RSS

80 anos da morte de Vladimir Ilitch Lênin

80  anos da morte de Vladimir Ilitch Lênin

* Augusto Buonicore

“O gelo cobre tudo, morte por toda parte, tudo jaz.
Toda a vida parece dissipada
uma vala comum o mundo inteiro, uma única vala.
Nem mesmo as sombras de uma vida livre e luminosa.
Mas ainda é cedo para que a noite triunfe sobre o dia
para que o túmulo celebre sua festa de vitória sobre a vida.
Ainda sob as cinzas prepara-se a fagulha”
Lênin/ primavera em Moscou de 1907

Às 18 horas e 50 minutos do dia 21 de janeiro de 1924 parou de bater o coração do maior revolucionário do século XX, o fundador e consolidador do primeiro Estado socialista do mundo. Uma mensagem do Partido Comunista da Rússia (bolchevique) dirigida aos trabalhadores dizia: “Nunca desde Marx a história do grande movimento libertador do proletariado produziu uma figura tão gigantesca (…) cujo nome se tornou, do ocidente ao oriente, do sul ao norte, o símbolo do novo mundo”. Nos quatro dias que duraram os seus funerais uma multidão de cerca de 900 mil pessoas, sob uma temperatura de 30 graus negativos, foi dar o seu último adeus ao seu líder. Manifestações ocorreram em todas as partes do mundo. De Londres a Pequim, passando pelo Brasil, os trabalhadores se reuniram para homenagear Lênin.

O jovem revolucionário vietnamita Ho Chi Minh escreveu: “Lênin morreu! A notícia golpeou cada um de nós e como um raio ela se espalhou pelas ricas planícies da África e pelos verdes arrozais da Ásia. Os negros e os amarelos, é verdade, não sabem ainda com exatidão quem é Lênin nem onde fica a Rússia. Tudo fizeram para os impedir de saber. No entanto, foi passando de boca em boca que numa longínqua região do mundo existe um povo que soube derrotar seus exploradores e que agora dirige ele mesmo seus assuntos sem precisar de patrões nem de governos gerais.”

Máximo Gorki traduziu numa carta o sentimento profundo do povo russo: “Nunca senti tanta dor (…) Ainda agora a minha mão treme ao escrever (…) Sinto o coração amargurado. O capitão deixou o navio. Sei muito bem que o resto da equipe se compõe de homens corajosos e bem formados por Ilitch. Sei que não perderão a cabeça no turbilhão (…) A perda de Ilitch é a maior infelicidade que a Rússia conheceu desde há um século. Sim, a maior…”.

Os primeiros passos de um revolucionário

Vladimir Ilitch nasceu em 10 de abril de 1870 na cidade Simbirsk (depois transformada em Ulianovsk), localizada na região do Volga. Seu pai era inspetor escolar. Seu irmão mais velho Alexandre Ulianov se incorporou num grupo revolucionário, defensor de táticas terroristas, e acabou se envolvendo num complô contra o Czar Alexandre II. Descoberto o plano o grupo foi preso e quatro dos seus líderes foram enforcados em maio de 1887. Entre eles estava Alexandre. Sua irmã Ana também foi presa, acusada de pertencer ao mesmo grupo revolucionário. Lênin tinha apenas 17 anos de idade.

No mesmo ano entrou para o curso de Direito da Universidade de Kazan. Em poucos meses já estava organizando manifestações estudantis contra o Czar o que lhe custou a expulsão da Universidade. Na ocasião um esbirro policial lhe disse: “Estás a lutar contra um muro de pedra”. E o jovem Lênin, sem titubear, respondeu: “um muro de pedra sim, mas apodrecido e cairá com um pontapé”.

Depois disso passou a viver sob vigilância policial numa propriedade rural de sua família. Aproveitou a oportunidade para iniciar os seus estudos de marxismo, dedicando-se especialmente à obra de Plekhanov, o “pai do marxismo russo”. No seu exílio interno leu o 1º volume de O Capital de Karl Marx.

Lênin assim se desvinculou teórica e politicamente da influência populista, abraçou o marxismo e ingressou num grupo de socialistas dirigido por Fedoseyev. Em 1892 as autoridades russas autorizaram que ele se tornasse um estudante “externo”, ou seja, um estudante que não podia freqüentar a universidade regularmente, apenas podia prestar exames. Lênin em poucos meses fez todas as provas de um curso de Direito de quatro anos e foi classificado em primeiro lugar. Neste mesmo período traduziu o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels.

Após a sua formatura seguiu para São Petersburgo onde iniciou uma ativa vida política, entrando em contato com os círculos revolucionários social-democratas. Entre 1893 e 1894 escreveu seus primeiros panfletos destinados aos operários.

A primeira grande batalha dos marxistas

A primeira grande batalha do marxismo russo para se consolidar entre as massas trabalhadoras foi travada contra os populistas. Mas, o que era o populismo? Era uma corrente socialista pequeno-burguesa que se constituiu no início da década de 1860. Os seus dois principais expoentes foram Alexandre Herzen e Tchernychevsky. A primeira organização populista foi fundada em 1862 e se chamava “Terra e Liberdade”.

A base social do populismo era a pequena-burguesia urbana e teve um de seus grandes momentos em 1874 quando milhares de jovens abandonaram seus cursos universitários para se integrar aos camponeses, buscando educá-los, organizá-los e colocá-los em luta contra o czarismo. A experiência não foi bem sucedida e ocasionou uma dura repressão contra os participantes do movimento.

Os teóricos populistas defendiam que a Rússia poderia transitar diretamente para o socialismo sem passar pelo capitalismo. Isto seria possível graças à existência das comunidades rurais russas. Eles se baseavam em uma afirmação feita pelo próprio Marx.

Rapidamente os populistas se dividiriam em duas tendências: Liberdade do Povo e Partilha Negra. A primeira defendia o terrorismo como método principal de luta contra a autocracia. Por isso, organizou dezenas de atentados, inclusive contra o próprio Czar. Mas, nos primeiros anos da década de 1880, a maioria dos seus dirigentes já havia sido presa e executada.

O segundo grupo rejeitava o terrorismo como arma política e defendia a realização de um trabalho maior de propaganda e organização entre os trabalhadores. Vários membros deste grupo, como Plekhanov, Vera Zassulich e Axelrod, avançaram rapidamente para posições marxistas. Graças a eles nasceu o primeiro grupo social- democrata russo: Libertação do Trabalho.

Os marxistas russos, incluindo o jovem Lênin, tinham consciência de que o capitalismo já era uma realidade na Rússia e juntamente com ele vinha se desenvolvendo uma nova classe, o proletariado. Seria justamente a este jovem proletariado urbano que caberia o papel de vanguarda no processo de transformação social na Rússia.

Em 1894 os marxistas revolucionários russos estabeleceram uma aliança tática com uma corrente denominada “marxismo legal”. O seu principal expoente era Struve. Os marxistas legais, como o nome já diz, afirmavam-se marxistas, mas no fundo eram os porta-vozes de um setor da oposição liberal-burguesa, defensores exclusivamente de métodos legais (reformistas) no combate ao czarismo. Justamente por isso haviam conseguido autorização para publicar seus jornais e livros.

O acordo com esta corrente possibilitou que os marxistas revolucionários burlassem a censura a publicassem textos mais conseqüentes contra os populistas e o czarismo. Não demorou muito tempo para que a polícia descobrisse a artimanha, passando a estabelecer uma censura mais rígida ao material publicado.

Os social-democratas tinham pelo menos um ponto comum em relação aos marxistas- legais: a compreensão de que o capitalismo na Rússia era uma realidade incontestável e, portanto, a idéia de um comunismo assentado nas comunas camponesas passava a ser uma utopia conservadora. Entre 1892 e 1893 começou a escrever o trabalho Quem são os “amigos do povo” e como lutam contra os social-democratas. Nele fez uma crítica abrangente ao populismo russo.

Em 1895 Lênin, ao lado de Martov, fundou a “Liga da Luta para a Libertação da Classe Trabalhadora”. Participou ativamente da agitação entre os operários de São Petersburgo e acabou sendo preso. A sentença foi passar um exílio de três longos anos na gélida e desolada Sibéria. No seu exílio siberiano ele escreveu O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, que foi publicado em 1899.

Naquele momento Lênin havia se colocado a tarefa de realizar uma crítica teórica e política ao populismo, reduzindo assim a sua influência junto às massas trabalhadoras. Esta era uma condição essencial para a construção de uma tática e de uma estratégia conseqüentes para o movimento operário revolucionário na Rússia.

O desenvolvimento da idéia de Partido e da teoria como elementos centrais do movimento revolucionário

A primeira fase de produção teórica de Lênin é pouco conhecida, particularmente sua elaboração sobre o problema do partido e da relação entre consciência e espontaneidade. Na sua obra Projeto e Explicação do Programa do Partido Social- Democrata, de 1895, a consciência de classe (revolucionária) nasceria das próprias lutas operárias, viria da própria luta econômica contra os patrões dentro das fábricas. Através da luta econômica os operários necessariamente adquiririam a consciência política de classe socialista. O papel da Social-Democracia seria unir as lutas isoladas a fim de acelerar o processo de formação da consciência revolucionária e socialista dos trabalhadores. Lênin, nesta fase, se aproximou bastante de algumas formulações de Rosa de Luxemburgo com quem mais tarde travaria uma rica polêmica.

Sem dúvida, o jovem Lênin estava, de um lado, influenciado pelas grandes greves operárias de 1895-1896 e, de outro, pelo “primitivismo” teórico dominante nos círculos social-democráticos russo. Mais tarde chegaria à conclusão de que não era correta a idéia de que a consciência política socialista pudesse se produzir inevitavelmente da luta econômico-corporativa, por mais extensa e radical que pudesse ser.

As grandes greves de 1895-1896 não produziram automaticamente nem a consciência socialista e nem uma organização partidária sólida. O resultado deste processo foi Lênin ter rompido definitivamente com toda e qualquer influência economicista que ainda pudesse existir no seu pensamento e passou a estudar com maior atenção os problemas da relação entre a luta econômico-corporativa dos operários e o processo de constituição de uma consciência revolucionária e socialista. O problema do Partido começou a ganhar relevo na construção teórica de Lênin. Consolidou-se a idéia de que só o Partido revolucionário poderia assegurar às lutas econômicas uma saída política adequada: a via revolucionária.

Em 1899 escreveu Uma tendência Regressiva na Social-Democracia, no qual anteciparia algumas das teses que estariam presentes em Que Fazer?. Afirmava Lênin: “Em todos os países europeus o socialismo e o movimento operário, em seu início, existiram separadamente. O movimento operário não sendo iluminado pela ciência de vanguarda de sua época continuava reduzido, fracionado, sem adquirir nenhuma importância política. Por isto em todos os países vimos manifestar-se com força a tendência de fundir-se o socialismo com o movimento operário num único movimento social-democrático, essa função dá origem a uma forma superior do movimento operário e socialista, o Partido Social-Democrata independente”.

A segunda grande batalha do marxismo russo: contra o revisionismo e o economicismo

Enquanto Lênin estava no exílio, em 1898, realizou-se em Minsk o congresso de fundação do Partido Operário Social-Democrata da Rússia (POSDR). O processo de formação do partido socialista russo se deu no momento em que o marxismo sofria seu primeiro grande ataque provindo de suas próprias fileiras. Este fenômeno estava ligado ao próprio desenvolvimento do capitalismo europeu no final do século XIX.

O crescimento relativamente pacífico do capitalismo alemão e europeu e a conquista de maiores liberdades democráticas propiciaram avanço eleitoral sem precedente para a social-democracia. Isto levou a que muitos dirigentes acalentassem a esperança de que houvesse outra alternativa para a conquista do socialismo que não fosse a via revolucionária. O principal teórico dessa via reformista foi Bernstein, dirigente do PSDA e, até então, considerado herdeiro de Engels do qual havia sido amigo.

Bernstein elaborou uma nova tática para o movimento socialista alemão, que se concentrava quase exclusivamente na ação institucional. Segundo ele, seria através do voto que o trabalhador se elevaria “da condição social de proletário àquela de cidadão”. A luta sindical por melhores condições de trabalho e salários seria o instrumento privilegiado para conduzir a sociedade capitalista, através das reformas econômicas, para o socialismo. Na verdade, estas reformas já seriam a própria realização molecular da nova sociedade socialista. É de Bernstein a famosa frase: “o movimento é tudo e o fim nada significa”.

Lênin, desde o primeiro momento, engrossou o coro contra o revisionismo e escreveu, em 1899, o artigo Protesto dos Social-Democratas Russos. Mas, a social-democracia russa não ficou imune ao surto revisionista. Neste período desenvolveu-se no interior do movimento socialista russo uma corrente que seria denominada “economicista”.

No combate político-teórico ao economicismo Lênin escreveu Que Fazer?. O livro foi publicado em março de 1902. Ele sabia que para se construir um partido verdadeiramente revolucionário, que pudesse cumprir as tarefas colocadas pela revolução, seria preciso derrotar em todos os campos as concepções que negavam: 1°) o papel da teoria revolucionária; 2º) a importância de construção de uma sólida organização partidária; e 3º) a necessidade de colocar no centro da tática e da estratégia socialista a luta política revolucionária contra a autocracia czarista. A vitória do economicismo no interior do partido significaria a derrota da revolução russa.

A obra de Lênin representou um momento importante na elaboração da política de organização marxista e foi um dos marcos na construção do Partido bolchevique, da separação dos elementos oportunistas que se organizariam mais tarde na corrente menchevique.

Lênin analisou a complexa relação entre o fator consciente e o movimento espontâneo das massas. Afirmou ele: “a classe operária, pelas suas próprias forças, não pode chegar senão à consciência sindical, isto é, à convicção de que é preciso unir-se em sindicatos, conduzir a luta contra os patrões, exigir do governo essas ou aquelas leis necessárias aos operários etc”.

É justamente devido aos limites estruturais da luta econômica que a consciência política de classe não poderia nascer diretamente dela. A consciência política de classe só pode nascer da sua luta no campo da política, na relação “de todas as classes e categorias da população com o Estado e o governo, o domínio das relações de todas as classes entre si”. Continua Lênin: “A consciência da classe operária não pode ser uma consciência política verdadeira, se os operários não estiverem habituados a reagir contra todo abuso, toda manifestação de arbitrariedade, de opressão e de violência, quaisquer que sejam as classes atingidas (…) Todo aquele que orienta a atenção, o espírito de observação e a consciência da classe operária exclusiva ou preponderantemente para ela própria não é social-democrata; pois para conhecer a si própria, de fato, a classe operária deve ter um conhecimento preciso das relações recíprocas de todas as classes da sociedade contemporânea”.

Em 1903 realizou-se o 2º Congresso do POSDR. O objetivo era constituir um partido social-democrata unificado e aprovar seu programa e estatuto. O principal e mais polêmico ponto do debate foi sobre o famoso artigo primeiro dos estatutos do Partido que definia quem poderia fazer parte da organização. Martov defendia uma organização mais fluída em que todo grevista poderia se dizer membro do Partido e agisse sob direção de um organismo partidário. Para Lênin estas condições eram insuficientes para um partido revolucionário, especialmente sob um regime ditatorial. Só poderia ser considerado militante aquele que se dispusesse a pertencer a uma organização partidária e a ela se submetesse. Lênin e seu grupo embora fossem vitoriosos no Congresso acabariam perdendo esta votação para o grupo de Martov.

Neste congresso a social-democracia russa se dividiria em duas alas: a menchevique e a bolchevique. As posições de Lênin foram expostas no livro Um passo adiante, dois passos atrás.

A revolução de 1905: A classe operária entra em cena

Em janeiro de 1904 começou a guerra russo-japonesa que terminou em setembro de 1905 com uma derrota vergonhosa do exército czarista. O desastre representado pela guerra levou a uma rápida politização de camadas cada vez mais amplas do povo russo, especialmente dos operários e camponeses, que eram as principais vítimas da carnificina imperialista.

Visando controlar o descontentamento popular que crescia dia a dia, um dos chefes da polícia czarista, chamado Zubatov, começou a incentivar a criação de sindicatos sob o controle direto da burocracia estatal. Estes sindicatos, com apoio da igreja ortodoxa russa, teriam como função afastar as massas operárias da influência da social-democracia russa e constituir uma base social popular para o czarismo. As primeiras experiências ocorreram em Moscou e depois se estenderam para São São Petersburgo. Nesta última cidade o principal organizador era um padre ortodoxo chamado Gapon.

Lênin, desde o primeiro momento, defendeu a idéia de que os social-democratas deveriam se infiltrar naqueles sindicatos e buscar arrancar as massas mais atrasadas da influência czarista e clerical. Seguindo as indicações de Lênin os social-democratas fizeram uma grande agitação dentro dessas organizações e começaram impulsioná-las na luta econômica que pouco a pouco tenderia a se transformar em luta política.

Num domingo, em 9 de janeiro de 1905, as organizações ligadas ao padre Gapon realizaram uma grande manifestação para entregar ao Czar um abaixo-assinado com a reivindicação da classe operária de São Petersburgo. A manifestação pacífica, dirigida por Gapon, foi recebida a bala pelas tropas czaristas, centenas de operários morreram e milhares ficaram feridos. Assim a classe operária russa foi arrancada abruptamente da influência czarista e atirada nos braços da revolução graças à atuação conseqüente dos operários social-democratas no interior das organizações de Zubatov e Gapon. Após o “Domingo Vermelho”, como ficou chamado, mais de 400 mil operários paralisaram suas atividades e a greve se transformou em uma verdadeira insurreição popular.

Novamente em outubro a classe operária russa esteve à frente da maior greve geral da história. Em dezembro ocorreu nova insurreição operária em Moscou. Os operários não combatiam somente por salários e melhoria das condições de trabalho, lutavam para pôr abaixo o governo autocrático do czar, utilizando-se de uma das formas mais avançadas de luta: a insurreição armada.

A ação espontânea das massas operárias urbanas, sem direção de uma vanguarda socialista, fez nascer os sovietes, dos quais os bolcheviques, num primeiro momento, se recusaram a participar. Lênin, no seu exílio na Suécia, enviou uma carta conclamando os seus partidários a aderirem aos sovietes, criação das massas insurgentes e o embrião de um novo poder operário.

Curiosamente essa carta não foi publicada na Rússia. A fração bolchevique ainda estava influenciada por uma leitura esquemática de Que fazer? e pelo preconceito em relação às ações espontâneas das massas. Mas, a proposta de Lênin acabou prevalecendo sobre o conjunto da fração bolchevique.

Entre 1906 e 1907 Lênin passou a enfatizar o caráter revolucionário das organizações soviéticas e a capacidade das massas elevar-se espontaneamente ao nível da luta política revolucionária. Ainda durante o ano de 1906 fazendo um balanço da experiência dos Sovietes afirmou: “Não foi nenhuma teoria, nenhum apelo, nem a tática ou a doutrina de nenhum partido, mas a força da própria realidade que levou um órgão sem partido, de massas à necessidade de desencadear a insurreição e os converteu em seu órgão”.

A nova conjuntura impõe também um novo modelo de organização. Lênin defendeu que o Partido se abrisse para o ingresso de milhares de combatentes operários. Novamente houve resistências por parte de bolcheviques mais doutrinários, que acreditavam que a abertura do Partido, como pretendia Lênin, levaria à sua descaracterização como organização de vanguarda.

Contestou Lênin: “E, no momento presente, quando o heróico proletariado demonstrou na prática a sua disposição de luta (…) de lutar num espírito puramente social- democrata, seria por demais ridículo duvidar de que os operários que ingressam no nosso partido (…) não sejam social-democratas em 99% dos casos. (…) A clandestinidade desmorona-se. Avante, com maior audácia, Empunhai as novas armas, entregai-as a gente nova, ampliai as vossas bases de apoio, chamai todos os operários social-democratas, incorporando-os às centenas e aos milhares à fileiras das organizações do partido! (…) Deixemos de lado todo espírito mesquinho na necessária reforma do partido: comecemos sem dilação a nova via”. As idéias de Lênin foram novamente vitoriosas.

Os bolcheviques aproveitaram-se do momento de ampliação da liberdade, conquistada pelas massas, para democratizar ainda mais o Partido. Referindo-se a isto Lênin afirmou: “O Partido Social-Democrata aproveitou-se antes de qualquer outro o período passageiro de liberdade para introduzir nas suas fileiras a estrutura democrática ideal, de uma organização aberta, como um sistema eletivo, com uma representação nos congressos proporcional ao número de membros organizados. Esse procedimento não foi utilizado pelos social-revolucionários e nem pelos cadetes, os mais organizados dos partidos burgueses, quase legal e que possui recursos financeiros infinitamente maiores e tem a possibilidade de utilizar a imprensa”.

Os bolcheviques e a revolução democrática

Em abril de 1905 realizou-se o 3º congresso do POSDR. Os mencheviques realizaram uma conferência paralela. O congresso com maioria bolchevique e a conferência menchevique aprovaram táticas e estratégias bastante diferentes para a revolução democrática na Rússia, aprofundando a divisão no seio da social-democracia.

O único ponto de unidade foi o reconhecimento de que a revolução russa estava em sua primeira etapa democrática e não socialista. A partir daí só havia diferenças. Para os bolcheviques, embora a revolução fosse democrático-burguesa, era o proletariado a única classe interessada em levá-la até as últimas conseqüências e o seu principal aliado seriam os camponeses, que constituíam a grande maioria da população russa. E que, após a revolução, o POSDR, como representante da classe operária, deveria participar do governo provisório revolucionário e impulsioná-lo até o seu limite.

Os mencheviques negavam o papel dirigente do proletariado na revolução democrática e defendiam a sua submissão à burguesia liberal. Portanto priorizavam a aliança com a burguesia e menosprezavam a importância dos camponeses, considerados como força conservadora. Realizada a revolução o proletariado e seu partido não deviam pleitear participar do novo governo revolucionário, se limitando a exercer uma pressão externa.

Em seguida Lênin escreveu sua obra Duas táticas da social-democracia na revolução democrática, na qual faz um valioso balanço dos dois congressos e aponta o caráter oportunista das resoluções sobre tática e estratégia aprovadas pelos mencheviques.

Mas a revolução de 1905 foi derrotada e o movimento operário e socialista entrou em um período de refluxo. Em 1906 foi realizado o 4º Congresso do POSDR. Este seria conhecido como o congresso de reunificação das duas correntes da social-democracia russa, os mencheviques e os bolcheviques. O primeiro sintoma da derrota da revolução foi o crescimento da influência da direita partidária e sua vitória no congresso. Isto não significou a redução da polêmica entre as correntes da social-democracia russa. Afirmou Lênin: “no seu interior a luta ideológica pode continuar entre as várias correntes de pensamento social-democrata”.

A unidade durou pouco e a própria corrente bolchevique conheceu cisões. No congresso de 1907 os bolcheviques ainda conseguiram uma derradeira vitória sobre os mencheviques. A crise também atingiu os bolcheviques que se dividiram. Bogdanov e Lunatcharsky formaram uma corrente esquerdista, que se baseou numa mescla de marxismo com outras doutrinas em moda naquele momento, como o neokantismo e o empiriocriticismo (ou machismo). Para combater estes desvios no campo da filosofia Lênin escreveu, em 1908, Materialismo e Empiriocriticismo.

A fração bolchevique resolveu condenar o desvio esquerdista do grupo de Bogdanov. Este não aceitou a crítica e acabou sendo expulso da fração.

O impacto da derrota da revolução e da repressão que se seguiu pode ser aquilatado pela evolução do número de militantes em Moscou. Dos milhares de militantes que existiam em 1905 restavam, em 1909, apenas 150 e, em 1910, no auge da crise, algumas poucas dezenas.

O impacto foi maior nos intelectuais; a ponto de Lênin não conseguir montar uma nova redação para o órgão central bolchevique por falta de quadros. Foi um período de crise do socialismo e do próprio marxismo. A nova tática aberta após 1905-1906 deveria ser defensiva.

Em 1912 os bolcheviques convocaram uma conferência partidária em Praga. As demais correntes da social-democracia boicotaram o encontro. Lênin manteve o evento e a conferência acabou se transformando praticamente no congresso de fundação do Partido Bolchevique. A cisão da social-democracia russa consolidou-se. Os bolcheviques criaram, então, o seu próprio jornal: o Pravda.

Refletindo sobre o passado e preparando o futuro

O início da 1ª Grande Guerra Mundial, em 1914, foi um marco na história do movimento socialista internacional. Ele acarretou a falência da 2ª Internacional, que mergulhou no pântano do oportunismo e do patriotismo burguês.

Em agosto daquele ano os partidos social-democratas, traindo os seus programas e as resoluções dos seus congressos e da própria Internacional, votaram favoravelmente aos créditos para a guerra imperialista. Os partidos socialistas passaram a defender as suas próprias burguesias e seus interesses expansionistas.

Apenas pequenos grupos dentro dos partidos social-democratas continuavam erguendo a bandeira do internacionalismo proletário contra a guerra imperialista e defendendo a idéia de transformar a guerra imperialista em revolução socialista. Entre eles se encontravam os bolcheviques, dirigidos por Lênin.

Além de procurar unificar a esquerda e o centro da social-democracia que se posicionavam contra a guerra, nas conferências internacionais de Kienthal e Zimmerwald, Lênin se envolveu num intenso trabalho intelectual. Mergulhou no estudo da filosofia, especialmente da dialética marxista. Suas anotações foram organizadas posteriormente e publicadas com o título Cadernos Filosóficos.

Ele, principalmente, procurou entender as mudanças que se operaram no capitalismo mundial e as causas da traição da social-democracia. Neste esforço, entre 1915 e 1916 escreveu duas importantes obras: A falência da II Internacional e Imperialismo, fase superior do capitalismo.

“O oportunismo foi engendrado durante dezenas de anos pelas particularidades da época de desenvolvimento do capitalismo, quando a existência relativamente pacífica e fácil de uma camada de operários privilegiados os ‘aburguesava’, dava-lhes as migalhas dos lucros do capital nacional, poupava-os da miséria dos sofrimentos e desviava-os das tendências revolucionárias da massa lançada na ruína e na miséria (…) o oportunismo não é resultado do acaso, nem de um pecado, nem de um equívoco, nem da traição de indivíduos isolados, mas o produto social de toda uma época histórica (…) O oportunismo é fruto da legalidade. Os partidos operários das época de 1889-1914 deviam utilizar a legalidade burguesa. Mas, quando a crise explodiu, era necessário passar à ação clandestina (…) não se pode tolerar a existência de semelhante corrente no seio dos partidos operários social-democratas (…) O socialismo na Europa saiu do estágio relativamente pacífico (…) Com a guerra de 1914-1915, ele entrou no estágio das ações revolucionárias; a ruptura completa com o oportunismo e a expulsão desse último do seio dos partidos operários estão incontestavelmente na ordem do dia”.

Lênin constatou que o imperialismo era a fase superior do capitalismo – sua fase monopolista – e, ao mesmo tempo, o período histórico marcado pela sua desagregação. Nele se acirram todas as contradições. Por isto é a ante-sala da revolução socialista.

O imperialismo se caracteriza pela concentração da produção e do capital nos monopólios; a fusão do capital industrial e bancário formando o capital financeiro; a exportação de capital sobrepujando a exportação de mercadorias; formação associações de monopólios que dividem o mundo entre si; a partilha do mundo entre as potências capitalistas. Abre-se um período de guerras e revoluções.

Outra obra fundamental escrita às vésperas da revolução de outubro foi O Estado e a Revolução. Nela, ele faz uma exposição sistemática do desenvolvimento da concepção de Estado em Marx e Engels. Resgata os elementos revolucionários do marxismo originais que estavam sendo deturpados pelos teóricos e dirigentes da 2ª Internacional, como Kautsky, que procuravam acobertar o fato de que o Estado – todo Estado – é um instrumento de dominação de uma classe sobre outra – ou seja, uma ditadura de classe. E que a revolução proletária deveria quebrar a máquina do Estado burguês e construir uma nova máquina mais democrática que garantisse a dominação política e social do proletariado sobre a burguesia desalojada do poder. O proletariado precisava de um Estado que, na sua essência, fosse uma ditadura do proletariado. Ditadura para a burguesia contra-revolucionária e uma ampla democracia para os trabalhadores.

Em fevereiro de 1917 foram, novamente, os operários que tomariam a palavra para pôr abaixo a autocracia czarista. Tudo começou com uma manifestação de operárias que foi reprimida pela polícia e se transformou rapidamente numa greve envolvendo mais de 240 mil operários.

Os operários formaram o Soviete de Delegados dos Trabalhadores de Petrogrado e milícias de operários e soldados prenderam as autoridades czaristas. A revolução de fevereiro, portanto, foi obra da classe operária russa, especialmente de sua vanguarda de Petrogrado e Moscou.

Porém, o governo provisório traiu a confiança dos trabalhadores, não garantindo a paz, nem a terra e nem o pão. Em junho, mais de meio milhão de operários e soldados sairiam às ruas exigindo a expulsão dos ministros capitalistas e a formação de um governo exclusivamente socialista. Em julho ocorreu nova manifestação com cerca de 500 mil pessoas. A manifestação foi reprimida a bala pelo governo de Kerensky. Eis a base social da revolução de outubro.

Durante os primeiros meses da revolução Lênin estava em seu exílio na Suíça, mas começou a lhe preocupar o desenvolvimento do movimento. Lênin escreveu cinco cartas que seriam editadas com o nome Cartas de Longe. Nelas, propôs que os bolcheviques não dessem nenhum apoio ao governo provisório e preparassem para dar um passo a frente construindo a revolução socialista. O Pravda só publicou a primeira carta, a direção considerava que as posições de Lênin não correspondiam às opiniões da direção bolchevique na Rússia.

Em março Lênin e 32 bolcheviques atravessaram a Alemanha em um trem blindado e chegaram na Estação Finlândia. Apresentou a palavra de ordem revolucionária “Todo o Poder aos Sovietes!”. Em abril apresentou suas idéias à conferência do Partido. Para preparar o Partido escreveu as famosas Teses de Abril nas quais afirma que a etapa burguesa da revolução russa já estava superada, e se tratava de preparar a segunda etapa: a socialista. Mas, em 8 de abril, o comitê bolchevique de Petrogrado rejeitou as teses de Lênin por 14 votos a 2.

Bogdanov comentou: “É um delírio, o delírio de um louco”. Kamenev diria: “Em relação ao esquema geral do camarada Lênin, parece-nos inaceitável, à medida que apresenta como acabada a revolução democrático-burguesa e conta com uma transformação imediata desta revolução em revolução socialista”.

Lênin passou os meses seguintes, pacientemente, esclarecendo sua posição ao conjunto da militância partidária. A crise político-militar se agravou e Lênin conseguiu impor sua posição ao conjunto do Partido. Tratava-se agra de preparar a insurreição contra o governo capitalista. A primeira vitória de Lênin se deu na Conferência das seções bolcheviques da Capital, na qual consegue 20 votos contra 6.

Na 7ª Conferência do partido bolchevique as posições de Lênin saíram vitoriosas por 71 votos contra 38. No dia 18 de junho a direção dos Sovietes decidiu realizar uma grande manifestação para demonstrar o seu prestígio junto às massas. A manifestação reuniu mais de 500 mil pessoas, a grande maioria levava faixas e cartazes com as palavras de ordem dos bolcheviques: “Abaixo os ministros capitalistas! Todo o poder aos sovietes!”.

Logo após o primeiro regimento de metralhadoras de Petrogrado decidiu pôr abaixo o governo provisório e recebeu apoio dos marinheiros de Cronstadt. Os bolcheviques desaconselharam a rebelião afirmando que as condições ainda não estavam maduras e que se deveria esperar mais.

O fracasso da tentativa insurrecional levou a uma ofensiva do governo contra os bolcheviques. Lênin foi perseguido e resolveu refugiar-se na Finlândia. Os jornais bolcheviques foram fechados e o Partido passou à ilegalidade.

O crescimento do Partido Bolchevique foi assustador. O número de filiados passou de 24 mil em fevereiro para 240 mil em julho. Os bolcheviques passaram a ser maioria nos sovietes de Petrogrado e de Moscou, os dois principais centros revolucionários da Rússia, além de mais 50 cidades. Foram amadurecendo as condições para a tomada do poder pelos operários.

Em agosto o general Kornilov organizou um golpe militar contra o governo provisório e os sovietes. Mas uma ação decidida do proletariado de Petrogrado dirigido pelos bolcheviques pôs fim à aventura de Kornilov. Isto aumentou a influência bolchevique entre os trabalhadores russos. A correlação de forças nos sovietes alterou-se rapidamente a favor dos bolcheviques.

Lênin chegou à conclusão de que a insurreição estava agora na ordem do dia. Os bolcheviques já eram maioria nos dois sovietes mais importantes, a vanguarda do proletariado revolucionário. “A história não nos perdoará se não tomarmos o poder imediatamente”.

As posições de Lênin sofreram uma dura oposição de Kamenev e Zinoviev. Lênin resolveu voltar a Petrogrado para travar esta batalha decisiva no interior do Partido Bolchevique. Na reunião do CC em 10 de outubro as posições de Lênin saem vitoriosas por 10 votos contra 2. Em 16 de outubro realizou-se uma assembléia extraordinária do CC que decidiu pela imediata deflagração da insurreição.

Kamenev e Zinoviev discordaram da posição do CC e denunciaram a decisão sobre a insurreição na imprensa, comprometendo o movimento. Lênin chegou a pedir a expulsão dos dois bolcheviques por traição ao partido e à revolução.

Em 7 de novembro de 1917 (25 de outubro), coincidindo com a abertura do II Congresso dos Sovietes, os Bolcheviques tomaram o poder em nome do proletariado revolucionário. “Vamos proceder agora à construção da ordem socialista”, estas foram as primeira palavras do discurso que Lênin faria na plenária do congresso dos sovietes.

Os bolcheviques no poder

A tomada do poder havia sido relativamente fácil quando comparada na luta titânica que o proletariado russo teria que sustentar para mantê-lo. A Rússia entre 1918 e 1921 foi palco de uma sangrenta guerra civil entre os exércitos brancos, contra-revolucionários e o jovem exército vermelho. A guerra interna foi agravada com a ocupação estrangeira. Mais de 14 países capitalistas interviram na Rússia buscando sufocar a Revolução, a oposição aos bolcheviques utilizava-se de todos os métodos, inclusive o terrorismo.

Em agosto de 1918 uma militante da ala direita dos social-revolucionários atingiu Lênin com três tiros. Trotsky também sofreu atentado. Em Moscou um grupo terrorista mandou pelos ares a sede do Partido Bolchevique causando 12 mortos e dezenas de feridos, inclusive Bukharin.

Em 1921 os exércitos contra-revolucionários já haviam sido derrotados, mas a economia russa estava destruída. A produção industrial em 1921 estava reduzida a apenas 13% do período anterior à guerra, o proletariado industrial havia quase desaparecido, ficando reduzido de alguns milhões para poucas centenas de milhares de indivíduos extenuados pela guerra civil. A crise levou a um aumento do descontentamento popular, especialmente entre os camponeses.

Lênin defendeu então substituir o comunismo de guerra pela Nova Política Econômica. O comunismo de guerra havia sido criado em 1918 para responder a uma situação emergencial causada pela Guerra Civil.

Afirmava Lênin no X Congresso do Partido: “Foram a guerra e a ruína que nos forçaram ao ‘comunismo de guerra’. Não foi, nem podia ter sido, uma política que correspondesse às tarefas econômicas do proletariado. Tratou-se de um expediente temporário”.

O NEP acabou com a requisição forçada de cereais dos camponeses e estabeleceu uma liberdade de comércio maior, estabeleceu o imposto em espécie e fez concessões aos capitalistas estrangeiros que quisessem investir na Rússia.

Lênin travou várias polêmicas dentro do Partido bolchevique principalmente com as correntes esquerdistas e as posições de Trotsky. Os esquerdistas se posicionaram contra a paz de Brest-Litovsky fundamental para a consolidação interna da revolução socialista, se colocaram contra a proposta da Nova Política Econômica. Outro palco da luta entre esquerdistas, trotskistas e as posições leninistas se deu no campo do entendimento do papel dos sindicatos e do partido no processo de construção do socialismo. Lênin considerava que os sindicatos, na primeira fase da ditadura do proletariado, deveriam ser “organizações amplas” que congregassem o conjunto da classe trabalhadora e não só os trabalhadores comunistas. Eles seriam uma importante correia de transmissão entre as posições do Partido e as massas. Os sindicatos não deveriam ser incorporados ao Estado ou ao Partido bolchevique. Eles precisavam ter alguma autonomia.

Trotski, pelo seu lado, defendeu um maior controle estatal sobre os sindicatos; defendeu, inclusive, a sua militarização. Afirmou ele: “É preciso formar patrulhas punitivas e pôr em campos de concentração os que desertam do trabalho”. Continuou na mesma linha: “O Estado Operário possui normalmente o direito de forçar qualquer cidadão a fazer qualquer trabalho em qualquer local que o Estado escolha”.

Contrapôs Lênin: “os sindicatos são uma organização da classe dirigente, dominante e governante. Mas não é uma organização estatal, não é uma organização coercitiva, uma organização educadora, uma organização que atrai e instrui, é uma escola, escola de governo, escola de administração, escola de comunismo”.

Em contraposição às teses autoritárias de Trotsky, a oposição de esquerda, agora denominada “Oposição Operária”, se aproximou perigosamente das teses anarquistas. A oposição operária defendeu que toda administração econômica da República Soviética fosse entregue aos Sindicatos. Propôs a expulsão de todos os militantes que não fossem operários e que houvessem ingressado no Partido depois de 1919.

Lênin condenou o desvio sindicalista que pretendia pôr os sindicatos acima dos sovietes e do Partido Comunista. Afirmou Lênin: “O marxismo ensina-nos (…) que só o partido político da classe operária (…) está em condição de agrupar educar e organizar a vanguarda do proletariado e de toda massa trabalhadora, o único capaz de resistir às inevitáveis vacilações pequeno-burguesas desta massa, as inevitáveis tradições e recaídas na estreita visão gremial ou nos preconceitos gremiais entre o proletariado, e dirigir todo o conjunto das atividades de todo o proletariado (…) dirigi-lo politicamente e, através dele, dirigir todas as massas trabalhadoras (…) Desse modo, passa-se por cima e elimina-se em absoluto o papel dirigente, educativo e organizativo do Partido em relação aos sindicatos (…)”.

Lênin negou a tese da oposição operária que defendia o controle das empresas pelos sindicatos. Mas afirmou: “seria completamente errôneo interpretar esta verdade indiscutível no sentido de que se negue aos sindicatos o direito de participar na organização socialista da indústria e na direção da indústria do Estado”.

Por fim Lênin constatou o caráter contraditório dos sindicatos sob a ditadura do proletariado. “De um lado, seu principal método de ação é a persuasão; de outro, como participam no poder estatal, não podem negar-se a participar na coação. De um lado, sua principal tarefa é a defesa dos interesses das massas trabalhadoras (…) mas, ao mesmo tempo, renunciar a pressão sendo participante do poder estatal e construtores da economia nacional em seu conjunto. De um lado, devem trabalhar no estilo militar, uma vez que a ditadura do proletariado é a guerra de classe mais encarniçada (…), e de outro, precisamente aos sindicatos, menos que em qualquer outro organismo, são adequados os métodos especificamente militares.

De um lado devem adaptar-se as massas, ao nível em que elas se encontram; e de outro, de nenhum modo, devem alimentar os preconceitos e o atraso das massas, mas elevá-las constantemente a um nível cada vez mais alto etc etc.”

A IC e a luta contra o esquerdismo

Em meio à guerra civil os bolcheviques e os grupos de esquerda da social-democracia resolveram fundar uma nova Internacional. O congresso de fundação da 3ª Internacional, ou Internacional Comunista, ocorreu em março de 1919. Em 1920, às vésperas do 2º Congresso da IC, Lênin escreveu Esquerdismo, doença infantil do comunismo. A obra serviu como principal instrumento da luta teórica e ideológica contra os desvios esquerdistas que ganhavam corpo no jovem movimento comunista internacional

Depois de demarcar o campo com o reformismo da 2ª Internacional no pós-1914, vencer o esquerdismo passava a ser uma condição essencial para construção de partidos comunistas com ampla influência de massa e capazes de, efetivamente, se constituírem enquanto vanguardas do processo revolucionário que fora aberto com a grande revolução de outubro de 1917.

A obra de Lênin ajudou os jovens partidos comunistas a derrotarem o esquerdismo em suas fileiras e se forjarem enquanto partidos verdadeiramente revolucionários, capazes de articular os princípios do marxismo e uma prática política ampla e flexível. Esta obra é um verdadeiro compêndio da estratégia e da tática leninistas, é a consolidação das experiências dos operários e bolcheviques no processo revolucionário russo iniciado nos primeiros anos deste século.

Defende a necessidade de os Partidos Comunistas atuarem nos sindicatos conservadores (no qual se encontravam as massas atrasadas) e nos parlamentos burgueses.

Lênin advoga também a necessidade de se estabelecer acordos e compromissos na luta política revolucionária. Afirmou ele: ao contrário do que imaginam os esquerdistas a história do bolchevismo, antes e depois da Revolução de Outubro, está cheia de casos de manobras, de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive os partidos burgueses. Não se deve, portanto, “renunciar de antemão a qualquer manobra, explorar os antagonismos de interesses (…) que dividem nossos inimigos, renunciar a acordos e compromissos com possíveis aliados (ainda que provisórios, inconsistentes, vacilantes, condicionais)”. Esta foi a lição ensinada pela revolução russa e sistematizada pela 3ª Internacional sob a direção de Lênin.

A luta interna no partido e a morte de Lênin

A luta interna chegou a tal ponto que ameaçou a existência do Partido bolchevique. No décimo congresso, em março de 1921, foi aprovada uma resolução de Lênin que proíbe a existência de correntes organizadas no interior do Partido Bolchevique. Dos textos foram aprovados Resolução sobe desvio sindicalista e anarquista no nosso partido e Resolução sobre a unidade do Partido.

Afirmou Lênin: “É necessário que todos os operários conscientes compreendam com clareza o caráter pernicioso e inadmissível de todo o fracionismo, o qual, mesmo apesar do desejo dos representantes de alguns grupos de manter a unidade do partido, conduz inevitavelmente na prática ao enfraquecimento do trabalho harmonioso e às tentativas acentuadas e repetidas dos inimigos do partido governamental, que se infiltram nele, de aprofundar as suas dimensões e de servir-se delas para os objetivos da contra-revolução”.

Em maio de 1922 Lênin sofreu seu primeiro ataque cerebral que o deixou paralisado e sem poder falar e escrever. Em outubro ele se recuperou parcialmente. Mas, mesmo nos períodos mais difíceis, ele continuou a se preocupar com a vinculação do partido com as massas operárias e nos seus últimos anos dedicou especial atenção ao problema da burocratização do Partido e do Estado soviético.

Procurou estabelecer um contrapeso real para o poder do partido e do Estado. No texto sobre os sindicatos de 1922, defendeu a autonomia dos sindicatos em relação ao Estado e mais do que isto os sindicatos deveriam ser um instrumento de defesa dos operários contra o seu próprio Estado, que era um Estado operário com uma grave degeneração burocrática.

Os últimos textos de Lênin são dramáticos, são obras de um revolucionário profundamente preocupado com o crescimento da burocracia que começava a corroer o Estado e o partido. Ele clama pela maior abertura do partido aos operários fabris. Reprovou duramente os excessos da burocracia e começava a esboçar as raízes deste processo de burocratização: a unificação do aparelho de Estado e a Estrutura do Partido Comunista, a confusão entre ditadura do proletariado e a ditadura do Partido Comunista. Mas Lênin não teve tempo para desenvolver a sua crítica e construir uma proposta alternativa à burocratização. Em janeiro de 1924 sofreu um novo ataque e veio a falecer no dia 21.

*Augusto César Buonicore, Historiador, doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp, membro do Comitê Estadual de São Paulo, do Comitê Central do PCdoB e do Conselho de Redação da revista Debate Sindical

Fonte: Vermelho.org.br

About these ads

Sobre Denis Wesley

Pode invadir ou chegar com delicadeza Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir... Não grite comigo, eu tenho o péssimo hábito de revidar... Tenha vida própria, me faça sentir saudades... Conte umas coisas que me façam rir... Acredite nas verdades que digo e nas mentiras, elas serão raras, mas sempre por uma boa causa... Respeite meu choro... Deixe-me sozinho, só volte quando eu chamar, e não me obedeça sempre é que eu também gosto de ser contrariado... Invente um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o inverta as vezes... Então: Sou Denis Wesley, muito prazer.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 620 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: