvolver ao máximo essa aptidão. Dessa forma, temos profissionais excelentes, pois eles foram treinados a o serem desde sempre. Especialistas, principalmente em qualquer área ligada à tecnologia. Entretanto, é a base do ensino geral, aquela que ensina os fundamentos de uma célula por exemplo, ou os meandros da história crítica, que é lamentável no ensino coreano – e razão principal pela qual a maior parte dos coreanos sonha em mandar os filhos estudarem nos EUA a qualquer custo. (Pra aprender inglês também, outra deficiência que será amenizada com o tempo.)

Para aprender um pouco mais e melhorar seu afunilamento, a maior parte das crianças são colocadas em escolas de reforço privadas, os Hagwons, onde aulas específicas de matérias como matemática, ciências, inglês e artes são incorporadas ao considerado “falho” sistema público de ensino. Vale ressaltar que os hagwons são um grande negócio em termos financeiros, além de responsáveis por trazer hordas de estrangeiros de língua inglesa para cá – o melhor professor de inglês é aquele que fala inglês desde sempre, essa é a idéia. Entretanto, conversando com alguns desses professores, percebemos que o hagwon nada mais é que a extensão da escola, no sentido de memorização. Aperfeiçoar-se, nesse caso, significa decorar mais e mais, adquirir destreza e agilidade de raciocínio tecnológico.

O estudante coreano da escola básica portanto não aprende a pensar, raciocinar de maneira confrontativa, crítica, nem mesmo no hagwon. O ensino é todo baseado em memorização, decoreba, do prezinho à pós-graduação. Eles sabem desmontar e montar de novo qualquer iPod, dão de 10 X 0 em qualquer estudante de outro país em Olimpíadas de Matemática, mas se você pergunta a opinião deles sobre aquecimento global, por exemplo, não vai ouvir mais que meia dúzia de palavras-chavões relembradas fracamente de algum parágrafo memorizado, se muito. Nada se discute, tudo se ouve de um mais velho ou lê-se num livro: aquilo é verdade absoluta, está certo. E a realidade é que essa visão não podia estar mais distorcida do mundo que vivemos.

Devido ao passado político de corrupção e subdesenvolvimento, o coreano é paradoxalmente muito politizado em assuntos internos. Os diversos conflitos que de vez em quando pipocam em Seul entre estudantes e polícia são reflexo dessa politização desatrelada de ensino crítico – ou do anti-americanismo que vem crescendo de uns tempos pra cá. Não me perguntem como a cabeça de alguém funciona sabendo política sem discutir suas bases ideológicas a fundo, mas parece ser o que existe aqui.

De forma alguma, quero desmerecer com esse post a educação na Coréia. Sem dúvida, o projeto educacional como um todo é vencedor, só facilitou o incrível desenvolvimento que vemos aqui, e é digno de muitas palmas. A filosofia oriental de valorização do trabalho e do saber também não podem ser rejeitadas na discussão de porquê o sistema funcionou. Mas, se esse modelo deve ser seguido pelo Brasil, é preciso que os pequenos erros que eles próprios vêem sejam analisados e levados em consideração, para que se tenha uma educação de qualidade no nosso país, já tão castigado pela falta da educação básica de qualidade.

Tudo de bom sempre.

Coreaninho com celularPasseata anti-EUA
Duas cenas muito comuns em Seul: criança com seu próprio celular em mãos, e passeatas de protesto – a da foto especificamente anti-americanos.

Viajando na maionese um pouco mais…

- Outra reclamação comum do sistema educacional entre coreanos é que as crianças têm pouco tempo para brincar, informação que eu discuto um pouco, dada a quantidade de crianças que todos os dias a tardinha estão no playground do condomínio em que moramos. E lendo livros no balancinho é que elas não estão…

- Um efeito colateral da atual preferência por uma educação mais “ocidentalizada” é o fato de valorizar-se em demasia quando as crianças aprendem/ouvem música clássica (Beethoven, Bach, etc.), jazz, ou então vão a teatros, óperas e afins. Como se isso fosse o único parâmetro de medição do grau de cultura de um povo. Aliás, o que é cultura mesmo?

- Todas as escolas coreanas têm um tamanho mínimo de área livre, de acordo com o tamanho da área construída. É lei. Criança não pode ficar confinada igual gado, pois isso afeta o aprendizado também.

- Esse humilde bloguinho (e sua reportagem sobre o Lula na Coréia) foi citado de forma delicada e agradável na coluna desta semana do Gravatá, no jornal O Globo. Senti-me honrada e agradeço à lembrança ao Gravatá. Eu, uma sentimentalóide de carteirinha, fiquei profundamente tocada pelo gesto.

Sul-coreanas mudam de país para que os filhos aprendam inglês

Sul-coreanas mudam de país para que os filhos aprendam inglês
Os pais dos estudantes vivem e trabalham na Coréia do Sul.

Famílias se encontram algumas vezes por ano.

Do ‘New York Times’

Em uma recente tarde ensolarada, meia dúzia de mães sul-coreanas veio buscar suas crianças na Escola Primária Remuera, saudando umas às outras calorosamente em um pátio lotado de neozelandeses.

As mães, membros do maior grupo de estrangeiros na escola pública, eram parte do grupo conhecido na Coréia do Sul como “gansos-selvagens”, ou famílias vivendo separadamente, algumas vezes por anos, para colocar seus filhos para estudar em países de língua inglesa como a Nova Zelândia e os Estados Unidos. As mães e os filhos vivem em outro continente enquanto os pais vivem e trabalham na Coréia do Sul, voando para visitar duas vezes por ano.

Motivados por uma insatisfação com o rígido sistema educacional da Coréia do Sul, um número cada vez maior de pais está procurando dar a seus filhos uma vantagem ajudando-os com uma fluência em Inglês enquanto os poupam, e a si próprios, do stress provocado pela notória pressão do sistema educacional da Coréia do Sul.

Educação globalizada

Acredita-se que mais de 40.000 crianças sul-coreanas estejam vivendo fora da Coréia do Sul com suas mães, o que especialistas dizem ser conseqüência de uma nova era de educação globalizada.

É a primeira vez que o famoso foco na educação dos sul-coreanos afasta esposas de seus maridos e filhos de seus pais. Isso também inverteu os padrões de migração em que os homens viajavam enquanto suas esposas e filhos ficavam em casa, atrapalhando casamentos e o ideal confuciano da família tradicional coreana. O custo de manter duas residências esticou os orçamentos familiares, já que as esposas não podem trabalhar fora da Coréia do Sul devido a restrições de visto.

Em 2006, 29.511 crianças em idade escolar deixaram a Coréia do Sul, quase o dobro de 2004 e quase sete vezes o número de 2000, de acordo com o Instituto Coreano de Desenvolvimento Educacional, um grupo de pesquisa que rastreia os números para o Ministério da Educação. Os números, os últimos disponíveis, não incluem crianças acompanhando pais que deixaram a Coréia do Sul para trabalhar ou emigrar, e que também poderiam estar parcialmente motivados por objetivos educacionais.

Os sul-coreanos agora formam o maior grupo de estudantes estrangeiros nos Estados Unidos (mais de 103.000) e o segundo maior na Nova Zelândia após os Chineses, segundo estatísticas governamentais americanas e neozelandesas. Porém, ao contrário de outros estudantes estrangeiros, os sul-coreanos tendem a ir para fora desde a escola primária — na crença de que absorverão o Inglês mais facilmente nessa idade.

Na Nova Zelândia, havia 6.579 sul-coreanos nas escolas primária e secundária em 2007, representando 38% de todos os estudantes estrangeiros.

“Pensamos em vir para cá por dois anos antes de realmente fazê-lo,” diz Kim Soo-in, 39, que chegou aqui há 16 meses com seus dois filhos. “A questão nunca foi se devíamos fazer isso, mas quando. Sabíamos que em algum ponto teríamos de fazê-lo.”
Pais gansos-selvagens eram, no início, relativamente ricos e tendiam a enviar suas famílias aos Estados Unidos. Nos últimos anos, porém, mais famílias de classe-média estão se direcionando para destinos menos caros como Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

‘Pais-águia’

Agora, há também os “pais-águia,” que visitam suas famílias várias vezes por ano por terem tempo e dinheiro. Aqueles que não têm nenhum dos dois e não conseguem sair da Coréia do Sul, são conhecidos como “pais-pingüim.”

A experiência nacional é considerada mais um problema social do que um apoio ao fato de o Presidente da Coréia do Sul ter saído recentemente da condição de pai-pingüim.

O Presidente Lee Myung-bak disse que começaria a resolver o problema contratando 10.000 professores de Inglês. “Isto é sem precedentes”, disse ele. “A Coréia é na verdade o único país do mundo experimentando tal fenômeno, o que é muito infeliz.”

Baixa taxa de natalidade

Os estudantes sul-coreanos costumam ficar entre os primeiros colocados em testes acadêmicos internacionais. Mas a insatisfação com os custos financeiros e psicológicos da educação está tão difundida que é freqüentemente citada como uma razão para a baixa taxa de natalidade do país – 1,26 em 2007 – era uma das mais baixas do mundo.

Os pais sul-coreanos dizem que as escolas estão fracassando ao ensinar não só o inglês, mas também outras habilidades cruciais numa era de globalização, como pensamento criativo. Isso afeta os sul-coreanos, cuja economia tem desacelerado depois de décadas de alto crescimento, pois acreditam estar sendo espremidos entre as economias maiores do Japão e da China.

Pode levar anos até que se veja como essa onda de crianças voltará para a Coréia do Sul, especialmente agora que elas estão indo para outros países no nível primário. No início desta década, quando as crianças gansos-selvagens eram em sua maioria estudantes de colegial, muitos se davam bem utilizando suas boas notas em Inglês para entrar em faculdades nos Estados Unidos ou em outros países de língua inglesa, dizem os especialistas em educação. Para outros, seus anos em outro país eram uma maneira indireta de entrar nas melhores universidades sul-coreanas, como a Universidade Yonsei em Seul, que oferece cada vez mais cursos ou programas completos em Inglês.

Fonte de lucro para escolas da da Nova Zelândia

Para as escolas públicas da Nova Zelândia, que cobram dos estudantes estrangeiros uma taxa anual de US$8.700, os sul-coreanos oferecem uma importante fonte de lucro. Os benefícios econômicos têm ajudado a contrabalançar o ressentimento em direção ao influxo asiático que refez muitas escolas em Auckland, a maior cidade do país, emprestando um caráter asiático ao distrito empresarial e aumentando alguns preços nos bairros mais ricos.

Na escola primária Remuera, Kim disse acreditar que a fluência em Inglês aumentaria as chances de seu filho conseguir admissão em escolas secundárias selecionadas na Coréia do Sul, e finalmente em uma das melhores universidades em Seul. Seu marido, Park Il-ryang, 43, se formou em uma pouco conhecida universidade coreana, e disse que a falta de conexões resultante atrasou sua própria carreira.

Antes de vir para cá, os pais haviam colocado um filho, Jun-sung, agora com 10 anos, em cursos preparatórios e seu outro filho, Jun-woo, agora com 8, em uma pré-escola em Inglês. Os pais que moram em seu prédio de apartamentos falavam sempre a respeito da educação de suas crianças.

Mesmo assim, os filhos não estavam tendo progresso suficiente no inglês, dizem os pais. Eles contrataram um professor particular de Inglês para complementar os cursos complementares. “Não achávamos que os cursos complementares estavam dando resultado, mas estávamos inseguros demais para parar, porque os outros pais continuavam mandando seus filhos,” diz Kim.

Identidade coreana

Em sua casa, recentemente, os filhos olharam pela cortina da sala para ver se seu vizinho, Charles Price, estava livre para brincar. Rapidamente, os garotos estavam indo e vindo, descalços, entre as casas.

Os pais estavam contentes por seus filhos se integrarem bem com a vizinhança e com a escola, agora falando Inglês até mesmo um com o outro. Mas Kim estava preocupada porque seu filho mais novo estava fazendo erros impressionantemente simples em seu coreano falado e poderia não formar uma “identidade coreana” sólida.

Atingir o equilíbrio certo seria crítico para a volta dos irmãos à Coréia do Sul, com sua cruel competição para entrar nas melhores escolas.

O crescente status social e poder econômico das mulheres sul-coreanas estimulou a migração dos gansos-selvagens, de acordo com especialistas em educação como Oh Ook-whan, um professor da Universidade Ehwa para Mulheres que estudou as famílias separadas. Os conservadores criticam as mães gansos-selvagens por serem obcecadas pela educação de suas crianças sob o risco de destruir seus casamentos. A intenção real das mulheres, dizem eles, seria ficar o mais longe possível de suas sogras.

Mãe de Mencius

As mães dizem ser as sucessoras modernas de uma das mais famosas mães da Ásia Oriental: a mãe de Mencius, o filósofo chinês confuciano do século IV. Em uma história conhecida na Coréia do Sul, assim como na China e no Japão, a mãe de Mencius se mudou para três vizinhanças antes de encontrar o ambiente mais favorável à educação de seu filho.

“Não sei por que a mãe de Mencius é tão reverenciada e nós, as mães gansos-selvagens, somos tão criticadas,” diz Chang Soo-jin, 37, que se mudou para cá com duas crianças há quase dois anos. “Nossa vinda para cá significa exatamente o que ela fez.”

Aqui, o inglês de sua filha de 6 anos, Amy, melhorou tanto que agora ela têm as habilidades de leitura de uma criança de 8 anos, diz seu professor em Sunderland, uma pequena escola particular, cujos 16 estudantes estrangeiros vieram todos da Coréia do Sul.

Separação da família

Ainda assim, o pai de Amy, Kevin Park, 41, não estava totalmente convencido de que os benefícios compensavam a separação da família. Ele concordou relutantemente com a decisão de sua esposa de vir para cá com as crianças, e de estender sua estada por duas vezes.

Depois que a família deixou Seul, Park, um engenheiro, se mudou para o que os sul-coreanos chamam de “officetel,” um prédio com pequenas unidades que podem ser usadas como apartamentos ou escritórios. Depois de escutar sobre pais gansos-selvagens se tornando dissolutos vivendo sozinhos, ele parou de beber em casa.

“Estou sozinho, sinto falta da minha família,” disse Park terrivelmente em uma entrevista em Seul. “Famílias deveriam viver juntas.”

Viver separado por anos causa tensões em casamentos e mina o papel de um pai, tradicionalmente o centro da família na cultura confuciana da Coréia do Sul, dizem especialistas em educação e psicólogos. Algumas esposas têm casos extraconjugais; alguns casamentos terminam em divórcio.

“Mesmo havendo problemas, alguns casais optam por ignorá-los pelo bem da educação de suas crianças,” diz Choi Yang-suk, um psicólogo de Yonsei que estudou famílias gansos-selvagens nos Estados Unidos e no Canadá.

Fonte: G1

O mito coreano

Vladimir Safatle: O mito coreano

Virou lugar-comum usar a Coreia do Sul como modelo de desenvolvimento educacional. Quando o assunto é educação, sempre há alguém a louvar o pretenso sucesso das políticas coreanas e a se perguntar, indignado, por que o Brasil é incapaz de seguir os passos daquele país.

No fundo, a comparação serve para mostrar o que certos setores da sociedade civil entendem por ‘educação’.

Longe de terem visão inovadora, como propagam, tais setores apenas buscam fornecer nova roupagem a velhos dogmas da educação nacional.

No começo da formação efetiva do Estado nacional brasileiro, nos anos 30, um dos eixos das discussões educacionais girava em torno da necessidade de políticas maciças de ‘formação para o trabalho’.

Partia-se da ideia de que o país deveria ter uma grande base de formação técnica especializada para fornecer mão de obra qualificada e prometer sólida empregabilidade a classes desfavorecidas. Por outro lado, bolsões de formação ‘humanista’ seriam criados para uma elite que teria como função a reprodução de si mesma. Este sistema de duas velocidades era abertamente defendido pela intelectualidade que ocupava a imprensa, como Monteiro Lobato e Anísio Teixeira, entre outros.

Mas tais bolsões acabaram por produzir o pensamento crítico que iria, em larga medida, desconstruir a visão que as elites tinham do país, assim como mostrar sua incapacidade de construir um projeto nacional inclusivo. Esta formação não servia para os propósitos iniciais. Melhor seria mandar os filhos abastados estudarem economia financeira no exterior.

Sobrou martelar a ideia de que o Brasil deve reconstruir seu modelo privilegiando a antiga ‘formação para o trabalho’, proliferando escolas técnicas e reduzindo o espectro de suas pesquisas universitárias aos interesses imediatos dos grupos econômicos hegemônicos. Neste contexto, aparece o mito coreano como promessa redentora.

De fato, para alguns, seria ótimo imitar o modelo de um país que, no fundo, nem sequer conhece o que é pesquisa em ciências humanas e não tem sequer uma universidade como polo real de influência em várias áreas do saber. Pois tais pessoas não acreditam que ‘educação’ seja o nome que damos para um processo de formação do pensamento crítico, de desenvolvimento da criatividade e da força de mudança, de consolidação da capacidade de se indignar moralmente, de refletir sobre a vida social e de compreender reflexivamente as múltiplas tradições que nos geraram.

Para elas, ‘educação’ é só o nome que damos ao processo de formação de mão de obra para empregos precários e mal pagos. Mesmo do ponto de vista do desenvolvimento social, tal escolha é catastrófica.

Fonte: Folha de São Paulo

***

Veja outro texto do Vladimir., em dialogo com o passado. vejam, neste ele reconhece qualidades no ensino sul coreano.

Problemas de educação

Escrevi, na semana passada, um artigo a respeito da maneira com que a experiência educacional implantada na Coreia do Sul virou referência nos debates educacionais brasileiros, principalmente por aqueles que compreendem “educação” como “formação de mão de obra qualificada”.

Houve incompreensão a respeito de alguns aspectos.

Na verdade, não se trata de simplesmente desqualificar todo e qualquer ensino técnico, mas de recusar a tentativa de restringir o debate educacional ao paradigma “formação para o trabalho”.

Esta tendência tem raízes profundas na história da educação brasileira, não é nova. A novidade é que ela vem associada, muitas vezes, a um certo anti-intelectualismo que visa levar a opinião pública a crer que as pesquisas, principalmente as da área de ciência humanas, de nada servem para o país, a não ser para criar “ideologia esquerdista”.

Seria o caso de lembrar duas coisas. Primeiro, se há algo que impulsionou a educação coreana é um trinômio no qual insiste todo conhecedor da educação brasileira há décadas. Ele consiste em: valorização da carreira de professor (um professor coreano de educação fundamental ganha, em média, U$ 4.000), criação de uma rede extensa de escolas integrais públicas e consolidação de um currículo mínimo nacional a ser implementado em todas as escolas.

Implementação que deve ser objeto de inspetoria geral capaz de avaliar aulas, processos e estrutura física das escolas. Ou seja, ninguém precisou esperar o mito coreano para descobrir o que nos falta.

Segundo, foi esta “ideologia esquerdista” que construiu boa parte dos esquemas compreensivos fundamentais para o país conseguir pensar a si mesmo.

Pergunte-se o que seria da definição de nossos reais problemas e potencialidades se nossa universidade não tivesse produzido as pesquisas de Sérgio Buarque de Holanda, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, entre tantos outros.

Por fim, ninguém discute que uma das bases dos processos educacionais é o desenvolvimento da capacidade de resolver problemas e de intervir em situações práticas.

Daí a acreditar que devemos transformar os anúncios de empregos mal pagos dos departamentos de recursos humanos das grandes empresas em guia para o desenvolvimento de nossa formação educacional e de nossas pesquisas há um passo inaceitável.

Na antiga Alemanha Oriental, o governo definia, de antemão, a carreira de seus cidadãos a partir das necessidades da economia. Ao que parece, há gente neste país que, no fundo, não crê que algo parecido seja uma má ideia. Não deixa de ser cômico encontrá-los do outro lado do “espectro ideológico”.

Fonte: Folha de São Paulo

Cuba: Mudanças e mais democracia

Cuba: Mudanças e mais democracia

Por Angel Guerra Cabrera

O processo nacional de debate convocado em Cuba para o período entre 01 de dezembro de 2010 e 28 de fevereiro de 2011 é verdadeiramente o início do VI Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC), continuidade de um parlamento operário, camponês, estudantil e popular a que a Revolução tem acudido muitas vezes desde sua chegada ao poder. O documento apresentado à discussão pública é o “Projeto de Diretrizes da política econômica e social”(www.cubadebate.cu), elaborado pela Comissão de Política Econômica do Congresso, do qual constituirá o tema principal e o propósito ao debatê-lo com a sociedade civil organizada é assegurar que de suas propostas saia o documento definitivo que haverá de submeter-se à consideração do máximo órgão de direção do PCC, a celebrar-se em abril de 2011. O projeto foi posto faz dias a disposição da população quando o partido celebrou um seminário nacional para preparar os quadros e especialistas desse nível que terão a responsabilidade de organizar o debate nas províncias.

Em uma de suas intervenções no seminário, que durou quatro dias, o segundo secretario do PCC Raúl Castro  orientou: não se trata de convencer sobre o que está escrito no projeto e sim explicar os assuntos e recolher meticulosamente as opiniões porque  neste processo o que vai  decidir é o povo(grifo meu). Antes havia expressado que a persidade é fundamental e que a vida se enriquece com as pergências, o que teme que ser una máxima dentro do partido. Ideia que reitera com freqüência. Para ele -sublinhou- a participação massiva é fundamental para o êxito do Congresso e enfatizou que as idéias de Fidel estão em cada uma das diretrizes propostas.

Querem um exemplo maior de democracia direta e participativa, claramente socialista? Os dois principais dirigentes da única revolução que tem lutado pelo ideal e as realizações socialistas mais de cinqüenta anos ante o embate implacável do imperialismo yanqui submetem a escrutínio popular as propostas do partido, em cuja elaboração tem tomado parte pessoalmente. Uma cuidadosa leitura do documento nos põe ante a perspectiva de una imperiosa e incontornável renovação radical do sistema de direção econômica, os mecanismos de redistribuição social e os critérios de emprego da força de trabalho porém sem ceder um milímetro na propriedade social sobre os meios fundamentais de produção nem na soberania nacional sobre os recursos econômicos e naturais.

Só que agora uma parte importante da propriedade social não seria estatal e sim cooperativa, na agricultura, nos serviços e noutras atividades, e tanto as cooperativas como as empresas estatais e os governos municipais passariam a dispor de crescentes prerrogativas, faculdades e recursos que fortaleceriam extraordinariamente a democracia participativa, a função do Estado na planificação socialista e as armas para lutar contra o burocratismo. Um emergente sector privado, devidamente regulado, passaria a assumir tarefas que o Estado nunca conseguiu cumprir a contento. Os dirigentes cubanos não usam o termo “reforma”, preferindo o de “atualização do modelo econômico” posto que não se trata de mudar em substancia, o socialismo, mas sim de dar um grande salto em seu aperfeiçoamento, na consecução de seus objetivos e no passo a uma etapa superior do desenvolvimento econômico realizando as mudanças que sejam necessárias, retificando erros e modificando regras que em determinado  momento podem ter sido indispensáveis porém hoje constituem travas à construção socialista. Trata-se também de elevar a competitividade e o nível de vida do país nas hostis e imprevisíveis condições na crise mais catastrófica da historia do capitalismo sem deixar ninguém desamparado pois as redes sociais se encarregarão de evitá-lo.

O processo de discussão atual não é novo e seus antecedentes tem sido decisivos para chegar a estas datas com a formação de uma base de consenso popular. Se iniciou com o debate nacional sobre o discurso de Raúl em Camagüey no 26 de julho de 2007 quando expressou a necessidade de introduzir mudanças estruturais e de conceito na economia cubana – y evocando Fidel “mudar tudo o que haja para ser mudado” para, o que chamou a abrir uma discussão pública que leva já três anos em curso e tem fomentado outro ciclo de parlamentarismo de rua cujo ponto culminante será justamente o VI Congresso do Partido.

 

Angel Guerra Cabrera é jornalista cubano residente no México e colunista do diário A Jornada.

Declaração do Comitê Central do Partido Comunista da Índia (maoista

Declaração do Comitê Central do Partido Comunista da Índia (maoista

Comitê Central do Partido Comunista da Índia (maoista)

Comunicado à imprensa

24 de dezembro de 2010

Servir ao povo não é conspirar!

Apoiar a luta do povo nunca pode ser sedição!!

Os caloteiros que acumulam fortunas de bilhões de rúpias são os autênticos conspiradores!!

Os gângsters que estão vendendo nosso país aos imperialistas são os autênticos traidores!!

Participar dos protestos organizados de 2 a 8 de janeiro de 2011 contra as sentenças do tribunal do governo fascista de Chhattisgarh que condenaram o ativista pro-direitos civis Dr. Binayak Sen, o dirigente maoísta Narayana Sanyal e o comerciante Piyush Guha a prisão perpétua, acusados de sedição, e o redator de imprensa Asit Sengupta a oito anos de cárcere!

Em 24 de dezembro o tribunal do distrito de Raipur condenou a prisão perpétua o ativista pro-direitos civis, Dr Binayak sem, o membro do Birô Político de nosso Partido, camarada Narayan Sanyal e o comerciante Piush Guha, aplicando do Código Penal indiano, a Lei Especial de Ordem Pública de Chhattisgrarh e a Lei para Prevenção de Atividades Ilegais (IPC, CSPCA e UAPA, respectivamente em suas siglas em inglês), implicando-lhes em causas falsas. As prisões perpétuas foram ditadas por B.P. Verna em aplicação das seções 124 do IPC (sedição) e 120B (conspiração). As condenações foram ditadas também pela aplicação de diversas seções da CSPCA e UAPA. O encarceramento de oito anos imposto a Asit Sengupta foi ditado no mesmo dia por O.P. Gupta. Ambos juízos são os últimos aportes ao enorme arsenal de medidas repressivas, antipopulares e fascistas das classes dominantes indianas.

Condenar a prisão perpétua o membro do Birô Político de nosso Partido, camarada Narayan Sanual, a Binayak Sen, médico que dedicou sua vida, como médico, a servir desinteressadamente ao povo pobre, além do proeminente ativista pró-direitos civis e vice-presidente da União Popular pelas Liberdades Civís (PUCL, sigla em inglês) e a Piyush Guha, comerciante de Kolkata, é o mais vergonhoso que podiam fazer estes governantes por muito que alardeiem que esta é a maior democracia do mundo. Opor-se às políticas repressivas do governo, aos fascistas Salwa Judum (paramilitares organizados pelas classes dominantes indianas), levantar a voz em defesa da revogação da sinistra CSPSA e apoiar as justas iniciativas do povo são “os delitos” cometidos pelo Dr. Binayak Sen em virtude dos quais foi castigado com a prisão perpétua. Quando foi detido em maio de 2007 e encarcerado durante dois anos, se organizaram imensos protestos e fizeram públicas duras condenações por parte de setores democráticos, a comunidade médica, ganhadores do Prêmio Nobel e muitas outras pessoas da Índia e do exterior. Pronunciar esta sentença, que passa por cima de tudo isto, só pode significar que os fascistas que governam carecem de escrúpulos ou de vergonha ao lançar uma ameaça a todos os setores democráticos, progressistas e patrióticos de nosso país. Se responder positivamente às demandas do povo, de maneira legal e democrática, se servir ao povo sinceramente e criticar as políticas antipopulares do governo é “sedição”, então alguém não pode imaginar que tipo de “democracia” se pratica neste país e quanto perigosa é para o povo.

A condenação a oito anos de cárcere ditada contra Asit Sengupta, redator da versão em hindi de “Um Mundo a Ganhar”, que é publicado em várias línguas de todo o mundo, que se consome no cárcere há três anos sob a falsa acusação de participação em atividades maoístas, não é mais que asfixiar a liberdade de imprensa. Recentemente, os bandidos Raman Singh, Primeiro Ministro de Chhattisgarh, Viswaranjan, Diretor Geral de Polícia, Longkumer, Inspetor Geral de Bastar, e Kalluri, Superintendente de Polícia de Dantewada, publicaram folhetos com o nome “Maa Danteswari Adivasi Swabhimani Manch” e declararam abertamente que matariam os jornalistas SRK Pllai, Anil Sharma e Yaswat Rai junto com os democratas Himanshu Kumar e Arundhati Roy, E tiveram o atrevimento de declarar que, de fato, é obra sua.

Este é o “Estado de direito” com que nos esmagam dia após dia nossos governantes!

O Camarada Narayan Sanyal, um veterano comunista de 73 anos, que começou sua vida revolucionária em 1968 e dedicou mais de quatro decênios de sua vida a libertação dos oprimidos, está enfermo, com vários problemas de saúde e se consome nos tenebrosos calabouços do governo fascista de Chhattisgarh já há cinco anos. O bando terrorista de Sonia-Manmohan-Chidambaran-Raman Sigh assassina dirigentes maoístas em falsos enfrentamentos e condena muitos deles a duríssimos castigos em aplicação de leis sinistras. Estão submetidos a tortura física e psicológica nas condições inumanas que imperam no cárcere.

Em julho de 2010, o militante de nosso Partido, camarada Malati Santi Priya e o operário Surenda Kosaria foram condenados a dez anos de cárcere, acusados de enviar cds de propaganda maoísta a membros da Assembleia Legislativa. A sentença se baseou nas declarações de testemunhas falsas. Amitabh Bagchi, membro do Birô Político de nosso Partido, e o camarada Kartik, membro do comitê estadual de Bengala Ocidental, encarcerados na prisão Ranchi, também foram condenados a prisão perpétua em um julgamento rápido em Panduranga Rddy, e outras três pessoas a uma pena de quatro anos de cárcere pelo caso Alipiri (atentado contra o ex-Primeiro Ministro Candrababu), baseando-se em declarações de falsas testemunhas. Muitos outros militantes revolucionários e gente do povo pobre estão sendo condenados a penas duríssimas, incluindo-se a pena de morte pelos tribunais reacionários a serviço das classes dominantes e exploradoras. Os camaradas Sushil Roy e Kobad Gandhi, veteranos dirigentes, padecem por diversos problemas de saúde e dos próprios derivados de sua idade, aos camaradas Shobha, Patitpavam Haldar, Pramod Mishra, Vijay, Asoutsh, Balaraj, Chitan, Biman, Bidhan, Chandi Sarkar, Balganesh e Jeetan Marandi de Abhen Jharkhand e a milhares de outros camaradas é negada a possibilidade de liberdade sob fiança ao implicar-lhes, uma atrás da outra, em acusações falsas os obrigando a consumir-se nos cárceres durante anos e anos. Em Bengala Ocidental, ao camarada Swapan Das, preso sob o amparo da UAPA, foi negada a assistência médica na prisão, convertendo-o no primeiro mártir desta lei draconiana.

O governo da Aliança Progressista Unida (UPA, sigla em inglês), decidiu vender nossos recursos naturais e humanos ao imperialismo como Vedanta e a burguesia compradora como Tata, Essar, Jindal, Mittal, etc., declarou que o PCI (maoísta) é a maior ameaça à segurança interna, por haver enveredado em um caminho de oferecer uma tenaz resistência a esta pilhagem ilimitada. Como parte deste processo de saque, o governo difunde uma propaganda repugnante e mal intencionada, graças a sua máquina propagandística. Desde agosto de 2009, em nome da Operação Caçada Verde, os governos da União e estaduais recorrem a ataques brutais contra o movimento revolucionário, em especial estão massacrando os adivasis ao lançar milhões de policiais e paramilitares em Chhattisgarh, Orisha, Bihar, Jharkland, Andra Pradesh, Bengala Ocidental e outros estados. Esta ofensiva é levada a cabo sob a direção e pleno apoio dos imperialistas, especialmente os imperialistas ianques. Os governantes exploradores empregam todos os meios a seu alcance para apresentar o nosso Partido (que luta com o nobre objetivo de estabelecer um governo popular das classes democráticas, baseando-se na unidade dos operários e camponeses, uma vez derrotados os imperialistas, a burguesia compradora burocrática e as classes feudais) como “terrorista” e “traidor”. Por que não se ficham sob a acusação de SEDIÇÃO os ministros, os dirigentes políticos e grandes burgueses e seus agentes da bolsa, os autênticos traidores que estão acumulando milhões de rúpias em fraudes e colocando-os em bancos suíços, a todos esses que sem a menor vergonha passeiam pelos cenários do poder? Por que não se chama de CONSPIRADORES a todos esses criminosos que perpetraram e fizeram possível a tragédia do escapamento de gaz de Bhopal? Como pode ser SEDIÇÃO lutar denodadamente pela libertação das massas trabalhadoras? Como se pode chamar de CONSPIRADORES aos democratas que alçaram sua voz e sua pena em apoio aos movimentos populares?

Estas sentenças são apenas uma parte da mais ampla conspiração das classes dirigentes para eliminar todo tipo de barreiras políticas econômicas neoliberais, antipopulares, antipatrióticas e imorais. É um sinal de alarme que indica que a repressão fascista se intensificará ainda mais no futuro próximo. Estes juízos são uma revelação para todos aqueles que creem e quem se engana inocentemente que existe todavia alguma aparência de democracia neste país. Ainda em suas declarações explícitas o bando governante afirma que o movimento maoísta é seu objetivo principal, o que está sucedendo na realidade é um violento ataque fascista às forças progressistas e democráticas que desejam o bem estar do povo e aspiram proteger os interesses do nosso país frente aos imperialistas. Nosso Partido chama o povo a levantar-se unido contra esta ofensiva, para derrotá-la em resoluta luta.

Os governos compradores recorrem à eliminação dos movimentos populares e das lutas de libertação nacional mediante o emprego de leis sinistras como a UAPA, a CSPCA, a Lei de Poderes Especiais das Forças Armadas (AFSPA – sigla em inglês) seguindo os passos do governo ianque que promulgou leis sinistras como a Lei de Segurança Nacional (Homeland Security Act – em inglês). O sistema legal reacionário que nunca tomou o desconforto de perseguir ou condenar aos terroristas de extrema direita que assassinaram muitos inocentes nos atentados à bomba da mesquita A Meca de Hyderabed, Malegaon e Ajmer Sarif ou a todos os escroques e gânsters políticos implicados em fraudes como o 2G Espectrum (pelo valor de 10,76 milhões de rúpias), os jogos da Commonwealth, a Sociedade Imobiliária Adarsh, as terras de Karnataka e dezenas e dezenas de fraudes mais, condena com veemência os revolucionários, os dirigentes populares, os democratas e militantes do movimento de libertação da Caxemira e do Nordeste.

O Comitê Central do PCI (Maoísta) faz um chamamento a todas as forças democráticas e patrióticas, aos militantes das lutas de libertação nacional e a todos os ativistas pró-direitos civis, organizações, estudantes, intelectuais, professores, escritores, artistas, doutores, advogados, amigos dos meios de imprensa, operários e camponeses para que saiam às ruas para condenar e opor-se a estas sentenças ditadas em virtude do sistema legal reacionário pelo conluio do governo da UPA, da União e do governo do Bharatiya Janata Party (Partido do Povo Indiano- BJP- sigla em inglês) de Chhattisgarh. Chamamos a todos a organizar protestos unidos e militantes exigindo a revogação imediata da UAPA, da CSPCA, da MOCCA e da AFSPA. Fazemos um chamamento a todas as organizações, coletivos e pessoas progressistas, democratas e revolucionários de distintos países para que condenem com dureza este ato criminal das classes dirigentes indianas e expressem seu veemente protesto através dos diversos meios democráticos de luta. No passado a comunidade internacional se alçou com toda sua poderosa solidariedade do lado dos movimentos populares indianos, condenou a detenção de Binayak Sen – e exigiu sua libertação imediata. Agora chegou o momento de desempenhar este papel com maior firmeza.

Nosso Partido chama o povo a protestar contra estas condenações e de norte a sul, de leste a oeste de todo o país durante a semana de 2 à 8 de janeiro, participando criativamente em diversas atividades de rechaço como entrevistas coletivas, declarações dharnas (sentadas em hindi), rasta rokos (bloqueios de rodovias em hindi), encontros, reuniões de protesto, passeatas, campanhas de recolhimento de assinaturas, vestindo roupas com insígnias negras, desfraldando bandeiras negras, queimando efígies etc. E tomar parte nas batalhas legais de condenação inequívoca das políticas antipopulares, traidoras e fascistas das classes dirigentes.

Nosso Partido faz um chamamento a todos os membros de nossas fileiras, às forças do EGPL e às organizações de massas revolucionárias para que adotem diversas formas de protestos nesta ocasião mediante mobilização de amplas massas.

Nosso Comitê Central deixa bem claro que não há um chamamento ao bandh (greve) como parte desta semana de protestos e solicita ao povo e aos meios que não caiam na propaganda deliberada da polícia que pretendia fazer passar estes protestos como um chamamento ao bandh.

(Abhay) porta-voz,

Comitê Central do PCI (Maoista).

Fonte: Jornal A nova democracia

Hino do Partido URSS

90 anos de Partido Comunista Argentino

Festa do Partido Comunista Argentino

Lutas e Heróis do Povo : A Comuna de Paris

Em 28 de Março de 1871, na Praça do Município em Paris, foi proclamada a Comuna de Paris, uma das páginas mais gloriosas da história mundial.

Primeira revolução comunista da história e primeira experiência de um governo revolucionário da classe operária, a Comuna durou 72 dias: de 18 de Março a 28 de Maio de 1871.

“Lançaram-se ao assalto do céu”, foi a imagem encontrada por Marx para referir-se a esse feito audacioso.

 

OS DIAS DA COMUNA

Bertold Brecht

Comuna de Paris

Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram

Suas leis, para nos escravizarem.

As leis não mais serão respeitadas

Comuna de Paris

Considerando que não queremos mais ser escravos.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e com canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria do que a morte.

Comuna de Paris

Consideramos que ficaremos famintos

Se suportarmos que continuem nos roubando

Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças

Que nos separam deste bom pão que nos falta.

Comuna de Paris

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e canhões

Nós decidimos, de agora em diante

Temeremos mais a miséria que a morte.

Comuna de Paris

Considerando que existem grandes mansões

Enquanto os senhores nos deixam sem teto

Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos

Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar.

Comuna de Paris

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e canhões

Nós decidimos, de agora em diante

Temeremos mais a miséria do que a morte.

Comuna de Paris

Considerando que está sobrando carvão

Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão

Nós decidimos que vamos toma-lo

Comuna de Paris

Considerando que ele nos aquecerá

Comuna de Paris

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e canhões

Nós decidimos, de agora em diante

Temeremos mais a miséria do que a morte.

Comuna de Paris

Considerando que para os senhores não é possível

Nos pagarem um salário justo

Tomaremos nós mesmos as fábricas

Comuna de Paris

Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós.

Considerando que os senhores nos ameaçam

Com fuzis e canhões

Nós decidimos: de agora em diante

Temeremos mais a miséria que a morte.

Comuna de Paris

 

Considerando que o que o governo nos promete

Está muito longe de nos inspirar confiança

Nós decidimos tomar o poder

Para podermos levar uma vida melhor.

Comuna de Paris

Considerando: vocês escutam os canhões

Outra linguagem não conseguem compreender

Deveremos então, sim, isso valerá a pena

Apontar os canhões contra os senhores!

(Do texto Os Dias da Comuna de Bertold Brecht)

Tradução de Fernando Peixoto

“A obra da Comuna não morreu; ela continua hoje viva em cada um de nós. A causa da Comuna é causa da revolução social, é a causa da completa emancipação política e econômica dos trabalhadores, é a causa do proletariado mundial. E neste sentido é imortal”.

V. I. Lênin

 

Fonte: Partido Comunista Revolucionário

140 anos da Comuna de Paris

Os números de 2010

Os duendes das estatísticas do WordPress.com analisaram o desempenho deste blog em 2010 e apresentam-lhe aqui um resumo de alto nível da saúde do seu blog:

Healthy blog!

O Blog-Health-o-Meter™ indica: Minty-Fresh™.

Números apetitosos

Imagem de destaque

Um Boeing 747-400 transporta 416 passageiros. Este blog foi visitado cerca de 1,600 vezes em 2010. Ou seja, cerca de 4 747s cheios.

 

Em 2010, escreveu 307 novo artigo, aumentando o arquivo total do seu blog para 399 artigos. Fez upload de 11 imagens, ocupando um total de 485kb. Isso equivale a cerca de uma imagem por mês.

O seu dia mais activo do ano foi 22 de novembro com 40 visitas. O artigo mais popular desse dia foi Contato.

De onde vieram?

Os sites que mais tráfego lhe enviaram em 2010 foram twitter.com, google.com.br, mail.live.com, pt-br.wordpress.com e uislan.blogspot.com

Alguns visitantes vieram dos motores de busca, sobretudo por sexo e temperamento, margaret mead sexo e temperamento, yago euzébio bueno de paiva junior, sexo e temperamento margaret mead e sociologia da juventude

Atracções em 2010

Estes são os artigos e páginas mais visitados em 2010.

1

Contato outubro, 2010

2

Introdução à Antropologia da Saúde outubro, 2010

3

Discriminação racial – 2003 outubro, 2010

4

Participação Social e Juventude outubro, 2010

Michael Löwy de volta a Fortaleza com o projeto: Tópicos Utópicos outubro, 2010
1 “Like” no WordPress.com,

Los desafíos de Dilma y el Brasil post-Lula. ¿Continuidad en el cambio?

Análisis de coyuntura Actualidad por académicos

 

El pasado 31 de octubre Brasil se decidió finalmente y en una segunda vuelta que muchos (erróneamente) suponían reñida, terminó imponiéndose la candidata del oficialista Partido de los Trabajdores (PT), Dilma Rousseff, sobre el socialdemócrata José Serra (PSDB). Brasil, entonces, logró dar el difícil paso de elegir quien suceda a Luiz Inácio Lula da Silva luego de 8 años de una década de estabilidad política, crecimiento sostenido y reducción de las desigualdades. Un verdadero desafío para Dilma, la “Dama de Hierro” de la política brasilera, en tiempos en los que Brasil está en boca de todos.

 

Sin embargo, si Dilma desea pasar los cuatro años que dure su mandato sin mayores sobresaltos, con apoyo popular suficiente y todavía “en boca de todos”, entonces deberá aprender a interactuar dentro del sistema político brasilero de manera prudente y paciente.

 

Los partidos políticos: un mal necesario

 

Primero, porque los partidos políticos brasileros son, mayormente, máquinas electorales que se activan en cada elección (ya sea local, regional y/o nacional), con escasa estructura organizativa y un bajo nivel de cohesión interna (Alcántara Sáez y Freidenberg, 2003; Alcántara Sáez, 2004). Las campañas electorales suelen están centradas, principalmente, en el candidato y no en el partido.

 

Los diputados y senadores electos, entonces, no tienen que rendir cuentas ni responder a una estructura fuerte y cohesionada. Esta situación repercute negativamente en la disciplina partidaria que tienen los legisladores y en el apoyo o rechazo al gobierno de turno. Los diputados y senadores suelen guiar su voto a favor o en contra de una determinada medida de acuerdo a criterios individuales y estrictamente personales antes que partidarios.

 

Claro que un bajo nivel de indisciplina legislativa no significa que cada uno de los 513 diputados, por ejemplo, funcionen en monobloques individuales. Hay agrupamientos de diputados en bloques legislativos con un cierto grado de coordinación. El problema es el “transfuguismo” y los pases de bloque.

 

Por eso, Dilma deberá repetir la estrategia política que bien le sirvió a Lula: las coaliciones sobredimensionadas. Para entender esta dinámica política debemos considerar dos aspectos.

 

Primero, los legisladores que apoyan al Gobierno del PT en el Congreso Nacional. Los dos últimos gobiernos del PT tuvieron la fortuna de contar con el apoyo de una cantidad de legisladores mayor al mínimo necesario para aprobar leyes (mayor al 50%). Por ejemplo, el segundo mandato de Lula contó con el apoyo del 69,5% de la Cámara de Diputados; esto es, 358 diputados aproximadamente.

 

Una coalición legislativa tan numerosa y “sobredimensionada” puede explicarse gracias a la alta popularidad con la que contó Lula durante sus mandatos, y el crecimiento constante y continuo de la economía brasilera. Por simple supervivencia política y cálculo racional, los legisladores no se hubieran animado jamás a romper su alineamiento con el gobierno y prefirieron así mantenerse afines al PT.

 

Claro que Dilma no tiene el carisma de Lula y tampoco se sabe si a la economía de Brasil le irá tan bien en los próximos 4 años como le fue en los últimos 8. Pero sí puede sonreír al ver las primeras estimaciones, las cuales resultan muy favorables a su futuro gobierno. Los partidos que en años anteriores apoyaron a Lula tendrán 52 de 81 miembros en el Senado (62,4%) y 402 diputados sobre 513 (78%). Esto le permitirá a Dilma, en caso de mantener esos apoyos, aprobar enmiendas constitucionales sin mayores dolores de cabeza.

 

Otro aspecto tiene Dilma a su favor. Las elecciones presidenciales fueron concurrentes con los comicios estatales donde se renovaron las primeras magistraturas de los 26 estados federados de Brasil. De esa cantidad, 16 serán aliados de Dilma: 5 del PT, 5 del PMDB y 6 del Partido Socialista Brasilero (PSB). La alegría hubiera sido completa si los candidatos de Dilma hubieran ganado en Sao Pablo y Minas Gerais (los dos mayores colegios electorales del país), los cuales quedarán en manos del PSDB por los próximos 4 años.

 

Independientemente de ello, es motivo de festejo para el PT poder contar con una amplia red de gobernadores que contribuyan en la gestión de gobierno, garantizando estabilidad en el sistema político y alineando a diputados y senadores en el Congreso Nacional.

 

La tradición del Presidencialismo de coalición

 

El segundo aspecto de las coaliciones sobredimensionadas a tener en cuenta es la cantidad de ministerios que le toca a cada partido miembro de la misma en virtud de la cantidad de legisladores que tiene cada uno. Y de nuevo Dilma deberá seguir los pasos de su antecesor, pero apelando más todavía a su fama de tenaz y eficiente administradora.

 

Lula se caracterizó por incluir una gran cantidad de partidos políticos en su gabinete (10 durante su segundo mandato) pero sin respetar una equitativa distribución de las carteras ministeriales. Por ejemplo, mientras que el PT tenía 23 ministerios (56%), el Partido del Movimiento Democrático Brasilero (PMDB, de centro), su principal aliado, únicamente 8 (19,5%). Recordemos que durante ese mismo período el PT contó con una bancada de 80 diputados (el 22,3% de los diputados de la coalición legislativa) y el PMDB con 92 (26%).

 

Ahora la realidad mutará un poco. El PT será el partido con mayor cantidad de diputados (88) en la Cámara Baja, pero será el segundo en el Senado (15 bancas). El PMDB tendrá 79 diputados y 20 senadores, lo que convertirá al partido de centro en un verdadero poder de veto: su apoyo en el Congreso Nacional resultará clave.

 

De ahí que los cálculos racionales, los deseos de cada uno y las perspectivas futuras de los distintos partidos políticos pesarán sobre la mesa de negociaciones. Habrá que ver si el PMDB, los socios mayoritarios del PT, tolerarán otros cuatro años con un segundo lugar en el Gabinete contando con mayoría en el Senado y con un peso considerable en la Cámara de Diputados.

 

¿Por qué esto no es un dato menor? Por dos razones. Primero, porque los partidos políticos brasileros son, mayormente, office-seekers, es decir, que tienen como principal motivación conseguir cargos públicos y no solamente participar en contiendas electorales (Pasquino, 2004). Segundo, por lo dicho anteriormente sobre la “indisciplina” en el Congreso Nacional. Cualquier disgusto con la distribución de cargos públicos puede implicar una pérdida de apoyo en los socios de gobierno.

 

Sin embargo, el PMDB tiene un incentivo extra para mantenerse en la coalición de gobierno. El cargo de Vicepresidente cayó en manos de Michel Temer, líder del partido, con lo cual la defección pagará más cara para ellos. Será una garantía de estabilidad y gobernabilidad para Dilma y el PT contar con un partido de centro, fuerte, medianamente organizado y con un gran peso legislativo como es el PMDB.

 

Independientemente de estas particularidades, no toda la política en Brasil se concentra en los acuerdos y negociaciones entre partidos políticos. Una pregunta que se hace la prensa a diario y que muchos analistas políticos se han atrevido a responder es: ¿qué hará Lula los próximos 4 años? ¿Qué rol jugará un dirigente que estuvo políticamente involucrado desde la transición a la democracia a principios de los ‘80?

 

Si fue “raro” sentir que eran las primeras elecciones presidenciales en la historia de Brasil en donde el candidato del PT no era Lula, todavía más “raro” será pensar al líder y referente de ese partido fuera del seno donde se toman las decisiones. Sin embargo, la salud del futuro gobierno de Dilma exige que mantenga cierta distancia. Sobre todo porque a los ojos de la opinión pública no suele ser muy aceptado que los ex-presidentes, por más populares y queridos que sean, hagan, deshagan y decidan en las sombras.

 

Misma Dilma ha dado señales de que buscará e intentará (de nuevo haciendo gala de su fama de eficiente administradora) un perfil propio tanto en la conformación de su equipo de gobierno como en la forma de tomar las decisiones. Un rol de consejero y asesor con experiencia sí podría ser aprovechado por “la Dama de Hierro”, particularmente porque la imagen que ella irradia no es la de un político que se comunica y conecta con la población. Ahí Lula sí puede ayudar bastante.

 

Otro rol que podría depararle al futuro ex-presidente puede ser el del trabajo netamente partidario. Si las especulaciones son acertadas, el 2014 podría ver el retorno de Lula al Poder Ejecutivo y muy bien le vendría un PT más fortalecido, mejor organizado, con una cúpula dirigencial renovada y sin fuertes tensiones entre las distintas facciones que lo componen.

Estas mejoras internas ayudarán, además, a la gestión gubernamental de Dilma durante los próximos 4 años. No olvidemos que durante ambos mandatos Lula tuvo que balancear mucho entre las presiones del ala más izquierdista del PT y las posiciones de centro de sus distintos socios políticos.

 

Si bien el panorama del “nuevo” gobierno del PT puede ser sombrío, la realidad puede demostrar lo contrario. A pesar de que las particularidades del sistema político brasilero antes descriptas pueden resultar en un freno o impedimento a la gobernabilidad en otros países, en Brasil son moneda corriente. Los políticos, los partidos y, sobre todo, la ciudadanía se han acostumbrado a ese estilo de política.

 

Y Dilma Rousseff aparenta ser la indicada para gestionar el gobierno de manera correcta, eficiente y sin sobresaltos. Aunque la falta de olfato y tacto político puede jugarle en contra, el conocimiento que tiene de la administración pública y las cualidades personales desarrolladas en sus años de gestión le permitirán aprovechar las ventajas que el sistema político le ofrece y disfrutar de la mayoría oficialista en el Congreso Nacional.

 

Lo únicos problemas que puede llegar a tener provendrían, en todo caso, de la economía. Si no se resiste a la tentación de gastar los excedentes fiscales en lugar de mantener el equilibrio macroeconómico que le garantizó al país la estabilidad que no tuvo en los ’90, entonces la tranquilidad puede tornarse en nerviosismo y ansiedad. Si a eso le agregamos un calendario electoral con comicios municipales en 2012 y presidenciales en 2014, el cocktail se podría volver peligroso: los legisladores seguirían su propio cálculo racional.

 

Pero para eso faltan 4 años. Por ahora el sistema político le sonríe a Dilma. Y puede aprovecharlo.

 

 

Bibliografía

Alcántara Sáez, Manuel (2004). ¿Instituciones o máquinas ideológicas? Origen, programa y organización de los partidos latinoamericanos. Institut de Ciències Politiques i Socials, Barcelona.
Alcántara Sáez, Manuel y Freidenberg, Flavia (coord.) (2003). Partidos políticos de América Latina. Cono Sur. Fondo de Cultura Económico e Instituto Federal Electoral, México DF.
Mainwaring, Scott y Scully, Timothy (1995) Building democratic institutions: Party systems in Latin America. Stanford University Press, Stanford.
Pasquino, Gianfranco (2004). Sistemas políticos comparados. Prometeo Libros y Bononiae Libris, Buenos Aires.

Facundo Cruz es Licenciado en Gobierno y Relaciones Internacionales por la Universidad Argentina de la Empresa (UADE), investigador del Instituto de Ciencias Jurídicas y Sociales (INSOC) de esa casa de estudios y Director Operativo de la Dirección General de Planificación Estratégica de la Jefatura de Gabinete del Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires. Escribe regularmente en http://leviatanasueldo.blogspot.com.

Este artículo fue publicado también en http://www.globalaffairs.es

Fonte: Síte http://www.espaciospoliticos.com.ar

Balanço 2010: Por que a mídia não se autoavalia?

Balanço 2010: Por que a mídia não se autoavalia?

Venicio A. de Lima *
Final de ano é tempo de balanços e previsões. Pessoais e institucionais. É momento de parar e refletir sobre o que se fez, identificar erros e acertos, corrigir o que pode ser melhorado, reavaliar caminhos e objetivos, planejar o futuro.

A grande mídia faz avaliações públicas e previsões de e para tudo: de todos os setores do governo, da iniciativa privada, das ONGs, da política, de todas as artes, esportes, religiões, do clima, das tendências… Por óbvio, a grande mídia faz avaliações e previsões internas, como em todas as empresas privadas comerciais que precisam dar conta a acionistas de metas e resultados.

O que a grande mídia não faz são avaliações públicas de si mesma, de seu próprio desempenho, de sua parcialidade, de seus preconceitos, de suas tendências, de suas omissões, de suas escolhas, de seu papel na democracia. O que a grande mídia omite é a avaliação de si mesma como um serviço que, apesar de explorado pela iniciativa privada, não perde sua natureza de serviço público.

Por que será que a mídia, apesar da indiscutível posição de centralidade que ocupa nas sociedades contemporâneas, não pauta o debate sobre seu papel como faz permanentemente em relação a todas as outras instituições na sociedade?

Adaptação do panem et circenses

A explicação da grande mídia será sempre aquela que atribui ao mercado o papel de seu único e supremo avaliador. A grande mídia dirá que é permanentemente avaliada por seus consumidores/leitores/ouvintes/telespectadores e que seu sucesso ou fracasso comercial significa o cumprimento ou não de sua missão e o atendimento ou não das necessidades de seu “público”. Se o jornal é comprado por X consumidores é porque satisfaz a eles. E essa é a melhor avaliação que pode existir. Essa é uma das versões da conhecida “teoria do controle remoto”: se o consumidor não gosta do que vê, ele pode trocar de canal ou desligar o aparelho de TV.

Como já argumentei em outra oportunidade [ver "Donos da mídia – A falácia dos argumentos"], a “teoria do controle remoto” ignora como se formam, se desenvolvem e se consolidam os hábitos culturais, incluindo aqui o hábito de assistir determinados canais e/ou programas de TV ou de ler determinadas revistas e/ou jornais. Este é um fascinante campo da complexa “sociologia do gosto”. Quando se atribui, sem mais, ao mercado o papel de supremo avaliador, reduz-se toda a problemática da comunicação de massa a uma única dimensão – do “consumo” individual – e ignora-se a complexa questão da formação social do gosto e do papel determinante que a própria mídia nela desempenha.

Além disso, o argumento pressupõe um mercado de mídia democratizado, onde estariam representadas a pluralidade e a diversidade da sociedade, o que, por óbvio, não existe. Ignora ainda o fato elementar de que não se pode gostar ou deixar de gostar daquilo que não se conhece ou cujas chances de se conhecer são extremamente reduzidas.

No fundo, trata-se de uma adaptação contemporânea [sem as problematizações levantadas por historiadores como Renata Garraffoni] do panem et circenses romano. Naturalmente, o sacrifício de cristãos, entregues às feras em espetáculos públicos, não torna a prática dos imperadores romanos correta. Dito de outra forma, nem tudo que agrada a parcela importante da população é automaticamente ético e correto.

Omissão grave

A transparência que a grande mídia corretamente cobra de outras instituições – públicas e privadas –, ela não pratica em relação a si mesma. Permanecemos em 2010 sendo um país democrático onde sequer existe um cadastro geral com acesso público dos concessionários do serviço de radiodifusão.

A transparência pública aplicada aos grupos dominantes da grande mídia certamente revelaria redes de interesses e compromissos – nem sempre legítimos – dos mais variados tipos, locais e globais. No que se refere à radiodifusão, por exemplo, revelaria os absurdos do “coronelismo eletrônico” enraizado em diferentes esferas do poder público; a propriedade cruzada como prática garantidora de oligopólios e monopólios; a exclusão de muitos e a liberdade de poucos apresentada e defendida em nome dos valores universais da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa.

Ainda não será ao final deste ano de 2010 que a grande mídia fará uma avaliação pública de si mesma. Mas, com certeza, esta omissão grave já não passa despercebida para um número cada vez maior de brasileiros.


* é professor de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010 

Fonte: Portal Vemelho

Primeiro de Janeiro é dia de Festa no Mar

Primeiro de Janeiro é dia de Festa no Mar

No Brasil o Ano Novo é recebido não só com as confraternizações familiares, reveillons, shows da virada e queimas de fogos. Há também as imorredouras manifestações folclóricas, de caráter religioso, sempre sincrético, e profano, como são as oferendas a Iemenjá e as procissões ao Nosso Senhor dos Navegantes.

O exemplo mais marcante é a procissão marítima na Baía de Todos os Santos, em Salvador, que termina na Festa de Largo da Boa Viagem, com muita cachaça, rodas de samba e capoeira. O texto a seguir, “Nosso Senhor dos Navegantes”, magnificamente ilustrado por Carybé, é de autoria de um dos maiores cronistas da Bahia, Odorico Tavares, pernambucano de nascimento (Timbaúba, 1912 – Salvador, 1980), baiano por adoção. Foi extraído do livro “Bahia – Imagens da Terra e do Povo”, Editora Civilização Brasileira, 3ª edição, 1961. Odorico foi jornalista, poeta e colecionador de arte.

Nosso Senhor dos Navegantes

Odorico Tavares

Aí está uma festa popular baiana que o tempo não alterou e nem o progresso arrefeceu: a procissão marítima de Nosso Senhor dos Navegantes, na manhã do primeiro dia do ano. Não pode haver espetáculo mais belo do que esse desfile de centenas de barcos, através da Baía de Todos os Santos, acompanhando a galeota do Protetor dos navegantes, saindo do porto, indo até a entrada da barra e regressando à Praia da Boa Viagem, em Montesserrate. Há muitos anos que assistimos a essa procissão,’ jamais o tempo deixou de estar límpido, a luz radiosa tremendo no ar, o azul do céu harmonizando-se com o azul do lago mediterrâneo em que se transforma a grande enseada. É neste cenário que barcos, lanchas, saveiros, jangadas, pequenos navios navegam na mais bela procissão que assistimos. Das muradas da Cidade Alta, do cais, das praias, a população vai ver o cortejo do santo’ protetor dos navegantes. Que nenhum visitante, que esteja na Bahia, no primeiro dia do ano, perca a cena: jamais esquecerá.

À véspera do ano novo, à tarde, a imagem do santo é trazida da igrejinha de Nossa Senhora da Boa Viagem, em Montesserrate. É um pequeno templo onde há excelentes azulejos representando cenas de salvamento em naufrágios; são autênticos, ex-votos, talvez os únicos do Brasil neste gênero. A igrejinha tem uma bela fachada, é do século 17. Dali vem o santo, é trazido até o cais da Alfândega e levado em pequena procissão para a igreja da Conceição da Praia. A imagem da Conceição vem receber o Senhor dos Navegantes que pernoita na suntuosa igreja da Cidade Baixa. Silva Campos acentua que, antigamente, a chegada da imagem do Senhor dos Navegantes se dava à noite e debaixo de grandes folguedos:

“O povoléu desbragava-se em cenas de inominável desrespeito, sob uma capa de falsa devoção.” Não somente no embarque na Praia da Boa Viagem, como, também, no desembarque, no antigo cais de Santa Bárbara. “Fervilhava a multidão fusca. Batuques. Sambas. Rodas de capoeiragem. Ouviam-se pandeiros, cavaquinhos, violas, harmônicas, berimbaus e palmas cadenciadas. Um pandemônío. Vozeio confuso. Ditos e gestos licenciosos. Exclamações neumáticas de ébríos. O álcool desenfreara a massa deseducada, de instintos primitivos. Um odor azedo de cachaça, de bodum, de suor, de frutas sazonadas, entontecia. Era em meio de tal garabulha, prolongada até o dia seguinte, com o sol já alto, que chegava à terra a imagem do Senhor dos Navegantes, cerca de vinte e uma horas, quando a orgia estrondava.”

Hoje, não. A saída da Boa Viagem, como a chegada do Santo, no cais da Alfândega, se processa na maior ordem e com frequência regular, mas sem os excessos de que fala o cronista. Tudo na maior ordem. Recolhida a imagem, no dia seguinte tem lugar então a procissão. Rezada a missa solene na Conceição da Praia, demanda a imagem até o cais da Alfândega, com acompanhamento, inclusive das autoridades. A presença do prefeito da capital já constitui uma praxe. Vai a imagem na sua galeota, construída, em 1891, por carpinteíros que a presentearam ao santo. É que, com a separação da igreja do Estado, não foi mais permitida a imagem ser conduzida em batel pertencente ao governo. E graciosa a galeota, com o seu anjo na proa, toda pintada de branco, orgulhosa de conduzir o guardião de todos os navegantes.

Está no cais, cercada de centenas de embarcações e milhares de pessoas disputam lugares: grupos, batucadas, rodas de sambas formadas, belas morenas conduzindo-me lancias, mangas, cajus, a música popular baiana ali arrebenta num louvor ao Santo. Chegando, a imagem é conduzida para a galeota e esta puxada por uma lancha a motor. Começa a mover-se a procissão, velas brancas, azuis, vermelhas se levantam para o céu e aos poucos o cortejo toma forma e se conduz para os lados da Barra, singrando serenamente o lago em que está transformada a Baía de Todos os Santos. Em cada barco, levantam-se os cânticos, o samba assume o seu maior papel e ninguém sente diminuição ou desrespeito ao Santo, Ele que abriga os navegadores das tempestades, os pescadores das iras de Iemanjá, que, nos dias sinistros, conduz a todos os que foram pegados desprevenidos ao porto de salvação.

Deus deu alegria ao homem para expressar o seu agradecimento pela satisfação de viver. E o povo faz chegar o seu agradecimento a Deus pela sua música, pelas suas canções e pela sua alegria. Vale a pena tomar um saveiro qualquer e acompanhar a procissão, participando destes grupos: ouvir os seus cantos pelo mar a fora e Deus comandando o seu povo, a quem protege e resguarda. São quase onze horas e a procissão já chegou à entrada da Barra, lá fazendo a volta e retomando ao porto para seguir direta, serena e devagar para a Praia da Boa Viagem. Diz Silva Campos que “no tempo da monarquia, as fortalezas e os navios de guerra nacionais, embandeirados em arco, salvavam no momento em que a procissão síngrava as águas da Baía”. Hoje, as fortalezas, os velhos fortes já não têm artilharia para salvar, mas os navios fazem soar as sirenas à passagem da procissão.

Enquanto isso, defronte da Igreja da Boa Viagem, na Península de Itapagipe, a multidão domina todo o pátio, alastra-se pelas ruas perto e a praia não comporta mais ninguém. O povo aguarda o santo e a procissão se avista bela e imponente mar a fora. Grande parte da multidão está em trajes de banho, com seu calção, pois a festa é do mar, o santo é do mar e, no mar, desfila sua procissão. É nas águas do mar, nas areias da praia do mar que se aguarda o Senhor dos Navegantes. E quando a galeota vai se aproximando, a multidão avança pelas águas, disputa aos gritos o privilégio de tocar na embarcação do Senhor, de tocar na Sua imagem, de participar da retirada do Seu andor. E indescritível o momento.

São centenas de pessoas, ameaçando soçobrar o barco, os seus condutores tentando deter os que vêm nadando para disputar a honra excelsa. Nada os detém. Já milhares estão na praia, expondo seus dorsos fortes e nus, brancos, morenos e escuros queimados pelo sol forte e pela luz baiana. E quando a imagem é entregue ao povo, a multidão inteira a disputa. Nem a comissão, nem o prefeito, nem os sacerdotes que a acompanham, podem manter a ordem desejada. As exclamações sobem de toda parte, os gritos são de todos e a exaltação ao protetor dos homens do mar chega ao auge. Bloco imenso de músculos retesos, a clamar por um escultor, conduz a imagem à Igreja da Boa Viagem a uns duzentos metros da praia. E do meio do caminho, vem recebê-la a imagem de nossa Senhora da Boa Viagem.

É preciso ver e sentir o entusiasmo, a fé do povo baiano neste momento. Não a fé mórbida das procissões ibéricas, de uma Sexta-feira da Paixão, em Sevilha, por exemplo. Mas a fé cheia de vitalidade e de pureza do povo moreno da Bahia. Este espetáculo da religião de um povo se expressando, com tanto vigor e tanta saúde na sua fé, deixa pensar na contribuição poderosa do sangue africano. O ibérico tende para o trágico: o africano trouxe ao povo baiano a vitalidade e alegria que assistimos um povo receber, como a um líder, o Senhor dos Navegantes. Pode-se falar em falta de respeito quando a fé está em manifestações como essa? Deve-se, sim, invocar ausência de formalismo e de preconceitos’ que o povo afasta para receber o seu santo como a um amigo de todas as horas, ao protetor que não falta nas ocasiões necessárias. Levada a imagem à Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, fica o Senhor dos Navegantes no seu Santuário todo o ano, e volta o povo à disputa, para tirar das águas e trazer até sua garagem, ao lado da igreja, a galeota. Como pesa, quantos esforços são feitos, cabos fortes são puxados por centenas até que a embarcação cede e é colocada nos trilhos! E tudo se faz com cânticos e tudo se faz com danças, com o samba, não o samba importado em discos, mas o samba legítimo das colinas baianas, nascido das batucadas dos seus negros e mulatos.

E a festa prossegue no largo da Boa Viagem. E não faltam a fabulosa cozinha baiana, as suas frutas, as me lancias, as mangas, os cajus, os abacaxis, não faltam as barracas de prendas e os que amam, os que se divertem, os que se banham nas águas da Baía de Todos os Santos, na prainha das areias brancas e das águas límpidas. E tarde já, o sol está forte, mas pouco importa. “A saúde que Deus concedeu ao povo foi para se divertir”, diz-nos uma preta formosa, rainha de seu grupo, delírio dos sambistas, batendo os seus pés ligeiros, acompanhando a batucada. E a tarde e a noite conhecerão, também, a alegria do povo de Deus, liberto de preconceitos, vindo, todos os anos, render graças Àquele que o protege das tempestades, das águas más, dos maus ventos.

Passam-se os anos, modificam-se tradições, mas o povo baiano conhece o primeiro dia de cada ano, exaltando ao seu Deus, que em tudo manda e rege, como também rege e manda nas águas do mar: o Nosso Senhor dos Navegantes.

Fonte: Portal Vermelho

Nos dias de hoje onde começa e onde termina o nosso “Second life”?

Nos dias de hoje onde começa e onde termina o nosso “Second life”?

Para quem não conhece o Second Life é um jogo formado por avatares que simula mundos digitais praticamente sem limites de ações, onde neles somos o que quisermos como também fazemos coisas que nem sempre é possível em nossa realidade, mas o que começou como um entretenimento é atualmente o conceito de uma nova era, uma era em que vemos as ações digitais se mesclando a realidade, com tamanha intensidade que a cada dia é mais difícil identificar os limites entre o real e o virtual.

As ações no mundo digital são cada vez mais relevante, a exemplo disso, recentemente foi colocado em pauta no cenário mundial as retaliações feita por parte de algumas autoridades governamentais a uma organização chamada WikiLeaks , vamos entender melhor o que aconteceu, imagine que você manda suas correspondências usualmente pelos correios (é eles ainda existem) e de repente uma remessa confidencial é desviada, e pior exposta mundialmente, foi essa situação que o governo americano enfrentou, a WikiLeaks tornou publico milhares de documentos confidencias,diante disso estes se viram ameaçados e logo em seguida Julian Assange fundador da WikiLeaks foi assolado por acusações, uma delas inclusive em caráter de crime sexual na Suécia onde a WikiLeaks é sediada, com isso a atuação da WikiLeaks é bem preocupante para muitos que controlam o poder, sendo do interesse destes embargar-la, em contra partidas várias manifestações em apoio a filosofía da WikiLeaks e ao seu trabalho explodiram de várias partes, até mesmo autoridades como o presidente lula manifestou o seu apoio ao objeto maior deste caso, a liberdade de expressão, um dos pontos que chama atenção nessa história é que um novo perfil de guerra vem se consagrando e os formatos de seus combatentes também, os participantes desse conflito são pioneiros em várias vertentes, essa guerra digital nos apresenta uma nova forma de ameaça, ameaça essa que hoje afeta por hora os governos e os mais poderosos, porém o risco é geral, até então a WikiLeaks tem ares de justiceiro, mas por outro lado até que ponto sabermos de determinadas verdades ocultas pode ser proveitoso? com que olhos devemos encarar essa anarquia da informação? a séculos o poder se rege por sua habilidade em controlar as informações, e agora os poderosos se vêem atarantados diante de um novo momento, o temor das autoridades é palpável, todos sem exceções independente do seu papel devem se manter alerta diante de tais mudanças, nesse cenário a Internet é uma arma, e como protesto ao invés de atacar sedes e fazer mobilizações nas ruas as pessoas se valem de seus conhecimentos digitais e tentam atingir seus desafetos com ataques virtuais afim de proteger seus ideáis, é dessa forma que os adeptos da WikiLeaks estão atuando, o fato é que essa guerra tem que ser vista com bastante delicadeza pois dependendo dos rumos que esta história tomar os prejuízos podem ser imensuráveis. No entanto considerando os objetivos nobres da WikiLeaks pode ser que esta aceite algum acordo para um bem maior e vire esta pagina rapidamente, dispersando essa guerra fria virtual.

Por via das duvidas retomarei o habito de ter fotos somente em álbuns de família e atualizarei alguns endereços para cartas mais pessoais.

Fonte:http://raquelbezerra.wordpress.com

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