RSS

Arquivo do mês: junho 2009

Brasil concentrava 164 mil indústrias em 2007, revela pesquisa do IBGE

Brasil concentrava 164 mil indústrias em 2007, revela pesquisa do IBGE

Além disso, neste mesmo ano, o setor empregava 7,3 milhões de pessoas em todo o País; a região Sudeste tinha mais empresas

SÃO PAULO – Entre 2003 e 2007, o número de empresas industrias no País (com cinco ou mais trabalhadores) cresceu 17,99%, passando de 139 mil unidades para 164 mil. Além disso, nesse mesmo período, o número de funcionários no setor também registrou uma alta, de 23,73%. Com isso, o setor que contratava 5,9 milhões de pessoas trabalhando, em 2003, apresentou, em 2007, 7,3 milhões de empregados.

Os dados fazem parte da pesquisa “Industrial Anual – Empresa 2007″, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e foram divulgados nesta sexta-feira (26).

Setores

Em termos do valor de transformação industrial, no ano de 2007, as atividades com maior destaque foram: refino do petróleo e produção de álcool (15,3%); alimentos (12,2%); produtos químicos (10,3%); fabricação e montagem de veículos automotores (8,5%), metalurgia básica (7,9%) e máquinas e equipamentos (6%). Assim, juntos, todos esses segmentos concentravam 60% do valor de transformação industrial brasileiro.

Com relação ao número de empresas, o setor de vestuário e acessórios era responsável por 14,7% de todas as industrias que atuavam no Brasil, com 24.125 empresas no ano de 2007.
Logo em seguida, surgiram as indústrias do segmento de alimentos com 13% de todas as empresas (21.408 unidades); e os produtos de metal com 10,2% (16.732 companhias). Por outro lado, as industrias ligadas à área do fumo foram as com menor representatividade, com 78 unidades.

Regiões

As empresas industriais estão localizadas principalmente nas seguintes regiões: Sudeste (52,9%) e Sul (27,4%). Além disso, estas regiões também registravam o maior valor de transformação industrial, com 62,7% e 18,5%, respectivamente. Tais resultados podem ser explicados pela maior densidade e diversificação da estrutura industrial nessas regiões.
O Nordeste concentrava 11% de todas as indústrias do País; a região Centro-Oeste era responsável por 5,7% do número de empresas desse setor e o Norte abrigava apenas 3%.

IBGE: setor industrial abriu 25 mil empresas em 5 anos

IBGE: setor industrial abriu 25 mil empresas em 5 anos

O número de empresas industriais no País (com cinco ou mais trabalhadores) cresceu em 25 mil, passando de 139 mil para 164 mil entre 2003 e 2007, enquanto o total de trabalhadores ocupados passou de 5,9 milhões para 7,3 milhões de pessoas, segundo a Pesquisa Industrial Anual (PIA), divulgada hoje pelo IBGE. O salário médio pago nessas empresas aumentou 8,8% em termos reais (descontado a inflação) no período de cinco anos.

Do total de empresas industriais em atividade em 2007, o segmento mais empregador era o de alimentos (18,6% do total de ocupados), seguido por vestuário e acessórios (7,8%), máquinas e equipamentos (6,9%), produtos de metal (6,1%), fabricação e montagem de veículos automotores (5,6%) e calçados e artigos de couro (5,5%) que completam o conjunto de setores que empregaram aproximadamente 50% do pessoal ocupado na indústria.

Naquele ano, os principais destaques no salário médio mensal, em termos de salários mínimos, ficaram com os ramos de refino de petróleo e produção de álcool (9,8 mínimos), seguido por fumo (7), produtos químicos (7), fabricação e montagem de veículos automotores (6,5); outros equipamentos de transporte (6,4), metalurgia básica (6,3) e material eletrônico e de aparelhos e equipamentos de comunicações (5,7).

O documento de divulgação da pesquisa informa ainda que, em 2007, as empresas industriais apresentaram receita líquida de vendas da ordem de R$ 1,5 trilhão (uma média de R$ 9,2 milhões por empresa).

Seminário debate democratização da mídia

Seminário debate democratização da mídia

O portal Vermelho, com apoio do Sindicato dos Engenheiros de São Paulo e da Fundação Maurício Grabois, realizará nos dias 27 e 28 de junho o seminário “Propostas concretas para a democratização dos meios de comunicação”. A iniciativa visa contribuir na preparação da Conferência Nacional de Comunicação, marcada para dezembro, e que será precedida das etapas municipais e estaduais entre os meses de julho-outubro. O objetivo é envolver mais pessoas neste processo de mobilização e contribuir na elaboração das propostas dos movimentos sociais. O Jornal dos Engenheiros publicou a seguinte matéria sobre o seminário:

O desafio da conferência nacional de comunicação

Após intensa pressão dos movimentos sociais, o presidente Lula finalmente convocou a primeira Conferência Nacional de Comunicação. Foi preciso dobrar a resistência dos barões da mídia, que manipulam corações e mentes de milhões de brasileiros, possuem expressiva e ativa bancada de senadores e deputados e estão infiltrados no próprio Palácio do Planalto, através do ministro das Comunicações – ou melhor, ministro da TV Globo –, Hélio Costa. A conferência está marcada para os dias 1, 2 e 3 de dezembro e será precedida pelas etapas municipais e estaduais, a partir de julho. Será a primeira oportunidade na história do país para a sociedade debater o papel da mídia.
Do ponto de vista do sindicalismo, não há dúvidas de que a mídia existente no país não serve à democracia e nem à luta dos trabalhadores. Ele vive desinformando a população, criminalizando os movimentos sociais e atacando os direitos trabalhistas. Qualquer ação sindical é tratada como “bagunça”, como fator de “caos no trânsito”. As leis trabalhistas são encaradas como privilégios; a previdência social é apontada como “gastança”; os sindicatos são rotulados de “corporativos e atrasados”. A mídia hegemônica serve aos interesses do grande capital. Atualmente, ela ocupa o papel do “partido da direita”, atacando as lutas sociais e os governos minimamente progressistas.
Diante deste quadro, a Conferência Nacional de Comunicação ganha enorme importância. Além de diagnosticar seu papel nefasto à sociedade, esta será a oportunidade para apresentar propostas concretas para a democratização da mídia. Medidas como a do fortalecimento da rede pública, a da revisão dos critérios de concessão às empresas privadas, a do incentivo às rádios comunitários e aos veículos alternativos ou a do estímulo à inclusão digital estarão na pauta desta conferência. A ditadura midiática, que fez de tudo para evitar a conferência, agora tentará evitar as mudanças mais profundas neste setor. Não dá para vacilar nesta batalha de caráter estratégico.
Com este visão, o Portal Vermelho, com o apoio do Sindicato dos Engenheiros e da Fundação Maurício Grabois, realizará nos dias 27 e 28 de junho o seminário “Propostas concretas para a democratização da comunicação”. O evento terá a presença dos mais renomados especialistas no tema. Além de discutir as medidas para o enfrentamento da ditadura midiática, ele abordará as experiências recentes em outros países do continente, que também padecem do mesmo mal. O objetivo do seminário é ajudar na construção de uma plataforma de propostas que sirvam para municiar os ativistas dos movimentos sociais nas conferências municipais, estadual e nacional.

A programação do evento é a seguinte:

Seminário: “Propostas concretas para a democratização da comunicação”

Dias 27 e 28 de junho.

Local: Auditório do Sindicato dos Engenheiros de São Paulo.(Rua Genebra, centro, ao lado da Câmara Municipal da capital paulista)

Dia 27 de junho (sábado), às 9 horas.

“O papel da mídia na atualidade”

- Venício de Lima – professor da UNB e autor do livro “Mídia: crise política e poder no Brasil”;

- Marcos Dantas – professor da PUC/RJ e autor do livro “Agenda democrática para as comunicações”;

- Altamiro Borges – diretor do Portal Vermelho e autor do livro “A ditadura da mídia”;

Às 14 horas.

“As mudanças legais na América Latina”

- Beto Almeida – integrante do comitê diretivo da Telesur;

- João Brant – integrante da comissão de auditória da radiodifusão do Equador e do Intervozes;

- Celso Augusto Schröder – presidente da Federação dos Jornalistas da América Latina e da FNDC;

Dia 28 de junho (domingo), às 9 horas.

“As propostas dos poderes Executivo e Legislativo”

- Tereza Cruvinel – presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC);

- Luiza Erundina – deputada federal do PSB/SP;

- Cida Diogo – deputada federal do PT/RJ; (*)

- Manoela D’Ávila – deputada federal do PCdoB;

Às 14 horas.

“As propostas dos movimentos sociais brasileiros”

- Lucia Stumpf – presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE);

- Rachel Moreno – pesquisadora do Observatório da Mulher;

- Bia Barbosa – Coletivo Intervozes;

- Sérgio Murilo – presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)

- Vagas limitadas

- Prazo para inscrições: 22 de junho

- Taxa de inscrição: R$ 50,00

- Promoção: Portal Vermelho

- Apoio: Sindicato dos Engenheiros de São Paulo e a Fundação Maurício Grabois.

As inscrições devem ser feitas diretamente no baner do sítio do Vermelho – www.vermelho.org.br

Sociologia e Cinema

Sociologia e Cinema é possível?
1. Por que um Projeto de Sociologia e Cinema ?
A sociologia é a disciplina da modernidade do capital que surgiu com capitalismo industrial. A sociologia crítica é a ciência social capaz de apreender as múltiplas determinações do ser social capitalista inscritas na narrativa fílmica. Com certeza, existem muitos projetos pedagógicos que buscam utilizar, como mero recurso ilustrativo, o filme para discutir temas das disciplinas de história, psicologia, filosofia, educação e direito. Entretanto, o Projeto Tela Crítica busca ir além do uso do filme apenas como mero recurso ilustrativo de temas sociológicos. Aliás, visa ir além do próprio objeto em si da investigação sociológica. Na verdade, trata o filme como pre-texto para a reflexão critico-sociológica no sentido amplo da palavra “sociologia”, capaz de propiciar, um campo de experiencia critica voltado para o conhecimento verdadeiro da totalidade social. O Projeto Tela Crítica busca “dialogar” com elementos sociológicos sugeridos pelo filme. Ora, o filme reflete (e representa) uma totalidade social concreta, compondo um conjunto complexo de sugestões temáticas que podem ser apropriadas para uma reflexão critico-sociológica. Mesmo um drama psicológico ou um filme de terror, por exemplo, possuem, em última instância, elementos significativos que refletem (ou representam) determinadas traços da vida social concreta. Enfim, o Projeto Tela CRítica exige, de cada um de nós, imaginação sociológica. É através da análise critica do filme que podemos nos apropriar de sugestões temáticas e desenvolver determinadas refelxões histórico-sociológicas. Não compete ao filme explicar. O filme apenas sugere. É a teoria sociológica critica (e dialética) que é capaz de, a partir das “sugestões” do filme, contribuir para o conhecimento social. Entretanto, a teoria critica apenas nos sugere o ponto de partida. O itinerário de reflexão critica é o percurso essencial, inclusive desvelando novas determinações do objeto social. Não podemos meramente “aplicar” a teoria critica ao filme. A idéia é discutir a sociedade a partir do filme, mais do que discutir o filme a partir da sociologia.
2. Com o Projeto Tela Crítica, o sociólogo torna-se crítico de cinema?
O Projeto Tela Crítica não é um projeto de sociologia do cinema, mas sim de sociologia e cinema. Para nós, o filme é apenas um pré-texto para uma reflexão critica, totalizante e totalizadora, sobre a sociedade burguesa. É claro que, ao utilizarmos o filme no processo pedagógico, somos obrigados a passar pela instância do meio filmíco, isto é, a forma filmica e sua dimensão estética, mediação ineliminável da Sétima Arte. Entretanto, nossa proposta é irmos além da Tela, desenvolvendo discussões sociológicas a partir de eixos temáticos sugeridos pelo filme; desvelando, através da análise critico-dialética, categorias sociais e elementos reflexivos não necessariamente postos conscientemente pelo diretor ou roteirista do filme. Enfim, a verdadeira obra de arte é superior (no sentido de ir além) ao próprio criador, tanto no sentido ontológico, isto é, não existe a mera identidade sujeito-objeto, quanto no sentido epistemológico, ou seja, é capaz de propiciar sugestões heuristicas para além da intencionalidade do próprio criador. Todo filme possui uma dimensão estético-formal, que é objeto da teoria do cinema propriamente dita, e uma dimensão político-sociológica, que contém, implicitamente, traços e pistas essenciais compositivos da sociabilidade burguesa. Todo filme é, deste modo, tanto reflexo sociológico, quanto representação ideológica do mundo burguês. É claro que o reflexo sociológico pode estar mistificado, invertido ou obliterado pela representação ideológica. Por isso torna-se necessário a análise crítica. Por isso, chama-se Tela Crítica: quer dizer, ir além da Tela. O que significa que a análise crítica é também uma análise de desconstrução racional do objeto filmico, apreendendo e desenvolvendo de forma lógico-categorial suas sugestões temáticas. O operador da metodologia Tela Crítica precisa conhecer, se possível, as teorias do cinema, enfim, buscar dominar os meandros da Sétima Arte, isto é, conhecer a morfologia estética, a psicologia e a sociologia do cinema. Isto é, conhecer os elementos da forma do filme. Isto ajuda a aprimorar a análise critica do objeto filmico. Ou seja, dominar o meio é importante. Deste modo, a análise critica do filme pressupõe um momento de critica do cinema. Mas, é preciso ir além, senão ficaremos tão-somente na análise da forma do filme. Na verdade, temos a obrigação de desenvolver a problemática social sugerida pelo filme (uma totalidade social concreta com suas múltiplas instâncias sociais). É importante apreender os eixos temáticos (eixo temático principal e subtemas vinculados) e tratá-los a partir da teoria social crítica, mobilizando, deste modo, a sociologia, antropologia, psicologia, história e economia. É a teoria critica e seus elementos categoriais que contribuem para desenvolver e explicar, num primeiro momento, os elementos sugeridos pelo filme. Como a proposta do Projeto Tela Crítica é a análise social crítica, o melhor referencial teórico-analítico ou principio explicativo do mundo burguês é o marxismo dialético, aberto para as contribuições das ciencias sociais e dos clássicos sociológicos (Émile Durkheim e Max Weber, por exemplo) e da psicanálise (a psicanálise é a ciência crítica da subjetividade burguesa, apesar do viés biologicista ou psicologista do freudismo). Enfim, quanto mais ilustrado, no sentido cultural, e aberto, no sentido epistemológico, isto é, capaz de apreender as mais diversas contribuições da teoria social do século XIX e do século XX – psicologia/psicanálise, antropologia, história, filosofia, etc, mais o operador do Tela Crítica será capaz de apreender a riqueza dos elementos da totalidade social concreta pressupostas nos filmes.
3. Todos os filmes contribuem para a Tela Crítica?
Nem todos os filmes têm o mesmo valor heurístico. Num primeiro momento, é importante utilizar filmes clássicos, filmes de grandes diretores e de mestres-artesãos do cinema mundial. A grande Arte, a verdadeira arte realista, é pródiga. O cinema viveu tempos áureos no século XX, com sua capacidade de explicitar, de forma magistral, os nexos problemáticas da modernidade tardia do capital. Os clássicos do século XX foram W. Griffith, Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold Lloyd, Frank Capra, Fritz Lang, William Wyler, John Huston, Stanley Kubrick, Federico Fellini, Luchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Vittorio De Sica, Roberto Rosselini, Ingmar Bergman, Eisenstein, Tarkovski, Jean-Luc Godard, Michelangelo Antonioni e muitos outros. É com os filmes clássicos e seus legitimos herdeiros estéticos contemporâneos que podemos tirar o melhor do Projeto Tela Crítica. Assiste-se hoje muito pouco aos clássicos do cinema e se esquece que a magia do cinema deve muito àqueles que conseguiram aprimorar a Sétima Arte no século XX. Quando dizemos aprimorar o cinema, dizemos não apenas aprimorar a capacidade técnica-formal, insuperável em nosso dias com os magistrais efeitos especiais, mas principalmente a capacidade estético-critica, que tende hoje a se degradar, tendo em vista roteiros banais e a lógica de mercado hegemônica que rebaixa as narrativas ao gosto comum das massas e à sua capacidade obtusa de entendimento. Entretanto, o Projeto Tela Crítica se utiliza muito dos filmes contemporâneos, capazes de explicitar temas sociológicos que tenham compromissos com a arte realista (o que implica o realismo em todas suas variantes estéticas, não desprezando, é claro, os generos ficção-científica ou o genero horror). Apesar dos clássicos serem indispensáveis e necessários, eles não são suficientes. Todo filme realista pode ser objeto de analise fílmica. Além disso, mesmo do “lixo” da indústria cultural é possível tirar sugestões criticas interessantes, capazes de desvelar, desfetichizar/desmitificar a lógica do sistema do capital e a sociabilidade do mundo burguês, pois é isso que interessa explicitar. Finalmente, uma das funções do Tela Crítica é criar uma nova sensibilidade estética, uma cultura filmica comprometida com os valores humanistas e com a consciencia critica do mundo burguês.
4. Por que o compromisso do Tela Crítica com a Critica Social?
Apenas a análise crítico-dialética é capaz de vislumbrar as determinações essenciais da totalidade social concreta, apreendendo a riqueza múltipla das sugestões heuristicas propiciadas pela narrativa fílmica, com seus detalhes interessantes sobre a sociabilidade burguesa. A dialética é a ciência da vida, nos disse Hegel. A arte imita a vida. Enfim, o cinema é a maior expressão (reflexo/representação) da vida moderna. Só uma análise dialética, materialista e histórica, comprometida com a crítica social, é capaz de vislumbrar a riqueza das múltiplas determinações que compõem a narrativa filmica da grande obra. O positivismo é infértil e medíocre. É incapaz de imaginação sociológica. Ele não consegue ir além da estrutura narrativa dada e cultiva meras ilações formalistas. É incapaz de apreender as contradições objetivas da estrutura social e seus reflexos dialéticos na trama artistica. É incapaz de tratar da totalidade concreta e da dialética entre a parte e o todo, individuo e sociedade, passado e presente. Enfim, a crítica social que está imbuída do compromisso prático-material com a “negação da negação”, é capaz de ver e apreender as contradições do real social e histórico e seus reflexos estéticos, tendo em vista que são elas, as contradições do todo social burguês, que nos permitem vislumbrar o para além do que é dado – pelo menos enquanto utopia (e possibilidade) concreta.
5. Como o Projeto Tela Crítica se diferencia de outrs projetos pedagógicos que utilizam o filme?
O filme tem sido utilizado como elemento de reflexão pedagógica em várias áreas de estudo acadêmico: historia, psicologia, psicanálise, filosofia, direito, etc. Na área de história e na área de educação existe uma larga reflexão sobre a utilização do filme em sala de aula ou do filme como objeto de pesquisa em educação. Na verdade, na área de educação o que existe não é propriamente análise de filme, mas investigação sobre o vínculo educação e cinema. É quase uma sociologia educacional do filme. O educador, ao elaborar a análise do filme, é obrigado a recorrer ao instrumental heurístico da sociologia, psicologia/psicanálise, antropologia ou historia. O mesmo ocorre com professores de direito, por exemplo, que utilizam o filme para uma reflexão sobre a prática jurídica. A análise do filme é um meio de reflexão sobre a prática profissional (no caso dos educadores, utiliza-se o filme nesse sentido – meio de reflexão da prática pedagógica). Inclusive, até professores de quimica têm utilizado o filme em sala de aula para tratar de contéudos da disciplina. Enfim, a segmentação das práticas pedagógicas que utilizam o filme é bastante interessante, pois demonstra ser o filme, a verdadeira “linguagem” universal. Entretanto, o filme utilizado por tais disciplinas não possui propriamente caráter heurístico. Ele não incita a investigação científica propriamente dita, mas apenas contribui para a validação (ou não) de determinados contéudos disciplinares ou práticas profissionais. O filme é utilizado como mera ilustração. A análise do filme não é um exercicio reflexivo em si, mobilizando categoriais de análise e principios explicativos. Para o Tela Crítica, o filme é uma totalidade social concreta in vitro, mediada, é claro, pelos elementos da representação ideológica que a constitui. É claro que, muitas vezes, o filme é objeto de investigação em si e não meio para uma reflexão disciplinar sobre o mundo sócio-histórico. É o que ocorre, por exemplo, com a sociologia do cinema. Entretanto, o Projeto Tela Crítica utiliza o filme de forma diferenciada. Ele é um projeto pedagógico no sentido latu do termo. Ele busca agir sobre (e com a) subjetividade das pessoas através da análise do filme. Busca dar vida ao conceito através da arte, antropomorfizando o que a ciência social desantropomorfizou. O filme incita (e excita) a reflexão critica.
6. Como o Projeto Tela Crítica trata as abordagens divergentes na análise de filmes?
É claro que existem múltiplas leituras de uma narrativa filmica. O que não quer dizer que todas as abordagens (ou análises) de filme tenham o mesmo valor heurístico, no sentido de apreender as determinações essenciais do todo concreto da obra filmica. Existem boas e más interpretações de filme. Algumas se detém nos elementos contingentes e não conseguem apreender os nexos essenciais sugeridos. Uma boa análise de filme possui coerência lógica interna, devendo sempre se basear em fatos narrativos e não em mera suposição subjetiva de quem analiza. Às vezes, um detalhe é importante, mas não é o essencial. O que não quer dizer que devemos desprezar os detalhes da narrativa. O que devemos é apreender os nexos essenciais da estrutura narrativa e seus temas significativos, capazes de serem desenvolvidos pela análise crítica. A melhor teoria explicativa do filme é aquela que consegue dar mais significados heuristicos ao maior número de elementos narrativos do filme.
7. Existe uma Metodologia de Análise de Filmes do Projeto Tela Crítica?
É possível discriminar os seguintes passos para uma análise crítica do filme: (1) assistir o filme, de preferência em cópias de ótima qualidade de imagem e som, buscando preservar os principais elementos da forma filmica. Não podemos nos esquecer que cinema é imagem e som em movimento. É importante garantir tela grande e ótima qualidade de exibição, elementos capazes de envolver, no plano subjetivo, o público. O primeiro impacto emocional do filme é decisivo. O filme que consegue mobilizar a inteligencia emocional do público é aquele capaz de contribuir para o projeto do cinema como experiencia crítica. A exibição é o primeiro momento da catarse analítico-critica, que é a proposta do projeto pedagógico Tela Crítica; (2) apreender a estrutura narrativa e seus elementos primários e secundários. É importante desconstruir a narrativa filmica, com seus múltiplos personagens e situações-chaves. O rigor analítico e a precisão de detalhes é decisiva; (3) discriminar o eixo temático principal e os temas significativos primários e secundários sugeridos pelo filme, ou seja, seus eixos temáticos principais e de segunda ordem. É a partir daí que podemos refletir, de forma crítica, sobre o filme. E finalmente, a análise do filme a partir deste desenvolvimento teórico-categorial. E mais: o desenvolvimento categorial para além do filme, remetendo a outros filmes do gênero. Podemos, deste modo, discriminar um movimento de ida: a análise teórico-categorial se apropria do filme. Mas o verdadeiro desafio é provocar o movimento de volta: a obra filmica contribuindo para o desenvolvimento teórico-categorial. O que exige estudo do objeto sociológico sugerido pelo filme e o desenvolvimento de seu conteúdo. É o momento da síntese conceitual.
8. Onde utilizar a Metodologia de Analise de Filme Tela Critica?
Pode ser utilizada em escolas de ensino médio e ensino superior com a devida adaptação, pois deve-se levar em consideração o grau cognitivo do público-receptor. Além disso, é um instrumento precioso nas atividades de formação política e social (em geral, sindicatos e partidos têm desprezado o uso do filme na pedagogia politica). A análise do filme pressupõe sujeitos de recepção ativos e dispostos a uma experiência crítica. Não é meramente “colar” a ideologia no filme, mas utilizar a obra de arte para desenvolver uma consciência crítica. Deste modo, o Projeto Tela Crítica é incompatível com a análise dogmático-sectária. Algumas vezes, a utilização do filme como mera ilustração de conteúdo dado em sala de aula possui certo viés dogmático. O Projeto Tela Critica se propõe a fazer o caminho inverso da indústria cultural que quer tão-somente entreter o público – o importante é fazê-los sentir e refletir.
9. Como deve atuar o operador da Metodologia Tela Crítica?
O operador do Tela Crítica deve atuar como facilitador ou mediador da prática reflexiva, procurando evitar a dispersão que é comum numa análise de filme. O operador deve instigar o estudo prévio dos elementos teórico-analíticos e seu arcabouço teórico-categorial. Análise de filme é dificil, pois além do dominio criativo da teoria sociológica explicativa, exige imaginação sociológica. Não basta a teoria, é preciso, muitas vezes, ir além dela, re-criando-a. O maior perigo da análise do filme é o subjetivismo. Deve-se “cruzar” as interpretações e buscar, no interior da estrutura narrativa, seu sentido imanente. É de fundamental importância a capacitação teórico-analitica do operador da metodologia Tela Crítica. Aliás, sem a capacitação teórico-analítica não existe análise critica. Como destacamos no ensaio “A hermenêutica do filme”, o papel do sujeito-receptor é deveras importante. É ele que apreende os significados imanentes da obra filmica. Mas a apreensão critica exige um público qualificado. Um operador Tela Crítica deve saber utilizar o meio narrativo para educar o público sobre o significado concreta de categorias da dialética social. Uma categoria social é uma forma de ser, isto é, uma determinação da existência. Esta é a função pedagógica do Projeto Tela Crítica. Parafraseando Picasso poderíamos dizer que o filme é uma mentira, mas uma mentira que nos ensina a verdade. Mas para isso precisamos estar abertos à apreender a verdade sociológica através da análise dialética. É interessante o confronto de análises de filme, pois é através deste confronto analítico que a dialética materialista demonstra sua superioridade heurística em relação às demais abordagens sociológica ou psicológica.

Fundadores do Pensamento no Século XX – A Sociologia de Weber

Qual é o grupo social, que dentro da Alemanha, está em condições de dirigir essa sociedade no rumo da constituição de um estado nacional soberano, realmente forte? nenhuma nação pode se dar ao luxo de ocupar uma posição central num continente, ter riqueza, poderio de todo o tipo, população e tudo o mais, e ficar parada diante disso.? Gabriel Cohn, professor de ciência política da USP, vai levantar análises e questões a respeito de uma figura que de fato marcou o século XX: Max Weber, considerado uma referência como autor da grande obra no que diz respeito ao pensamento na área de ciências sociais. Gabriel Cohn trata do pensamento de Max Weber a respeito das linhas de força, ações e agentes dessas ações dentro da teia de relações que é a sociedade.
Diretor – Gabriel Cohn
Duração do Filme: 50 minutos
Gêneros: Documentário
Observação – Considerado muito bom pela crítica

A retomada e o cinema político italiano dos anos 60 e 70

A retomada e o cinema político italiano dos anos 60 e 70

Marco Alexandre de Aguiar é Doutor em História pela Unesp de Assis.

—————————-

Resumo: Durante o governo do presidente Fernando Collor de Melo, o cinema brasileiro praticamente desapareceu. A partir de 1994 há um “ressurgimento” deste cinema, com uma produção razoável de filmes. Esse período convencionou-se chamar de retomada do cinema brasileiro. Este artigo realiza uma reflexão a respeito, com uma análise de dois filmes, Lamarca (1994) e O que é isso companheiro? (1997). Como forma de enriquecimento dessa análise, optamos por fazer uma comparação com os filmes do cinema político italiano dos anos 60 e 70.

—————————-

A retomada e os filmes Lamarca e O que é isso companheiro?

Ao observar a história do cinema brasileiro, constatamos que este tematizou aspectos diferentes da realidade do país. A denominada retomada do cinema brasileiro, ocorrida a partir de 1994, apresentou filmes com diferentes perspectivas. Devido à diversidade dos filmes deste período, não podemos falar em um movimento cinematográfico. Na retomada existiram diretores estreantes e veteranos, como Cacá Diegues e Hector Babenco, além de contar com cineastas em nível intermediário de carreira, como Beto Brant e Tatá Amaral. Utilizando-se da discussão da minha tese1 em que analiso dois filmes com a mesma temática, ou seja, Lamarca2, de Sérgio Rezende e O que é isso companheiro?3, de Bruno Barreto, pretendo fazer uma reflexão levando em consideração estes filmes e o cinema político italiano dos anos 60 e 70.
Ao enfocar a retomada, utilizaremos o livro O Cinema da retomada, de Lúcia Nagib. Neste existem depoimentos de vários cineastas, que recordaram uma época em que no Brasil a diversidade cinematográfica existia de forma intensa, nos filmes italianos, franceses e de outras nacionalidades. A produção cinematográfica em nosso país apresenta um desempenho razoável, mas o maior empecilho está na distribuição e exibição dos filmes. A maioria dos filmes listados por Lúcia Nagib, com exceção daqueles que tiveram grande projeção, como O Quatrilho, Central do Brasil e Carlota Joaquina Princesa do Brazil, não chegaram ao grande público, uma vez que além de serem raramente exibidos nas salas de cinema, também não aparecem nas locadoras.
A partir da análise de filmes podemos captar características da sociedade no momento da sua produção. Além disso, sabemos do poder dos filmes na acirrada disputa pela memória. Ao trabalhar com o cinema, o historiador deve realizar uma problematização dos filmes escolhidos por ele. Assim, se faz necessário observar a trajetória dos diretores em questão e fazer a decupagem realizando uma transcrição das seqüências do filme. Eduardo Victorio Morettin, no artigo O cinema como fonte histórica na obra de Marc Ferro, enfatiza o caráter polissêmico de um filme e realça a importância de uma análise interna da obra. Nesta perspectiva, optamos por seguir a metodologia sugerida por Morettin: “Refazer o caminho trilhado pela narrativa e reconhecer a área a ser percorrida a fim de compreender as opções que foram feitas e as que foram deixadas de lado no decorrer de seu trajeto”. (MORRETIN, 2003, p. 29).
No livro De Caligari a Hitler. Uma história psicológica do cinema alemão, Siegfried Kracauer afirma que os filmes refletem características de uma nação, e o autor coloca a seguinte questão: “Que temores e esperanças varreram a Alemanha imediatamente após a Primeira Guerra Mundial?” (KRACAUER, 1988, p. 20) O que nos leva a perguntar que temores e esperanças passaram pela cabeça de Sérgio Rezende e de todos os envolvidos na produção do filme Lamarca, já que não podemos esquecer o caráter estritamente coletivo da obra cinematográfica? No depoimento de Sérgio Rezende ele coloca o desejo de combater o predomínio do neoliberalismo, hegemônico nos anos noventa. Ele fez questão de falar sobre Lamarca, porque entendeu que este contrariava tudo o que estava em evidência naquele período.
Ao abordar a questão da produção de filmes históricos, Sérgio Rezende mencionou filmes como O Encouraçado Potemkim4 e O Nascimento de uma Nação5. Em relação ao gênero de “filme histórico” considerou: “O cinema trabalha com aquilo que ficou no inconsciente coletivo das pessoas, um personagem é a representação de um inconsciente coletivo”. (NAGIB, 2002, p. 382). No livro Memória e Sociedade, Ecléa Bosi faz uma profunda análise sobre a questão da memória, ao abordar o ponto de vista de Bérgson e de Halbwachs, quando esse último enfatiza o fato da produção da memória ser sempre coletiva. Normalmente ela relaciona-se com grupos familiares, profissionais, políticos, religiosos. Ecléa Bosi deixa claro que as pessoas, ao tentar lembrar e comentar com outros, um vai confirmando ou acrescentando algo e assim a memória de um determinado grupo vai se constituindo (BOSI, 1994, p. 54). Dessa maneira, no momento da produção do filme, a figura de Lamarca estava no inconsciente coletivo de pessoas mais politizadas e de esquerda e a sua realização visava atingir um grupo maior.
Bruno Barreto, assim como Sérgio Rezende, possui uma longa trajetória na história do cinema brasileiro. Ele começou muito jovem e em família. O seu pai, Luis Carlos Barreto, teve expressiva atuação na produção dos filmes do Cinema Novo e depois continuou a sua carreira como produtor de muitos filmes. Bruno iniciou sua carreira com o filme Tati, a garota (1973), e em 1976, dirigiu o filme de maior bilheteria do cinema nacional, Dona Flor e seus dois maridos. Em seu depoimento que está no livro O cinema da retomada, ele aponta uma característica dos filmes da retomada, ou seja, a narratividade. Há a visão de que o cinema brasileiro desprezou a função narrativa e, quando se preocupou com essa, obteve sucesso. Ao analisar os filmes da retomada, Bruno Barreto ponderou: “por isso a resistência do público brasileiro aos filmes brasileiros diminuiu consideravelmente” (NAGIB, op. cit. p. 92). No entanto, essa visão está esquecendo, por exemplo, as grandes bilheterias que o cinema nacional obteve nos anos 70. Podemos começar inclusive com o filme do próprio Bruno Barreto, Dona Flor e seus dois maridos, que obteve mais de doze milhões de espectadores, mas podemos mencionar: A dama da lotação (1978), de Neville D’Almeida, com 7,5 milhões; Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), de Hector Babenco, com cinco milhões; Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues, com dois milhões e quatrocentos mil. 6 Portanto, devemos ao menos relativizar essa afirmação de resistência ao cinema brasileiro.
No depoimento de Bruno Barreto percebemos que este teve um posicionamento privatizante em relação ao cinema, mas depois mudou de visão, argumentando que, com exceção dos Estados Unidos, país em que Bruno morou por muitos anos, o cinema constitui-se em uma atividade subsidiada. O posicionamento político de Bruno Barreto, que logicamente acabou repercutindo no filme O que é isso companheiro?, considera o engajamento partidário ou ideológico um estorvo para a atividade criativa. Isso fica claro, na seguinte frase: “Não tenho muito respeito por artistas politicamente engajados, que têm um discurso ideológico, acho isso extremamente pobre e limitador” (NAGIB, op. cit. p.93).
Em relação ao cinema da retomada, Ismail Xavier considera que o cinema brasileiro, apesar de não conseguir realizar uma síntese elaborada ou uma grande obra como a de Glauber Rocha, está mais leve e aliviado, “caminha menos culpado, sem carregar o peso das grandes decisões nacionais, sem aquele sentimento de urgência em que cada filme mostrava atrás da câmera um intelectual a diagnosticar o país” (XAVIER, 2001, p.54).

Depoimento de cineastas italianos e a retomada.

Na Itália das décadas de 60 e 70 do século passado houve uma grande produção de filmes com ênfase na política. No livro Cinema político italiano. Anos 60 e 70, de Ângela Prudenzi e Elisa Resegotti, existe um ensaio, artigos de críticos, e depoimentos de dezesseis cineastas que produziram filmes nos anos sessenta e setenta. Como se trata de um livro recente (2006), há um bom distanciamento do período em que foram produzidos os filmes. Podemos observar esse distanciamento no depoimento do cineasta Vittorio de Seta, quando este afirma: “é preciso dizer que, naquele tempo, todo o cinema era de esquerda. Hoje quase nos envergonhamos de dizer isso, mas havia aquela crença, aquela expectativa de poder mudar o mundo” (PRUDENZI, RESEGOTTI, 2006, p. 94). Evidentemente não estamos diante de nenhuma novidade, mas não deixa de ser importante pensar essa questão, ou seja, o desejo de algumas cinematografias daquele período, com o desejo de tentar mudar o mundo e nos dias atuais a inibição, o receio de assumir tal postura.
Na apresentação realizada dos irmãos Tavianni7, no livro mencionado acima, estes são caracterizados como um dos poucos cineastas que não fizeram concessões ao mercado. Essa idéia é reforçada pelo fato de que durante quarenta anos de carreira produziram apenas quinze filmes. Na ótica de Ângela Prudenzi e Elisa Resegotti, isso demonstra o rigor e dedicação que estes cineastas possuem ao fazer um filme. Numa visão capitalista essa característica dos irmãos Tavianni se apresenta como demérito, uma vez que nessa perspectiva importa a quantidade e lucratividade e não a qualidade da produção em si. No depoimento de Vittorio Taviani (ele representa a dupla publicamente), ao falar sobre sua juventude, este apresenta a importância para a vida ter sentido, de uma “ética cuja força residia no fato de convivermos sem distinções de classe”. (PRUDENZI, RESEGOTTI, op.cit., p. 106) Também há uma referência importante a uma influência cinematográfica, a do neo-realismo italiano. Taviani afirma que foram impactados por essa linguagem nova, que mostrava, por exemplo, características do sul do país que eles nem imaginavam. Há uma menção e admiração, tanto aos filmes, como a pessoa de Glauber Rocha. No depoimento do cineasta Bernardo Bertolucci, este fala da convivência com os jovens brasileiros, Glauber Rocha, Paulo César Saraceni e Gustavo Dahl.
Entretanto houve um momento de crise dos ideais. As conseqüências dessa crise ainda se manifestam nos anos noventa do século passado, momento da realização de Lamarca e O que é isso companheiro? e atinge os nossos dias. No depoimento de Vittorio Tavianni, ele coloca a visão de que no período dos anos sessenta era fácil enxergar o bem e o mal, mas que essa realidade modificou-se e tornou-se complexa. Ele enfoca a crise dos ideais, citando seu filme, Os Subversivos (1967), onde há a seguinte conjuntura: “Cada um dos protagonistas manifesta a seu modo um mal-estar por não saber mais o que fazer, por sentir que as respostas que até naquele momento vinham da política já não eram suficientes”. (PRUDENZI, RESEGOTTI, op. cit. p. 107).
Lucia Nagib escreveu o livro A utopia no cinema brasileiro, onde a retomada do cinema brasileiro é estudada, através da análise de filmes, como Terra Estrangeira (Walter Salles e Daniela Thomas, 1995), Central do Brasil (Walter Salles, 1998), Crede-mi (Bia Lessa e Dany Roland, 1997) O Invasor (Beto Brant, 2002), Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002), dentre outros. Lúcia Nagib analisa a questão da utopia, bastante presente tanto nos filmes políticos italianos dos anos sessenta e setenta, como no cinema novo brasileiro. Esta autora estabelece um período dentro da denominada retomada do cinema brasileiro. O filme Terra Estrangeira (1995) representaria, principalmente para o cinema, o fim de um período de desânimo e falta de perspectiva, iniciado a partir do governo Collor. Inclusive os personagens desse filme possuem como principal objetivo, deixar o Brasil e tentar a vida na Europa, uma vez que o governo de Collor não oferecia muitas expectativas. A partir desse momento, de acordo com Lúcia Nagib, existe a ascensão da utopia em vários filmes, como Corisco e Dada (1996), Baile Perfumado (1997) e Crede-mi (1997). Essa fase termina com Abril Despedaçado (Walter Salles, 2001), onde ocorre uma decadência utópica. Esse período de utopia no cinema brasileiro corresponde a um momento de “certo otimismo”, em relação ao país, vivido principalmente no primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, onde além do Plano Real havia certa crença no neoliberalismo, como se o país estivesse “entrando nos trilhos”.
Na sua análise, Lúcia Nagib afirma que assim como o cinema novo passou por uma fase utópica, seguida de um declínio, o cinema da retomada também passou por isso. No caso do cinema novo, a primeira fase pode ser exemplificada com o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1963), em que o desejo de revolução é evidente. No período pós-golpe militar de 1964, surgem filmes como O Desafio (Paulo César Sarraceni, 1964) e Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967), em que a perplexidade toma conta diante da nova situação. Em O Desafio, o intelectual protagonista está em crise, assim como em Terra em Transe. No final deste último, o personagem Paulo Martins acena com a possibilidade da luta armada, para enfrentar a situação de adversidade. Em relação à questão da utopia, recorreremos a uma questão levantada por Lucia Nagib:

O momento da retomada da produção cinematográfica no Brasil, a partir de meados de 1990, trouxe de volta mitos e impulsos inaugurais ligados à formação do Brasil e á identidade nacional, abrindo novamente espaço para o pensamento utópico. Mas, num mundo globalizado, pós-utópico e desprovido de propostas políticas, em que projetos nacionais há muito deram lugar a relações transnacionais, a nova utopia brasileira necessariamente significou olhar para trás e reavaliar propostas centradas na nação. (NAGIB, 2007, p. 25)

Nessa perspectiva, o cinema da retomada apresenta-se nostálgico e pronto para homenagear os cineastas do passado, ao contrário do cinema novo, que possuía uma postura bastante crítica e irreverente em relação aos seus antecessores. Os integrantes do cinema novo se colocavam na posição de estar criando uma cinematografia nova, assim como ocorria na Europa. Nesse sentido, os cineastas da retomada são mais modestos, tanto na questão estética, como na possibilidade de interferência na realidade. Naturalmente a conjuntura pós-guerra fria, influenciou neste posicionamento. Enquanto o cinema novo possuía uma ênfase no caráter nacional, muitos filmes da retomada possuem uma postura transnacional. Assim o diretor “Walter Salles sente-se à vontade fazendo filmes em português, inglês ou espanhol, como no latino-americano Diários de Motocicleta” (NAGIB, op. cit. p. 21).
Retomando a questão do cinema político italiano, abordaremos algumas questões levantadas no depoimento do cineasta Bernardo Bertolucci. Este começa dizendo que os filmes dos anos sessenta e setenta possuíam um grande potencial devido à conjuntura histórica vivida naquele período. Em relação a seu filme Antes da Revolução (1964), realizado quando era jovem e onde a chama da utopia se colocava de maneira intensa, Bertolucci considera o filme muito pessoal, ou seja, o protagonista possui muita relação com o que o jovem Bertolucci pensava a respeito da vida. Sobre essa questão o cineasta afirmou: “Maior parte dos jovens com um discurso contra a moderação, para não dizer o reformismo do Partido Comunista, naquele momento nada mais era do que um olhar para a política de modo muito romântico, até infantil”. (PRUDENZI, RESEGOTTI, op. cit. p. 126) Além dessas questões, Bertolucci coloca uma preocupação com a linguagem cinematográfica adotada por certos filmes políticos, lembrando que estes “eram na verdade, escritos e narrados à maneira de velhos filmes, e não havia nenhuma experimentação”. (Ibid.p. 130) .

Filmes do cinema político italiano dos anos 60 e 70 e a retomada.

Para enriquecer a nossa reflexão, analisaremos dois filmes italianos deste período, A Batalha de Argel (Itália, 1966, Gillo Pontecorvo) e Sacco e Vanzetti (Itália, 1971, Giuliano Montaldo). O primeiro a temática se aproxima aos filmes Lamarca e O que é isso companheiro?, ou seja, a atuação de grupos guerrilheiros. O filme começa com uma unidade narrativa, onde um homem esquelético e acabado, depois de uma sessão de tortura, acaba aceitando mostrar o esconderijo onde estão outros líderes da FLN, organização guerrilheira criada para tentar a independência da Argélia. Não vemos a tortura, mas sim um homem trêmulo, desesperado e humilhado, uma vez que é obrigado a vestir o uniforme do exército francês e mostrar o esconderijo onde estão seus companheiros. Depois da chegada ao esconderijo inicia-se um enorme flash-back, onde se desenvolve o filme. No início deste há uma preocupação esboçada por um líder guerrilheiro, de primeiro organizar e unificar os argelinos, para depois atacar os franceses.
No filme A Batalha de Argel, a presença da população argelina é intensa. Depois de um ataque francês a rebeldia é mostrada e percebemos uma grande união. Nos momentos de colocar bombas, as mulheres são representadas com dignidade e com solidariedade em relação à causa guerrilheira. Também a população sempre está pronta a esconder um líder quando se faz necessário. No caso dos filmes Lamarca e O que é isso companheiro? isso não acontece. Em Lamarca o primo de Zequinha sai para denunciar Lamarca e seu companheiro. Talvez isso ocorra, por que como mostraram alguns autores, como Lúcia Nagib, os filmes da retomada tendem a enfocar os dramas dentro de uma linha mais individual do que coletiva. Podemos questionar, se a opção do diretor Gillo Pontecorvo, de representar a população argelina sempre pronta e unida, não se trata de uma visão muito idealizada.
No livro Cinema Político Italiano, existe um ensaio, intitulado O Paraíso do espectador, de José Carlos Avellar. Neste o autor aborda a cena de tortura mencionada acima: “Esses olhos dentro da cena, fixos nos olhos do espectador na sala de cinema, são uma presença especialmente incômoda: o olhar mudo desse espectador torturado interfere no nosso modo de ver” (PRUDENZI, RESEGOTTI, op. cit. p. 176). Essa questão dessa presença incômoda pode estar relacionada com uma visão de que certos filmes que causam incômodos ou dificuldades ao espectador conseguem levar este a uma reflexão e crescimento intelectual. Ao contrário filmes que não colocam muitas dificuldades de entendimento, podem seduzir, mas não contribuem para o crescimento do espectador.
No filme O que é isso companheiro? temos imagens alternadas dos guerrilheiros, discutindo sobre sua próxima ação, com os militares torturando o personagem Oswaldo que havia sido preso em um assalto a banco. Logo após a prisão deste, a câmera focaliza um prédio com a bandeira do Brasil na frente, e o som do gemido em off de Oswaldo. Dentro do prédio, dois policiais de terno na frente, e atrás militares fardados arrastando Oswaldo. No aparelho9, Maria critica Oswaldo dizendo que foi um frouxo por não ter atirado no guarda. No retorno a Oswaldo, temos uma cena de tortura, um “afogamento”. Ela possui um tom eufemístico perto do que imaginamos como uma tortura real, ou se comparada com cenas de outros filmes, como Lamarca e Roma Cidade Aberta (1945), de Roberto Rossellini, ou ainda tendo como referência depoimentos de torturados.
Em relação ao filme A Batalha de Argel, José Carlos Avelar, nos informa que vários interpretes do filme não são atores profissionais. O torturado da cena inicial, ele é um ladrão que viveu em Argel durante a guerra civil. Depois de trabalhar no filme, voltou para a prisão. Saadi Yacef, um dos produtores do filme, faz o seu próprio papel, o de Djafar, enquanto o seu sobrinho, fez o garoto Omar e um camponês analfabeto, fez o papel de Ali La Pointe. Avelar considera A Batalha de Argel, uma espécie de ponte entre o neo-realismo italiano e o cinema político italiano dos anos 60 e 70. O neo-realismo italiano surgiu na década de 40, do século passado e podemos mencionar o filme Roma, cidade aberta (1945, de Roberto Rosselini), como grande marco desta vertente, que questionou o modelo hegemônico de se fazer cinema, ou seja, o hollywoodiano. A ênfase do neo-realismo italiano está em mostrar a realidade, sem o melodrama, as grandes estrelas e toda encenação glamourosa produzida nos estúdios. O cinema político italiano dos anos sessenta e setenta seguiu esses passos, fazendo algumas modificações, como por exemplo, a de que não necessariamente é preciso ficar colado na realidade, para passar alguma visão de mundo sobre a sociedade. Além disso, não possuía o desejo, de “somente constatar” a realidade, mas também de apontar soluções.
Ao pensar nos filmes Lamarca e O que é isso companheiro?, podemos observar um claro critério na seleção dos atores. Atores profissionais e de preferência conhecidos da televisão. Essa característica fica mais evidente em O que é isso companheiro?, que apresenta os seguintes atores: Pedro Cardoso, Luis Fernando Guimarães, Fernanda Torres, Cláudia Abreu, Matheus Natchergaele, Selton Mello, Du Moscovis, dentre outros. O cantor Lulu Santos faz um pequeno papel, o guarda que recebe uma denúncia sobre o seqüestro do embaixador norte-americano. Naturalmente enxergamos no critério esboçado acima uma estratégia mercadológica. Em Lamarca há certa nuança. O protagonista, que faz o papel de Carlos Lamarca, Paulo Betti contracena com um ator desconhecido do grande público, Eliezer de Almeida (Zequinha). Também há uma cena em que temos uma pequena participação de um camponês atuando. Em nossa primeira imagem, constatamos o cantor Lulu Santos atuando em O que é isso companheiro?:
Ao analisar uma matéria do Jornal do Brasil, sobre o filme Lamarca (10/06/1994), na seção do leitor, encontramos um apaixonado pelo filme e pela recuperação do cinema nacional. Em relação a Lamarca teceu as seguintes considerações: “O filme é uma obra de arte, é um filme forte na linha do neo-realismo italiano. As imagens do interior nordestino são um soco no estômago do pequeno-burguês”.10 Essa visão apresenta uma percepção limitada, já que o filme de Sérgio Resende não apresenta características do neo-realismo. Este buscava um realismo cru, sem efeitos de luz, em preto em branco, com atores amadores e de preferência o próprio povo atuando. Nas cenas em que Lamarca e Zequinha estão no morro, na área de campo, existe um efeito de luz bastante intenso e aprimorado. Portanto, se há alguma relação com o neo-realismo italiano, como a apresentação do povo pobre, em termos estéticos há muitas diferenças. O ator Paulo Betti fez exercícios para enrijecer os músculos e uma dieta em que emagreceu 15 Kg. Preocupou-se até em estudar o tipo de caligrafia do capitão guerrilheiro para realizar uma reconstituição primorosa. Essa postura possui bastante ligação com a linha cinematográfica clássica, onde há uma busca de naturalidade e de precisão. Na imagem abaixo podemos constatar o esforço do ator Paulo Betti:
Figura 2. Momento de fuga de Lamarca. Constatamos o emagrecimento do ator Paulo Betti e o personagem Zequinha, com expressão de preocupado. Durante o filme há um enaltecimento do personagem Lamarca. Filme Lamarca.
Giuliano Montaldo, um cineasta importante do cinema político italiano, realizou vários filmes com temática histórica, como Sacco e Vanzetti (1971) e Giordano Bruno (1973). Sacco e Vanzetti conta à história de dois anarquistas italianos que migraram para os Estados Unidos, no início do século XX. Foram acusados injustamente de homicídio, e são executados na cadeira elétrica. Em relação ao início do filme, temos uma unidade narrativa de três minutos antes de começar os créditos. A ação se desenvolve de maneira tensa, e a primeira imagem é de um carro preto escrito Police Patrol. A cena ocorre no amanhecer, com muitos soldados caminhando (o som dos passos é marcante), quebrando vidros, arrombando portas e destruindo papeis. Na parede há a placa: Circolo del Lavoratori Italiano. Pôster de Karl Marx é lançado no chão, junto com outro pensador.
Numa comparação com os filmes Lamarca e O que é isso companheiro?, podemos constatar que em Sacco e Vanzetti, os diálogos são mais politizados, a questão política é central e intensa. No filme O que é isso companheiro? há pouco espaço para discussões políticas e ficamos sem saber as motivações do projeto guerrilheiro. A estrutura narrativa do filme fica em função de como poderão ocorrer as coisas concretas, como, por exemplo, como a personagem René conseguirá informações?, como acontecerá o seqüestro do embaixador?, como será a sua liberação?. De tal maneira que a questão política fica esvaziada. Além disso, não há referencias a evento culturais e políticos do período, como as greves de Osasco (SP) e Contagem (MG) em 1968, as enormes passeatas ocorridas. Essa movimentação possuía relação com a atuação da guerrilha. O estilo cinematográfico do filme, ou seja, um thriller contribui para uma valorização da ação em detrimento do debate político.
No livro História e Cinema, existem vários artigos sobre a relação entre essas duas áreas. Há um artigo de Henri Arraes Gervaiseau, intitulado Entrelaçamentos: Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho. O autor faz uma análise desse filme, é afirma que a ação da protagonista (a viúva Elizabeth) não é supervalorizada em detrimento das outras pessoas. Ao contrário ela sempre se coloca como nós quando se refere, por exemplo, ao sofrimento vivenciado por ela durante todos os anos de clandestinidade devido à ditadura militar (1964 a 1985). Há a recordação dos companheiros que foram mortos e também no filme existem os depoimentos dos “sobreviventes” que contam das terríveis torturas sofridas, portanto o sentimento faz parte de um grupo específico.
Sem mencionar nenhum filme, no final do seu artigo, Gervaiseau, comenta sobre filmes de ficção posteriores a Cabra marcado para morrer sobre a ditadura militar, em que há um deslocamento operado para a esfera psicológica, onde ocorre “uma sobreposição entre a moldura que a dimensão sócio-histórica oferece e a evolução individual dos personagens” (Ibid.p. 235). Em Lamarca há uma concentração das qualidades em único personagem, de tal maneira, que os outros personagens, como Clara, Zequinha, Fio são muito submissos e “inferiores” a Lamarca. Essa característica possui muita relação com o momento em que o Brasil vivia nos anos 90 do século passado, onde havia uma valorização do individualismo. Ao contrário, os filmes do cinema político italiano dos anos 60 e 70 estavam em um contexto diferente e apresentavam a perspectiva da utopia de forma mais intensa.

Bibliografia.

AGUIAR, Marco Alexandre. A disputa pela memória: os filmes Lamarca e O que é isso companheiro? Assis, 2008. Tese. Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista. (Área de conhecimento: História e Sociedade).
BOSI, Ecléa, Memória e Sociedade. Lembranças de Velhos. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 54.
GERVAISEAU, Henri Arraes. Entrelaçamentos: Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho. CAPELATO, Maria Helena… [et al.]. História e Cinema. São Paulo: Alameda, 2007.
NAGIB, Lucia, O cinema da retomada. São Paulo: Ed. 34, 2002.
_____ A utopia no cinema brasileiro. São Paulo: cosacnaify, 2007.
KRACAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler. Uma história psicológica do cinema alemão. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, 1988. p. 20.
MORETTIN, Eduardo Victorio. O cinema como fonte histórica na obra de Marc Ferro. História Questões & Debates. Ano 20 – n. 38 – Janeiro a Junho de 2003. p. 29.
PRUDENZI, Angela, RESEGOTTI, Elisa. Cinema político italiano. Anos 60 e 70. São Paulo: cosacnaify, 2006. P. 94.
SILVA NETO, Antônio Leão. Dicionário de Filmes Brasileiros. São Paulo: A. L. Silva Neto, 2002.
XAVIER, Ismail. O Cinema Brasileiro Moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001. p. 54.

Notas

1 AGUIAR, Marco Alexandre. A disputa pela memória: os filmes Lamarca e O que é isso companheiro? Assis, 2008. Tese. Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista. (Área de conhecimento: História e Sociedade). Ela se encontra no site www.assis.unesp.br.
2 Lamarca. Direção: Sérgio Rezende. Produção: Mariza Leão e José Joffliy. Intérpretes: Paulo Betti, Carla Camurati, José de Abreu, Deborah Evelin, Eliezer de Almeida, Ernani Moraes, Roberto Bomtempo. Roteiro: Alfredo Oroz e Sérgio Rezende. Baseado no livro Lamarca, o capitão da guerrilha, de Emiliano José e Oldack Miranda (130 min). Rio de Janeiro, 1994. Sinopse: O filme focaliza o último ano da vida de Carlos Lamarca (1971), e através de flash-backs, mostra a sua história. Trata-se de uma interpretação da história verídica da vida do personagem. O capitão Carlos Lamarca, um dos melhores atirador do exército brasileiro, rebela-se contra os militares no poder e adere à guerrilha de esquerda. Transforma-se num revolucionário, que sonhava com um país livre de injustiças, opressões e misérias.
3 O que é isso companheiro? Direção: Bruno Barreto. Produção: Lucy Barreto e Luis Carlos Barreto. Intérpretes: Alan Arkin, Fernanda Torres, Pedro Cardoso, Luis Fernando Guimarães, Cláudia Abreu, Nélson Dantas, Matheus Natchergaele, Maurício Gonçalves, Caio Junqueira, Selton Mello, Du Moscovis, Caroline Kava, Fernanda Montenegro, Lulu Santos, Milton Gonçalves, Othon Bastos. Roteiro: Leopoldo Serran. Baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira (105 min) Rio de Janeiro, 1997. Sinopse: Trata-se da história do sequestro do embaixador dos Estados Unidos Charles Elbrik ocorrido em Setembro de 1969. O sequestro é realizado por um grupo de jovens, pertencentes ao Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) que se une a outro grupo guerrilheiro Aliança Libertadora Nacional (ALN). Os guerrilheiros condicionam a soltura do embaixador, a leitura de um manifesto nos principais meios de comunicação no horário nobre e a libertação de quinze companheiros presos.
4 A direção deste filme é de Sergei Eisenstein, importante cineasta russo do início do século XX. Em O Encouraçado Potemkim (1925) houve a preocupação de não enaltecer nenhum indivíduo (protagonista) ou casal, como normalmente ocorre nos filmes norte-americanos, ao contrário há uma ênfase na atitude coletiva dos marinheiros revolucionários. A cena da escadaria de Odessa, com cortes muitos rápidos, teve grande impacto e constituiu-se numa inovação cinematográfica. O “realismo soviético” foi uma das tendências rebeldes à hegemonia do cinema norte-americano.
5 Filme de 1915, com direção do cineasta norte-americano David Wark Griffith. Este criou as bases do cinema Hollywoodiano, como o flashback e montagem paralela. O filme O Nascimento de uma Nação, enfocou a Guerra da Secessão, possuía um ponto vista sulista e instigou a Ku Klux Klan. O papel dos negros era realizado por atores brancos “pintados de negros”. Grifft fazia um filme por semana e no início do cinema, os filmes eram muito curtos. Assim quando este fez um filme de uma hora, havia um receio da empresa cinematográfica, argumentando que o público não agüentaria um filme com esta duração.
6 Esses números de bilheteria foram retirados do Dicionário de Filmes Brasileiros de Antônio Leão da Silva Neto. Exceção do filme A Dama da Lotação, onde o número de espectadores é retirado do depoimento de Neville D’Almeida contido no livro O cinema da retomada.
7 Os irmãos Vittorio Taviani e Paolo Taviani, sempre trabalharam juntos na direção, formando uma dupla de sucesso nos anos 60 e 70 do século passado.
9 A denominação aparelho trata-se de uma linguagem específica dos guerrilheiros dos anos 60 e 70. Significava um apartamento ou casa onde os guerrilheiros viviam na clandestinidade.
10 MORIER Luiz. Lamarca obra de arte para leitor. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro: 10 jun. 1994. Caderno B.

Um hotel muito louco (Tony Richardson, 1985)

Um hotel muito louco (Tony Richardson, 1985)

The Hotel New Hampshire (1985), obra dirigida pelo cineasta britânico Tony Richardson, é uma adaptação do best-seller homônimo concebido pelo escritor e roteirista estadunidense John Irving. É fundamental pontuar esta informação como primeira do texto em vista das características singulares de Irving na sua prática de escritor. Estas se devem principalmente pela sua fixação em assuntos, situações, estereótipos e localidades “chave” que permearão diversas de suas obras. Com o auxílio desta informação podemos compreender a gama extensa de conflitos psicológicos e eventos históricos abordados ao longo de uma hora e quarenta minutos de filme na película aqui discutida.
Para The Hotel New Hampshire John Irving reservou um turbilhão de informações que permearam o “individuo pós-segunda guerra mundial” estadunidense:
- Segunda Guerra Mundial;

- Comunismo;

- Anti-semitismo;

- Terrorismo;

- Poder negro;

- Casamento inter-racial;

- Métodos contraceptivos;

- Homossexualismo (para ambos os gêneros);

- Estupro;

- Iniciação sexual;

- Prostituição;

- Suicídio infantil;

- Incesto entre irmãos;

- Estrutura estadunidense de ensino colegial .

Tamanha a extensão da lista que chega a ser natural questionarmos a possibilidade de um diretor conduzir tantas informações com a devida qualidade em um período de tempo tão limitado. No entanto Tony Richardson nos apresenta com brilhantismo todos estes assuntos (e tantos outros), através da vida de cada integrante da extensa família Berry. Para tal feito acostuma-nos logo ao início do filme com o ritmo insano que nos habituaremos ver até o desfecho da película.
Também nos primeiros minutos da obra concluímos que o protagonista da película não é um personagem, mas sim a família Berry, sendo esta uma extensão de um universo ainda maior como a “típica família norte-americana dos anos sessenta” ou mesmo uma alegoria dos diversos conflitos psicológicos (principalmente de ordem sexual) que o individuo humano está sujeito a vivenciar. Visando alcançar toda esta gama de assuntos os personagens são apresentados em situações singulares ou em conjunto, possibilitando ao espectador conhecer as características de cada membro da família e até criar afinidade ou antipatia pelas idéias apresentadas por um membro ou outro.
Os integrantes da família Berry são os pais Win (Beau Bridges) e sua esposa (Lisa Banes) e os filhos John (Rob Lowe), Frank (Paul McCrane), Frannie (Jodie Foster), Lilly (Jennifer Dundas) e Egg (Seth Green). Soma-se ainda a família o cachorro Sorrow (o primeiro a falecer, com uma morte absurda) e o pai de Win Berry (o segundo, com uma morte ainda mais absurda). Junto a este notável elenco há ainda Nastassja Kinski (como a “mulher-urso”, tendo atuado em Paris, Texas um ano antes) e Dorsey Wright (que apresenta em sua curta filmografia os aclamados Hair e Warriors).
Mas apesar da família Berry protagonizar a película é notável uma maior densidade na caracterização de alguns membros específicos tais como John, Frank, Frannie e Lilly. O filme conduz a evolução psicológica destas personagens ao longo dos anos, evidenciando junto à narrativa a tomada de ações a muito desejadas por estas, anteriormente reprimidas (tal como o incesto entre John e Frannie, o homossexualismo de Frank e o suicídio da ainda jovem Lilly). Nenhuma destas ações passa sem o devido cuidado de Tony Richardson em pontuar as imagens necessárias ao entendimento do público dos “porquês” destas situações (atitude fundamental tratando-se de uma narrativa tão complexa e tão passível de desentendimento ou elucubrações vagas, o que em momento algum é a intenção do diretor). Sendo assim, por mais difícil que seja o enredo, há a satisfação de se ver pontuado todos os elementos levantados por Irving em seu romance, com genialidade principalmente no que se refere ao uso do sarcasmo e do absurdo para retratar estas ações.
Como recurso fundamental para ampliar estes dois últimos fatores mencionados há méritos para a trilha sonora. Nos momentos mais gritantes o nonsense é ampliado com a música circense (também denominada dixieland) acompanhando o evento até seu desfecho. Com esta ferramenta chega a ser cômica situações obviamente trágicas, o humor negro ganha pontos e torna-se um dos maiores trunfos da obra (principalmente por sua concepção ter como base a correlação de uma bem trabalhada imagem com um uso inteligente do som, não meramente como fundo coadjuvante do desenrolar das ações). Não diferente da música a imagem também apresenta seqüências bem elaboradas para transmitir a mensagem proposta. Para tal há uso do fast motion quando necessário, ampliando o tom satírico de algumas cenas, assim como a câmera na mão em plano-sequência em situações mais tensas como uma briga de irmãos logo no começo do filme. Por fim, soma-se ao grupo a montagem, também muito bem trabalhada, sendo a responsável pela consolidação do clímax nos diversos turning points vivenciados pela família Berry.
A plenitude destes elementos (imagem, som e suas respectivas montagens) é a responsável por possibilitar a concretização da linearidade da narrativa, ou seja, de dar o amparo necessário a complexidade do enredo em questão. No entanto não se pode deixar de mencionar o trabalho desempenhado pela direção e dos atores. Tony Richardson teve como produto final de seu trabalho uma tragicomédia muito rica, que apresenta momentos extremos em diversas situações do filme, sem torná-lo algo demasiado cansativo, forçado ou totalmente inverossímil. Para quem assiste a obra é possível identificar-se com os personagens, com os lugares apresentados, com as idéias levantadas. Isto é fruto de um trabalho cuidadoso em utilizar o mínimo do tempo com o máximo de aproveitamento. E neste quesito soma-se grande mérito aos atores, cada um em singular pela suas respectivas atuações representando brilhantemente as diversas alegorias de personalidade, na figura de cada papel: o individuo homossexual, o incestuoso, o desejoso pelo suicídio em vista de sua não adaptação, o sonhador, o que sofre preconceito por sua cor, o covarde que vive ileso graças ao sistema e até mesmo o que se camufla na figura de um urso para não ser exposto e julgado pela sociedade.
Todas estas alegorias somam-se para ilustrar ricamente uma parcela do que é o homem, do que é possível em nossa existência. Por isso não é difícil fazer um paralelo da película à uma tragédia grega, com ambientação moderna, humor britânico e rica em nonsense. Temáticas universais como o amor, a morte e amizade são trazidas ao fim do filme para o público com a presença de todos os personagens que permearam a obra, mesmo os que faleceram ao longo desta. E neste único momento o inverossímil se faz presente por completo, e, no entanto, boa parte dos sentimentos humanos estão lá, representados na figura de cada ator, de cada individuo, como que tentando dar sentido a imensidão absurda do qual participamos dia-a-dia em nosso cotidiano, para nos mostrar que no fim foi apenas uma peça teatral, com os atores retomando o palco para despedirem-se do público.

Pedro Marcondes é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

Elefante (Gus Van Sant, 2003)

Elefante (Gus Van Sant, 2003)
Como é horrível e belo o dia que ainda não vi:Elefante de Gus Van Sant

John é levado para escola por seu pai completamente alcoolizado. Elias tira fotos de um casal no parque próximo ao colégio. Nathan e Carrie combinam o seu fim de semana com os amigos em meio a uma suspeita de gravidez. É assim, e com mais cinco visões, que Gus Van Sant caracteriza o massacre na Columbine High School.
Elefante ganhou a Palma de Ouro e o prêmio de melhor diretor no festival de Cannes em 2003. Em um de seus filmes mais notáveis Gus Van Sant narra o atentado de Columbine, que ocorreu nos EUA em 1999. Diferente de Tiros em Columbine de Michael Moore em que o massacre foi utilizado como ferramenta política, Van Sant humaniza a tragédia, narrando seus antecedentes de maneira delicada e sutil.
Apesar deste diferente ponto de vista Elefante também contém uma crítica política, porém de maneira mais disfarçada. O símbolo do partido republicano nos Estados Unidos, maior representante do conservadorismo e também maior entusiasta da livre distribuição de armas de fogo, é um elefante.
A construção dos momentos anteriores ao ataque é feita a partir do ponto de vista de vários personagens, alguns já citados no início deste texto. Cada um deles representa, alguns de maneira mais clara do que outros, segmentos sociais do high school americano. Entre eles o atleta, as jovens fúteis, a menina com poucos amigos, o artista, entre outros.
A construção fotográfica e a montagem foram essenciais para estabelecer esses pontos de vista distintos de um mesmo acontecimento. A câmera funciona, durante toda a ação, como um espectador próximo. Os quadros oscilam entre grandes planos gerais, que caracterizam o espaço diário de cada um dos personagens, e longos planos seqüência, que acompanham o caminhar por entre os corredores da escola.
O baixo contraste da foto merece ser destacado por estabelecer visualmente a apatia que rondava a vida dos personagens. Van Sant utilizou, para destacar momentos tranqüilos da vida de alguns personagens, a câmera lenta, dando um visual muito calmo para momentos que antecedem um fato tão tenso.
A montagem, feita em moviola, assume um papel importantíssimo na construção temporal da narrativa. Múltiplos eventos simultâneos são apresentados de maneira linear. Algumas marcas são repetidas, juntando as ações que são apresentadas de diferentes pontos de vista.
Elefante consegue de maneira excepcional caracterizar a vida dos adolescentes americanos. O filme aponta a distância entre os grupos sociais que convivem diariamente, contextualizando, em parte, a dura vida de alguns adolescentes.
Os diálogos são pouco trabalhados nesta narrativa. As falas servem somente para apresentar a rotina de cada um dos personagens e estabelecer a dinâmica da escola. A trilha sonora, por outro lado, é muito bem trabalhada e, com a escolha de músicas clássicas muito tranqüilas, cria uma oposição ao drama do atentado.
O ritmo deste trabalho de Gus Van Sant é, como na maioria de seus filmes, bastante lento e focado principalmente nos indivíduos que realizam ou sofrem a ação. A tensão é estabelecida pela temporalidade única de Elefante. Depois de não muito tempo recebemos a informação de que ocorrerá o ataque, porém ele só aparece no final da narrativa.
O atentado que demora a se concretizar gera uma imensa tensão enquanto acompanhamos os minutos anteriores a ele do ponto de vista de vários alunos da Columbine High School.
O ritmo lento e a divisão do ponto de vista elevam a tensão, assim como estabelecem perfeitamente a imprevisibilidade do ataque.
A caracterização dos assassinos é feita como a de todos os outros alunos. Suas vidas são apresentadas, assim como a família de Alex e seu gosto pelo piano. O beijo entre Eric e Alex logo antes de saírem para o ataque aponta a infantilidade dos assassinos. Ambos não queriam morrer sem ter beijado alguém.
Além deste momento tenro não há nada a não ser frieza no comportamento dos jovens assassinos. Movidos pelo ódio e pelo desconforto no local de estudo, dizimam a escola e matam a maioria dos personagens que narraram a história.
Quando encontra seu último alvo, o casal Nathan e Carrie, Alex se diverte escolhendo quem matará primeiro cantando “mamãe mandou” em meios às súplicas dos dois jovens.
Com um corte duro o assassinato é interrompido e o filme volta para onde começou: olhando para o céu, se afastando da ação, mostrando somente o tempo que passa pelas nuvens.

Felipe Abreu é graduando em Audiovisual pela Universidade de São Paulo (USP)

Os desafios de um curso em construção
Jô Levy é graduada em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal de Goiás, mestre em Educação pela Universidade Federal de Goiás e professora e coordenadora do curso de Comunicação Social/Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás.
Antes de falar sobre a experiência do curso de Audiovisual da UEG é importante que eu aponte onde está Goiás no mapa da mídia. Em um país que se desenvolveu primeiro em seus limites litorâneos, a localização geográfica central de Goiás não foi um privilégio, antes mostrou ser um entrave ao seu próprio desenvolvimento, distante que estava dos centros políticos e econômicos. Longe do poder e da relevância cultural, o centro geográfico era, de fato e contraditoriamente, periférico. No Brasil do século 21, estradas e vias de acesso tem encurtado muitas distâncias e uma nova cartografia tem sido delineada pela mídia, mas nesse mapa virtual não é difícil constatar que Goiás continua periférico.
O curso de Comunicação Social, com habilitação em Audiovisual, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), foi criado em 2006 e agora em 2009 estamos formando nossa primeira turma. É um curso de graduação com duração de quatro anos e as aulas são oferecidas no turno matutino. A UEG é uma instituição pública e gratuita e o curso de Audiovisual está entre os cinco mais concorridos da Universidade.
Penso que as condições objetivas constitutivas de um curso superior são resultantes de um conjunto de fatores intrínsecos à instituição, bem como fatores externos e mais amplos que a atravessam, tais como as demandas do mercado profissional, o surgimento de novos recursos tecnológicos e a obsolescência de outros, o contexto sócio-econômico e cultural da região e fatores ainda mais complexos como a presença de políticas públicas aplicadas à educação e à cultura.
A perspectiva da formação do profissional de comunicação encerra uma tendência que tem norteado muitas instituições de ensino a repensarem seus currículos: a convergência das mídias. Com o desenvolvimento da tecnologia digital e o consequente barateamento dos equipamentos, mais pessoas tem acesso aos meios de produção e novos suportes de veiculação passam a existir. Convertidos pelo código binário “zero e um” da tecnologia digital, todos os dados tem a mesma “substância”, sejam esses dados um texto, um filme, um programa de TV ou áudio. Neste cenário, a comunicação audiovisual tem se alargado, o que vem a exigir comunicadores multimídias capazes de manejar a linguagem baseada em imagens e sons.
Esta constatação nos coloca diante do desafio de oferecer uma formação capaz de formar comunicadores capazes de atuar no ramo audiovisual, por meio de uma formação teórico-prática, com estímulo à pesquisa e ao empreendedorismo. Sim, acreditamos que o profissional do audiovisual no Brasil é (ou deveria ser) um empreendedor, visto que cada vez mais o mercado está a exigir um profissional com capacidade de autogestão, resolução de problemas, adaptabilidade e flexibilidade diante de novas tarefas. É fato, e em todas as áreas, que os empregos estão em extinção. Contudo, frentes de trabalho continuam a se abrir. O profissional do audiovisual é frequentemente convocado a empreender, seja na proposição e realização de um projeto, na realização de um filme ou de um novo programa de TV, na promoção de uma mostra ou festival, enfim, a gerir seu próprio negócio. Vale destacar que em nossa concepção pedagógica isso não corresponde a subserviência ao mercado, mas a uma noção clara da proximidade que a Universidade deve manter com o seu entorno.
Em função das novas mídias digitais, hoje temos uma demanda crescente por conteúdo audiovisual, nesse sentido o profissional deverá ter o domínio técnico e estético da linguagem audiovisual, de modo a realizar atividades de criação, produção e distribuição ou difusão de obras audiovisuais em mídia sonora, TV, cinema e vídeo, internet e demais suportes digitais provenientes das inovações das tecnologias de informação e comunicação.
Como outras universidades públicas, a UEG padece de problemas recorrentes em instituições desta natureza, tais como infraestrutura precária e pouca autonomia financeira, entretanto, temos buscado tirar proveito das adversidades, facilitando a inserção dos alunos em variados ambientes de aprendizagem. Assim podemos pensar em diversos espaços e situações de aprendizagem que vão além da sala de aula, isto é, estágios, monitorias, oficinas, seminários, palestras, cursos, realização de projetos de extensão e de pesquisas, desenvolvimento de projetos com finalidades pedagógicas específicas, dentre outras possibilidades. Quase todos os nossos alunos estão envolvidos em atividades que extrapolam o espaço da sala de aula.
Mesmo com tão pouco tempo de existência do curso, podemos citar algumas atividades relevantes que temos desenvolvendo em 2009, tais como o projeto Anima Escola, contemplado com verba do Programa de Extensão Universitária, do Ministério da Cultura. Podemos destacar também nossa participação, por meio de uma de nossas alunas, na curadoria do Festival do Minuto; a parceria da UEG com o Canal Futura; a participação de nossos alunos na produção de conteúdo para a TV Brasil e diversas parcerias com instituições locais. A despeito de um mercado audiovisual ainda incipiente em Goiás, até o próximo ano 40 de nossos alunos terão estagiado nas mais diversas áreas do audiovisual.
Reconhecemos ser necessário dotarmos o curso de condições infraestruturais que garantam uma regularidade em nossas produções e a experimentação tão necessária ao apuro técnico. Acreditamos que condições assim certamente irão favorecer a realização de produções qualitativamente competitivas, com vistas a ocuparmos espaços nos muitos festivais e mostras universitárias nacionais. Estamos nos preparando para isso, afinal visibilidade é a mais elementar das finalidades da produção audiovisual.
Uma questão importante a ser abordada diz respeito à configuração do audiovisual enquanto campo profissional. Por ser uma profissão desregulamentada, o “audiovisuasta”, “audiovisualista”, “audiovisionário” quem sabe, enfim… o profissional do audiovisual vai atuar em campos demarcados por jornalistas e radialistas, profissões estas reguladas por legislação específica e amparadas por entidades corporativas. Sou graduada em jornalismo e por isso me sinto à vontade para dizer que cada vez mais será difícil definir com precisão a área de atuação de um comunicador, afinal as mídias digitais ao promoverem a imbricação dos meios subvertem a antiga noção de que são os veículos que definem as funções profissionais. Desse modo, para rádios, TVs e impressos supostamente tem-se os profissionais compatíveis. Mas o que é TV? Seria aquilo que assistimos sentados em nosso sofá ou um certo tipo de conteúdo ao qual podemos ter acesso também do celular? Seria o profissional formado em Rádio e TV o único a responder por essa produção? Ou quando o assunto é conteúdo, apenas os jornalistas estão aptos a produzi-lo?
Estas questões tocam num ponto delicado, que é a reserva de mercado, ou seja, quem pode fazer o que e onde. Vejo como urgente a necessidade de comunicadores brasileiros, para além das especificidades das habilitações, encararem a mídia (assim mesmo, no genérico) como um grande campo comum de atuação. A tecnologia já promoveu a desterritorialização e penso que perdemos todos com a insistência em sectarismos.
Apesar da televisão comercial produzida pelas grandes redes estar consolidada, o Audiovisual, como segmento econômico, é um setor emergente no Brasil. Nos últimos 10 anos isso tem repercutido nas universidades, de tal modo que diversos cursos de Rádio e TV, bem como de Cinema passaram a assumir a nomenclatura de Audiovisual, como ocorreu na USP e na UnB, só para citar dois exemplos emblemáticos. Vale lembrar também que em 2006 o MEC endossou a existência de novos cursos de graduação em Audiovisual ao instituir as diretrizes curriculares dos cursos de Cinema e Audiovisual e é relativamente recente a criação da Secretaria do Audiovisual vinculada ao Ministério da Cultura. Além desses exemplos que atestam essa emergência do setor audiovisual brasileiro, diversos editais de fomento à produção são lançados todos os anos e não podemos deixar de citar que a discussão sobre a democratização da informação hoje passa pela concepção de que além do acesso, a produção de conteúdo audiovisual precisa estar disponível a iniciativas que não sejam apenas comerciais.
Por tudo isso analisamos como positivas as perspectivas para o profissional do audiovisual, uma vez que, em uma sociedade midiática, não há de faltar trabalho aos profissionais que saibam manejar imagens e sons. E voltando à localização de Goiás, esperamos que o curso de Audiovisual da UEG possa contribuir com a produção de conhecimento e a formação de profissionais capazes de nos colocar em melhor posição neste vasto território midiático.

A caosmótica arte brasileira

A caosmótica arte brasileira
No começo do século XX Oswald foi à Europa e fez compras. Ou resgates de algumas peças da subjetividade artística brasileira que estavam perdidas por lá. Primitivismo criativo, canibalismo, desejo, evocação do irracional, tudo isso estava insuflado nas vanguardas artísticas da época, altamente antropofágicas.
Voltou ao Brasil. E começou a falar pelos bares e a escrever em jornais. Haroldo de Campos leu um desses jornais bem no domingo da publicação do Manifesto Antropofágico. Pegou o telefone e logo ligou pro Júlio Bressane, que chamou o Caetano Veloso para uma cerveja, que mandou e-mails para a Lygia Clark, Hélio Oitica e Cildo Meirelles, que mandou uma mensagem pro João Moreira Salles que encontrou Tunga no avião que já partia pra França, a fim de canabalizar, por dentro, a pirâmide do Louvre[1].
Caveiras em rede por dentro da grande pirâmide demarcam a presença canibalesca do terceiro mundo no interior metafórico – que por acaso é um prisma – do primeiro.
Caveiras em rede por dentro da grande pirâmide demarcam a presença canibalesca do terceiro mundo no interior metafórico – que por acaso é um prisma – do primeiro.
Se o tempo não distendesse as relações, tal relato procederia, acrescido de tantos outros nomes[2]. Caosmose. O filósofo/psicanalista francês Feliz Guattari passou um bom tempo no Brasil e se impressionou enormemente com a mais do que comentada diversidade brasileira, e com a capacidade do brasileiro de lidar com as faltas, obviamente presentes em tantos fragmentos de culturas, abocanhando elementos da mais alta heterogeneidade para ocupar esses espaços de ausência. E com isso foi se desenhando uma complexa rede cultural capaz de provocar os mais insólitos encontros.
O processo criativo de Júlio Bressane se insere nessa teia dilatada pelo tempo de um século, mas que possui origens muito mais antigas, antropologicamente, nas culturas indígenas latino-americanas, abordadas, de calças curtas, pelos colonizadores europeus.
Os índios foram em grande parte exterminados, mas a novidade do “homem comendo homem” foi talvez um dos maiores choques culturais já experimentados. E já faz cinco séculos que circula pelo imaginário europeu.
Tudo o que é comestível é efêmero. Grande parte da natureza é comestível. Colocar o homem nessa mesma chave é altamente assustador, sendo que o sentido violento de transformação permanente ameaça o sedentarismo consolidado há 10 mil anos. Somente humanos muito próximos à natureza poderiam praticar o canibalismo sem a terrível consciência de estar efemerizando a força da raça. Em uma reportagem de 1995, com a legitimidade de verdade de qualquer outro blog, alguns médicos chineses estariam comendo fetos abortados. “Os doutores supostamente defenderam suas ações dizendo que os embriões serviam para sua pele e saúde em geral.”[3]
Sim, é verdadeiramente assutador e não é necessário partir aos confins do inconsciente para constatar isso. Mas, a intensidade que existe na maculação da raça ao se pensar sua prática denotativa, é a mesma ao se pensar o engrandecimento humano possível a partir da prática metafórica do canibalismo. As faltas de alguns sendo minimizadas com os excessos de outros: uma distribuição mais harmônica de energia criativa. Olhar para o outro, ver a si mesmo, até um ponto em que a rede seja tão fluida, que as noções de eu e outro se dissipem.
E, a presença da antropofagia em diversos artistas evoca menos um desenvolvimento conceitual do que o eterno retorno nietzschiano: a repetição de constituintes da vida, como alegria, tristeza, angústia e, porque não, a antropofagia. Para não se odiar a eternidade por sua os retornos precedem de uma recombinação, uma variação de sentidos a cada vivência. Então, sendo tudo atualizável, a caosmose define-se por um achatamento da experiência temporal, encorpado pelas atualizações compulsórias das coisas, criando uma rede infinita de possibilidades graças à existência da arte e de sua independência do tempo. “Trata-se aqui de um infinito de entidades virtuais infinitamente rico de possível, infinitamente enriquecível a partir de processos criadores”. A atualização compulsória é um procedimento – aqui destacado como antropofágico – presente na criação de Oswald de Andrade, Haroldo de Campos e Júlio Bressane, e que será desenvolvido ao longo desse texto.
A XVIII Bienal de Arte de São Paulo, em 1998, teve sua curadoria voltada para obras realizadas sob o signo do canibalismo, das origens mais antigas até as mais contemporâneas, da forma que fosse. Então, lá se encontrariam, por exemplo, quadros de um holandês[4] vindo ao Brasil em missão artística, no século XVII, que realizou várias representações insólitas de índios brasileiros. Um bom exemplo é o quadro Índia Tairairiu (1641): um retrato de uma mulher com a austeridade de uma nobre européia, mas que é apresentada nua e segurando uma mão decepada, e carregando um pé na bolsa em suas costas.
Van Gogh foi o pintor que ganhou destaque na XXVIII Bienal de Arte de São Paulo, não por representar rituais de canibalismo, pois ele não o faz ao contrário da maioria dos pintores e escritores europeus que tangenciaram o tema até então, mas por se utilizar da antropofagia, do canibalismo, como um processo criativo. Apropriava-se da composição de obras de outros artistas (Delacroix e Millet, por exemplo) de forma integrativa, de modo a tornar a relação entre obras orgânica, e nunca em forma de cópia. O uso que fazia da paleta cromática também chamou a atenção aos curadores da XXIV Bienal de São Paulo; em muitos quadros tonaliza a pele humana como uma continuidade dos alimentos ou do tipo de chão presente no quadro – gramado esverdeado como em Passeio ao crepúsculo (1890); chão ocre em Desgastado (1881), ou como neste quadro, Os Comedores de Batatas (1885), em que duas pessoas descansam em um monte de palha, e não existem batatas à vista, mas a área cromática compreendendo os tons alaranjados do chão, da palha, dos rostos e pés suscita um grande “estado batata”.
Chegando às vanguardas européias do início do século XX, observa-se a incorporação do léxico canibal pelo movimento dadaísta para as mais diversas esferas. O pintor Francis Picabia lançou dois volumes da Revista Cannibale, por onde eram divulgados os preceitos do movimento. A antropofagia era um slogan para suas manifestações anti-burguesas, uma crítica à civilização industrialista européia, presente no processo criativo de suas colagens e paródias – canibalismo cultural. A autora do artigo, Dawn Ades,[5] ainda aposta que o conceito se valia também para a tentativa dadaísta de colar a arte na vida. “Assim, talvez, Picabia pensasse o dadaísta como sendo um canibal no sentido que seu material era a vida e não a arte.”[6]
No movimento surrealista, a aura canibal correspondeu à presença da sexualidade e do desejo nas obras. Salvador Dalí o exprimiu bastante, em consonância com as teorias da psyché freudiana, apresentando formas fálicas, mas não sensualizadas. Pelo contrário, apresenta-as comestíveis, macias, como em seus relógios moles, e neste quadro Canibalismo de Outono, realizado em 1936.
O autor do artigo sobre esta obra, inserido no catálogo da XVIII Bienal de Arte de São Paulo faz uma associação entre os “seres” do quadro e o primeiro beijo que Dalí deu em sua mulher, Gala, justamente em um outono, e descrito em sua autobiografia: “a fome libidinosa que nos fez querer morder e comer tudo até o fim.”[7]. Como mencionado acima, Dalí aqui transforma desejo sexual em alimentação.
Com tantas possíveis direções para a Antropofagia, Oswald prismou para o Brasil seu sentido mais político. Para ele, trata-se de um posicionamento, uma colocação cultural do Brasil em meio ao mapa mundial. Escreveu livros muito ricos com a estética antropofágica, através de paródias de textos literários consolidados na tradição brasileira, como Meus Oito Anos de Casimiro de Abreu e Canção do Exílio, de Gonçalves Dias; da estética fragmentária e do trabalho cinematográfico de montagem (justaposição de fragmentos); da incorporação compulsória de elementos já estabelecidos ao seu “novo” (criação), como é o caso desta passagem de Memórias Sentimentais de João Miramar:
“Quando súbito queimou o fuzil em que gingava a Piaçaqüera Lightning & Famous Around. O sírio pegara como um rato gordo o bandoriental luzido Banguirre y Menudo em estripulia sentimental com a trunfa itálica.”[8]
A prosa não corta suas relações com o mundo exterior: mantém sátiras de elementos situados espaço-temporalmente, como a cidade de São Paulo, largamente referenciada com suas grandes lojas que surgiam aos montes. Oswald mistura nomes de lojas e marcas com suas invenções, contornando este engraçado contexto do início do século de misturar no cotidiano palavras de idiomas estrangeiros com o português e, por vezes, com o tupi-guarani. Com isso o escritor emancipa seu mundo de signos e funda na realidade do texto a própria realidade em uma atualização compulsória dos componentes das cartografias culturais brasileiras.
Seu pensamento andou um tanto submerso por cerca de vinte anos, mas logo nos anos 60, quando a arte cola intensamente na política em espectro mundial, a antropofagia retorna como um pertinente amálgama para tal conexão. Volta nos palcos do Teatro Oficina, sob a invenção colaborativa de José Celso, com a encenação da peça O Rei da Vela e logo alcança uma vaga de velocidade infinita (tornando-se, assim, virtualmente onipresente) na rede criativa brasileira: atravessa os Novos Baianos, os Neo-concretos cariocas, os Concretos paulistas, que foi de onde Bressane teve o contato mais imanente com a obra de Oswald, pois tornou-se um grande amigo de Haroldo de Campos. Este crítico, poeta, pesquisador, era também um grande tradutor de cânones literários mundiais para o idioma português. Homero do grego, Maiakovski do russo, Teatro Nô, do japonês, Goethe, do alemão, Joyce, do inglês, e até textos da Bíblia, do hebraico. Este amante de línguas nunca as tratou como um mero código em seu uso artístico. Por isso encontra a necessidade de criar durante a tradução de prosa e poesia, formando uma espécie de coletivo virtual com o escritor original do texto, em um encontro explosivo de cartografias (tudo o que influencia uma subjetividade criadora), juntamente com o eterno retorno dos ecos da obra na humanidade. Decodificar uma obra de arte pode ser um retrocesso; atualizar criativamente é sempre torná-la mais viva na caótica rede cultural (brasileira).
Desses caminhos surge a transcriação, que pode ser contornada como uma lapidação da antropofagia com o amadurecimento da idéia de que tais coletivos virtuais possam dar conta, ao mesmo tempo, da irreversibilidade do tempo e do eterno retorno. Bressane então, prisma suas próprias bases conceituais para fazer cinema.
Produziu preciosidades em seus tempos de marginalia, destacando aqui O Anjo Nasceu (1968) e Matou a Família e foi ao Cinema (1969). Neste, já trata de algumas atualizações, como é o caso da aproximação do espectro de Tabu, de Murneau e Flaherty, de 1930, com a relação-tabu de duas moças da Zona Sul Carioca. Na ficção etnográfica, os diretores filmaram a quebra da tradição religiosa de uma tribo da polinésia francesa pela força do amor de um casal da comunidade. Em Matou a Família Bressane resolve os tabus com a morte. Mas ao mesmo tempo em que pode sugerir um niilismo político, o filme salienta também uma vontade de se começar de novo, um retorno às origens pré-sociais, uma mudança radical de fórmulas.
Tabu de Murnau
Matou a Família e foi ao Cinema
Foi no retorno de seu exílio, em 1973, que Bressane se propôs a olhar, de modo ainda mais insistente, para os componentes da rede cultural brasileira. O primeiro filme dessa sua cinematografia foi O Rei do Baralho, realizado no mesmo ano de seu retorno. Este filme tratou tanto de recuperar as chanchadas brasileiras que foi rodado nos antigos estúdios da Cinédia. Durante a década de 70 resgatou Oswald de Andrade em suas obras, tendo sua antropofagia sempre como processo criativo e por muitas vezes como temática. Em Tabu (1982), a atualização de Oswald é intensa. O escritor aparece como um personagem do filme que resgata o clima proto-chanchadesco dos anos 30, relacionando-se com o compositor de marchinhas Lamartine Babo e com o cronista de jornais João do Rio, que juntos provocam orgias estéticas pelo filme de Bressane. A caosmose do encontro é potencializada pela escolha dos atores para interpretarem as personagens: Oswald é performado por Colé, um ator da chanchada[9] do mais alto grau de bossalidade; Lamartine por Caetano Veloso, responsável por inúmeros traços da cartografia cultural brasileira contemporânea; e João do Rio por José Lewgoy, que, além de astro da chanchada, explode em atuação no antológico Terra em Transe (1969).
Mas a virtuose de atualização se apresenta com a inserção de imagens de arquivo do Tabu de Murnau-Flaherty, o mesmo que já foi evocado em Matou a Família e Foi ao Cinema, intensificando ainda mais o eterno retorno em suas obras. Aqui os trechos são sonorizados hora com marchinhas de Lamartine Babo, acompanhadas da aceleração das imagens de dança da tribo polinésia, hora com trilha narrativa, como uma música de suspense acompanhando membros da tribo correndo por montanhas – imagem que é seguida pelos característicos morros do Rio de Janeiro. Assim, Bressane salienta tão intensamente os clichês culturais brasileiros – os morros cariocas, a sexualidade, o carnaval, a fantasia – a ponto de desnaturá-los e recombiná-los. O eterno retorno ganha potência neste filme através de sua intensa variação das faces de uma mesma realidade cultural.
Finalizando, esse texto pretendeu salientar uma leitura bastante possível da criação artística brasileira, tendo alguns artistas como foco, e a caosmose de Guattari como base conceitual. O importante é notar os procedimentos aqui descritos no trabalho de artistas contemporâneos. O destaque vai para Tunga, que, além de atitude antropofágica, como visto na sua obra “virtualmente coletiva” com a pirâmide do Louvre, trabalha compulsoriamente e explicitamente com o eterno retorno. Suas obras destacam e ausência de começos e fins para as coisas, a presença da eternidade nietzschiana, pelo signo do cabelo, por exemplo, como o orgânico extra-corpóreo. Abaixo estão as xipófagas capilares (vídeo), e uma peça com seus cabelos.
O clichê da diversidade merece sua eterna re-combinação na arte brasileira que, havendo já passado por tantas estéticas e cosméticas, começa a se entender como caosmótica.
Caroline dos Santos Rodrigues é graduanda em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
—————-
Notas
[1] no projeto À Luz de dois Mundos, para o qual foi convidado durante a comemoração do ano do Brasil na França, 2005.
[2] Glauber Rocha, Zé Celso, Zé do Caixão, Zé Pintor.
[3] Hong Kong do East Express, 12 de abril de 1995
[4] Albert Eckout.
[5] Historiadora de arte britânica, da Universidade Essex.
[6] ADES, Dawn. As dimensões antropofágicas do dada e do Surrealismo. In: XXVIII Bienal de São Paulo, 1998, pg. 236.
[7] MUNDY, J. Canibalismo de Outono, In: XVIII Bienal de São Paulo, 1998, pg. 258. Tradução: Izabel Murat Burbridge.
[8] ANDRADE, O. Memórias Sentimentais de João Miramar, 1942, pg. 87.
[9] Fez dupla com Oscarito em Carnaval Atlântida (Dir. José Carlos Burle, 1952, Cinédia)

Eu, um negro

Eu, um negro (Jean Rouch, 1959)

Jean Rouch: uma fissura no cinema

Quando os irmãos Lumière inventaram o cinematógrafo, a impressão de imagens tinha uma função científica, tecnológica. O documentário e a ficção não eram gêneros separados, como se procuraram fixar ao longo da história do cinema. Por isso que os filmes que fizeram evoluir a linguagem cinematográfica sempre tenderam à dissolução dos gêneros e das linguagens. Um filme é sempre um documentário de seu estado histórico, de seu tempo-espaço.
Com o advento do Som, em 1929, o cinema sofreu uma das suas grandes viradas tecnológicas. Como arte tecnológica que é, o cinema sempre passou por essas transformações, e, a partir disso, pôde evoluir sua linguagem, seus conceitos. Até então, o cinema, mesmo sonoro, não possuía sincronismo entre a imagem e o som. Os filmes eram apenas dublados e os documentários não possuíam entrevistas o que para muitos cineastas era limitador.
Não para Jean Rouch, cineasta e antropólogo francês, que fez vários filmes na África desde que foi pela primeira vez como engenheiro. Começou a conhecer profundamente o povo africano e procurou, junto a esse povo, criar filmes que pudessem identificar sua cultura, religiões, linguagens. Em 1959, na antiga Costa do Marfim, hoje Gana, Rouch propôs a um grupo de jovens um filme. Eles vinham do Níger, procurando emprego, e Rouch os acompanharia durante um ano para fazer um documentário. Eles perguntaram a Rouch: “Por que não fazemos um filme de verdade?”. “O que é um filme de verdade?”, respondeu Rouch. “Um filme como os filmes americanos”. Nasce aí, um dos filmes mais importantes do cinema. Um filme que libertou outros todos, pois mostrou que da possível não-relação entre a Imagem e o Som, pode nascer um discurso. O cinema não é teatro filmado.
Eu, um negro (1959), portanto, explodiu as fronteiras do documentário e da ficção. E para a área da Antropologia, incutiu o conceito de Rouch, de antropologia compartilhada.
Como a imagem e o som não eram sincronizados, Rouch filmou seqüências dos jovens. A partir daí, eles improvisaram os diálogos sobre as imagens e reinventaram suas performances a partir da dublagem. Eles se chamavam como astros do boxe e do cinema americano. O principal, Edward G. Robinson, chamou-se do nome de um dos maiores atores de filmes de gângsteres do cinema americano. A influência do imaginário do cinema americano transparece. Apesar disso, vemos e ouvimos, toda uma visão de mundo: sua relação com a vida, com o dinheiro, com as mulheres, com os amigos, com o trabalho. Rouch compartilha e respeita, dentro do filme, essa visão. A politização da experiência do personagem principal é evidenciada na sua fala. A sua fala é o filme, enquanto a poesia das imagens ajuda a criar essa relação.
Quando o som irrompeu na história do cinema, inúmeros cineastas e teóricos temiam a morte do cinema. Desde seu nascimento, criou-se todo um conceito de se contar histórias a partir e unicamente das imagens; tanto que alguns cineastas, como Murnau e Eisenstein, refletiram e criaram a partir disso. Eisenstein pensava que o som nunca poderia ser complementar à imagem, porque esta perderia sua potência. Escrevia que o som apenas poderia ser contraponto, pois, a partir daí, uma imagem e um som, não condizentes entre si, esse choque, poderia causar sentidos. Rouch, em outra chave, buscou isso.
Inclassificável, Eu, um negro nos mostra, então, a afirmação de um ser humano em seu estado histórico-social sob um mundo violentado por um sistema político-colonizador. Não é à toa que o país mais poderoso do mundo faz com que vivamos com seus filmes, séries de tevê, costumes, linguagens e ideologias. Este filme é uma luta contra o pressuposto, óbvio, que, neste mundo, colonizar é impor Imagens.

Leonardo Barbosa Rossato é graduado e mestrando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

O Mal do Século – O Corte (Costa-Gavras, 2005)

O Corte (Costa-Gavras, 2005)
O Mal do Século
Bruno Davert (José Garcia) é demitido da empresa onde trabalhou por 15 anos quando esta passa por uma redução de pessoal antes da transferência de sua sede para o leste europeu. Depois de dois anos desempregado e sem vislumbrar possibilidade de sucesso profissional, ele resolve tomar o cargo de um engenheiro de papel da mais próspera indústria do país, a Arcadia. Para isso, elabora um plano macabro: eliminar os cinco principais concorrentes a essa vaga e, é claro, o seu atual ocupante.
O Corte, filme lançado em 2005, conta com um fino humor negro, presente nas trapalhadas deste desempregado na eliminação de seus adversários pelo emprego. A adaptação do livro do americano Donald Westlake, sob a direção de Costa Gavras, é uma crítica ao capitalismo que rege a nossa sociedade atualmente. Ela mostra a ganância corporativa que acirra a concorrência e o medo do cada vez crescente desemprego. Tais situações são formadas pela busca desenfreada pelo consumo, numa sociedade em que “ter” é o verbo mais admirado.
De acordo com o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, “As pessoas não são excluídas porque são más, mas porque outros demonstram ser mais espertos na arte de passar por cima dos outros”¹. Assim é a sociedade capitalista, onde um estranho “darwinismo social” faz prevalecer a máxima de que “só os fortes sobrevivem”. Logo, observamos tal situação na última película do grego.
O diretor brinca ainda com os clichês de filmes americanos, onde a TV mostra sempre notícias sobre o assunto interessante aos personagens (a propaganda da fábrica de papel Arcadia e o noticiário sobre a morte de um dos concorrentes de Bruno, por exemplo). Ainda, uma campanha publicitária que nunca chega a ser totalmente compreendida pela audiência pontua vários momentos numa crítica muda ao consumismo (outdoors e um caminhão que passa com a propaganda, quando a câmera abandona a cena principal para seguir o veículo).
O roteiro, elaborado por Costa Gavras e Jean-Claude Grumberg, certamente é o ponto mais alto nessa obra, tendo inclusive recebido indicação ao César de Melhor Roteiro Adaptado. Também se trata de uma novidade no cinema de Gavras, famoso pela feitura de filmes com cunho político e social, aqui há um registro inédito em sua carreira: a pincelada cômica na história tratada
Retratando a globalização levada às últimas conseqüências, O Corte é uma produção que quer fazer pensar. Reconvocando Bauman, poder-se-ia, assim, afirmar que “A globalização é excludente, traiçoeira, eliminadora. Ela causa morte, fome, desemprego e caos para milhões de seres humanos”², exatamente o enfoque que Gavras consegue em seu filme.
Fora da lógica hollywoodiana, o filme em momento algum se deixa levar pela filosofia maniqueísta. Por mais que o espectador julgue Devert culpado e criminoso, ele nunca chega realmente a odiar a personagem. Ainda que se crie a expectativa de uma punição, ela não acontece, e nem por isso desaponta. Não se encontra aqui a lógica da “culpa que termina em castigo”, doutrina do cinema clássico norte-americano.
Observando Bruno, ele é um cidadão comum, até medíocre. É o típico pai de família que, sem emprego para sustentar a casa, acaba um pouco deprimido e desmotivado, enfoque esse tão vulgar no cinema como um todo. Nem mesmo o rótulo de criminoso chega a ser tão pesado quanto o de “desempregado”. Contudo, a personagem se singulariza por levar às últimas conseqüências a metáfora de “acabar” com a concorrência, quando resolve matar seus adversários na luta por uma vaga.
Ele se destaca ainda pela frieza que consegue adotar frente às suas vítimas. Devert tem o distanciamento necessário de seus alvos (como na cena do terceiro homicídio, em que conversa um pouco com o garçom, mas decide que deve ir embora antes que esse diálogo “ameace sua sanidade mental”).
Por fim, os outros papéis são bastante estereotipados, como a esposa, dona de casa, que precisa arranjar pequenos empregos miseráveis para manter a família. É uma mulher sem iniciativa que, mesmo estranhando o novo comportamento de Bruno, nunca o questiona e compactua com suas escapadas. Assim são também os filhos, uma garota e um garoto (a típica família classe média ocidental), cujos comportamentos refletem a dinâmica da vida do pai.
Costa Gavras consegue em O Corte uma crítica cheia de graça, mas que nem por isso deixa de levantar as questões tão importantes para o mundo atual. A principal delas talvez seja a supressão da ética, da moral, quando ainda preservamos o físico, mas não devotamos o mesmo valor à mente. Por enquanto.
Tariana Fernandes é graduanda em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

O filme contextualizado – diálogos entre sociologia e cinema

O filme contextualizado – diálogos entre sociologia e cinema
Gilmar Santana é Doutor em Sociologia do Cinema – FFLCH/USP e Mestre em Sociologia da Cultura – IFCH/UNICAMP
————–
Assistir, apreciar, analisar e entender um filme. Já isoladamente ou com intersecções entre elas, em cada uma dessas máximas pode-se obter inúmeros resultados interpretativos sobre a obra cinematográfica em recepções tanto mais quanto menos apuradas. Considerando-se os múltiplos gostos e as diferentes formas de produção – descarto aqui a palavra “gênero” como única referência, pois existem diversos trabalhos que não se enquadram em suas tipologias – creio que todos já passaram pelo dilema de indagar para si ou para os outros: o que significa conhecer cinema ou possuir legitimidade para falar de suas peculiaridades, sobretudo diante da capacidade que possui de provocar infinitas percepções? Eu não posso ter apenas minha visão? Qual o grau de validade daquilo que eu entendi?
A sociologia, nessa esfera, como ciência ocupada em compreender as múltiplas faces desse objeto sócio-cultural contribui no sentido de aguçar os olhares para os vários fatores envolvidos em todo o processo da produção fílmica. No intuito de situar o observador contextualmente no universo onde se relacionam criador, obra, receptor, estrutura social e jogo de interesses entre os envolvidos no campo, ela arma um panorama capaz de identificar seus atores sociais numa dinâmica onde suas atuações definem ao mesmo tempo os rumos de futuros projetos, aqueles em andamento e os efeitos multidimensionais que provoca sobre a sociedade.
De antemão, no entanto, quero alertar que esta discussão não tratará de fórmulas visando transformar o espectador comum – ou o especializado – em um supra-sumo da crítica cinematográfica simplesmente porque aparentemente a sociologia apresenta-se como mecanismo explicativo totalizante. Existem muitas ferramentas de análise utilizadas para fomentar a sensibilidade do investigador. A sociologia é apenas uma dentre essas tantas e inclusive possui em seu cabedal, diversas vertentes analíticas que procuram esclarecer a dinâmica cinematográfica. Distintamente do que houve no século XIX, quando esta buscou substituir a literatura como forma de explicação da sociedade, agora se reconhece – no caso do cinema – que é no conjunto dos vários olhares interdisciplinares sobre a mesma imagem que se despertam novas percepções e, conseqüentemente, se revelam novos significados.
Portanto, para qualquer que seja aquele que assista ao filme e busca interpretá-lo, o que mais interessa saber aqui é qual a contribuição de algumas dessas ferramentas – no caso, a sociologia – para o aumento da percepção e principalmente da reflexão do observador. Qualquer filme é passível de múltiplas análises. Dessa forma, o que permanece como mais importante é ver nestes instrumentos de investigação seus papéis auxiliares no processo, dentro de nós, de ampliação sobre elementos contidos nas narrativas, antes não notados. Ainda que para isso existam exigências teóricas e metodológicas nem sempre de fácil entendimento para o investigador.
A seguir, o que poderá explicitamente parecer uma receita na verdade corresponde a alguns pressupostos que julgo necessários para o exercício de uma sociologia do cinema não apenas sobre a análise de filmes, mas sobre o diálogo produtivo e qualitativo entre ciência e arte.
Fazer-se espectador comum
Podemos começar nossa reflexão na esfera do espectador, ou seja, de todos nós que assistimos filmes. Acima de qualquer investigação e conclusão crítica, nunca devemos perder a dimensão de que o recurso principal presente no conjunto da estrutura narrativa cinematográfica – incluindo história, técnica e estética – é essencialmente composto por unidades articuladas entre si com intencionalidades de caráter emocional. Esse dado é importante porque, sabendo e levando em conta esse aspecto pode-se constatar que a experiência global de quem produz ou recebe o filme, está dotada de elementos que continuamente escapam à sistematização total em razão das próprias circunstâncias culturais, psicológicas e sociais, sob as quais este chega aos diversos públicos mundialmente. Para cada platéia, sempre uma nova alternativa de leitura.
Ao mesmo tempo em que a linguagem deste suporte audiovisual pertence à comunicação de massa, seus vários criadores também recorrem aos elementos artísticos – e muitas vezes filosóficos – para desenvolverem suas mensagens. Isso significa que o cinema precisa simultaneamente atender a públicos diversos oscilando entre aquele médio e outro intelectual mais exigente. Entretanto, muito além desse aspecto, o objetivo principal é atingir o maior número de pessoas, por isso, o fator “emoção” é determinante. Assim, fazer o exercício de permitir-se ser um espectador comum ao assistir o filme na primeira e na segunda vez ao menos, é essencial. Ou seja, desarmar-se dos discursos teóricos, sociais e, sobretudo, ideológicos. Sem o sentir, emocionar-se, mergulhar na tela, a proposta do cinema não se realiza, muito menos a prática sociológica.
Em outras palavras, o espectador deve cumprir sua parte nesse tratado implícito que subentende a relação afetiva filme-público. E o pesquisador muito mais, pois além deste papel, suas reações também serão integradas nas reflexões de modo que, quanto maior o envolvimento sentimental, proporcionalmente na razão inversa também deverá ser o distanciamento crítico – é o que se espera ao menos no nível do “tipo ideal” weberiano[1]. Segundo a formulação de Edgar Morin, para que haja o processo de “projeção, identificação e participação” com o filme, (o ato de emocionar-se em seus vários aspectos: chorar, rir, sentir amor, raiva, medo, etc.) é essencial.
Mapear e comparar os prismas objetivos e subjetivos da produção cinematográfica
Racionalmente falando, sabemos que cinema é imagem e técnica. Já em seu sentido original grego, o termo é resultado da junção de duas palavras que significam movimento e escrever. No significado moderno de sua invenção, ele é uma abreviação de “cinematógrafo”, uma técnica industrialmente criada para dar a impressão de movimento com a utilização de fotogramas. Ou seja, não há como se esquivar da observação e compreensão de todo o aparato tecnológico utilizado para gerar a ilusão de real que o cinema nos causa. Como também já aqui, devemos atentar para os mecanismos sociais (indústria, mercado, críticos, artistas e técnicos) que movem este universo. Neles, cada parte configura-se numa dinâmica muito particular que constrói o corpus da obra acabada.
Assim, ao mesmo tempo em que se deve captar, anotar e sistematizar em quadros ou tabelas as múltiplas informações da narrativa: trama, discursos e construção de significados entre personagens, forma e disposição dos objetos cenográficos e cenários, luz e fotografia, som e música, movimentos de câmara e enquadramentos (close, plano médio, plano geral, plano americano), todos seus agentes e executores devem receber a mesma atenção. Diretores, roteiristas, cenógrafos, atores, fotógrafos, produtores, enfim, tanto a equipe como cada um individualmente possui sua projeção dentro e fora da criação cinematográfica.
Estes profissionais, na medida em que se projetam no mercado, alimentam o valor das produções e suas imagens envolvem respeitabilidade representando maiores lucros. Também os membros integrantes da fortuna crítica do cinema possuem relevância tanto econômica como intelectual: críticos, escritores, editores de revistas especializadas, estudiosos acadêmicos, organizadores de mostras e festivais. A relação conjunta de todos estes atores sociais move setores expressivos em suas competências contribuindo para a movimentação da indústria cinematográfica. Detectar e conhecer o maior número possível dos envolvidos no filme a ser estudado, esclarece e proporciona consistência a várias lógicas tanto narrativas como de qualidade de produção. Este “mapeamento” simultâneo entre técnica e seus agentes é importante, pois um filme resulta do bom funcionamento dessas articulações.
Outro elemento fundamental a ser compreendido em um filme é sua temporalidade e espacialidade. É notório que o cinema constrói sua própria noção de tempo e espaço e isso precisa ser localizado, contextualizado e discutido a partir de sua elaboração. Tanto a linguagem de tempos simultâneos (passado, presente, futuro) numa mesma história, como a apresentação de narrativas ambientadas no passado, presente ou no futuro precisam de referenciais sociais atuais que situem o sentido do tempo e do espaço organizados da maneira como se visualiza. De um lado, os vários tempos numa história, lineares ou aleatórios desenvolvem a trajetória específica na ação dramática. De outro, há um contexto histórico onde acontece a história implicando um território – país, cidade ou lugares não demarcados politicamente -, uma época (real ou hipotética no: passado, presente ou futuro).
Em ambos provoca-se uma simultaneidade de tempos, cuja “presentificação” da imagem vem acompanhada de uma lógica que visa responder aos anseios do momento social da produção da obra: dentro da sociedade onde foi produzida, da situação mundial vivida e da consciência dos criadores envolvidos no trabalho. Assim, as idéias apresentadas não espelham exatamente o contexto para onde se remetem, mas a uma busca que explique os dilemas de nossa própria sociedade contemporânea.
Assim, é imprescindível a inclusão da análise da ideologia contida em qualquer filme observado, por mais diferentes que venham a ser as temporalidades. A ideologia pode aparecer na forma (discurso, tipificação das personagens e lugares) como na relação de poder (política ou afetiva) entre as personagens e principalmente – na apresentação e disposição no campo narrativo – das classes sociais (os grupos sociais que aparecem, como são construídos e como se relacionam entre si). Pode também ocorrer de se eliminar em maior ou menor grau esse conteúdo e a classe social como categoria determinante na narrativa, ser esvaziada de sentido. Cabe observar em que momentos isso ocorre e quais as razões ideológicas que justificam o fato. Portanto, também aqui, aparece – ainda que muitas vezes buscando discrição ou neutralidade – a posição ideológica do autor (em geral o diretor) tomando partido por algum lado.
Todo esse conjunto de narrativas só se torna visível em razão das técnicas cinematográficas utilizadas. Novamente, não imaginemos que estas também estão isentas de intenções objetivas. Um maior close ou luz em um ator, que aumenta a intensidade emotiva da cena, uma panorâmica ou travelling que realce uma situação decisiva, acompanhados de efeitos sonoros e trilhas sonoras em momentos estratégicos. Tudo deve ser anotado em paralelo aos efeitos que causam sobre o espectador e às intenções da equipe de produção. Portanto, plasticamente ou esteticamente, existem buscas definidas participando do jogo de forças e poder nas relações entre ambiente e personagens e esses entre si, que respondem ao olhar social e ideológico dos criadores.
Esse levantamento e comparação de dados servem apenas como primeiro passo da sistematização para visualização mais racionalizada sobre o filme. Em si, ainda não se constituem na análise sociológica efetiva, embora já contenham alguns de seus dados em alguns momentos. Seu exercício pode auxiliar qualquer pesquisa voltada a compreender melhor um filme. Não necessariamente na esfera da sociologia. Porém, é claro que contribui em muito para avançar à próxima etapa, onde a investigação ganha corpo mais científico.
Cruzamento de informações e comparação sociológica dentro e fora do filme
Já com todas as informações em mãos, segue-se para a comparação. A relação da dinâmica interna e externa dos fatores apontados acaba se tornando uma prática constante. Neles, deve-se verificar como dialogam simultânea e alternadamente entre si as narrativas: texto, contexto, estética e técnicas cinematográficas, com vistas ao diálogo fora da obra em si, envolvendo o universo cinematográfico (artistas, técnicos, empresários, críticos, produtores, distribuidores).
No plano objetivo acerca do conteúdo do filme é importante notar que por mais sensível que seja o cineasta ele provém de uma classe social que edificou nele uma visão de mundo. As concepções e valores sociais que ele reproduz em sua obra provêm em boa parte de um arcabouço de significados continuamente refeitos, mas que permanecem em sua maneira de contar as histórias e sua forma de administrar seu trabalho. Assim, saber a que grupo social pertence, quais as influências culturais e políticas que recebeu, que cineastas, filmes e pessoas do mundo da arte o tocaram, tudo compõe as marcas de uma trajetória que aparecerá direta ou indiretamente em seu filme. Com esse panorama registrado se perceberá que suas temáticas se repetirão e ganharão mais ou menos visibilidade, conforme essas influências e as novas começarem a se manifestar.
Em geral, quando se constatam esses elementos, rapidamente entende-se a linha narrativa do conjunto dos filmes que ele produziu e o grau de reconhecimento que possui dentro do campo artístico. Pode-se notar, inclusive, na comparação dos filmes ou entre cineastas, porque determinados temas ou diretores permanecem – ultrapassando décadas – enquanto outros são esquecidos. Portanto, compreender quem é o cineasta e o que representa para o universo cinematográfico, com seus êxitos e fracassos, sua circulação na esfera artística e de mercado, seus prêmios, seu alcance de público mundialmente, obedece à ordem da movimentação e existência do profissional em seu oficio.
Claro, penso aqui muito mais no diretor que criou seu estilo e manteve-se mais ou menos fiel a ele e não naquele contratado pelo produtor apenas para dirigir qualquer história, participando da linha de produção de modo estanque, alienado à totalidade da obra. Porém em ambos, os fatores indicados a pouco ocorrem da mesma forma. Assim, com uma ou várias produções, participando ou não de todo processo, o que vale observar é que este tipo de análise situa histórica e artisticamente não só o cineasta, como toda a produção daquele momento em que foi produzida sua obra e com ela todos os outros agentes envolvidos. Em outras palavras, esta etapa comparativa entre cineasta e obra possui como pré-requisito tanto o distanciamento como o envolvimento analítico sobre eles considerando-os como parte de um todo.
Só a partir desse material visualizado e sistematizado é possível traçar os objetivos temáticos e projetar algumas hipóteses de trabalho. Na verdade, por mais que o pesquisador já identifique as abordagens tanto estéticas como ideológicas do diretor que vai investigar – e que possivelmente possua afinidades, preferências ou então curiosidade em conhecê-las no seu trabalho – será no decorrer da pesquisa que precisamente os temas adequados irão surgir e guiar seus rumos. Não por menos que muitos começam numa linha e no meio do trabalho, mudam de caminho. Aquilo que possivelmente empolgou o investigador no início, toma dimensões completamente novas quando se amplia seu contato com o universo do diretor e da temática apontando maiores detalhes sobre o objeto estudado.
A experiência de duas pesquisas
Como apresentei logo início dessa discussão, o que poderia parecer uma receita, nada mais é do que uma experiência metodológica vivida em função de uma pesquisa sociológica sobre cinema, das quais existem várias e com vários caminhos teóricos distintos. Os pressupostos indicados foram as ferramentas utilizadas que – acredito – contribuíram bastante no sentido de satisfazer meus objetivos e confirmar minhas hipóteses.Tentando não me alongar muito, buscarei apenas descrever os resultados e um pouco dos percurso trilhado para que o leitor vislumbre algumas dimensões da contribuição analítica da sociologia, não só para a ciência, arte e sociedade, com também para iluminar com mais qualidade a prática cotidiana dos pretendentes ou profissionais já estabelecidos na área.
A preocupação temática norteou meu trabalho do mestrado do início ao fim. Foi a partir dela que procurei filmes que pudessem dialogar entre si. No entanto, não havia objetivamente a intenção de considerar o olhar do cineasta nem do cinema como mais uma dentre outras formas de expressão sobre a sociedade. Minha idéia era a de que o cinema era um documento fidedigno de uma época, quase como a história humana filmada sem cortes para revelar no futuro os passos da sociedade presente. Era isso, sim, isso também permanece – ainda que latente – registrado na obra, mas não da maneira pura, livre dos fatores já indicados aqui anteriormente.
Na medida em que isso foi se explicitando, também as temáticas se depuraram. Meu conceito sobre classe trabalhadora e popular se ampliou e seus contextos também. Alguns filmes que pretendia trabalhar saíram da lista e diretores que antes eu desconhecia ou não apreciava, passaram a integrar o conjunto das análises. Com as temáticas ocorreu o mesmo. O universo feminino não só ganhou destaque como um capítulo inteiro, dada a extrema participação da mulher na década sobre a qual minha pesquisa se dedicava. Sob o título “Muita gente chegou para contar: classes populares nos filmes brasileiros dos anos 80″, a dissertação trata do olhar cinematográfico de diretores que nos anos 80, abordaram as classes populares como temática central em seus filmes.
Numa busca de diálogo constante entre imagem e contexto político e sócio-cultural, o trabalho concentrou-se em analisar nos filmes, as ideologias de cada diretor e as visões de classe social em suas estéticas, ao mesmo tempo em que visou ressaltar os múltiplos olhares sobre o cotidiano, a luta popular do período e as diversas interpretações sobre a cidadania, tema premente na década investigada. Várias produções cinematográficas do Brasil nos anos 80 abordam a vida das classes populares sob diferentes aspectos. Para essa análise foram selecionados aqueles filmes que enfocavam grupos de trabalhadores e trabalhadoras, geralmente moradores da periferia da Metrópole, cujas histórias do dia-a-dia levantam questões relativas a condições de vida, afetos e direitos sociais. Para visualizar esses propósitos selecionei os filmes: O Homem que Virou Suco, Eles não Usam Black-tie, A Hora da Estrela, Anjos do Arrabalde, Romance da Empregada e Beijo 2348/ 72.
Com diferenças sensíveis entre si, desde estilos, propostas narrativas, políticas e estéticas entre os diretores, foram levantados os temas comuns em cada história e suas formas de abordagem. Sociologicamente, o que mais se evidenciou foram as questões sócio-políticas como fatores determinantes de inspiração para criadores integrados ao processo de lutas por mudanças estruturais e democráticas na sociedade de então. Talvez essa ênfase que frisei aqui sobre o papel e consciência social do diretor em meio a toda teia do campo cinematográfico nessa dissertação não tenha sido tão evidente. Minha preocupação com o jogo democrático era tanta que as questões tecidas nas entrelinhas do filme envolvendo seus processos produtivos não foram racionalizadas a ponto de ganharem destaque merecido na composição da obra fílmica. Isso só veio a ocorrer no trabalho do doutorado.
Com a tese intitulada “Riso, lágrima, ironias e tratados – Pedro Almodóvar criação e paradoxo em construção permanente” parti da pergunta tradicional que muito fazem sobre celebridades na sociedade: o que torna e faz de alguém famoso? Contextualizando historicamente os trabalhos do diretor, relacionando-o com outros cineastas de sua geração (suas práticas profissionais e seus filmes), confrontando a questão dos conflitos de classe dentro e fora dos trabalhos, integrando o complexo dos envolvidos no fazer cinematográfico (desde intelectuais, jornalistas, críticos, até artistas) e a forma peculiar de fazer cinema e negociar suas obras, procurei não apenas definir essa composição social na qual surge um filme, mas a relação contínua do jogo de forças existente entre seus agentes. Esta forma de análise ampliou o que já havia ocorrido no mestrado sobre os temas e me pareceu mais adequada, pois revelava na relação entre as diversas esferas que compunham a confecção dos filmes, seu caráter pulsante num universo marcado pela necessidade constante de renovação de regras.
A experiência demonstrou que não existem padrões rígidos para a consolidação e permanência de cineastas nos círculos de profissionais, porém aqueles em vigor precisam ser seguidos criteriosamente para, inclusive apresentarem novas atitudes quando sua funcionalidade deixar de possuir importância, o que acontece com rapidez. O trabalho deixou evidentes os atores sociais envolvidos, seus papéis e funções, a relação entre si e simultaneamente no que isso resulta tanto para os filmes como para o cinema, entendido como indústria cultural ocupada em entreter, divertir e refletir os inúmeros caminhos da sociedade contemporânea. Nesse aspecto, a sociologia dialoga com o cinema atuando como chave esclarecedora para sistematizar a dinâmica cinematográfica auxiliando as pessoas que procuram entender sua lógica tanto dentro dos filmes como nos elementos envolvidos na sua realização.
Compromisso ético com a sociedade, com a crítica e com o cidadão
Finalizando esta discussão espero ter demonstrado ao leitor como a sociologia hoje se apresenta como instrumento dialógico com o cinema, efetuando uma dupla contribuição: aguça a reflexão crítica ao explicitar as temáticas sociais, seus debates e seu aparato narrativo, juntamente com a relação dos atores sociais protagonistas do processo criativo e trabalha lado a lado com o cinema para aprofundar qualitativamente novas produções. Assim, tanto para pesquisadores, como para os profissionais da área, a obtenção de seus resultados cria parâmetros delineadores não somente sobre o conteúdo dos assuntos a serem tratados, como explica a dinâmica de edificação do campo cinematográfico com suas vantagens, desvantagens e desafios.
Para aqueles interessados no envolvimento desse debate, seja na crítica ou na vida prática do ofício do “fazer cinema”, a sociologia realiza seu compromisso ético com a sociedade e a crítica quando articula maneiras claras de manuseio dos contextos e interesses implicados na elaboração da obra artística. Partindo da premissa de que o cidadão é aquele que participa efetivamente da vida e da construção consciente de sua sociedade, por isso com direito a receber dela retornos que ajudem em sua emancipação como ser social, verifica-se como na esfera cultural e simbólica estes fatores são essenciais. A apropriação do conhecimento – e suas conseqüentes realizações – se faz de maneira contínua e dialética personificada pelos diversos atores sociais que entram e saem da cena social. Evidenciar e divulgar esse quadro é democrático. Desperta a consciência de novos agentes e a sociologia contribui para isso. Abaixo indico uma bibliografia que acredito poder auxilia nessa reflexão. Nela estão incluídos textos utilizados no mestrado e doutorado e também outros que fazem parte das abordagens apontadas aqui.
———————–
Indicações bibliográficas
ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? São Paulo: Cortez; Campinas: Edit. UNICAMP, 1995.
ARAÚJO, Inácio. Cinema. São Paulo: ed. Scipione, 1995.
BARTHES, Roland. A câmara clara. Lisboa: 2001.
BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1999.
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas – magia e técnica, arte e política. 10ª reimpressão, São Paulo: Brasiliense, 1996.
BERGER, Peter T.e LUCKMANN, T.. A construção social da realidade. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 1995.
BERNADET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. SP: Brasiliense. 1985.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 5ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.
________________. As regras da arte. São Paulo: Cia das letras, 1996.
________________ .O poder simbólico. 3.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
BOUTON, R. & BOURRICAUD, F. Dicionário crítico de sociologia. São Paulo: Ática, 1993.
CANCLINI, Nestor García. Culturas híbridas – estratégias para entrar e sair da modernidade. 4ª ed. São Paulo: EDUSP, 2003.
CHARVEY, Leo & Scharwartz, Vanessa, R. (org.). O cinema e a invenção da vida moderna. 2 ed. Revista, São Paulo: Cosac&Naif, 2004.
FAUSTO, Ruy. Marx: lógica e política. Tomo III, São Paulo: Edit. 34, 2002.
FILHO, Daniel Aarão Reis (org.). O manifesto comunista 150 anos depois. 3ª reimpressão, Rio de Janeiro: Contraponto; São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001.
FURTADO, Celso. O capitalismo global. 5. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.
GIDDENS, Anthony. Capitalismo e moderna teoria social. 6. Ed. Lisboa: Edit. Presença, 2005.
HOBSBAWM, Eric J. A era dos extremos. 2. ed., 17ª reimpressão, São Paulo: Cia das letras, 2000.
JAMESON, Fredric. Espaço e Imagem – teorias do pós-moderno e outros ensaios. 3 ed. revista e ampliada, Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2004.
KELLNER, Douglas. A Cultura da Mídia. Bauru, SP, EDUSC, 2001.
KONDER, Leandro. A questão da ideologia. São Paulo: Cia das letras, 2002.
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. 3ª reimpressão, São Paulo: Edit. 34, 2005.
LÉVY, Pierre. O que é virtual? 1ª reimpressão, São Paulo: Editora 34, 1997.
___________. Cibercultura. 5ª reimpressão, São Paulo: Editora 34, 2005.
LIMA, Mequistela. Antropologia do simbólico. Lisboa: editorial Presença, 1983.
MANGUEL, Alberto. Lendo imagens. 1ª reimpressão, São Paulo: Cia das letras, 2001.
MARTIN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: Edit. UFRJ, 1997.
MARTIN, Marcel. A linguagem Cinematográfica. 1ª reimpressão, São Paulo, Brasiliense, 2003.
MARX, KARL.”A mercadoria: os fundamentos da produção”. In FORACCHI, Marialice Mencarini & MARTINS, José de Souza (org.). Sociologia e Sociedade. Rio de Janeiro, São Paulo: Livros Técnicos e Científicos edit. S.A., 1977.
____________ & ENGELS, F. A ideologia alemã (Feurbach). 5. ed. São Paulo: Hucitec, 1986.
____________. “O dezoito brumário” in: Marx – coleção: os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1985.
MATTELART, Armand. Comunicação-mundo: história das idéias e das estratégias. Petrópolis, Vozes, 1994.
METZ, Christian. A significação no cinema. 2.ed. São Paulo: Perspectiva, 1977.
MORIN, Edgar. Culturas de massa no século XX: o espírito do tempo. Volume I: Neurose, Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.
NOVAES, Adauto (org.). O olhar. 9ª reimpressão, São Paulo: Cia das letras, 2002.
ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. 1ª reimpressão, São Paulo: Brasiliense, 1996.
RAMOS, José Mario. Televisão, publicidade e cultura de massa. Rio de Janeiro: Vozes, 1995.
ROUANET, Sergio Paulo. Mal-estar da modernidade. 2 ed., SP, Cia das Letras, 2003.
SORLIN, Pierre. Sociologia del cine. México: Fondo de cultura, 1994.
WEBER, Max. Ensaios de sociologia. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2002.
—————-
[1] Max Weber construiu o conceito do “Tipo ideal” a fim de viabilizar a sistematização das ações sociais ocorridas na sociedade moderna. Este, não se constitui num modelo a ser seguido, mas sim num modelo abstrato composto de valores e significados puros delegados ao objeto analisado que será comparado com outros de qualidades reais ou então com outros tipos ideais, a fim de observar seus lugares sociais e os patamares de sociabilidade entre os sujeitos envolvidos na relação social.

Encontro discute relação entre sociologia e educação

Encontro discute relação entre sociologia e educação

Da Redação
Agência Pará

A sociologia é a base para a formação de educadores e para a compreensão do papel da educação nos contextos social e político. Essa relação entre a investigação sociológica e a educação na contemporaneidade é o tema do I Colóquio de Sociologia da Educação, organizado pela professora Eleanor Palhano, do curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Pará (Uepa).

O evento acontece nesta sexta, 19, no auditório Paulo Freire, da biblioteca do Centro de Ciências Sociais e Educação (CCSE), a partir das 8h30, com entrada franca. “O objetivo do colóquio é debater a contribuição da sociologia para a formação de educadores”, explica Palhano.

Na programação, haverá duas mesas redondas cujos temas são “A sociologia e a formação de professores: diversidades e democracia” e “Pensamentos sociológicos e a educação na contemporaneidade”. O evento contará com a presença de professores da Uepa e convidados de outras universidades, que divulgarão os trabalhos recentes de pesquisa no campo da sociologia da educação.

Além das mesas de discussão, o colóquio terá sessões de pôsteres e o mini-curso “A pesquisa em Sociologia da Educação”. A ideia é propiciar a integração entre professores, pesquisadores e alunos, dando visibilidade política e social à produção de conhecimento na área da sociologia da educação.

As inscrições são gratuitas e devem ser feitas pelo e-mail coloquiodesociologia@bol.com.br ou pelo blog coloquiosociologico.wordpress.com. Os participantes receberão certificado.

Ascom – Uep

A crise não comove a sociedade

A crise não comove a sociedade

Na semana passada, o presidente José Sarney tentou reverter com um discurso em plenário o fortalecimento da corrente que defendia sua renúncia. Ganhou apenas a solidariedade do presidente Lula e um pouco mais de tempo para tomar medidas concretas que tirem o Senado da berlinda.

A verdade é que Sarney está comprometido até o talo com as irregularidades administrativas ora descobertas. Seu jogo será o de ganhar tempo até que a imprensa enjoe do tema. É a tendência predominante, já que não interessa ao governo a morte política de Sarney. Ruim com ele, pior sem ele.

Sarney é uma espécie de poder moderador nas relações do governo com o PMDB. Ainda que não seja confiável, como se viu no episodio da instalação da CPI da Petrobras, quando ele não moveu um dedo para ajudar o governo. Além do mais, não existe alternativa a Sarney. Renan Calheiros, outro pólo de poder em franca recuperação. Ser líder do PMDB está de bom tamanho.

No PT, há quem comemore muito o desgaste de Sarney. O partido se sentiu traído pelo PMDB. Achava-se no direito de comandar o Senado, uma vez que apoiou a candidatura de Michel Temer (PMDB-SP) para a presidência da Câmara. De certa forma, tem toda razão. Até mesmo o presidente Lula teria ouvido de Sarney que não seria candidato.

Depois, docemente constrangido, mudou de idéia. Ganhou e mergulhou o Senado em uma das mais graves crises de sua história, pois, a exemplo de situações limites da nossa história, os vencidos não respeitaram o resultado do jogo e deflagaram uma guerra de foice no escuro, como dizia Tancredo Neves.

A rigor, Sarney deveria renunciar bem como os demais membros da atual mesa. Um nova eleição deveria ser feita, além de uma ampla auditoria externa e independente nas contas do Senado. Porém, nada disso vai acontecer. Pelas seguintes razões: a oposição está desarvorada e acoelhada diante do assunto. Teme ser atingida por acusações graves.

Para a sociedade, a crise do Senado é mais uma que acontece das inúmeras que já aconteceram. No governo, a crise – se não é boa – também não é tão ruim desde que a imagem do presidente seja preservada. Assim, o que deve prevalecer é o imobilismo e o desinteresse geral. Ou seja, daqui a algumas semanas a imprensa baixa o tom e vai atrás de outro tema. Aos poucos, Sarney recuperará a mobilidade política e tudo ficará como dantes no quartel de Abrantes. Essa é a tendência predominante.

No entanto, sempre existe um “porém”. Nesse caso, a crise do PMDB no Senado tem vários pontos de interrogação. Um deles se refere a relação do partido com o PT na sucessão. O governo sabe que o PMDB será vital na disputa em 2010. Principalmente, por causa do tempo de televisão.

Por outro lado, parte do PMDB se sente tentado em se juntar a Serra. Alguns acham que, independente de quem ganhar, o partido será parte do governo. Assim, o ideal é lançar um candidato próprio e alavancar alianças regionais. Não são opções fáceis.

Faltando pouco mais de dezoito meses para o fim da “Era Lula”, o quadro político tende a ser cada vez pior. E, neste momento, o governo está paralisado e sem iniciativa. Esperando a fogueira do Senado baixar. Não é o ideal. É o que resta fazer. Até mesmo pelo fato que de a sucessão de 2010, seja qual for a chapa governista, será decidida pelo ambiente econômico que dificilmente será impactado negativamente pelas trapalhadas de nosso sistema político.

Murillo de Aragão é mestre em Ciência Política, doutor em Sociologia pela UnB e presidente da Arko Advice – Análise Política

Fonte: O Globo

Sociólogo: sexo fica conservador quando economia vai mal

Sociólogo: sexo fica conservador quando economia vai mal

Os períodos de crise econômica fazem com que as pessoas fiquem “mais conservadoras” em seus comportamentos sexuais, segundo o professor de Sociologia da South Bank University de Londres, Jeffrey Weeks. Autor de vários livros sobre a influência social na sexualidade, Weeks assegurou hoje que, diante da instabilidade financeira, as pessoas passam a ter posturas “mais fundamentalistas” em matéria sexual.

Já nos momentos em que a economia está forte, as pessoas se sentem mais relaxadas e abertas a comportamentos sexuais diferentes dos tradicionais e formas alternativas de convivência familiar, acrescentou. O professor disse ainda que a falta de dinheiro não provoca “retrocessos” na abertura da mentalidade registrada nos últimos 30 anos.

Weeks acredita que a aceitação das diversas tendências sexuais está “profundamente arraigada à vida cotidiana”, e por isso a crise não vai gerar uma involução social. Em sua opinião, as pessoas entendem agora novos modelos de família diferentes ao casamento heterossexual defendido pela Igreja como a única união sexual legítima entre seres humanos.

Para o sociólogo, “o moralismo é o maior inimigo” de uma sexualidade saudável, na qual o importante não é o tipo de atos praticados, mas o respeito mútuo e de outras pessoas. Weeks sustenta também que a concepção que temos da sexualidade é determinada pelo doutrinamento religioso e político, que marcam o correto ou incorreto em detrimento da liberdade de escolha.

Sociólogo destaca mobilidade socioeconômica dos imigrantes

Sociólogo destaca mobilidade socioeconômica dos imigrantes

O sociólogo brasileiro Oswaldo Truzzi afirmou ontem que a contribuição dos imigrantes árabes na política brasileira se deve à ascensão econômica que a primeira geração teve no comércio.

Marina Sarruf, enviada especial marina.sarruf@anba.com.br
Marina Sarruf/ANBA Marina Sarruf/ANBA

Rio de Janeiro – O sociólogo brasileiro Oswaldo Truzzi destacou ontem (13) no seminário “A Contribuição dos Árabes às Identidades Ibero-Americanas”, no Rio de Janeiro, que a ascensão econômica dos imigrantes árabes permitiu que eles seguissem carreira política. “As carreiras políticas foram resultados da mobilidade socioeconômica que eles tiveram no Brasil”, afirmou Truzzi, que escreveu sua tese de doutorado pela Universidade de Campinas (Unicamp) baseada na imigração árabe urbana no Brasil.

A trajetória dos primeiros árabes que chegaram ao país começa com os mascates, que depois abrem suas lojinhas, tornam-se comerciantes, passam a ser atacadistas e conquistam a indústria têxtil. “Isso fez com que a primeira geração de descendentes no Brasil entrasse em grandes universidades”, afirmou Truzzi. “Graças à inserção comercial, os imigrantes conseguiram colocar seus filhos em boas escolas”, acrescentou.

Em São Paulo, os cursos de Medicina e de Direito foram os mais procurados pelos filhos de imigrantes. “O comércio podia trazer muito dinheiro, mas o título de doutor trazia mais reconhecimento”, disse o sociólogo. Os alunos de Direito dessa geração foram os primeiros a ingressar na política em 1945.

Após 1970, muitas cidades do interior de São Paulo já contavam com vereadores e prefeitos com sobrenomes árabes. De acordo com Truzzi, o campo político dos árabes em outros estados brasileiros também foi se ampliando. Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul, Amazonas e Ceará foram alguns dos estados visitados por Truzzi, que pode verificar a concentração de árabes. “Nenhuma é igual a São Paulo, mas em cada uma das capitais desses estados há uma concentração razoável de sírios e libaneses”, disse o sociólogo.

Segundo ele, essa boa distribuição dos árabes pelo Brasil se deve a uma imigração urbana, diferente das outras que se caracterizavam por serem rurais. “Em todos esses estados os árabes concentraram suas atividades no comércio”, disse Truzzi.

Durante o seminário, outros palestrantes também afirmaram que a história dos árabes na política de outros países é similar à do Brasil e que o fator principal para isso foi justamente a mobilidade socioeconômica que os imigrantes tiveram.

O palestrante Lorenzo Agar, da Universidade do Chile, por exemplo, afirmou que no ano 2000 um terço das fábricas têxteis na cidade de Santiago era de propriedade de descendentes de árabes. Ele disse ainda que o país recebeu cerca de 10 mil imigrantes árabes até 1940 e a maioria era formada por sírios, libaneses e palestinos.

Reconhecimento

Antes dos árabes ganharem destaque nos campos econômico e político eles precisaram mascatear muito. Quem mostra isso é o antropólogo norte-americano descendente de libaneses, John Tofik Karam, da De Paul University, que escreveu o livro sobre os imigrantes árabes no Brasil: “Um outro arabesco”. A obra é resultado da tese de doutorado de Karam, que mostra a valorização ocorrida com os árabes no país no final do século 20.

O antropólogo afirmou que foi com as atividades na indústria têxtil que os árabes ganharam destaque e começaram a contribuir para o desenvolvimento econômico brasileiro. Na palestra de Karam, ele destacou dois cenários que contextualizam os árabes em São Paulo: a Rua 25 de Março, que virou um símbolo do comércio árabe na cidade e a Câmara de Comércio Árabe Brasileira. “A entidade foi fundada por patrícios da indústria têxtil há mais de 50 anos”, disse.

De acordo com Karam, com a chegada de novos imigrantes de outras nacionalidades a São Paulo, no final dos anos 80, os árabes passaram a dividir seus produtos com mercadorias chinesas, indianas e de outros países, o que descaracterizou um pouco a Rua 25 de Março como a rua dos árabes. Já a Câmara Árabe, a partir da década de 70 passou a ser cada vez mais valorizada, pois o interesse dos empresários em querer negociar com os árabes aumentou. “Hoje a entidade é considerada uma parceria do governo e dos empresários”, afirmou.

Sociologia Económica – Ementa

Sociologia Económica

Código: 711081069
Unidade Orgânica: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Créditos: 6.0
Professor responsável: Maria Margarida Marques
Horas semanais: 4
Língua de ensino: Português

Objectivos

a) Conhecimento e compreensão das principais abordagens sociológicas aos fenómenos económicos;

b) Capacidade de problematizar e analisar fenómenos económicos usando conceitos sociológicos;

c) Capacidade de intervir de modo crítico e informado em organizações económicas;

d) Capacidade de comunicar de modo rigoroso e significativo conhecimentos de Sociologia Económica.

Pré-requisitos

Os alunos devem ter completado 48 unidades de crédito ECTS.

Conteúdo

1 Definição de sociologia económica

1.1 Objectos empírico e teórico
1.2 A Sociologia Económica no campo (sub-)disciplinar da Sociologia

2 Acção económica e encastramento social

2.1 Tipos-ideais de acção e de actor
2.2 Objectivos teóricos e práticas metodológicas
2.3 A tese do desencastramento da esfera económica e a divisão do trabalho teórico entre a Economia e Sociologia
2.4 Recuperação da noção de encastramento pela Nova Sociologia Económica

3 Reciprocidade e redistribuição nas economias capitalistas

3.1 Dádiva e reciprocidade generalizada
3.2 A redistribuição nas economias capitalistas: fiscalidade, provisão de bens públicos e Estado Providência

4 Encastramento estrutural

4.1 Noções básicas de análise de redes sociais
4.2 Encastramento estrutural, encastramento relacional e capital social dos actores empresariais
4.3 Redes sociais e construção social dos mercados
4.4 Redes sociais, empresas e grupos económicos

5 Encastramento institucional e político

5.1 Redução de incerteza e estruturação das actividades económicas
5.2 Constrangimentos formais e informais da acção económica
5.3 Regulação e convenções económicas
5.4 O Estado e a estruturação do campo empresarial

6 Encastramento cultural e cognitivo

6.1 Valores, crenças e representações sociais como condicionantes da acção económica
6.3 Cultura e significado dos objectos económicos
6.4 “Economia moral”: legitimidade das práticas mercantis

Bibliografia

Burns, Tom R. et al., “A Estruturação dos Mercados e de Outros Sistemas Distributivos”, in Tom Burns e Helena Flam, Sistemas de Regras Sociais, Oeiras, Celta, 2000: 157-210

Granovetter, Mark e Richard Swedberg (org.), The Sociology of Economic Life, Boulder e Oxford, Westview Press, 2001 (2ª edição)

Peixoto, João e Rafael Marques (org.), A Nova Sociologia Económica, Oeiras, Celta, 2003

Smelser, Neil J. e Richard Swedberg, The Handbook of Economic Sociology, Princeton, Princeton University Press, 1994

Swedberg, Richard, Principles of Economic Sociology, Princeton e Oxford, Princeton University Press, 2003

Método de ensino

Aulas teóricas (50%);
Aulas práticas (50%): apresentação e discussão pelos alunos de textos de investigação empírica, de planos de investigação sobre temas relevantes e de materiais documentais relevantes, fornecidos pelo docente ou sugeridos pelos alunos.

Método de avaliação

Avaliação contínua da participação nas aulas (10%);
Ficha de leitura (c.5 págs.) (20%);
Apresentação de texto de investigação empírica em aula prática, ou de plano de investigação concebido pelos alunos sobre tema relevante acordado com o docente (em grupo) (20%);
Teste escrito presencial sobre a totalidade da matéria teórica (50%).

Fonte: Universidade Nova de Lisboa

Sociologia Econômica – Ementa

Sociologia Econômica

I. EMENTA

A disciplina visa introduzir o aluno à perspectiva teórica que se volta para a aplicação da sociologia à análise dos fenômenos econômicos, de modo a destacar como as ações econômicas (concernentes à produção, distribuição, troca e consumo de bens e serviços) estão delimitadas não apenas pela escassez dos recursos que as sustentam, mas igualmente por características da estrutura social e das estruturas de significados, social e culturalmente produzidas.

II. PROGRAMA

1. A constituição do campo de uma sociologia da vida econômica

2. A economia numa perspectiva sociológica: revisitando algumas categorias-chave à luz de autores
contemporâneos

2.1 – Mercados como socialmente estruturados
2.2 – Redes e organização social da vida econômica
2.3 – Consumo e estilos de vida; cultura e atividade econômica
2.4 – A sociologia das transformações macro-econômicas: modernização, desenvolvimento
e globalização

3. A Sociologia da Indústria e das Firmas

3.1 – Paradigmas de produção, contextos societais e performance da firma
3.2 – A dinâmica social interna à firma: mercados internos, hierarquias e gestão do uso do
trabalho
3.3 – Empresários e gerentes enquanto atores sociais

4. Economia e sociedade: Desafios da interseção de perspectivas – Temas seletos

4.1 – Religião e vida econômica
4.2 – Família, relações de gênero e atividade econômica
4.3 – Meio ambiente, economia e sociedade
4.4 – Estado, Bem-Estar e economia
4.5 – Racionalidade, informalidade e atividade econômica

III SISTEMÁTICA DE FUNCIONAMENTO

Freqüência:

A freqüência ao curso será anotada através de lista de controle emitida a cada dia e atualizada para acompanhamento da situação de faltas por cada aluno(a). Lembro que o(a) aluno(a) estará reprovado(a) ao ultrapassar 25% de faltas (isto é, o máximo de faltas será igual a 4).

Sistemática das aulas:

As aulas serão compostas de duas partes. Na primeira, uma apresentação expositiva do professor introduzirá, apresentando, o tema focalizado no dia; haverá indicação de leitura mínima comum para o conjunto dos alunos. Na segunda parte da aula, textos seletos, de natureza empírica ou aplicada, ilustrarão experiências de estudo no tema; esta segunda parte terá a forma de seminário, no qual grupos de alunos se encarregarão de trazer para discussão textos que aprofundarão ou ilustrarão o uso das categorias teóricas antes discutidas. Apenas o item 1 do Programa escapará a esta sistemática.

Avaliação da aprendizagem:

Serão atribuídas duas notas.

A primeira delas valerá 40% da nota final e resultará de duas resenhas de leitura a serem preparadas individualmente; elas versarão sobre temas selecionados pelo aluno, entre os assuntos das partes 2 e 3 do programa; cada resenha deverá ser apresentada para discussão no seminário do tema correspondente e entregue, em sua forma revista (se assim for considerado conveniente), ao final da parte que corresponda ao tema resenhado. A segunda nota valerá 60% da nota final e resultará da avaliação de um trabalho final, a ser definido por cada um dos alunos em comum acordo com a professora, até o final da parte 3, e entregue no último dia letivo do semestre 02/2004 (22/1); sugere-se que o trabalho envolva não somente uma revisão de literatura no tema, mas alguma sorte de incursão empírica, que permita verificar a capacidade de apropriar-se da literatura examinada para propor um objeto de estudo pertinente ao debate no tema.

IV BIBLIOGRAFIA E PROGRAMAÇÃO DE LEITURAS

SMELSER, Neil and SWEDBERG, Richard. “The sociological perspective on the economy” . In: SMELSER, Neil and

SWEDBERG, Richard (eds). The Handbook of Economic Sociology. Princeton, Princeton Univ. Press, 1994, pp 3-26.

SWEDBERG, Richard. “Hacia una nueva sociología económica: balance y perspectivas”. In: Trabajo, ano 2 , no. 4 (La construcción social del mercado), pp. 5-33.

SWEDBERG, Richard. “Economic Sociology: Today and Tomorrow”. Manuscrito a ser publicado em Tempo Social, vol. 16, n. 2 (Sociologia Econômica), out-dez, 2004. Há tradução ao português.

STEINER, Philippe. “Introduction” . In: La Sociologie Economique. Paris, Éditions La Découverte, pp. 3-28.

TRIGILIA, Carlo. “What is Economic Sociology?” In: Economic Sociology. State, Market and Society in Modern Capitalism, Londres, Blackwell Publ., 2002, pp.1-14.

Leituras complementares optativas:

SMELSER, Neil J. “Desenvolvimentos históricos na sociologia econômica”. In A Sociologia da Vida Econômica. São Paulo, Livraria Pioneira Editora, p.p. 13-43.

GRANOVETTER, Mark. “Economic action and social structure: the problem of embeddedness”, in Mark Granovetter e Richard Swedberg. The Sociology of Economic Life. Colorado, Westview Press, 1992, cap. 2, pp. 53-81.

BOURDIEU, Pierre. « Introduction ». In : Les Structures Sociales de L′ Economie. Paris, Seuil, 2000, pp. 10-26.

Leituras para seminário:

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo, Livraria Pioneira Editora, especialmente pp. 1-15 (“Introdução”), pp. 16-27 (“Filiação religiosa e estratificação social”) e pp. 28-51 (“O espírito do capitalismo”).

POLANYI, Karl. A Grande Transformação. As origens da nossa época. Rio de Janeiro, Ed. Campus, 2000. Especialmente pp. 62-75 (“Sociedades e Sistemas Econômicos”, cap. 4), pp. 76-78 (“Evolução do padrão de mercado”, cap. 5); pp. 89-98 (“O Mercado auto-regulável e as mercadorias fictícias: trabalho, terra e dinheiro”, cap.6);

MARX, Karl. “La jornada de trabajo”. El Capital. Libro I, vol. 2, México, Siglo XXI, 1974.

Fonte: USP

Sociologia econômica

Sociologia econômica

A sociologia econômica é um ramo da sociologia que busca os elementos socializadores da economia e do mercado. Surgiu em resposta às teorias da economia clássica e neoclássica sobre o Homo economicus e a teoria da escolha racional ao negar que as relações sociais inseridas no mercado visassem somente a satisifação racional e utilitária de interesses individuais.

Vários são os sociólogos e antropólogos que discutem as relações sociais no interior da economia. Uma das críticas centrais à visão da economia clássica é a de que esta teria tomado como modelo de ação aquela objetivada no interior da economia de mercado moderna (i.e. capitalista) e postulado a partir daí que esta seria a base de toda ação humana. Marcel Mauss, por exemplo, mostra como nas sociedades não desenvolvidas/mercantilizadas os povos estabelecem relações de troca pautadas por uma outra lógica que não a mercantil individualista. Nelas, as sociedades primitivas, estabeleceriam tais relações baseadas no que o autor convencionou chamar de princípio da reciprocidade, ou melhor, o Dom.

Weber, ainda que fortemente influenciado pela perpsectiva do avanço da racionalidade no mundo moderno, percebeu que as ações puramente racionais eram na verdade uma pequena parcela das existentes, mesmo onde se faziam necessárias. Desta forma distinguiu três tipos básicos de ação:

* Ação racional
o com vistas a fins
o com vistas a valores
* Ação tradicional
* Ação afetiva

Itinerários na sociologia brasileira

Como se tornar sociólogo: itinerários na sociologia brasileira

Nísia Trindade Lima

Elide Rugai BASTOS, Fernando ABRUCIO, Maria Rita LOUREIRO & José Marcio REGO. Conversas com sociólogos brasileiros. São Paulo, Editora 34, 2006. 464 páginas.

Ponto de encontro de diferentes tradições intelectuais, a institucionalização universitária da sociologia é o tema privilegiado nos depoimentos de 21 sociólogos convocados a darem seu testemunho e a refletirem sobre o que se revela na quase totalidade dos casos como dupla vocação: a ciência e a política. Em foco, o progressivo processo de especialização, com a delimitação de fronteiras disciplinares entre a sociologia, a ciência política e a antropologia. Ainda que a primeira experiência de ensino de pós-graduação, sugestivamente reunindo antropologia e sociologia em um único programa, tenha ocorrido na Escola Livre de Sociologia e Política, na década de 1940, a institucionalização de um sistema de pós-graduação nos moldes atualmente conhecidos só viria a ocorrer nos anos de 1970, processo amplamente discutido em Conversas com sociólogos brasileiros.

Como estudo de trajetórias intelectuais, os depoimentos têm, entre outros, o mérito de revelar a inconsistência de se pensar em projetos pessoais definidos a priori. As diferentes narrativas sobre as carreiras individuais dos sociólogos entrevistados não se apresentam, assim, como construção teleológica, voltada a identificar um objetivo que modelaria retrospectivamente suas escolhas e estilos. Problemas políticos como os que decorreram da implantação do regime militar, oportunidades referidas a projetos de pesquisa que tiveram forte impacto na institucionalização das ciências sociais, e da sociologia em particular, mas também acasos e contingências são lembrados, permitindo perceber um diversificado mosaico, no qual padrões e estilos tanto individuais, mas principalmente institucionais, podem ser identificados.

Como observam os organizadores, os estudos sobre a história das ciências sociais incluem, no Brasil, aqueles que se dedicam à formação do pensamento social e valorizam os autores e as matrizes de interpretação; ao processo de institucionalização das ciências sociais; às relações entre os membros dos grupos que se dedicam à atividade intelectual; à análise de autores específicos; e aos itinerários intelectuais. Para os estudiosos que se situam em qualquer uma dessas vertentes, bem como para um público mais amplo interessado em conhecer a história das ciências sociais, Conversas com sociólogos brasileiros constitui-se em importante referência. O livro vem se somar, desse modo, a uma produção bibliográfica bastante significativa e que consiste em um dos temas privilegiados no Grupo de Trabalho “Pensamento Social Brasileiro” da Anpocs (Miceli, 1989; Santos, 2002; Oliveira, 1999; Villas Bôas, 2006).

De acordo com seus organizadores, o livro apresenta uma síntese da história da sociologia no Brasil, na perspectiva dos participantes deste processo. Entretanto, um ponto a ser observado é que ele representa algumas versões sobre essa história, condicionadas pela experiência em um conjunto restrito de instituições, tanto no que se refere à atualidade, como principalmente no que se refere às gerações que iniciaram suas carreiras no período entre 1940 e 1960. Refiro-me especificamente ao problema do universo dos sociólogos entrevistados para o projeto, comentado na apresentação: “predominaram na montagem da lista os sociólogos ligados de alguma forma à Universidade de São Paulo, seja pela formação, seja pelo trabalho profissional atual ou passado” (p. 9). Ainda que se concorde com os organizadores quanto ao lugar de destaque ocupado pela Usp e que se entendam as dificuldades para o registro de todos os depoimentos previstos no projeto original, cabe ressaltar o viés presente na publicação.

De fato, em um total de 21 depoentes, onze tiveram ou mantém vínculos como docentes da Universidade de São Paulo: Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, Juarez Brandão Lopes, Gabriel Cohn, José de Souza Martins, Sergio Miceli, Brasilio Sallum Jr., Reginaldo Prandi, Maria Arminda do N. Arruda e Ricardo Abramovay. O quadro de depoentes é completado pelos sociólogos que pertencem aos quadros docentes da Universidade de Campinas (Unicamp) – Renato Ortiz e Ricardo Antunes – por José Carlos Durand, aposentado pela Fundação Getulio Vargas-SP e pesquisador associado ao grupo Focus, da Faculdade de Educação da Unicamp; Benicio Viero Schmidt, da Universidade de Brasília (UnB); Elisa Reis e Gláucia Villas Bôas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Ricardo Benzaquen e Luiz Werneck Vianna do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj); César Barreira da Universidade Federal do Ceará (UFC) e José Vicente Tavares, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS).

A maior representatividade uspiana é quase absoluta no que se refere à primeira e à segunda geração de sociólogos entrevistados. Com isto, experiências importantes como as que ocorreram na Escola Livre de Sociologia e Política, no Instituto Superior de Estudos Brasileiros, no Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, no Centro Latino-Americano de Pesquisas em Ciências Sociais e em outras áreas de atuação das ciências sociais são pouco consideradas ou analisadas em larga medida sob o prisma dos que participaram da constituição da sociologia na Usp. De todo modo, no que se refere à experiência da Escola Livre de Sociologia e Política, por exemplo, os leitores poderão se beneficiar dos comentários de Florestan Fernandes, que defendeu nessa instituição sua dissertação de mestrado A organização social dos tupinambás, e principalmente do depoimento de Juarez Brandão Lopes, que se estende sobre sua vivência naquela instituição e o contato com alguns professores.

Não obstante essa ponderação, o livro apresenta-se como fonte importante para os estudos sobre a história das ciências sociais. Sua leitura permite elucidar aspectos referidos às orientações teórico-metodológicas predominantes em cada momento, aos meios e aos recursos institucionais que favoreceram a produção acadêmica em certas temáticas e abordagens, e à definição de agendas de pesquisa. Do conjunto de depoimentos, apenas os de Florestan Fernandes e Octavio Ianni não foram realizados tendo em vista esse projeto editorial. O primeiro foi composto a partir da entrevista realizada por Caio Navarro Toledo e publicada em A condição do sociólogo (Hucitec, 1978) e o de Ianni, com base nas entrevistas concedidas pelo autor ao Jornal da Unicamp, à revista Estudos Avançados e de depoimento inédito prestado a Elide Rugai Bastos, uma das organizadoras do livro, em 1983.

Com relação ao período de 1940 a 1964, os depoimentos indicam o esforço de constituir a sociologia como ciência, distinguindo-a da filosofia, como observa Fernando Henrique Cardoso ou, nas palavras de Florestan Fernandes, o esforço de afirmá-la como uma ciência empírica. Ressalte-se também, no que se refere a esse período, a importância de projetos como o de “Relações raciais no Brasil”, promovido pela Unesco, bem como do projeto “Economia e sociedade” e da criação do Centro de Sociologia Industrial e do Trabalho (CSIT).

O primeiro teve particular importância em investigações realizadas tanto pelos intelectuais da Usp, sob a liderança de Florestan Fernandes, como em diversos outros centros do país. Em seu âmbito, foi firmado o convênio entre a Universidade de Columbia e o governo do estado da Bahia para o desenvolvimento da pesquisa empreendida por Thales de Azevedo, da então Faculdade de Filosofia da Bahia, Charles Wagley, Marvin Harris, Harry William Huntchinson e Benjamin Zimmerman. Também no Rio de Janeiro, sob a coordenação de Costa Pinto, do Departamento de Ciências Sociais da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), e, em Pernambuco, sob a liderança de René Ribeiro, da Fundação Joaquim Nabuco, o projeto alcançou expressivos resultados (Maio, 1997).

Segundo Florestan Fernandes, a pesquisa sobre Relações raciais foi a maior de que participou e teve como um dos resultados a publicação dos livros que considerava sua maior contribuição empírica ao conhecimento sociológico da sociedade brasileira. Referências a essa investigação, assim como ao projeto “Economia e sociedade” e ao papel do CSIT, podem ser encontradas nos depoimentos de Florestan Fernandes, Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, Gabriel Cohn e José de Souza Martins. Neles evidencia-se algo apontado em alguns trabalhos sobre a história das ciências sociais no Brasil: a importância de se problematizar a contraposição entre ciência e política (Martins, 1996). No que se refere à institucionalização da sociologia na Usp, trata-se de observar a convivência entre a busca de se moldar uma comunidade científica com os atributos de autonomia acadêmica, tal como definidos por Robert Merton, e um perfil de intelectual cuja atuação pode ser analisada como a de uma intelligentzia, no sentido proposto por Karl Mannheim (Werneck Vianna, 1997; Lima, 1999;Villas Bôas, 2006).

Um tema fundamental abordado pelos entrevistados consiste no impacto do regime militar, tanto para os que permaneceram no Brasil como para os que foram estudar em universidades européias e norte-americanas. Nota-se que, para a geração que se graduou por volta de 1970, o estudo de pós-graduação no exterior revelou-se estratégia importante em seu processo de formação acadêmica ao mesmo tempo em que contribuiu para a maior diversidade de orientações teóricas e metodológicas.

O papel de algumas instituições privadas na preservação da pesquisa de qualidade e da liberdade acadêmica durante o regime militar é lembrado em muitos depoimentos, que se reportam ao papel desempenhado pelo Iuperj, pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pela Fundação Getulio Vargas-SP. Durante esse período, uma experiência institucional importante na formação de lideranças acadêmicas nas ciências sociais brasileiras ocorreu na Faculdade de Sociologia e Política da UFMG, tal como pode ser observado na leitura do depoimento de Elisa Reis. Também a solidariedade de alguns intelectuais e as redes de proteção, que tornaram viável a formação acadêmica e a atividade profissional de muitos cientistas sociais no contexto do autoritarismo, são valorizadas pelos entrevistados e abordadas com acurada sensibilidade por Luiz Werneck Vianna.

Outro marco significativo encontra-se na criação dos primeiros cursos de pós-graduação em ciências sociais no Museu Nacional e no Iuperj, no final da década de 1960. Com eles, a delimitação de fronteiras disciplinares entre sociologia, antropologia e ciência política foi tomando contornos mais nítidos. No que se refere ao quadro atual, a existência de trinta programas de pós-graduação em sociologia é um fato realçado no livro e remete também à discussão sobre a menor concentração regional em torno do eixo Rio de Janeiro-São Paulo. A ampliação do número e a regionalização dos programas merecem atenção de diferentes entrevistados, mas encontra-se mais acentuada nos depoimentos de Reginaldo Prandi e César Barreira.

Diante do progressivo processo de especialização, a criação da Anpocs em 1977 e sua conformação interdisciplinar são valorizadas, especialmente nos depoimentos de Reginaldo Prandi e Ricardo Benzaquen de Araújo. O primeiro observa as resistências à criação da Associação, superadas posteriormente como decorrência de seu papel de romper o isolamento entre os programas e fortalecer a área de ciências sociais. O segundo considera que, além de reunir programas de todas as disciplinas das ciências sociais, a feição interdisciplinar da Anpocs é favorecida pela organização dos grupos temáticos, abertos a profissionais de áreas afins. Em sua perspectiva, a própria sociologia pode ser vista tanto sob o prisma da especialização, como por sua característica mais aberta à “inquietude interdisciplinar”.

Um dos pontos fortes da obra consiste na abordagem de questões que poderíamos considerar relativas a uma escala microssociológica, em particular as experiências discentes e docentes dos sociólogos, algo pouco explorado nos estudos sobre história das ciências sociais. Problemas didáticos, escolha de temas, orientações dadas aos estudantes, grau de liberdade e hierarquias acadêmicas sucedem-se nos relatos dos entrevistados. Chamam atenção, quanto a esse aspecto, as mudanças geracionais e, em particular, o aprendizado de “como se tornar um sociólogo”, em diferentes momentos. Entre outros temas, tem especial interesse o processo de escolha dos objetos das dissertações e teses, descrito com riqueza de detalhes no depoimento de Sergio Miceli.

Nas entrevistas percebem-se também mudanças no que se refere às orientações teóricas. Como acentua Marcelo Ridenti em sua apresentação ao livro, em contraste com o predomínio de visões mais globais e totalizantes dos primeiros tempos, verifica-se atualmente uma maior fragmentação dos objetos, ainda que em quase todos os depoimentos se valorize a tradição da disciplina na interpretação social de mais amplo alcance. Constata-se ainda uma maior diversidade de influências na produção acadêmica contemporânea. Um dado significativo revela-se no índice onomástico: Max Weber, Karl Marx, Pierre Bourdieu e Karl Mannheim são os autores mais citados, considerando-se o conjunto das entrevistas. No que se refere aos temas substantivos abordados, merece registro o fato de o debate em torno da mudança social, mais especificamente da modernização da sociedade brasileira, permanecer como uma questão relevante na agenda intelectual contemporânea.

À pergunta sobre a sociologia hoje e seu possível enfraquecimento, há uma resposta recorrente sobre a vitalidade da disciplina e a multiplicidade de papéis profissionais a serem desempenhados pelos sociólogos na atualidade. Os depoimentos, além de consistirem em fonte para a história das ciências sociais, trazem-nos inúmeros pontos de reflexão sobre a atividade acadêmica e sua interface com os problemas e os desafios do mundo contemporâneo. Revelam, ainda, como esses sociólogos interpretaram a sociedade brasileira, desde a década de 1940, ao mesmo tempo em que foram partícipes de sua constituição, tanto ao modelarem o debate de idéias sobre seu passado e seu presente, como ao contribuírem para a imaginação social e a definição da agenda política do país.

Sociólogo fala sobre segurança pública

Sociólogo fala sobre segurança pública

A convite do Instituto Brasileiro de Combate ao Crime (criado pelo Disque-Denúncia), o doutor em sociologia Luiz Flávio Sapori, ex-secretário adjunto do Estado de Minas Gerais da Defesa Social e amigo deste blog, faz conferência sobre segurança pública, às 14h de hoje, no auditório da Secretaria de Segurança, na Central do Brasil. Sapori, que já foi entrevistado por este blog, coordena o curso de Ciências Sociais da PUCMinas, além de lecionar na Escola de Governo do Estado. Sapori é muito inteligente, preparado e traz uma nova visão sobre a criminalidade, fugindo de velhos clichês adotados pela esquerda.

Ele lançou recentemente um dos melhores livros que já li sobre o tema – “Segurança Pública no Brasil: Desafios e Perspectivas”, editado pela Fundação Getúlio Vargas, no qual defende que o sucesso na gestão da segurança pública depende principalmente de políticas públicas bem formuladas, que contemplem o equilíbrio entre ações repressivas e sociais.

Uma das coisas que os policiais e alguns cidadãos precisam entender é que segurança pública é algo tão sério que não pode ser problema exclusivo da polícia. Para enfrentar o problema, é preciso que todo mundo faça a sua parte, desde o cidadão comum às autoridades da área, passando pelas instituições públicas e privadas, pelo terceiro setor e pelo mundo acadêmico.

Para ouvir o Sapori, as vagas são limitadas. Terá mais chance quem procurar por Adriana Nunes, coordenadora do Disque-Denúncia (2253-1177), e dizer que é leitor do blog.

Fonte: Jornal O Globo

Sociólogo pede rigor aos pais na educação dos filhos

Sociólogo pede rigor aos pais na educação dos filhos

Kuito – O sociólogo Samuel Pequenino aconselhou hoje, na cidade do Kuito, província do Bié, maior empenho dos pais e encarregados de educação, “no combate ao mau comportamento” dos jovens.

Em declarações à Angop, hoje, segunda-feira, Samuel Pequenino sugeriu-os a exercitarem o diálogo familiar, particularmente com os adolescentes, aos quais devem ouvir e dialogar sobre os problemas que os afligem.

Esta prática, referiu, permitiria solucionar ou reduzir o índice de jovens com mau comportamento.

Para si, alguns comportamentos agressivos praticados nas ruas por adolescentes são resultantes da falta de formação académica e ausência das igrejas, associada à falta de diálogo e conselhos, sobretudo ligados ao modo de convivência na sociedade.

Famílias, poder e riqueza: redes políticas no Paraná em 2007

Artigo científico do sociólogo Ricardo Costa de Oliveira desvenda as amarras entre famílias e seus esquemas de perpetuação na política paranaense,

Famílias, poder e riqueza: redes políticas no Paraná em 2007

Ricardo Costa de Oliveira

Sociólogo. Professor Adjunto da Universidade Federal do Paraná

RESUMO

A estrutura de poder não é uma abstração, ela se materializa em situações objetivas de posse de riqueza, se reproduz e se consolida graças a redes políticas, sociais e de parentesco. As redes políticas de poder são definidas neste artigo como conexões de interesses envolvendo, basicamente, empresários e cargos políticos no aparelho de Estado, no executivo, legislativo e no judiciário e, também, em outros espaços de poder buscando assegurar vantagens e privilégios para os participantes. Além da ideologia que lhe reforça a legitimidade, as redes podem utilizar artifícios tais como o nepotismo, o clientelismo e a corrupção.

O estado do Paraná é apresentado como exemplo de modernidade, de racionalidade, de adesão aos valores e às práticas de um capitalismo regido pelos princípios de impessoalidade e de eficiência. Neste artigo mostraremos que isso é um mito. Para tanto, procederemos à genealogia de famílias que detêm poder e riqueza na atualidade, mas que estão associadas aos interesses dominantes há quase 300 anos. Nomes ilustres da política e da economia compõem uma surpreendente e intricada rede de relações familiares, de parentesco e de privilegiamento que assegura a estrutura do poder nas mais diversas conjunturas econômicas e políticas.

Palavras-chave: Redes políticas de poder, redes sociais dominantes, grupos dominantes, genealogia do poder.

Introdução

O estudo analítico dos ricos e poderosos é, antes de qualquer coisa, o estudo sobre uma ampla rede social (Marques, 1999) e política de interesses. Muitas vezes, as conexões e os capitais sociais e políticos são acumulados ao longo de diversas gerações, como pude demonstrar na obra O Silêncio dos Vencedores. Genealogia, Classe Dominante e Estado no Paraná (Oliveira, 2001). No Brasil, a ação social e econômica dos poderosos fundamenta-se em torno do aparelho de Estado, como forma direta e indireta de controles do fluxo de informações, capitais e privilégios essenciais para a reprodução ampliada da classe dominante. O mesmo vale em outro sentido: a pobreza, a carência e a miséria também podem ser consideradas produtos da falta de políticas sociais do Estado. Pobreza e riqueza, poder e carência são diferentes lados da mesma moeda social, econômica e política.

Definimos rede política como uma conexão de interesses envolvendo empresários e cargos políticos no aparelho de Estado em diferentes poderes, no executivo, legislativo e no judiciário, e em outros espaços de poder em função de operações de mútuo benefício e ações político-financeiras articuladas na informalidade. Esse é o caso de um grande empreiteiro que, ao participar de licitações de obras públicas realizas por prefeituras e secretarias de governo, tenha conexões com deputados, desembargadores e/ou conselheiros do Tribunal de Contas, bem como com funcionários de segundo escalão e jornalistas, em uma rede política formada para comporem uma unidade de ação político-financeira de mútuo interesse e benefício. Essas são as redes políticas, que procuramos definir neste artigo.

Nepotismo, clientelismo e diferentes artifícios são utilizados para as finalidades e resultados das redes políticas, que operam muitas vezes nos limites da legalidade e, por vezes, na ilegalidade. Redes políticas são de difícil visualização para o próprio ministério público, também passível de ser colonizado por redes políticas específicas. Podemos pesquisar em públicos diferentes redes políticas envolvendo parentes, amigos e assessores conectados em esquemas de poder. As redes mudam e transformam-se conforme as alterações da conjuntura e dos governantes. Apresentam múltiplos e diferentes esquemas para distintos governos e atores. No entanto, seguem certa continuidade e revezamento de longa duração, muitas vezes em algumas poucas famílias políticas, e incorporam sempre novos participantes a cada conjuntura, de modo que cada governo e cada legislatura têm novas e velhas conexões em constante formação e transformação. Uma rede política pode ser bastante simples e efetiva. Há quase cinqüenta anos, apenas um empreiteiro, um diretor do Departamento de Estradas de Rodagem e um desembargador do Tribunal de Justiça, todos amigos ou parentes, bastavam para montar um esquema de desfalque no Estado. As transações envolviam poucas pessoas, mas permitiam iniciar um esquema que hoje está na origem de grandes e prestigiosas empresas.

Pesquisar os ricos e poderosos é uma tarefa central e extremamente difícil para a Sociologia crítica. O objeto de investigação quase nunca se revela de maneira transparente e integral, obrigando o pesquisador a utilizar procedimentos equivalentes aos de um detetive de causas escusas.

A riqueza e o poder no Brasil existem em função da conciliação de interesses dominantes em termos de um processo político de longa duração, processo esse definido basicamente pela conciliação entre os poderosos. O que sempre intrigou vários autores é a análise de continuidade das estruturas de poder ao longo de mudanças políticas na história do Brasil. Raimundo Faoro (1985), na obra Os Donos do Poder, aponta as questões da continuidade e da grande adaptabilidade de atores e grupos políticos ao longo de diferentes conjunturas, fenômeno também comprovado por Paulo Mercadante (1965) em A Consciência Conservadora no Brasil.

As mudanças ocorridas na sociedade brasileira ao longo das últimas décadas e dos últimos anos parecem ratificar as constatações dos dois autores. A chegada ao poder do primeiro Presidente da República de origem operária e a situação do Partido dos Trabalhadores alçado ao poder não significaram uma alteração profunda nos mecanismos de poder e de dominação tradicionais no Brasil. A implementação de novas políticas sociais possibilitou uma pequena distribuição de renda (Fundação…, 2006). No entanto, a chegada de Lula e do PT ao poder não representou mudanças políticas significativas na estrutura da distribuição de renda e do poder econômico, comprovando as teses de Faoro e Mercadante no que diz respeito à conciliação e à continuidade das situações básicas.

Genealogia e permanência das redes sociais dos dominantes: o caso do Paraná

Uma correta teorização dessa realidade depende de estudos empíricos que identifiquem a origem, o funcionamento e as dimensões das redes políticas de poder e riqueza que, embora determinantes, não aparecem como tal. A estrutura social e política do estado do Paraná permite ilustrar essa tese. Historicamente sintonizado com a ordem dominante central, o estado é frequentemente apresentado como exemplo de modernidade, de racionalidade, de adesão aos valores e às práticas de um capitalismo regido pelos princípios da impessoalidade e da eficiência. Neste artigo, mostraremos como isso é um mito, continuando fortes e operativas as redes políticas mesmo quando se trata de um governo considerado de esquerda como o do Governador Roberto Requião de Mello e Silva, cujo discurso de posse no segundo mandado foi uma apologia às posições políticas de esquerda.1

Governo, poder e riqueza

Os exemplos multiplicam-se e revelam relações surpreendentes. No dia 27 de março de 2007, foi inaugurada uma unidade da saúde da Prefeitura de Curitiba com o nome de Wallace Thadeu de Mello e Silva, homenagem feita pelo Prefeito de Curitiba, Carlos Alberto Richa (Beto Richa), ao pai do Governador Roberto Requião de Mello e Silva. A homenagem havia sido combinada antes de mais uma das constantes rusgas pessoais e políticas entre os chefes dos poderes executivos paranaense e curitibano.

A homenagem revela as complexas relações que existem no fechado círculo de poder que caracteriza a política paranaense. Depois do período dos interventores, realizou-se, em 1954, a primeira eleição direta para Prefeito de Curitiba, que teve como candidatos, entre outros, o já referido Wallace Thadeu de Mello e Silva e Ney Aminthas de Barros Braga, que venceria o pleito.

Ney Braga seria uma das mais importantes lideranças políticas do Paraná da segunda metade do século XX, destacando-se na ocupação de cargos municipais, estaduais e federais. Ney Braga começou na política com o apoio do então cunhado, o Governador Bento Munhoz da Rocha Neto, que era filho e genro de Governadores do Paraná.2 Ney Braga foi chefe de polícia, prefeito de Curitiba, deputado federal, governador do Paraná e Ministro da Agricultura e Educação. Foi formador e organizador de um grande grupo político, pelo qual passa ou no qual boa parte da elite política iniciase na vida política, administrativa e governamental do Paraná. Como muitos chefes do poder executivo paranaense, ele mesmo, um produto social de velhas famílias tradicionais na política paranaense desde o período colonial, representava a modernização conservadora das elites tradicionais paranaenses. Identificando apenas alguns poucos nomes, já se percebe o fenômeno das relações entre estruturas de parentesco e poder político. Nos últimos cinco períodos governamentais, entre 1991 e 2007, o poder executivo paranaense foi chefiado, fora interinidades e vices, por apenas dois governadores titulares, Roberto Requião – governador por três vezes (1991-1994, 2003-2006, 2007-2010) –, filho de Wallace Thadeu de Mello e Silva, e pelo ex-Prefeito de Curitiba, Jaime Lerner – governador por duas vezes (1995-2002) –, considerado o herdeiro político de Ney Braga.

Outro “herdeiro” de Ney Braga foi José Richa, Prefeito de Londrina, deputado, governador do Paraná eleito em 1982 nas primeiras eleições diretas desde 1964 e senador da República. Richa entrou na política pelas mãos de Ney Braga, depois passou à oposição para garantir sua eleição. Antes de falecer, deixou seu filho Beto Richa como um dos nomes fortes na política paranaense e atual Prefeito de Curitiba. Beto Richa casou com a então jovem herdeira do conglomerado Bamerindus, Fernanda, filha de Tomas Edson Andrade Vieira, um dos mais importantes banqueiros do Brasil na década de 1970, filho do fundador e comandante do grupo Bamerindus, Avelino Vieira. Fernanda Vieira Richa também descende da família Junqueira, uma antiga família de fazendeiros e latifundiários em Minas Gerais e em São Paulo desde o período colonial. Um irmão de Beto Richa, José Richa Filho, é Secretário de Administração da Prefeitura de Curitiba e, antes, foi diretor-financeiro do Departamento de Estradas de Rodagem do Governo do Paraná na gestão de Jaime Lerner e ocupou cargos na Agência de Fomento, no Governo Requião em 2003. Sobre ele, pesa a denúncia de ter feito pagamentos suspeitos a empreiteiras nos últimos dias do Governo Lerner.3 Outro filho do falecido ex-Governador é Adriano Richa, que ganhou cartório na Região Metropolitana de Curitiba, ainda na época em que o pai era vivo.4

No Paraná, abundam exemplos da conciliação como estratégia política dos dominantes. O atual Ministro da Agricultura é Reinhold Stephanes, que já trabalhou em altas esferas nos governos Geisel, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e agora Lula. Stephanes foi deputado federal, 1979-1983, pela ARENA; deputado federal, 1983-1987, pelo PDS; deputado federal, 1991-1995, pelo PFL; deputado federal, 1995-1999, novamente pelo PFL; deputado federal, 2005-2006 reeleito em 2006 pelo PMDB. Stephanes ocupou importantes cargos durante o regime militar: Diretor do INCRA, 1970-1973; Secretário de Apoio, MEC, 1974; Presidente, INPS, 1974-1979; Secretário de Agricultura do Estado do Paraná, 1979-1981; Ministro de Estado da Previdência Social no governo de Fernando Collor de Mello, 1992; Ministro de Estado da Previdência e Assistência Social, 19951998, no governo de Fernando Henrique Cardoso, Presidente do BANESTADO, 1999-2000; Secretário da Administração e do Planejamento de Requião e, por enquanto, Ministro da Agricultura no governo Lula. Tal trajetória indica ou uma surpreendente mudança política, ou que todos os diferentes regimes, partidos e governos tiveram algo em comum. Stephanes também deixa um filho como herdeiro político na Assembléia Legislativa do Paraná, o deputado estadual Reinhold Stephanes Júnior.

Na atualidade, o círculo político das famílias paranaenses está configurado desde cima, começando com a família do próprio governador. Integram-no o Governador Roberto, o irmão Maurício (Secretário da Educação), o irmão Eduardo (Superintendente da Autoridade Portuária de Paranaguá e Antonina), a irmã Lúcia (Diretora-Presidente da Provopar), a esposa Maristela (Diretora do Museu Oscar Niemeyer), o sobrinho João Arruda (Secretaria-Geral do PMDB e diretor na COHAPAR), o primo Heitor Wallace de Mello e Silva (SANEPAR), o outro sobrinho, Paiakan de Mello e Silva (TV Educativa), a sobrinha Danielle de Mello e Silva (Secretaria da Administração) e a cunhada Mariane Quarenghi (Museu Oscar Niemeyer).

As relações da família governamental com o alto empresariado do Paraná materializam-se, entre outras redes, com o empresário Rodrigo Rocha Loures, dono da empresa Nutrimental e Presidente da Federação das Empresas do Estado do Paraná (FIEP), uma das maiores lideranças empresariais do estado, e membro de uma tradicional família, com três séculos de poder político na região. Em 2003, Rocha Loures contou com o apoio de Requião na sua eleição para Presidente da FIEP. O filho de Rocha Loures, Rodrigo Rocha Loures, foi chefe de gabinete de Requião em 2003/4 e, eleito deputado federal pelo PMDB em 2006, tem como chefe de gabinete o filho de Roberto Requião, Maurício.

João Arruda, outro sobrinho do Governador, é casado com Paola Malucelli, filha de Joel Malucelli, um dos maiores empresários do Sul do Brasil. O grupo J. Malucelli possui um conglomerado de empresas (construção pesada, corretora de seguros, banco, revenda de equipamentos e geração de energia) com mais de quatro mil funcionários e faturamento superior a um bilhão de reais por ano. Entre os mais de 50 parentes que trabalham no holding, encontra-se Alexandre, casado em 2003 com a neta do empresário César Gomes, dono da Cerâmica Portobello. A cerimônia e a festa, que reuniram 1.200 mil convidados, foram fartamente noticiadas. Joel Malucelli também é proprietário das rádios CBN e Band News em Curitiba.

Virgílio Moreira Filho é outro exemplo de relações pessoais ligando o Governador ao alto empresariado. Atual Secretário da Indústria, Comércio e Assuntos do Mercosul, Moreira Filho é diretor dos grupos Itambé, Fosforeira Brasileira S/A e Bematech. Foi um dos principais financiadores da campanha de Roberto Requião em 2006, tanto pessoalmente como por meio da Cimentos Itambé. Ele foi Vice-Presidente da FIEP e da Federação das Associações Comerciais e Industriais do Paraná (FACIAP), além ter participado de diretorias de outras entidades. Foi eleito Presidente da Associação Comercial do Paraná em 2006, licenciando-se para continuar à frente da Secretaria de Estado da Indústria, Comércio e Assuntos do Mercosul.

Outro nome do círculo pessoal de Roberto Requião é o Deputado Estadual Alexandre Khury, atualmente Primeiro-Secretário da Assembléia Legislativa do Paraná, cargo central no poder interno da instituição, cujo prédio leva o nome do seu avô, o falecido Deputado Estadual Aníbal Khury. Este era conhecido em sua época como Vice-Rei do Paraná, em função de um grande raio de ações não apenas no legislativo, mas também no executivo, no judiciário, nos cartórios, na polícia, na criação de novos municípios e na intermediação de vários negócios no Paraná. Alexandre Khury está noivo de uma das filhas do empresário Luís Mussi –, também Assessor Especial do Governador Requião –, neta do igualmente empresário e Ex-Governador Paulo Pimentel, genro de Mussi. Os pais de Alexandre Khury são Aníbal Khury Filho e a empresária Jandira Maranhão Khury, de tradicional família de juristas e desembargadores no Paraná. A ilustre família foi denunciada por ilegalidade (superfaturamento) na desapropriação da área do espólio Aníbal Khury; na utilização de recursos do Fundo Estadual do Meio Ambiente; e na inconstitucionalidade do projeto de lei estadual de iniciativa do deputado Hermas Brandão, criando o Parque Municipal Público de Lazer em Almirante Tamandaré.

Outro tio de Alexandre Khury, Ricardo Khury, também falecido, foi durante muitos anos diretor de Crédito Imobiliário do Banestado, de modo que toda a família sempre esteve em cargos e posições muito privilegiadas no Paraná.

O futuro genro do Deputado Estadual Alexandre Khury é o empresário Luis Mussi, concessionário de canal de TV, Presidente do Jockey Club do Paraná, Ex-Secretário da Indústria e Comércio e agora assessor especial do Governador Requião. Luis Mussi é genro do ex-Governador pela ARENA e empresário Paulo Pimentel, que, por sua vez, era genro de João Lunardelli, dono das maiores proprietárias de terras e glebas no Norte do Paraná e irmão de Geremia, o “rei do café”. Paulo Pimentel controla redes de TV e jornais no Paraná e, não se elegendo ao Senado nas eleições de 2002, pelo PMDB, assumiu a Presidência da Companhia Estadual de Energia Elétrica (2003-2004). Outro dos netos de Paulo Pimentel é o atual Presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), Daniel Pimentel Slaviero, filho do ex-presidente da Associação Comercial do Paraná (2004-2006), Cláudio Gomes Slaviero, natural de Irati e empresário nos ramos agropecuário, de distribuição de automotivos, de reflorestamento e de cimento. A família Gomes é uma das principais acionistas da Cimentos Itambé, cujo controle acionário está nas mãos de famílias paranaenses (62% divididos entre os Slaviero, os Gomes e os Araújo). O Coronel Emílio Batista Gomes foi o primeiro prefeito de Irati, em 1907. Um dos netos dele foi o ex-Governador do Paraná, Emílio Hoffmann Gomes, eleito pela Assembléia Legislativa em 1973 e Governador até 1975. Cláudio Slaviero é proprietário da Cimentos Itambé Slaviero, junto com Virgílio Moreira Filho, atual Secretário de Estado da Indústria, Comércio e Assuntos do Mercosul do Paraná.

Entre os principais conselheiros do Governador Requião, encontra-se Pedro Henrique Xavier, cognominado de “PHX”, advogado, colecionador de carros de luxo, que costuma ir ao trabalho no Palácio Iguaçu, guiando uma de suas duas ferraris vermelhas, ou um BMW Z4, um Jaguar ou um Mercedes Benz. PHZ é o Presidente do Conselho de Administração da SANEPAR, Companhia de Saneamento do Paraná, onde se decidem os grandes gastos e investimentos da Companhia. O Conselho de Administração é o órgão deliberativo responsável por determinar as diretrizes e orientação geral para os negócios e por formular e expressar as políticas da Companhia. O Diretor Presidente da SANEPAR é Stênio Jacob, em cuja biografia, constam ações de improbidade administrativa em Blumenau (SC), onde foi secretário de obras acusado de desviar mais de R$ 2 milhões em recursos públicos, em Ponta Grossa, no Paraná, onde negociou serviços de consultoria. A investigação catarinense deixou cicatrizes e fez até com que Jacob ficasse com todos os seus bens indisponíveis. Hoje, à frente da Sanepar, ele preside uma empresa que irá mais investir mais de R$ 200 milhões em 2004.6, O primo do Governador Requião, Heitor Wallace de Mello e Silva, é Diretor de Investimentos da Companhia. Além de Pedro Henrique, a família Xavier também está representada pelo Secretário Estadual de Saúde, Cláudio Xavier, e outro parente, Maurício Xavier, empreiteiro de obras públicas cujo cunhado, Cornelius Unruh, é coordenador do Setor de Engenharia da Secretaria.

Famílias, riqueza e poder

Casos significativos das relações entre famílias, poder e grandes patrimônios remontam há mais de trezentos anos. Em entrevista à Revista Caros Amigos, o empresário paranaense Cecílio do Rego Almeida declarou possuir um patrimônio estimado em cinco bilhões de dólares,7 tendo já sido considerado, pela revista Forbes, como um dos 100 homens mais ricos do planeta. Os negócios empresariais passam pelas empresas de engenharia, avaliadas em 3,2 bilhões de dólares, e compreendem o maior latifúndio do Brasil e do mundo, na Amazônia, sobre o qual pesam denúncias de grilagem. Cecílio do Rego Almeida foi casado com Rosita Beltrão, membro de família atuante na política paranaense no governo Lerner. Alexandre Fontana Beltrão ocupou diversos cargos no estado Paraná. Durante 26 anos, esteve na International Coffe Organization, foi Presidente do Instituto de Tecnologia do Paraná (TECPAR) e Secretário de Estado de Assuntos Estratégicos e de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, respondendo a vários processos no Tribunal de Contas do Paraná. Em um deles, foi absolvido pelo Presidente do TC, Henrique Naigeboren, indicado para o Tribunal por Jaime Lerner, seu cunhado.

As conexões genealógicas entre Cecílio do Rego Almeida e Alexandre Fontana Beltrão são, provavelmente, o exemplo mais expressivo da conexão entre grandes fortunas, poder estatal e grandes famílias ao longo de toda a história econômica do Paraná. Dois municípios no interior do Paraná levam os nomes da família Beltrão (Engenheiro Beltrão, em homenagem a Alexandre Gutierrez Beltrão, e Francisco Beltrão). Cargos centrais no governo estadual, na Prefeitura de Curitiba e no poder judiciário sempre estiveram associados às ambições e os interesses desses grupos, ligados a grandes investimentos imobiliários e a grandes empresas. Alexandre Beltrão tem, como antepassados, figuras centrais na magistratura, nas obras públicas e na colonização do Paraná desde o final do século XIX. O Barão do Serro Azul, Ildefonso Pereira Correia, o maior ervateiro do Paraná em meados do século XIX, era seu bisavô. A família Beltrão multiplicou-se por meio de casamentos com descendentes dos Correia e Guimarães, as principais famílias na exportação de erva-mate. Desde o século XVIII, a parentela de Manoel Antonio Guimarães, o Visconde de Nácar, importante ervateiro e proprietário escravista, sempre reproduziu as relações entre grandes empreendimentos econômicos e posições no aparelho de Estado e na magistratura. Marcelo Beltrão Almeida, filho de Cecílio do Rego Almeida, declarou um patrimônio de R$ 83 milhões à Justiça Eleitoral em 2006. No início de 2007, era o Secretário de Obras do Governo Requião, mas licenciou-se para assumiu a vaga do Deputado Federal de Reinhold Stephanes…

Os esquemas de reprodução implicam ascensões controladas nas esferas do poder. Entre os vereadores de Curitiba que disputaram as eleições para a Assembléia Legislativa em 2006, apenas três conseguiram se eleger: Stephanes Junior, Fábio Camargo e Ney Leprevost, justamente aqueles que tinham curricula vitae exemplares.

De Stephanes Junior, não é necessário apresentar a genealogia. Fábio Camargo é filho e neto de desembargadores do Tribunal de Justiça do Paraná, membro da tradicional família política Camargo, atuante na região há mais de dois séculos, parente do atual Deputado Federal Affonso Alves Camargo Neto, ex-Senador, Ex-Ministro e neto do Presidente do Paraná, por duas vezes na República Velha, Affonso Alves Camargo. Antonio de Sá Camargo foi o Visconde de Guarapuava, um dos símbolos da política paranaense no Império, parente dos outros Camargo ativos no poder contemporâneo. Fábio Camargo é genro do atual Secretário da Casa Civil e Ex-Presidente do Tribunal de Contas do Paraná, Rafael Iatauro. A esposa de Fábio Camargo, Gracia Maria de Medeiros Iatauro, já ocupou a Administração da Regional Matriz, uma das principais subdivisões da estrutura da Prefeitura de Curitiba. A família está representada no Tribunal de Contas por Gracia Maria de Medeiros Iatauro (diretora), Giovana Maria Iatauro (consultora técnica), Rafaela Iatauro Bueno (assessora jurídica) e Tatianna Cruz Bove (inspetoria de controle). Como o sobrenome indica, todas pertencem à família do expresidente, Rafael Iatauro, atual Chefe da Casa Civil do Governo. Tatianna Bove (inspetora de controle) não tem o sobrenome, mas é a atual Sra. Rafael Iatauro. Este não é o único exemplo de nepotismo no TC.

Ney Leprevost, ex-Secretário Estadual de Esportes e Turismo durante o Governo Lerner, é neto de Ney Leprevost –, Prefeito de Curitiba em 1948-49 –, e irmão de João Guilherme e de Alexandre Leprevost, sócios da CWB Brasil, empresa de entretenimento e organizadora de eventos musicais e culturais, alguns financiados pela Prefeitura Municipal de Curitiba e pelo Instituto Pró-Cidadania de Curitiba, dirigido pela primeira dama do município, Fernanda Richa. As conexões entre os poderosos são curiosas, atravessam conjunturas e o jogo situação-oposição. O deputado Ney Leprevost declarou seu orgulho pelo fato do seu grande amigo Alexandre Khury ter sido eleito 1º Secretário da Assembléia Legislativa. Khury começou sua vida pública como estagiário da Secretaria Estadual de Esporte e Turismo quando Leprevost, fiel aliado político de seu avô, era o responsável pela pasta.

Patriarcas e oligarcas têm outros descendentes na atual legislatura. Fernando Ribas Carli Filho é filho do prefeito de Guarapuava, Fernando Ribas Carli, e bisneto do falecido senador Flávio Guimarães. Plauto Miró Guimarães, tio de Fernando Ribas Carli Filho, é também neto do Senador Flávio Guimarães, todos descendentes de Manoel Antonio Guimarães, o Visconde de Nácar.

Riqueza e representação parlamentar

O Paraná é o único estado da federação com dois irmãos senadores, Álvaro Dias e Osmar Dias. A carreira política de Osmar Dias esteve intimamente ligada à carreira política do irmão mais velho, Álvaro Dias.

A análise entre poder, grandes interesses e parentesco fica explícita quando pesquisamos algumas das biografias dos atuais deputados federais. Dos 30 eleitos, 15 apresentaram patrimônios milionários na Justiça Eleitoral, e a maioria possui algum tipo de vínculo com famílias históricas da classe dominante tradicional. Os que não apresentam antigas conexões com poderes tradicionais geralmente são representantes de novas fortunas, em novas atividades econômicas. Três deputados federais eleitos pelo Paraná estão na lista dos dez maiores gastadores do País na campanha eleitoral de 2006. O campeão entre os 513 parlamentares é o paranaense Alfredo Kaefer (PSDB), que declarou, ao Tribunal Superior Eleitoral, ter gasto R$ 2,94 milhões. O segundo colocado também é paranaense, o peemedebista Rocha Loures, com despesas totais de R$ 2,92 milhões. Ratinho Júnior, do PPS, ficou em quarto lugar, com R$ 2,6 milhões. O deputado federal reeleito Odilio Balbinotti (PMDB-PR) é o segundo eleito mais rico, com patrimônio declarado de R$ 123,8 milhões, tendo gasto R$ 1,1 milhão na própria campanha. Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) autofinanciou-se com o valor declarado de R$ 1,13 milhão.

Destacam-se alguns casos na representação empresarial paranaense.

Abelardo Luiz Lupion Mello (PFL) é neto do ex-Governador Moysés Lupion, a maior fortuna do Paraná no início da década de 1940, grande proprietário e pecuarista. Um dos principais articuladores da bancada ruralista no Congresso Federal, Lupion foi apontado com tendo sido beneficiado pelas empresas Monsanto (que teriam vendido uma fazenda ao Deputado em condições mais vantajosas que as de mercado) e Nortox, fabricantes de agrotóxicos.

Affonso Alves Camargo Neto (PSDB) é neto do ex-presidente do Paraná durante a República Velha Affonso Alves Camargo, grande proprietário e pecuarista.

Airton Roveda (PR), empresário do setor mineral, possui empresas de extração de areia. Roveda é Ex-Prefeito de União da Vitória e suplente do Deputado Federal Cassio Taniguchi (PFL), ex-Prefeito de Curitiba, acusado, pela Folha de São Paulo, de ter um caixa 2 de quase trinta milhões na sua campanha para Prefeito de Curitiba em 2000.

Alceni Guerra (PFL) é ex-Deputado Federal e ex-Ministro da Saúde, no Governo de Fernando Collor de Mello. Sua família possui a empresa Sementes Guerra. Filho de Prosdócimo Guerra. Lançou-se candidato a vereador no município de Soledade fazendo 198 votos de um total de 200 eleitores somente na urna de Povoado Novo. Cumpriu seu mandato político com muito brio e fez escola, pois teve, mais tarde, o prazer de, ainda vivo, assistir três de seus filhos ocupando cargos públicos: Waldir Francisco, vereador, secretário de Estado e deputado federal; Ivanio José, deputado federal e Alceni Ângelo, deputado federal (duas vezes), Ministro da Saúde, prefeito municipal e secretário de Estado.

Dilceu Sperafico (PP), pecuarista, grande empresário do setor alimentar, dono de frigoríficos e sócio da Rádio Difusora, declarou bens acima de dez milhões para a justiça eleitoral em 2006. O ministério público do Paraná, em Toledo, recebeu denúncia, com pedido de providências, contra acordo homologado em março de 2005 entre o Banco do Brasil e o Grupo Sperafico. Na denúncia, a empresária Hosana Maria Conti, ex-mulher de um dos sócios do grupo, afirmava que uma dívida de R$ 780 milhões com o banco fora saldada por apenas R$ 29 milhões. O advogado Sérgio Canan, que representou o Grupo Sperafico no acordo, disse que não houvera irregularidades na homologação. O Grupo Sperafico, com atuação em agronegócios no Paraná, em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso, controla agroindústrias e fazendas de soja e milho nos três estados e é dirigido pelos irmãos Levino, Itacir e Dilso Sperafico. Este último foi deputado federal pelo PSDB do Mato Grosso na legislatura 1995-99. Outro irmão, o Deputado Federal Dilceu Sperafico (PP-PR), aparece como um dos executados em 13 ações que o BB moveu contra o grupo. Nas ações, ele consta ou como avalista, ou com bens hipotecados.

Eduardo Sciarra (PFL) é grande empresário do setor da construção. Foi Presidente da Associação Comercial e Industrial de Cascavel e Diretor do Sindicato da Indústria da Construção Civil, Sinduscon Oeste, e da Fundação Paranaense para o Desenvolvimento Tecnológico da Indústria da Construção. Atuou também como conselheiro da Agência de Fomento do Paraná, do Centro de Integração de Tecnologia do Paraná e da Estrada de Ferro Paraná Oeste S.A. Em 1998, assumiu a Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo do Paraná, durante o primeiro governo Lerner, tendo sido acusado pelo governador Requião de irregularidades na gestão da Paraná Ambiental durante o governo Jaime Lerner.

Fernando Giacobo (PR) é grande empresário, mas teve, em 2004, parte de seus bens imóveis bloqueados pela Justiça. É também um dos 36 deputados que respondem a algum tipo de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF).

Gustavo Fruet é irmão de Eleanora Fruet, Secretária Municipal de Educação em Curitiba. Ambos são filhos do ex-Prefeito de Curitiba Maurício Fruet.

Ricardo José Magalhães Barros (PP) é empresário e irmão do Prefeito de Maringá, Sílvio Barros, ambos filhos do ex-prefeito de Maringá, Sílvio Barros. Ricardo Barros é casado com a Deputada Estadual Cida Borghetti. Ele é exemplo das oligarquias familiares na região de Maringá.

Para fechar a lista, temos Rodrigo Santos da Rocha Loures (PMDB), grande empresário, filho do Presidente da FIEP Rodrigo Costa da Rocha Loures, uma das maiores lideranças empresariais do Paraná e Diretor da Nutrimental, indústria de alimentos. Uma das principais receitas da Nutrimental provinha da merenda pública, justamente na época em que Gilda Poli da Rocha Loures era Secretária da Educação do Estado, fato que motivou um processo no Tribunal de Contas da União. Vale a pena reproduzir o exótico texto de Leon Mariotti no lançamento da candidatura de Rocha Loures a deputado federal: Salão do velho Hotel Caravelle apinhado de funcionários públicos, próceres do PMDB e algumas dezenas de figuras do PSDB adesista. Requião, com certo ar triunfalista, preside o ambiente. Vai falar o jovem candidato a deputado federal Rodrigo Rocha Loures, o “Rodriguinho Pagador”, filho do presidente da FIEP, herdeiro da Nutrimental e dono da mais bem-fornida e comentada campanha da temporada… “Quero servir ao Paraná”! Quero servir ao governador Requião! Sou bisneto, neto e filho de uma dinastia que serve ao Paraná! Do alto da pirâmide milionária da FIEP nos contemplam 500 anos de fome, subdesenvolvimento e analfabetismo político.

Justamente, a família Rocha Loures está presente no poder político e econômico da região desde a época da fundação da cidade, há mais de trezentos anos.

Não apenas no legislativo, mas também em outras esferas de poder,a projeção política de tradicionais famílias é observada. No início de 2007, os dois Procuradores Gerais do Paraná pertenciam a famílias históricas no poder paranaense. O Procurador Geral da Justiça era Milton Riquelme de Macedo, da influente família Macedo. O seu primo Rafael Greca de Macedo, ex-Prefeito de Curitiba, ex-ministro, não reeleito para a Assembléia Legislativa do Paraná, foi nomeado para a cobiçada Companhia de Habitação do Paraná, pois garante uma das mais altas remunerações no aparelho de Estado. A família Macedo tem grande poder e influência no Tribunal de Justiça. Nos últimos anos, vários Macedo foram influentes desembargadores no TJ.

Na Procuradoria Geral Estado, estava Sérgio Botto de Lacerda, sobrinho do ex-Ministro da Educação no período da Ditadura Militar e ex-reitor da UFPR, Flávio Suplicy de Lacerda, também parente de Ney Braga.

Outros cargos apontam tradicionais conexões entre estruturas de parentesco e poder político. O atual Secretário de Fazenda do Paraná, Eron Arzua, é sobrinho de Ivo Arzua, Ministro de Agricultura no auge do regime militar, um dos signatários do AI-5.

Conclusão

Apesar de expressivos, os exemplos acima não esgotam as redes sociais e de parentesco que se tramam em torno do poder. Eles foram selecionados de um conjunto mais amplo, que expressa continuidade dos donos do poder, os quais possuem, em alguns casos, ramificações de mais de trezentos anos. Eles ilustram o princípio da reprodução e, por vezes, da conciliação, que permite a manutenção de carreiras políticas e estruturas de poder, independentemente dos regimes políticos, das diferentes composições partidárias e políticas e dos ciclos econômicos. As múltiplas conexões entre poder econômico, poder político e estruturas de parentesco estão sempre sendo renovadas e estão em constante movimento. O controle do poder executivo estadual, com a família Requião de Mello e Silva, e do poder executivo municipal de Curitiba, com a família Richa, revela dimensões atuais de um processo histórico marcado pelo nepotismo, pelo tráfico de influências, pelo poder econômico e pela impunidade.

Sociólogo português profere conferência na UnB

Sociólogo português profere conferência na UnB

Por UnB

Nesta quinta-feira, dia 4 de junho, a Universidade de Brasília (UnB) recebe o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. Um dos pensadores mais respeitados da atualidade, Boaventura visita a UnB e fala em conferência às 8h30, no anfiteatro 9.O tema é “Reinvenção da Emancipação Social a partir das Epistemologias do Sul”.

A conferência de Boaventura integra a temática Universidade e Sociedade, a terceira do ciclo de debates “UnB em ReestruturAção” onde se tem buscado agregar e subsidiar a discussão em torno da construção do projeto político- pedagógico institucional da Universidade de Brasília. A realização é do Decanato de Ensino de Graduação, no âmbito do Programa de Reestruturação e Expansão da Universidade de Brasília – Reuni.

Sociólogo afirma que sociedades menos religiosas vivem melhor

Sociólogo afirma que sociedades menos religiosas vivem melhor

Sociedades menos religiosas da Terra tendem, hoje, a ser mais saudáveis, mais morais, mais igualitárias e mais livres, e as nações mais religiosas tendem a ser mais corruptas, pobres, dominadas pelo crime e caóticas.

A constatação é do sociólogo Phil Zuckerman, professor do Pitzer College, em Claremont, no sul da Califórnia, que morou 14 meses na Escandinávia, em 2005 e 2006, e entrevistou, em profundidade, 149 dinamarqueses e suecos de todas as classes sociais.

Zuckerman tinha por objetivo descobrir como esses dois países – Dinamarca e Suécia, aquele no topo de pesquisas internacionais que se referem à felicidade – considerados os menos religiosos do mundo, têm os mais altos índices de qualidade de vida, com economias fortes, baixas taxas de criminalidade, alto padrão de vida e igualdade social.

O resultado da pesquisa foi apresentado em livro, recém lançado, “Society without God – What the Least Religious Nations can tell us about Contentment (Sociedades sem Deus – O que as nações menos religiosas podem nos dizer a respeito da satisfação).

“Eu quis mostrar aos meus conterrâneos norte-americanos que é possível que uma sociedade seja relativamente irreligiosa e, ainda assim, forte, saudável, moral e próspera”, explicou Zuckerman em entrevista exclusiva ao Instituto Humanitas (IHU), da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

O sociólogo entende que a Dinamarca e a Suécia “provam que é possível que as sociedades sejam relativamente não-religiosas e ainda assim muito honestas e boas. Zuckerman lembrou que para a maioria dos norte-americanos qualquer sociedade que deixa de louvar a Deus ou de colocá-lo no centro de sua cultura será condenada.

Poucos dinamarqueses e suecos, embora dizem crer em Deus, oram a Deus ou acreditam que o Deus literal da Bíblia é real. Eles apresentam os menores índices de crença na vida após a morte, na ressurreição de Jesus, no céu e no inferno, e têm os menores índices de participação semanal na igreja. “Dinamarqueses e suecos são, de fato, muito seculares”, enfatizou o sociólogo ao IHU.

Os valores humanos numa sociedade irreligiosa como a da Escandinávia estão baseados na vida humana. “Os dinamarqueses e suecos têm um respeito muito forte pela dignidade humana”, afirmou o professor do Pitzer College. E acrescentou:

“Eles criaram sociedades com as menores taxas de pobreza do mundo, as menores taxas de crimes violentos do mundo e o melhor sistema de educação e saúde do mundo. Eles fizeram isso não como uma tentativa de agradar ou de alcançar Deus, mas porque vêem um valor manifesto na vida humana”, disse, destacando que “não é necessário acreditar em Deus para acreditar na justiça”.

Os dinamarqueses e suecos contam apenas com o seu próprio esforço, não com as orações a Deus, assinalou o sociólogo. Zuckerman frisou que não existe país sem problemas. Problemas existem na Dinamarca e na Suécia. Independente de quais seja esses problemas “diria que eles comumente são piores em qualquer outro lugar”.

Zuckerman destacou que não quer, com isso, propor uma sociedade ateísta. “Eu acho que a religião pode ser uma coisa boa e moral. Eu acho que a religião oferece histórias e rituais maravilhosos, que os líderes religiosos ajudam as pessoas durante tempos difíceis ou nos ritos de passagem e que a religião, como qualquer criação humana, pode, às vezes, ser uma força potencial do bem no mundo”, arrolou.

Com sua pesquisa, o sociólogo estadunidense quis mostrar que o secularismo não é um mal em si mesmo e que a religião não é o único caminho para se criar uma sociedade saudável.

Fonte: ALC

Renascer poderá crescer na crise, diz sociólogo

Renascer poderá crescer na crise, diz sociólogo

Para Antônio Flávio Pierucci, professor do Departamento de Sociologia da USP, a igreja Renascer pode continuar crescendo no Brasil mesmo após os escândalos que envolvem o casal de bispos Estevam Ernandes Filho e Sônia Haddad.
Visite: Gospel, Noticias Gospel, Videos Gospel, Biblia Online

“As religiões crescem toda vez que você tem algo contra elas que pode ser apresentado como perseguição”, disse o sociólogo, autor de livros sobre o assunto.

Pierucci não se disse surpreso com as acusações contra o casal. “Algumas igrejas crescem assustadoramente em áreas onde é forte a presença do crime organizado. Não podemos levantar suspeitas, mas podemos fazer uma correlação dos fatos.”

Segundo o sociólogo, o grande diferencial das igrejas neopentecostais, como a Renascer, está na mensagem de que o evangelho não é incompatível com a sociedade de consumo. “Uma característica é lidar com o dinheiro sem nenhum prurido.”

Para Pierucci, outro ponto importante na trajetória da Renascer, dona da Rede Gospel de TV, é a utilização dos meios de comunicação, que transmite a impressão de que a igreja é maior do que é.

Fonte: Folha de S.Paulo

Sociologia da Religião – Osvaldo Hamilton Tavares (Procurador de Justiça)

SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO

Osvaldo Hamilton Tavares (Procurador de Justiça)

Os sociólogos da religião dão, tipicamente, definições muito amplas de seu capo de estudo. Assim, J. WACH, num extenso levantamento de campo (“Sociology of Religion”, Chicago, Univ. de Chicago, 1944, p. 11, 205) diz que a sociologia da religião estuda a inter-relação da religião com a sociedade, e as formas de interação que ocorrem de uma com a outra, e dá como básica para a sociologia da religião a hipótese de que “os impulsos, as idéias e as instituições religiosas influenciam as formas sociais e, por sua vez, são por elas influenciados, além de receberem o influxo da organização social e da estratificação. Outra concepção igualmente ampla é sugerida por NOTTINGHAM” (“Religion and Society”, New York, 1954, p. 1), para quem o sociólogo da religião ocupa-se dela “como um aspecto do comportamento de grupo e estuda os papéis que a religião tem desempenhado através dos tempos. O ponto de vista da definição de J. WACH é virtualmente repetido na asserção de YINGER (“Religion, Society and the Individual”, Nex York, Macmillan, 1957, p.20-1) de que a sociologia da religião é o estudo científico das maneiras pelas quais a sociedade, a cultura e a personalidade influenciam a religião, bem como das maneiras pelas quais a religião afeta a sociedade, a cultura e a personalidade.

Se se aceita a hipótese de que a sociologia da religião é o que a sociologia da religião faz (e se confia numa espécie de acordo sobre o que pode surgir sob a rubrica sociologia da religião) encontram-se pesquisas e estudos minuciosos referentes a ou conentrados em: a) influências gerais do grupo sobre a religioogb) funções dos rituais nas sociedades;c) tipologias de organizações religiosas e de respostas religiosas ao mundo ou a ordem ma social; d) influências diretas ou indiretas dos sistemas ideais religiosos na sociedade e seus componentes ou elementos (como classes, grupos de nacionalidades, grupos étnicos) e da sociedade nos sistemas ideais; e) análise específica de números de seitas religiosas e movimentos tais como ciência crio tã, mormoniemo e testemunhas de Jeová; f) interação de entidades religiosas significativas em âmbito local ou de comunidade; g) avaliações conscientes ocasionais, feitas por porta-vozes para grupos religiosos mais importantes, das circunstâncias sociais nas quais os grupos se encontram. Esta relação está incompleta e seus itens aparecem por isso menos especificamente sugeridos do que poderiam ser, mas o caráter geral dos interesses da sociologia da religião aparece, assim, razoavelmente bem indicados

Pode-se mencionar um problema próximo do centro do campo da sociologia da religião que está surgindo agora, e bem próximo de toda a questão de como é entendido e definido esse campo. Em geral (embora com significativas exceções), os sociólogos da religião, trabalhando com noções de interação social, não tem tido êxito em lidar com o conteúdo da religião ou em dizer algo sociologicamente signficativo sobre ele e sobre seus componentes culturais. Os estudiosos da religião comparada e vários teólogos, embora às vezes trabalhem sem um aparelhamento conceptual definido, constituem um desafo a esse respeito. É de presumir que grande parte do futuro da sociologia da religião dependa do tipo de resposta a esse desafio.

Sociologia da Religião – Ementa

Sociologia da Religião – Ementa

A disciplina trata dos aspectos sociológicos do fenômeno religioso. Na parte introdutória, trata-se do escopo da disciplina, as diversas definições de religião utilizadas na sociologia, e as possíveis relações entre o estudo sociológico e os fenômenos religiosos em si. Em seguida, investiga-se o papel atribuído à sociologia da religião nos autores clássicos da disciplina: Tocqueville, Marx, Engels, Durkheim, Weber, Simmel, Troeltsch. Depois, estuda-se o debate contemporâneo sobre o paradigma da secularização, frisando a necessidade de globalizar o debate para além das trajetórias européia e norte-americana. Discute-se em seguida a relação entre religião e política em nível mundial, inclusive o papel do chamado fundamentalismo em várias religiões mundiais. Depois, investigam-se as transformações do campo religioso latino-americano. Por fim, estudam-se os principais fenômenos contemporâneos do campo religioso brasileiro, inclusive a extensão deste em fenômenos transnacionais.

Programa:

1. Unidade I – Leitura Solciológica da Religião

1.1. Os conceitos de religião (re-ligare) e a sociologia
1.2. A religião como norteadora e transformadora dos valores de uma sociedade
1.3. Sociologia da Religião e a Teologia
1.4. Olhar sociológico sobre a Religião

2. Unidade II – Os Clássicos da Sociologia e a Religião

2.1. Durkheim: Religião é o espelho da sociedade
2.2. Weber: A Religião perde o carisma e fortalece a burocratização
2.3. Marx: A Religião e a alienação
2.4. Gramsci: A Religião constrói-se com intelectuais orgânicos e pode ser
libertadora
2.5. Eliade: O fenômeno religioso é universal e manifesta a relação entre o Sagrado
e Profano
2.6. Berger: A secularização e a manutenção do mundo
2.7. Bourdieu: A economia das trocas simbólicas

3. Unidade III – Sociologia da Religião e a Realidade Brasileira

3.1. O cristianismo diante da globalização e do pluralismo modernos: A proliferação de seitas e o catolicismo popular
3.2. Protestantismo brasileiro e a mudança social
3.3. Pentecostalismo e Renovação Carismática
3.4. CEBs
3.5. Os aspectos sociais dos cultos afro-brasileiros, o encontro das raças no catolicismo
3.6. O sincretismo na umbanda e os conseqüentes obstáculos para uma evangelização inculturada, a Liturgia e a Inculturação
3.7. A preservação da identidade cristã diante de todos os problemas sociais
3.8. Umbanda.

Critérios de Avaliação:

Avaliação escrita e/ou apresentação de seminário e/ou atividades acadêmicas em grupo sempre buscando adequar a realidade discente ao processo avaliativo, diversificando-o continuamente.

Bibliografia Básica:

BERGER, L. Peter. O Dossel Sagrado – elementos para uma teologia sociológica da
religião. São Paulo: Paulus, 2004.

DURKHEIM, E. As formas elementares da vida Religiosa. São Paulo: Paulinas, 1980.

WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1983.

SOUZA, Beatriz Muniz e MARTINO, Luiz Mauro Sá. Sociologia da Religião e Mudança
Social. São Paulo: Paulus, 2004.

Bibliografia Complementar:

BERGER, L. Piter. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da
religião. São Paulo: Paulus, 1989.

BIRMAN, P. O que é Umbanda? São Paulo: Brasiliense, 1985.

Sociologia da religião

Sociologia da religião

Sociologia da religião busca explicar empiricamente as relações mútuas entre religião e sociedade. Os estudos fundamentam-se na dimensão social da religião e na dimensão religiosa da sociedade.

Sociologia da religião no Brasil

O marco referencial da consolidação da sociologia da religião como campo autônomo de pesquisa no Brasil é a publicação da obra “Católicos, Protestantes, Espíritas”, de Cândido Procópio Ferreira de Camargo, em 1973.

Sociologia da Religião

É tradicional no Departamento de Sociologia, remetendo-se ao antigo Departamento de Ciências Sociais e à obra de Roger Bastide. Enfoca tanto as instituições religiosas na sua pluralidade – igrejas católicas e protestantes, orientais tradicionais e recentes, centros espíritas, terreiros de candomblé, de umbanda e assemelhados, circuitos esotéricos – quanto as formas populares de sua expressão, como o catolicismo rústico, as diversas formas de pentecostalismo, além dos cultos afrobrasileiros já referidos. A linha não descura também dos movimentos religiosos leigos, como os messiânicos tradicionais e os carismáticos atuais, entre tantos outros. Por fim, não se restringe apenas ao estudo dos fenômenos religiosos em sua especificidade, mas contempla também suas interfaces com os recortes de gênero, faixas etárias, classes sociais, da participação política de seus agentes, etc.

Professores

Antônio Flávio de Oliveira Pierucci
Lísias Nogueira Negrão
José Reginaldo Prandi

Sociólogo português elogia governo brasileiro pelo refúgio político ao italiano Cesare Battisti

Sociólogo português elogia governo brasileiro pelo refúgio político ao italiano Cesare Battisti

Carolina Pimentel
Repórter da Agência Brasil

Brasília – O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, enviou hoje (23) carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva elogiando a decisão do governo brasileiro em conceder refúgio político ao italiano Cesare Battisti.

Sousa Santos, que está no Brasil para participar do Fórum Social Mundial, também comparou a decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, de Justificarconceder o refúgio político, a do presidente norte-americano, Barack Obama, que suspendeu por 120 dias todos os julgamentos de supostos terroristas presos na base militar norte-americana de Guantánamo, em Cuba.

“A decisão do ministro Tarso Genro coincide no tempo com a decisão do presidente Obama de encerrar a prisão de Guantánamo e de suspender os julgamentos da ‘justiça de exceção’. São duas decisões convergentes dos governos de dois grandes países que assinalam aos mundo que a verdadeira segurança cidadã – um dos lemas do seu governo – reside no respeito do direito, dos direitos humanos e no aprofundamento da democracia. Todos os democratas do mundo estamos gratos por isso”, disse.

Boaventura Sousa Santos é ligado a movimentos de esquerda. Sociólogo renomado na Europa, ele ficou conhecido no Brasil depois de participar de três edições do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.

Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália pelo assassinato de quatro pessoas na década de 70, quando militava no Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), grupo de extrema esquerda

Sociólogo francês fala, no UCS Teatro, sobre a era das conexões

Sociólogo francês fala, no UCS Teatro, sobre a era das conexões.

Um nova configuração do olhar sobre o contemporâneo é um dos aspectos a serem abordados na palestra “A religação com o ser na era das conexões: educar, comunicar, transcender”, do sociólogo francês Michel Maffesoli, especialista na análise do cotidiano e da pós-modernidade. Ele falará, na segunda-feira, dia 22, às 20 horas, no UCS Teatro, em evento promovido conjuntamente pelos centros de Filosofia e Educação, Ciências Humanas e Ciências da Comunicação.

A atividade é aberta ao público interessado. Estudantes da UCS têm entrada franca e o restante das pessoas pagam taxa de R$10,00.

O professor também participará do III Simpósio Nacional de Moda e Tecnologia, onde falará sobre “A cosmética transcendental”, na terça-feira, dia 23, às 18h30min, no Campus 8.

Michel Mafessoli é docente do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano, da Universidade de Sorbonne (Paris IV). Suas principais obras são “A transfiguração do político”, no qual aborda as mudanças nas novas formas de política; “O tempo da tribos”, que trata dos novos grupos sociais; e “Sobre o nomadismo”, em que estuda a transição da era pós-moderna.

Palestra com o sociólogo Emir Sader

Palestra com o sociólogo Emir Sader

Áreas: General

Data: el 07/05/2009
Horas: 19h30
Lugar: Auditório Dom Gilberto – Campus I da PUC-Campinas ( Rodovia Dom Pedro I, km 136 – Parque Das Universidades )

Descrição
O sociólogo e cientista político Emir Sader ministrará a palestra “As Ciências Sociais na América Latina”, no próximo dia 7, às 19h30, no Auditório Dom Gilberto, no Campus I. O evento dará início ao Ciclo de Conferências “Ciências Sociais e os novos desafios”, organizado pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade.

A palestra, que visa proporcionar à comunidade interna um momento de reflexão e discussão sobre a realidade Latino Americana no cenário da crise mundial, é aberta a estudantes do curso de Ciências Sociais e dos outros cursos do Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CCHSA), e também aos estudantes e docentes de outros Centros da Instituição.

No mesmo dia, Sader fará o lançamento de seu novo livro, “A nova toupeira – Os caminhos da esquerda latino-americana” (Boitempo Editorial).

Emir Sader possui graduação em Filosofia, pós-graduação e mestrado em Filosofia, e doutorado em Ciência Política, todos pela Universidade de São Paulo (USP).

Atualmente, é professor doutor da UERJ, coordenador do Laboratório de Políticas Públicas e Secretário Executivo do Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Estado e Governo.

Organiza

País: Brasil
Instituição: Pontifícia Universidade Católica de Campinas

Informação complementar

Etiquetas: puc-campinas
URL: http://www.puc-campinas.edu.br

IEA tem seminário sobre sociólogo Eric Hobsbawn

IEA tem seminário sobre sociólogo Eric Hobsbawn

O Instituto de Estudos Avançados apresenta o seminário Eric Hobsbawn como Sociólogo da Religião, que acontece na terça-feira (23), a partir das 15 horas. O conferencista será Michael Löwy, professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, da França.

O evento, aberto e gratuito, acontece no Auditório Alberto Carvalho da Silva, no IEA. A transmissão será feita ao vivo no site do instituto. Não há necessidade de inscrição prévia.

Endereço: Av. Prof. Luciano Gualberto, Travesa J, 374, térreo, Edifício da Antiga Reitoria, Cidade Universitária, São Paulo

Contato: (11) 3091-1686, email clauregi@usp.br

Sociólogo lança livro e exposição de fotos em SP

Sociólogo lança livro e exposição de fotos em SP

Nesta quarta-feira, dia 17 de junho, acontece o coquetel de lançamento do livro Fronteira – A degradação do Outro nos confins do humano, escrito pelo sociólogo José de Souza Martins, e a abertura da exposição fotográfica do autor sobre a Amazônia nos anos 1970. “São fotos feitas na década de 70, no momento mais intenso e tenso do desclocamento da frente de expansão na Amazônia, do nascimento de centenas de povoados e cidades na região. Fiz essas fotos em Rondônia, no Acre, no Mato Grosso, no Pará, na Pré-Amazônia Maranhense e em Goiás (no atual Estado do Tocantins)”, explica Martins. Os eventos acontecem na Saraiva MegaStore do Shopping Pátio Paulista (Rua Treze de Maio, 1947 – São Paulo – SP / Tel.: 11 3171-3050), a partir das 18h30. A entrada é franca. FRONTEIRA – A degradação do Outro nos confins do humano.

Um livro sobre os confins que nos tolhem e nos separam de nós mesmos

O sociólogo José de Souza Martins lança a segunda edição revista e atualizada de Fronteira – A degradação do Outro nos confins do humano (Editora Contexto). Na obra, o autor discorre sobre as fronteiras interiores do Brasil, sobre as diferentes e conflitivas espacialidades de nossa expansão interna nesse demorado movimento iniciado com a Conquista e ainda não completado. A fronteira é o espaço próprio do encontro e do desencontro de sociedades e culturas entre si diferentes, como a sociedade indígena e a sociedade dita “civilizada”; mas também é lugar em que a violência da sociedade “civilizada” se agrava.

A conflitividade própria da fronteira aparece por inteiro num dos casos analisados pelo autor neste livro, uma tragédia shakespeariana na Amazônia: o amor impossível de dois adolescentes, o índio suruí Oréia e a colona branca Arminda, em Rondônia. O desfecho dessa tragédia culminou com o trucidamento do rapaz pela família da moça e o massacre de membros da família dela pelo grupo juvenil de Oréia. “Os raptos de crianças e mulheres, de lado a lado, de brancos e índios tem um componente dramático e trágico que acentua a importância de se compreender a fronteira como fronteira do humano”, concluí o sociólogo.

A fronteira é o lugar da liminaridade, da indefinição e do conflito. Tem sido o lugar da busca desenfreada de oportunidades. Mas, também, o lugar do genocídio dos povos indígenas, no mínimo o lugar de sua redução aos valores, concepções e modos de viver da sociedade que os domina. Tem sido o lugar da espoliação de camponeses que, lenta e secularmente expulsos de áreas incorporadas ao processo moderno de reprodução ampliada e territorial do capital, refugiaram-se na terra de ninguém que separa o mundo civilizado dos territórios indígenas. Tem sido, até hoje, o lugar de renascimento da escravidão por dívida, da peonagem, da disciplina do tronco, da chibata e da morte. José de Souza Martins é sociólogo, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (fflch-usp), foi eleito fellow de Trinity Hall e professor da Cátedra Simon Bolívar da Universidade de Cambridge (1993-1994). É mestre e doutor em Sociologia pela usp. Foi professor visitante na Universidade da Flórida (1983) e na Universidade de Lisboa (2000). Recebeu o Prêmio Érico Vannucci Mendes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (cnpq) em 1993 pelo conjunto de sua obra e o Prêmio Florestan Fernandes da Sociedade Brasileira de Sociologia em 2007. Pela Contexto, publicou os livros A sociabilidade do homem simples e Sociologia da fotografia e da imagem.

Sociólogo – profissão

Sociólogo – profissão

LEI Nº 6.888, DE 10 DE DEZEMBRO DE 1980

Dispõe sobre o exercício da profissão de Sociólogo e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA , faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art 1º O exercício, no País, da profissão de Sociólogo, observadas as condições de habilitação e as demais exigências legais, é assegurado:

a) aos bacharéis em Sociologia, Sociologia e Política ou Ciências Sociais, diplomados por estabelecimentos de ensino superior, oficiais ou reconhecidos;

b) aos diplomados em curso similar no exterior, após a revalidação do diploma, de acordo com a legislação em vigor;

c) aos licenciados em Sociologia, Sociologia Política ou Ciências Sociais, com licenciatura plena, realizada até a data da publicação desta Lei, em estabelecimentos de ensino superior, oficiais ou reconhecidos;

d) aos mestres ou doutores em Sociologia, Sociologia Política ou Ciências Sociais, diplomados até a data da publicação desta Lei, por estabelecimentos de pós-graduação, oficiais ou reconhecidos.

e) aos que, embora não diplomados nos termos das alíneas a, b, c e d , venham exercendo efetivamente, há mais de 5 (cinco) anos, atividade de Sociólogo, até a data da publicação desta Lei.

Art 2º É da competência do Sociólogo:

I – elaborar, supervisionar, orientar, coordenar, planejar, programar, implantar, controlar, dirigir, executar, analisar ou avaliar estudos, trabalhos, pesquisas, planos, programas e projetos atinentes à realidade social;

Il – ensinar Sociologia Geral ou Especial, nos estabelecimentos de ensino, desde que cumpridas as exigências legais;

III – assessorar e prestar consultoria a empresas, órgãos da administração pública direta ou indireta, entidades e associações, relativamente à realidade social;

IV – participar da elaboração, supervisão, orientação, coordenação, planejamento, programação, implantação, direção, controle, execução, análise ou avaliação de qualquer estudo, trabalho, pesquisa, plano, programa ou projeto global, regional ou setorial, atinente à realidade social.

Art 3º Os órgãos públicos da administração direta ou indireta ou as entidades privadas, quando encarregados da elaboração e execução de planos, estudos, programas e projetos sócio-econômicos ao nível global, regional ou setorial, manterão, em caráter permanente, ou enquanto perdurar a referida atividade, Sociólogos legalmente habilitados, em seu quadro de pessoal, ou em regime de contrato para prestação de serviços.

Art 4º As atividades de Sociólogo serão exercidas na forma de contrato de trabalho, regido pela Consolidação das Leis do trabalho, em regime do Estatuto dos Funcionários Públicos, ou como atividade autônoma.

Art 5º Admitir-se-á, igualmente, a formação de empresas ou entidades de prestação de serviço previstos nesta Lei, desde que as mesmas mantenham Sociólogo como responsável técnico e não cometam atividades privativas de Sociólogo a pessoas não habilitadas.

Art 6º O exercício da profissão de Sociólogo requer prévio registro no órgão competente do Ministério do Trabalho, e se fará mediante a apresentação de:

I – documento comprobatório de conclusão dos cursos previstos nas alíneas a, b, c e d do art.1º, ou a comprovação de que vem exercendo a profissão, na forma da alínea e do art. 1º;

II – carteira profissional.

Parágrafo único. Para os casos de profissionais incluídos na alínea e do art. 1º, a regulamentação desta Lei disporá sobre os meios e modos da devida comprovação, no prazo de 180 (cento e oitenta) dias, a partir da data da respectiva publicação.

Art 7º O Poder Executivo regulamentará esta Lei no prazo de 60 (sessenta) dias.

Art 8º Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação.

Art 9º Revogam-se as disposições em contrário.

Brasília, em 10 de dezembro de 1980; 159º da Independência e 92º da República.

JOÃO FIGUEIREDO
Murilo Macedo

Regulamentada pelo DEC. N° 89.531/1984

Código de ética do sociólogo

CÓDIGO DE ÉTICA DO SOCIÓLOGO

Título I

Disposições gerais

Art. 1 – O Sociólogo na sua atuação profissional está obrigado à observância do presente Código, bem como a fazê-lo cumprir.

Art. 2 – Compete aos Sociólogos, Sindicatos, Associações Profissionais e à Federação Nacional zelar pelo seu cumprimento e sua divulgação.

Título II.

Dos Princípios Éticos e Fundamentais

Art. 3 – O compromisso fundamental do Sociólogo é o de interpretar a realidade dos fatos e das relações sociais através da aplicação de métodos científicos e técnicas sociológicas, buscando contribuir, a partir desses estudos, sua aplicação e divulgação para melhorar a qualidade de vida socio-ambiental da humanidade.

Art. 4 – O compromisso com a produção de informações com base científica a respeito da realidade social e sua divulgação pública precisa e correta é um direito inerente à condição atual de vida em sociedade, é um direito do cidadão que não pode ser impedido por nenhum tipo de interesse, é uma obrigação social que o Sociólogo deve assumir e defender.

Art. 5 – O Sociólogo tem o compromisso de lutar pelo exercício da soberania popular e auto-determinação dos povos em seus aspectos políticos econômicos e sociais.

Art. 6 – O Sociólogo tem o compromisso de opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Título III

Dos Direitos e Deveres do Sociólogo

Capítulo I – Dos Direitos

Art. 7 – São direitos dos Sociólogos

a) Garantia e defesa de suas atribuições e prerrogativas estabelecidas na Lei de Reconhecimento da Profissão e neste Código;

b) Livre exercício das atividades inerentes à profissão;

c) Participar das entidades representativas e sindicais da categoria;

d) Propiciar ou realizar a investigação da realidade social a partir de critérios científicos e metodologia adequada que garantam a credibilidade e defesa pública quanto ao resultado do trabalho:

e) Propiciar a divulgação de informações resultantes de seus trabalhos e estudos que sejam de interesse público e possam contribuir para a melhoria da qualidade de vida;

f) Garantir que a divulgação pública dos resultados de pesquisas e de outros trabalhos se dê de forma precisa sem omissão ou alteração de dados que prejudiquem os resultados bem como respeitar normas de citação de fontes, autores e colaboradores:

g) Garantir a devolução das informações colhidas nos estudos e pesquisas aos sujeitos sociais envolvidos:

h) Recusar empregos, tarefas ou atribuições que comprometam a dignidade do exercício da profissão bem como recusar substituir colegas exonerados ou demitidos por defender os princípios e normas deste Código:

i) Receber remuneração por seu trabalho profissional garantindo o piso salarial da categoria, os valores delimitados nos contratos coletivos de trabalho e dissídios coletivos, a equivalência com outros profissionais de nível superior nos planos de cargos e salários dos órgãos públicos ou, no caso de atividade autônoma, os valores mínimos definidos por entidades representativas da categoria:

j) Denunciar aos órgãos competentes sempre que leigos estiverem no exercício ilegal da profissão ou lidem com resultados de pesquisa ou investigações sociológicas sem os critérios devidos:

l) Receber desagravo público por ofensa que atinja a sua honra profissional:

m) Apoiar as iniciativas e os movimentos de defesa dos interesses da categoria:

n) Denunciar a agressão e abuso de autoridades às organizações da categoria aos órgãos competentes.

o) Ter acesso às oportunidades de aprimoramento profissional.

Capítulo II

Dos Deveres

Art. 8 – São deveres do Sociólogo:

a) Desempenhar suas atividades profissionais observando a legislação em vigor:

b) Conhecer, cumprir, divulgar e fazer cumprir este Código:

c) Valorizar e dignificar a profissão bem como defender seu livre exercício:

d) Prestigiar as entidades representativas da categoria na defesa de seus direitos: as entidades científicas no aprimoramento das Ciências Sociais e as entidades democráticas na defesa da liberdade de expressão e da justiça social:

e) Combater e denunciar formas de corrupção e manipulação de informações, em especial quando comprometam o direito público da veracidade dos fatos, as ações políticas dos cidadãos e a justiça, e o favorecimento pessoal ou de grupos;

f) Combater a prática da perseguição ou discriminação por motivos sociais, políticos, religiosos, raciais ou juízo subjetivo, bem como defender o respeito ao direito à privacidade do cidadão;

g) Recusar e denunciar o desenvolvimento de pesquisas ou divulgação de seus resultados, quando houver manipulação nos critérios da metodologia científica e das normas internacionais, quando visar interesse ou favorecimento pessoal ou de grupos, com vantagens políticas ou econômicas, ou quando forem contrários aos valores humanos.

h) Ao atuar junto às instituições, responsabilizar-se por suas ações no sentido de contribuir para o desenvolvimento de seus objetivos, de acordo com os princípios e normas deste Código;

i) Responder pelas informações resultantes de estudos e pesquisas bem como pelas intervenções, assessorias e orientações desenvolvidas, desde que o trabalho em questão não tenha sido alterado por terceiros;

j) Não ser conivente com erros, faltas éticas ou morais, crimes ou contravenção de serviços profissionais;

l) Na realização de estudos e pesquisas, respeitar a dignidade de pessoas e grupos envolvidos nos trabalhos aos quais devem ser informados sobre os riscos e resultados previsíveis da sua informação e participação;

m) Procurar viabilizar a devolução das informações colhidas nos estudos e pesquisas aos sujeitos sociais envolvidos;

n) Denunciar às autoridades e órgãos competentes as coações e agressões físicas e morais sofridas no exercício da profissão;

o) Aprimorar de forma contínua os seus conhecimentos, colocando-os a serviço do fortalecimento da organização e consciência da sociedade.

p) Pagar regularmente suas obrigações com as entidades profissional às quais for associado.

Capítulo III

Do sigilo profissional

Art. 9 – O Sociólogo deve observar o sigilo profissional sobre todas as informações confiadas e/ou colhidas no exercício profissional.

Parágrafo 1 – A quebra do sigilo só é admissível quando se tratar de situação cuja gravidade possa trazer prejuízo aos direitos humanos.

Parágrafo 2 – A revelação será feita dentro do estritamente necessário, quer em relação ao assunto revelado, quer ao grau e número de pessoas que dele devem tomar conhecimento.

Art. 10 – É vedado ao Sociólogo revelar sigilo profissional.

Parágrafo único – Intimado a prestar depoimento, deverá o Sociólogo comparecer perante a autoridade competente para declarar que está obrigado a guardar sigilo profissional, nos termos do Código Civil e deste Código.

Título IV

Das Relações Profissionais

Capítulo I

Das relações profissionais com as instituições

Art. 11 – São direitos dos Sociólogos:

a) Ter condições adequadas de trabalho, respeito a autonomia profissional e dos princípios éticos estabelecidos neste Código;

b) Denunciar falhas nos regulamentos, normas e programas de instituições em que trabalha quando os mesmos ferirem os princípios e direitos contidos neste Código;

c) Recorrer às entidades representativas da categoria, ao nível estadual e nacional, contra decisões ou omissões da instituição diante de denúncias referidas no inciso anterior.

Art. 12 – É vedado ao Sociólogo:

a) Adotar determinação que fira os princípios e diretrizes contidas neste Código, ao prestar serviço incompatível com as diretrizes da regulamentação profissional;

b) Emprestar seu nome a firmas, organizações ou empresas que utilizem métodos e técnicas das ciências sociais sem seu efetivo exercício profissional;

Capítulo II

Das relações profissionais entre Sociólogos

Art. 13 – Cabe aos Sociólogos manter entre si a solidariedade que consolida e fortalece a organização da categoria

Art. 14 – O Sociólogo, quando solicitado, deverá colaborar com seus colegas, salvo impossibilidade real, decorrente de motivos relevantes.

Art. 15 – A crítica pública ao trabalho profissional de outro Sociólogo deverá ser sempre comprovável, de inteira responsabilidade de seu autor e fundamentada nos preceitos deste Código.

Art. 16 – É vedado ao Sociólogo:

a) Ser conivente com falhas éticas e com erros praticados por outro profissional;

b) Prejudicar deliberadamente a reputação de outro profissional divulgando informações falsas;

c) Prevalecer-se de posição hierárquica para publicar em seu nome trabalho de subordinado, mesmo que executado sob sua orientação, sem citar as fontes e os colaboradores;

d) Deturpar dados quantitativos e qualitativos;

e) Apropriar-se da produção científica de outro profissional.

Art. 17 – Ao Sociólogo deve ser asseguada a mais ampla liberdade na realização de seus estudos e pesquisas.

Capítulo III

Das relações com as entidades da

categoria e demais organizações da Sociedade Civil

Art. 18 – O Sociólogo deve defender a profissão através de suas entidades representativas, participando das organizações que tenham por finalidade a defesa dos direitos profissionais no que se refere a melhoria das condições de trabalho, à fiscalização do exercício profissional e ao aprimoramento científico.

Art. 19 – O Sociólogo deverá apoiar as iniciativas e os movimentos de defesa dos interesses da categoria e divulgar no seu espaço institucional as informações das suas organizações, no sentido de ampliar e fortalecer o seu movimento.

Art. 20 – É vedado ao Sociólogo valer-se de posição ocupada na direção de entidade da categoria para obter vantagens pessoais, diretamente ou através de terceiros.

Art. 21 – O Sociólogo, ao ocupar uma chefia, não deve usar a sua autoridade funcional para obstaculizar a liberação total ou parcial da carga horária do profissional que a solicite, com base legal, às instâncias superiores.

Título V

Da aplicação e cumprimento do Código de Ética

Art. 22 – A Federação Nacional dos Sociólogos, os Sindicatos e Associações Profissionais manterão Comissão de Ética para assessorá-la na aplicação e observância deste Código.

Art. 23 – A Comissão de Ética será eleita por voto secreto, de forma separada da Diretoria da entidade, tendo mandato de igual duração.

Art. 24 – Fica a critério das entidades definir sua composição de acordo com seus Estatutos aprovados em Assembléia Geral da categoria.

Art. 25 – O descumprimento do presente Código de Ética fica sujeito a penalidades desde a advertência à eliminação dos quadros da entidade, na forma dos dispositivos legais e/ou regimentais.

Art. 26 – Constituem infrações disciplinares:

a) Transgredir preceito do Código de Ética;

b) Exercer a profissão quando impedido, ou facilitar o seu exercício por quem não esteja devidamente habilitado;

c) Aos que violarem sigilo profissional;

d) Aos que tenham conduta incompatível com o exercício profissional;

Art. 27 – São medidas disciplinares aplicáveis;

a) Advertência em aviso reservado;

b) Advertência pública;

c) Eliminação dos quadros da entidade.

Art. 28 – A pena de advertência, reservada ou pública, será aplicada nos casos previstos nas alíneas “a”, “b”, “c” e “d” do Art. 27.

Art. 29 – A pena de eliminação dos quadros da entidade será aplicada:

a) Nos casos em que couber a pena de advertência e o infrator for reincidente;

b) Aos que fizerem falsa prova dos requisitos exigidos para registro profissional;

Art. 30 – Serão considerados na aplicação das penas os antecedentes profissionais do infrator e as circunstâncias em que ocorreu a infração.

Art. 31 – Qualquer Sociólogo, cidadão ou instituição poderá dirigir representação escrita e identificada aos Sindicatos, Associações Profissionais ou à Federação Nacional para que seja apurada a existência de transgressão cometida por Sociólogo.

Art. 32 – Cabe à Comissão de Ética, criada pela entidade referida no artigo anterior, analisar as infrações a este Código que cheguem ao seu conhecimento.

Parágrafo 1 – Decidindo a Comissão pela apuração dos fatos, será notificado o indiciado, garantindo-lhe acesso aos documentos e fatos componentes da acusação e a apresentação de defesa em vinte dias úteis.

Parágrafo 2 – Após o encerramento da apuração dos fatos e apresentada a defesa, a Comissão decidirá dentro de 10 dias, dando conhecimento da decisão ao Sociólogo.

Parágrafo 3 – A decisão entrará em vigor após a certificação do seu recebimento pelo profissional objeto da apuração.

Art. 33 – A não observância pelo Sociólogo à convocação ou prazos definidos no artigo precedente, implica na aceitação dos termos da representação.

Art. 34 – A partir da data da notificação da decisão da Comissão de Ética, o Sociólogo poderá recorrer a Assembléia Geral da categoria convocada para este fim, desde que sejam respeitados os Estatutos dos Sindicatos, Associações Profissionais e da Federação para a referida convocação.

Art. 35 – Compete à Federação Nacional dos Sociólogos estabelecer procedimentos quanto aos casos omissos neste Código.

Art. 36 – O presente Código somente poderá ser alterado em Congresso Nacional da categoria, cuja proposta de modificação deverá ser encaminhada às entidades para discussão com o prazo mínimo de 90 dias.

Art. 37 – Este Código entra em vigor na data da sua votação e aprovação no X Congresso Nacional de Sociólogos do Brasil.
São Paulo, 9 de março de 1997

Lejeune Mato Grosso Xavier de Carvalho

Presidente da Federação Nacional dos Sociólogos – FNS – Brasil

Presidente dos Trabalhos da 8ª Reunião Plenária do CD da FNS

Alcione Prá

Diretor da Federação Nacional dos Sociólogos – FNS – Brasil

Regional Sudeste e Secretário dos Trabalhos da 8ª Reunião

Plenária Nacional do Conselho Deliberativo da FNS

Aprovado na plenária final de delegados do X Congresso Nacional de Sociólogos realizado em 13 de setembro de 1996 no campus de Porto Alegre e referendada pela 8ª Reunião Plenária Nacional do Conselho Deliberativo da FNS, realizada em são Paulo, entre os dias 7 e 9 de março de 1997

Sociólogo acusa OMS de fomentar o medo ao informar sobre a gripe suína

Sociólogo acusa OMS de fomentar o medo ao informar sobre a gripe suína

Jean Ziegler, ex-relator especial da ONU, considera desproporcionais os alertas da OMS para os riscos da gripe suína. Doença matou algumas dezenas de pessoas, enquanto 100 mil morrem de fome a cada dia, critica.

O sociólogo suíço Jean Ziegler criticou duramente a forma como a Organização Mundial da Saúde (OMS) está lidando com a gripe suína, oficialmente conhecida como gripe A/H1N1. Em entrevista à agência de notícias DPA, Ziegler afirmou que a campanha da OMS apenas fomenta o medo e não possui relação com a realidade.

“De 6,2 bilhões de pessoas [no mundo] morreram cerca de 45 dessa gripe nas últimas semanas. Mas 100 mil pessoas morrem diariamente em consequência da fome”, declarou. Segundo ele, a cada cinco segundos uma criança com menos de 10 anos morre de fome no mundo. “Isso encaramos friamente como se fosse normal.”

Ziegler disse ser “um descaramento” que um alto representante da OMS se dirija à imprensa para dizer que 2 bilhões de pessoas estão ameaçadas pelo novo vírus mutante. “Quem vê como a doença se desenvolve e diz tal coisa age de forma irresponsável”, declarou.

Imprensa manipulada

Ele disse que não coloca em dúvida as responsabilidades da OMS em relação à saúde da população mundial. “Mas ela deve manter as coisas dentro das suas proporções e não espalhar o medo entre as pessoas”, afirmou Ziegler, que foi relator especial da ONU para o Direito à Alimentação.

O sociólogo disse que há 953 milhões de pessoas subnutridas no mundo. “Para elas não há entrevistas coletivas à imprensa nem mobilização internacional”, criticou Ziegler, lembrando que todos os dias a OMS convoca a imprensa mundial para divulgar boletins sobre a situação da gripe suína. “Quando se trata da existência dos abastados, a consciência mundial é alarmada. Isso evidencia nossa cegueira e, por fim, também nossa profunda insensibilidade e nosso cinismo.”

Ele alerta que a imprensa mundial está sendo manipulada de forma “espantosa” e disse que não ficaria surpreso se por trás disso houvesse grandes grupos farmacêuticos. Estes se encontram em dificuldades financeiras por causa da crise econômica, argumenta o sociólogo, e lucrariam por deter as patentes dos remédios antigripais.

AS/dpa

Revisão: Rodrigo Abdelmalack

Britânico Attenborough vence Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais

Britânico Attenborough vence Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais

Da EFE

Oviedo (Espanha), 4 jun (EFE).- O britânico David Attenborough ganhou hoje o Prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais 2009 por sua obra de divulgação da natureza, considerada “uma das grandes contribuições à defesa da vida e à conservação do planeta”.

O brasileiro Cândido Mendes de Almeida, promotor do diálogo intercultural para o entendimento entre os povos, chegou às últimas votações, mas o prêmio acabou indo para o britânico.

Attenborough, de 83 anos, é um dos divulgadores científicos mais conhecidos mundialmente através de seus documentários para TV sobre animais, considerados pioneiros.

O júri destacou em sua decisão que os amplos conhecimentos do britânico “em ciências da natureza, antropologia social, ecologia, etologia e geografia o permitiram abordar o estudo da Terra e dos seres vivos com uma criativa e inovadora combinação de saberes”.

“Seu interesse pelos problemas de nosso tempo, sua permanente busca pela excelência e sua qualidade de pesquisa lhe valeram o reconhecimento da comunidade acadêmica internacional e lhe deram também uma grande projeção social com a difusão de seus trabalhos nos grandes meios de comunicação, especialmente na televisão”, acrescentou o júri, em sua avaliação.

Também destacou que a obra de Attenborough “é considerada uma das grandes contribuições à defesa da vida e à conservação do planeta”.

A decisão do júri foi lida pelo senador e ex-presidente da comunidade autônoma espanhola da Galícia Manuel Fraga.

Junto com Attenborough chegaram às últimas votações, além do brasileiro, dois historiadores: o britânico Eric Hobsbawm e o espanhol Manuel Fernández Álvarez. EFE

Livro sobre militares do Brasil é lançado na próxima segunda-feira no PA

Livro sobre militares do Brasil é lançado na próxima segunda-feira no PA

Orm – VB

BELÉM – O doutor em Antropologia Social, Celso Corrêa Pinto de Castro lança na próxima segunda-feira (22) o livro ‘Antropologia dos Militares’. O evento acontecerá no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), às 17h.

Segundo o autor, o livro reúne o estudo de vários pesquisadores sobre os militares no Brasil, usando a visão antropológica para analisar os fatos.

- Fui a campo, participei de exercícios de guerra, acompanhei eventos dos cadetes da companhia militar e convivi com eles para poder escrever com mais propriedade sobre o assunto, explica Celso Castro.

Além desta publicação, Celso escreveu outros livros como ‘A Memória Militar Sobre 1964 – Visões do Golpe’, ‘A Volta aos Quartéis’, ‘Anos de Chumbo e ‘O Espírito Militar’, dentre outros.

Contestação digital

Contestação digital

Subversivas. Acessíveis. Desafiadoras. As novas tecnologias parecem ter surpreendido ditaduras, governos autoritários e até democracias em suas tentativas de censurar, reprimir ou manipular as vozes do povo – uma prática milenar.

A internet e a telefonia celular estão ditando uma nova era de relações entre o cidadão e o poder. Uma era em que qualquer um é capaz de denunciar, mobilizar e contar sua história e a de seu país em uma simples mensagem – que pode se propagar pelo mundo e crescer até se tornar uma ameaça para os mesmos que quiseram silenciar ou enganar lá no início. Nesse contexto, os regimes manipuladores fazem o que podem para controlar o clamor popular em uma rede que, por natureza, é fora de controle.

Na última semana, o governo teocrático e censurador do Irã teve uma prova de que a situação mudou. Esperava que a oposição aceitasse os resultados das eleições presidenciais sem muito alarde, mas o que viu foram concentrações de milhares de pessoas inconformadas com a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad e dispostas a mostrar para todo o mundo o que os líderes do país não queriam que ninguém visse. O governo tentou bloquear sites de relacionamento, filtrou blogs, restringiu o trabalho de jornalistas e até reduziu a largura da banda para impedir o envio de vídeos para fora do país.

Em vão. Muitos oposicionistas conseguiram driblar os bloqueios e mobilizar não só o país como o planeta em torno de sua causa.

– A internet transformou o cidadão comum em um mobilizador. A qualquer momento ele pode fazer valer sua opinião – diz o sociólogo e doutor em Ciência Política Sérgio Amadeu, professor da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, em São Paulo.

Amadeu explica o fenômeno iraniano: uma vez que estavam bloqueados os canais tradicionais de cobertura jornalística, todo mundo foi se informar, inclusive a mídia tradicional, nos blogs e com o Twitter – ferramentas extremamente fáceis de usar e que ganharam relevância. Amadeu afirma, inclusive, que os protestos pela web e pelo celular tendem a ser mais importantes do que os das ruas, por atingir muito mais pessoas.

– Mesmo os governos autoritários não conseguem impedir a cobertura do cidadão comum – afirma ele.

Segundo o antropólogo Airton Luiz Jung- blut, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), os resultados não serão encorajadores em um primeiro momento, mas provavelmente forçarão algum tipo de mudança de postura dos governos em relação às classes contestadoras.

As novas tecnologias, porém, ainda são excludentes, já que a maioria dos habitantes não tem acesso a essas ferramentas em países como Coreia do Norte e Cuba. Além disso, a China, por exemplo, desenvolveu um controle muito rígido de toda a comunicação no país. Para Amadeu, as novas tecnologias ainda não são capazes de derrubar uma ditadura, mas podem muito bem colocá-la em risco:

– Os governos usam filtragem, identificação de todos os usuários da internet, colocam analisadores de espectro para saber quem está usando o que na rede. Mas os internautas também têm técnicas de contravigilância. É uma disputa política e tecnológica. Quem vai vencer essa disputa? É muito cedo para dizer.

O imaginário da globalização

O imaginário da globalização
O discurso político europeu aposta na globalização como solução dos problemas econômicos crônicos da União Européia. Mas na opinião pública alemã e nas análises sociológicas, globalização ainda desencadeia visões apocalípticas do futuro.

Para a maior parte das pessoas do mundo, a globalização não passa de uma miragem, longe de ser realidade: esta é a tese do economista francês Daniel Cohen.

Por um lado, os países ricos se confrontariam com outras sociedades sobretudo através da televisão e de férias exóticas, enquanto os países pobres seriam bombardeados com imagens de uma riqueza de que não dispõem.

Em Mondialisation et ses ennemis (2004), Cohen argumenta que a globalização de hoje, na verdade, é imóvel. Afinal, os imigrantes perfazem atualmente apenas 3% da população mundial, enquanto em 1913 este índice era de 10%.

O mal necessário

Mesmo assim, a imagem da globalização que se cristaliza na opinião pública alemã é fortemente vinculada ao temor de deslocamentos drásticos e da ameaça de uma mobilidade descontrolada.

O discurso político europeu tenta propagar que a única saída para problemas econômicos crônicos da União Européia seria se adaptar com maior flexibilidade aos desafios da globalização. Mesmo assim, os países-membros tendem nitidamente para o nacionalismo econômico, bloqueando estratégias de liberalização até dentro da comunidade.

Em um recente simpósio sobre empresa, Estado e globalização, realizado em Berlim, o historiador Gerald Feldman defendeu a elaboração de um cronograma europeu para a solução de problemas como desemprego e imigração. A abordagem da imigração como um problema marca um debate público que voltou a se inflamar há alguns meses com o temor de um “choque de civilizações” entre Ocidente e o mundo islâmico.

Alemães-alemães em extinção

Na Alemanha, esta discussão culminou em visões apocalípticas sobre o futuro da sociedade, teoricamente ameaçada pela baixa taxa de natalidade da população puramente alemã e o crescimento das famílias imigradas.

No livro recém-publicado Minimum – Vom Vergehen und Neuentstehen unserer Gemeinschaft (Minimum – Do Desaparecimento e Ressurgimento da nossa Comunidade), o jornalista e editor-chefe do Frankfurter Allgemeine Zeitung, Frank Schirrmacher, esboçou o futuro de uma sociedade em as pessoas terão poucos ou nenhum parente de sangue, em decorrência do envelhecimento demográfico e dos múltiplos efeitos da globalização.

A tese do jornalista recebeu críticas por promover visões sensacionalistas hostis a uma sociedade multicultural, mas veio a calhar para a política restritiva de imigração e o programa coercivo de integração do governo democrata-cristão e social-democrata em Berlim.

“Em 2010 haverá tantos estrangeiros quanto jovens alemães”: este o título de uma entrevista da subsecretária de Estado Maria Böhmer, encarregada do governo federal para assuntos de integração, ao jornal popular Bild.

A democrata-cristã prevê que, daqui a quatro anos, o índice de pessoas com menos de 40 anos provindas “de um contexto de migração”, em grande parte sem qualificação profissional, chegará a 50% nas cidades grandes. A projeção deste cenário como fracasso da sociedade multicultural desencadeou inúmeras críticas na imprensa alemã.

Estado nacional, não social

O temor de que as identidades locais se dissolvam em decorrência da globalização levou a uma nova defesa e legitimação do Estado nacional. Para o sociólogo Ralf Dahrendorf, defensor do liberalismo político, a atual “moda” de minimizar a importância do Estado nacional diante da formação de blocos econômicos regionais e de instituições globais é errônea e até perigosa.

“Apesar da contínua busca de novas identidades – européias, latino-americanas e outras – e apesar das várias referências a uma nova cidadania mundial ou até uma ‘sociedade global de cidadãos’, a maioria das pessoas se sente em casa em seu país, num Estado nacional a que eles pertencem como cidadãos”, afirmou o sociólogo em artigo publicado no diário conservador Die Welt.

Tradições políticas extra-nacionais, como o Estado social europeu, estão sendo questionadas como construção. Num recente simpósio sobre globalização e cultura social, o teórico de cultura econômica Joachim Zweynert argumentou que uma cultura social comum da Europa seria apenas uma reação à crise em que se encontra o continente: “Toda discussão sobre um modelo social europeu é uma mera tentativa das elites de encontrar sustentação diante dos desafios da globalização”.

O 3º Mundo não é longe daqui?

O temor da dissociação das fronteiras nacionais, culturais e étnicas vem acompanhado da apreensão por uma possível globalização do terceiro-mundismo. Para o sociólogo e historiador Reinhart Koessler, o subdesenvolvimento já perdeu o vínculo territorial e deixou de ser privilégio do Terceiro Mundo.

Os excluídos, discriminados e abandonados das inner cities da América do Norte e dos banlieues de Paris – assim como aqueles que vivem nas amplas regiões da África, América Latina e Sudeste Asiático desvinculadas do mercado mundial – são confrontados com uma realidade impiedosa semelhante: quem depende – para sua sobrevivência – de ser inserido no contexto de aproveitamento capitalista está em desvantagem se não conseguir realizar a exploração de sua própria mão de obra”, afirmou o sociólogo em artigo publicado no diário berlinense taz.

Comparações do gênero dão a pensar por sua falta de parâmetros reais. E talvez corroborem a opinião de Daniel Cohen de que, nos países ricos, a globalização é – de fato – sobretudo imaginária.

Morre sociólogo liberal alemão Ralf Dahrendorf aos 80 anos

Morre sociólogo liberal alemão Ralf Dahrendorf aos 80 anos
Os admiradores comparam sua independência de espírito à de Erasmo de Rotterdam. Nomeado lorde na Inglaterra, o hamburguês Dahrendorf permaneceu crítico, e se considerava apenas “um londrino”.

Faleceu na quarta-feira, 17 de junho de 2009, em Colônia, o sociólogo anglo-alemão Ralf Dahrendorf, após breve doença. Ele já tivera que cancelar as entrevistas marcadas por ocasião de seu octogésimo aniversário, em 1º de maio, sob a justificativa de que só podia falar muito baixo devido a uma inflamação na garganta.

A família do pensador liberal nascido em Hamburgo em 1929 era ativa na política. Seu pai representara o Partido Social Democrata (SPD) no Reichstag entre 1932 e 1933. Após a Segunda Guerra Mundial, Ralf Dahrendorf estudou Filosofia e Sociologia e ensinou nas universidades de Tübingen e Constança, entre outras.

Crítica e admiração

Logo Dahrendorf entrou também para a política. Em 1967, filiou-se ao Partido Liberal Democrata alemão (FDP), participando de seu diretório federal durante alguns anos. Ele atuou tanto na assembleia legislativa do estado de Baden-Württemberg quanto na câmara baixa do parlamento alemão (Bundestag). Em 1970, tornou-se comissário de Relações Exteriores e Comércio Exterior da Comunidade Europeia.

Após os anos na política, Dahrendorf voltou a se dedicar à teoria. A partir de 1974, lecionou durante dez anos na renomada London School of Economics and Political Science. Em 1983, o sociólogo não hesitou em protagonizar uma série de TV onde demonstrava aos britânicos as causas de seu ocaso como nação.

Apesar de, ou justamente graças a essa atitude crítica, ele contava com alta consideração no país de adoção. O jornal inglês The Independent o classificou como “a imagem clássica de um professor teutônico”. Em 1988, assumiu a dupla cidadania britânica, após haver sido nomeado lorde pela rainha Elizabeth 2ª, seis anos antes. Indagado sobre sua nacionalidade, respondia: “Sou londrino”.

“Pioneiro liberal”

Em um necrológio, Christoph Driessen, da agência de notícias DPA, o elogia como “grande pioneiro do liberalismo”, o qual “durante a vida experimentou e descartou muitas coisas”. Ele se via “na tradição do grande humanista Erasmo de Rotterdam, o qual também permaneceu entre todos os partidos, mesmo durante a Reforma protestante”.

Apesar de seu amor pela capital britânica, nos últimos anos o sociólogo já não tinha Londres como residência principal, mas sim a cidade alemã de Colônia, a fim de estar mais perto da família, por motivos de saúde.

Dahrendorf representou um papel importante na sociologia alemã, participando, por exemplo da disputa do positivismo, iniciada pelos filósofos Karl Popper e Theodor Adorno na década de 1960. Sua obra foi traduzida em diversos idiomas. No Brasil, foram lançados O conflito social moderno, Reflexões sobre a revolução na Europa e Homo sociologicus, entre vários outros títulos.

AV/afp/dpa

Revisão: Roselaine Wandscheer

Ementas das matérias do Curso de Ciências Sociais da UFS

Ementas das matérias do Curso de Ciências Sociais da Univseridade Federal de Sergipe

405011 – Antropologia I
Visão panorâmica da Antropologia em termos de fundamentos. O processo de formação e os principais conceitos, sobretudo o conceito de cultura: a importância do trabalho de campo na definição dos rumos da antropologia.

405012 – Antropologia II
Apresentação das principais escolas antropológicas. Teorias clássicas: o evolucionismo e a escola Histórico-Cultural (Difusionismo); Teorias modernas: Boas e a Escola americana; a Escola francesa (Durkheim e Mauss); e o Funcionalismo de Malinowski e Radcliff-Brown.Justificar

405013 – Antropologia III
Principais tendências do pensamento antropológico contemporâneo. O estruturamento de Levi-Strauss. O neo-evolucionismo, a Antropologia Interpretativista e as mais novas tendências do pensamento antropológico.

405014 – Antropologia IV
Organização social e parentesco. Questões básicas sobre a Organização Social e parentesco e suas influências sobre a produção da existência, da divisão do trabalho e organização política das chamadas sociedades “primitivas” com ênfase no estudo dos clássicos; discutir a importância dos princípios de organização social sobre as regaras que orientam a produção, distribuição e consumo nas sociedades conhecidas.

405015 – Folclore Brasileiro
Folclore na perspectiva da Antropologia. Estudos de Folclores no Brasil. Análise de manifestações folclóricas: contexto e significado. Os usos do folclore no Brasil.

405016 – Etnologia Brasileira I
Estudos das sociedades indígenas brasileiras nos seus aspectos sociais, econômicos, políticos, rituais, mágico-religioso e cosmológico. As sociedades indígenas e suas relações com a sociedade nacional.

405017 – Etnologia Brasileira II
A vertente antropológica sobre o negro no Brasil. A herança cultural africana. Relações no Brasil e as formas de organização do negro.

405018 – Cultura Brasileira
Abordagem conceitual. Análise e características da cultura brasileira, as manifestações da cultura brasileira: a cultura artística, as criações populares e a política nacional de cultura.

405019 – Fundamentos de Arqueologia Pré-histórica Brasileira
A arqueologia pré-histórica: natura e objetivos. A arqueologia brasileira: objetivo, evolução e campos de ação. Principais sítios arqueológicos. Testemunhos líticos: tipologia brasileira. Testemunhos cerâmicos: tipologia brasileira. Pinturas e gravuras rupestres: evidências brasileiras. A Arqueologia e o arqueólogo. O trabalho de campo e suas etapas. Técnicas de escavação: aplicabilidade no Brasil. Estudo e classificação do material arqueológico.

405021 – Antropologia Econômica
Objeto e método da Antropologia Econômica. Formações econômicas não capitalistas. Produção. Meios de produção. Relações de produção. Relações de circulação. Forma de Estado e de consciência em relação às condições de produção e de circulação.

405022 – Antropologia da Saúde
Considerando o homem como uma totalidade, da qual a condição biológica é apenas um de seus componentes, apresenta o campo da Antropologia Médica, a problemática da enfermidade e do fenômeno médico na história das tradições teórico-metodológicas da Antropologia, enfocando a discussão nas seguintes questões: as teorias da enfermidade como produto cultural; A construção social da realidade clínica; as reflexões em torno do conceito de eficácia e antropologia da Saúde no Brasil.

405023 – Tópicos Especiais de Antropologia
Os Tópicos Especiais serão oferecidos, ocasionalmente, e terão seu conteúdo definido a partir dos seguintes critérios: 1)continuação programática de disciplinas obrigatórias ou optativas do fluxo da habilitação em Antropologia e 2)definição oportuna de temas de interesse relevante para a Antropologia.

405024 – Antropologia V
Visão panorâmica da Antropologia no contexto da história institucional das Ciências Sociais no país. Conexões entre a atuação de certos personagens e o contexto institucional, teórico e político de pesquisadores e docentes. As tradições que a disciplina veio a implantar no Brasil no processo de sua instalação (etnologia indígena, antropologia da Sociedade Nacional). A “ABA”, a “Sociedade Brasileira de Antropologia” e a “Sociedade de Etnografia e Folclore”.

405031 – Política I
A análise política, categorias, conceitos, problemas básicos da ciência política contemporânea. Diferentes perspectivas teórico-metodológicas. A construção da Ciência Política.

405032 – Política II
Teóricos do Estado Absolutista. Maquiavel, Hobbes. As revoluções burguesas e o pensamento político. Locke, Rousseau, Montesquieu, Burke e Toqueville.

405033 – Política III
A revolução industrial e o Estado Liberal. Hegel e o Estado Moderno. Movimentos sociais no século XIX. Anarquismo e Socialismo. Marx e Engels.

405034 – Política IV
Estado contemporâneo e Regimes Políticos: Socialismo Real, Nazi-Facismo, Social-democracia e Neoliberalismo. Teorias Políticas contemporâneas.

405038 – Tópicos Especiais de Política
Os tópicos especiais serão oferecidos ocasionalmente e terão seu conteúdo definido a partir dos seguintes critérios: 1)continuação programática de disciplinas obrigatórias ou optativas do fluxo da habilitação em Política e 2) definição oportuna de termo de interesse relevante para a política.

405039 – Política V
Ambigüidade do Liberalismo Brasileiro: O sistema Político Oligárquico Republicano, A Revolução de Trinta e a formação do Estado Nacional; Nacionalismo e Populismo, Reforma e revolução: Interpretação sobre o golpe de 64; A questão da democracia no Brasil contemporâneo.

405041 –Sociologia I
Abordagem da Sociologia em suas bases históricas, objeto de estudo e conceitos fundamentais a partir das concepções de Durkhein, Weber e Marx.

405042 – Sociologia II
Abordagem do paradigma durkheimiano em seus antecedentes teóricos, aprofundamento da teoria e fundamentos metodológicos de Durkeim e desdobramentos da sociologia durkheimiana no século XX.

405043 – Sociologia III
Antecedentes teóricos da abordagem weberiana, fundamentos teóricos e metodológicos e os desdobramentos da sociologia compreensiva no século XX.

405044 – Sociologia IV
Bases filosóficas da abordagem de Marx, teoria e método do paradigma marxista e seus desdobramentos no século XX.

405045 – Sociologia Rural
Abordagem das relações campo/cidade: o embate tradicionalismo e modernidade. Diversidades teóricas da Sociologia Rural. Penetração do capitalismo no campo e a sua repercussão sobre as relações de produção, de dominação e de poder. A análise destes conteúdos deve contemplar a realidade brasileira.

405046 – Sociologia do Desenvolvimento Agrário
Análise da questão agrária enquanto fenômeno nascido do capitalismo. Correlação entre a questão agrária e questão agrícola. As políticas agrárias e agrícolas versus demandas do homem do campo. Os movimentos sociais e populares frente às questões agrárias e agrícolas. Análise da realidade brasileira.

405048 – Sociologia do Desenvolvimento
Abordagem das questões do desenvolvimento. Análise da expansão do desenvolvimento capitalista: colonialismo, imperialismo e globalização enfocando as realidades latino-americanas e brasileiras.

405049 – Sociologia da Educação I
Abordagem da natureza da Sociologia da Educação. Diversidades teóricas da Sociologia da Educação. Educação como processo social. Educação e estrutura social. Educação e Estado. Educação e desenvolvimento. Educação, inovação e mudança social.

405051 – Sociologia do Trabalho
Abordagem das relações de trabalho como categoria sociológica e as diferentes concepções sobre o trabalho. Organização e divisão social do trabalho e relações do trabalhador com a sociedade e o Estado. Reivindicações trabalhistas, formação de instituições trabalhistas. Análise da formação profissional social e política do trabalhador urbano e rural. Análise das relações de trabalho na sociedade brasileira.

405042 – Sociologia das Organizações Complexas
Abordagem da natureza da Sociologia das Organizações Complexas. Diversidades teóricas da Sociologia das Organizações Complexas: estudo das principais concepções teóricas. A burocracia como organização formal. Burocracia e Poder, relações entre burocracia e tecnologia. Burocracia e Estado. O papel do intelectual na burocracia. Análise da estrutura burocrática brasileira.

405053 – Sociologia Ambiental
Abordagem das especificidades do estudo sociológico na questão ambiental discutindo a relação homem/sociedade/natureza. Desenvolvimento e a questão ambiental, dando ênfase às questões específicas do desenvolvimento e meio ambiente do Brasil.

405054 – Sociologia da Educação II
Abordagem das relações entre educação e cultura; movimentos e populares, urbanos e rurais; a busca por educação. Análise dos movimentos populares e sociais. Educação popular e cultura popular. O papel do Estado, da Igreja e da Mídia na educação popular e na educação formal. Educação popular e educação formal.

405046 – Sociologia do Planejamento
Abordagem da natureza da Sociologia do Planejamento. As diferenciações entre planejamento e planificação. Estado e Planejamento. Planejamento nacional, regional e local. Relações de planejamento inter-setorial.

405057 – Sociologia da Religião
Abordagem da natureza da Religião como elemento da cultura humana. Histórico da disciplina; principais modelos analíticos; o papel social da religião: organização, significado e participação social das diferentes comunidades e seitas religiosas; religião e controle social; estudos das religiões e organizações regionais no Brasil.

405058 – Tópicos Especiais de Sociologia
Os Tópicos especiais serão oferecidos, ocasionalmente, e terão seu conteúdo definido a partir dos seguintes critérios: 1)continuação de disciplinas obrigatórias ou optativas do fluxo da habilitação em Sociologia e 2)definição oportuna de tema de interesse relevante para a Sociologia.

405059 – Sociologia V
Abordagem das principais correntes do pensamento sociológico latino-americano contemporâneo.

405061 – Métodos e Técnicas de Pesquisa em Ciências Sociais I
A produção do conhecimento científico na pesquisa. A reconstrução social da realidade. A relação teoria e método. A quantificação nas Ciências Sociais. A formulação do problema. Hipóteses e a operacionalização das variáveis. O questionário, a amostragem. Survey: aplicações e limitações.

405062 – Métodos e Técnicas de Pesquisa em Ciências Sociais II
Análise de métodos e técnicas qualitativas nas Ciências Sociais. O estudo de caso, a história de vida e o método biográfico. A observação participante. A entrevista. A análise de conteúdo e a análise de discurso nas Ciências Sociais.

405065 – Introdução à Pesquisa I
Realização de um projeto de pesquisa, com base nos conteúdos das disciplinas, Métodos e Técnicas de Pesquisa em Ciências Sociais I e Métodos e Técnicas de Pesquisa em Ciências Sociais II, de caráter teórico ou empírico, sob a orientação de professor especialmente designado pelo departamento de Ciências Sociais, que avaliará o desempenho do aluno.

405066 – Iniciação à Pesquisa II
Realização de pesquisa empírica ou teórica e confecção do relatório da referida disciplina (monografia) sob a orientação de professor designado pelo Departamento de Ciências Sociais e também do professor responsável pela disciplina “Seminário de Pesquisa II” que coordenará seminários acompanhando o desenvolvimento do trabalho de pesquisa do estudante.

405067 – Estágio Supervisionado
Treinamento profissional em órgãos públicos e privados para execução de projetos, estudos e pesquisas no campo das Ciências Sociais.

405071 – Epistemologia das Ciências Humanas
Conceitos de Epistemologia e Filosofia das Ciências, História das Ciências. Questões de Epistemologia das Ciências. Questões de Sociologia do Conhecimento. Pressupostos Epistemológicos das Ciências Humanas. Algumas concepções epistemológicas em Ciências Humanas.

405082 – Métodos de Análise e Interpretação Social II
Abordagem das teorias de investigação social contemporâneas: estrutural-funcionalismo, fenomenologia, individualismo metodológico, praxiologia, socio-biologia.

405083 – Introdução às Ciências Sociais
O programa da disciplina deve concentrar-se na evolução das Ciências Sociais ao longo do tempo, a fim de que se possa caracterizar a evolução do pensamento relacionado ao desenvolvimento das demais Ciências Sociais.

405084 – Sociologia Urbana
Abordagens dos processos de urbanização a partir de diversas perspectivas teóricas. O papel do Estado no processo de urbanização. Os movimentos sociais e urbanos. Os conteúdos devem contemplar ma realidade latino-americana, especialmente a brasileira.

405091 – Teorias Políticas Contemporâneas
Abordagem das teorias políticas mais recentes, contextualizando-se diante das grandes questões sociais, econômicas e políticas desse final de século. Assim, recortes teóricos tais como a Teoria da Justiça, a Teoria da Ação Comunicativa, a Teoria dos Jogos, a Teoria das Novas Formas da Ação Coletiva, o Marxismo analítico etc., serão revisitados e retrabalhados comparativamente.

405092 – Teorias da Ação Coletiva
Abordagem da crise que atinge as formas tradicionais e classista de ação coletiva (sindicalismo, militantismo político etc.) no Brasil e no mundo. Discussão das implicações políticas e teóricas da emergência, nas duas últimas décadas, de novos tipos de ação (associativismo, movimento ecológico, movimentos sociais não classistas etc.), principalmente no que diz respeito às novas conotações que a distinção clássica público/privado assume nas sociedades atuais.

405093 – Política e Mídia
Abordagem da relação estreita entre mídia e política no mundo contemporâneo; influências do marketing nas estratégias e nos discursos dos atores políticos; Mudanças nas campanhas eleitorais no Brasil.

Socióloga pesquisa evolução do Forró Caju

Socióloga pesquisa evolução do Forró Caju

A origem, as danças, a dinâmica cultural e a evolução do Forró Caju são o foco de uma pesquisa realizada pela socióloga licenciada pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Vanessa Garcez. Desde 2006, na época da graduação, ela estuda os aspectos da festa mais popular de Sergipe e coleta informações através de entrevistas, levantamento histórico de reportagens, materiais publicitários e fotos. Atualmente, o tema está sendo aprofundado na monografia de conclusão do curso de bacharelado em ciências sociais.

O São João de Aracaju despertou seu interesse quando ainda era estudante, por meio da orientadora, a antropóloga Eufrázia Cristina Menezes, do Departamento de Ciências Sociais da UFS. Em 2006, Eufrázia me chamou para pesquisar com ela os festejos juninos em Aracaju. As atividades foram divididas entre Priscila Santos Silva, minha companheira de estudos, e eu. Por meio do Programa de Iniciação Científica [Pibic], eu comecei a pesquisar o Forró Caju e ela, a rua de São João, explica Vanessa.

A primeira pesquisa, feita em 2006, consistiu numa etnografia sobre a participação do público e a comunicação do corpo durante o evento junino. No primeiro momento, estudamos as performances culturais que ocorriam no Forró Caju, trabalhando com a questão antropológica. É interessante ver como os diferentes grupos sociais se inserem na mesma festa, revela.

A indústria cultural: expansão do mercado e possibilidades de acesso à cultura

A indústria cultural: expansão do mercado e possibilidades de acesso à cultura

por Marcia Tosta Dias*

* Socióloga e autora de Os Donos da Voz – Indústria Fonográfica Brasileira e Mundialização da Cultura (Boitempo Editorial, 2000)

Desde meados dos anos 90, temos assistido à integração do Brasil ao circuito mundial de grandes espetáculos culturais. Tal inserção tem se mostrado cada vez mais sofisticada, tendo há muito transbordado o eixo São Paulo–Rio de Janeiro. Ao lado de grandes mostras e festivais de cinema, teatro, dança, moda e artes plásticas, em 2005 a cena musical apresentou um verdadeiro boom, recebendo atrações isoladas ou conjuntas, nacionais e estrangeiras, numa intensidade talvez nunca antes vista. Sem dúvida, tal incremento não pode ser entendido fora do contexto da grande sofisticação dos aparatos técnicos disponíveis e da profissionalização dessa área de atividade a que chamamos indústria cultural. Ademais, nos últimos dez anos, tem-se assistido a um aumento muito significativo de trocas culturais em âmbito mundial. Como entender melhor essa expansão?

Levando em consideração que em todas as áreas citadas é possível distinguir a dimensão cultural daquela do negócio propriamente dito, vale a pena relembrar algumas das características essenciais da indústria cultural, considerando que sua performance se incorporou de tal maneira à vida das sociedades que dela fazem parte como se lhes fosse natural. No capitalismo, a cultura constituiu-se como esfera de atividade autônoma – aos poucos tornada hegemônica –, em que poucos agentes se incumbem da produção e da difusão de bens e mercadorias culturais para um público cada vez mais amplo. Como forma e conteúdo, essa produção foi mesclando referências da cultura popular, da cultura erudita, de tipos variados de lazer e entretenimento, esferas antes distintas e portadoras de características socioculturais específicas. Com a indústria cultural, opera-se uma tendência cada vez mais envolvente de eliminação dessas particularidades (o que ocorre na esfera da produção) na busca de um consumo de massa para os produtos. Daí o cultivo da padronização estética dos produtos, considerando a necessidade de sua veiculação em determinados meios, como se observa com mais nitidez no rádio e na televisão aberta.

Evidentemente, a maioria das oportunidades de fruição desse tipo de cultura é mediada, em alguma altura do processo, pelo dinheiro: seja para a compra de um de seus meios reprodutores (TV, rádio, computador, telefone celular – os hardwares), seja para a dos formatos que contêm a informação cultural (os softwares – discos de todo tipo, vídeos e também os livros), seja para acessar diretamente os espetáculos de maneira presencial, por meio da compra de ingressos para cinemas, teatros, shows, exposições, concertos etc.

Atividades gratuitas são promovidas por algumas entidades públicas e privadas, mas sua ocorrência é pequena e seu alcance limitado a um espectador quase sempre esclarecido, que busca as informações sobre tais oportunidades e tem, sobretudo nas grandes metrópoles, boas condições de deslocamento. A questão do acesso, no entanto, se torna mais complexa, se considerarmos a atuação de meios como o rádio e a televisão aberta. Depois do investimento inicial na aquisição dos respectivos aparelhos reprodutores, o espectador tem contato com uma extensa programação considerada gratuita. Esse é o campo em que a indústria cultural atua com toda a sua potência e peculiaridade, oferecendo uma gama de atrações padronizadas, difundindo valores dominantes, se auto-referindo o tempo todo. É o espaço privilegiado para a interação de várias áreas da indústria cultural (novelas, música, publicidade etc.) numa programação única, compacta, que se mostra em alguns casos como obrigatória.

Mas, se o universo da produção cultural é, como se sabe, muito mais amplo do que aquele que se realiza nesse esquema, por que os milhares de ouvintes e espectadores parecem não ter outra escolha? O problema que se coloca é o do afunilamento operado pelos meios de difusão, e nesse âmbito se realiza uma das práticas ao mesmo tempo mais características e mais perversas da grande indústria cultural: a compra de espaços nos meios instituídos para a divulgação de seus produtos. A prática é conhecida pelo nome de jabá e era originalmente restrita ao rádio; espaços nas programações eram destinados à veiculação de determinadas músicas/artistas, de acordo com os interesses das gravadoras. Com a sofisticação das relações entre o marketing e os produtos culturais e o conseqüente ofuscamento entre suas fronteiras, a prática do jabá se naturalizou, se expandiu, se profissionalizou e se legalizou, represando, em torno de um determinado circuito de interesses, a programação a ser veiculada pela grande mídia. Nesse sentido, pode-se afirmar que o jabá é o espelho da indústria cultural.

Esse sistema vem sofrendo, no entanto, interessante pressão vinda do próprio desenvolvimento técnico da produção cultural de massa. Trata-se do advento e da larga atividade das tecnologias digitais e de sua parceria com a produção cultural, observada, sobretudo, na área da difusão da informação sobre cultura, via internet, e na área de produção musical. Marca da aceleração do processo de mundialização da cultura – uma das faces da globalização econômica –, a tecnologia digital tem permitido a agilização das trocas de referências e informações diversas, ampliando os horizontes culturais. Com relação à música, além de ter engordado o faturamento da indústria fonográfica nos anos 90, com o lançamento do formato CD, tem favorecido a aproximação do artista com o processo de produção, tornando mais acessíveis os estúdios e as formas de gravação. Essa quebra do monopólio da produção de discos, exercido historicamente pelas grandes gravadoras, teve o efeito polêmico de qualificar a ação da pirataria, provocando uma crise sem precedentes nessa área da produção cultural. Ao atingir “a galinha dos ovos de ouro”, a crise revelou causas mais amplas, ligadas a uma política cultural contrária à diversidade e à formação de um público ouvinte.

Mas a produção cultural, hoje mundializada, requer diversidade, como forma inclusive de atender a um mercado cada vez mais segmentado, no qual deve haver espaço para todo tipo de produto, de interesse potencial para todo tipo de consumidor. É nesse sentido que brechas importantes têm sido abertas e a fertilidade cultural, antes represada no acesso às formas de produção, ganha corpo e se posiciona diante de suas possibilidades de difusão. Se expandirmos o movimento para as todas áreas da cultura, poderemos certamente considerar que a multiplicação de espaços de difusão cultural responde, em certa medida, ao aumento da oferta de produtos a ser exibidos, bem como à existência de enorme demanda reprimida.

No entanto, isso não aponta de modo algum para o advento de um processo de democratização da cultura, por mais que se possa notar maior mobilização do poder público e de algumas instituições privadas nos sentido de incrementar a produção e o acesso. Todas as iniciativas ainda são poucas, considerando o público potencialmente interessado, que comparece às multidões quando há oferta de eventos gratuitos e mesmo em outros, de ingressos caros (dos quais as cotas de entradas com descontos se esgotam rapidamente). Há um inegável e amplo interesse por atividades culturais de toda sorte, facilmente verificado em todos os segmentos sociais.

Portanto, a expansão que se verifica no mundo da cultura enquanto business, e seu conseqüente aperfeiçoamento e profissionalização, tem ampliado as possibilidades de acesso à cultura por quem pode pagar, e pagar cada vez mais caro. Diversifica a atividade de grandes conglomerados financeiros, que, devidamente amparados pelas leis de incentivo fiscal, difundem cultura ganhando dinheiro. A atividade pode até não ser lucrativa, mas talvez ela devesse ser praticamente gratuita. No que diz respeito aos shows musicais, nacionais e internacionais, deve-se levar em conta que o aumento de sua oferta se mostra, para os músicos, como uma alternativa econômica à crise do mercado de discos.

Os benefícios culturais serão de fato construídos quando os agentes envolvidos nas várias pontas desse processo, que traz consigo inegáveis avanços, investirem objetivamente na formação cultural da sociedade, de modo a permitir a ruptura com os padrões estéticos cristalizados pela grande indústria cultural (e não sua mera fragmentação), potencializando, democrática e progressivamente as capacidades de produção e fruição de novas formas culturais por toda a sociedade.

Um choque de mercado (mais que um mercado chocante)

Um choque de mercado (mais que um mercado chocante)

por Teixeira Coelho*

* Professor titular de política cultural e coordenador do Observatório de Políticas Culturais, ambos na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP)

O esforço para criar uma indústria em torno da realização de eventos ligados às artes em São Paulo visa, sobretudo, a atender a padrões internacionais de qualidade à altura de uma metrópole. O lado bom disso é que atingir o objetivo colocaria definitivamente a cidade no mapa das maiores capitais culturais do mundo. Mas como fica o apuro artístico em meio à busca por profissionalismo?

O grande vilão da cultura e da política cultural no Brasil nos últimos anos, e em particular desde 2003, tem sido o mercado – aquilo que as indústrias culturais alimentam e que em troca as faz viver. “O mercado não pode ditar as regras do jogo cultural”, “a cultura não pode ser tratada como sabão” etc.

Tudo muito bem, tudo muito bom se não fosse por um detalhe: onde está o famoso mercado que de tudo é culpado? Certamente não no Brasil, onde não existe mercado de cultura e para a cultura, onde o mercado ainda é, mesmo neste início de século 21, incipiente, quando não inexistente.

Certos indicadores econômicos podem comprovar e explicar essa afirmação, com folgas. O PIB per capita no Brasil é de 4 dólares – muito abaixo daquele constatável em qualquer país desenvolvido (32 dólares nos Estados Unidos, 24 dólares no Canadá, 16 dólares na Espanha) e abaixo mesmo de alguns países igualmente subdesenvolvidos, como a Argentina (8 dólares), México (6 dólares) e Polônia (5 dólares). Com um PIB de 4 dólares per capita/ano, é fácil imaginar que não sobra nem muito nem nada para a cultura. No Brasil, a maioria dos que vivem para a cultura não vive da cultura, com exceção de uma elite de atores globais, de intérpretes da música popular e de uma ainda menor elite de artistas plásticos. Dois escritores viviam aqui do que escreviam: Jorge Amado e Paulo Coelho. O primeiro morreu, agora só tem um. A maioria dos artistas plásticos faz outra coisa para viver. A tiragem dos jornais é ínfima e a dos livros, na média dos títulos, só faz decrescer.

Aquilo de que o Brasil precisa, na cultura, é um choque de mercado. Choque de mais mercado, não de menos mercado. O Estado nunca deu e nunca dará à cultura o necessário, menos ainda o desejável. Nem é desejável que o Estado se meta demais na cultura: quando o faz, a tragédia é historicamente certa. Há agora um movimento para exigir-se do governo federal 2% do orçamento nacional para a cultura, com a expectativa de que se vier 1% já será fantástico – dá para imaginar, então, quanto do PIB vai hoje para a cultura. O mercado já deu coisas fantásticas à cultura: o jazz nasceu, sobreviveu e se firmou no e pelo mercado, Mozart se manteve graças a encomendas musicais, um número impressionante de obras-primas culturais no século 21, todos os gêneros misturados, veio do cinema – e o cinema é essencialmente mercado, indústria cultural, para Woody Allen, Fellini, Kurosawa ou Spielberg. Estados esclarecidos podem ser um refresco para a cultura.

Mas Estado esclarecido é artigo cada vez mais raro nas vitrinas da política, se me permitirem a imagem mercadológica. Abertura de horizontes e diversidade – aí está a palavra mágica de hoje – encontram-se mais no mercado do que em qualquer outra parte, mercado que é um motor mais decisivo e indispensável para a cultura do que se costuma pensar.

A construção de um mercado interno para a cultura é pauta imperiosa. Na economia em geral, essa já é a primeira lição de casa, para usar essa detestável expressão comum. Não logramos construí-lo ainda por aqui, na economia; mas carne de boi, soja, ferro e avião vendem-se facilmente lá fora, e assim, em época de moeda nacional fraca (o que é quase sempre) e cenário internacional favorável (nem sempre), as exportações mantêm a economia à superfície. As obras de cultura, essas não se vendem lá fora em nenhuma escala comparável à das commodities, dos produtos comerciais. As que têm a ver com a língua portuguesa, menos ainda. E, apesar do sucesso internacional da MPB, estamos longe de encontrar nessa rubrica, e menos ainda nas vendas do cinema ou das artes visuais, algo de substancial para sustentar a economia nacional como um todo, para sustentar a economia da cultura ou, simplesmente, para sustentar a cultura. Como se constrói um mercado interno cultural? Com uma economia forte, sem dúvida: sem troco no bolso não há cultura. Mas também com uma educação cultural e uma educação para a cultura – e não temos nem uma coisa nem outra.

Não temos ainda sequer a consciência do papel da cultura para o tal desenvolvimento sustentável de que tanto se fala, do ponto de vista ecológico, econômico e humano. A cultura não está, por aqui, no horizonte das preocupações políticas de governo. Na França e nos EUA, está. Talvez isso explique alguma coisa, embora não tudo.

Nesse cenário, as leis de incentivo fiscal à cultura jogam papel decisivo. Elas não são instrumento apenas do mercado e para o mercado, mas têm aí uma ação determinante. É bom não esquecer, antes de mais nada, que as leis de incentivo vieram num momento, 1985/1986, em que a sociedade estava farta da intervenção do Estado em tudo, inclusive na cultura, depois de 20 anos de ditadura, e que, nesse sentido, são uma conquista da sociedade civil. Teriam vindo, porém, é fácil ver isso hoje, mesmo que não tivesse havido ditadura. Estando aí, são instrumentos, não fins em si. Como instrumentos, precisam ser preservadas e desenvolvidas, corrigidos os desvios.

Nem tudo ao mercado, claro. A formação para a cultura é função, sobretudo, do Estado – e onde está ele? O apoio ao jovem criador cabe, antes de mais nada, ao Estado – e o que faz ele, num país onde as principais bolsas de estudo ainda são as estrangeiras? Embora mais freqüentemente parte do problema que da solução, alguma política cultural para a televisão, visando a amparar a produção autóctone, é praticada em vários lugares, com critério e bom gosto, de formas variadas e cada vez com menos xenofobia; mas a TV brasileira, aberta e por cabo, é uma selva de comerciais, em todos os sentidos da expressão: diante dela, o Estado, de qualquer tonalidade ideológica, tem fechado os olhos, e as razões para isso não são nada obscuras.

Tampouco o Estado, porém, deve carregar toda a responsabilidade e a culpa pelo constrangedor cenário cultural. A sociedade civil deve dar-se conta de que grande parte, talvez a maior parte do sucesso de uma cultura depende dela. Sobretudo a cultura que não encontra espaço no mercado. A sociedade civil precisa, ela também, vencer a preguiça intelectual que hoje a faz alinhar-se na ala dos propagadores de idéias feitas, como essa segundo a qual tudo deve ser apostado na educação. A educação, menos ainda a rala e medíocre educação que se impõe neste país, em todos os níveis, não tem condições para sustentar desenvolvimento algum, nem econômico, nem humano. A cultura tem. Educação é instrumento. Cultura é projeto. É outra coisa, outra história, e diante dessa história a sociedade civil – aqueles que podem pagar, aqueles que podem fazer pagar, aqueles que podem agitar a cena – tem sido, do mesmo modo, largamente omissa ou, no mínimo, inconstante na sua ação de mecenato.

As discussões no Brasil têm-se feito com aterradora freqüência, em todos os domínios, político, econômico e também cultural, de maneira fortemente rudimentar e com palavras chumbadas, equivalentes aos dados chumbados dos quais sempre se sabe de antemão quais números vão sair. A idéia do mercado como algo essencialmente negativo para a cultura é uma dessas idéias chumbadas. Não há e nunca houve oposição e, menos ainda, contradição de fundo, ontológica, entre mercado e cultura. Só aquelas cabeças que buscam obsessivamente o consenso e, mais ainda, a não discordância, a unanimidade, a uniformidade, buscam equacionar essas duas grandes incógnitas, o mercado e a cultura, de modo a supostamente fazer valer esta sobre aquele. As idéias mestras, hoje, são diversidade e, mais que isso, conflito. Próprio da cultura é o conflito. A cultura não tem medo do conflito com o mercado e não precisa ter, assim como o mercado não tem. Desse conflito tem saído coisa muito boa. Mercado e Estado, a criação autônoma e as indústrias criativas correm em raias próprias, não convergentes e não conflitantes. Não chego a dizer, propor ou esperar que corram em raias complementares. O importante é que corram. No momento, nem o mercado corre, nem o Estado…

A CRISE DOS PARADIGMAS NA SOCIOLOGIA – Problemas de explicação

A CRISE DOS PARADIGMAS NA SOCIOLOGIA – Problemas de explicação

* Octavio Ianni é professor do Departamento de Sociologia da Unicamp

Octavio Ianni (*)

A crise da sociologia pode ser real ou imaginária, mas não há dúvida de que tem sido proclamada por muitos. Em diversas escolas de pensamento, em diferentes países, uns e outros colocam-se o problema da crise de teorias, modelos ou paradigmas. Desde o término da Segunda Guerra Mundial, e em escala crescente nas décadas posteriores, esse é um problema cada vez mais central nos debates. Além dos êxitos reais ou aparentes, das modas que se sucedem, dos desenvolvimentos efetivos do ensino e pesquisa, da produção de ensaios e monografias, manuais e tratados, subsiste a controvérsia sobre a crise da explicação na sociologia.
Fala-se na decomposição dos modelos clássicos e na obsolescência de noções como as de sociedade, comunidade, capitalismo, divisão do trabalho social, consciência coletiva, classe social, consciência de classe, nação, revolução. Critica-se a abordagem histórica, globalizante ou holística, e preconiza-se a sistêmica, estrutural, neofuncionalista, fenomenológica, etnometodológica, hermenêutica, do individualismo metodológico e outras. Considera-se que os conceitos formulados pelos clássicos já não respondem às novas realidades. Agora, o objeto da sociologia deveria ser o indivíduo, ator social, ação social, movimento social, identidade, diferença, quotidiano, escolha racional.
Em 1946, na aula inaugural pronunciada na London School of Economics and Political Sciences, T. H. Marshall se mostrou preocupado com a “encruzilhada” na qual se encontrava a sociologia. As tarefas práticas eram urgentes e os recursos teóricos pareciam inadequados. As interpretações herdadas dos clássicos seriam insuficientes para fazer face às urgências da reconstrução social. Em lugar das teorias globalizantes, caberia formular “pontos de apoio intermediário”, de modo a atender aos desafios imediatos, localizados, setoriais, quotidianos, de normalização e ordenamento dos problemas sociais.
“Os sociólogos não deviam despender todas as suas energias na procura de generalizações amplas, leis universais e uma compreensão total da sociedade humana como tal. Talvez cheguem lá mais tarde se souberem esperar. Nem re comendo o caminho arenoso das profundezas do turbilhão dos fatos que enchem os olhos e ouvidos até que nada possa ser visto ou ouvido claramente. Mas, acredito que haja um meio-termo que se localiza em chão firme. Conduz a uma região cujas características não são nem gargantuanas nem liliputianas, onde a sociologia pode escolher unidades de estudo de um escopo manejável, não a sociedade, progresso, moral e civilização, mas estruturas sociais específicas nas quais as funções e processos básicos têm significados determinados” (Marshall, 1967, p. 32).
Seja em termos de “pontos de apoio intermediário” conforme Marshall, de “principia media”, segundo Mannheim (1949), ou “teorias.de alcance médio”, na versão de Merton (1951, 1967), o que está em curso é o debate sobre a insuficiência ou obsolescência das teorias clássicas. Debate no qual, aos poucos, se propõem outros temas e metodologias. A problemática sociológica é posta em causa por representantes de diferentes escolas de pensamento, em diversos países. .
Essa controvérsia prossegue e generalizase. Torna-se uma onda. Bourricaud (1975, p. 584) critica o. “sociologismo”, o “hiperfuncionalismo” e o “realismo totalitário”. Afirma, entre outras observações semelhantes, que “o realismo totalitário continua a constituir o modo de interpretação ao qual, espontânea e implicitamente, recorre a maioria dos sociólogos radicais”. Para superar essas limitações, preconiza a recriação do “individualismo atomístico” herdado do liberalismo e do marginalismo, conforme as contribuições de Mancur Olson, Albert Hirschman e outros. Propõe o conceito de “neo-individualismo”, no qual se admite a existência de “grupos”, “classes” e “sociedades”, entre aspas. Está a caminho das teorias do “individualismo metodológico” e “escolha racional”, vistas como aspectos básicos de um novo paradigma sociológico posto sobre os escombros dos clássicos.
Touraine (1984) dá continuidade à crítica dos “modelos clássicos”. Alega que se acham em “decomposição”, já que se baseiam em conceitos insatisfatórios, tais como “funcionalismo”, “modernização”, “sociedade” e outros. “Na realidade, o que esta sociologia denomina sociedade não é senão a confusão de uma atividade social, definível em termos gerais – como a produção indus trial ou o mercado -, e de um Estado nacional.
A unidade da sociedade é aquela que lhe dá e impõe um poder legítimo. Suas fronteiras não são teóricas, mas reais: as dos postos da aduana. A sociedade é o pseudônimo da pátria” (idem, p. 22). Os conceitos elaborados pelos clássicos parecem não deixar espaço para os indivíduos, os atores sociais. “Um dos aspectos mais importantes da sociologia clássica é que, ao criar grandes conjuntos históricos portadores de sentidos em si mesmos, reduzem a análise da ação social à pesquisa da posição do ator no sistema” (idem, p. 35). Cabe eleger como objeto da sociologia a ação social, o ator social, o movimento social. E abandonar o sistema, os grandes conjuntos, os conceitos abrangentes, a visão macro da sociedade. Mesmo porque essas noções corresponderiam a uma realidade social passada, superada, que já não mais se constitui como objeto da sociologia. “A sociologia da ação recusa esta explicação do ator pelo sistema. Ao contrário, vê em toda situação o resultado das relações entre atores, definidos tanto por suas orientações culturais como por seus conflitos sociais” (idem, pp. 35-36). Nesses termos é que Touraine desenvolve a idéia de que a “decomposição” do pensamento sociológico herdado do passado parece irreversível. Trata-se da “crise de um modelo clássico de representação da vida social”, acompanhada da “formação de um novo modelo, a partir do qual pode desenvolver-se uma orientação sociológica mais específica e mais coerente” (Touraine, 1985, -pp. 15-25).
Entre os críticos que estão propondo novos modelos, teorias ou paradigmas é freqüente a insistência na idéia de que o objeto da sociologia mudou. Os clássicos estariam apoiados em noções que, se foram cabíveis no passado, já não atendem às peculiaridades do século XX. Ao criticar as noções de capitalismo e industrialismo, que seriam importantes nas sociologias de Marx e Weber, Giddens sublinha a “informação”, o “poder administrativo”, o “poder militar”, a “guerra”, a “racionalização” e outras como aspectos básicos da “modernidade” do século XX. Portanto, não se trata mais, como se fazia anteriormente, de continuar a explicar a realidade social em termos de industrialismo e capitalismo. “A dissolução do mundo tradicional, sob o impacto da modernidade, não é o resultado do capitalismo, do industrialismo, ou mesmo da concentração dos instrumentos administrativos pelos Estados modernos. É o resultado de tudo isso, em combinação com os meios modernos de uso da força militar e de fazer a guerra (Giddens, 1988, p. 28). A modernidade é muito mais complexa e fundamental do que sugerem as noções de capitalismo e industriaïismo. Cabe acrescentar outros “parâmetros de modernidade”, dentre os quais se destaca a parafernália da informática, “um dos mais característicos traços da época moderna. Os Estados modernos, e o sistema mundial moderno como um todo, envolvem uma tremenda aceleração na produção e organização de informação. Embora seja habitualmente suposto que apenas agora, no final do século XX, estamos entrando na era da informação, as sociedades modernas têm sido sociedades de informação desde os seus inícios” (idem, p. 27). Em síntese, trata-se de superar a “teoria da sociedade industrial”, um resíduo do século XIX, um “mito” ultrapassado. E “reconciliar uma epistemologia da ciência social, revista, com novos esquemas para análise do desenvolvimento das sociedades avançadas” (Giddens, 1976, p. 703).
Uma parte importante dessa história está sintetizada em livros e artigos de T. H. Marshall, Merton, Mannheim, Florestan Fernandes, Gurvitch, Sorokin, Cuvillier, C. W. Mills, Barrington Moore Jr., Gouldner, Giddens, Collins, Bourricaud, Bourdieu, Touraine, Piaget, Lukács, Goldmann, Horkheimer, Adorno, Habermas, Gadamer, Ricoeur, Morro, Elster e outros. Uns se colocam radicalmente em favor de novos paradigmas. Outros propõem renovações ou desenvolvimentos dos clássicos, incorporando-se aí contribuições contemporâneas. E há os que reconhecem que a criação de novos paradigmas não implica necessariamente a desqualificação dos outros. Mesmo porque, na história do pensamento sociológico, ao lado das oposições e rupturas, registram-se também convergências e continuidades. No conjunto, discutem-se problemas relacionados tanto ao método como ao objeto da sociologia. Discutem-se prioridades, ou acomodações, quanto à indução quantitativa e qualitativa à análise sincrônica e diacrônica, ao contraponto das partes com o todo, à dinâmica e à estabilidade sociais, ao indivíduo e sociedade, ao objetivo e subjetivo. Aos poucos, formulam-se novas teorias sociológicas, tais como estruturalismo(s), neofuncionalismo, estrutural-funcionalismo, fenomenologia, etnometodologia, hermenêutica, sociologia da ação ou acionalismo, individualismo metodológico e outras. Formulam-se outros temas e outros métodos de explicação ou compreensão, ao mesmo tempo em que se inaugurara outras linguagens.

Clássicos e contemporâneos

Há algo de imaginário no debate sobre a crise da sociologia. Se é verdade que há impasses reais no presente, também é verdade que as controvérsias sobre o seu objeto e método são mais ou menos permanentes. Dizem respeito às exigências da produção intelectual, com a singularidade de que a sociologia é uma ciência que sempre se pensa, ao mesmo tempo em que se realiza, desenvolve, enfrenta impasses, reorienta. Talvez mais do que outras ciências sociais, ela se pensa de modo contínuo, criticamente. Há uma espécie de sociologia da sociologia em toda produção sociológica de maior envergadura.
Entretanto, algumas vezes colocam-se problemas reais. Gurvitch (1986) perguntou certa vez se a sociologia fez outra coisa se não passar por crises. E disse que algumas delas colocaram questões básicas.
“Crise das relações entre filosofia da história e sociologia, crise da procura do ‘fator predominante’, crise do evolucionismo, crise do racionalismo social, crise da ‘compreensão’ que rejeita a explicação, crise do formalismo, crise do psicologismo à Pareto, à Freud e, mais recentemente, à Moreno, crise da relação entre a teoria sociológica e a investigação empírica em sociologia, avivando-se, segundo as características espirituais de Sorokin (1), em testomania e quantofrenia … Importa, sobretudo aqui, insistir no fato de todas as crises em sociologia, independentemente da sua correspondência com as crises sociais às quais serviam de réplicas, sempre se reportarem ao problema da explicação: ou que se tenha pretendido explicar demasiado, ou que se tenha dado explicações falsas, ou se reduzisse em demasia a explicação a favor de uma simples constatação, ou, enfim – como nas investigações empíricas de hoje, sobretudo nos Estados Unidos e entre os imitadores franceses dos americanos – tenha-se renunciado quase por completo à explicação, transformando, no melhor dos casos, a sociologia em sociografia” (idem, vol. II, pp. 525-526).
Aliás, conforme lembra Merton (1979, p. 149), cada geração de sociólogos tende “a identificar a sua época como um momento decisivo no desenvolvimento da disciplina, para melhor ou para pior”. Em certos casos, no entanto, a crise pode ser real, relativa a problemas de explicação, impasses teóricos. Inspirado nas reflexões de Kuhn, sobre “ciência normal” e “revoluções científicas”, Merton chama a atenção dos sociólogos para problemas de cunho epistemológico. “Os aspectos da sociologia que supostamente fornecem os sinais e sintomas da crise são de natureza familiar – uma mudança e choque da doutrina acompanhadas de uma tensão aprofundada, é algumas vezes conflito exaltado, entre os praticantes do ofício. O choque implica a forte reivindicação de que os paradigmas existentes são incapazes de resolver os problemas que deveriam, em princípio, ser capazes de resolver” (idem, ibidem) (2).
A controvérsia sobre os clássicos e os contemporâneos, em certos casos, envolve a tese de que a sociologia é uma ciência pouco amadurecida. A importância dos textos clássicos e a freqüente volta a eles seriam indícios de imaturidade, ciência em formação, ainda não constituída, pré-paradigmática. Dada essa imaturidade e, portanto, a reduzida incorporação daqueles textos ao corpos teórico da sociologia, os sociólogos contemporâneos são obrigados a voltar continuamente a eles. Por isso, diz Merton, a sociologia reluta em abandoná-los. Todo sociólogo precisa demonstrar um conhecimento de primeira mão daqueles que deixaram a sua marca na sociologia.
“Embora o físico, enquanto físico, não precisa apoiar-se no Principia de Newton, ou o biólogo, enquanto tal, na leitura e releitura de A Origem das Espécies de Darwin, o sociotógo, enquanto sociólogo antes do que historiador da sociologia, tem ampla razão para estudar as obras de Weber, Durkheim e Simmel e, pelo mesmo motivo, voltar ocasionalmente às obras de Hobbes, Rousseau, Condorcet ou Saint-Simon. . . Os dados mostram que a física e a biologia têm em geral sido mais bem-sucedidas do que as ciências sociais ém recuperar o conhecimento acumulado e relevante do passado e incorporá-lo às formulações subseqüentes. Este processo de enriquecimento pela absorção é ainda raro na sociologia. Como resultado, informações que não foram previamente recuperadas estão ainda lá, para serem empregadas de forma adequada, como novos pontos de partida” (Merton, 1967, pp. 34-35).

O argumento parece forte, mas sustenta-se pouco.

Primeiro, está baseado na idéia de que a sociologia deveria pautar-se pelo modelo “paradigmático” das ciências naturais. Um argumento de origem positivista, renovado com o neopositivismo. Supõe que a lógica do conhecimento científico é única. E que dada ciência social se constitui e amadurece na medida em que atinge os níveis alcançados pelas mais desenvolvidas, no caso as naturais, ou a física, a biologia. Essa é apenas uma posição no âmbito das reflexões sobre epistemologia. Há outras e bastante elaboradas. As conquistas científicas realizadas por Weber e Simmel, Marx, Lukács e Gramsci, Horkheimer, Adorno e Marcuse, Habermas e Gadamer, além de outros, abrem diferentes horizontes para a epistemologia das ciências sociais, e não apenas para a sociologia. As diferenças entre ciência natural e ciência social são essenciais e irreversíveis. Salvo o positivismo, que informa algumas tendências do funcionalismo, estrutural-funcionalismo e estruturalismo, a dialética hegeliana e marxista, bem como as diversas orientações da fenomenologia, estabelecem nítidas diferenças entre ciência da natureza e ciência social. Em termos epistemológicos, a sociologia e as outras ciências sociais não podem prescindir da compreensão, da explicação compreensiva. As possibilidades da pesquisa, experimentação, descrição e explicação, abertas pela ciência da natureza, pouco servem para o estudo da realidade social. O conceito, categoria, lei de causa e efeito, lei de tendência, condição de possibilidade ou previsão somente se constituem na medida em que apanham, codificam, taquigrafam as singularidades e universalidades envolvidas nas configurações e nos movimentos da realidade social.
Segundo, há o aspecto propriamente ontológico da questão. O objeto da sociologia, bem como das outras ciências sociais, envolve o indivíduo e a coletividade, as relações de coexistência e seqüência, diversidades e antagonismos. Diz respeito a seres dotados de vontade, querer, devir, ideais, ilusões, consciência, inconsciente, racionalidade, irracionalidade. Os fatos e acontecimentos sociais são sempre materiais e espirituais, envolvendo relações, processos e estruturas de dominação ou poder, e apropriação ou distribuição. Implicam indivíduos, famílias, grupos, classes, movimentos, instituições, padrões de comportamento, valores, fantasias. Esse é o mundo da liberdade e igualdade, trabalho e alienação, sofrimento e resignação, ideologia e utopia.
Terceiro, a sociedade burguesa, industrial, capitalista, moderna ou informática, modifica-se ao longo do tempo. Mas guarda algumas características essenciais. É diferente e mesma. No começo, falava-se no “individualismo possessivo”, descoberto pela economia clássica e os primeiros pensadores sociais interessados em explicar a emergência e o tecido da sociedade civil. Em fins do. século XX, fala-se no “individualismo metodológico”, acompanhado da “escolha racional”: duas descobertas das ciências sociais nos tempos da modernidade, compreendendo o marginalismo hedonista, o neoliberalismo e o marxismo analítico. O dilema indivíduo e sociedade continua a ser essencial, se queremos entender a trama das relações sociais, os espaços da liberdade, as condições da opressão. O mundo formado com a sociedade moderna, industrial, capitalista não é o mesmo nos séculos XIX e XX. Modificou-se substancialmente, está informatizado. Os meios de comunicação, em sentido amplo, revolucionaram as condições de produção, distribuição, troca e consumo, em termos materiais e espirituais. As burocracias públicas e privadas ampliaram muito o seu raio de ação, influência, indução. Tudo mudou. Mas muita coisa subsiste, ainda que recriada, necessariamente recriada. Em essência, a sociedade moderna, burguesa, informática baseia-se em alguns princípios que se reiteram ao longo da história. Nem a ciência nem a técnica, ou informática, alteraram a natureza essencial das relações, processos e estruturas de apropriação ou distribuição, de dominação ou poder. No limiar do século XXI, guardam-se aspectos essenciais do século XIX: liberdade e igualdade, trabalho e alienação, sofrimento e resignação, ideologia e utopia. “A ausência de espírito, característica da ‘modernidade racionalizada, não é apenas refletida nas páginas finais de A ética Protestante de Weber; é criada por ele. Para entender a modernidade racionalizada, não se pode apenas observá-la: precisa-se voltar ao trabalho pioneiro de Weber, a fim de apreciá-lo e experienciá-lo outra vez. Semelhantemente, o que é opressivo e sufocante na modernidade não será nunca suficientemente formulado como em O Homem Unidimensional de Marcuse” (Alexander, 1987a, 1987b). Ocorre que alguns clássicos revelam de forma particularmente exemplar, privilegiada, visionária, não só o que viram, mas também o que vemos. Em seu tempo, Weber dizia que “o mundo em que espiritualmente existimos é um mundo assinalado, em grande parte, pelas marcas de Marx e Nietzsche” (Weber, citado por Josyr-Kowalski, 1971, p. 264). Ocorre que o mundo que Weber conheceu ainda tinha muito daquele que Marx e Nietzsche haviam conhecido. Da mesma maneira que a modernidade racionalizada, revelada por Weber, tem muito da modernidade opressiva e sufocante revelada por Marcuse.
Teoria e paradigma Há momentos lógicos da reflexão sociológica sem os quais o ensino e a pesquisa contemporâneos dificilmente poderiam se desenvolver. Estes são alguns desses momentos: aparência e essência, parte e todo, singular e universal, sincrônico e diacrônico, histórico e lógico, passado e presente, sujeito e objeto, teoria e prática. É claro que a reflexão científica pode basear-se maiormente em alguns, deixando outros em segundo plano: Nem sempre a monografia e o ensaio mobilizam todos. Entretanto, necessariamente mobilizam alguns. Dizem respeito à razão científica. Caso contrário, o produto da atividade intelectual corre o risco de ficar no meio do caminho, realizar-se apenas como descrição, folclorização, ideologização. Ou apresentar-se como sucedâneo da ficção, nem sempre com. talento artístico.
Um dos requisitos lógicos fundamentais da interpretação na sociologia diz respeito à historicidade do social. O contraponto passado e presente é essencial, se se trata de explicar ou compreender a realidade social. Toda interpretação que perde, minimiza ou empobrece o momento do real, sacrifica uma dimensão básica desse mesmo real. Esta é uma conquista importante do pensamento sociológico e das outras ciências sociais. A realidade social é um objeto em movimento. As suas configurações estáveis, normais, estáticas, sincrônicas representam momentos, sistemas, estruturas da mudança, dinâmica, modificação, transformação, historicidade, devir.
Precisamente aí está uma das limitações de algumas teorias sociológicas contemporâneas. Não levam em conta essa conquista do pensamento sociológico. Em busca de novas linguagens e da redefinição do objeto da sociologia, sacrificam as tensões diacrônicas do real. Imaginam que as configurações sincrônicas resolvem a diacronia, captando o momento do real, perdendo o movimento do real.
Uma parte da controvérsia sobre paradigmas clássicos e contemporâneos passa pelo problema da historicidade da realidade social. Entre os contemporâneos, são freqüentes as propostas teóricas que simplesmente abandonam ou empobrecem a perspectiva histórica. Como se fosse possível eliminar das relações, processos e estruturas de dominação e apropriação os seus movimentos e as suas tensões. Como se a realidade social pudesse sempre resolver as- suas diversidades, desigualdades e antagonismos no âmbito das configurações sincrônicas. Como se o real não estivesse essencialmente atravessado pela relação de negatividade. Daí a imagem abstrata, rarefeita, cerebrina que transparece em estudos como os do estrutural-funcionalismo de Parsons.
“A idéia-chave dessa teoria, como o leitor deve estar lembrado, é o ponto de vista de que para toda sociedade existe certo número limitado de atividades necessárias, ou ‘funções’, tais como a obtenção de alimento, o adestramento da próxima geração etc. e um número igualmente limitado de ‘estruturas’, ou maneiras pelas quais a sociedade pode ser organizada para realizar essas funções. Em essência, a teoria estrutural-funcionalista busca os elementos básicos da sociedade humana, abstraída de tempo e lugar, junto com as regras de combinação desses elementos. Dá a impressão de procurar algo na sociedade humana correspondente à tábua periódica dos elementos na química” t Moore, 1972) (3).
Esse é um ponto essencial no debate sobre aspectos ontológicos e epistemólógicos da sociologia. Trata-se de aperfeiçoar e desenvolver a teoria sociológica, sem perder a dimensão histórica da realidade social. A influência de paradigmas emprestados das ciências físicas e naturais tem levado certos sociólogos a uma espécie de pasteurização da realidade social, o que evidentemente se expressa no conceito, na interpretação. “No presente a sociologia está dominada por uma espécie de abstração, dando a impressão de que lida com objetos isolados, em estado de repouso. Mesmo o conceito de mudança social é freqüentemente usado como se referido a um estado fixo. Pode-se dizer que se é forçado a ver o estado de repouso como normal; e o movimento como um caso especial” (Elias, 1978).
O declínio da perspectiva histórica é algo relativamente generalizado na sociologia e no pensamento social contemporâneos. Um processo que já se havia manifestado incipiente no positivismo de Comte, bem como na economia política vulgar, acentua-se posteriormente e parece expandir-se bastante nos tempos atuais. “Um crescente ‘cansaço da história’ caracteriza, ao menos no Ocidente, a segunda metade do século XX. As técnicas de pesquisa da ciência social atual, extremamente refinadas, e orientadas em um sentido quantitativo, deslocam cada vez mais o pensamento histórico do lugar que ocupava no âmbito da Ilustração e do idealismo alemão, em Dilthey, nas tradicionais ciências do espírito, na filosofia da vida e também na filosofia da existência” (Schmidt, 1973, p. 13).
Aos poucos, as tecnologias da pesquisa, matemáticas, informáticas, invadem o objeto e o método da sociologia. A modernização da atividade científica, com base na institucionalização, burocratização, industrialização, formação de equipes numerosas de seniors e juniors, trabalhando com equipamentos eletrônicos, informáticos e matemáticos, provoca alterações na definição do objeto e das condições lógicas e teóricas da interpretação. “A desintegração das ciências humanas tem a sua origem, no fundo, em uma ilusão perseguida com metódica obsessão, que consiste em crer na possibilidade de fugir, do contexto consciente da história humana e das suas sempre renovadas decisões valorativas e de poder, para a a-historicidade das fórmulas matemáticas” (H. Luthey, citado por Schmidt, idem, pp. 13-14).
Aqui, cabe lembrar o que já havia sido posto por Hegel e retomado várias vezes, mais tarde, nas controvérsias sobre quantidade e qualidade. A indução quantitativa não participa do objeto, não faz parte dele, é exterior. Apanha estruturas externas ao ser social. “Em outras palavras, a verdade acerca de objetos matemáticos existe fora deles, no sujeito do conhecimento. Esses objetos, portanto, são, em sentido estrito, não-verdadeiros, entidades inessenciais externas” (Marcuse, 1978, pp. 101-102) (4).
São vários os problemas epistemológicos que precisariam ser melhor examinados, se quiséssemos esclarecer mais a controvérsia sobre a crise de paradigmas na sociologia. Além dos já analisados, em forma breve, cabe lembrar o da relação sujeito-objeto do conhecimento. Na sociologia, essa é sempre uma relação complexa, com sérias implicações quanto ao objeto e método. As diversas perspectivas teóricas mostram que a relação sujeito-objeto nem sempre se resolve numa tranqüila relação de exterioridade, como se o real e o pensado se mantivessem incólumes. Essa é uma hipótese do positivismo e está presente no funcionalismo, estruturalismo, estrutural-funcionalismo e outras teorias. Mas a sociologia inspirada na fenomenologia sempre carrega a hipótese da cumplicidade. A redução fenomenológica e a hermenêutica tendem a tornar ambos cúmplices do conhecido, objeto e sujeito. Ao passo que a sociologia de inspiração dialética, se pensamos em Marx, Lukács, Gramsci e alguns outros, leva à hipótese da dependência mútua, da reciprocidade. O sujeito e o objeto constituem-se simultânea, reciprocamente. A reflexão científica pode corresponder a um momento fundamental da constituição do real. Enquanto não se constitue como categoria, concreto pensado, pleno de determinações, o real está no limbo.
São vários os momentos lógicos da reflexão sociológica, se pensarmos em termos de aparência e essência, parte e todo, singular e universal, qualidade e quantidade, sincrônico e diacrônico, histórico, e lógico, passado e presente, sujeito e objeto, teoria e prática. Mas as teorias não os mobilizam sempre nos mesmos termos de modo similar, homogêneo. Aliás, as teorias distinguem-se, entre outros aspectos, precisamente porque conferem ênfase diversa aos momentos lógicos da reflexão. Há conceitos sociológicos que são comuns a várias teorias. As vezes, o objeto é concebido de maneira semelhante. Mas a interpretação pode não ser precisamente a mesma. E quando a interpretação se revela diversa, logo se constata que a importância relativa dos momentos lógicos da reflexão não é exatamente a mesma. Nesse sentido é que as teorias podem ser mais ou menos distintas, distantes ou opostas.
Princípios explicativos Entretanto, a multiplicidade das teorias não implica, necessariamente, a multiplicidade de epistemologias. É possível supor que dada epistemologia pode fundamentar diferentes propostas teóricas. Aliás, quando buscamos os princípios epistemológicos em que se fundam as teorias, verificamos que dada epistemologia parece fundamentar diversas teorias. É nesse sentido que Elster (1989, p. 181) sugere existirem basicamente “três tipos principais de explicação científica: a causal, a funcionalista e a intencional”. São os paradigmas, ou princípios, que sintetizam as possibilidades de explicação científica. Afirma Elster que a abordagem causal é comum a todas as ciências, naturais e sociais; diz que a explicação funcionalista não tem cabimento nas ciências sociais, pois se baseia em uma analogia equívoca, retirada da biologia. E acrescenta que, nas ciências sociais, as explicações podem ser baseadas na “causalidade intencional”, com variações, conforme se trate de processos internos aos indivíduos ou processos relativos à interação entre indivíduos. “As ciências sociais usam extensamente a análise intencional, no nível das ações individuais. A análise funcionalista, entretanto, não tem lugar nas ciências sociais porque não existe analogia sociológica à teoria da seleção natural. O paradigma adequado para as ciências sociais é uma explicação causal-intencional mista – compreensão intencional das ações individuais e explicação causal de suas interações” (idem, ibidem) (5).
Podemos discordar de alguns aspectos da “filosofia da ciência”, ou “paradigma”, que Elster está propondo para as ciências sociais. Mas não há dúvida de que ele põe o problema básico: alguns paradigmas fundamentam múltiplas teorias.
As teorias sociológicas do passado e presente organizam-se, em última instância, com base em princípios explicativos fundamentais. É verdade que há variações, convergências, nuanças, divergências. Mas predominam alguns princípios, constituindo os fundamentos dos paradigmas conhecidos na sociologia.
Uma relação das teorias sociológicas, passadas e presentes, naturalmente incluiria evolucionismo, positivismo, funcionalismo, marxismo; compreensivo ou típico ideal, hiperempirismo dialético, neofuncionalismo, estruturalismo, estrutural-funcionalismo, teoria da troca, teoria do conflito, interacionismo simbólico, fenomenologia, etnometodologia, hermenêutica, sociologia da ação social ou acionalista, teoria do campo sociológico, teoria da estruturação, sociologia sistêmica, individualismo metodológico, teoria crítica da sociedade e outras. São teorias distintas ou aparentadas. Dialogam entre si, mas também se opõem e contrapõem. Implicam diferentes noções do objeto, apesar do acordo mais ou menos geral sobre o que é o social. Baseiam-se em diferentes métodos de interpretação, envolvendo a explicação, a compreensão, a explicação compreensiva. Lidam com os momentos lógicos da reflexão de forma peculiar, priorizando uns em lugar de outros. Certas teorias possuem cunho histórico, ao passo que outras focalizam a realidade em termos supra-históricos. E há as que se mostram simplesmente a-históricas. Também a relação sujeito-objeto é diferenciada, polarizando-se em três modalidades principais: exterioridade, cumplicidade e reciprocidade.
Mas é possível dizer que as teorias sociológicas do passado e presente organizam-se, em última instância, com base em princípios explicativos tais como: evolução, causação funcional, estrutura significativa, redução fenomenológica, conexão de sentido e contradição. Neste ponto é que a controvérsia sobre os paradigmas precisaria demorar-se mais. Aí, o debate sobre a crise de paradigmas na sociologia tem muito a realizar, se quer elucidar os fundamentos da questão.
Note-se que a noção de paradigma compreende uma teoria básica, uma fórmula epistemológica geral, um modo coerente de interpretar ou um princípio explicativo fundamental. Envolve requisitos epistemológicos e ontológicos, caracterizando uma perspectiva interpretativa, explicativa ou compreensiva, articulada, internamente consistente. Na linguagem da sociologia, um paradigma compreende a articulação dos momentos lógicos essenciais da reflexão: aparência e essência, parte e todo, singular e universal, sincrônico e diacrônico, quantidade e qualidade, histórico e lógico, passado e presente, sujeito e objeto, teoria e prática. São momentos lógicos que se traduzem interpretativamente em evolução, causação funcional, estrutura significativa, redução fenomenológica, conexão de sentido e contradição.
É claro que essa noção de paradigma deixa de lado a acepção sociológica, ou melhor, sociologística, que privilegia o conjunto de hábitos comuns aos que se dedicam ao ensino e pesquisa, as codificações estabelecidas em manuais, os laços institucionais e o jargão próprio de cada grupo de sociólogos reunidos em centros, institutos, departamentos ou outros lugares. Naturalmente, esta acepção apresenta algum interesse, se queremos conhecer as condições sociais, políticas, ideológicas, institucionais, materiais e técnicas de produção e reprodução do conhecimento científico. Mas não é suficiente, se queremos elucidar questões relativas ao objeto e método da sociologia (Masterman, 19?9, pp. 72-108; Barnes, 1986; Ribeiro dos Santos, 1979; Boudon, 1977).
Vejamos alguns exemplos nos quais podemos clarificar um pouco mais as relações entre teoria e paradigma.
Merton dedica-se bastante ao funcionalismo e pode ser considerado o principal teórico do que poderíamos denominar neofuncionalismo. Está preocupado com o paradigma, enquanto codificação da teoria, dos requisitos fundamentais da explicação sociológica. Propõe “um paradigma para a análise funcional na sociologia” (Merton, 1951, cap. I, e 196?, cap. II). Essa é uma contribuição importante, na qual conceitos e procedimentos lógicos são precisados, aprimorados. É inegável a contribuição de Merton para a teoria. Entretanto, cabe perguntar se a sua teoria funcionalista inaugura propriamente um paradigma, ou apenas dá continuidade e inova outro já disponível. Haveria diferenças essenciais entre os paradigmas de Merton e Durkheim ou seriam complementares? Em outros termos, há principalmente continunidades entre As Regras do Método Sociológico de Durkheim e “Funções Manifestas e Latentes” do livro Teoria Social e Estrututra Social de Merton. São muito fortes as evidências de que Merton efetivamente repõe, retoma e desenvolve, em outra linguagem, o paradigma formulado por Durkheim. Se falarmos em teorias, supondo que Merton e Durkheim são autores de duas teorias sociológicas, podemos admitir que ambas se inspiram no mesmo princípio explicativo, de causação funcional. A despeito do seu empenho em formalizar um paradigma neofuncionalista, parece evidente que reitera o princípio de causação funcional codificado por Durkheim. Princípio esse que já havia sido retomado por Malinowski, Radcliffe-Brown e outros. Naturalmente, realiza contribuições da maior importância quando elabora as noções de função manifesta e função latente; quando se empenha em demonstrar que o funcionalismo não implica, necessariamente, uma visão conservadora da realidade social. Mas nem muda nem corrige, apenas aperfeiçoa o paradigma codificado anteriormente por Durkheim em seus estudos metodológicos e em suas monografias. Um paradigma com muita influência no pensa- mento sociológico, presente em várias teorias sociológicas contemporâneas (Fernandes, 1959, parte III; Gouldner, 1970).
Um raciocínio semelhante pode ser feito a propósito de Gramsci, no contraponto com Marx. É claro que aí também há invenções a considerar. A linguagem de Gramsci é outra. Contém menos economia política, outra história. Gramsci elabora as categorias de hegemonia, bloco de poder, intelectual orgânico e outras. É o autor de uma teoria razoavelmente articulada, consistente, compreendendo também classes subalternas, guerra de posição e guerra de movimento, Ocidente e Oriente. Em uma comparação com a de Marx, fica logo evidente que são duas, com semelhanças e diferenças. Entretanto, o paradigma é, em essência, o mesmo. Ambas as teorias apóiam-se no princípio da contradição, que funda um paradigma (Coutinho, 1981; Macciocchi, 1976).
Aliás, cabe reconhecer que há diálogos, implícitos e explícitos, entre representantes de diferentes paradigmas. Indicam problemas metodológicos merecedores de atenção. Permitiriam ilações. Ao analisar a divisão do trabalho social como um processo relativo ao conjunto da sociedade, compreendendo aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais, Durkheim leva a noção de anomia bastante próxima à de alienação, formulada por Marx. O próprio conceito durkheimiano de divisão do trabalho, por suas especificidades e abrangências, lida com problemas que também haviam atraído a atenção de Marx, quando se referia às dimensões singulares, particulares e gerais desse processo social abrangente, de alcance histórico. Também Weber e Marx encontram-se algumas vezes. Conforme sugere o próprio Weber, “todas as leis e construções do desenvolvimento histórico especificamente marxistas possuem um . caráter de tipo-ideal, na medida em que sejam teoricamente corretas” (Weber, 1979, pp. 79-127). O diálogo continua. Na sociologia contemporânea, os mesmos Weber e Marx, passando por Lukács, são indispensáveis se queremos compreender algumas das teses básicas da teoria crítica da sociedade, formuladas por Horkheimer, Adorno e Marcuse.
O problema pode ser colocado assim: as teorias sociológicas contemporâneas lidam com alguns princípios explicativos fundamentais, comtìns. Estes têm sido elaborados por sociólogos; cientistas sociais e filósofos na época dos clássicos, na transição do século e contemporaneamente. As teorias multiplicam-se. Há contínuas criações quanto ao objeto e método, conceitos e interpretações, temas e linguagens. Em certos casos, ocorre a reiteração de princípios explicativos, aperfeiçoados ou não; ao passo que, em outros, verifica-se algo de novo: a invenção paradigmática.
Vista assim, em alguns dos seus aspectos relevantes, a controvérsia sobre paradigmas, bem como teorias e paradigmas, ajuda a explicitar determinadas singularidades da sociologia como ciência social. São singularidades do maior interesse, por suas implicações epistemológicas e ontológicas. Vejamos quais são, em modo breve.
Primeiro, a sociologia pode ser considerada uma ciência que se pensa criticamente, todo o tempo. O sociólogo tanto produz interpretações substantivas como assume e desenvolve as suas contribuições, dúvidas, polêmicas. Há um debate metodológico freqüente não só nas entrelinhas e notas, mas também em escritos básicos de sociólogos das mais diversas tendências, passados e contemporâneos. Em boa medida, as polêmicas sustentadas por Marx, Durkheim, Weber, Lukács, Gramsci, Wright Mills, Gouldner, Barrington Moore Jr., Gurvitch, Merton., Adorno, Popper, Habermas e outros têm algo, ou muito, a ver com o marxismo. E retomam ou iniciam discussões da maior importância sobre o objeto e o método da sociologia.
Segundo, cabe reconhecer que o objeto da sociologia é a realidade social em movimento, formação e transformação. Essa realidade é alheia e interna à reflexão. O objeto e o sujeito do conhecimento distinguem-se e confundem-se. Há todo um complexo exorcismo em toda interpretação, explicação ou compreensão dessa reálidade. Ela é um ser do qual o sujeito participa, em alguma medida, pelo universo de práticas, valores, ideais, fantasias. Simultaneamente, é um ser em movimento, modificação, devir; revolução. Desafia todo o tempo o pensamento, como algo conhecido e incógnito, transparente e opaco. Estava no passado e está no presente, -mesmo e diferente.
Terceiro, a sociologia é uma forma de autoconsciência científica da realidade social. Tem raízes nos impasses; problemas, lutas e ilusões que desafiam os indivíduos, grupos, classes, movimentos, partidos, setores, regiões e a sociedade como um todo. É claro que as fórmulas dos sociólogos são individuais. Há aqueles que reconhecem alguma, ou muita, relação entre as suas reflexões e o jogo das forças sociais, grupos, classes etc. Toda produção sociológica aparece identificada com um nome, autor, escola, instituição, centro, instituto. Mas a sociologia do conhecimento já avançou o suficiente para revelar, a uns e outros, que o pensamento sociológico guarda uma relação complexa e essencial com as condições de existência social, ou configurações sociais de vida, de setores, grupos, classes ou a sociedade como um todo. E quando se torna possível reunir produções sociológicas de orientação teórica semelhante, logo resulta a idéia de estilo de pensamento, ou visão do mundo.
Quarto, o desafio permanente e reiterado diz respeito à relação entre ciência e arte, teoria e técnica, conhecimento e poder ou teoria e prática. O pensamento sociológico clássico, da passagem do século e contemporâneo, sempre tem algo a ver com a prática, tanto em sua origem como em seu destino. Daí o longo debate sobre a busca da isenção, neutralidade, distanciamento ou vocação da sociologia. Esse é um desafio permanente na história do pensamento sociológico. Está no centro da polêmica contemporânea simbolizada nos escritos de Adorno e Popper. “A controvérsia que divide hoje positivistas e dialéticos refere-se, sobretudo em seu núcleo, às finalidades práticas do estudo, a seus respectivos interesses em modificar a realidade social, que é o que orienta os seus trabalhos teóricos e o que determina, no fundo, as suas metodologias diferentes” (Baier, 1969, p. 12).
Quinto, na sociologia, o sujeito do conhecimento é individual e coletivo. O sociólogo naturalmente dispõe de todas as condições para estabelecer o seu objeto de estudo. É evidente o estilo pessoal do autor no escrito, na interpretação. Mas uma leitura mais atenta logo indicará o diálogo, o engajamento, a reciprocidade, implícita ou explicitamente, do autor com este ou aquele setor social, grupo, instituição, classe, movimento, partido, corrente de opinião pública, sociedade. São freqüentes as obras de sociologia que expressam um autor e uma configuração, um eu e um nós, um sujeito simultaneamente individual e coletivo do conhecimento. É daí que nasce o pathos de algumas obras fundamentais da sociologia.
Notas

1 – Ver, a respeito, Sorokin (1956), especialmente os capítulos 4 e 7 (N. do Ed.).
2 – Note-se que algumas reflexões de Merton sobre paradigmas na sociologia estão inspiradas em Kuhn.
3 – Consultar também, a esse respeito, Mills (1975). 4 – Ver, também, a respeito, Mannheim (1953) e Blumer (1956).
5 – O mesmo problema é examinado por Elster (1979).

Os jovens do seculo XXI – Análise Sociologica

Os jovens do seculo XXI – Análise Sociologica

O que se espera dos jovens enquanto cidadãos mudou ao longo dos tempos. Durante a ditadura do Estado Novo a educação regia-se pelo conceito de um bom cidadão. Não se esperava dos jovens mais do que uma acção conformada com a hierarquia social estabelecida, de obediência e subserviência. Não é demais lembrar dos movimentos anti-ditadura que se geraram sobretudo entre os jovens universitários, tendo alguns destes jovens enveredado pela carreira politica após o 25 de Abril. No periodo pós 25 de Abril a educação generalizou-se no seu papel de incluir todos os jovens independentemente da sua origem social num curriculo que valorizou sobretudo o cidadão activo e competente, focando-se o objectivo da formação pessoal e social dos alunos. No ultimos anos, sobretudo por volta do fim do seculo XX e inicio do seculo XXI, valoriza-se a formação da cidadania, tendo-se como objectivo a formação civica procurando incutir os valores da tolerância e partilha, da solidariedade, numa sociedade que está muito voltada para o individualismo e consumismo.
Mas que importância tem a escola para os jovens do seculo XXI? Verifica-se que a escola assume para eles sobretudo (97%) o valor da socialização. Portanto, há que entender a importância que a escola tem na formação de amizades. A funcionalidade e o realismo são conceitos vigentes da sua natureza social. Aquilo que funciona e é realista é o que conta para estes jovens que consideram que a escola lhes ensina conhecimentos importantes, e com isso se conformam. Consideram ainda que a ética do consumo exige que se trabalhe para ter dinheiro. Escola e emprego são as insitutições que mais reconhecem, são os seus valores. A familia é outra insituição que reconhecem como importante. E julgam a saida da casa familiar com a organização da sua vida futura conjugal, onde o amor é o mais importante neste cenário, sendo o divórcio aceitável quando deixa de existir amor. O seu conformismo não lhes permite efectuar grandes mudanças no papel de Homem e Mulher na sociedade, sobretudo na distribuição das tarefas domesticas e acesso ao trabalho. No que diz respeito á sexualidade, verifica-se que a iniciação sexual é cada vez mais precoce e tem lugar com amigos ou namorados, sendo entre os seus pares onde encontram apoio na sua educação sexual, tendo papel menor a escola e a familia.
É curioso verificar que estes jovens do seculo XXI tenham um grande distanciamento face á politica e associativismo, embora o associativismo recreativo assuma uma proporção um pouco maior. Quando a escola e a sociedade quer fomentar estes valores, eis que os jovens parecem não dar-lhe importância. Mas se a propria sociedade adulta rejeita estes valores é dificil fomentá-los nos jovens. O individualismo e o consumismo são mesmo os grandes valores actuais. Embora haja uma pequenissima percentagem de individuos a lutar por grandes causas.
Há de resto uma pequena percentagem de jovens que escapam a este quadro social já traçado. São os que seguem as vias da marginalidade, os que optam pelas drogas, como evasão, o fenomeno da gravidez na adolescencia, como fruto de falta de informação ou simplesmente falta de adesão ás regras de uma sexualidade segura, ou comportamentos agressivos e violentos que podem surgir em raves ou em simples graffites.
Sem fazer julgamentos, pode-se concluir que os jovens de hoje são mais realistas no que diz respeito á sua posição enquanto cidadãos, assumindo um papel mais conformista nas suas aspirações relativas ao acesso ao mercado de trabalho, considerando a escola sobretudo como fonte dos afectos, e tendo um afastamento em relação ás grandes questões como a politica e a cidadania. São sobretudo consumistas e individualistas, e dir-se-á que lhes falta um pouco de sonho na sua aspiração em relação ao futuro. Mas ao valorizarem tanto as relações sociais com a sua rede de amizades que encontram na escola, e o amor nas suas relações amorosas, pode-se dizer que são jovens cheios de afecto em função do qual regulam as suas vidas, e é como tal que devem ser entendidos.

Sociologia para jovens do século XXI

Lançamento do Livro “Sociologia para jovens do século XXI” na XIII Bienal do Livro
Neste sábado, dia 15 Set 09, às 17h, o livro “Sociologia para jovens do século XXI” será lançado na XIII Bienal do Livro, que se realiza no Riocentro (Rio de Janeiro-RJ), no stand da Ed. Ao Livro Técnico, n. 157, Pavilhão Azul.
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 620 outros seguidores